8.16.2004

1. as estações em volta

O TEMPO

Certamente, o tempo cria
Mas o tempo também mata
A hibernação, parêntisis de vida
Adia palavras soturnas
Absorve a desvontade de experiência
E em coração lento esvazia-se o espaço
Evita-se a permeabilidade evidente do corpo
E as violações atmosféricas.
Premei-se a preguiça
E o tempo esquece.


DE ESTAÇÕES

Numa primavera qualquer
Talvez na última
Fez-se alegria
Depois no verão
Que foi tumulto e ferocidade
Deu-se a revolução
Agora, outono da melancolia
E ansiedade
O inverno não tarda
E eu escondo-me
Entre comas e aspas
Evitando a decepção.


ACASO

É um acaso
A morte
A brisa, o gelo, a vida
O vento norte.
É um acaso
A solidão
A chuva, o rio, o amigo
A multidão.
É um acaso
O amor
O nevoeiro, a trovoada, o abraço
O grito de dor.
É um acaso
A sorte
A vida, a amizade, no regaço
da estação da morte.


CÁLICE DE PÉTALAS

No corpo da flor do jardim
Relembro a estação que a criou
Vejo no chão seco e gelado
O tempo que chega calado
E aguardo, ansiando, um lugar
Onde o inverno já passou.

NATURAL

É comum viver, pensar, agir e ser
Só a folha caída, perdida, inerte
Pisada
Se alheia do vento agreste que sopra do leste
E não luta.
É comum a batalha, a angústia, o vinho e a talha
Só a chuva cinzenta, fria, incerta
Gelada
Se alheia do tempo cruel no calendário de papel
E não escuta.
É como inventar, discutir, prever e falar
Da vida dos outros, desta e daquela
E pelo seu comportamento diferente, despreocupado
Indiferente e ocupado
A vida é apelidada de puta.

BANHO

Transporto no corpo
O sol que limpa e aquece
Nos cabelos
As folhas castanhas de um outono
E nas mãos em concha
Guardo a água fresca que no verão
Não esquece.

INEVITÁVEL

Posso mentir
Posso enganar, repelir e contornar
De palavras e de gestos
A próxima estação
Mas não posso evitar
O frio, o vento, o desaconchego
Com um simples
Não.

PEDAÇOS

De promessas de primavera
Decoro a casa e enfeito o cabelo
De minutos de verão
Visto o corpo e encho a algibeira
De paisagens de outono
Pinto as palavras e deslumbro os olhos
De frieza de inverno
Nego o espírito e rasgo o livro
Que não escrevi
Na preguiça dos serões
Sentada
Frente à lareira.

NEGO

Parece que esqueço
O sol, a cor, o tempo, o espaço e o torpor
De estações passadas
Com medo
Do frio, do cinzento, do vítreo e do incolor
Penso e estremeço
Porque é de prisão o jogo brumoso e baço
E escondo o corpo, o riso, o gesto e a palavra
Nego o deslumbramento de trocar o amor
E por detrás de uma porta
Envolvo o esquecimento
Com o meu próprio abraço.

INVERNO

Afinal é possível e esperado
O tempo frio, ventoso e esquecido
Inevitável a tempestade de inverno
Estação de receios e sofrimento
Causa de angústia e solidão
De poemas, palavras simples e rebeldes
De nostalgia e esquecimento.
Afinal é de beleza e de saudade
O tempo puro, lânguido e enternecido
Inevitável a liberdade de inverno
Estação de reencontros e sentimento
Permite a existência e inspiração
De música, melodias simples devaneios
De natureza
De contemplamento
De volúpia e de paixão.


2. companheiro de tropel


Por nada, olho parada
As crianças que se abrigam do mundo
A mão estendida não toca
E o vazio enche o eco de temores
Escondidos nas lágrimas de cristal.
Por entre as chamas de carne
Passeiam descalças comendo doces
Que fingem mães num abraço.
Acordo, em soluços e rumores
E sento-me nas conversas
De teor frívolo e imundo
Batendo as mãos em palmas, ouço vozes
Subindo no céu em espiral,
Procurando um tempo e um espaço
Onde poderão, um dia, sentir,
Viver e sorrir com calma.
Um lugar, onde as mãos unidas
Produzam poesia e paz
E as gargalhadas ecoem
Num grito único, universal.


Avó,
O tempo, porque passa?
O pêndulo do relógio de parede afrouxa
E enquanto avança o tempo por nada
O pêndulo pára.
Avó,
E agora?
Ficarei sempre com esta idade?
Enquanto a mãe, sem tempo, abraça
E de milagre, faz a vida parada
O filho, criança linda, cresce.
O olhar de ingénua luminosidade,
Perde, indiferente, a graça.
E o sonho de menino, desvanece.


Na vila o tempo é tudo
E o ninho, a pesca e o vento
Passam e reflectem um olhar sereno
De paz e ingenuidade.
Mas a vila é do mundo
E a vida embarga em processo lento
Tornando o sonho num lugar terreno
Invadido por laivos frios da cidade.


É ele,
Sorri de tudo e de nada,
Atira pedras às aves que passam,
Rouba vozes na praça,
Espreita as revistas nas montras
E fere com palavras a rapaziada.
Sabe as contas e as respostas,
Mas prefere escrita e leitura.
É esperto, vívido e rebelde
Mas sabe de amor e ternura,
Sabe o sim e o mistério,
Repele, mas também abraça,
Esconde o tempo em lugar secreto
Enfrenta a vida com desdém e raiva,
Mas anoitece no sonho, com brandura.


Perco o olhar nas sombras
De braços erguidos, nos sujos muros.
Nas legendas coçadas dos grafites anónimos,
Em ecos longínquos escuto
O rufar de vozes gritantes
Que profetizam ideais futuros.
O branco do horizonte desenha
O amanhã idêntico ao hoje,
E encosto o corpo dorido
Na grade escurecida da fonte
Perdendo, lentamente, a força
Que afasta o medo em direcções incertas
Ferindo de agulhas as palavras vazias
De gente que veste de poder os corpos.
E o nevoeiro amanhece o rosto cansado,
Baço de sonhos remotos
E preso na imobilidade de lutas tardias.


É de tudo o vazio, além.
Inspiro fragilidades
Que percorrem as veias
Enleadas de susto.
Expiro fragmentos
De palavras rochosas
Que ouço e imito de ver.
E as crateras alargam
Expelindo escuras e ardentes
Lavas de verdade.
Atiro as mãos, para lá das sombras
E seguro nos dedos
As noites que acabam
E os sonhos que se negam
A existir nas vidas sem liberdade.


Avó,
De tudo o que sabes,
O que mais gostas?
De mim, do mar ou do vento?
Do vento não pode ser
Porque é frio e leva o telheiro!
Do mar, talvez não,
Que devora o pescador!
E a mãe alimenta o filho sedento,
Que no lençol brando se deita
Feito de sonho verdadeiro,
De longos braços estendidos
Desvanecendo-se nela de amor.


Gosto do riso
E do lábio sujo de tinta.
Sento-me à tua frente e observo:
Como falas dos dias e do mal,
Das aventuras nos sonhos agitados
Que afastas de manhã com os doces
Porque os lençóis estavam molhados.
Leio nos teus olhos húmidos de cristal
As vontades incertas de amar
E os abraços que te foram negados.
Nos teus gestos, admiro a certeza
Da espera de um momento lento
Em que o sol desperte
E te aloire os cabelos despenteados,
Pela fresta que teimas em fechar.

No acaso dos dias cinzentos
Perguntas:
Avó,
Porque é a noite, escura?
Para as estrelas poderem brilhar?
Para que o sol possa dormir?
Para que eu não possa brincar?
Para que no meu sonho eu possa existir?
Ou, simplesmente,
Para que tu possas descansar?!

A noite é escura por tudo
E às vezes, também, por nada,
Chega muito devagarinho,
E, lentamente, escurece
Para que tu, a possas dormir.


Aparentemente o rebordo do tempo
Apresenta-se calmo
Nem nuvem, nem tempestade
Se alinham no horizonte.
Apenas a brisa leve do poente
Se empolga nos sorrisos treinados
Que desejam embarcar ao largo
Pulsando nas veias o desconhecido.
É a vida
Relatas tu nos textos escritos ao acaso,
Onde perdes a inocência e a virgindade,
Imaginando factos inacessíveis
Que escondes no sonho apertado
Num colete de forças que manténs intacto
E onde ninguém poderá invadir
Os segredos que aparentemente
Toda a gente sabe.
Sais de ti para o luar da noite
E foges nas estrelas interditas
Rastejando em vontades e mitos
Soletrando orações confundidas
De olhar fixo no ponto distante
Que veneras e no qual, ainda, acreditas.


Não desejaria, nunca, perturbar o teu espaço,
Apenas enveredar nas coordenadas
Que já imaginaste
E presenciar as cores da vida
Que enredaste no teu abraço.
É leve o sonho que desenhaste
E sublime a força da partida
Que no rascunho corta as barreiras imaginadas.
A tua casa é o teu preço caro
E o sol que se põe, o berço preciso
Para as viagens que tentas comprar
Sem nexo, sem fim real.
Mas a máscara que alugas, é sensível
E eu posso, de longe, mirar
Todos os gestos que imitas do mundo
E ver-te, fingindo, a sangrar
A vida que te é, quase, possível.


Sobranceiro ao gesto
O espaço.
De olhar fixo, no chão.
Avó,
Porque ecoa o grito que abafo?
Não ouves, no escuro, o silêncio?
Sou eu, avó, que volteio a razão.
Não sou capaz e basta.
Sinto falta do mundo
Que ensinaste,
E eu num canto cismava
Segurando na idade, o serão,
De noites, frias, ao relento,
Pulando os muros e mirando as vidraças
De luz e família, pintadas
Onde tu não estavas e eu faltava.


Escorregas devagarinho
Nos lençóis brancos de bruma
E no limiar do fresco cacimbo,
Cruzas os braços à volta do luar.
Não gostas da rua e do vazio
E retornas ao amniótico prazer
De pernas dobradas e as mãos no ventre
Viajando no tempo de ócio,
De nesgas que permitam amar
Pensas as vozes do corpo
E preferes, de soslaio
Aquele tempo que foi de nascer.


Podias ter dito, apenas,
Avó
Que grande foi o erro de nascer,
E não deixares o tempo gastar
Uma infância longínqua que
Fica para trás a esquecer
O encanto, o choro e o riso
De gestos que se sumiram num abraço
À volta do mundo por descobrir.
E agora o desencanto e a desilusão
Invadem o sonho que gela e embaraça
E suja os lençóis que mudas de angústia
Num silêncio de amor
Que ainda tentas descobrir
E me deixa esquecido num canto
Silenciando o costume
De um usual e teimoso, NÃO.


É um ano incendiário e guerreiro,
Avó.
Regastes as plantas?
O cão já comeu?
Que fazes debaixo desse vulto de silêncio?
A vida passa!
Não durmas ainda,
Conta aquela história que fala de nós.
No dia em que nos perdemos
No mato e gritámos, apenas,
Para não nos sentirmos sós.
Quero ouvir o teu modo de amar,
E crescer tranquilo.
Deixa-me afagar o teu colo,
E por entre as portas abertas
Ouvir o riso e mirar a voz
Que me fez gente, por entre os outros
Sem precisar de saber que
Para ser adulto é necessário ser duro
E ir à escola aprender
A desenlear a vida
E a soltá-la dos nós.

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