DESMANDOS & IMPROPÉRIOS DA NOSSA PRAÇA
Já ninguém lê jornais. Nas bibliotecas sobram intactos; nos cafés acumulam-se dobrados na prateleira das inutilidades. E aparte isto, só quem é mesmo obrigado a lê-los o faz: empresários das agências funerárias, jornalistas, anunciantes, famílias dos defuntos, autarcas e demais políticos envolvidos nos eventos democráticos (do poder). Enfim, a quadrilhice noticiosa passou do mórbido ao moribundo.
Causas? Infinitas e incontáveis. Mas sobretudo porque os tempos que correm não estão para tretas, ainda que de meias tintas sejam – ou em directo. O mundo pula e solavanca (e nós com ele, no pára-arranca), ditando-nos quanto de filosofal a pedra está mais que gasta.
É certo que alguns cafés resistentes, para desfastio da clientela, continuam a comprar este ou aquele título em cujas capas a cor melhor condiz com a decoração do estabelecimento, principalmente desportivos, a que se possam aproveitar além das boutades nos relatos, também os números antigos para limpar as vidraças. Esporadicamente são inclusive notícia, as ditas casas ou seus mui digníssimos frequentadores, alguns até célebres e destacáveis por isto e aquilo, colunáveis e informadores situacionistas, aliviando encargos às tribos aficionadas, mas daquilo sabendo muitos embora que disto já nem tantos, o que desvalorizam impreterivelmente se algum congénere concorrente teve honras radiofónicas ou televisivas. Porque aí sim, ficam abespinhados e ressentidos, sentem-se vítimas da descida de escalão, passando para a divisão local do preto e branco, onde nem federado se precisa de ser para se ficar com fama de Zé-ninguém. Então aferram-se à tradição e embirram com os progressismos, todos eles, mesmo os penteados coloridos ou as mini-saias, e passam a cultivar um inaudito desdém pelo mundo e ao que nele acontece, a que costumam chamar de “só desgraças” de enfeite aos fait divers políticos, reflectindo em teoria quanto a prática jornalística lhes fornece enlatado pela indústria noticiosa, agências obreiras de separar o interessante do incensurável politicamente correcto, joeirando dos factos os que o são mais e/ou nem tanto.
Ou opinião. Fantasias das mentes desocupadas onde a má fé se faz verbo, quase sempre de borla, maniqueísta, eivado de restrito esclarecimento e motivada percepção. Opinião irremediavelmente partidária ou anti-partidária, redundante, assertiva (asservada e graxista), pistoleira, bandeirolas, encharcada de clichés, requentada e eco dos debates televisivos, esvaziada de propostas semânticas construtivas ou de discursos cooptantes. Maçuda e altaneira. Recadeira ou paliativa. De manifesto esconde-esconde e agarra-agarra criancista. Fleumática e arruaceira. Arrivista e intencional, e que serve sobretudo de patamar promocional de carreiras. E políticos.
Ora o resultado desta inconsistência da imprensa (nacional, regional e local), desta abdicação conivente progressiva dos jornais dos projectos de desenvolvimento urbano sustentado, reflecte-se acentuadamente nas zonas interiores mais desfavorecidas, onde o vigor do tecido empresarial e do mercado é menor, e os rigores das crises superiormente se sentem. Como por exemplo, em Portalegre, onde em anos anteriores, já quase de remoto espectro, houve alguns festivais de impacto cultural, entre os quais o Internacional de Cinema, o de Ambiente, Som e Imagem ou Internacional de Teatro, mas que pereceram definitivamente, arrastando consigo todo o esforço financeiro despendido nas suas edições iniciais para a vala do desperdício, da qual jamais sairá para vergonha dos políticos que roubaram essa verba às bocas esfomeadas, sem saúde, educação, casa e cultura, contabilizadas em mais de um terço da nossa população. Investimentos indubitavelmente irrecuperáveis, excepção feita ao Festival Internacional de Teatro, que é o primeiro ano que falha desde que começou, por circunstâncias adversas múltiplas, que se circunscrevem nas dificuldades operativas ao nível das instalações e acessibilidades, em virtude das obras na Igreja de Santa Clara, sua residência fixa, como nas circundantes à Igreja de S. Francisco, espaço provisório onde se tem instalado ultimamente a Companhia de Teatro e Portalegre, organizadora e promotora do evento, como a nível financeiro, capítulo onde ainda não foram saldadas algumas dívidas contraídas nas anteriores edições, ou no corte dos complementos honorários aos subsídios requeridos pelos projectos que se apresentam, verba imprescindível para cobrir as despesas de deslocação, permanência e alojamento dos grupos de teatro nacionais e estrangeiros que nele, Festival Internacional de Teatro, actuem e participem.
Sobretudo porque esta imprensa salamelequeira se restringiu à cobertura política dos eventos, em vez de divulgar, criticar e analisar obras e autores, encenações e actuações, estimulando assim públicos e bilheteiras, patrocínios e mecenatos, que são a única forma de garantir a sustentabilidade das artes do espectáculo, qualquer que ele seja, promovendo receitas e não esmolas institucionais, também conhecidas por subsídios, e dos quais se insiste dependerem.
São a rejeição e indiferença as principais armas dos fracos, pobres de espírito e miseráveis. Mas quando estas são arremessadas sobre o desenvolvimento regional (e nacional), com a desculpa da actualidade e do interesse jornalístico, assumem uma perversão e malignidade inimagináveis, à semelhança do que vem sendo feito a propósito da novela marcelista no outono governamental laranja. Esquecidos estes filósofos da ejaculação precoce, arautos da maledicência e do esclavagismo comunicativo, impotentes para modificar o olhar perante as evidências moleculares do desenvolvimento sustentado, de que as funções específicas da imprensa regional (Decreto-Lei nº 106/88, de 31 de Março) são as de a) promover a informação respeitante às suas regiões, b) contribuir para o desenvolvimento da cultura e identificação regional através do conhecimento e compreensão do ambiente social, político e económico das regiões e localidades bem como promover as suas potencialidades, e d) contribuir para o enriquecimento cultural e informativo das comunidades regionais e locais, bem como para a ocupação dos seus tempos livres, aproveitam igualmente a embalagem para especular a-propósito dos agendamentos eleitorais, metendo a carreta à frente dos bois, preferindo adubar o suspense com os nomeáveis ao óscar presidencial, numa rotina de casa da sorte mas azar nosso e de quem a trabalhar promete enfileirar nas cortinas do futuro, é tributável e não abdica da cara que tem, mostrando-a sem qualquer vergonha a toda a gente, incluindo aos funcionários públicos que lhe consomem parasitariamente quanto descontam em IRS e IRC, a fazer render a pistoleirice do poder, cuja prática assenta no sempiterno "dispara primeiro e pergunta depois" dos cowboys bushianos, que tem sido a escola de boas maneiras democráticas dos nossos politiquinhos.
Com a retirada palaciana de Marcelo, eis que a manobra de diversão política forjada pelo PSD para iludir a vida pública portuguesa eclodiu de pleno, amenizando as tónicas da sustentabilidade e convergência, ao debate ou aprovação do Tratado Europeu e agravamento das assimetrias regionais, à falência e descalabro dos sistemas educativos, de saúde, segurança social, tributário e judicial, condicionando a actividade opositora do PS a permanecer num limbo de esperança bem-aventurosa, que o narcotiza e suspende, preferindo acoitar-se na perspectiva de que o governo cairá por si (de podre) e em consequência de um conflito interno no PSD, do que a fazer-lhe frente, e pagar para ver.
Por outro lado, ficou-se a saber (zangam-se as comadres, descobrem-se as verdades, como diz povo) que a censura é uma prática comum em todos os órgãos de comunicação social, e até naqueles que se denominam de independentes, descoberta do tipo pólvora prò fósforo, visto que todos nós, os que de alguma forma colaborámos e trabalhámos nela, o sabíamos e sofremos, mas que quando o dizíamos era menosprezado e, segundo alguns, até merecido, considerando que "o quem paga manda e quem recebe obedece" da prostituição intelectual é uma lei tradicional muito arreigada ao espírito comezinho português. Principalmente porque essa censura encapotada, praticada avulso por directores, proprietários, redactores, paginadores, colegas jornalistas, igrejas, autarcas e anunciantes, é o pão-nosso-de-cada-dia de quantos fazem opinião nos jornais e rádios da nossa república. O sal da terra. O único desafio motivador para neles escrever, que é o de fintá-la, ludibriá-la, contorná-la pelo dizer metafórico e das entrelinhas, visto que outro não pode haver, já que ninguém os lê, ninguém lhes dá crédito, nem eles pagam a quem quer que seja, que presunção e água benta cada um toma a que lhe convém e conselho se fosse coisa boa não se dava, vendia-se.
A importância do medo do lobo na unidade do rebanho é sobejamente conhecida dos sapiens pastorinhos da nossa espécie. Ao sobrevalorizar-se a opinião de Marcelo Rebelo de Sousa (MRS pròs mais pequeninos), alerta-se simultaneamente para o perigo que há num solitário à solta e de como ele pode, com o seu discurso e atitude de franco-atirador, estraçalhar a magnanimidade do rebanho PSD, quais cordeiros cavaquistas de santanas, a propósito dos quais o Oeste tem um mui digno ditado onde os ditos mais os santos e os santinhos não passam de uma cambada de sacanas. Jorge Sampaio, garante constitucional da nossa democracia, conhece-lhe efeito, como aliás toda a fauna cacarejante do paiol do rato, agora inquieta pelo calor (energia desconcentrada mas concertada) na aclamação em congresso da nova abelha-mestra, outro berlusconni dos pequeninos de consciente efeito na consciência da esquerda adormecida.
Todavia preferem calar-se uns e outros, ou dizendo o fazem por portas travessas com indirectas e tempo de antena governamental em horário nobre, a reboque do qual a oposição igualmente se pronuncia, demonstrando quanto tudo vai bem nos melhores dos reinos, não esclarecendo absolutamente ninguém acerca do que sabem do tabu MRS, pondo a render o peixe do silêncio ("tu que sabes e eu que sei, cala-te tu, que eu me calarei", como reza a lei fundamental do mundo do crime, apanágio da sã convivência entre mafiosos e trambiqueiros, qual código de honra do chico-espertismo nacional, ou tábua deontológica entre os filhos da mãe próspera e amarialvdo pai) cúmplice, essa faca traiçoeira de dois gumes, a pôr a coisa em pratos limpos e écrans asseados, e avisando a navegação interna que isto de ter bolinha ao centro é sinal e cautela, sobretudo depois que o povo reconheceu muito filosoficamente que "quem tem cu tem medo". De põe-te a pau,que anda prà'i muito comentador mal-intencionado.
Mas importa não esquecer que a censura mais praticada na nossa praça, é a da ditadura de estilo -- com ou sem cartilha (livro) dele. Normalmente começa por ser uma questão de espaço e de clareza ("escreva, escreva, mas não vá além dos 2000 caracteres e sem palavrões complicados", propõem-lhe benfazejos, sorridentes, e preocupados com as restrições e diminuta flexibilidade vocabulares dos seus leitores, alguns directores/redactores/editores dos pasquins da nossa predilecção), e acaba nos cortes de parágrafos e alterações para melhor se entender, ou simplesmente no excomungar do opinioso não lhe publicando os textos, tal como me sucedeu a mim num jornal afecto à igreja católica, após ter feito um artigo sobre o aborto em que não subscrevia a tomada de posição desta. À semelhança do que acontecia com as esposas dos senhores patriarcais, que não alcançando o orgasmo porque os seus maridos não lhos facilitavam em conseguir mas sim a satisfazer-se nelas, a aliviar-se, destruindo-lhes a auto-estima e amor próprio, convencendo-as até de que se não usufruíam prazer de uma relação sexual com eles, era porque seriam genitalmente disfuncionais, complicadas de cabeça, e o problema residia somente nelas, também os detentores de prelos, de estatutos editoriais ou proprietários, quando aquilo que o opinion maker escrevia não subscrevia as suas linhas de pensamento, ou doutorais de suas macrocefalias, se serviam de pormenores estilísticos (tamanho das frases, ritmo da linguagem, distribuição de palavras, repetição de termos, figuras de retórica e graus de subjectividade) para incutir no colunista o medo de ser corrido por não ser lido ou entendido, quando não satisfazia os propósitos feudais da cartilha (marialva). Castrando-lhe o estilo. Obrigando-o a abandonar ou submeter-se às regras pacóvias do catecismo editorial. Pondo-lhe as frases a ferros, entre clichés e lamechices, extorquindo-lhe toda e qualquer originalidade, possibilidade de êxito ou brilho que não lhe adviesse do privilégio de integrar a ficha técnica do órgão suserano.
O truque censório mais corrosivo, subtil e eficaz é o de nos convencerem que o defeito é nosso. Acima de tudo nosso e só nosso. Que se as audiências fracassam, se os projectos entram em falência, então a culpa é sempre dos operadores descartáveis, os menos imprescindíveis: os fazedores de opinião. Agora que Portugal inteiro ficou a saber que há censura entre nós, estou curiosíssimo para ver como é que os paus de galinheiro que durante os últimos 25 anos a praticaram, se vão desemerdar da realidade que criaram. Porque uma coisa é certa: quando um crime não é punido, e o transgressor ganha autoconfiança para repeti-lo, não só se está a instituir uma prática ilegal comum, como a aliciar os cumpridores da lei para o não fazerem, prometendo-lhe compensações futuras de hegemonia e fundamentalismos antidemocráticos, anti-republicanos e anticonstitucionais. Ou não?
A CHAGA CONTINUA...
Quando os nossos jornalistas transformaram as embalagens dos produtos culturais em notícias e confundiram o marketing com factos, mais não fizeram do que adulterar os conceitos de cultura, de desenvolvimento e de jornalismo, mudando para ser tudo aquilo que simplesmente parecia. E em consequência o atraso que actualmente verificamos em matéria científica, cultural e cognitiva deve-se-lhe integralmente. Foram sobretudo os órgãos de comunicação social, em Portugal, quem não desempenhou as funções que lhe estavam estatuídas. Grande parte do desprezo que as populações votam aos conteúdos desta natureza deve-se à maneira falseada e desprezível com que foi tratada pelos mass media nos últimos 50 anos. Como foi preterida pelo assuntos de lana caprina politiqueiras, telenovelescas e futeboladas do nosso (des)contentamento.
Ao aplicarem o 5WH nos acontecimentos deram deles somente a imagem daquilo que eles pareciam ser, atribuindo o protagonismo não aos factos e conteúdos em si, mas sim a quem os promovia e financiava. Por eles se promovia e a eles se acoplava. Segunda geração dos doutrinários dos três FFF (Fado, Fátima e Futebol), seguidistas subservientes do autoritarismo corporativista, apologistas da “massificação das massas”, lambe-botas dos anunciantes, lobbys almoçarantes e grupos económicos diversos, estiveram na linha da frente do progresso nacional, mas em vez de o facultarem, usaram-no em seu proveito próprio e exclusivo benefício, fomentando o esvaziamento cognitivo e artístico da sociedade portuguesa, outorgando apenas a algumas franjas académicas ou especialistas (com apanágio) da coisa cultural, como se ela não fosse parcela integrante e própria da natureza humana, comum a qualquer um da nossa espécie desde remotas e cavernosas eras, mas simplesmente atributo peculiar dos génios de eleição, estimulando a invenção de uma mentira social geradora de diferença, pervertendo a essência básica e fundamental do conhecimento: esbater as assimetrias e implementar o desenvolvimento.
A cáustica recusa de MRS em contar o que deveras se passou, em pretender que o silêncio fale mais alto que as palavras, à semelhança do que se espalhou acerca da fotografia pelos jornalistas que não sabiam escrever ou eram demasiado preguiçosos para o fazer, para quem que valia por mil palavras, é uma caganeirice muar habitualmente praticada por afectados paranóicos, dos quais se diz que amuam, confirmativa de quanto a pistoleirice também usa e cultiva o bluff, ou artifício da pólvora seca. Se há algo para ser dito, que se diga, visto que estamos numa democracia onde vigora (ainda) a constituição e os direitos do homem. Se não há, então que tal se admita de uma vez por todas e se acabe com medo de reconhecer que o rei vai nu. Que o comentador está a armar em fino, a fazer negaças de donzela que quer ser doneada mas sem doer muito.
(Haverá nos próximos capítulos algum desfecho não ficcional? Teremos que fingir ouvir quantos discursos mais de fugir à seringa? Haverá um Portugal diferente para cada português? Isto e outro tanto no próximo capítulo: não perca.)
Convite para partilhar caminhos de leitura e uma abertura para os mundos virtuais e virtuososos da escrita sem rede nem receios de censura. Ah, e não esquecer que os e-mails de serviço são osverdes.ptg@gmail.com ou castanhoster@gmail.com FORÇA!!! Digam de vossa justiça!
10.12.2004
10.11.2004
HORA OS COPOS
(SIGNOS BASTANTE SIGNIFICATIVOS)
Os desafortunados/as que tiveram a ousadia de desembestar no mundo sob a influência deste zurríaco, terão vida fácil e duradoura mas com história de pouca monta, a não ser que se socorram de substâncias mais afrodisíacas. Hão-de soletrar-se nas primeiras instâncias da literatura e subirão ao inferno sem passar pelo purgatório. Contrairão surrealidade até ao fígado e terão os tutanos a desfazer-se de ironia. Mas obrarão com desenvoltura e nunca esquecerão o seu temor à cornite aguda e mau olhado. E deles há-de ser a fama e a má-língua da plebe!
Totinegra Arrependida
(Nascidos em temporão)
Os trogloditas residentes desta casa astrolábica zurriacal têm os azimutes em baixo e os alqueires mal medidos. São deveras dados/as ao estrefenefe, regabofe e rambóia, mas quando motivados e na expectativa de uma substancial e erecta cenoura não resistem ao pau. Amantes das artes como do desporto praticam assiduamente um com as outras e estas desportivamente ou sem grandes bagatelas éticas e formais. Gostam de tudo o que mexe, vibra ou palpita, e quando isso pára (ou se aquieta) mobilizam-se com afinco para que assim não fique durante muito tempo. No dia seguinte tomam a pílula pois são contra o aborto, a reforma agrária e a piscicultura.
Raspadinhas com Prémio
(Nascidos em serôdio)
Do zurríaco são o bom ou melhor partido, se ainda inteiros e inteiras, cheias e desparasitados. Normalmente apetrechados de canudo e viatura própria são muito prestáveis e saborosos/as, sobretudo nas noites de insónia, hiper-actividade hemorroidal, comichões várias e erupções cutâneas furunculares – de preferência com gelo e limão. Se de dia, devem tomar-se com cautela e moderação, exclusivamente com água da rede (net ou telemóvel, embora a fixa também sirva), pois fazem óptima companhia mas mordem se açulados ou lhe provocam ciúmes. Pedigree afiançado e oriundos de boas famílias, não são atreitos a moléstias, grandes pensamentos e matemáticas complicadas; todavia, fazem óptima figura e não envergonham ninguém se se mantiverem em silêncio. Digerem mal as recusas e perante elas entram em depressão, crise de identidade e esgotamento, mas perdoam depressa e esquecem facilmente. Na carteira, jogo, amor e copos vão até à última gota, e depois pagam com o corpinho as dívidas contraídas.
Pé-de-Cabra com Pieira
(Nascidos algures em hora indefinida)
No amor os signatários desta sina além do pé ganham também outras partes dos corpo, sobretudo a cabeça e sua segregação pensante, se engrinaldada prò culto, pois que tão amigos do alheio se fizeram que quase de imediato houve alguém a pagar-lhes na mesma moeda, abrindo-lhes conta-corrente e rego no diz-que-disse mundano, principalmente em tascas, esquinas, patins, balaustradas, barbearias, praças de taxis e supermercados, entre outros covis de paupérrima fama, que antigamente se diziam mercearias e onde tudo era pesado à mão, mas onde hoje já ninguém pesa e a língua é servida a palmo.
Salgados & Comprometidos
(Nascidos com pormenor de planta e segundo)
Varão que nasceu debaixo desta sina há-de ser vadio, guloso, brejeiro e manhoso. Se fêmea virará varina reboluda, vermelhusca e anafada, com muito de seu mai-lo de quem a ela o quiser dar, vender, gretar ou emp®enhar. Quando se metem na política só param no parlamento, que é onde se pode comer bem, beber melhor e berrar à fartazana, sendo principescamente pago para tal, mas sempre bem montado (no partido – diz-se, e à portas fechadas). Que também tem telhados de vidro, todavia como ninguém consegue subir tão alto na carreira, é versão de gran suspeita e carecida de demonstração empírica.
Chouriços Cacholeiros
(Nascidos aos quartos de hora)
Os mastronços/as deste signo são uma porcaria com’aos demais, mas como são brancos, moles e tomam viagra para ir ai fumeiro, usam pele bronzeada, frequentam ginásios e ginásias, para ver as pindricas e pindéricas linhas uns dos outros, aderem que nem goma às novas tecnologias e jamais passarão das 50 flexões na Net. Normalmente desabafam antes do tempo e quando carregam o carro chamam pelo Gregório à força toda. Politicamente são radicais, e ou estão doentes ou pertencem ao Movimento. Não adormecem com facilidade desde que não estejam no serviço, e quando se cansam (ou envergonham) de ver as mãos sem fazer nada, metem-nas nos bolsos. Raramente usam chapéu, excepto se for de dois ou três bicos.
Tira Picos e Fura Bolos
(Nascidos às horas certas)
Os cromanhonos e cromanhonas deste signo sempre foram bafejados pela canabis e OH2Porro, vulgo “água da moca”, líquido de virtudes infimamente medicinais, de forma bastante diversa. Contudo, alguns ficarão simplesmente tantarantantans, enquanto outros impotentes ou frígidas. É provável que caminhem aos bordos nas bordas da ressaca, portanto aconselha-se que mal isso lhes suceda, o aplicarem de imediato a regra do código postal, que indica que repetir a dose é meio caminho andado no alcançar da salvação e estado de graça. São apologista do "iiiiih, agora não dá!!..." e costumam rematar todos argumentos com "mais nadas" sentenciosos ou demais frases feitas da moda. São maus de cópia, piores de originalidade mas plagiam na perfeição.
Banana Podre
(Nascidos aos vinte pràs certas)
Os celtiberos atreitos a existências sub-reptícias que tiveram a feliz enfermidade de aparecer no deus-dará da desdita sob este signo, serão uns felizardos invictos e apostróficos, por quanto nunca casarão ou concubinarão com criatura vistosa, arrendada ou por conta própria, glarba ou desenxovalhada, dado o seu respirar contundente, com hálitos activos e inequívocos, derramar sobre o meio as cinzas do seu vulcão interior putrefacto, mas também jamais serão corneados enquanto o diabo tira o cisco do olho. Se instados a exercer o seu charme fazem-no com prontidão e desenvoltura, pelo que comummentemente contratados pelas grandes empresas para receber (afastar) credores, atender reclamações, contactar com clientes indesejáveis.
Vade Retro e Contracurvas
(Nascidos às meias horas)
Australopitecos muito desportistas e competitivos, sempre prontos para mais uma, gostam de criar boa impressão em qualquer tipo e formato, mas preferem instituir-se primeiro entre crianças e idosos, supondo que estes são os que melhor admirem e gabem, com desmesura e abastança, o seu coquetismo traiçoeiro e sedutor. Raramente se recusam ao prazer dos outros e são capazes de gatinhar incansavelmente até atingir os propósito$, que afiambram como brinde e testemunho do seu profissionalismo, ou defendem da gula alheia com magnum honor, vociferando lambuzados o “é meu, muito meu, todo meu, só meu e não o dou a ninguém” da tragédia popular em quatro cacos “Ora ponha aqui o seu geladinho”. Reagem mal às contrariedades do dia a dia, pelo que ficam normalmente indispostos e com ventas e penico.
Pavão Depenado
(Nascidos de um engano TMG)
Os figurões e figurinas desta moita são filhos dum pulo de cerca que se deveu acima de tudo ao hábito dos seus progenitores frequentarem os lugares errados a más horas. Peritos em não seis, não comento e não me comprometam, costumam apostar na carreira para evitar atrasos nas contas, períodos e tabelas, embora raramente o consigam. Normalmente enfarpelados nos rigores académicos e boémios, são moinantes de arribação e integram a vida moderna pela licenciosidade da formatura. Se são de cá vão para lá e se de lá vêm para cá, demonstrando que única constante da boa-vai-ela é a mudança, e no cumprimento do destino ao vaivém da vida. Todavia tendem a arrepender-se disso... – não obstante tarde e com sentidos pêsames, enquanto as famílias compungidas e enlutadas se demonstram estóicas e fadadas para o carregar a cruz (sem grande penha). Dançam bem, gostam de apertos e rebolam-se ao primeiro olhar.
Alhos Porros e Cepas Tortas
(Nascidos aos meios quartos de hora e/ou às certas e vinte)
Os energúmenos indígenas desta tribo zurrismal e que tiveram o despautério de nesta casa astral zurrar pela primeiríssima vez em vernáculo lagóia, hão-de ser bem sucedidos na arte de (en)cantar, catar e contar loas aos mais tansos que eles. Desde cedo assumirão o seu papel de líderes da trambiquice, no entanto de entre eles alguns recuperarão a inocência perdida, que aplicarão com criatividade em profissões de alto risco (para a fé e salvação) como design, manequins de alta costura, marketing e publicidade. Infelizmente os restantes devem enveredar pelas alas do “penso rápido e seco depressa” sucumbindo às maravilhas do exctasie. Salvo os que morrerem novos todos os outros falecerão apenas quando tiver quer ser ou não tiverem outro remédio. (Paz à sua alma e os nossos sentimentos às famílias contritas e circunspectas… A astrologia é uma ciência humanista, crente e abnegada!)
Gigélia Cheirosa
Cartomante encartada
(SIGNOS BASTANTE SIGNIFICATIVOS)
Os desafortunados/as que tiveram a ousadia de desembestar no mundo sob a influência deste zurríaco, terão vida fácil e duradoura mas com história de pouca monta, a não ser que se socorram de substâncias mais afrodisíacas. Hão-de soletrar-se nas primeiras instâncias da literatura e subirão ao inferno sem passar pelo purgatório. Contrairão surrealidade até ao fígado e terão os tutanos a desfazer-se de ironia. Mas obrarão com desenvoltura e nunca esquecerão o seu temor à cornite aguda e mau olhado. E deles há-de ser a fama e a má-língua da plebe!
Totinegra Arrependida
(Nascidos em temporão)
Os trogloditas residentes desta casa astrolábica zurriacal têm os azimutes em baixo e os alqueires mal medidos. São deveras dados/as ao estrefenefe, regabofe e rambóia, mas quando motivados e na expectativa de uma substancial e erecta cenoura não resistem ao pau. Amantes das artes como do desporto praticam assiduamente um com as outras e estas desportivamente ou sem grandes bagatelas éticas e formais. Gostam de tudo o que mexe, vibra ou palpita, e quando isso pára (ou se aquieta) mobilizam-se com afinco para que assim não fique durante muito tempo. No dia seguinte tomam a pílula pois são contra o aborto, a reforma agrária e a piscicultura.
Raspadinhas com Prémio
(Nascidos em serôdio)
Do zurríaco são o bom ou melhor partido, se ainda inteiros e inteiras, cheias e desparasitados. Normalmente apetrechados de canudo e viatura própria são muito prestáveis e saborosos/as, sobretudo nas noites de insónia, hiper-actividade hemorroidal, comichões várias e erupções cutâneas furunculares – de preferência com gelo e limão. Se de dia, devem tomar-se com cautela e moderação, exclusivamente com água da rede (net ou telemóvel, embora a fixa também sirva), pois fazem óptima companhia mas mordem se açulados ou lhe provocam ciúmes. Pedigree afiançado e oriundos de boas famílias, não são atreitos a moléstias, grandes pensamentos e matemáticas complicadas; todavia, fazem óptima figura e não envergonham ninguém se se mantiverem em silêncio. Digerem mal as recusas e perante elas entram em depressão, crise de identidade e esgotamento, mas perdoam depressa e esquecem facilmente. Na carteira, jogo, amor e copos vão até à última gota, e depois pagam com o corpinho as dívidas contraídas.
Pé-de-Cabra com Pieira
(Nascidos algures em hora indefinida)
No amor os signatários desta sina além do pé ganham também outras partes dos corpo, sobretudo a cabeça e sua segregação pensante, se engrinaldada prò culto, pois que tão amigos do alheio se fizeram que quase de imediato houve alguém a pagar-lhes na mesma moeda, abrindo-lhes conta-corrente e rego no diz-que-disse mundano, principalmente em tascas, esquinas, patins, balaustradas, barbearias, praças de taxis e supermercados, entre outros covis de paupérrima fama, que antigamente se diziam mercearias e onde tudo era pesado à mão, mas onde hoje já ninguém pesa e a língua é servida a palmo.
Salgados & Comprometidos
(Nascidos com pormenor de planta e segundo)
Varão que nasceu debaixo desta sina há-de ser vadio, guloso, brejeiro e manhoso. Se fêmea virará varina reboluda, vermelhusca e anafada, com muito de seu mai-lo de quem a ela o quiser dar, vender, gretar ou emp®enhar. Quando se metem na política só param no parlamento, que é onde se pode comer bem, beber melhor e berrar à fartazana, sendo principescamente pago para tal, mas sempre bem montado (no partido – diz-se, e à portas fechadas). Que também tem telhados de vidro, todavia como ninguém consegue subir tão alto na carreira, é versão de gran suspeita e carecida de demonstração empírica.
Chouriços Cacholeiros
(Nascidos aos quartos de hora)
Os mastronços/as deste signo são uma porcaria com’aos demais, mas como são brancos, moles e tomam viagra para ir ai fumeiro, usam pele bronzeada, frequentam ginásios e ginásias, para ver as pindricas e pindéricas linhas uns dos outros, aderem que nem goma às novas tecnologias e jamais passarão das 50 flexões na Net. Normalmente desabafam antes do tempo e quando carregam o carro chamam pelo Gregório à força toda. Politicamente são radicais, e ou estão doentes ou pertencem ao Movimento. Não adormecem com facilidade desde que não estejam no serviço, e quando se cansam (ou envergonham) de ver as mãos sem fazer nada, metem-nas nos bolsos. Raramente usam chapéu, excepto se for de dois ou três bicos.
Tira Picos e Fura Bolos
(Nascidos às horas certas)
Os cromanhonos e cromanhonas deste signo sempre foram bafejados pela canabis e OH2Porro, vulgo “água da moca”, líquido de virtudes infimamente medicinais, de forma bastante diversa. Contudo, alguns ficarão simplesmente tantarantantans, enquanto outros impotentes ou frígidas. É provável que caminhem aos bordos nas bordas da ressaca, portanto aconselha-se que mal isso lhes suceda, o aplicarem de imediato a regra do código postal, que indica que repetir a dose é meio caminho andado no alcançar da salvação e estado de graça. São apologista do "iiiiih, agora não dá!!..." e costumam rematar todos argumentos com "mais nadas" sentenciosos ou demais frases feitas da moda. São maus de cópia, piores de originalidade mas plagiam na perfeição.
Banana Podre
(Nascidos aos vinte pràs certas)
Os celtiberos atreitos a existências sub-reptícias que tiveram a feliz enfermidade de aparecer no deus-dará da desdita sob este signo, serão uns felizardos invictos e apostróficos, por quanto nunca casarão ou concubinarão com criatura vistosa, arrendada ou por conta própria, glarba ou desenxovalhada, dado o seu respirar contundente, com hálitos activos e inequívocos, derramar sobre o meio as cinzas do seu vulcão interior putrefacto, mas também jamais serão corneados enquanto o diabo tira o cisco do olho. Se instados a exercer o seu charme fazem-no com prontidão e desenvoltura, pelo que comummentemente contratados pelas grandes empresas para receber (afastar) credores, atender reclamações, contactar com clientes indesejáveis.
Vade Retro e Contracurvas
(Nascidos às meias horas)
Australopitecos muito desportistas e competitivos, sempre prontos para mais uma, gostam de criar boa impressão em qualquer tipo e formato, mas preferem instituir-se primeiro entre crianças e idosos, supondo que estes são os que melhor admirem e gabem, com desmesura e abastança, o seu coquetismo traiçoeiro e sedutor. Raramente se recusam ao prazer dos outros e são capazes de gatinhar incansavelmente até atingir os propósito$, que afiambram como brinde e testemunho do seu profissionalismo, ou defendem da gula alheia com magnum honor, vociferando lambuzados o “é meu, muito meu, todo meu, só meu e não o dou a ninguém” da tragédia popular em quatro cacos “Ora ponha aqui o seu geladinho”. Reagem mal às contrariedades do dia a dia, pelo que ficam normalmente indispostos e com ventas e penico.
Pavão Depenado
(Nascidos de um engano TMG)
Os figurões e figurinas desta moita são filhos dum pulo de cerca que se deveu acima de tudo ao hábito dos seus progenitores frequentarem os lugares errados a más horas. Peritos em não seis, não comento e não me comprometam, costumam apostar na carreira para evitar atrasos nas contas, períodos e tabelas, embora raramente o consigam. Normalmente enfarpelados nos rigores académicos e boémios, são moinantes de arribação e integram a vida moderna pela licenciosidade da formatura. Se são de cá vão para lá e se de lá vêm para cá, demonstrando que única constante da boa-vai-ela é a mudança, e no cumprimento do destino ao vaivém da vida. Todavia tendem a arrepender-se disso... – não obstante tarde e com sentidos pêsames, enquanto as famílias compungidas e enlutadas se demonstram estóicas e fadadas para o carregar a cruz (sem grande penha). Dançam bem, gostam de apertos e rebolam-se ao primeiro olhar.
Alhos Porros e Cepas Tortas
(Nascidos aos meios quartos de hora e/ou às certas e vinte)
Os energúmenos indígenas desta tribo zurrismal e que tiveram o despautério de nesta casa astral zurrar pela primeiríssima vez em vernáculo lagóia, hão-de ser bem sucedidos na arte de (en)cantar, catar e contar loas aos mais tansos que eles. Desde cedo assumirão o seu papel de líderes da trambiquice, no entanto de entre eles alguns recuperarão a inocência perdida, que aplicarão com criatividade em profissões de alto risco (para a fé e salvação) como design, manequins de alta costura, marketing e publicidade. Infelizmente os restantes devem enveredar pelas alas do “penso rápido e seco depressa” sucumbindo às maravilhas do exctasie. Salvo os que morrerem novos todos os outros falecerão apenas quando tiver quer ser ou não tiverem outro remédio. (Paz à sua alma e os nossos sentimentos às famílias contritas e circunspectas… A astrologia é uma ciência humanista, crente e abnegada!)
Gigélia Cheirosa
Cartomante encartada
9.30.2004
NEW KITSCHENET
Hoje caprichei na ementa:
Fiz smilles de souflé
Com emotions a acompanhar.
É que já ninguém abraça de puré
Nem põe beijos a fritar!
NÃO HÁ CRIME NO ANOITECER
Caprichadas de silêncio antecipado
As palavras do lago plenas de sigilo
Constrangidas pelo parado das águas
Reflectem: são pausas, folhas, paus
Retratos invertidos de quem passa.
Ao fundo a cidade lança seu soslaio de Sé
Entre as góticas frondes verdes do jardim
Nas vésperas de um outono que se esqueceu
De cumprir o calendário das estações.
E granito antes das rosas; cal, sempre cal, após elas.
Mas a espraiar-se no lusco-fusco o ocaso
Distancia-se imaginável por detrás do casario
Apenas enraivecendo
Irisando
Apodrecendo de laranja o horizonte azul.
É preciso reconhecer o privilégio de estar só
Ser ínfimo perante a grandeza do dia
Para escutar a lentidão da luz a esvanecer-se
A dissolver o intermitente negro sobre o céu
No curvilíneo e estonteante esvoaçar das andorinhas.
Na planura quieta do espelho a água
Esverdeia pouco a pouco de anoitecendo.
Não serve de nada fingir que a tarde tarda
Nem lembrar porque se esqueceu o meio-dia.
Não está certo sermos quem não somos
Ou esconder o rosto nas sombras do querer ser:
A frescura da luz que refresca está em si
Mesma e igual é esta cinza de aço baço
Como mapa de sonoridades caladas por descobrir.
Ouvir-me na luz que se esconde não é crime
Nem pedir palavras aos silêncios antecedidos,
Porque escorrendo as sombras são apenas sombras
Nadas incapazes de sobrecarregar os espectros temidos.
Esplanada de "O Tarro", 30.10.04 - 19:20 horas
"INDEFERIDO!!..."
só quando me esqueço de ser sou quem sou
e não o outro que caminha a ver-se acompanhado
de si mesmo lado a lado fintando as sombras:
- Não, não peças silêncio às luzes da cidade
que lançam seus olhos de noite de rua em rua!
CARAMELO EM LEITE CREME
Permito-me compreender quem és
Arrisco-me a ser outro no agora
Aqui dos sonhos por revestir de velas
Mágoas, anseios, crenças, ilusões, pés.
Permito-me ser 59 minutos da tua hora...
Mas quando aí caído entregue todo assim
Eis-me permitido mas perdido sem mim,
Pois naquele minuto único só queres olhar as estrelas!
ZÁS!
A terra é redonda. Pimba!
E o sol está de veludo
Escoando-se no limiar das horas.
Creio no todo-poderoso imenso líquido
Que me animala os ossos e o teu ventre.
Sejamos cruéis como somente nós
E desenhemos nas transversais abertas
Pequenas soleiras onde os velhos gastem a bisca
Os dias e as pantufas são iguais, tal e qual
Recordando os tempos de guerra e senhas
(prò pão).
Ouvi dizer que me não amas - bem
Parva foste, esse direito era só teu.
Agora, será mais fácil suspender-me
Atirar-me de uma nota musical qualquer
Suicidar-me num assobio de rompante
Que procurar o ninho de teus (a)braços.
(São sinas; é prò pão!)
Num dos quadros da minha sala
Tenho um toquê que parece.
Se alguma mosca me atenteia
Ele Pula da Tela pla PaPá-la...
- Zás.
LIBRETO
Jamais seremos outros em nós mesmos
Que é posto a cada um o saber sabido,
Como se fôramos o ainda somos de sermos
Aquilo que apenas nós tivéramos crido.
Jamais esperaremos por nós em idos ermos
De calar a sofreguidão ao sonho tido,
Já que ser é um todo que se quer nos termos
De quem se não atém de rés e ao meio sentido.
Porque jamais o receio de ser nos fará calar
Esta sã certeza que cada um no outro tem
Em sermos somente nossos e de mais ninguém.
E da vida. Que se quer por nós representar
Ao haver-nos dado como exemplos da zarzuela
"La Cancion del Olvido", e a dor daquela!
A MISSIONÁRIA DO FUTURO
Estais ambos na vida.
És uma professora... E ele, um menino triste.
Então ensina-o. Ensina-o a amar-te.
A ver-te. A esperar-te.
E aí sentirás que ficou cumprida
A missão que em ti existe.
CULPA IMPERATIVA
Ignorando a ignorância
De quem caminha sobre o próprio corpo
Vai o cerne da tolerância
Ignorando como está morto.
Vai o epílogo, o fim.
Vai o exílio, o cabo.
Vai a cauda sem fim
Sem saber que começa no rabo.
Vai, como qualquer cantor de rua...
Vai, vai, vai sob o sol da sina tua.
Vai - vai! - na ignóbil estrada negra
Como quem desafia o atrito,
Como quem destila a regra
De corromper o próprio grito.
Vai o desejo, e na secura
Vai o fio (Ariane)infinito
Que liga o agora ao aqui,
Une o agora ao para ti.
Vai: repito! E repetindo esqueço
Que nem esquecer-te mereço!
VIAGEM DE ROTEIRO
(ENTRE FACTOS E CONJECTURAS)
Quis-me numa hora de recato
Saber-me a sonhar sem sentido.
Havia pedras, árvores e mato,
E uma charneca e um regato
Onde nunca tinha ido.
Era terra de remotos contornos
Com azeitonas, conservas e pão
Madeiras, resinas e vigas de betão;
Solos férteis e tempos mornos
Ao florir da esteva e manjericão.
Porém nesse sonho havia
Algo que me preocupava e impelia
Na urgência do magnético destino tido.
É que fora onde fora sem querer
Esquecendo-me aliás de dizer
Que eu também o houvera querido...
Pois o maior dos saberes dos mais antigos,
É o de entre conjecturas escolher
Que os "factus" são nossos amigos!
CONDOMÍNIO FECHADO
Há vozes intemporais na fluidez
Do líquido estar esquecido de nós?
O que se ouve murmurar antes e após
Do escorrer da solidão e languidez?
São cumplicidades morninhas do olhar
A fremir promessas, ânsias e segredos
Que nos iniciam na arte de interrogar
Aos porquês o por quê de nossos medos?
São inspirações de folha silvestre?
São inscrições de grafito rupestre?
São desalinhos no croquis do querer?
Não, são apenas gritos roucos na planície
Do ser impondo que de vez que se inicie
A flor, certidão inequívoca do "crer é poder".
1.
abrevia solidão como quem tece
a saga dum silêncio amortizado
a distância incendiada dos corpos
a alma indizível do desejo proferido:
ainda é hora. Tens a boca escolhida
nos lábios do tempo literal solícito
aberto, descosido, integral ao verbo
e és espera de quem se aporta e se alerta.
Contudo, nos esgares sucumbidos
desferes um coração que me acerta.
2.
podendo dizer por que calas os lábios
colados contra o tempo num só golpe
a destreza na planura intensa, língua vil
abre o ovo do silêncio, vá!, vá!, parte-o
assim com a gema do dizer inconformado:
sê exemplar. Escuta a luz silvestre
dança nos subúrbios do silêncio
desvenda o ventre ao umbigo da tarde.
Reconhece, que é bom ter amigos, desenhar
intempéries num sentimento possível
mudar o mundo e as consciências com eles
destroçar a nudez crua e anónima dos nomes.
É benéfico aventurar os nossos destinos
nos espelhos partidos em que nos consomes...
- mas não desistimos!
MILAGRE
Eu escrevia de borla para os jornais, e curei-me.
Graçazadeus!!... Aleluia, Senhor! Aleluia!!...
No próximo dia 9 de Outubro, no Restaurante Leitão, em Caia, realizar-se-á mais um encontro dos ex-alunos da Escola Industrial e Comercial de Portalegre, actual Escola Secundária de S. Lourenço, conforme o acontecido em anteriores anos. O preço de inscrição é de 30 euros e será homenageado o professor Duarte Lima, conhecido entre todos por professor Du. Os interessados podem fazer a marcação através do mail deste blog ou na loja da Mariazinha, no Centro Comercial Fontedeira, em Portalegre. Até lá, e saudações
Hoje caprichei na ementa:
Fiz smilles de souflé
Com emotions a acompanhar.
É que já ninguém abraça de puré
Nem põe beijos a fritar!
NÃO HÁ CRIME NO ANOITECER
Caprichadas de silêncio antecipado
As palavras do lago plenas de sigilo
Constrangidas pelo parado das águas
Reflectem: são pausas, folhas, paus
Retratos invertidos de quem passa.
Ao fundo a cidade lança seu soslaio de Sé
Entre as góticas frondes verdes do jardim
Nas vésperas de um outono que se esqueceu
De cumprir o calendário das estações.
E granito antes das rosas; cal, sempre cal, após elas.
Mas a espraiar-se no lusco-fusco o ocaso
Distancia-se imaginável por detrás do casario
Apenas enraivecendo
Irisando
Apodrecendo de laranja o horizonte azul.
É preciso reconhecer o privilégio de estar só
Ser ínfimo perante a grandeza do dia
Para escutar a lentidão da luz a esvanecer-se
A dissolver o intermitente negro sobre o céu
No curvilíneo e estonteante esvoaçar das andorinhas.
Na planura quieta do espelho a água
Esverdeia pouco a pouco de anoitecendo.
Não serve de nada fingir que a tarde tarda
Nem lembrar porque se esqueceu o meio-dia.
Não está certo sermos quem não somos
Ou esconder o rosto nas sombras do querer ser:
A frescura da luz que refresca está em si
Mesma e igual é esta cinza de aço baço
Como mapa de sonoridades caladas por descobrir.
Ouvir-me na luz que se esconde não é crime
Nem pedir palavras aos silêncios antecedidos,
Porque escorrendo as sombras são apenas sombras
Nadas incapazes de sobrecarregar os espectros temidos.
Esplanada de "O Tarro", 30.10.04 - 19:20 horas
"INDEFERIDO!!..."
só quando me esqueço de ser sou quem sou
e não o outro que caminha a ver-se acompanhado
de si mesmo lado a lado fintando as sombras:
- Não, não peças silêncio às luzes da cidade
que lançam seus olhos de noite de rua em rua!
CARAMELO EM LEITE CREME
Permito-me compreender quem és
Arrisco-me a ser outro no agora
Aqui dos sonhos por revestir de velas
Mágoas, anseios, crenças, ilusões, pés.
Permito-me ser 59 minutos da tua hora...
Mas quando aí caído entregue todo assim
Eis-me permitido mas perdido sem mim,
Pois naquele minuto único só queres olhar as estrelas!
ZÁS!
A terra é redonda. Pimba!
E o sol está de veludo
Escoando-se no limiar das horas.
Creio no todo-poderoso imenso líquido
Que me animala os ossos e o teu ventre.
Sejamos cruéis como somente nós
E desenhemos nas transversais abertas
Pequenas soleiras onde os velhos gastem a bisca
Os dias e as pantufas são iguais, tal e qual
Recordando os tempos de guerra e senhas
(prò pão).
Ouvi dizer que me não amas - bem
Parva foste, esse direito era só teu.
Agora, será mais fácil suspender-me
Atirar-me de uma nota musical qualquer
Suicidar-me num assobio de rompante
Que procurar o ninho de teus (a)braços.
(São sinas; é prò pão!)
Num dos quadros da minha sala
Tenho um toquê que parece.
Se alguma mosca me atenteia
Ele Pula da Tela pla PaPá-la...
- Zás.
LIBRETO
Jamais seremos outros em nós mesmos
Que é posto a cada um o saber sabido,
Como se fôramos o ainda somos de sermos
Aquilo que apenas nós tivéramos crido.
Jamais esperaremos por nós em idos ermos
De calar a sofreguidão ao sonho tido,
Já que ser é um todo que se quer nos termos
De quem se não atém de rés e ao meio sentido.
Porque jamais o receio de ser nos fará calar
Esta sã certeza que cada um no outro tem
Em sermos somente nossos e de mais ninguém.
E da vida. Que se quer por nós representar
Ao haver-nos dado como exemplos da zarzuela
"La Cancion del Olvido", e a dor daquela!
A MISSIONÁRIA DO FUTURO
Estais ambos na vida.
És uma professora... E ele, um menino triste.
Então ensina-o. Ensina-o a amar-te.
A ver-te. A esperar-te.
E aí sentirás que ficou cumprida
A missão que em ti existe.
CULPA IMPERATIVA
Ignorando a ignorância
De quem caminha sobre o próprio corpo
Vai o cerne da tolerância
Ignorando como está morto.
Vai o epílogo, o fim.
Vai o exílio, o cabo.
Vai a cauda sem fim
Sem saber que começa no rabo.
Vai, como qualquer cantor de rua...
Vai, vai, vai sob o sol da sina tua.
Vai - vai! - na ignóbil estrada negra
Como quem desafia o atrito,
Como quem destila a regra
De corromper o próprio grito.
Vai o desejo, e na secura
Vai o fio (Ariane)infinito
Que liga o agora ao aqui,
Une o agora ao para ti.
Vai: repito! E repetindo esqueço
Que nem esquecer-te mereço!
VIAGEM DE ROTEIRO
(ENTRE FACTOS E CONJECTURAS)
Quis-me numa hora de recato
Saber-me a sonhar sem sentido.
Havia pedras, árvores e mato,
E uma charneca e um regato
Onde nunca tinha ido.
Era terra de remotos contornos
Com azeitonas, conservas e pão
Madeiras, resinas e vigas de betão;
Solos férteis e tempos mornos
Ao florir da esteva e manjericão.
Porém nesse sonho havia
Algo que me preocupava e impelia
Na urgência do magnético destino tido.
É que fora onde fora sem querer
Esquecendo-me aliás de dizer
Que eu também o houvera querido...
Pois o maior dos saberes dos mais antigos,
É o de entre conjecturas escolher
Que os "factus" são nossos amigos!
CONDOMÍNIO FECHADO
Há vozes intemporais na fluidez
Do líquido estar esquecido de nós?
O que se ouve murmurar antes e após
Do escorrer da solidão e languidez?
São cumplicidades morninhas do olhar
A fremir promessas, ânsias e segredos
Que nos iniciam na arte de interrogar
Aos porquês o por quê de nossos medos?
São inspirações de folha silvestre?
São inscrições de grafito rupestre?
São desalinhos no croquis do querer?
Não, são apenas gritos roucos na planície
Do ser impondo que de vez que se inicie
A flor, certidão inequívoca do "crer é poder".
1.
abrevia solidão como quem tece
a saga dum silêncio amortizado
a distância incendiada dos corpos
a alma indizível do desejo proferido:
ainda é hora. Tens a boca escolhida
nos lábios do tempo literal solícito
aberto, descosido, integral ao verbo
e és espera de quem se aporta e se alerta.
Contudo, nos esgares sucumbidos
desferes um coração que me acerta.
2.
podendo dizer por que calas os lábios
colados contra o tempo num só golpe
a destreza na planura intensa, língua vil
abre o ovo do silêncio, vá!, vá!, parte-o
assim com a gema do dizer inconformado:
sê exemplar. Escuta a luz silvestre
dança nos subúrbios do silêncio
desvenda o ventre ao umbigo da tarde.
Reconhece, que é bom ter amigos, desenhar
intempéries num sentimento possível
mudar o mundo e as consciências com eles
destroçar a nudez crua e anónima dos nomes.
É benéfico aventurar os nossos destinos
nos espelhos partidos em que nos consomes...
- mas não desistimos!
MILAGRE
Eu escrevia de borla para os jornais, e curei-me.
Graçazadeus!!... Aleluia, Senhor! Aleluia!!...
No próximo dia 9 de Outubro, no Restaurante Leitão, em Caia, realizar-se-á mais um encontro dos ex-alunos da Escola Industrial e Comercial de Portalegre, actual Escola Secundária de S. Lourenço, conforme o acontecido em anteriores anos. O preço de inscrição é de 30 euros e será homenageado o professor Duarte Lima, conhecido entre todos por professor Du. Os interessados podem fazer a marcação através do mail deste blog ou na loja da Mariazinha, no Centro Comercial Fontedeira, em Portalegre. Até lá, e saudações
9.28.2004
Houve grande dificuldade em agraciá-lo, o que se agravou substancialmente nas exigências gráficas da nomenclatura, por parte do funcionário do registo civil. Dessas, e talvez porque o escrivão fosse acérrimo defensor dos jogos da sorte, do tipo totobola, em que a garantia de êxito expedicionário cai de dupla nas nossas mãos, e como hesitasse na postura ou impostura do hífen, para garantir-lhe perfeição onomástica, assestou-lhe com um portentoso bisado homófono, e caligrafou com esmerado empenho e mordedura aprimorada de língua, no livro dos wellcomes a este mundo, demonstrando que estava ali para servir os clientes sob o beneplácito pretexto funcionário da rés pública: Benvindo Bem-Vindo, em gótico garrafal e de bonito efeito.
«Apelidos: família da mãe?»
«Esmeralda», respondeu de pronto a avó.
«E do pai?»
«Incógnito», afiançou a mesma, respondendo em compenetrado e místico êxtase, a fim de inculcar algum ar de tradição à solenidade do momento.
Na falta de pai, a mãe e avó acataram o manuscrito com galhardia e decoraram-lhe o nome completo para futuras utilizações. Disseram-no ao ouvido do recém-nascido como quem segreda a localização dum tesouro salomónico ou o sésamo código de afortunado cofre. Soletraram-no diversas vezes de si para consigo, como quem reza a Santa Bárbara em vista de infernal trovoada, mas foi a veterana matriarca quem melhor legendou o momento, interpretando-o à luz do progresso da família e de como ele iria condicionar a posteridade dela.
«Até parece nome de fidalgo. Nós só temos dois», comentou Isabel Esmeralda para Madalena Esmeralda sua filha, e mãe do privilegiado rebento, rematando o considerando com a formulada mágica do seu contentamento: «Benvindo Bem-Vindo Esmeralda Incógnito. Isto sim, que é um nome!»
«Quando tiver dezoito anos há-de tirar a carta, mãe», vaticinou Madalena, a garantir que o nome era propício e prometia conduzir os destinos da estirpe das esmeraldas (perdidas).
«Pois há-de», confirmou a preciosa e precoce anciã, que aos trinta frescos já era avó e empresária de sucesso.
Começara na vida mais nova que a filha, mal fizera treze primaveras, numa sexta-feira de traições em que o pai a vendera por uma pipa de tinto à taberneira de Casal Parado, e esta a metera na cama do caixeiro viajante que lhe fornecia os brioches de que tanto gostava, e lhe transformavam cada pequeno almoço num ritual de prazer e bem-aventurança, inspirando-lhe os negócios para o resto do dia. Fora breve na iniciação, que o operador era de rompantes misteres e andava precisado de carne nova, a quem doessem as suas fracas posses, pois se atinha como macho dos antigos de muita parra e pouca uva, e sentia mais prazer na dor e no gemido do que no acto compartido.
(Excerto de AS PISTOLEIRAS E O BANDEIRINHAS, conto de actualidades primárias sem efeitos secundários, politécnicos e universitários)
«Apelidos: família da mãe?»
«Esmeralda», respondeu de pronto a avó.
«E do pai?»
«Incógnito», afiançou a mesma, respondendo em compenetrado e místico êxtase, a fim de inculcar algum ar de tradição à solenidade do momento.
Na falta de pai, a mãe e avó acataram o manuscrito com galhardia e decoraram-lhe o nome completo para futuras utilizações. Disseram-no ao ouvido do recém-nascido como quem segreda a localização dum tesouro salomónico ou o sésamo código de afortunado cofre. Soletraram-no diversas vezes de si para consigo, como quem reza a Santa Bárbara em vista de infernal trovoada, mas foi a veterana matriarca quem melhor legendou o momento, interpretando-o à luz do progresso da família e de como ele iria condicionar a posteridade dela.
«Até parece nome de fidalgo. Nós só temos dois», comentou Isabel Esmeralda para Madalena Esmeralda sua filha, e mãe do privilegiado rebento, rematando o considerando com a formulada mágica do seu contentamento: «Benvindo Bem-Vindo Esmeralda Incógnito. Isto sim, que é um nome!»
«Quando tiver dezoito anos há-de tirar a carta, mãe», vaticinou Madalena, a garantir que o nome era propício e prometia conduzir os destinos da estirpe das esmeraldas (perdidas).
«Pois há-de», confirmou a preciosa e precoce anciã, que aos trinta frescos já era avó e empresária de sucesso.
Começara na vida mais nova que a filha, mal fizera treze primaveras, numa sexta-feira de traições em que o pai a vendera por uma pipa de tinto à taberneira de Casal Parado, e esta a metera na cama do caixeiro viajante que lhe fornecia os brioches de que tanto gostava, e lhe transformavam cada pequeno almoço num ritual de prazer e bem-aventurança, inspirando-lhe os negócios para o resto do dia. Fora breve na iniciação, que o operador era de rompantes misteres e andava precisado de carne nova, a quem doessem as suas fracas posses, pois se atinha como macho dos antigos de muita parra e pouca uva, e sentia mais prazer na dor e no gemido do que no acto compartido.
(Excerto de AS PISTOLEIRAS E O BANDEIRINHAS, conto de actualidades primárias sem efeitos secundários, politécnicos e universitários)
9.22.2004
O estilo simples, directo e conciso, apregoado pela enorme maioria dos escribas da nossa praça, não existe, embora alguns deles intentem convencer-nos de que escrevem com rigor, sem adjectivos, em frases curtas e rudimentares (gramaticalmente falando: sujeito / predicado / complementos). O que é uma pura e descarada mentira! Sobretudo porque aquilo que eles conseguem sempre oferecer-nos, não é dar-nos a realidade factual mas a sua visão (dis/torcida) dela, entregando-nos a parte pelo todo, posto que as mais das vezes a dita seja a pior delas, ou aquela em que o seu enviesado e restrito vocabulário superiormente se nota.
Quando ainda no princípio do ano (entre Março e Junho) 2000 Carlos Augusto Lacerda edita em versão digital Miséria e Grandeza do Amor de Benedita, de João Ubaldo Ribeiro, muito antes que a edição em suporte papel viesse a estar disponível para o grande público, pondo o primeiro capítulo de borla e os restantes a pagar, ou quando Pedro Rosa Mendes faz a pré-publicação da sua Baía dos Tigres, e lhe atribui, não só uma paginação fragmentária cuja intencionalidade explícita é a de dar-lhe a semelhança e versatilidade das janelas de linkagem, mas também um mapa que proporciona a interactividade, facilitando assim que os leitores assumam e escolham percursos de conteúdo no âmago da estória, tal como quando Mário Prata se propõe escrever o primeiro livro on-line onde cada leitor pode espreitar o que o escritor vai escrevendo, intitulado Os Anjos de Badaró, e à medida que o faz, mas igualmente discutir com ele o enredo, a caracterização das personagens e adequação de cenários, desfechos e encadeamentos idiomáticos e universos imagéticos, está a dar-se início à complexidade digital de alcançar o estilo simples, directo e conciso pela primeira vez na história da literatura portuguesa!
Ou seja, são de tal forma infinitos os caminhos da senhora nossa língua, tão pejados de contraditórias formações, que até para se produzir o ideal de escrita, este se consiga cada vez mais a praticar menos esta, destruindo conceitos e figuras intocáveis, derivadas dos medievos pergaminhos, da retórica confabulativa, eivada dos efeitos secundários (poéticos e metafóricos) do discurso desviante, logo literário, que exigiam e impunham aos textos nunca eles serem o que em verdade eram, ou sendo-o, que o fossem com que ninguém visse, se apenas o lessem conforme as indicações sintácticas e semânticas enunciadas, retirando-lhe o esoterismo inicial que sem dúvida encerrariam, cuja descodificação estaria sempre e unicamente acessível a quem estivesse familiarizado com o “glossário” (regional ou específico) utilizado na sua barroca elaboração.
À semelhança do que acontece quanto à biodiversidade e sustentabilidade biológicas ou naturais, poderemos afirmar que é bastante mais útil à humanidade qualquer escaravelho banal e insignificante do que os mais bem pagos e sofisticados jogadores de futebol, porquanto os segundos nada produzem nem acrescentam de valorativo às espécies terrenas, mas antes pelo contrário muito destroem (ou destruem, conforme afiançam os purismos maníaco-depressivos dos gramáticos da lusofonia) ou ajudam a destruir, e aos primeiros a deligência e primor artístico é tão elevado, que até a bola com que brincam são eles que a fabricam, familiarmente conhecida pela maçã de bush – e que os escaravelhos nos perdoem. De onde se chegou ao fim da Era dos interesses avulsos individuais e parasitários. Perdeu-se o canto da cigarra e (re)nasceu o canto da formiga, da barata e do coleóptero. Dos que trabalham a palavra como obreiros de uma nova utopia. Dos que resistem às avalanches do descrédito na criação de um mundo melhor pela restauração do antigo. Dos que elaboram a sua diversão e sustento, clube, casa e família, com os frutos do quotidiano e gente que os rodeia, habitat e cultura emergente, por maiores merdas que estes sejam. Terminou a apologia do herói, do desbravador narcísico e megalómano, do que intenta dar novos universos ao universo das (palavras) apenas com a brutidade interior, para dar lugar à voz colectiva, quer local como global, representativa desse ser e estar, ser e fazer, ser e seres, que é a escrita que se partilha, mas não só na e para a leitura, como também na feitura, porquanto cada um pode criar com os seus, entre os seus e para todos, a qualquer hora e independentemente do lugar onde esteja.
Exactamente. Mas não apenas. Sobretudo porque em seu socorro acorreram as novas tecnologias da comunicação, apesar dos conservadorismos das pitonisas românticas nos quererem convencer que o cheiro do papel melhora os conteúdos, o apalpar das metáforas entesa os espíritos, o carregar com volumes bíblicos robustece os crânios e o devorar amarelecidas folhas nos engorda os tutanos da sapiência outonal com os santos ventos, ou flatulências celestiais e divinatórios. E principalmente se em conta tivermos que a única forma desejável e ecológica da transmissão de ideias e valores é a narrativa, que não pode ser peso para o abate de outros seres vivos, árvores e quejandos, sejam elas plantadas para isso ou não, tenham como destino o aliviar económico das opções sociais ou as fogueiras incendiárias das monoculturas, visto que nestas coisas da ficção, da lógica e da humanidade, não serão nunca os objectivos que justificam os meios, mas sim estes que reconhecem a validade dos fins, sendo parte integrante do engenho e arte, que o mesmo é dizer, que por mais bonita que seja a segunda, se separada estiver da racionalidade, sustentabilidade, utilidade e adequação do engenho, então nada vale, nada significa e ainda menos reconhecimento público tem.
Não obstante periga-lhe o futuro, e corre riscos de extinção a narrativa ficcionista, se não alterar a sua conduta face aos suportes e auditório que serve. Principalmente se se não apetrechar dos convenientes meios técnicos (e-book) para circular entre as gentes e os modos, estabelecendo uma nova apetência entre os que, por incrível que tal pareça, sempre lhe devotaram grande admiração mas foram solicitados por outras formas expressão, assaz cativantes e mais facilmente consumíveis: o cinema. O áudio visual e multimédia. Produtos esses que, quase sempre baseados em obras literárias de autores consagrados, os treinaram para a leitura rápida em écran, e os capacitou assim a ler para além do simples soletrar, fazendo-o parágrafo a parágrafo e não linha a linha como fariam se limitados a fazê-lo do papel, porquanto a rigidez e fixação deste formato, obriga os olhos a um esforço de adaptação, muitas vezes insuportável, como no caso das paginações em letra miúda e entrelinhamento apertado dos livros de bolso, onde a evolução da leitura se faz morosamente e com sacrifício, o que a onera em tempo e custos ou lhe dificulta a compreensão.
Porque o que está em causa já não é a morte do livro mas sim o fenecer das literaturas, sobretudo das que se veiculam através de línguas pouco utilizadas comercialmente, como o português, o holandês, o austríaco ou o russo. Até há pouco quase todos (editores, livreiros e alfarrabistas, autores, professores, críticos, tradutores, ensaístas, bibliotecários, linguistas, líricos, jornalistas e ardinas) se aperceberam e debruçaram sobre o problema (baixos índices de leitura, com crescente agravamento), mas ninguém se preocupou com a solução. Não houve cão nem gato que não bradasse aos céus a iletracia, incúria e desleixe das nossas gentes perante os principais instrumentos da nossa identidade cultural (língua e literatura), todavia não fizeram absolutamente nada para inverter o mar de crise em que durante anos e anos navegámos. Puseram-na a ferros no acordo ortográfico e ensino, criaram uma rede nacional de bibliotecas, patrocinaram programas de rádio e TV, instituíram-lhe um Instituto (português do livro e da leitura), inventaram motivações, subsídios e prémios vários, tiveram inclusive um nobel para poder figurar nos anais da universalidade, mas agir em conformidade e de maneira a alterar o actual status quo é mentira. Procuraram o problema e encontraram-no; deram-lhe honras de primeiro plano e fidalguia; mas quedaram-se pelo diagnóstico e análise dos sintomas, lamentos de velhos do Restelo e viagras das feiras do livro, embora jamais se tenham preocupado deveras em achar-lhe igualmente solução. Enfim, foram lusófonos até nisso: nos consertos de arame e peças piratadas para remediar o funcionamento de toda e qualquer engrenagem que se avarie – aquém e além mar!
Quando ainda no princípio do ano (entre Março e Junho) 2000 Carlos Augusto Lacerda edita em versão digital Miséria e Grandeza do Amor de Benedita, de João Ubaldo Ribeiro, muito antes que a edição em suporte papel viesse a estar disponível para o grande público, pondo o primeiro capítulo de borla e os restantes a pagar, ou quando Pedro Rosa Mendes faz a pré-publicação da sua Baía dos Tigres, e lhe atribui, não só uma paginação fragmentária cuja intencionalidade explícita é a de dar-lhe a semelhança e versatilidade das janelas de linkagem, mas também um mapa que proporciona a interactividade, facilitando assim que os leitores assumam e escolham percursos de conteúdo no âmago da estória, tal como quando Mário Prata se propõe escrever o primeiro livro on-line onde cada leitor pode espreitar o que o escritor vai escrevendo, intitulado Os Anjos de Badaró, e à medida que o faz, mas igualmente discutir com ele o enredo, a caracterização das personagens e adequação de cenários, desfechos e encadeamentos idiomáticos e universos imagéticos, está a dar-se início à complexidade digital de alcançar o estilo simples, directo e conciso pela primeira vez na história da literatura portuguesa!
Ou seja, são de tal forma infinitos os caminhos da senhora nossa língua, tão pejados de contraditórias formações, que até para se produzir o ideal de escrita, este se consiga cada vez mais a praticar menos esta, destruindo conceitos e figuras intocáveis, derivadas dos medievos pergaminhos, da retórica confabulativa, eivada dos efeitos secundários (poéticos e metafóricos) do discurso desviante, logo literário, que exigiam e impunham aos textos nunca eles serem o que em verdade eram, ou sendo-o, que o fossem com que ninguém visse, se apenas o lessem conforme as indicações sintácticas e semânticas enunciadas, retirando-lhe o esoterismo inicial que sem dúvida encerrariam, cuja descodificação estaria sempre e unicamente acessível a quem estivesse familiarizado com o “glossário” (regional ou específico) utilizado na sua barroca elaboração.
À semelhança do que acontece quanto à biodiversidade e sustentabilidade biológicas ou naturais, poderemos afirmar que é bastante mais útil à humanidade qualquer escaravelho banal e insignificante do que os mais bem pagos e sofisticados jogadores de futebol, porquanto os segundos nada produzem nem acrescentam de valorativo às espécies terrenas, mas antes pelo contrário muito destroem (ou destruem, conforme afiançam os purismos maníaco-depressivos dos gramáticos da lusofonia) ou ajudam a destruir, e aos primeiros a deligência e primor artístico é tão elevado, que até a bola com que brincam são eles que a fabricam, familiarmente conhecida pela maçã de bush – e que os escaravelhos nos perdoem. De onde se chegou ao fim da Era dos interesses avulsos individuais e parasitários. Perdeu-se o canto da cigarra e (re)nasceu o canto da formiga, da barata e do coleóptero. Dos que trabalham a palavra como obreiros de uma nova utopia. Dos que resistem às avalanches do descrédito na criação de um mundo melhor pela restauração do antigo. Dos que elaboram a sua diversão e sustento, clube, casa e família, com os frutos do quotidiano e gente que os rodeia, habitat e cultura emergente, por maiores merdas que estes sejam. Terminou a apologia do herói, do desbravador narcísico e megalómano, do que intenta dar novos universos ao universo das (palavras) apenas com a brutidade interior, para dar lugar à voz colectiva, quer local como global, representativa desse ser e estar, ser e fazer, ser e seres, que é a escrita que se partilha, mas não só na e para a leitura, como também na feitura, porquanto cada um pode criar com os seus, entre os seus e para todos, a qualquer hora e independentemente do lugar onde esteja.
Exactamente. Mas não apenas. Sobretudo porque em seu socorro acorreram as novas tecnologias da comunicação, apesar dos conservadorismos das pitonisas românticas nos quererem convencer que o cheiro do papel melhora os conteúdos, o apalpar das metáforas entesa os espíritos, o carregar com volumes bíblicos robustece os crânios e o devorar amarelecidas folhas nos engorda os tutanos da sapiência outonal com os santos ventos, ou flatulências celestiais e divinatórios. E principalmente se em conta tivermos que a única forma desejável e ecológica da transmissão de ideias e valores é a narrativa, que não pode ser peso para o abate de outros seres vivos, árvores e quejandos, sejam elas plantadas para isso ou não, tenham como destino o aliviar económico das opções sociais ou as fogueiras incendiárias das monoculturas, visto que nestas coisas da ficção, da lógica e da humanidade, não serão nunca os objectivos que justificam os meios, mas sim estes que reconhecem a validade dos fins, sendo parte integrante do engenho e arte, que o mesmo é dizer, que por mais bonita que seja a segunda, se separada estiver da racionalidade, sustentabilidade, utilidade e adequação do engenho, então nada vale, nada significa e ainda menos reconhecimento público tem.
Não obstante periga-lhe o futuro, e corre riscos de extinção a narrativa ficcionista, se não alterar a sua conduta face aos suportes e auditório que serve. Principalmente se se não apetrechar dos convenientes meios técnicos (e-book) para circular entre as gentes e os modos, estabelecendo uma nova apetência entre os que, por incrível que tal pareça, sempre lhe devotaram grande admiração mas foram solicitados por outras formas expressão, assaz cativantes e mais facilmente consumíveis: o cinema. O áudio visual e multimédia. Produtos esses que, quase sempre baseados em obras literárias de autores consagrados, os treinaram para a leitura rápida em écran, e os capacitou assim a ler para além do simples soletrar, fazendo-o parágrafo a parágrafo e não linha a linha como fariam se limitados a fazê-lo do papel, porquanto a rigidez e fixação deste formato, obriga os olhos a um esforço de adaptação, muitas vezes insuportável, como no caso das paginações em letra miúda e entrelinhamento apertado dos livros de bolso, onde a evolução da leitura se faz morosamente e com sacrifício, o que a onera em tempo e custos ou lhe dificulta a compreensão.
Porque o que está em causa já não é a morte do livro mas sim o fenecer das literaturas, sobretudo das que se veiculam através de línguas pouco utilizadas comercialmente, como o português, o holandês, o austríaco ou o russo. Até há pouco quase todos (editores, livreiros e alfarrabistas, autores, professores, críticos, tradutores, ensaístas, bibliotecários, linguistas, líricos, jornalistas e ardinas) se aperceberam e debruçaram sobre o problema (baixos índices de leitura, com crescente agravamento), mas ninguém se preocupou com a solução. Não houve cão nem gato que não bradasse aos céus a iletracia, incúria e desleixe das nossas gentes perante os principais instrumentos da nossa identidade cultural (língua e literatura), todavia não fizeram absolutamente nada para inverter o mar de crise em que durante anos e anos navegámos. Puseram-na a ferros no acordo ortográfico e ensino, criaram uma rede nacional de bibliotecas, patrocinaram programas de rádio e TV, instituíram-lhe um Instituto (português do livro e da leitura), inventaram motivações, subsídios e prémios vários, tiveram inclusive um nobel para poder figurar nos anais da universalidade, mas agir em conformidade e de maneira a alterar o actual status quo é mentira. Procuraram o problema e encontraram-no; deram-lhe honras de primeiro plano e fidalguia; mas quedaram-se pelo diagnóstico e análise dos sintomas, lamentos de velhos do Restelo e viagras das feiras do livro, embora jamais se tenham preocupado deveras em achar-lhe igualmente solução. Enfim, foram lusófonos até nisso: nos consertos de arame e peças piratadas para remediar o funcionamento de toda e qualquer engrenagem que se avarie – aquém e além mar!
9.10.2004
Amo-te... És belo como o Sol
Profundo como a Noite e o Mar.
Procuro-te, no céu estrelado,
E à noite, vens até mim.
Trazes contigo o vento a sussurrar
Promessas de alegria sem fim
Em ondas de mar salgado.
Azul de estrelas. E sonhado.
Os teus braços, os teus olhos, a tua pele,
Falam de ti, e me prometem que serão meus
Se eu os quiser
E se os souber merecer.
A tua vida é como um arco-íris
Como uma rosa em flor.
É como um jardim onde semeias flores por toda a parte
Resquícios de choro, palavras de arte.
Desejo-te,
És como o mar
E o frio da noite
Que procuro nos dias de Inverno.
Quero-te bem,
Amo-te.
Por seres mais belo que todas as coisas,
Porque dentro de ti
Há esse Sol,
Essa alegria
Que desperta.
E que empresta a toda a existência
A beleza que só tu tens: Esse Sol
Faz do mundo,
Um sonho,
Onde o desejável se torna possível.
E o teu olhar
Faz do meu Sonho
O teu mundo.
Esse teu jardim
Cheio das mais belas flores,
Dos mais doces frutos,
Onde me perco e me procuro
E me encontro
No sonho mais encantador
No perfume mais adocicado
No olhar mais sensível
Na voz mais profunda
No corpo mais meigo,
Que já conheci... adoro-te muito...
Vamos lutar um pelo outro para que dê certo.
Na voz mais profunda
No corpo mais meigo,
Que já conheci...adoro-te
Muito iremos lutar um pelo outro, até dar certo!...
sonho
A sonhar escrevi um livro
mas não o consegui ler:
dediquei-o um amor difícil de obter...
Um dia ele partiu.
Fiquei com saudades.
Partiu e não voltou;
Chamava-se felicidade,
destruiu meu coração,
deixou-me a sofrer
na solidão da prisão...
A penar... a padecer...
Hoje vivo com medo
de um passado recente,
vejo por entre grades
a alegria de muita gente.
Agora sozinha e abandonada,
de mim ninguém tem dó.
Esqueceram meu passado.
Foi um amor k terminou.
Foi uma esperança perdida.
Foi uma folha arrancada
Do livro da minha vida!
NÁDIA JOANA ANTUNES
Profundo como a Noite e o Mar.
Procuro-te, no céu estrelado,
E à noite, vens até mim.
Trazes contigo o vento a sussurrar
Promessas de alegria sem fim
Em ondas de mar salgado.
Azul de estrelas. E sonhado.
Os teus braços, os teus olhos, a tua pele,
Falam de ti, e me prometem que serão meus
Se eu os quiser
E se os souber merecer.
A tua vida é como um arco-íris
Como uma rosa em flor.
É como um jardim onde semeias flores por toda a parte
Resquícios de choro, palavras de arte.
Desejo-te,
És como o mar
E o frio da noite
Que procuro nos dias de Inverno.
Quero-te bem,
Amo-te.
Por seres mais belo que todas as coisas,
Porque dentro de ti
Há esse Sol,
Essa alegria
Que desperta.
E que empresta a toda a existência
A beleza que só tu tens: Esse Sol
Faz do mundo,
Um sonho,
Onde o desejável se torna possível.
E o teu olhar
Faz do meu Sonho
O teu mundo.
Esse teu jardim
Cheio das mais belas flores,
Dos mais doces frutos,
Onde me perco e me procuro
E me encontro
No sonho mais encantador
No perfume mais adocicado
No olhar mais sensível
Na voz mais profunda
No corpo mais meigo,
Que já conheci... adoro-te muito...
Vamos lutar um pelo outro para que dê certo.
Na voz mais profunda
No corpo mais meigo,
Que já conheci...adoro-te
Muito iremos lutar um pelo outro, até dar certo!...
sonho
A sonhar escrevi um livro
mas não o consegui ler:
dediquei-o um amor difícil de obter...
Um dia ele partiu.
Fiquei com saudades.
Partiu e não voltou;
Chamava-se felicidade,
destruiu meu coração,
deixou-me a sofrer
na solidão da prisão...
A penar... a padecer...
Hoje vivo com medo
de um passado recente,
vejo por entre grades
a alegria de muita gente.
Agora sozinha e abandonada,
de mim ninguém tem dó.
Esqueceram meu passado.
Foi um amor k terminou.
Foi uma esperança perdida.
Foi uma folha arrancada
Do livro da minha vida!
NÁDIA JOANA ANTUNES
9.01.2004
No dia 27 de Agosto, pelas 17:30 horas, foi inaugurada, no Museu das Tapeçarias de Portalegre, uma exposição de fotografia de Aldrich Malzbender, centrada na temática "Ciganos do Alentejo", que foi suplementada com uma apresentação/leitura de alguns poemas de cariz alententejano, cujo reportório tinha, entre outros (por exemplo, António Patrício, Manuel da Fonseca, Florbela Espanca, Eugénio de Andrade, Jorge de Sena, Sebastião da Gama, etc., etc.), dois poemas de Joaquim Castanho, elemento da nossa Comunidade de Leitores, que aqui ficam, divulgados.
AUTO DA VISITAÇÃO
1.
Chiam travões, bate uma porta
E a tarde perde a calma monótona.
A mosca abandona a migalha sobre a mesa;
Há ainda a bolsa do casqueiro
A corna das azeitonas
Um pichel destapado
Uma rodilha sobre o oleado
Um corcho de cortiça
Um cântaro com a asa partida.
« Quem será? » ... os patrões foram a banhos,
O gado está no curral,
O carteiro já veio esta semana.
A terra não pode com amanhos,
As searas foram vendidas;
Crescem olhos tamanhos – quem será??
2.
Ressalva-a, emenda a voz
Estende os braços ao rés do tempo
Ao degrau da entrada, à sombra
Do umbral a moldura faz.
Pestaneja quando eu chegar!
Diz do trigo a colheita sólida
Do fruto a amora brava,
O suco revertendo do olhar,
Posto lá na linha da planície
Mais perto do mar do céu
Que barcos sonhos navegam
Na desvendação do futuro.
Deixa uma calça arregaçada sobre
As fivelas de couro com sola de pneu
O boné dependurado do trinco;
A porta a esconder-se na penumbra.
À telefonia... Essa, que soe baixo
Que a hora é de sesta.
Tem para mim um sorriso
De quem percebe porquê o sol
Tão quente, a fralda de fora.
Depois enxota uma mosca
Enrola um cigarro
E volta a entrar como se nada fosse...
« Maria!?! É o teu filho que chegou.
Partimos a melancia maior!! »
OS CONTRABANDISTAS
1.
apelo do caminho
São gestos simples duma criança os pés
Os ombros, as mãos abertas.
Mesmo uma falripa sobre a testa
Um suspensório a arrastar na areia...
Uma pedra a bater na latada,
Um chamamento de mãe contrariada.
Ah, e o enigma da estrada
Que nunca termina na curva
Como fora previsto!
2.
Contrabandeio.
É essencial de mim, português
A navalha, o relógio, o isqueiro!
Por vezes, a caneta
Ind’assim me não esqueça
Daquilo que me vai na alma.
Seguem-se os dias aos dias
Na formação do ontem de amanhã
E há um povo que não se cansa
De afiar o ânimo no esmeril da solidão
De correr seca e meca à procura
De escorregar pelas ladeiras lamacentas da ilusão.
3.
talego
Esse resto tão pouco...
Tão cintilante o sol
Capilar sobre a vereda
Abrigo da tarde
Entre pinheiros
Agudos sonidos dos cartaxos,
Os ombros vincados ambos
A bolsa no lamaçal das costas.
4.
recrutamento
Revejo o adro. A tarde arde.
Posando em fila circular as botas ferradas
Esperam a fotografia imediata dum capataz.
Aos velhos e crianças apenas é concedido o número
E não o nome. Esses ficarão meia-lua perdida – olhos da calçada –
Por suas bocas serem a jarra em que não há semente.
Arde a tarde e a esperança do corpo
Consumindo a fome que em casa se passa.
Arde o silêncio na competição dos olhos
Na ânsia de saber quem vai desta jornada.
Arde a silhueta do cavaleiro desembocado da rua
O matraquear dos cascos, o cintilar das esporas...
Chapéu no sobrolho, chicote apontado
Divide e escamoteia, joeira e não ouve:
“ A jorna já sabem. É pegar ou largar! “
« Mãe: não valho nada!!... » Ainda que quisesse
Pegar na foice e suar o que faltava, a cabeça curvada
Quem daria ao filho daquele que entre cavalos partiu
O sol a sol do pão, desde que o sonhasse ou soubesse?
Revejo-te adro. E àquele dia, mãe
Em que num ai, reconheceste também
Ser sempre o caminho do filho
Seguir as pegadas do pai!
5.
prisão
Pela fresta da entreaberta porta soam ferraduras
Crinas nervosas agitam o medo, bater de cascos.
Um latido de cão sem coleira à porta da taberna...
As fitas mosqueiras que dedos ronceiros suspendem...
O suspeito ar de caso nas alvas fachadas...
Uma criança descalça atravessando o escaldante empedrado...
E um gesto de Agosto na supressão de mais uma boca.
6.
referente
A mesma criança do outro poema
Tenta passar de novo a rever-se
No espelho do sonho e surpresa.
Fecha o triângulo e surge
As guitas do pião escorrendo dos bolsos
Os gestos tímidos dum esgar de mel
Os olhos perdidos em tamanhas cores.
Adiará a infância para melhor tempo
Que a mãe já reclama a presença
Dum homem na casa.
AUTO DA VISITAÇÃO
1.
Chiam travões, bate uma porta
E a tarde perde a calma monótona.
A mosca abandona a migalha sobre a mesa;
Há ainda a bolsa do casqueiro
A corna das azeitonas
Um pichel destapado
Uma rodilha sobre o oleado
Um corcho de cortiça
Um cântaro com a asa partida.
« Quem será? » ... os patrões foram a banhos,
O gado está no curral,
O carteiro já veio esta semana.
A terra não pode com amanhos,
As searas foram vendidas;
Crescem olhos tamanhos – quem será??
2.
Ressalva-a, emenda a voz
Estende os braços ao rés do tempo
Ao degrau da entrada, à sombra
Do umbral a moldura faz.
Pestaneja quando eu chegar!
Diz do trigo a colheita sólida
Do fruto a amora brava,
O suco revertendo do olhar,
Posto lá na linha da planície
Mais perto do mar do céu
Que barcos sonhos navegam
Na desvendação do futuro.
Deixa uma calça arregaçada sobre
As fivelas de couro com sola de pneu
O boné dependurado do trinco;
A porta a esconder-se na penumbra.
À telefonia... Essa, que soe baixo
Que a hora é de sesta.
Tem para mim um sorriso
De quem percebe porquê o sol
Tão quente, a fralda de fora.
Depois enxota uma mosca
Enrola um cigarro
E volta a entrar como se nada fosse...
« Maria!?! É o teu filho que chegou.
Partimos a melancia maior!! »
OS CONTRABANDISTAS
1.
apelo do caminho
São gestos simples duma criança os pés
Os ombros, as mãos abertas.
Mesmo uma falripa sobre a testa
Um suspensório a arrastar na areia...
Uma pedra a bater na latada,
Um chamamento de mãe contrariada.
Ah, e o enigma da estrada
Que nunca termina na curva
Como fora previsto!
2.
Contrabandeio.
É essencial de mim, português
A navalha, o relógio, o isqueiro!
Por vezes, a caneta
Ind’assim me não esqueça
Daquilo que me vai na alma.
Seguem-se os dias aos dias
Na formação do ontem de amanhã
E há um povo que não se cansa
De afiar o ânimo no esmeril da solidão
De correr seca e meca à procura
De escorregar pelas ladeiras lamacentas da ilusão.
3.
talego
Esse resto tão pouco...
Tão cintilante o sol
Capilar sobre a vereda
Abrigo da tarde
Entre pinheiros
Agudos sonidos dos cartaxos,
Os ombros vincados ambos
A bolsa no lamaçal das costas.
4.
recrutamento
Revejo o adro. A tarde arde.
Posando em fila circular as botas ferradas
Esperam a fotografia imediata dum capataz.
Aos velhos e crianças apenas é concedido o número
E não o nome. Esses ficarão meia-lua perdida – olhos da calçada –
Por suas bocas serem a jarra em que não há semente.
Arde a tarde e a esperança do corpo
Consumindo a fome que em casa se passa.
Arde o silêncio na competição dos olhos
Na ânsia de saber quem vai desta jornada.
Arde a silhueta do cavaleiro desembocado da rua
O matraquear dos cascos, o cintilar das esporas...
Chapéu no sobrolho, chicote apontado
Divide e escamoteia, joeira e não ouve:
“ A jorna já sabem. É pegar ou largar! “
« Mãe: não valho nada!!... » Ainda que quisesse
Pegar na foice e suar o que faltava, a cabeça curvada
Quem daria ao filho daquele que entre cavalos partiu
O sol a sol do pão, desde que o sonhasse ou soubesse?
Revejo-te adro. E àquele dia, mãe
Em que num ai, reconheceste também
Ser sempre o caminho do filho
Seguir as pegadas do pai!
5.
prisão
Pela fresta da entreaberta porta soam ferraduras
Crinas nervosas agitam o medo, bater de cascos.
Um latido de cão sem coleira à porta da taberna...
As fitas mosqueiras que dedos ronceiros suspendem...
O suspeito ar de caso nas alvas fachadas...
Uma criança descalça atravessando o escaldante empedrado...
E um gesto de Agosto na supressão de mais uma boca.
6.
referente
A mesma criança do outro poema
Tenta passar de novo a rever-se
No espelho do sonho e surpresa.
Fecha o triângulo e surge
As guitas do pião escorrendo dos bolsos
Os gestos tímidos dum esgar de mel
Os olhos perdidos em tamanhas cores.
Adiará a infância para melhor tempo
Que a mãe já reclama a presença
Dum homem na casa.
8.27.2004
ETERNIDADE
Não, não há maior e sublime poema
Que as ancas da minha companheira
Que são fortes e firmes e seguras
E fazem o mundo parecer um templo
Onde cada casa é um púbis em flor.
Não, não há metáfora mais certeira
Que as suas coxas tenazes e duras
Que do querer são fé de férreo exemplo
Quando me alicatam com febril fervor
E me prendem se expludo ao dar-lhe amor.
Não, não há maior enredo nem torpedo
Que mais me rasgue, abata, dilacere
Que o silêncio apertado gritado em segredo
Que o seu convulso estertor desfere
Quando na noite da noite vencemos o medo
E nos exilamos no degredo de fazer amor.
Não, não há... E quem puder que mo prove
Com prova riscada em matemática a preceito
Que a eternidade não é aquela astronave
Com que a abraço e lhe desfaleço sobre o peito!
Não, não há maior e sublime poema
Que as ancas da minha companheira
Que são fortes e firmes e seguras
E fazem o mundo parecer um templo
Onde cada casa é um púbis em flor.
Não, não há metáfora mais certeira
Que as suas coxas tenazes e duras
Que do querer são fé de férreo exemplo
Quando me alicatam com febril fervor
E me prendem se expludo ao dar-lhe amor.
Não, não há maior enredo nem torpedo
Que mais me rasgue, abata, dilacere
Que o silêncio apertado gritado em segredo
Que o seu convulso estertor desfere
Quando na noite da noite vencemos o medo
E nos exilamos no degredo de fazer amor.
Não, não há... E quem puder que mo prove
Com prova riscada em matemática a preceito
Que a eternidade não é aquela astronave
Com que a abraço e lhe desfaleço sobre o peito!
8.25.2004
O ENGATE
Para fazer uma boa aproximação
Há que ter por cada 100 quilos 76% de água:
20% de postura sólida;
10 de cheiros fluidos;
20 de olhares líquidos;
10 de vozes melosas;
15 de toques polidos;
12 de mentiras raladas;
1 de gestos rapaces;
2 de tiques infantilóides;
E uma boa pitada de sentido de humor.
O restante da percentagem paciência em flor.
Após juntar tudo, leva-se à discoteca mais próxima
Onde ferverá em música branda durante uma hora, no mínimo.
Será de ter em atenção que depois de cozido
Se acrescentará um caldo de uva etílica
E deixar-se-á esfriar com bastantes cigarros
Pondo-lhe as beatas em torno.
Batôn.
Desodorizante em rodelas, pelo que é melhor
Se for stick, recortes de revistas da moda
E algumas frutas secas - por exemplo, artes.
Serve-se em prato único.
Aconselha-se, para acompanhar algumas pílulas
mas de preferência anticoncepcionais se não for preciso viagrar
Com o tempo e o modo.
Para fazer uma boa aproximação
Há que ter por cada 100 quilos 76% de água:
20% de postura sólida;
10 de cheiros fluidos;
20 de olhares líquidos;
10 de vozes melosas;
15 de toques polidos;
12 de mentiras raladas;
1 de gestos rapaces;
2 de tiques infantilóides;
E uma boa pitada de sentido de humor.
O restante da percentagem paciência em flor.
Após juntar tudo, leva-se à discoteca mais próxima
Onde ferverá em música branda durante uma hora, no mínimo.
Será de ter em atenção que depois de cozido
Se acrescentará um caldo de uva etílica
E deixar-se-á esfriar com bastantes cigarros
Pondo-lhe as beatas em torno.
Batôn.
Desodorizante em rodelas, pelo que é melhor
Se for stick, recortes de revistas da moda
E algumas frutas secas - por exemplo, artes.
Serve-se em prato único.
Aconselha-se, para acompanhar algumas pílulas
mas de preferência anticoncepcionais se não for preciso viagrar
Com o tempo e o modo.
8.24.2004
CIRCUNAVEGAÇÕES PERIFÉRICAS
Às vezes, quando a gente fala do sol e do mar, do smog de Gaia e do nevoeiro baço da Foz, do verde e do odor do moliço, do vento norte e dos vestidos garridos das raparigas, somos levados a percorrer um imenso espaço de solidão e maravilha, como se fôssemos os únicos habitantes de uma geografia desfalcada, dum mundo exótico com os úberes repletos de imaginário e languidez, de mitos clássicos e Ulisses distantes a fundarem cidades ribeirinhas, onde fervilham os pregões, as pontes do progresso e os acasos. Aventuramo-nos no irremediável e consentimos que a urbe seja uma afinidade entre nós, que o poder seja uma simples circunstância que nos agrupa, que o cimo do céu seja uma boca livre, que o desespero continue a ser a arma dos fracos opcionais, que a coragem mais não seja que uma curva apertada, que a indiferença não passe da agressividade vingativa do intelecto ostracizado, que o amor se confunda com um buscar contínuo de ser buscado, e que, enfim, aqueles que não conseguem amar pereçam sobre a podridão que merecem. Alimentamo-nos de coisas pequenas e verticais como poetas, objectos e produtos de higiene, sabões e pastas dentríficas, servindo-nos das palavras insubmissas e insurrectas, simbólicas e peregrinas, para desmuralharmos os quotidianos. Ficamos a habitar a maldição dos tempos insuspeitos, porquanto Ulyan também nos seduziu, corrompeu e traiu, circunscrevendo-nos ao ibérico destino. Somos a véspera de nós. E, claro, esquecemos, ou nem sequer ousamos constatar que, ali ao fundo, na última esquina que dobrámos, naquele “boa tarde” mal pronunciado e dado em favor à vizinha, no jornal semanário onde os cronistas escamoteiam e apresentam, sem qualquer rebuço, catástrofes e diarreias, no frigorífico com sua luz tímida de iluminar tomates, na embalagem com bico decepado do leite homogeneizado, na sopa de três dias com gordura coalhada a boiar no cimo, no passe dos transportes públicos ou no grafismo do cartão de crédito, nos cereais empacotados da miserável frugalidade, há muito mais esforço poético e valia artística, esgrimida nos símbolos que nos representam e vivificam, do que em todo aquele escarmento romântico de plástico & cartão com que queremos imortalizar e hipalgisar os hieróglifos alfabetos de todas as resenhas pátrias, conformando-as em hinos de instantes tão supremos quanto derradeiros, de ferrar a faca nas costas dos que amam.
Até quando?... Por enquanto os velhos ainda continuam a repetir que noutros tempos (os deles) é que se trabalhava a valer, é que a vida era dura e o amor era amor.
No meu quarto de aluguer, entre as peúgas e as cuecas sujas, que é o sítio ideal para guardar dicionários e gramáticas, tenho uma cadela embalsamada – ah, mentira grande e descarada esta!... –, que em viva acudia pelo nome de Carriça, e que hoje só resta como ideia infantil, embora em vida tenha sido bastante dedicada ao dono, e fiel, e meiga, e amiga, e inspiradora, e terapêutica, que me transporta ao sossego preciso e necessário para acreditar que existo. E sabem porquê? Porque vejo nela tudo quanto a literatura (a arte) pode ser. Tem o pêlo lustroso mas não larga pulgas! Os olhos falsos e brilhantes que nada reflectem nem imploram, e a pose majestática duma esfinge secular! Não come, não ladra, não carece de ser passeada, não morde, nem larga gases, mas impõe respeito em qualquer sala!
Óbvio se torna, por conseguinte, que a minha comparticipação nesta nunca venha a ser bem sucedida e aceite, tanto por futricas como por talassas, e legítimo é que assim seja (Amém! Aleluia Senhor! Graçazadeus! Aleluia!!!...), visto serem várias as razões que para tal concorrem: primeiro, porque ela assenta em postulados e numa imagética em que acredito inequivocamente, porque a vivi em ruminantes quezílias com a instituição “ensino e educação”; segundo, porque não quis dar-me à comodidade de preencher um espaço em branco da contra-literatura, epitetada a falsos modos de clandestina, marginal e populista; terceiro, porque as temáticas e motivos não servem para ensarilhar lamechices, agradar às tias e seduzir as sobrinhas do sistema, ou tampouco para converter níqueis discípulos em apaniguados Mercedes e BMW´s, ou fitar a originalidade naif de assentar na moda da diferença; e quarto, ó reino dos amaldiçoados da sorte, porque me estou literalmente cagando para quem não pensa como eu, quem pensa que o faz, quem o faz mas não pensa, ou de quem julga que é moderno só porque a sua ignorância não o deixa ver que essa modernidade já foi rejeitada por obsoleta há que séculos!
Contudo, a ajuizar pelo que fica dito, não se pense que me empenhei em desenfrear a lasciva fúria de quem por artes ciprianas detém a esgarçarçada molécula da comunicação e os desígnios do grão-falar. Que o propósito não é tão didáctico e sublime, senhores!... E embora saiba, quem não sabe?, que “os monstros existem mesmo fora da nossa imaginação”, não profanarei a sua auréola de eleitos...
A FORÇA DO TEM QUE SER
Não estamos aqui para competir,
Nem tu, nem eu, temos nada com isso.
Crias o que podes
E eu criarei igualmente o que puder.
Faço o que quero só por o fazer
E tu farás o que queres só por o querer.
Eu sei que hei-de lá chegar
E tu também tens uma meta realizável.
Por isso, se fores para o mesmo lado que eu,
Ou se eu for para o mesmo lado que tu,
Encontrar-nos-emos certamente, o que será baril;
Mas se tal não acontecer, deixa lá,
É porque assim não tinha que ser
E não valerá a pena reinventar Abril!
ZÉ MARMELO
Zé Marmelo era brigão e berrava lá no Sítio de Casal
Parado na minha terra do Zé Marmelo, porque ele, sabem
Nunca cagou sentenças na televisão e podia berrar
E o Sítio era dum brigão, que era ele a sitiar.
Às vezes, à tarde, em verões escaldantes, sentava-me
Na parede à beira do alcatrão apenas para o ouvir
E ele gritava e dizia que havia de a matar, que ela era
Uma puta, uma puta!!!, e ela era só a mulher e mãe
Dos filhos dele, mas ele não queria saber disso,
Queria era o dinheiro dela para beber mais uns copos
De branco (jamais conseguiriam que mudasse para tinto)
E poder jogar uma bisca de soldado, e ter motivos
Para discutir com outro qualquer
E esquecer-se da mulher.
À noite, madrugada fora, iria roubar que comer de dia
E os donos das hortas sabiam que ele os roubava
Mas não queriam saber, nem se importavam,
Pelo que Zé Marmelo morreu sem nunca ter pedido
Nunca ter implorado nada a ninguém.
Ah, carago! Se ele vivo fosse hoje e militasse no partido
Muito havia de ensinar a estes políticos que a gente tem!
QUANDO A DIFERENÇA É DIFERENTE
Os olhos são os olhos, e os rostos os rostos,
Mas aquilo que os faz sorrir é uma coisa muito diferente;
E, se, por acaso ou virtude, eles o não fazem
É porque para isso foram plantados e dispostos
Como semeados em desgostos podem ser de repente
Os meus e os teus, na presença de qualquer imagem.
Que tenhamos à nascença um rótulo
Que nem sequer queremos usar, pouco importa!
Que se fazem os corpos iguais sem (des)vantagem
É pura utopia gemebunda de virgo imáculo,
Pois onde a natureza talha e corta
Acaba-se a feira e o espectáculo
E nasce a diferença, como desta nasce a coragem.
Agora, se da diferença fizermos o selo da derrota
É bem verdade que a culpa guia o leme de nossa rota!
FUS(T)ÃO POSSÍVEL
1.
O desejo é antecipação.
Um olhar é uma oportunidade de contornos. Uma oportunidade é uma circunstância. O poder cresce-nos como cornos. Circunstantes e oportunos.
Vejo-te; logo, possuo-te. Aqui começa a minha teoria da masturbação. Uma teoria é uma prática idealizada. A ausência uma tabuada incompleta e incontida. E se estás ausente, és uma impressão, um retalho na objectividade.
Cada um dispõe de si teoricamente, e de todos se (não) ausentes. Eu serei aquilo que tu quiseres que eu seja numa idealização oportuna. Tu és aquilo que eu penso numa prática circunstancial. Num gesto de punho em sobe e desce, vejo-te; logo, possuo-te. Imagino-te, teorizo-te. A circunstância transcendental é uma posse imaginada. Sou uma figura de passe entre os demais e tu. Sou a consciência do eu entre mãos, e a sua viabilidade na condução.
Eu é uma consciência. Uma consciência é um caminho. Um caminho é uma via. E esta uma habilidade. Enquanto os outros, as coisas e tu, forem viáveis, eu serei o que tenho de ti: mas tu és a circunstância; logo, possuo-te. És a oportunidade do meu eu olhado. Sem ti eu não podia ser via. Não era caminho. Não existia.
Tu és a existência. Existir é imaginar. Imaginar é possuir. Tenho-te. Tenho-me. Existimos!
Se o acaso acontece, aconteces. Se anoitece, anoiteces. E se és dia, levanto-me. Os meus olhos são o que contornam. Eles olham-te e eu vivo. Aconteço. Anoiteço. Levanto-me. E salivo.
Gulosa, é a circunstância do eu, face à oportunidade da posse. Sou eu quem salivo. Tu me salivas em eu salivando-me. Desejo: oportunidade. Desejo: posse. Desejo-te possuindo-me. Possuo-me desejando-te. Imagino-me tendo-te.
Paradoxo? Afinidade? Luz. Luz. Luz. Quase dia. Luminosidade. Atracção contraditória: o pólo busca o pólo se houver energia. Fluxo paradoxal. Languidez gulosa do eu. Eu lânguido, possuído. Pressionado na posse. Pressão opaca do querer: paixão. Eu e tu; tu e eu; eu outro; outro tu. Outro eu-não.
Mexo os lábios. Profiro. Proferir é preferir. Pré-ferir. Prefiro os lábios. E os lábios proferem os olhos. As mamas. A púbis. O sexo. Mas os olhos preferem a palavra. E esta profere-se. Digo: constato. Cons acto. Acto constante de pr(o/e)ferir. Pré-ferir. Pró-ferir. Os lábios são ameixas doces!...
Comes. Lambuzas-te. Devoras. Mas o caroço dos dentes embate na palavra. A palavra é o gesto da língua, e o dialecto é (a)mar(-)te. Comemo-nos. Lábios quase tudo no gesto impreciso de um clitóris periclitante.
Na líquida solicitude... é aí que morro e tu renasces. O dia desponta sempre assim! Lês. Proferes-te. Comes. Beijas. Solícitas embatem constantes as palavras gulosas na imagem viável da oportunidade tu. Igualmente prefiro-te.
Cedo-me. Medo-se-me. Teme-se o medo de ceder. Teme-se o cedo. É tarde. O mundo fica mesmo ali...
Ali...
Ali...
... ao lado. Sempre ao lado. Eréctil.
Toca-lhe... Vá, toca-lhe!!!
2.
Se vires chegar a gaivota com o bico aloirado de sol, não estranhes; ela me anuncia.
Se vires o pôr do sol raiado de violetas e uma brisa que vem do sul, não estranhes; eles me anunciam.
Se vires uma criança descalça e desnuda correndo pela relva do Jardim do Palácio, não estranhes; ela me anuncia.
Se vires algum velho sem-abrigo lambiscando a beata nos dedos amarelados, não estranhes; ele me anuncia.
Se vires o louco profeta de barbas despenteadas e sujas discursando contra o consumismo e energia nuclear, não estranhes; ele me anuncia.
Se vires o cão esquelético e faminto como pool de todos os abandonados do mundo, não estranhes; ele me anuncia.
Se vires um papiro esvoaçando sobre a multidão mecanizada, não estranhes; ele me anuncia.
Se vires cair da janela anónima uma fotografia rasgada, não estranhes; ela me anuncia.
Se vires os teus olhos brilharem numa noite de luar, não estranhes; eles me anunciam.
Se vires um sorriso urgente num rosto desconhecido, não estranhes; é a minha forma de estar contigo.
E depois de eu ter chegado
Muito depois do ainda não
E muito antes do já de volta
Finge que não me conheces
Faz gestos de negativa revolta
Faz negaças de comiseração
Faz traquinices de benesses
E dá o sonho por acabado.
Mas depois de eu implorar
De pedir um pouco de atenção
Inventa nomes que me trocam
Inventa partidas que te preguei
Inventa razões de negação
Inventam ditos que te adulam
Inventa actos que não pensei
E belisca-me para acordar.
E então depois de eu rogando
A teus pés pedir um sorriso
Diz-me, seca, fria, reclamando:
«Por favor... Tem juízo!»
E se então vires voltar ao nada uma fotografia, um papiro, um louco, um velho, uma criança, um pôr do sol, uma gaivota, um sem-abrigo, um cão, um sorriso, não entristeças, nem estranhes; é o Porto que me denuncia!
INSÓNIA DE VÉNUS
Aqui, não há humanidade nem moral...
Aqui, não há lei, não há fé, não há nada!
Aqui, tem-se somente a urgência total
De vencer o breu da noite desmaiada.
Aqui, a mecha niquelada manieta vil
Quem se atreva pela fresta deserta
Que nos deixaram Sebastião e Abril...
Aqui, apenas o sonho louco desperta!
Aqui, já se foi tudo quanto se pode ser.
Aqui, já se foi espada e coração de Jesus.
Aqui, já se fez guerra pelo amor de Mulher.
Aqui! Aqui... Onde as bocas se tocam em cruz
Houve uma borboleta que me veio dizer
O quanto é doce poisar em teus seios nus.
HISTÓRIA VERDADEIRA
Uma história verdadeira é um rei, uma mulher fértil
E um poeta pinga-amores.
Já me não apetece acabar as coisas
(Estou a ficar farto das latas de conserva!)
E quando meto por um caminho em que não encontro
Encruzilhadas, sinto fome e sede de alternativas.
Perco a lucidez se me depara tua boca sem hipótese de meu
Beijo (estou a ficar farto de consumos acabados!)
E quando meto por um corpo em que não encontro
Surpresas, sinto fome e sede de diferenças.
E desisto de mim se se profere o poema mais-que-perfeito
(Estou a ficar farto dos perfeccionismos castrativos!)
E quando meto por uma página sem cagadelas de mosca
Sinto dandys, dadás e dalis a corroer-me a consci
PASCI
ência-ência-ência-ência-ência.
É por isso que digo que numa história
Verdadeiro é um rei
Verdadeira é uma mulher fértil
Na mentira de um poeta pinga-amores.
Às vezes, quando a gente fala do sol e do mar, do smog de Gaia e do nevoeiro baço da Foz, do verde e do odor do moliço, do vento norte e dos vestidos garridos das raparigas, somos levados a percorrer um imenso espaço de solidão e maravilha, como se fôssemos os únicos habitantes de uma geografia desfalcada, dum mundo exótico com os úberes repletos de imaginário e languidez, de mitos clássicos e Ulisses distantes a fundarem cidades ribeirinhas, onde fervilham os pregões, as pontes do progresso e os acasos. Aventuramo-nos no irremediável e consentimos que a urbe seja uma afinidade entre nós, que o poder seja uma simples circunstância que nos agrupa, que o cimo do céu seja uma boca livre, que o desespero continue a ser a arma dos fracos opcionais, que a coragem mais não seja que uma curva apertada, que a indiferença não passe da agressividade vingativa do intelecto ostracizado, que o amor se confunda com um buscar contínuo de ser buscado, e que, enfim, aqueles que não conseguem amar pereçam sobre a podridão que merecem. Alimentamo-nos de coisas pequenas e verticais como poetas, objectos e produtos de higiene, sabões e pastas dentríficas, servindo-nos das palavras insubmissas e insurrectas, simbólicas e peregrinas, para desmuralharmos os quotidianos. Ficamos a habitar a maldição dos tempos insuspeitos, porquanto Ulyan também nos seduziu, corrompeu e traiu, circunscrevendo-nos ao ibérico destino. Somos a véspera de nós. E, claro, esquecemos, ou nem sequer ousamos constatar que, ali ao fundo, na última esquina que dobrámos, naquele “boa tarde” mal pronunciado e dado em favor à vizinha, no jornal semanário onde os cronistas escamoteiam e apresentam, sem qualquer rebuço, catástrofes e diarreias, no frigorífico com sua luz tímida de iluminar tomates, na embalagem com bico decepado do leite homogeneizado, na sopa de três dias com gordura coalhada a boiar no cimo, no passe dos transportes públicos ou no grafismo do cartão de crédito, nos cereais empacotados da miserável frugalidade, há muito mais esforço poético e valia artística, esgrimida nos símbolos que nos representam e vivificam, do que em todo aquele escarmento romântico de plástico & cartão com que queremos imortalizar e hipalgisar os hieróglifos alfabetos de todas as resenhas pátrias, conformando-as em hinos de instantes tão supremos quanto derradeiros, de ferrar a faca nas costas dos que amam.
Até quando?... Por enquanto os velhos ainda continuam a repetir que noutros tempos (os deles) é que se trabalhava a valer, é que a vida era dura e o amor era amor.
No meu quarto de aluguer, entre as peúgas e as cuecas sujas, que é o sítio ideal para guardar dicionários e gramáticas, tenho uma cadela embalsamada – ah, mentira grande e descarada esta!... –, que em viva acudia pelo nome de Carriça, e que hoje só resta como ideia infantil, embora em vida tenha sido bastante dedicada ao dono, e fiel, e meiga, e amiga, e inspiradora, e terapêutica, que me transporta ao sossego preciso e necessário para acreditar que existo. E sabem porquê? Porque vejo nela tudo quanto a literatura (a arte) pode ser. Tem o pêlo lustroso mas não larga pulgas! Os olhos falsos e brilhantes que nada reflectem nem imploram, e a pose majestática duma esfinge secular! Não come, não ladra, não carece de ser passeada, não morde, nem larga gases, mas impõe respeito em qualquer sala!
Óbvio se torna, por conseguinte, que a minha comparticipação nesta nunca venha a ser bem sucedida e aceite, tanto por futricas como por talassas, e legítimo é que assim seja (Amém! Aleluia Senhor! Graçazadeus! Aleluia!!!...), visto serem várias as razões que para tal concorrem: primeiro, porque ela assenta em postulados e numa imagética em que acredito inequivocamente, porque a vivi em ruminantes quezílias com a instituição “ensino e educação”; segundo, porque não quis dar-me à comodidade de preencher um espaço em branco da contra-literatura, epitetada a falsos modos de clandestina, marginal e populista; terceiro, porque as temáticas e motivos não servem para ensarilhar lamechices, agradar às tias e seduzir as sobrinhas do sistema, ou tampouco para converter níqueis discípulos em apaniguados Mercedes e BMW´s, ou fitar a originalidade naif de assentar na moda da diferença; e quarto, ó reino dos amaldiçoados da sorte, porque me estou literalmente cagando para quem não pensa como eu, quem pensa que o faz, quem o faz mas não pensa, ou de quem julga que é moderno só porque a sua ignorância não o deixa ver que essa modernidade já foi rejeitada por obsoleta há que séculos!
Contudo, a ajuizar pelo que fica dito, não se pense que me empenhei em desenfrear a lasciva fúria de quem por artes ciprianas detém a esgarçarçada molécula da comunicação e os desígnios do grão-falar. Que o propósito não é tão didáctico e sublime, senhores!... E embora saiba, quem não sabe?, que “os monstros existem mesmo fora da nossa imaginação”, não profanarei a sua auréola de eleitos...
A FORÇA DO TEM QUE SER
Não estamos aqui para competir,
Nem tu, nem eu, temos nada com isso.
Crias o que podes
E eu criarei igualmente o que puder.
Faço o que quero só por o fazer
E tu farás o que queres só por o querer.
Eu sei que hei-de lá chegar
E tu também tens uma meta realizável.
Por isso, se fores para o mesmo lado que eu,
Ou se eu for para o mesmo lado que tu,
Encontrar-nos-emos certamente, o que será baril;
Mas se tal não acontecer, deixa lá,
É porque assim não tinha que ser
E não valerá a pena reinventar Abril!
ZÉ MARMELO
Zé Marmelo era brigão e berrava lá no Sítio de Casal
Parado na minha terra do Zé Marmelo, porque ele, sabem
Nunca cagou sentenças na televisão e podia berrar
E o Sítio era dum brigão, que era ele a sitiar.
Às vezes, à tarde, em verões escaldantes, sentava-me
Na parede à beira do alcatrão apenas para o ouvir
E ele gritava e dizia que havia de a matar, que ela era
Uma puta, uma puta!!!, e ela era só a mulher e mãe
Dos filhos dele, mas ele não queria saber disso,
Queria era o dinheiro dela para beber mais uns copos
De branco (jamais conseguiriam que mudasse para tinto)
E poder jogar uma bisca de soldado, e ter motivos
Para discutir com outro qualquer
E esquecer-se da mulher.
À noite, madrugada fora, iria roubar que comer de dia
E os donos das hortas sabiam que ele os roubava
Mas não queriam saber, nem se importavam,
Pelo que Zé Marmelo morreu sem nunca ter pedido
Nunca ter implorado nada a ninguém.
Ah, carago! Se ele vivo fosse hoje e militasse no partido
Muito havia de ensinar a estes políticos que a gente tem!
QUANDO A DIFERENÇA É DIFERENTE
Os olhos são os olhos, e os rostos os rostos,
Mas aquilo que os faz sorrir é uma coisa muito diferente;
E, se, por acaso ou virtude, eles o não fazem
É porque para isso foram plantados e dispostos
Como semeados em desgostos podem ser de repente
Os meus e os teus, na presença de qualquer imagem.
Que tenhamos à nascença um rótulo
Que nem sequer queremos usar, pouco importa!
Que se fazem os corpos iguais sem (des)vantagem
É pura utopia gemebunda de virgo imáculo,
Pois onde a natureza talha e corta
Acaba-se a feira e o espectáculo
E nasce a diferença, como desta nasce a coragem.
Agora, se da diferença fizermos o selo da derrota
É bem verdade que a culpa guia o leme de nossa rota!
FUS(T)ÃO POSSÍVEL
1.
O desejo é antecipação.
Um olhar é uma oportunidade de contornos. Uma oportunidade é uma circunstância. O poder cresce-nos como cornos. Circunstantes e oportunos.
Vejo-te; logo, possuo-te. Aqui começa a minha teoria da masturbação. Uma teoria é uma prática idealizada. A ausência uma tabuada incompleta e incontida. E se estás ausente, és uma impressão, um retalho na objectividade.
Cada um dispõe de si teoricamente, e de todos se (não) ausentes. Eu serei aquilo que tu quiseres que eu seja numa idealização oportuna. Tu és aquilo que eu penso numa prática circunstancial. Num gesto de punho em sobe e desce, vejo-te; logo, possuo-te. Imagino-te, teorizo-te. A circunstância transcendental é uma posse imaginada. Sou uma figura de passe entre os demais e tu. Sou a consciência do eu entre mãos, e a sua viabilidade na condução.
Eu é uma consciência. Uma consciência é um caminho. Um caminho é uma via. E esta uma habilidade. Enquanto os outros, as coisas e tu, forem viáveis, eu serei o que tenho de ti: mas tu és a circunstância; logo, possuo-te. És a oportunidade do meu eu olhado. Sem ti eu não podia ser via. Não era caminho. Não existia.
Tu és a existência. Existir é imaginar. Imaginar é possuir. Tenho-te. Tenho-me. Existimos!
Se o acaso acontece, aconteces. Se anoitece, anoiteces. E se és dia, levanto-me. Os meus olhos são o que contornam. Eles olham-te e eu vivo. Aconteço. Anoiteço. Levanto-me. E salivo.
Gulosa, é a circunstância do eu, face à oportunidade da posse. Sou eu quem salivo. Tu me salivas em eu salivando-me. Desejo: oportunidade. Desejo: posse. Desejo-te possuindo-me. Possuo-me desejando-te. Imagino-me tendo-te.
Paradoxo? Afinidade? Luz. Luz. Luz. Quase dia. Luminosidade. Atracção contraditória: o pólo busca o pólo se houver energia. Fluxo paradoxal. Languidez gulosa do eu. Eu lânguido, possuído. Pressionado na posse. Pressão opaca do querer: paixão. Eu e tu; tu e eu; eu outro; outro tu. Outro eu-não.
Mexo os lábios. Profiro. Proferir é preferir. Pré-ferir. Prefiro os lábios. E os lábios proferem os olhos. As mamas. A púbis. O sexo. Mas os olhos preferem a palavra. E esta profere-se. Digo: constato. Cons acto. Acto constante de pr(o/e)ferir. Pré-ferir. Pró-ferir. Os lábios são ameixas doces!...
Comes. Lambuzas-te. Devoras. Mas o caroço dos dentes embate na palavra. A palavra é o gesto da língua, e o dialecto é (a)mar(-)te. Comemo-nos. Lábios quase tudo no gesto impreciso de um clitóris periclitante.
Na líquida solicitude... é aí que morro e tu renasces. O dia desponta sempre assim! Lês. Proferes-te. Comes. Beijas. Solícitas embatem constantes as palavras gulosas na imagem viável da oportunidade tu. Igualmente prefiro-te.
Cedo-me. Medo-se-me. Teme-se o medo de ceder. Teme-se o cedo. É tarde. O mundo fica mesmo ali...
Ali...
Ali...
... ao lado. Sempre ao lado. Eréctil.
Toca-lhe... Vá, toca-lhe!!!
2.
Se vires chegar a gaivota com o bico aloirado de sol, não estranhes; ela me anuncia.
Se vires o pôr do sol raiado de violetas e uma brisa que vem do sul, não estranhes; eles me anunciam.
Se vires uma criança descalça e desnuda correndo pela relva do Jardim do Palácio, não estranhes; ela me anuncia.
Se vires algum velho sem-abrigo lambiscando a beata nos dedos amarelados, não estranhes; ele me anuncia.
Se vires o louco profeta de barbas despenteadas e sujas discursando contra o consumismo e energia nuclear, não estranhes; ele me anuncia.
Se vires o cão esquelético e faminto como pool de todos os abandonados do mundo, não estranhes; ele me anuncia.
Se vires um papiro esvoaçando sobre a multidão mecanizada, não estranhes; ele me anuncia.
Se vires cair da janela anónima uma fotografia rasgada, não estranhes; ela me anuncia.
Se vires os teus olhos brilharem numa noite de luar, não estranhes; eles me anunciam.
Se vires um sorriso urgente num rosto desconhecido, não estranhes; é a minha forma de estar contigo.
E depois de eu ter chegado
Muito depois do ainda não
E muito antes do já de volta
Finge que não me conheces
Faz gestos de negativa revolta
Faz negaças de comiseração
Faz traquinices de benesses
E dá o sonho por acabado.
Mas depois de eu implorar
De pedir um pouco de atenção
Inventa nomes que me trocam
Inventa partidas que te preguei
Inventa razões de negação
Inventam ditos que te adulam
Inventa actos que não pensei
E belisca-me para acordar.
E então depois de eu rogando
A teus pés pedir um sorriso
Diz-me, seca, fria, reclamando:
«Por favor... Tem juízo!»
E se então vires voltar ao nada uma fotografia, um papiro, um louco, um velho, uma criança, um pôr do sol, uma gaivota, um sem-abrigo, um cão, um sorriso, não entristeças, nem estranhes; é o Porto que me denuncia!
INSÓNIA DE VÉNUS
Aqui, não há humanidade nem moral...
Aqui, não há lei, não há fé, não há nada!
Aqui, tem-se somente a urgência total
De vencer o breu da noite desmaiada.
Aqui, a mecha niquelada manieta vil
Quem se atreva pela fresta deserta
Que nos deixaram Sebastião e Abril...
Aqui, apenas o sonho louco desperta!
Aqui, já se foi tudo quanto se pode ser.
Aqui, já se foi espada e coração de Jesus.
Aqui, já se fez guerra pelo amor de Mulher.
Aqui! Aqui... Onde as bocas se tocam em cruz
Houve uma borboleta que me veio dizer
O quanto é doce poisar em teus seios nus.
HISTÓRIA VERDADEIRA
Uma história verdadeira é um rei, uma mulher fértil
E um poeta pinga-amores.
Já me não apetece acabar as coisas
(Estou a ficar farto das latas de conserva!)
E quando meto por um caminho em que não encontro
Encruzilhadas, sinto fome e sede de alternativas.
Perco a lucidez se me depara tua boca sem hipótese de meu
Beijo (estou a ficar farto de consumos acabados!)
E quando meto por um corpo em que não encontro
Surpresas, sinto fome e sede de diferenças.
E desisto de mim se se profere o poema mais-que-perfeito
(Estou a ficar farto dos perfeccionismos castrativos!)
E quando meto por uma página sem cagadelas de mosca
Sinto dandys, dadás e dalis a corroer-me a consci
PASCI
ência-ência-ência-ência-ência.
É por isso que digo que numa história
Verdadeiro é um rei
Verdadeira é uma mulher fértil
Na mentira de um poeta pinga-amores.
8.16.2004
1. as estações em volta
O TEMPO
Certamente, o tempo cria
Mas o tempo também mata
A hibernação, parêntisis de vida
Adia palavras soturnas
Absorve a desvontade de experiência
E em coração lento esvazia-se o espaço
Evita-se a permeabilidade evidente do corpo
E as violações atmosféricas.
Premei-se a preguiça
E o tempo esquece.
DE ESTAÇÕES
Numa primavera qualquer
Talvez na última
Fez-se alegria
Depois no verão
Que foi tumulto e ferocidade
Deu-se a revolução
Agora, outono da melancolia
E ansiedade
O inverno não tarda
E eu escondo-me
Entre comas e aspas
Evitando a decepção.
ACASO
É um acaso
A morte
A brisa, o gelo, a vida
O vento norte.
É um acaso
A solidão
A chuva, o rio, o amigo
A multidão.
É um acaso
O amor
O nevoeiro, a trovoada, o abraço
O grito de dor.
É um acaso
A sorte
A vida, a amizade, no regaço
da estação da morte.
CÁLICE DE PÉTALAS
No corpo da flor do jardim
Relembro a estação que a criou
Vejo no chão seco e gelado
O tempo que chega calado
E aguardo, ansiando, um lugar
Onde o inverno já passou.
NATURAL
É comum viver, pensar, agir e ser
Só a folha caída, perdida, inerte
Pisada
Se alheia do vento agreste que sopra do leste
E não luta.
É comum a batalha, a angústia, o vinho e a talha
Só a chuva cinzenta, fria, incerta
Gelada
Se alheia do tempo cruel no calendário de papel
E não escuta.
É como inventar, discutir, prever e falar
Da vida dos outros, desta e daquela
E pelo seu comportamento diferente, despreocupado
Indiferente e ocupado
A vida é apelidada de puta.
BANHO
Transporto no corpo
O sol que limpa e aquece
Nos cabelos
As folhas castanhas de um outono
E nas mãos em concha
Guardo a água fresca que no verão
Não esquece.
INEVITÁVEL
Posso mentir
Posso enganar, repelir e contornar
De palavras e de gestos
A próxima estação
Mas não posso evitar
O frio, o vento, o desaconchego
Com um simples
Não.
PEDAÇOS
De promessas de primavera
Decoro a casa e enfeito o cabelo
De minutos de verão
Visto o corpo e encho a algibeira
De paisagens de outono
Pinto as palavras e deslumbro os olhos
De frieza de inverno
Nego o espírito e rasgo o livro
Que não escrevi
Na preguiça dos serões
Sentada
Frente à lareira.
NEGO
Parece que esqueço
O sol, a cor, o tempo, o espaço e o torpor
De estações passadas
Com medo
Do frio, do cinzento, do vítreo e do incolor
Penso e estremeço
Porque é de prisão o jogo brumoso e baço
E escondo o corpo, o riso, o gesto e a palavra
Nego o deslumbramento de trocar o amor
E por detrás de uma porta
Envolvo o esquecimento
Com o meu próprio abraço.
INVERNO
Afinal é possível e esperado
O tempo frio, ventoso e esquecido
Inevitável a tempestade de inverno
Estação de receios e sofrimento
Causa de angústia e solidão
De poemas, palavras simples e rebeldes
De nostalgia e esquecimento.
Afinal é de beleza e de saudade
O tempo puro, lânguido e enternecido
Inevitável a liberdade de inverno
Estação de reencontros e sentimento
Permite a existência e inspiração
De música, melodias simples devaneios
De natureza
De contemplamento
De volúpia e de paixão.
2. companheiro de tropel
Por nada, olho parada
As crianças que se abrigam do mundo
A mão estendida não toca
E o vazio enche o eco de temores
Escondidos nas lágrimas de cristal.
Por entre as chamas de carne
Passeiam descalças comendo doces
Que fingem mães num abraço.
Acordo, em soluços e rumores
E sento-me nas conversas
De teor frívolo e imundo
Batendo as mãos em palmas, ouço vozes
Subindo no céu em espiral,
Procurando um tempo e um espaço
Onde poderão, um dia, sentir,
Viver e sorrir com calma.
Um lugar, onde as mãos unidas
Produzam poesia e paz
E as gargalhadas ecoem
Num grito único, universal.
Avó,
O tempo, porque passa?
O pêndulo do relógio de parede afrouxa
E enquanto avança o tempo por nada
O pêndulo pára.
Avó,
E agora?
Ficarei sempre com esta idade?
Enquanto a mãe, sem tempo, abraça
E de milagre, faz a vida parada
O filho, criança linda, cresce.
O olhar de ingénua luminosidade,
Perde, indiferente, a graça.
E o sonho de menino, desvanece.
Na vila o tempo é tudo
E o ninho, a pesca e o vento
Passam e reflectem um olhar sereno
De paz e ingenuidade.
Mas a vila é do mundo
E a vida embarga em processo lento
Tornando o sonho num lugar terreno
Invadido por laivos frios da cidade.
É ele,
Sorri de tudo e de nada,
Atira pedras às aves que passam,
Rouba vozes na praça,
Espreita as revistas nas montras
E fere com palavras a rapaziada.
Sabe as contas e as respostas,
Mas prefere escrita e leitura.
É esperto, vívido e rebelde
Mas sabe de amor e ternura,
Sabe o sim e o mistério,
Repele, mas também abraça,
Esconde o tempo em lugar secreto
Enfrenta a vida com desdém e raiva,
Mas anoitece no sonho, com brandura.
Perco o olhar nas sombras
De braços erguidos, nos sujos muros.
Nas legendas coçadas dos grafites anónimos,
Em ecos longínquos escuto
O rufar de vozes gritantes
Que profetizam ideais futuros.
O branco do horizonte desenha
O amanhã idêntico ao hoje,
E encosto o corpo dorido
Na grade escurecida da fonte
Perdendo, lentamente, a força
Que afasta o medo em direcções incertas
Ferindo de agulhas as palavras vazias
De gente que veste de poder os corpos.
E o nevoeiro amanhece o rosto cansado,
Baço de sonhos remotos
E preso na imobilidade de lutas tardias.
É de tudo o vazio, além.
Inspiro fragilidades
Que percorrem as veias
Enleadas de susto.
Expiro fragmentos
De palavras rochosas
Que ouço e imito de ver.
E as crateras alargam
Expelindo escuras e ardentes
Lavas de verdade.
Atiro as mãos, para lá das sombras
E seguro nos dedos
As noites que acabam
E os sonhos que se negam
A existir nas vidas sem liberdade.
Avó,
De tudo o que sabes,
O que mais gostas?
De mim, do mar ou do vento?
Do vento não pode ser
Porque é frio e leva o telheiro!
Do mar, talvez não,
Que devora o pescador!
E a mãe alimenta o filho sedento,
Que no lençol brando se deita
Feito de sonho verdadeiro,
De longos braços estendidos
Desvanecendo-se nela de amor.
Gosto do riso
E do lábio sujo de tinta.
Sento-me à tua frente e observo:
Como falas dos dias e do mal,
Das aventuras nos sonhos agitados
Que afastas de manhã com os doces
Porque os lençóis estavam molhados.
Leio nos teus olhos húmidos de cristal
As vontades incertas de amar
E os abraços que te foram negados.
Nos teus gestos, admiro a certeza
Da espera de um momento lento
Em que o sol desperte
E te aloire os cabelos despenteados,
Pela fresta que teimas em fechar.
No acaso dos dias cinzentos
Perguntas:
Avó,
Porque é a noite, escura?
Para as estrelas poderem brilhar?
Para que o sol possa dormir?
Para que eu não possa brincar?
Para que no meu sonho eu possa existir?
Ou, simplesmente,
Para que tu possas descansar?!
A noite é escura por tudo
E às vezes, também, por nada,
Chega muito devagarinho,
E, lentamente, escurece
Para que tu, a possas dormir.
Aparentemente o rebordo do tempo
Apresenta-se calmo
Nem nuvem, nem tempestade
Se alinham no horizonte.
Apenas a brisa leve do poente
Se empolga nos sorrisos treinados
Que desejam embarcar ao largo
Pulsando nas veias o desconhecido.
É a vida
Relatas tu nos textos escritos ao acaso,
Onde perdes a inocência e a virgindade,
Imaginando factos inacessíveis
Que escondes no sonho apertado
Num colete de forças que manténs intacto
E onde ninguém poderá invadir
Os segredos que aparentemente
Toda a gente sabe.
Sais de ti para o luar da noite
E foges nas estrelas interditas
Rastejando em vontades e mitos
Soletrando orações confundidas
De olhar fixo no ponto distante
Que veneras e no qual, ainda, acreditas.
Não desejaria, nunca, perturbar o teu espaço,
Apenas enveredar nas coordenadas
Que já imaginaste
E presenciar as cores da vida
Que enredaste no teu abraço.
É leve o sonho que desenhaste
E sublime a força da partida
Que no rascunho corta as barreiras imaginadas.
A tua casa é o teu preço caro
E o sol que se põe, o berço preciso
Para as viagens que tentas comprar
Sem nexo, sem fim real.
Mas a máscara que alugas, é sensível
E eu posso, de longe, mirar
Todos os gestos que imitas do mundo
E ver-te, fingindo, a sangrar
A vida que te é, quase, possível.
Sobranceiro ao gesto
O espaço.
De olhar fixo, no chão.
Avó,
Porque ecoa o grito que abafo?
Não ouves, no escuro, o silêncio?
Sou eu, avó, que volteio a razão.
Não sou capaz e basta.
Sinto falta do mundo
Que ensinaste,
E eu num canto cismava
Segurando na idade, o serão,
De noites, frias, ao relento,
Pulando os muros e mirando as vidraças
De luz e família, pintadas
Onde tu não estavas e eu faltava.
Escorregas devagarinho
Nos lençóis brancos de bruma
E no limiar do fresco cacimbo,
Cruzas os braços à volta do luar.
Não gostas da rua e do vazio
E retornas ao amniótico prazer
De pernas dobradas e as mãos no ventre
Viajando no tempo de ócio,
De nesgas que permitam amar
Pensas as vozes do corpo
E preferes, de soslaio
Aquele tempo que foi de nascer.
Podias ter dito, apenas,
Avó
Que grande foi o erro de nascer,
E não deixares o tempo gastar
Uma infância longínqua que
Fica para trás a esquecer
O encanto, o choro e o riso
De gestos que se sumiram num abraço
À volta do mundo por descobrir.
E agora o desencanto e a desilusão
Invadem o sonho que gela e embaraça
E suja os lençóis que mudas de angústia
Num silêncio de amor
Que ainda tentas descobrir
E me deixa esquecido num canto
Silenciando o costume
De um usual e teimoso, NÃO.
É um ano incendiário e guerreiro,
Avó.
Regastes as plantas?
O cão já comeu?
Que fazes debaixo desse vulto de silêncio?
A vida passa!
Não durmas ainda,
Conta aquela história que fala de nós.
No dia em que nos perdemos
No mato e gritámos, apenas,
Para não nos sentirmos sós.
Quero ouvir o teu modo de amar,
E crescer tranquilo.
Deixa-me afagar o teu colo,
E por entre as portas abertas
Ouvir o riso e mirar a voz
Que me fez gente, por entre os outros
Sem precisar de saber que
Para ser adulto é necessário ser duro
E ir à escola aprender
A desenlear a vida
E a soltá-la dos nós.
O TEMPO
Certamente, o tempo cria
Mas o tempo também mata
A hibernação, parêntisis de vida
Adia palavras soturnas
Absorve a desvontade de experiência
E em coração lento esvazia-se o espaço
Evita-se a permeabilidade evidente do corpo
E as violações atmosféricas.
Premei-se a preguiça
E o tempo esquece.
DE ESTAÇÕES
Numa primavera qualquer
Talvez na última
Fez-se alegria
Depois no verão
Que foi tumulto e ferocidade
Deu-se a revolução
Agora, outono da melancolia
E ansiedade
O inverno não tarda
E eu escondo-me
Entre comas e aspas
Evitando a decepção.
ACASO
É um acaso
A morte
A brisa, o gelo, a vida
O vento norte.
É um acaso
A solidão
A chuva, o rio, o amigo
A multidão.
É um acaso
O amor
O nevoeiro, a trovoada, o abraço
O grito de dor.
É um acaso
A sorte
A vida, a amizade, no regaço
da estação da morte.
CÁLICE DE PÉTALAS
No corpo da flor do jardim
Relembro a estação que a criou
Vejo no chão seco e gelado
O tempo que chega calado
E aguardo, ansiando, um lugar
Onde o inverno já passou.
NATURAL
É comum viver, pensar, agir e ser
Só a folha caída, perdida, inerte
Pisada
Se alheia do vento agreste que sopra do leste
E não luta.
É comum a batalha, a angústia, o vinho e a talha
Só a chuva cinzenta, fria, incerta
Gelada
Se alheia do tempo cruel no calendário de papel
E não escuta.
É como inventar, discutir, prever e falar
Da vida dos outros, desta e daquela
E pelo seu comportamento diferente, despreocupado
Indiferente e ocupado
A vida é apelidada de puta.
BANHO
Transporto no corpo
O sol que limpa e aquece
Nos cabelos
As folhas castanhas de um outono
E nas mãos em concha
Guardo a água fresca que no verão
Não esquece.
INEVITÁVEL
Posso mentir
Posso enganar, repelir e contornar
De palavras e de gestos
A próxima estação
Mas não posso evitar
O frio, o vento, o desaconchego
Com um simples
Não.
PEDAÇOS
De promessas de primavera
Decoro a casa e enfeito o cabelo
De minutos de verão
Visto o corpo e encho a algibeira
De paisagens de outono
Pinto as palavras e deslumbro os olhos
De frieza de inverno
Nego o espírito e rasgo o livro
Que não escrevi
Na preguiça dos serões
Sentada
Frente à lareira.
NEGO
Parece que esqueço
O sol, a cor, o tempo, o espaço e o torpor
De estações passadas
Com medo
Do frio, do cinzento, do vítreo e do incolor
Penso e estremeço
Porque é de prisão o jogo brumoso e baço
E escondo o corpo, o riso, o gesto e a palavra
Nego o deslumbramento de trocar o amor
E por detrás de uma porta
Envolvo o esquecimento
Com o meu próprio abraço.
INVERNO
Afinal é possível e esperado
O tempo frio, ventoso e esquecido
Inevitável a tempestade de inverno
Estação de receios e sofrimento
Causa de angústia e solidão
De poemas, palavras simples e rebeldes
De nostalgia e esquecimento.
Afinal é de beleza e de saudade
O tempo puro, lânguido e enternecido
Inevitável a liberdade de inverno
Estação de reencontros e sentimento
Permite a existência e inspiração
De música, melodias simples devaneios
De natureza
De contemplamento
De volúpia e de paixão.
2. companheiro de tropel
Por nada, olho parada
As crianças que se abrigam do mundo
A mão estendida não toca
E o vazio enche o eco de temores
Escondidos nas lágrimas de cristal.
Por entre as chamas de carne
Passeiam descalças comendo doces
Que fingem mães num abraço.
Acordo, em soluços e rumores
E sento-me nas conversas
De teor frívolo e imundo
Batendo as mãos em palmas, ouço vozes
Subindo no céu em espiral,
Procurando um tempo e um espaço
Onde poderão, um dia, sentir,
Viver e sorrir com calma.
Um lugar, onde as mãos unidas
Produzam poesia e paz
E as gargalhadas ecoem
Num grito único, universal.
Avó,
O tempo, porque passa?
O pêndulo do relógio de parede afrouxa
E enquanto avança o tempo por nada
O pêndulo pára.
Avó,
E agora?
Ficarei sempre com esta idade?
Enquanto a mãe, sem tempo, abraça
E de milagre, faz a vida parada
O filho, criança linda, cresce.
O olhar de ingénua luminosidade,
Perde, indiferente, a graça.
E o sonho de menino, desvanece.
Na vila o tempo é tudo
E o ninho, a pesca e o vento
Passam e reflectem um olhar sereno
De paz e ingenuidade.
Mas a vila é do mundo
E a vida embarga em processo lento
Tornando o sonho num lugar terreno
Invadido por laivos frios da cidade.
É ele,
Sorri de tudo e de nada,
Atira pedras às aves que passam,
Rouba vozes na praça,
Espreita as revistas nas montras
E fere com palavras a rapaziada.
Sabe as contas e as respostas,
Mas prefere escrita e leitura.
É esperto, vívido e rebelde
Mas sabe de amor e ternura,
Sabe o sim e o mistério,
Repele, mas também abraça,
Esconde o tempo em lugar secreto
Enfrenta a vida com desdém e raiva,
Mas anoitece no sonho, com brandura.
Perco o olhar nas sombras
De braços erguidos, nos sujos muros.
Nas legendas coçadas dos grafites anónimos,
Em ecos longínquos escuto
O rufar de vozes gritantes
Que profetizam ideais futuros.
O branco do horizonte desenha
O amanhã idêntico ao hoje,
E encosto o corpo dorido
Na grade escurecida da fonte
Perdendo, lentamente, a força
Que afasta o medo em direcções incertas
Ferindo de agulhas as palavras vazias
De gente que veste de poder os corpos.
E o nevoeiro amanhece o rosto cansado,
Baço de sonhos remotos
E preso na imobilidade de lutas tardias.
É de tudo o vazio, além.
Inspiro fragilidades
Que percorrem as veias
Enleadas de susto.
Expiro fragmentos
De palavras rochosas
Que ouço e imito de ver.
E as crateras alargam
Expelindo escuras e ardentes
Lavas de verdade.
Atiro as mãos, para lá das sombras
E seguro nos dedos
As noites que acabam
E os sonhos que se negam
A existir nas vidas sem liberdade.
Avó,
De tudo o que sabes,
O que mais gostas?
De mim, do mar ou do vento?
Do vento não pode ser
Porque é frio e leva o telheiro!
Do mar, talvez não,
Que devora o pescador!
E a mãe alimenta o filho sedento,
Que no lençol brando se deita
Feito de sonho verdadeiro,
De longos braços estendidos
Desvanecendo-se nela de amor.
Gosto do riso
E do lábio sujo de tinta.
Sento-me à tua frente e observo:
Como falas dos dias e do mal,
Das aventuras nos sonhos agitados
Que afastas de manhã com os doces
Porque os lençóis estavam molhados.
Leio nos teus olhos húmidos de cristal
As vontades incertas de amar
E os abraços que te foram negados.
Nos teus gestos, admiro a certeza
Da espera de um momento lento
Em que o sol desperte
E te aloire os cabelos despenteados,
Pela fresta que teimas em fechar.
No acaso dos dias cinzentos
Perguntas:
Avó,
Porque é a noite, escura?
Para as estrelas poderem brilhar?
Para que o sol possa dormir?
Para que eu não possa brincar?
Para que no meu sonho eu possa existir?
Ou, simplesmente,
Para que tu possas descansar?!
A noite é escura por tudo
E às vezes, também, por nada,
Chega muito devagarinho,
E, lentamente, escurece
Para que tu, a possas dormir.
Aparentemente o rebordo do tempo
Apresenta-se calmo
Nem nuvem, nem tempestade
Se alinham no horizonte.
Apenas a brisa leve do poente
Se empolga nos sorrisos treinados
Que desejam embarcar ao largo
Pulsando nas veias o desconhecido.
É a vida
Relatas tu nos textos escritos ao acaso,
Onde perdes a inocência e a virgindade,
Imaginando factos inacessíveis
Que escondes no sonho apertado
Num colete de forças que manténs intacto
E onde ninguém poderá invadir
Os segredos que aparentemente
Toda a gente sabe.
Sais de ti para o luar da noite
E foges nas estrelas interditas
Rastejando em vontades e mitos
Soletrando orações confundidas
De olhar fixo no ponto distante
Que veneras e no qual, ainda, acreditas.
Não desejaria, nunca, perturbar o teu espaço,
Apenas enveredar nas coordenadas
Que já imaginaste
E presenciar as cores da vida
Que enredaste no teu abraço.
É leve o sonho que desenhaste
E sublime a força da partida
Que no rascunho corta as barreiras imaginadas.
A tua casa é o teu preço caro
E o sol que se põe, o berço preciso
Para as viagens que tentas comprar
Sem nexo, sem fim real.
Mas a máscara que alugas, é sensível
E eu posso, de longe, mirar
Todos os gestos que imitas do mundo
E ver-te, fingindo, a sangrar
A vida que te é, quase, possível.
Sobranceiro ao gesto
O espaço.
De olhar fixo, no chão.
Avó,
Porque ecoa o grito que abafo?
Não ouves, no escuro, o silêncio?
Sou eu, avó, que volteio a razão.
Não sou capaz e basta.
Sinto falta do mundo
Que ensinaste,
E eu num canto cismava
Segurando na idade, o serão,
De noites, frias, ao relento,
Pulando os muros e mirando as vidraças
De luz e família, pintadas
Onde tu não estavas e eu faltava.
Escorregas devagarinho
Nos lençóis brancos de bruma
E no limiar do fresco cacimbo,
Cruzas os braços à volta do luar.
Não gostas da rua e do vazio
E retornas ao amniótico prazer
De pernas dobradas e as mãos no ventre
Viajando no tempo de ócio,
De nesgas que permitam amar
Pensas as vozes do corpo
E preferes, de soslaio
Aquele tempo que foi de nascer.
Podias ter dito, apenas,
Avó
Que grande foi o erro de nascer,
E não deixares o tempo gastar
Uma infância longínqua que
Fica para trás a esquecer
O encanto, o choro e o riso
De gestos que se sumiram num abraço
À volta do mundo por descobrir.
E agora o desencanto e a desilusão
Invadem o sonho que gela e embaraça
E suja os lençóis que mudas de angústia
Num silêncio de amor
Que ainda tentas descobrir
E me deixa esquecido num canto
Silenciando o costume
De um usual e teimoso, NÃO.
É um ano incendiário e guerreiro,
Avó.
Regastes as plantas?
O cão já comeu?
Que fazes debaixo desse vulto de silêncio?
A vida passa!
Não durmas ainda,
Conta aquela história que fala de nós.
No dia em que nos perdemos
No mato e gritámos, apenas,
Para não nos sentirmos sós.
Quero ouvir o teu modo de amar,
E crescer tranquilo.
Deixa-me afagar o teu colo,
E por entre as portas abertas
Ouvir o riso e mirar a voz
Que me fez gente, por entre os outros
Sem precisar de saber que
Para ser adulto é necessário ser duro
E ir à escola aprender
A desenlear a vida
E a soltá-la dos nós.
8.13.2004
AMOR
O amor é como magma.
No início, cera derretida
de vela com ligeira chama.
Mais tarde fogueira crepitante,
em crescendo revolvida,
que forma e reforma.
Depois, lava em corrente,
que sai em borbotão
de cada nova erupção,
e ardente, lasciva, procura
chegar o mais longe que puder.
E só então arrefece e, dura,
forma escuras brechas de mulher.
ALQUIMIAS:
No princípio, o amor
começa como barro,
tomando forma
por mãos habilidosas moldado.
Depois é gelatina
instável e hesitante.
Se de repente vira cristal
é lindo, embora frágil.
Mas para o vidro durar
tem de ser revestido,
de prata por exemplo.
Pode ficar ouro com o tempo
ou apenas oxidar.
Nalguns casos (tão poucos)
o cristal vira diamante
e nada, nada o pode quebrar.
VULCÕES:
Nalguns vulcões mais activos
formam-se no interior brilhantes,
tão bonitos, tão vivos,
reflectem todas as cores
Noutros só pedras escuras,
basalto e mais nada
quando ficam duras
e a fonte de calor é roubada
ANA PINTÃO
O amor é como magma.
No início, cera derretida
de vela com ligeira chama.
Mais tarde fogueira crepitante,
em crescendo revolvida,
que forma e reforma.
Depois, lava em corrente,
que sai em borbotão
de cada nova erupção,
e ardente, lasciva, procura
chegar o mais longe que puder.
E só então arrefece e, dura,
forma escuras brechas de mulher.
ALQUIMIAS:
No princípio, o amor
começa como barro,
tomando forma
por mãos habilidosas moldado.
Depois é gelatina
instável e hesitante.
Se de repente vira cristal
é lindo, embora frágil.
Mas para o vidro durar
tem de ser revestido,
de prata por exemplo.
Pode ficar ouro com o tempo
ou apenas oxidar.
Nalguns casos (tão poucos)
o cristal vira diamante
e nada, nada o pode quebrar.
VULCÕES:
Nalguns vulcões mais activos
formam-se no interior brilhantes,
tão bonitos, tão vivos,
reflectem todas as cores
Noutros só pedras escuras,
basalto e mais nada
quando ficam duras
e a fonte de calor é roubada
ANA PINTÃO
O CHÃO DAS FLORES
No tempo em que "Era uma vez"
Ainda era todas as vezes das histórias
Uma vez houve uma hortênsia
Que colheu uma Leonor e a guardou
No cantinho mais quentinho de sua raiz,
Que, como todos sabemos, é o coração das flores
Filhas dos continentes como dos Açores.
Pois então esta flor que assim fez
Como se faz na vida uma só vez,
Guardou no seu secreto coração
Não quatro flores, duas ou três
Mas apenas uma – vês??... Pois então!
Se estava descalça, ninguém sabe
Ou se não segura ia à fonte,
Mas que era flor que na raiz cabe
Doutra flor é bem verdade,
Tão verdade, que aqui conste.
E como o fez? Quem ouviu?
Quem reconheceu tal magia?
Quem aos anjos e a Deus pediu
Poder fazer o que a flor fez um dia?!...
Do que ao mundo foi notícia
E se disse na TV e jornais,
É que além de seu pai, mãe e irmão
Houve também um alentejano torrão
Que colheu essa hortênsia
Para a plantar no seu árido chão
De onde não saiu jamais.
E aí, a flor que tinha na raiz
Uma Leonor simples e bela
Floresceu tanto, que ainda hoje se diz
Ser aquele somente o jardim dela!
No tempo em que "Era uma vez"
Ainda era todas as vezes das histórias
Uma vez houve uma hortênsia
Que colheu uma Leonor e a guardou
No cantinho mais quentinho de sua raiz,
Que, como todos sabemos, é o coração das flores
Filhas dos continentes como dos Açores.
Pois então esta flor que assim fez
Como se faz na vida uma só vez,
Guardou no seu secreto coração
Não quatro flores, duas ou três
Mas apenas uma – vês??... Pois então!
Se estava descalça, ninguém sabe
Ou se não segura ia à fonte,
Mas que era flor que na raiz cabe
Doutra flor é bem verdade,
Tão verdade, que aqui conste.
E como o fez? Quem ouviu?
Quem reconheceu tal magia?
Quem aos anjos e a Deus pediu
Poder fazer o que a flor fez um dia?!...
Do que ao mundo foi notícia
E se disse na TV e jornais,
É que além de seu pai, mãe e irmão
Houve também um alentejano torrão
Que colheu essa hortênsia
Para a plantar no seu árido chão
De onde não saiu jamais.
E aí, a flor que tinha na raiz
Uma Leonor simples e bela
Floresceu tanto, que ainda hoje se diz
Ser aquele somente o jardim dela!
8.12.2004
FANTASIA E FUGA EM SOL MAIOR
Perdoo-me esta insanidade de sentir-te
Solta sobre o meu corpo domando-o
Subjugando-o ao fogo arguto do voo
Redimensionado no táctil augúrio
Como arco-íris de Vénus em Mercúrio,
Manto azul terreno envolvendo Marte.
Mas já intemporal adormeço naufragado
Em sonhos de corromper o instante tido
Que das ondas sou sempre o outro lado
Fustigado, e nos corais de mim compartido.
Aí, a seiva que brota em espuma se desfaz...
Fui eu a rapariga, enquanto tu o cavaleiro
Que sulcando em lemes o mar todo e inteiro,
Tremes porém no imo abraço derradeiro
Ao que explodindo em ti a minha lava
De vulcão assim me (re)tornei rapaz
- E tu, a praia fértil que o (a)mar cava!
Havia silêncio no sol-pôr, depondo
A resvalada réstia dos ocasos alvorados
Astro a astro, uma sinfonia compondo
De dedilhar arcanjos amputados.
Asas? Só as que a imaginação nos dá!
Essas sim, que são seguras e verdadeiras
Não ícaras sombras do lado de lá do lá,
A fazer autênticos alqueives e sementeiras
De produzir o trigo que em nós há...
Pão de searas selvagens os corpos
Incandescentes de bem-querer a vida
Notas de solfejo na paleta colorida
Na magia simples de arrotear encontros
De eu e tu, tu e eu, do eis à flor da pele
Colhendo das pétalas a cor, e do pólen... o mel!
JC - 11.08.04
Perdoo-me esta insanidade de sentir-te
Solta sobre o meu corpo domando-o
Subjugando-o ao fogo arguto do voo
Redimensionado no táctil augúrio
Como arco-íris de Vénus em Mercúrio,
Manto azul terreno envolvendo Marte.
Mas já intemporal adormeço naufragado
Em sonhos de corromper o instante tido
Que das ondas sou sempre o outro lado
Fustigado, e nos corais de mim compartido.
Aí, a seiva que brota em espuma se desfaz...
Fui eu a rapariga, enquanto tu o cavaleiro
Que sulcando em lemes o mar todo e inteiro,
Tremes porém no imo abraço derradeiro
Ao que explodindo em ti a minha lava
De vulcão assim me (re)tornei rapaz
- E tu, a praia fértil que o (a)mar cava!
Havia silêncio no sol-pôr, depondo
A resvalada réstia dos ocasos alvorados
Astro a astro, uma sinfonia compondo
De dedilhar arcanjos amputados.
Asas? Só as que a imaginação nos dá!
Essas sim, que são seguras e verdadeiras
Não ícaras sombras do lado de lá do lá,
A fazer autênticos alqueives e sementeiras
De produzir o trigo que em nós há...
Pão de searas selvagens os corpos
Incandescentes de bem-querer a vida
Notas de solfejo na paleta colorida
Na magia simples de arrotear encontros
De eu e tu, tu e eu, do eis à flor da pele
Colhendo das pétalas a cor, e do pólen... o mel!
JC - 11.08.04
8.11.2004
PARA TE VER
para te ver
cantei, dancei, pulei
para te ouvir
esperei, pensei, fiquei
para te entender
falei, perdi, cansei
para te sentir
nada fiz,
mas senti.
o teu abraço
acalmou
o meu tremor
como nenhum antes.
o teu dar é grande
como também o teu tirar.
alguma coisa em mim
te reconhece
e alguma coisa em ti
chama por mim.
a chama que se apaga
é só o sopro do vento
a passar pela vela.
a vela fica e o pavio também
imutáveis na sua natureza
e de novo se incendeiam
com o calor do momento...
quando as coisas não surgem na vida
como se quer e espera
deixamo-nos balançar pelas ondas
e aguarda-se.
a qualquer momento vira a maré
e lança-nos nas mãos
um búzio encantado
com o som que nos transporta
ANA PINTÃO
(11-09-03 - 3:31 da manhã)
CIÚME
Tenho ciúmes
Das sereias do mar
Das enguias do rio
Das estrelas do céu
Do vento a soprar
Da luz que te roça
E da terra inteira
Que te abraça
Tenho ciúmes
Das gentes e das outras
Das mesmas e das novas
Do que pensas e dizes
Daquilo que irás fazer
Ás vezes, no engano
Do amor que eu queria,
Até de mim própria...
ANA PINTÃO
(14.02.04 - 4 da manhã)
para te ver
cantei, dancei, pulei
para te ouvir
esperei, pensei, fiquei
para te entender
falei, perdi, cansei
para te sentir
nada fiz,
mas senti.
o teu abraço
acalmou
o meu tremor
como nenhum antes.
o teu dar é grande
como também o teu tirar.
alguma coisa em mim
te reconhece
e alguma coisa em ti
chama por mim.
a chama que se apaga
é só o sopro do vento
a passar pela vela.
a vela fica e o pavio também
imutáveis na sua natureza
e de novo se incendeiam
com o calor do momento...
quando as coisas não surgem na vida
como se quer e espera
deixamo-nos balançar pelas ondas
e aguarda-se.
a qualquer momento vira a maré
e lança-nos nas mãos
um búzio encantado
com o som que nos transporta
ANA PINTÃO
(11-09-03 - 3:31 da manhã)
CIÚME
Tenho ciúmes
Das sereias do mar
Das enguias do rio
Das estrelas do céu
Do vento a soprar
Da luz que te roça
E da terra inteira
Que te abraça
Tenho ciúmes
Das gentes e das outras
Das mesmas e das novas
Do que pensas e dizes
Daquilo que irás fazer
Ás vezes, no engano
Do amor que eu queria,
Até de mim própria...
ANA PINTÃO
(14.02.04 - 4 da manhã)
8.09.2004
Eis um dos contos de proposta para a próxima Comunidade de Leitores. Digam de vossa justiça, sobretudo a data e hora em que a devemos organizar.
Abrações
A ESFINGE SEM SEGREDO
por Oscar Wilde
UMA ÁGUA FORTE
Achava-me numa tarde sentado no terraço do Café Paz, contemplando o fausto e a pobreza da vida parisiense, a meditar, enquanto bebericava o meu vermute, sobre o estranho panorama de orgulho e miséria que desfilava diante de mim, quando ouvi alguém pronunciar o meu nome. Voltei-me e dei com os olhos em Lord Murchison. Não nos tínhamos tornado a ver desde que estivéramos juntos no colégio, havia isto uns dez anos, de modo que encheu-me de satisfação aquele encontro e apertamos as mãos cordialmente. Tínhamos sido grandes amigos em Oxford. Gostaria dele imensamente. Era tão bonito, tão comunicativo, tão cavalheiresco. Costumávamos dizer dele que seria o melhor dos sujeitos, se não falasse sempre a verdade, mas acho que, na realidade, o admirávamos mais justamente por causa da sua franqueza. Encontrei-o muito mudado. Parecia inquieto, perturbado e em dúvida a respeito de alguma coisa. Senti que não podia ser o cepticismo moderno, pois Murchison era um dos conservadores mais inabaláveis e acreditava no Pentateuco com a mesma firmeza com que acreditava na Câmara dos Pares. De modo que conclui que havia alguma mulher naquilo e perguntei-lhe se ainda não se havia casado.
- Não compreendo as mulheres bastante bem - respondeu.
- Meu caro Geraldo - disse -, as mulheres estão feitas para serem amadas e não para serem compreendidas.
- Não posso amar sem ter confiança absoluta - replicou.
- Creio que há um mistério na sua vida, Geraldo - exclamei. - Conte-me isso.
- Vamos dar um passeio de carro - respondeu. - Há gente demais aqui. Esse carro amarelo, não. Um de qualquer outra cor... aquele ali, verde escuro serve.
Dentro de poucos minutos estávamos a descer a trote o bulevar na direcção da Madalena.
- Para onde vamos? - perguntei.
- Oh! para onde você quiser! - respondeu. - Para o restaurante do Bosque. Jantaremos ali e contar-me-á tudo a respeito da sua vida.
- Primeiro quero que você me conte a sua. Revele-me o seu mistério.
Tirou do bolso uma pequena carteira de marroquim com fecho de prata e entregou-ma. Abri-a. Dentro havia a fotografia de uma mulher. Era alta e esbelta e de aspecto singular com grandes olhos misteriosos e cabelos soltos. Parecia uma clairvoyante (1) e achava-se envolta em ricas peles.
- Qual é a sua opinião a respeito desse rosto - perguntou ele. - Inspira confiança?
Examinei o retrato atentamente. Parecia-me o rosto de alguém que guarda um segredo, mas o que não podia dizer era se o segredo fosse bom ou mau. Aquela beleza parecia feita de muitos mistérios reunidos, uma beleza, de facto, mais psicológica do que plástica, e o ligeiro sorriso que lhe flutuava nos lábios era demasiado subtil para ter realmente encanto.
- Bem - exclamou ele, impaciente - que me diz?
- É a Gioconda em vestes de luto - respondi. - Conte-me tudo quanto a ela se refere.
- Agora não; depois do jantar - disse ele e começou a conversar a respeito de outras coisas.
Quando o empregado trouxe o nosso café e os cigarros, lembrei a Geraldo a sua promessa. Ele levantou-se da sua cadeira, caminhou duas ou três vezes acima e abaixo na sala e, deixando-se cair numa cadeira de braços, contou-me a seguinte história:
- Uma tarde, aí pelas cinco horas, descia eu pela Rua Bond. Havia uma terrível aglomeração de veículos e o tráfego quase parado. Perto do passeio estava parado um carrinho fechado, amarelo, que, por esse ou aquele motivo, atraiu a minha atenção. Ao passar ao seu lado, vi surgir dele, a olhar para fora, o rosto que lhe mostrei ainda há pouco. Fascinou-me imediatamente. Fiquei a noite inteira a pensar nele e o dia seguinte também. Subi e desci várias vezes por entre aquela maldita confusão, lançando um olhar perscrutador para dentro de todo carro, à espera do carro fechado amarelo. Mas não pude descobrir ma belle inconnue (2) e afinal comecei a pensar que era ela apenas um sonho. Cerca de uma semana depois, estava a jantar com Madame de Rastail. O jantar estava marcado para as oito horas, mas às oito e meia ainda nos achávamos à espera na sala de visitas. Por fim o criado abriu a porta e anunciou Lady Alroy. Era a mulher que eu estivera a procurar. Entrou muito devagar, parecendo um raio de lua cercado de renda cinzenta, e, para intenso deleite meu, pediram-me que a conduzisse à sala de jantar. Depois de nos sentarmos, observei-lhe com a maior inocência:
«Creio que já a vi, há algum tempo, na Rua Bond, Lady Alroy».
Ela ficou muito pálida e disse-me, em voz baixa:
«Por favor, não fale tão alto. Podem ouvi-lo».
Senti-me desditosíssimo por ter começado tão mal e mergulhei cegamente numa dissertação sobre peças francesas. Ela falava pouquíssimo, sempre com a mesma voz baixa e musical, parecendo receosa de que alguém a estivesse escutando. Senti-me apaixonadamente, estupidamente enamorado e a indefinível atmosfera de mistério que a cercava excitava, a mais não poder, a minha curiosidade. Quando ela se retirou, logo após o jantar, perguntei-lhe se poderia visitá-la. Hesitou um momento, olhou em redor para ver se alguém estava perto de nós e depois disse:
«Sim; amanhã a um quarto para as cinco».
Roguei a Madame de Rastail que me desse informações a respeito dela; mas tudo quanto pude saber é que era uma viúva, morando numa bela casa em Park Lane e, como naquele momento um desses cientistas cacetes começasse uma dissertação a respeito de viúvas, para exemplificar a sobrevivência dos matrimonialmente mais ajustados, despedi-me e fui para casa.
No dia seguinte cheguei pontualmente a Park Lane, no momento exacto, mas o mordomo disse-me que Lady Alroy tinha acabado de sair. Dirigi-me ao clube, bastante desiludido e confuso e, depois de muito reflectir, escrevi-lhe uma carta, perguntando-lhe se me seria permitido tentar a sorte em alguma outra parte. Por vários dias não recebi resposta, mas afinal chegou-me às mãos um bilhetinho, dizendo-me que estaria ela em casa no domingo, às quatro e com este extraordinário pós-escrito: «Por obséquio não torne a escrever para mim aqui; explicar-lhe-ei, quando o vir». No domingo, recebeu-me e mostrou-se perfeitamente encantadora. Mas quando me despedia, pediu-me que, se alguma vez tivesse ocasião de escrever-lhe de novo, dirigisse a minha carta para «Sra. Knox, aos cuidados da Biblioteca Whittaker, Rua Verde». «Há motivos - disse ela - pelos quais não posso receber cartas em minha própria casa».
Durante toda a temporada via-a amiudadas vezes e a atmosfera de mistério sempre se manteve em torno dela. Às vezes pensava que se achava ela em poder de algum homem, mas parecia tão inabordável que não podia acreditar naquilo. Era realmente difícil para mim chegar a qualquer conclusão, pois ela era como um desses estranhos cristais que a gente vê em museus e que são, num momento, claros, e em outro, turvos. Por fim, decidi-me a pedi-la em casamento. Senti-me doente e cansado daquele incessante segredo que impunha a todas as minhas visitas e às poucas cartas que lhe enviei. Escrevi-lhe para a biblioteca, perguntando-lhe se podia ver-me na segunda-feira seguinte, às seis horas. Respondeu que sim e senti-me transportado ao sétimo céu. Estava apaixonado por ela, a despeito do mistério, pensava então... em consequência dele, vejo agora. Não; era a mulher mesma que eu amava. O mistério perturbava-me, enlouquecia-me. Porque o acaso fez-me descobrir a pista?
- Descobriu-a então? - exclamei.
- Receio que sim - respondeu. - Julgue você por si mesmo. Quando chegou a segunda-feira, fui almoçar com meu tio e cerca das quatro horas encontrava-me em Marylebone Road. Meu tio, como você sabe, mora em Regent's Park. Queria alcançar Piccadilly e, para atalhar, meti-me por uma enfiada de becos miseráveis. De repente avistei à minha frente Lady Alroy, com um espesso véu e caminhando muito apressada. Ao chegar à derradeira casa da rua, subiu os degraus, tirou do bolso uma chave, abriu a porta e entrou. «Aqui está o mistério», disse a mim mesmo e apressei-me em examinar a casa. Parecia uma espécie de prédio de aluguer. No degrau da porta estava caído o lenço dela. Apanhei-o e meti-o no bolso. Depois comecei a reflectir no que devia fazer. Cheguei à conclusão de que não tinha o direito de espioná-la. Tomei um carro e segui para o clube. Às seis horas fui visitá-la. Estava sentada num sofá, em traje de chá, um tecido prateado, preso por uns broches de certas estranhas pedras lunares que sempre usava. Era de uma beleza perfeita.
«Alegra-me tanto vê-lo - disse. - Não saí hoje durante o dia».
Olhei para ela, estupefacto e tirando o lenço do meu bolso, entreguei-lho.
«Deixou cair isto esta tarde, Lady Alroy, na Rua Cumnor» - disse eu, calmamente.
Ela olhou para mim, aterrorizada, mas não fez o menor gesto para pegar no lenço.
«Que estava a fazer ali?» - perguntei.
«Que direito tem o senhor de fazer-me perguntas?» - replicou.
«O direito de um homem que a ama» - respondi-lhe. - «Vim aqui para pedi-la em casamento».
Ocultou o rosto nas mãos e desfez-se em pranto.
«Tem de responder-me» - continuei.
Ela ergueu-se e, fitando-me o rosto, disse:
«Lorde Murchison, nada tenho a dizer-lhe».
«Foi encontrar alguém» - exclamei. - «É esse o seu mistério».
Ela ficou terrivelmente pálida e disse:
«Não fui encontrar ninguém».
«Não pode dizer a verdade?» - exclamei.
«Já a disse» - replicou ela.
Eu estava a enlouquecer, alucinado. Não sei o que disse, mas foram coisas terríveis. Por fim, saí à pressa da casa. Escreveu-me uma carta no dia seguinte. Devolvi-lha, intacta e parti para a Noruega, em companhia de Alan Colville. Um mês depois regressei e a primeira coisa que vi no Morning Post foi a notícia da morte de Lady Alroy. Apanhara um resfriado na Ópera e morrera, dentro de cinco dias, de congestão pulmonar. Fechei-me em casa e não quis ver ninguém. Tinha-a amado tanto, tinha-a amado tão loucamente! Meu Deus! Quanto amara eu aquela mulher!
- E você, foi àquela rua, àquela casa? - perguntei.
- Sim - respondeu.
- Um dia, fui à Rua Cumnor. Não podia deixar de fazê-lo. Vivia torturado pela dúvida. Bati à porta e uma mulher de aspecto respeitável abriu-a para mim. Perguntei-lhe se havia quartos para alugar.
«Bem, meu senhor - respondeu ela - as salas podem ser alugadas, mas há três meses que não tenho visto a senhora e como os alugueres estão-se a acumular, o senhor poderá alugá-las».
«É esta a senhora?» - perguntei, mostrando-lhe a fotografia.
«É ela, sim, com toda certeza» - exclamou a mulher. - «E quando estará de volta, meu senhor?»
«Morreu» - respondi.
«Oh! meu senhor, não diga!» - disse a mulher. - «Era a minha melhor inquilina. Pagava-me três guinéus por semana simplesmente para vir sentar-se nesta minha sala de vez em quando».
«Encontrava-se com alguém aqui?» - perguntei, mas a mulher garantiu-me que tal não ocorria, que ela sempre vinha sozinha e não via ninguém.
«Mas afinal que fazia ela aqui?» - exclamei.
«Ficava simplesmente sentada na sala, meu senhor, lendo livros e às vezes tomava chá» - respondeu a mulher.
Não sabia o que dizer, de modo que lhe dei um soberano e saí. Agora, que pensa que significava tudo aquilo? Não acredita que a mulher estivesse a dizer a verdade?
- Acredito.
- Então por que ia Lady Alroy ali?
- Meu caro Geraldo - respondi - Lady Alroy era simplesmente uma mulher com a mania do mistério. Alugava aqueles quartos somente pelo prazer de ir ali, de véu descido e imaginando ser uma heroína. Tinha paixão pelo segredo, mas não passava de uma simples esfinge sem segredo.
- Estou convencido disto - repliquei.
Lorde Murchison tirou do bolso a carteira de marroquim, abriu-a e olhou a fotografia.
Quem sabe? - disse afinal.
Notas:
1 vidente
2 Minha bela desconhecida
Abrações
A ESFINGE SEM SEGREDO
por Oscar Wilde
UMA ÁGUA FORTE
Achava-me numa tarde sentado no terraço do Café Paz, contemplando o fausto e a pobreza da vida parisiense, a meditar, enquanto bebericava o meu vermute, sobre o estranho panorama de orgulho e miséria que desfilava diante de mim, quando ouvi alguém pronunciar o meu nome. Voltei-me e dei com os olhos em Lord Murchison. Não nos tínhamos tornado a ver desde que estivéramos juntos no colégio, havia isto uns dez anos, de modo que encheu-me de satisfação aquele encontro e apertamos as mãos cordialmente. Tínhamos sido grandes amigos em Oxford. Gostaria dele imensamente. Era tão bonito, tão comunicativo, tão cavalheiresco. Costumávamos dizer dele que seria o melhor dos sujeitos, se não falasse sempre a verdade, mas acho que, na realidade, o admirávamos mais justamente por causa da sua franqueza. Encontrei-o muito mudado. Parecia inquieto, perturbado e em dúvida a respeito de alguma coisa. Senti que não podia ser o cepticismo moderno, pois Murchison era um dos conservadores mais inabaláveis e acreditava no Pentateuco com a mesma firmeza com que acreditava na Câmara dos Pares. De modo que conclui que havia alguma mulher naquilo e perguntei-lhe se ainda não se havia casado.
- Não compreendo as mulheres bastante bem - respondeu.
- Meu caro Geraldo - disse -, as mulheres estão feitas para serem amadas e não para serem compreendidas.
- Não posso amar sem ter confiança absoluta - replicou.
- Creio que há um mistério na sua vida, Geraldo - exclamei. - Conte-me isso.
- Vamos dar um passeio de carro - respondeu. - Há gente demais aqui. Esse carro amarelo, não. Um de qualquer outra cor... aquele ali, verde escuro serve.
Dentro de poucos minutos estávamos a descer a trote o bulevar na direcção da Madalena.
- Para onde vamos? - perguntei.
- Oh! para onde você quiser! - respondeu. - Para o restaurante do Bosque. Jantaremos ali e contar-me-á tudo a respeito da sua vida.
- Primeiro quero que você me conte a sua. Revele-me o seu mistério.
Tirou do bolso uma pequena carteira de marroquim com fecho de prata e entregou-ma. Abri-a. Dentro havia a fotografia de uma mulher. Era alta e esbelta e de aspecto singular com grandes olhos misteriosos e cabelos soltos. Parecia uma clairvoyante (1) e achava-se envolta em ricas peles.
- Qual é a sua opinião a respeito desse rosto - perguntou ele. - Inspira confiança?
Examinei o retrato atentamente. Parecia-me o rosto de alguém que guarda um segredo, mas o que não podia dizer era se o segredo fosse bom ou mau. Aquela beleza parecia feita de muitos mistérios reunidos, uma beleza, de facto, mais psicológica do que plástica, e o ligeiro sorriso que lhe flutuava nos lábios era demasiado subtil para ter realmente encanto.
- Bem - exclamou ele, impaciente - que me diz?
- É a Gioconda em vestes de luto - respondi. - Conte-me tudo quanto a ela se refere.
- Agora não; depois do jantar - disse ele e começou a conversar a respeito de outras coisas.
Quando o empregado trouxe o nosso café e os cigarros, lembrei a Geraldo a sua promessa. Ele levantou-se da sua cadeira, caminhou duas ou três vezes acima e abaixo na sala e, deixando-se cair numa cadeira de braços, contou-me a seguinte história:
- Uma tarde, aí pelas cinco horas, descia eu pela Rua Bond. Havia uma terrível aglomeração de veículos e o tráfego quase parado. Perto do passeio estava parado um carrinho fechado, amarelo, que, por esse ou aquele motivo, atraiu a minha atenção. Ao passar ao seu lado, vi surgir dele, a olhar para fora, o rosto que lhe mostrei ainda há pouco. Fascinou-me imediatamente. Fiquei a noite inteira a pensar nele e o dia seguinte também. Subi e desci várias vezes por entre aquela maldita confusão, lançando um olhar perscrutador para dentro de todo carro, à espera do carro fechado amarelo. Mas não pude descobrir ma belle inconnue (2) e afinal comecei a pensar que era ela apenas um sonho. Cerca de uma semana depois, estava a jantar com Madame de Rastail. O jantar estava marcado para as oito horas, mas às oito e meia ainda nos achávamos à espera na sala de visitas. Por fim o criado abriu a porta e anunciou Lady Alroy. Era a mulher que eu estivera a procurar. Entrou muito devagar, parecendo um raio de lua cercado de renda cinzenta, e, para intenso deleite meu, pediram-me que a conduzisse à sala de jantar. Depois de nos sentarmos, observei-lhe com a maior inocência:
«Creio que já a vi, há algum tempo, na Rua Bond, Lady Alroy».
Ela ficou muito pálida e disse-me, em voz baixa:
«Por favor, não fale tão alto. Podem ouvi-lo».
Senti-me desditosíssimo por ter começado tão mal e mergulhei cegamente numa dissertação sobre peças francesas. Ela falava pouquíssimo, sempre com a mesma voz baixa e musical, parecendo receosa de que alguém a estivesse escutando. Senti-me apaixonadamente, estupidamente enamorado e a indefinível atmosfera de mistério que a cercava excitava, a mais não poder, a minha curiosidade. Quando ela se retirou, logo após o jantar, perguntei-lhe se poderia visitá-la. Hesitou um momento, olhou em redor para ver se alguém estava perto de nós e depois disse:
«Sim; amanhã a um quarto para as cinco».
Roguei a Madame de Rastail que me desse informações a respeito dela; mas tudo quanto pude saber é que era uma viúva, morando numa bela casa em Park Lane e, como naquele momento um desses cientistas cacetes começasse uma dissertação a respeito de viúvas, para exemplificar a sobrevivência dos matrimonialmente mais ajustados, despedi-me e fui para casa.
No dia seguinte cheguei pontualmente a Park Lane, no momento exacto, mas o mordomo disse-me que Lady Alroy tinha acabado de sair. Dirigi-me ao clube, bastante desiludido e confuso e, depois de muito reflectir, escrevi-lhe uma carta, perguntando-lhe se me seria permitido tentar a sorte em alguma outra parte. Por vários dias não recebi resposta, mas afinal chegou-me às mãos um bilhetinho, dizendo-me que estaria ela em casa no domingo, às quatro e com este extraordinário pós-escrito: «Por obséquio não torne a escrever para mim aqui; explicar-lhe-ei, quando o vir». No domingo, recebeu-me e mostrou-se perfeitamente encantadora. Mas quando me despedia, pediu-me que, se alguma vez tivesse ocasião de escrever-lhe de novo, dirigisse a minha carta para «Sra. Knox, aos cuidados da Biblioteca Whittaker, Rua Verde». «Há motivos - disse ela - pelos quais não posso receber cartas em minha própria casa».
Durante toda a temporada via-a amiudadas vezes e a atmosfera de mistério sempre se manteve em torno dela. Às vezes pensava que se achava ela em poder de algum homem, mas parecia tão inabordável que não podia acreditar naquilo. Era realmente difícil para mim chegar a qualquer conclusão, pois ela era como um desses estranhos cristais que a gente vê em museus e que são, num momento, claros, e em outro, turvos. Por fim, decidi-me a pedi-la em casamento. Senti-me doente e cansado daquele incessante segredo que impunha a todas as minhas visitas e às poucas cartas que lhe enviei. Escrevi-lhe para a biblioteca, perguntando-lhe se podia ver-me na segunda-feira seguinte, às seis horas. Respondeu que sim e senti-me transportado ao sétimo céu. Estava apaixonado por ela, a despeito do mistério, pensava então... em consequência dele, vejo agora. Não; era a mulher mesma que eu amava. O mistério perturbava-me, enlouquecia-me. Porque o acaso fez-me descobrir a pista?
- Descobriu-a então? - exclamei.
- Receio que sim - respondeu. - Julgue você por si mesmo. Quando chegou a segunda-feira, fui almoçar com meu tio e cerca das quatro horas encontrava-me em Marylebone Road. Meu tio, como você sabe, mora em Regent's Park. Queria alcançar Piccadilly e, para atalhar, meti-me por uma enfiada de becos miseráveis. De repente avistei à minha frente Lady Alroy, com um espesso véu e caminhando muito apressada. Ao chegar à derradeira casa da rua, subiu os degraus, tirou do bolso uma chave, abriu a porta e entrou. «Aqui está o mistério», disse a mim mesmo e apressei-me em examinar a casa. Parecia uma espécie de prédio de aluguer. No degrau da porta estava caído o lenço dela. Apanhei-o e meti-o no bolso. Depois comecei a reflectir no que devia fazer. Cheguei à conclusão de que não tinha o direito de espioná-la. Tomei um carro e segui para o clube. Às seis horas fui visitá-la. Estava sentada num sofá, em traje de chá, um tecido prateado, preso por uns broches de certas estranhas pedras lunares que sempre usava. Era de uma beleza perfeita.
«Alegra-me tanto vê-lo - disse. - Não saí hoje durante o dia».
Olhei para ela, estupefacto e tirando o lenço do meu bolso, entreguei-lho.
«Deixou cair isto esta tarde, Lady Alroy, na Rua Cumnor» - disse eu, calmamente.
Ela olhou para mim, aterrorizada, mas não fez o menor gesto para pegar no lenço.
«Que estava a fazer ali?» - perguntei.
«Que direito tem o senhor de fazer-me perguntas?» - replicou.
«O direito de um homem que a ama» - respondi-lhe. - «Vim aqui para pedi-la em casamento».
Ocultou o rosto nas mãos e desfez-se em pranto.
«Tem de responder-me» - continuei.
Ela ergueu-se e, fitando-me o rosto, disse:
«Lorde Murchison, nada tenho a dizer-lhe».
«Foi encontrar alguém» - exclamei. - «É esse o seu mistério».
Ela ficou terrivelmente pálida e disse:
«Não fui encontrar ninguém».
«Não pode dizer a verdade?» - exclamei.
«Já a disse» - replicou ela.
Eu estava a enlouquecer, alucinado. Não sei o que disse, mas foram coisas terríveis. Por fim, saí à pressa da casa. Escreveu-me uma carta no dia seguinte. Devolvi-lha, intacta e parti para a Noruega, em companhia de Alan Colville. Um mês depois regressei e a primeira coisa que vi no Morning Post foi a notícia da morte de Lady Alroy. Apanhara um resfriado na Ópera e morrera, dentro de cinco dias, de congestão pulmonar. Fechei-me em casa e não quis ver ninguém. Tinha-a amado tanto, tinha-a amado tão loucamente! Meu Deus! Quanto amara eu aquela mulher!
- E você, foi àquela rua, àquela casa? - perguntei.
- Sim - respondeu.
- Um dia, fui à Rua Cumnor. Não podia deixar de fazê-lo. Vivia torturado pela dúvida. Bati à porta e uma mulher de aspecto respeitável abriu-a para mim. Perguntei-lhe se havia quartos para alugar.
«Bem, meu senhor - respondeu ela - as salas podem ser alugadas, mas há três meses que não tenho visto a senhora e como os alugueres estão-se a acumular, o senhor poderá alugá-las».
«É esta a senhora?» - perguntei, mostrando-lhe a fotografia.
«É ela, sim, com toda certeza» - exclamou a mulher. - «E quando estará de volta, meu senhor?»
«Morreu» - respondi.
«Oh! meu senhor, não diga!» - disse a mulher. - «Era a minha melhor inquilina. Pagava-me três guinéus por semana simplesmente para vir sentar-se nesta minha sala de vez em quando».
«Encontrava-se com alguém aqui?» - perguntei, mas a mulher garantiu-me que tal não ocorria, que ela sempre vinha sozinha e não via ninguém.
«Mas afinal que fazia ela aqui?» - exclamei.
«Ficava simplesmente sentada na sala, meu senhor, lendo livros e às vezes tomava chá» - respondeu a mulher.
Não sabia o que dizer, de modo que lhe dei um soberano e saí. Agora, que pensa que significava tudo aquilo? Não acredita que a mulher estivesse a dizer a verdade?
- Acredito.
- Então por que ia Lady Alroy ali?
- Meu caro Geraldo - respondi - Lady Alroy era simplesmente uma mulher com a mania do mistério. Alugava aqueles quartos somente pelo prazer de ir ali, de véu descido e imaginando ser uma heroína. Tinha paixão pelo segredo, mas não passava de uma simples esfinge sem segredo.
- Estou convencido disto - repliquei.
Lorde Murchison tirou do bolso a carteira de marroquim, abriu-a e olhou a fotografia.
Quem sabe? - disse afinal.
Notas:
1 vidente
2 Minha bela desconhecida
8.03.2004
Pessoal: Que tal fazer uma sessão este mês da Comunidade de Leitores, a fim de aproveitar a presença, em férias, de alguns dos nossos elementos que nos acompanham à distância nas leituras? Conhecíamo-nos, trocávamos figurinhas e leituras, estabelecíamos paralelo com o que se anda a ler lá pelas estranjas e fazíamos o balanço da nossa actividade. De acordo? Pois bem, aventem as vossas sugestões prò mail de serviço. Vamos a isso, que o tempo urge!
7.26.2004
MAR
Tuas ondas brancas
Numa dança louca,
Desafiando o vento
Com a voz rouca,
Beijam a areia
Num abraço quente,
Vestindo meu corpo
De pérolas transparentes.
Meu cabelo negro
Solto na brisa,
Na minha corrida
Pela longa praia,
Parecem as algas
Que te dão vida
E prendem meus pés
Fazendo que eu caia.
Quando imitas o céu,
De um azul tão lindo
Que dá gosto vê-lo,
Ao olhar para ti
Apetece dizer:
OH! MAR,
COMO ÉS TÃO BELO!
Conceição Soares
Tuas ondas brancas
Numa dança louca,
Desafiando o vento
Com a voz rouca,
Beijam a areia
Num abraço quente,
Vestindo meu corpo
De pérolas transparentes.
Meu cabelo negro
Solto na brisa,
Na minha corrida
Pela longa praia,
Parecem as algas
Que te dão vida
E prendem meus pés
Fazendo que eu caia.
Quando imitas o céu,
De um azul tão lindo
Que dá gosto vê-lo,
Ao olhar para ti
Apetece dizer:
OH! MAR,
COMO ÉS TÃO BELO!
Conceição Soares
7.22.2004
7.20.2004
Fecho de ciclo
Dizes que te são familiares os meus poemas
Assim como que inscritos no silêncio de cada um
A germinar soluções químicas de encontrar apenas
O exemplar olhar de nos escrevermos em todos e nenhum?...
Pois bem, “amiga”: tens razão – falam do amor ao amor
A nossa casa, o nosso pão, o nosso quarto, a nossa sala comum
De viver o quotidiano soletrando terna companhia.
Falam de sentir prazer em dar prazer
Em naufragar nas ondas do sonho e fulgor
Da paixão como nunca antes houve um dia…
Falam de viver imediatamente aqui e agora
Entre as estações do tempo e do jardim, na cor
Da inocência de amar e querer sem esquecer
Que o mundo e a vida toda cabem numa hora!
Que são 60 minutos só nossos, de mais ninguém
A ditar-nos que as palavras são também família!....
J.C.
16-07-2004. 17h27
Dizes que te são familiares os meus poemas
Assim como que inscritos no silêncio de cada um
A germinar soluções químicas de encontrar apenas
O exemplar olhar de nos escrevermos em todos e nenhum?...
Pois bem, “amiga”: tens razão – falam do amor ao amor
A nossa casa, o nosso pão, o nosso quarto, a nossa sala comum
De viver o quotidiano soletrando terna companhia.
Falam de sentir prazer em dar prazer
Em naufragar nas ondas do sonho e fulgor
Da paixão como nunca antes houve um dia…
Falam de viver imediatamente aqui e agora
Entre as estações do tempo e do jardim, na cor
Da inocência de amar e querer sem esquecer
Que o mundo e a vida toda cabem numa hora!
Que são 60 minutos só nossos, de mais ninguém
A ditar-nos que as palavras são também família!....
J.C.
16-07-2004. 17h27
7.16.2004
Do dizer à alegria...
Para a Filipa
Haverá um lugar onde nada
E tudo aquilo que nos acontece
Seja enfim interpretável à luz
Transparente no espelho reflexo da água:
Que mistério é esse de olhar o rio?
Na cave os sentimentos sob as rosas
Os espinhos vencidos nas palavras de jus...
Na orla do silêncio de quem vê os barcos
Baloiçam nas correntes lisas, calados
Rumando à Foz escolhem murmúrios
Líquidos de ouros aguados a dizer sobre nós!
E embora a tarde esclareça e o sol
Brilhe lazarento a lavar-te os pés,
Subindo do vestido negro até ao corpo de quem és,
Sobre a relva verde e nua do roseiral
Há ainda a tímida dilaceração da voz
Registado no magneto de todas as micros-
Circunstâncias de sermos afinal tu e eu
Debaixo do mesmo tecto, do mesmo céu!...
Não, a ternura não modifica a gente
Apenas empurra quem já quer ser
E sendo evolui fazendo-se diferente
Para somar vitórias e seguir em frente.
Pois foi aí, aí entre a pergunta e a resposta
Virados para o rio, na sua encosta
Entre a Ternura e a Poesia
Que soube que é do dizer da alma que nasce
Que se nasce e renasce como quem cresce na alegria,
Porquanto possa haver um lugar assim acontece
Nascer-se dele se o acaso nos eternece!
Porto, 16 de Julho de 2004
Para a Filipa
Haverá um lugar onde nada
E tudo aquilo que nos acontece
Seja enfim interpretável à luz
Transparente no espelho reflexo da água:
Que mistério é esse de olhar o rio?
Na cave os sentimentos sob as rosas
Os espinhos vencidos nas palavras de jus...
Na orla do silêncio de quem vê os barcos
Baloiçam nas correntes lisas, calados
Rumando à Foz escolhem murmúrios
Líquidos de ouros aguados a dizer sobre nós!
E embora a tarde esclareça e o sol
Brilhe lazarento a lavar-te os pés,
Subindo do vestido negro até ao corpo de quem és,
Sobre a relva verde e nua do roseiral
Há ainda a tímida dilaceração da voz
Registado no magneto de todas as micros-
Circunstâncias de sermos afinal tu e eu
Debaixo do mesmo tecto, do mesmo céu!...
Não, a ternura não modifica a gente
Apenas empurra quem já quer ser
E sendo evolui fazendo-se diferente
Para somar vitórias e seguir em frente.
Pois foi aí, aí entre a pergunta e a resposta
Virados para o rio, na sua encosta
Entre a Ternura e a Poesia
Que soube que é do dizer da alma que nasce
Que se nasce e renasce como quem cresce na alegria,
Porquanto possa haver um lugar assim acontece
Nascer-se dele se o acaso nos eternece!
Porto, 16 de Julho de 2004
7.10.2004
Supramundana
O ar agitado segreda-me palavras mudas,
na carícia do momento encantado
onde irrompe o sonho rasgado,
na melodia doce que obriga
a murmurar loucuras...
e o coração profundamente inebriado,
no seu bater descompassado,
em racional loucura divaga.
Surge a imagem esplendorosa,
em rasgo de eloquência sucessivo
que desperta o desejo intensivo,
outrora guardado em surdina
no meio da mágoa...
e em avolumado ímpeto de paixão,
lança-me no meio do turbilhão,
onde me encontro para além do mundo.
Loucura
Louca! encontrei-te,
embebedando a alma de escuridão
e envolvendo-a de podridão,
com pensamentos insanamente febris.
Louca! Porque és louca
e não entendes a lágrima que corre
dos olhos que brilham inquietos,
num corpo que morre.
Louca! Se soubesses,
que o perfume são as preces
da rosa e da orquídea,
e não da mágoa que conheces!...
Depressa, encontra-te!
e solta os cabelos ao vento,
e no meio da tempestade
procura a loucura no momento.
Clandestino
Deambulamos num mundo de quimeras,
resgatando fragmentos de vida
que um dia foram de alguém.
Luz resplandecente
no breu soturno;
que percorremos num corcel
sequioso de existir;
efémero mel
delírio nocturno!...
Mundo utópico do sentir,
onde se lastima não viver
e o mais que possa haver...
Constantemente clandestino.
Finalmente
Despontou o primeiro raio de sol! enfim,
Quanta magnificência esperada!
Resplandece, pureza anunciada,
Acalentando meu pequeno coração.
Fortalece, a fragilidade da minh’alma,
Que se encobre amedrontada.
Irrompe, beleza suspirada,
Repelindo minha intensa solidão.
Ana Aires
O ar agitado segreda-me palavras mudas,
na carícia do momento encantado
onde irrompe o sonho rasgado,
na melodia doce que obriga
a murmurar loucuras...
e o coração profundamente inebriado,
no seu bater descompassado,
em racional loucura divaga.
Surge a imagem esplendorosa,
em rasgo de eloquência sucessivo
que desperta o desejo intensivo,
outrora guardado em surdina
no meio da mágoa...
e em avolumado ímpeto de paixão,
lança-me no meio do turbilhão,
onde me encontro para além do mundo.
Loucura
Louca! encontrei-te,
embebedando a alma de escuridão
e envolvendo-a de podridão,
com pensamentos insanamente febris.
Louca! Porque és louca
e não entendes a lágrima que corre
dos olhos que brilham inquietos,
num corpo que morre.
Louca! Se soubesses,
que o perfume são as preces
da rosa e da orquídea,
e não da mágoa que conheces!...
Depressa, encontra-te!
e solta os cabelos ao vento,
e no meio da tempestade
procura a loucura no momento.
Clandestino
Deambulamos num mundo de quimeras,
resgatando fragmentos de vida
que um dia foram de alguém.
Luz resplandecente
no breu soturno;
que percorremos num corcel
sequioso de existir;
efémero mel
delírio nocturno!...
Mundo utópico do sentir,
onde se lastima não viver
e o mais que possa haver...
Constantemente clandestino.
Finalmente
Despontou o primeiro raio de sol! enfim,
Quanta magnificência esperada!
Resplandece, pureza anunciada,
Acalentando meu pequeno coração.
Fortalece, a fragilidade da minh’alma,
Que se encobre amedrontada.
Irrompe, beleza suspirada,
Repelindo minha intensa solidão.
Ana Aires
7.07.2004
Viva! Como é: temos ou não CLP durante o mês de Julho? E, se sim, em que formato e sobre que obra e/ou autor? Bom... O que é certo, é que vamos ter que reunir-nos para pensar e decidir sobre que fazer, não é? Portanto, uma das coisas era acertarmos numa data e hora para o fazer, ok? Digam, revelem e reiterem! Aguardo notícias
6.26.2004
ANA...
Antes da palavra o verbo, o verso
Não a intenção, sim primeiro ela
Assim espontânea do azul universo
Aberto para o futuro qual janela
Momento feito aqui, feito de agora
Onde a saudade de ti me dói, implora
Tortura, mas não mata não, põe cela
Experimenta o medo, o pica de espora.
Antes da palavra, o puro anagrama
Nascido do princípio ao fim para o início
A eito de mim, como fogo me arde e chama:
Ana!
Pedro Ramus
Antes da palavra o verbo, o verso
Não a intenção, sim primeiro ela
Assim espontânea do azul universo
Aberto para o futuro qual janela
Momento feito aqui, feito de agora
Onde a saudade de ti me dói, implora
Tortura, mas não mata não, põe cela
Experimenta o medo, o pica de espora.
Antes da palavra, o puro anagrama
Nascido do princípio ao fim para o início
A eito de mim, como fogo me arde e chama:
Ana!
Pedro Ramus
6.18.2004
A questão está a avolumar-se: o conto não foi tratado como devia ter sido, por monopolização da parte de Ana Zanati e algumas pessoas que raramente vêm às sessões da CLP, a não ser que esteja nos seus interesses directos. Portanto, propomos a realização de uma sessão só pelo conto A CARTA ESQUECIDA... De acordo? Então vamos a isso!Digam, aventem as datas possíveis.
P.S.: É também possível que o espírito da CLP enfraqueça nos tempos próximos... Por exemplo, a actualização do blog pode sofrer alguns sobressaltos, pois dificultam-me o acesso à net na Biblioteca Municipal, pelo que apenas terei o tempo de frequência de uma hora diária, o que é de direito enquanto utilizador, e esse faz-me falta para outras coisas, minhas, pessoais...
P.S.: É também possível que o espírito da CLP enfraqueça nos tempos próximos... Por exemplo, a actualização do blog pode sofrer alguns sobressaltos, pois dificultam-me o acesso à net na Biblioteca Municipal, pelo que apenas terei o tempo de frequência de uma hora diária, o que é de direito enquanto utilizador, e esse faz-me falta para outras coisas, minhas, pessoais...
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