8.24.2004

CIRCUNAVEGAÇÕES PERIFÉRICAS

Às vezes, quando a gente fala do sol e do mar, do smog de Gaia e do nevoeiro baço da Foz, do verde e do odor do moliço, do vento norte e dos vestidos garridos das raparigas, somos levados a percorrer um imenso espaço de solidão e maravilha, como se fôssemos os únicos habitantes de uma geografia desfalcada, dum mundo exótico com os úberes repletos de imaginário e languidez, de mitos clássicos e Ulisses distantes a fundarem cidades ribeirinhas, onde fervilham os pregões, as pontes do progresso e os acasos. Aventuramo-nos no irremediável e consentimos que a urbe seja uma afinidade entre nós, que o poder seja uma simples circunstância que nos agrupa, que o cimo do céu seja uma boca livre, que o desespero continue a ser a arma dos fracos opcionais, que a coragem mais não seja que uma curva apertada, que a indiferença não passe da agressividade vingativa do intelecto ostracizado, que o amor se confunda com um buscar contínuo de ser buscado, e que, enfim, aqueles que não conseguem amar pereçam sobre a podridão que merecem. Alimentamo-nos de coisas pequenas e verticais como poetas, objectos e produtos de higiene, sabões e pastas dentríficas, servindo-nos das palavras insubmissas e insurrectas, simbólicas e peregrinas, para desmuralharmos os quotidianos. Ficamos a habitar a maldição dos tempos insuspeitos, porquanto Ulyan também nos seduziu, corrompeu e traiu, circunscrevendo-nos ao ibérico destino. Somos a véspera de nós. E, claro, esquecemos, ou nem sequer ousamos constatar que, ali ao fundo, na última esquina que dobrámos, naquele “boa tarde” mal pronunciado e dado em favor à vizinha, no jornal semanário onde os cronistas escamoteiam e apresentam, sem qualquer rebuço, catástrofes e diarreias, no frigorífico com sua luz tímida de iluminar tomates, na embalagem com bico decepado do leite homogeneizado, na sopa de três dias com gordura coalhada a boiar no cimo, no passe dos transportes públicos ou no grafismo do cartão de crédito, nos cereais empacotados da miserável frugalidade, há muito mais esforço poético e valia artística, esgrimida nos símbolos que nos representam e vivificam, do que em todo aquele escarmento romântico de plástico & cartão com que queremos imortalizar e hipalgisar os hieróglifos alfabetos de todas as resenhas pátrias, conformando-as em hinos de instantes tão supremos quanto derradeiros, de ferrar a faca nas costas dos que amam.
Até quando?... Por enquanto os velhos ainda continuam a repetir que noutros tempos (os deles) é que se trabalhava a valer, é que a vida era dura e o amor era amor.
No meu quarto de aluguer, entre as peúgas e as cuecas sujas, que é o sítio ideal para guardar dicionários e gramáticas, tenho uma cadela embalsamada – ah, mentira grande e descarada esta!... –, que em viva acudia pelo nome de Carriça, e que hoje só resta como ideia infantil, embora em vida tenha sido bastante dedicada ao dono, e fiel, e meiga, e amiga, e inspiradora, e terapêutica, que me transporta ao sossego preciso e necessário para acreditar que existo. E sabem porquê? Porque vejo nela tudo quanto a literatura (a arte) pode ser. Tem o pêlo lustroso mas não larga pulgas! Os olhos falsos e brilhantes que nada reflectem nem imploram, e a pose majestática duma esfinge secular! Não come, não ladra, não carece de ser passeada, não morde, nem larga gases, mas impõe respeito em qualquer sala!
Óbvio se torna, por conseguinte, que a minha comparticipação nesta nunca venha a ser bem sucedida e aceite, tanto por futricas como por talassas, e legítimo é que assim seja (Amém! Aleluia Senhor! Graçazadeus! Aleluia!!!...), visto serem várias as razões que para tal concorrem: primeiro, porque ela assenta em postulados e numa imagética em que acredito inequivocamente, porque a vivi em ruminantes quezílias com a instituição “ensino e educação”; segundo, porque não quis dar-me à comodidade de preencher um espaço em branco da contra-literatura, epitetada a falsos modos de clandestina, marginal e populista; terceiro, porque as temáticas e motivos não servem para ensarilhar lamechices, agradar às tias e seduzir as sobrinhas do sistema, ou tampouco para converter níqueis discípulos em apaniguados Mercedes e BMW´s, ou fitar a originalidade naif de assentar na moda da diferença; e quarto, ó reino dos amaldiçoados da sorte, porque me estou literalmente cagando para quem não pensa como eu, quem pensa que o faz, quem o faz mas não pensa, ou de quem julga que é moderno só porque a sua ignorância não o deixa ver que essa modernidade já foi rejeitada por obsoleta há que séculos!
Contudo, a ajuizar pelo que fica dito, não se pense que me empenhei em desenfrear a lasciva fúria de quem por artes ciprianas detém a esgarçarçada molécula da comunicação e os desígnios do grão-falar. Que o propósito não é tão didáctico e sublime, senhores!... E embora saiba, quem não sabe?, que “os monstros existem mesmo fora da nossa imaginação”, não profanarei a sua auréola de eleitos...


A FORÇA DO TEM QUE SER

Não estamos aqui para competir,
Nem tu, nem eu, temos nada com isso.
Crias o que podes
E eu criarei igualmente o que puder.
Faço o que quero só por o fazer
E tu farás o que queres só por o querer.
Eu sei que hei-de lá chegar
E tu também tens uma meta realizável.
Por isso, se fores para o mesmo lado que eu,
Ou se eu for para o mesmo lado que tu,
Encontrar-nos-emos certamente, o que será baril;
Mas se tal não acontecer, deixa lá,
É porque assim não tinha que ser
E não valerá a pena reinventar Abril!

ZÉ MARMELO

Zé Marmelo era brigão e berrava lá no Sítio de Casal
Parado na minha terra do Zé Marmelo, porque ele, sabem
Nunca cagou sentenças na televisão e podia berrar
E o Sítio era dum brigão, que era ele a sitiar.

Às vezes, à tarde, em verões escaldantes, sentava-me
Na parede à beira do alcatrão apenas para o ouvir
E ele gritava e dizia que havia de a matar, que ela era
Uma puta, uma puta!!!, e ela era só a mulher e mãe
Dos filhos dele, mas ele não queria saber disso,
Queria era o dinheiro dela para beber mais uns copos
De branco (jamais conseguiriam que mudasse para tinto)
E poder jogar uma bisca de soldado, e ter motivos
Para discutir com outro qualquer
E esquecer-se da mulher.
À noite, madrugada fora, iria roubar que comer de dia
E os donos das hortas sabiam que ele os roubava
Mas não queriam saber, nem se importavam,
Pelo que Zé Marmelo morreu sem nunca ter pedido
Nunca ter implorado nada a ninguém.

Ah, carago! Se ele vivo fosse hoje e militasse no partido
Muito havia de ensinar a estes políticos que a gente tem!

QUANDO A DIFERENÇA É DIFERENTE

Os olhos são os olhos, e os rostos os rostos,
Mas aquilo que os faz sorrir é uma coisa muito diferente;
E, se, por acaso ou virtude, eles o não fazem
É porque para isso foram plantados e dispostos
Como semeados em desgostos podem ser de repente
Os meus e os teus, na presença de qualquer imagem.

Que tenhamos à nascença um rótulo
Que nem sequer queremos usar, pouco importa!
Que se fazem os corpos iguais sem (des)vantagem
É pura utopia gemebunda de virgo imáculo,
Pois onde a natureza talha e corta
Acaba-se a feira e o espectáculo
E nasce a diferença, como desta nasce a coragem.

Agora, se da diferença fizermos o selo da derrota
É bem verdade que a culpa guia o leme de nossa rota!


FUS(T)ÃO POSSÍVEL

1.
O desejo é antecipação.
Um olhar é uma oportunidade de contornos. Uma oportunidade é uma circunstância. O poder cresce-nos como cornos. Circunstantes e oportunos.
Vejo-te; logo, possuo-te. Aqui começa a minha teoria da masturbação. Uma teoria é uma prática idealizada. A ausência uma tabuada incompleta e incontida. E se estás ausente, és uma impressão, um retalho na objectividade.
Cada um dispõe de si teoricamente, e de todos se (não) ausentes. Eu serei aquilo que tu quiseres que eu seja numa idealização oportuna. Tu és aquilo que eu penso numa prática circunstancial. Num gesto de punho em sobe e desce, vejo-te; logo, possuo-te. Imagino-te, teorizo-te. A circunstância transcendental é uma posse imaginada. Sou uma figura de passe entre os demais e tu. Sou a consciência do eu entre mãos, e a sua viabilidade na condução.
Eu é uma consciência. Uma consciência é um caminho. Um caminho é uma via. E esta uma habilidade. Enquanto os outros, as coisas e tu, forem viáveis, eu serei o que tenho de ti: mas tu és a circunstância; logo, possuo-te. És a oportunidade do meu eu olhado. Sem ti eu não podia ser via. Não era caminho. Não existia.
Tu és a existência. Existir é imaginar. Imaginar é possuir. Tenho-te. Tenho-me. Existimos!
Se o acaso acontece, aconteces. Se anoitece, anoiteces. E se és dia, levanto-me. Os meus olhos são o que contornam. Eles olham-te e eu vivo. Aconteço. Anoiteço. Levanto-me. E salivo.
Gulosa, é a circunstância do eu, face à oportunidade da posse. Sou eu quem salivo. Tu me salivas em eu salivando-me. Desejo: oportunidade. Desejo: posse. Desejo-te possuindo-me. Possuo-me desejando-te. Imagino-me tendo-te.
Paradoxo? Afinidade? Luz. Luz. Luz. Quase dia. Luminosidade. Atracção contraditória: o pólo busca o pólo se houver energia. Fluxo paradoxal. Languidez gulosa do eu. Eu lânguido, possuído. Pressionado na posse. Pressão opaca do querer: paixão. Eu e tu; tu e eu; eu outro; outro tu. Outro eu-não.
Mexo os lábios. Profiro. Proferir é preferir. Pré-ferir. Prefiro os lábios. E os lábios proferem os olhos. As mamas. A púbis. O sexo. Mas os olhos preferem a palavra. E esta profere-se. Digo: constato. Cons acto. Acto constante de pr(o/e)ferir. Pré-ferir. Pró-ferir. Os lábios são ameixas doces!...
Comes. Lambuzas-te. Devoras. Mas o caroço dos dentes embate na palavra. A palavra é o gesto da língua, e o dialecto é (a)mar(-)te. Comemo-nos. Lábios quase tudo no gesto impreciso de um clitóris periclitante.
Na líquida solicitude... é aí que morro e tu renasces. O dia desponta sempre assim! Lês. Proferes-te. Comes. Beijas. Solícitas embatem constantes as palavras gulosas na imagem viável da oportunidade tu. Igualmente prefiro-te.
Cedo-me. Medo-se-me. Teme-se o medo de ceder. Teme-se o cedo. É tarde. O mundo fica mesmo ali...
Ali...
Ali...
... ao lado. Sempre ao lado. Eréctil.
Toca-lhe... Vá, toca-lhe!!!

2.
Se vires chegar a gaivota com o bico aloirado de sol, não estranhes; ela me anuncia.
Se vires o pôr do sol raiado de violetas e uma brisa que vem do sul, não estranhes; eles me anunciam.
Se vires uma criança descalça e desnuda correndo pela relva do Jardim do Palácio, não estranhes; ela me anuncia.
Se vires algum velho sem-abrigo lambiscando a beata nos dedos amarelados, não estranhes; ele me anuncia.
Se vires o louco profeta de barbas despenteadas e sujas discursando contra o consumismo e energia nuclear, não estranhes; ele me anuncia.
Se vires o cão esquelético e faminto como pool de todos os abandonados do mundo, não estranhes; ele me anuncia.
Se vires um papiro esvoaçando sobre a multidão mecanizada, não estranhes; ele me anuncia.
Se vires cair da janela anónima uma fotografia rasgada, não estranhes; ela me anuncia.
Se vires os teus olhos brilharem numa noite de luar, não estranhes; eles me anunciam.
Se vires um sorriso urgente num rosto desconhecido, não estranhes; é a minha forma de estar contigo.
E depois de eu ter chegado
Muito depois do ainda não
E muito antes do já de volta
Finge que não me conheces
Faz gestos de negativa revolta
Faz negaças de comiseração
Faz traquinices de benesses
E dá o sonho por acabado.

Mas depois de eu implorar
De pedir um pouco de atenção
Inventa nomes que me trocam
Inventa partidas que te preguei
Inventa razões de negação
Inventam ditos que te adulam
Inventa actos que não pensei
E belisca-me para acordar.

E então depois de eu rogando
A teus pés pedir um sorriso
Diz-me, seca, fria, reclamando:
«Por favor... Tem juízo!»

E se então vires voltar ao nada uma fotografia, um papiro, um louco, um velho, uma criança, um pôr do sol, uma gaivota, um sem-abrigo, um cão, um sorriso, não entristeças, nem estranhes; é o Porto que me denuncia!

INSÓNIA DE VÉNUS

Aqui, não há humanidade nem moral...
Aqui, não há lei, não há fé, não há nada!
Aqui, tem-se somente a urgência total
De vencer o breu da noite desmaiada.
Aqui, a mecha niquelada manieta vil
Quem se atreva pela fresta deserta
Que nos deixaram Sebastião e Abril...
Aqui, apenas o sonho louco desperta!
Aqui, já se foi tudo quanto se pode ser.
Aqui, já se foi espada e coração de Jesus.
Aqui, já se fez guerra pelo amor de Mulher.

Aqui! Aqui... Onde as bocas se tocam em cruz
Houve uma borboleta que me veio dizer
O quanto é doce poisar em teus seios nus.

HISTÓRIA VERDADEIRA

Uma história verdadeira é um rei, uma mulher fértil
E um poeta pinga-amores.

Já me não apetece acabar as coisas
(Estou a ficar farto das latas de conserva!)
E quando meto por um caminho em que não encontro
Encruzilhadas, sinto fome e sede de alternativas.

Perco a lucidez se me depara tua boca sem hipótese de meu
Beijo (estou a ficar farto de consumos acabados!)
E quando meto por um corpo em que não encontro
Surpresas, sinto fome e sede de diferenças.

E desisto de mim se se profere o poema mais-que-perfeito
(Estou a ficar farto dos perfeccionismos castrativos!)
E quando meto por uma página sem cagadelas de mosca
Sinto dandys, dadás e dalis a corroer-me a consci

PASCI
ência-ência-ência-ência-ência.

É por isso que digo que numa história
Verdadeiro é um rei
Verdadeira é uma mulher fértil
Na mentira de um poeta pinga-amores.

8.16.2004

1. as estações em volta

O TEMPO

Certamente, o tempo cria
Mas o tempo também mata
A hibernação, parêntisis de vida
Adia palavras soturnas
Absorve a desvontade de experiência
E em coração lento esvazia-se o espaço
Evita-se a permeabilidade evidente do corpo
E as violações atmosféricas.
Premei-se a preguiça
E o tempo esquece.


DE ESTAÇÕES

Numa primavera qualquer
Talvez na última
Fez-se alegria
Depois no verão
Que foi tumulto e ferocidade
Deu-se a revolução
Agora, outono da melancolia
E ansiedade
O inverno não tarda
E eu escondo-me
Entre comas e aspas
Evitando a decepção.


ACASO

É um acaso
A morte
A brisa, o gelo, a vida
O vento norte.
É um acaso
A solidão
A chuva, o rio, o amigo
A multidão.
É um acaso
O amor
O nevoeiro, a trovoada, o abraço
O grito de dor.
É um acaso
A sorte
A vida, a amizade, no regaço
da estação da morte.


CÁLICE DE PÉTALAS

No corpo da flor do jardim
Relembro a estação que a criou
Vejo no chão seco e gelado
O tempo que chega calado
E aguardo, ansiando, um lugar
Onde o inverno já passou.

NATURAL

É comum viver, pensar, agir e ser
Só a folha caída, perdida, inerte
Pisada
Se alheia do vento agreste que sopra do leste
E não luta.
É comum a batalha, a angústia, o vinho e a talha
Só a chuva cinzenta, fria, incerta
Gelada
Se alheia do tempo cruel no calendário de papel
E não escuta.
É como inventar, discutir, prever e falar
Da vida dos outros, desta e daquela
E pelo seu comportamento diferente, despreocupado
Indiferente e ocupado
A vida é apelidada de puta.

BANHO

Transporto no corpo
O sol que limpa e aquece
Nos cabelos
As folhas castanhas de um outono
E nas mãos em concha
Guardo a água fresca que no verão
Não esquece.

INEVITÁVEL

Posso mentir
Posso enganar, repelir e contornar
De palavras e de gestos
A próxima estação
Mas não posso evitar
O frio, o vento, o desaconchego
Com um simples
Não.

PEDAÇOS

De promessas de primavera
Decoro a casa e enfeito o cabelo
De minutos de verão
Visto o corpo e encho a algibeira
De paisagens de outono
Pinto as palavras e deslumbro os olhos
De frieza de inverno
Nego o espírito e rasgo o livro
Que não escrevi
Na preguiça dos serões
Sentada
Frente à lareira.

NEGO

Parece que esqueço
O sol, a cor, o tempo, o espaço e o torpor
De estações passadas
Com medo
Do frio, do cinzento, do vítreo e do incolor
Penso e estremeço
Porque é de prisão o jogo brumoso e baço
E escondo o corpo, o riso, o gesto e a palavra
Nego o deslumbramento de trocar o amor
E por detrás de uma porta
Envolvo o esquecimento
Com o meu próprio abraço.

INVERNO

Afinal é possível e esperado
O tempo frio, ventoso e esquecido
Inevitável a tempestade de inverno
Estação de receios e sofrimento
Causa de angústia e solidão
De poemas, palavras simples e rebeldes
De nostalgia e esquecimento.
Afinal é de beleza e de saudade
O tempo puro, lânguido e enternecido
Inevitável a liberdade de inverno
Estação de reencontros e sentimento
Permite a existência e inspiração
De música, melodias simples devaneios
De natureza
De contemplamento
De volúpia e de paixão.


2. companheiro de tropel


Por nada, olho parada
As crianças que se abrigam do mundo
A mão estendida não toca
E o vazio enche o eco de temores
Escondidos nas lágrimas de cristal.
Por entre as chamas de carne
Passeiam descalças comendo doces
Que fingem mães num abraço.
Acordo, em soluços e rumores
E sento-me nas conversas
De teor frívolo e imundo
Batendo as mãos em palmas, ouço vozes
Subindo no céu em espiral,
Procurando um tempo e um espaço
Onde poderão, um dia, sentir,
Viver e sorrir com calma.
Um lugar, onde as mãos unidas
Produzam poesia e paz
E as gargalhadas ecoem
Num grito único, universal.


Avó,
O tempo, porque passa?
O pêndulo do relógio de parede afrouxa
E enquanto avança o tempo por nada
O pêndulo pára.
Avó,
E agora?
Ficarei sempre com esta idade?
Enquanto a mãe, sem tempo, abraça
E de milagre, faz a vida parada
O filho, criança linda, cresce.
O olhar de ingénua luminosidade,
Perde, indiferente, a graça.
E o sonho de menino, desvanece.


Na vila o tempo é tudo
E o ninho, a pesca e o vento
Passam e reflectem um olhar sereno
De paz e ingenuidade.
Mas a vila é do mundo
E a vida embarga em processo lento
Tornando o sonho num lugar terreno
Invadido por laivos frios da cidade.


É ele,
Sorri de tudo e de nada,
Atira pedras às aves que passam,
Rouba vozes na praça,
Espreita as revistas nas montras
E fere com palavras a rapaziada.
Sabe as contas e as respostas,
Mas prefere escrita e leitura.
É esperto, vívido e rebelde
Mas sabe de amor e ternura,
Sabe o sim e o mistério,
Repele, mas também abraça,
Esconde o tempo em lugar secreto
Enfrenta a vida com desdém e raiva,
Mas anoitece no sonho, com brandura.


Perco o olhar nas sombras
De braços erguidos, nos sujos muros.
Nas legendas coçadas dos grafites anónimos,
Em ecos longínquos escuto
O rufar de vozes gritantes
Que profetizam ideais futuros.
O branco do horizonte desenha
O amanhã idêntico ao hoje,
E encosto o corpo dorido
Na grade escurecida da fonte
Perdendo, lentamente, a força
Que afasta o medo em direcções incertas
Ferindo de agulhas as palavras vazias
De gente que veste de poder os corpos.
E o nevoeiro amanhece o rosto cansado,
Baço de sonhos remotos
E preso na imobilidade de lutas tardias.


É de tudo o vazio, além.
Inspiro fragilidades
Que percorrem as veias
Enleadas de susto.
Expiro fragmentos
De palavras rochosas
Que ouço e imito de ver.
E as crateras alargam
Expelindo escuras e ardentes
Lavas de verdade.
Atiro as mãos, para lá das sombras
E seguro nos dedos
As noites que acabam
E os sonhos que se negam
A existir nas vidas sem liberdade.


Avó,
De tudo o que sabes,
O que mais gostas?
De mim, do mar ou do vento?
Do vento não pode ser
Porque é frio e leva o telheiro!
Do mar, talvez não,
Que devora o pescador!
E a mãe alimenta o filho sedento,
Que no lençol brando se deita
Feito de sonho verdadeiro,
De longos braços estendidos
Desvanecendo-se nela de amor.


Gosto do riso
E do lábio sujo de tinta.
Sento-me à tua frente e observo:
Como falas dos dias e do mal,
Das aventuras nos sonhos agitados
Que afastas de manhã com os doces
Porque os lençóis estavam molhados.
Leio nos teus olhos húmidos de cristal
As vontades incertas de amar
E os abraços que te foram negados.
Nos teus gestos, admiro a certeza
Da espera de um momento lento
Em que o sol desperte
E te aloire os cabelos despenteados,
Pela fresta que teimas em fechar.

No acaso dos dias cinzentos
Perguntas:
Avó,
Porque é a noite, escura?
Para as estrelas poderem brilhar?
Para que o sol possa dormir?
Para que eu não possa brincar?
Para que no meu sonho eu possa existir?
Ou, simplesmente,
Para que tu possas descansar?!

A noite é escura por tudo
E às vezes, também, por nada,
Chega muito devagarinho,
E, lentamente, escurece
Para que tu, a possas dormir.


Aparentemente o rebordo do tempo
Apresenta-se calmo
Nem nuvem, nem tempestade
Se alinham no horizonte.
Apenas a brisa leve do poente
Se empolga nos sorrisos treinados
Que desejam embarcar ao largo
Pulsando nas veias o desconhecido.
É a vida
Relatas tu nos textos escritos ao acaso,
Onde perdes a inocência e a virgindade,
Imaginando factos inacessíveis
Que escondes no sonho apertado
Num colete de forças que manténs intacto
E onde ninguém poderá invadir
Os segredos que aparentemente
Toda a gente sabe.
Sais de ti para o luar da noite
E foges nas estrelas interditas
Rastejando em vontades e mitos
Soletrando orações confundidas
De olhar fixo no ponto distante
Que veneras e no qual, ainda, acreditas.


Não desejaria, nunca, perturbar o teu espaço,
Apenas enveredar nas coordenadas
Que já imaginaste
E presenciar as cores da vida
Que enredaste no teu abraço.
É leve o sonho que desenhaste
E sublime a força da partida
Que no rascunho corta as barreiras imaginadas.
A tua casa é o teu preço caro
E o sol que se põe, o berço preciso
Para as viagens que tentas comprar
Sem nexo, sem fim real.
Mas a máscara que alugas, é sensível
E eu posso, de longe, mirar
Todos os gestos que imitas do mundo
E ver-te, fingindo, a sangrar
A vida que te é, quase, possível.


Sobranceiro ao gesto
O espaço.
De olhar fixo, no chão.
Avó,
Porque ecoa o grito que abafo?
Não ouves, no escuro, o silêncio?
Sou eu, avó, que volteio a razão.
Não sou capaz e basta.
Sinto falta do mundo
Que ensinaste,
E eu num canto cismava
Segurando na idade, o serão,
De noites, frias, ao relento,
Pulando os muros e mirando as vidraças
De luz e família, pintadas
Onde tu não estavas e eu faltava.


Escorregas devagarinho
Nos lençóis brancos de bruma
E no limiar do fresco cacimbo,
Cruzas os braços à volta do luar.
Não gostas da rua e do vazio
E retornas ao amniótico prazer
De pernas dobradas e as mãos no ventre
Viajando no tempo de ócio,
De nesgas que permitam amar
Pensas as vozes do corpo
E preferes, de soslaio
Aquele tempo que foi de nascer.


Podias ter dito, apenas,
Avó
Que grande foi o erro de nascer,
E não deixares o tempo gastar
Uma infância longínqua que
Fica para trás a esquecer
O encanto, o choro e o riso
De gestos que se sumiram num abraço
À volta do mundo por descobrir.
E agora o desencanto e a desilusão
Invadem o sonho que gela e embaraça
E suja os lençóis que mudas de angústia
Num silêncio de amor
Que ainda tentas descobrir
E me deixa esquecido num canto
Silenciando o costume
De um usual e teimoso, NÃO.


É um ano incendiário e guerreiro,
Avó.
Regastes as plantas?
O cão já comeu?
Que fazes debaixo desse vulto de silêncio?
A vida passa!
Não durmas ainda,
Conta aquela história que fala de nós.
No dia em que nos perdemos
No mato e gritámos, apenas,
Para não nos sentirmos sós.
Quero ouvir o teu modo de amar,
E crescer tranquilo.
Deixa-me afagar o teu colo,
E por entre as portas abertas
Ouvir o riso e mirar a voz
Que me fez gente, por entre os outros
Sem precisar de saber que
Para ser adulto é necessário ser duro
E ir à escola aprender
A desenlear a vida
E a soltá-la dos nós.

8.13.2004

AMOR

O amor é como magma.
No início, cera derretida
de vela com ligeira chama.
Mais tarde fogueira crepitante,
em crescendo revolvida,
que forma e reforma.
Depois, lava em corrente,
que sai em borbotão
de cada nova erupção,
e ardente, lasciva, procura
chegar o mais longe que puder.
E só então arrefece e, dura,
forma escuras brechas de mulher.

ALQUIMIAS:

No princípio, o amor
começa como barro,
tomando forma
por mãos habilidosas moldado.
Depois é gelatina
instável e hesitante.
Se de repente vira cristal
é lindo, embora frágil.
Mas para o vidro durar
tem de ser revestido,
de prata por exemplo.
Pode ficar ouro com o tempo
ou apenas oxidar.
Nalguns casos (tão poucos)
o cristal vira diamante
e nada, nada o pode quebrar.

VULCÕES:

Nalguns vulcões mais activos
formam-se no interior brilhantes,
tão bonitos, tão vivos,
reflectem todas as cores
Noutros só pedras escuras,
basalto e mais nada
quando ficam duras
e a fonte de calor é roubada

ANA PINTÃO
O CHÃO DAS FLORES

No tempo em que "Era uma vez"
Ainda era todas as vezes das histórias
Uma vez houve uma hortênsia
Que colheu uma Leonor e a guardou
No cantinho mais quentinho de sua raiz,
Que, como todos sabemos, é o coração das flores
Filhas dos continentes como dos Açores.

Pois então esta flor que assim fez
Como se faz na vida uma só vez,
Guardou no seu secreto coração
Não quatro flores, duas ou três
Mas apenas uma – vês??... Pois então!

Se estava descalça, ninguém sabe
Ou se não segura ia à fonte,
Mas que era flor que na raiz cabe
Doutra flor é bem verdade,
Tão verdade, que aqui conste.

E como o fez? Quem ouviu?
Quem reconheceu tal magia?
Quem aos anjos e a Deus pediu
Poder fazer o que a flor fez um dia?!...

Do que ao mundo foi notícia
E se disse na TV e jornais,
É que além de seu pai, mãe e irmão
Houve também um alentejano torrão
Que colheu essa hortênsia
Para a plantar no seu árido chão
De onde não saiu jamais.

E aí, a flor que tinha na raiz
Uma Leonor simples e bela
Floresceu tanto, que ainda hoje se diz

Ser aquele somente o jardim dela!

8.12.2004

Que saudade

Que saudade daquela tarde,
Daquela praia…
E o veleiro.

Balouçando na água,
Embalado pela brisa.

Que saudade daquela tarde,
Daquele dia…
E o forte.

Amparado pela encosta,
Decorado pela Era.

Que saudade daquela tarde,
Daquele passeio… que saudade.


JRCosta.05-08-2004
FANTASIA E FUGA EM SOL MAIOR

Perdoo-me esta insanidade de sentir-te
Solta sobre o meu corpo domando-o
Subjugando-o ao fogo arguto do voo
Redimensionado no táctil augúrio
Como arco-íris de Vénus em Mercúrio,
Manto azul terreno envolvendo Marte.
Mas já intemporal adormeço naufragado
Em sonhos de corromper o instante tido
Que das ondas sou sempre o outro lado
Fustigado, e nos corais de mim compartido.
Aí, a seiva que brota em espuma se desfaz...
Fui eu a rapariga, enquanto tu o cavaleiro
Que sulcando em lemes o mar todo e inteiro,
Tremes porém no imo abraço derradeiro
Ao que explodindo em ti a minha lava
De vulcão assim me (re)tornei rapaz
- E tu, a praia fértil que o (a)mar cava!

Havia silêncio no sol-pôr, depondo
A resvalada réstia dos ocasos alvorados
Astro a astro, uma sinfonia compondo
De dedilhar arcanjos amputados.
Asas? Só as que a imaginação nos dá!
Essas sim, que são seguras e verdadeiras
Não ícaras sombras do lado de lá do lá,
A fazer autênticos alqueives e sementeiras
De produzir o trigo que em nós há...

Pão de searas selvagens os corpos
Incandescentes de bem-querer a vida
Notas de solfejo na paleta colorida
Na magia simples de arrotear encontros
De eu e tu, tu e eu, do eis à flor da pele
Colhendo das pétalas a cor, e do pólen... o mel!
JC - 11.08.04

8.11.2004

PARA TE VER

para te ver
cantei, dancei, pulei
para te ouvir
esperei, pensei, fiquei
para te entender
falei, perdi, cansei
para te sentir
nada fiz,
mas senti.

o teu abraço
acalmou
o meu tremor
como nenhum antes.
o teu dar é grande
como também o teu tirar.

alguma coisa em mim
te reconhece
e alguma coisa em ti
chama por mim.

a chama que se apaga
é só o sopro do vento
a passar pela vela.
a vela fica e o pavio também
imutáveis na sua natureza
e de novo se incendeiam
com o calor do momento...

quando as coisas não surgem na vida
como se quer e espera
deixamo-nos balançar pelas ondas
e aguarda-se.
a qualquer momento vira a maré
e lança-nos nas mãos
um búzio encantado
com o som que nos transporta

ANA PINTÃO
(11-09-03 - 3:31 da manhã)

CIÚME

Tenho ciúmes
Das sereias do mar
Das enguias do rio
Das estrelas do céu
Do vento a soprar
Da luz que te roça
E da terra inteira
Que te abraça

Tenho ciúmes
Das gentes e das outras
Das mesmas e das novas
Do que pensas e dizes
Daquilo que irás fazer
Ás vezes, no engano
Do amor que eu queria,
Até de mim própria...


ANA PINTÃO

(14.02.04 - 4 da manhã)

8.09.2004

Eis um dos contos de proposta para a próxima Comunidade de Leitores. Digam de vossa justiça, sobretudo a data e hora em que a devemos organizar.
Abrações
A ESFINGE SEM SEGREDO
por Oscar Wilde
UMA ÁGUA FORTE

Achava-me numa tarde sentado no terraço do Café Paz, contemplando o fausto e a pobreza da vida parisiense, a meditar, enquanto bebericava o meu vermute, sobre o estranho panorama de orgulho e miséria que desfilava diante de mim, quando ouvi alguém pronunciar o meu nome. Voltei-me e dei com os olhos em Lord Murchison. Não nos tínhamos tornado a ver desde que estivéramos juntos no colégio, havia isto uns dez anos, de modo que encheu-me de satisfação aquele encontro e apertamos as mãos cordialmente. Tínhamos sido grandes amigos em Oxford. Gostaria dele imensamente. Era tão bonito, tão comunicativo, tão cavalheiresco. Costumávamos dizer dele que seria o melhor dos sujeitos, se não falasse sempre a verdade, mas acho que, na realidade, o admirávamos mais justamente por causa da sua franqueza. Encontrei-o muito mudado. Parecia inquieto, perturbado e em dúvida a respeito de alguma coisa. Senti que não podia ser o cepticismo moderno, pois Murchison era um dos conservadores mais inabaláveis e acreditava no Pentateuco com a mesma firmeza com que acreditava na Câmara dos Pares. De modo que conclui que havia alguma mulher naquilo e perguntei-lhe se ainda não se havia casado.
- Não compreendo as mulheres bastante bem - respondeu.
- Meu caro Geraldo - disse -, as mulheres estão feitas para serem amadas e não para serem compreendidas.
- Não posso amar sem ter confiança absoluta - replicou.
- Creio que há um mistério na sua vida, Geraldo - exclamei. - Conte-me isso.
- Vamos dar um passeio de carro - respondeu. - Há gente demais aqui. Esse carro amarelo, não. Um de qualquer outra cor... aquele ali, verde escuro serve.
Dentro de poucos minutos estávamos a descer a trote o bulevar na direcção da Madalena.
- Para onde vamos? - perguntei.
- Oh! para onde você quiser! - respondeu. - Para o restaurante do Bosque. Jantaremos ali e contar-me-á tudo a respeito da sua vida.
- Primeiro quero que você me conte a sua. Revele-me o seu mistério.
Tirou do bolso uma pequena carteira de marroquim com fecho de prata e entregou-ma. Abri-a. Dentro havia a fotografia de uma mulher. Era alta e esbelta e de aspecto singular com grandes olhos misteriosos e cabelos soltos. Parecia uma clairvoyante (1) e achava-se envolta em ricas peles.
- Qual é a sua opinião a respeito desse rosto - perguntou ele. - Inspira confiança?
Examinei o retrato atentamente. Parecia-me o rosto de alguém que guarda um segredo, mas o que não podia dizer era se o segredo fosse bom ou mau. Aquela beleza parecia feita de muitos mistérios reunidos, uma beleza, de facto, mais psicológica do que plástica, e o ligeiro sorriso que lhe flutuava nos lábios era demasiado subtil para ter realmente encanto.
- Bem - exclamou ele, impaciente - que me diz?
- É a Gioconda em vestes de luto - respondi. - Conte-me tudo quanto a ela se refere.
- Agora não; depois do jantar - disse ele e começou a conversar a respeito de outras coisas.
Quando o empregado trouxe o nosso café e os cigarros, lembrei a Geraldo a sua promessa. Ele levantou-se da sua cadeira, caminhou duas ou três vezes acima e abaixo na sala e, deixando-se cair numa cadeira de braços, contou-me a seguinte história:
- Uma tarde, aí pelas cinco horas, descia eu pela Rua Bond. Havia uma terrível aglomeração de veículos e o tráfego quase parado. Perto do passeio estava parado um carrinho fechado, amarelo, que, por esse ou aquele motivo, atraiu a minha atenção. Ao passar ao seu lado, vi surgir dele, a olhar para fora, o rosto que lhe mostrei ainda há pouco. Fascinou-me imediatamente. Fiquei a noite inteira a pensar nele e o dia seguinte também. Subi e desci várias vezes por entre aquela maldita confusão, lançando um olhar perscrutador para dentro de todo carro, à espera do carro fechado amarelo. Mas não pude descobrir ma belle inconnue (2) e afinal comecei a pensar que era ela apenas um sonho. Cerca de uma semana depois, estava a jantar com Madame de Rastail. O jantar estava marcado para as oito horas, mas às oito e meia ainda nos achávamos à espera na sala de visitas. Por fim o criado abriu a porta e anunciou Lady Alroy. Era a mulher que eu estivera a procurar. Entrou muito devagar, parecendo um raio de lua cercado de renda cinzenta, e, para intenso deleite meu, pediram-me que a conduzisse à sala de jantar. Depois de nos sentarmos, observei-lhe com a maior inocência:
«Creio que já a vi, há algum tempo, na Rua Bond, Lady Alroy».
Ela ficou muito pálida e disse-me, em voz baixa:
«Por favor, não fale tão alto. Podem ouvi-lo».
Senti-me desditosíssimo por ter começado tão mal e mergulhei cegamente numa dissertação sobre peças francesas. Ela falava pouquíssimo, sempre com a mesma voz baixa e musical, parecendo receosa de que alguém a estivesse escutando. Senti-me apaixonadamente, estupidamente enamorado e a indefinível atmosfera de mistério que a cercava excitava, a mais não poder, a minha curiosidade. Quando ela se retirou, logo após o jantar, perguntei-lhe se poderia visitá-la. Hesitou um momento, olhou em redor para ver se alguém estava perto de nós e depois disse:
«Sim; amanhã a um quarto para as cinco».
Roguei a Madame de Rastail que me desse informações a respeito dela; mas tudo quanto pude saber é que era uma viúva, morando numa bela casa em Park Lane e, como naquele momento um desses cientistas cacetes começasse uma dissertação a respeito de viúvas, para exemplificar a sobrevivência dos matrimonialmente mais ajustados, despedi-me e fui para casa.
No dia seguinte cheguei pontualmente a Park Lane, no momento exacto, mas o mordomo disse-me que Lady Alroy tinha acabado de sair. Dirigi-me ao clube, bastante desiludido e confuso e, depois de muito reflectir, escrevi-lhe uma carta, perguntando-lhe se me seria permitido tentar a sorte em alguma outra parte. Por vários dias não recebi resposta, mas afinal chegou-me às mãos um bilhetinho, dizendo-me que estaria ela em casa no domingo, às quatro e com este extraordinário pós-escrito: «Por obséquio não torne a escrever para mim aqui; explicar-lhe-ei, quando o vir». No domingo, recebeu-me e mostrou-se perfeitamente encantadora. Mas quando me despedia, pediu-me que, se alguma vez tivesse ocasião de escrever-lhe de novo, dirigisse a minha carta para «Sra. Knox, aos cuidados da Biblioteca Whittaker, Rua Verde». «Há motivos - disse ela - pelos quais não posso receber cartas em minha própria casa».
Durante toda a temporada via-a amiudadas vezes e a atmosfera de mistério sempre se manteve em torno dela. Às vezes pensava que se achava ela em poder de algum homem, mas parecia tão inabordável que não podia acreditar naquilo. Era realmente difícil para mim chegar a qualquer conclusão, pois ela era como um desses estranhos cristais que a gente vê em museus e que são, num momento, claros, e em outro, turvos. Por fim, decidi-me a pedi-la em casamento. Senti-me doente e cansado daquele incessante segredo que impunha a todas as minhas visitas e às poucas cartas que lhe enviei. Escrevi-lhe para a biblioteca, perguntando-lhe se podia ver-me na segunda-feira seguinte, às seis horas. Respondeu que sim e senti-me transportado ao sétimo céu. Estava apaixonado por ela, a despeito do mistério, pensava então... em consequência dele, vejo agora. Não; era a mulher mesma que eu amava. O mistério perturbava-me, enlouquecia-me. Porque o acaso fez-me descobrir a pista?
- Descobriu-a então? - exclamei.
- Receio que sim - respondeu. - Julgue você por si mesmo. Quando chegou a segunda-feira, fui almoçar com meu tio e cerca das quatro horas encontrava-me em Marylebone Road. Meu tio, como você sabe, mora em Regent's Park. Queria alcançar Piccadilly e, para atalhar, meti-me por uma enfiada de becos miseráveis. De repente avistei à minha frente Lady Alroy, com um espesso véu e caminhando muito apressada. Ao chegar à derradeira casa da rua, subiu os degraus, tirou do bolso uma chave, abriu a porta e entrou. «Aqui está o mistério», disse a mim mesmo e apressei-me em examinar a casa. Parecia uma espécie de prédio de aluguer. No degrau da porta estava caído o lenço dela. Apanhei-o e meti-o no bolso. Depois comecei a reflectir no que devia fazer. Cheguei à conclusão de que não tinha o direito de espioná-la. Tomei um carro e segui para o clube. Às seis horas fui visitá-la. Estava sentada num sofá, em traje de chá, um tecido prateado, preso por uns broches de certas estranhas pedras lunares que sempre usava. Era de uma beleza perfeita.
«Alegra-me tanto vê-lo - disse. - Não saí hoje durante o dia».
Olhei para ela, estupefacto e tirando o lenço do meu bolso, entreguei-lho.
«Deixou cair isto esta tarde, Lady Alroy, na Rua Cumnor» - disse eu, calmamente.
Ela olhou para mim, aterrorizada, mas não fez o menor gesto para pegar no lenço.
«Que estava a fazer ali?» - perguntei.
«Que direito tem o senhor de fazer-me perguntas?» - replicou.
«O direito de um homem que a ama» - respondi-lhe. - «Vim aqui para pedi-la em casamento».
Ocultou o rosto nas mãos e desfez-se em pranto.
«Tem de responder-me» - continuei.
Ela ergueu-se e, fitando-me o rosto, disse:
«Lorde Murchison, nada tenho a dizer-lhe».
«Foi encontrar alguém» - exclamei. - «É esse o seu mistério».
Ela ficou terrivelmente pálida e disse:
«Não fui encontrar ninguém».
«Não pode dizer a verdade?» - exclamei.
«Já a disse» - replicou ela.
Eu estava a enlouquecer, alucinado. Não sei o que disse, mas foram coisas terríveis. Por fim, saí à pressa da casa. Escreveu-me uma carta no dia seguinte. Devolvi-lha, intacta e parti para a Noruega, em companhia de Alan Colville. Um mês depois regressei e a primeira coisa que vi no Morning Post foi a notícia da morte de Lady Alroy. Apanhara um resfriado na Ópera e morrera, dentro de cinco dias, de congestão pulmonar. Fechei-me em casa e não quis ver ninguém. Tinha-a amado tanto, tinha-a amado tão loucamente! Meu Deus! Quanto amara eu aquela mulher!
- E você, foi àquela rua, àquela casa? - perguntei.
- Sim - respondeu.
- Um dia, fui à Rua Cumnor. Não podia deixar de fazê-lo. Vivia torturado pela dúvida. Bati à porta e uma mulher de aspecto respeitável abriu-a para mim. Perguntei-lhe se havia quartos para alugar.
«Bem, meu senhor - respondeu ela - as salas podem ser alugadas, mas há três meses que não tenho visto a senhora e como os alugueres estão-se a acumular, o senhor poderá alugá-las».
«É esta a senhora?» - perguntei, mostrando-lhe a fotografia.
«É ela, sim, com toda certeza» - exclamou a mulher. - «E quando estará de volta, meu senhor?»
«Morreu» - respondi.
«Oh! meu senhor, não diga!» - disse a mulher. - «Era a minha melhor inquilina. Pagava-me três guinéus por semana simplesmente para vir sentar-se nesta minha sala de vez em quando».
«Encontrava-se com alguém aqui?» - perguntei, mas a mulher garantiu-me que tal não ocorria, que ela sempre vinha sozinha e não via ninguém.
«Mas afinal que fazia ela aqui?» - exclamei.
«Ficava simplesmente sentada na sala, meu senhor, lendo livros e às vezes tomava chá» - respondeu a mulher.
Não sabia o que dizer, de modo que lhe dei um soberano e saí. Agora, que pensa que significava tudo aquilo? Não acredita que a mulher estivesse a dizer a verdade?
- Acredito.
- Então por que ia Lady Alroy ali?
- Meu caro Geraldo - respondi - Lady Alroy era simplesmente uma mulher com a mania do mistério. Alugava aqueles quartos somente pelo prazer de ir ali, de véu descido e imaginando ser uma heroína. Tinha paixão pelo segredo, mas não passava de uma simples esfinge sem segredo.
- Estou convencido disto - repliquei.
Lorde Murchison tirou do bolso a carteira de marroquim, abriu-a e olhou a fotografia.
Quem sabe? - disse afinal.
Notas:
1 vidente
2 Minha bela desconhecida

8.03.2004

Pessoal: Que tal fazer uma sessão este mês da Comunidade de Leitores, a fim de aproveitar a presença, em férias, de alguns dos nossos elementos que nos acompanham à distância nas leituras? Conhecíamo-nos, trocávamos figurinhas e leituras, estabelecíamos paralelo com o que se anda a ler lá pelas estranjas e fazíamos o balanço da nossa actividade. De acordo? Pois bem, aventem as vossas sugestões prò mail de serviço. Vamos a isso, que o tempo urge!

7.26.2004

      MAR



Tuas ondas brancas
Numa dança louca,
Desafiando o vento
Com a voz rouca,
Beijam a areia
Num abraço quente,
Vestindo meu corpo
De pérolas transparentes.
Meu cabelo negro
Solto na brisa,
Na minha corrida
Pela longa praia,
Parecem as algas
Que te dão vida
E prendem meus pés
Fazendo que eu caia.
Quando imitas o céu,
De um azul tão lindo
Que dá gosto vê-lo,
Ao olhar para ti
Apetece dizer:
OH! MAR,
COMO ÉS TÃO BELO!

Conceição Soares

7.22.2004

Tinha saudades de viver em verso!
Nem me apercebia do que tinha submerso
Se não tivesse ido à rua
Ver a lua...
Entretanto, vi-te; e preferi o teu olhar
Ao pálido luar.
                                  Philipa B. Antunes
                                       (20.07.04)

7.20.2004

Fecho de ciclo


Dizes que te são familiares os meus poemas
Assim como que inscritos no silêncio de cada um
A germinar soluções químicas de encontrar apenas
O exemplar olhar de nos escrevermos em todos e nenhum?...

Pois bem, “amiga”: tens razão – falam do amor ao amor
A nossa casa, o nosso pão, o nosso quarto, a nossa sala comum
De viver o quotidiano soletrando terna companhia.

Falam de sentir prazer em dar prazer
Em naufragar nas ondas do sonho e fulgor
Da paixão como nunca antes houve um dia…

Falam de viver imediatamente aqui e agora
Entre as estações do tempo e do jardim, na cor
Da inocência de amar e querer sem esquecer
Que o mundo e a vida toda cabem numa hora!

Que são 60 minutos só nossos, de mais ninguém
A ditar-nos que as palavras são também família!....

J.C.
16-07-2004. 17h27

7.16.2004

Do dizer à alegria...
              
                    Para a Filipa
 
Haverá um lugar onde nada
E tudo aquilo que nos acontece
Seja enfim interpretável à luz
Transparente no espelho reflexo da água:
Que mistério é esse de olhar o rio?
Na cave os sentimentos sob as rosas
Os espinhos vencidos nas palavras de jus...
 
Na orla do silêncio de quem vê os barcos
Baloiçam nas correntes lisas, calados
Rumando à Foz escolhem murmúrios
Líquidos de ouros aguados a dizer sobre nós!
E embora a tarde esclareça e o sol
Brilhe lazarento a lavar-te os pés,
Subindo do vestido negro até ao corpo de quem és,
Sobre a relva verde e nua do roseiral
Há ainda a tímida dilaceração da voz
Registado no magneto de todas as micros-
Circunstâncias de sermos afinal tu e eu
Debaixo do mesmo tecto, do mesmo céu!...
 
Não, a ternura não modifica a gente
Apenas empurra quem já quer ser
E sendo evolui fazendo-se diferente
Para somar vitórias e seguir em frente.
 
Pois foi aí, aí entre a pergunta e a resposta
Virados para o rio, na sua encosta
Entre a Ternura e a Poesia
Que soube que é do dizer da alma que nasce
Que se nasce e renasce como quem cresce na alegria,
Porquanto possa haver um lugar assim acontece
Nascer-se dele se o acaso nos eternece!
 
Porto, 16 de Julho de 2004

7.10.2004

Supramundana

O ar agitado segreda-me palavras mudas,
na carícia do momento encantado
onde irrompe o sonho rasgado,
na melodia doce que obriga
a murmurar loucuras...
e o coração profundamente inebriado,
no seu bater descompassado,
em racional loucura divaga.

Surge a imagem esplendorosa,
em rasgo de eloquência sucessivo
que desperta o desejo intensivo,
outrora guardado em surdina
no meio da mágoa...
e em avolumado ímpeto de paixão,
lança-me no meio do turbilhão,
onde me encontro para além do mundo.



Loucura

Louca! encontrei-te,
embebedando a alma de escuridão
e envolvendo-a de podridão,
com pensamentos insanamente febris.

Louca! Porque és louca
e não entendes a lágrima que corre
dos olhos que brilham inquietos,
num corpo que morre.

Louca! Se soubesses,
que o perfume são as preces
da rosa e da orquídea,
e não da mágoa que conheces!...

Depressa, encontra-te!
e solta os cabelos ao vento,
e no meio da tempestade
procura a loucura no momento.


Clandestino




Deambulamos num mundo de quimeras,
resgatando fragmentos de vida
que um dia foram de alguém.
Luz resplandecente
no breu soturno;
que percorremos num corcel
sequioso de existir;
efémero mel
delírio nocturno!...
Mundo utópico do sentir,
onde se lastima não viver
e o mais que possa haver...
Constantemente clandestino.



Finalmente


Despontou o primeiro raio de sol! enfim,
Quanta magnificência esperada!
Resplandece, pureza anunciada,
Acalentando meu pequeno coração.
Fortalece, a fragilidade da minh’alma,
Que se encobre amedrontada.
Irrompe, beleza suspirada,
Repelindo minha intensa solidão.

Ana Aires

7.07.2004

Viva! Como é: temos ou não CLP durante o mês de Julho? E, se sim, em que formato e sobre que obra e/ou autor? Bom... O que é certo, é que vamos ter que reunir-nos para pensar e decidir sobre que fazer, não é? Portanto, uma das coisas era acertarmos numa data e hora para o fazer, ok? Digam, revelem e reiterem! Aguardo notícias

6.26.2004

ANA...

Antes da palavra o verbo, o verso
Não a intenção, sim primeiro ela
Assim espontânea do azul universo

Aberto para o futuro qual janela
Momento feito aqui, feito de agora
Onde a saudade de ti me dói, implora
Tortura, mas não mata não, põe cela
Experimenta o medo, o pica de espora.

Antes da palavra, o puro anagrama
Nascido do princípio ao fim para o início
A eito de mim, como fogo me arde e chama:

Ana!

Pedro Ramus

6.18.2004

A questão está a avolumar-se: o conto não foi tratado como devia ter sido, por monopolização da parte de Ana Zanati e algumas pessoas que raramente vêm às sessões da CLP, a não ser que esteja nos seus interesses directos. Portanto, propomos a realização de uma sessão só pelo conto A CARTA ESQUECIDA... De acordo? Então vamos a isso!Digam, aventem as datas possíveis.
P.S.: É também possível que o espírito da CLP enfraqueça nos tempos próximos... Por exemplo, a actualização do blog pode sofrer alguns sobressaltos, pois dificultam-me o acesso à net na Biblioteca Municipal, pelo que apenas terei o tempo de frequência de uma hora diária, o que é de direito enquanto utilizador, e esse faz-me falta para outras coisas, minhas, pessoais...

6.14.2004

A sessão com a escritora Ana Zanati decorreu de vento em popa, mas não foi abordado o conto A CARTA ESQUECIDA, como seria de esperar. É provável que em tempo útil seja feita outra sessão da CLP acerca dele. Até lá, não se esqueçam de ir frequentando o http://gatomontez.no.sapo.pt para desanuviar... Boa sorte!

6.08.2004

No domingo passado, dia 6 de Junho, por volta das 19 horas, no recinto da Feira do Livro e do Disco, nos claustros do Convento de Santa Clara, em Portalegre, Rui Ferreira, actor de teatro da Companhia de Teatro de Portalegre, leu em palco, alguns poemas de Joaquim Castanho... Não obstante os contratempos esta leitura recebeu alguma simpatia da parte dos presentes, facto que justificou os responsáveis pelo evento a solicitarem a sua repetição no dia 10, quinta-feira, nos mesmo local, em hora a combinar, desde que a partir das 18 horas, que é o horário disponível da parte do actor. A leitura tem a duração de 20 minutos e consta de uma série de poemas que têm como temática comum (e central) a criança. Quem quiser e puder aparecer, não se evite; quem não puder, e não seja absolutamente contra este tipo de iniciativas, pode (e deve) passar palavra.

6.01.2004

Novidades: é possível que a Comunidade de Leitores venha a reunir especialmente durante a Feira do Livro e do Disco, a decorrer no Convento de Santa Clara, entre os dias 4 e 12 de Junho, conforme se pode constatar no http://www.bib-portalegre.rcts.pt, cuja página tem ligação à nossa. A proposta partiu de membros efectivos, e supunha o debruçarmo-nos sobre uma obra de autor português, que estivesse na disposição de cá se poder deslocar para o efeito. No entanto, o tempo escasseia para organizarmos esse tipo de evento. Se houver sugestões, enviem-nas.

5.26.2004

4
vou combater os teus laços programados, ó multidão
de objectos abjectos rectos
que se corroem a si próprios como corroem os outros
em vão, se hão-de perder também
como aqueles sublimes construtores da torre de Babel

estão a cair insectos mortos
da atmosfera cinzenta de poluições
enquanto eu e tu vomitamos, noutro consumo sem sumo com abuso
enquanto eu sinto
a falta de ti, ó ninfa, musa perdida num antro perdido nos meus neurónios
apenas porque sinto.

Se vos deixo cair é porque sou obrigado a cair também. Talvez prefira cair
antes.

NO FIM DOS TEMPOS ESCRITO
NÃO DIGO O DIA DA ORDEM
SOU COMPLETAMENTE CONTRA ELA.
João Löbe in "Chagas de uma revolta lacrimosa"
Na sessão de ontem, 23 de Maio, ficou estabelecido que iríamos estudar a maneira de regressar à leitura de Franz Kafka, em virtude de O PROCESSO merecer maior aprofundamento, e o autor uma melhor abordagem. Estabeleceremos uma sessão pública para tal, em moldes a definir nas próximas reuniões semanais.

5.15.2004

Estamos no ar... Os cartazes já foram espalhados pela cidadee a data da reunião da Comunidade de Leitores é dia 25 de Maio, pelas 18 horas, na Sala Polivalente 1, da Biblioteca Municipal de Portalegre, como de costume. Bem-vindos!

5.07.2004

SEGREDOS EFÊMEROS

Quem te disse que o segredo do amor é o sexo,
Para aliviar o teu sofrimento?
Sendo o amor o movimento do mundo, a verdade,
Para além do instante, para além do momento.

Quem te disse que o segredo do noite é a lua,
Para aliviar tamanho suspirar?
Sendo que o amor é a vida
Com menos lua e mais luar.

Quem te disse que o segredo da vida é triunfar,
Para aliviar os teus tormentos?
Sendo que o homem deve viver triunfando
E não terminar no triunfar dos momentos.

Quem te disse que o segredo é a verdade?
Mentiu.

ENCONTRO

Encontrei-te no meu caminho
Por entre toda a multidão,
Lá estavas tu meio sozinho
Tentando afastar a desilusão...
Sei que não te quero perder
Mas fica uma saudade,
E nesta pura verdade
Não te posso esquecer!
Agora, confusa na multidão
Sinto-me sozinha,
E esta dor no coração
Traz à razão uma verdade
Há algo espalhado no ar
E o amor é realidade!

Ana Aires

4.29.2004

Na próxima sessão da Comunidade de Leitores de Portalegre, a realizar na Biblioteca Municipal de Portalegre, sobre o livro de Franz Kafka, O PROCESSO
RETRATO DE UM HOMEM EM CORPO INTEIRO
JOSÉ MARTINS DOS SANTOS CONDE

CORAGEM!
“É preciso vencer a angústia e os medos, para
recuperar a coragem de viver e, sobretudo,
de viver um projecto de qualidade.”
In AS CHAVES DA VIDA



Homem que pautou toda a sua vida por princípios e valores, cujas ideias-sentimento (resumidas por si mesmo em nove, e a saber: calma, paz, alegria, coragem, compreensão, solidariedade, justiça, integração e amor universal), chaves de conduta intelectual e moral que sem dúvida lhe vincaram inclusive a actividade de professor (norteada por três preocupações maiores: 1 - fazer o acompanhamento assíduo das turmas, nunca tendo excedido o número de três faltas por ano lectivo; 2 - perspectivar a História numa permanente ligação com o mundo actual; 3 - aprender a História fazendo-a, levando sempre os seus alunos a apreciar o contacto com as fontes), de autor e de cidadão, nasceu a 6 de Julho de 1934, na aldeia de Santa Madalena, freguesia de Vila Fernando, concelho e distrito da Guarda, e faleceu em Portalegre, na sua residência, em 16 de Agosto de 2003, José Martins dos Santos Conde, além de nos legar uma obra vasta e variada, abrangendo desde a poesia ao ensaio, passando pela monografia e artigos avulsos, contribuiu também com o seu exemplo e dedicação aos outros e à sociedade para a revolução ética e necessária do nosso dia a dia, sublinhando como a vida é um tirocínio perfeito onde aprender é mudar, talvez em excelsa demonstração daquilo que sempre foram as suas principais características: flexibilidade de espírito e ambientação imediata.
Humanista, filósofo, frade, teólogo, historiador, docente, tradutor, jornalista, poeta, chefe de família, companheiro e amigo, indivíduo enraizado no meio mas igualmente cidadão do mundo, cujo pensamento eivado de influências diversas, como culturalmente universais, caso das perspectivas existenciais de Satre, como budistas, cristãs e ameríndias, raiando as essências profundas desde o Ioga e Lao-Tsé até à imagética de Florbela Espanca ou Vergilio Ferreira, revelando um ecletismo apurado e exigente, todavia simultaneamente tolerante e apoiado na moral científica, consciente da problemática regional, jamais deixou de registar, divulgar e descodificar os valores da nossa região em pessoas e coisas, de fazer o levantamento de conflitos ou situações, de procurar dar-lhe uma explicação ou resposta, bem como de partilhar informação objectiva, interessante e peculiar acerca dela, tentando fintar o destino ao provincianismo paupérrimo e desolador que nos acomete desde os tempos imemoriais.
Senhor de DUAS VIDAS que abriu e fechou com as chaves da determinação, pensamento e moral insuspeitáveis, depois de ter palmilhado as veredas da formação mística, cursado humanidades e teologias (Seminário de Vila Nova de Gaia – de 1946 a 1952; Seminário Maior de S. Alfonso, em Valhadolid/Espanha – entre 1952 e 1960, onde fez “profissão perpétua” como frade redentorista; Institut Catholique de Paris – em 1967), sofrido os tormentos da repressão vocacional num esgotamento nervoso com 14 anos de tratamento adiado, que transformaram um jovem líder libertário amante de poesia, literatura e música, discípulo de Guerra Junqueiro e Gomes Leal, num borrego dócil e cabisbaixo que seguia atrás do rebanho politicamente correcto, cuja tortura o levou até a leccionar Português e Latim no Seminário de Vila Nova de Gaia onde começara os estudos, mas também a aproximar-se de Portalegre, via Castelo Branco, onde no seminário local leccionou Filosofia Antiga, Literatura e Arte (de 1964/67) e aprendeu Ioga, que o ajudou a recuperar a autoestima, confiança e gosto pela vida real, pontos de partida fundamentais que inspiraram a lutar pela autenticidade e estabelecer contacto (carta e telefone) com Angelina Pires de Sousa Gomes, natural de Portalegre, enamorando-se, e com a qual veio a contrair matrimónio em 22 de Setembro de 1968 (na Igreja e S. Lourenço, com copo de água no Café-Restaurante Amaia), renascendo assim outro mas bastante mais próximo da sua vocação primária, posto que é partir de então que se licencia em História (Universidade de Coimbra, 1979), conclui o curso de pós-graduação de História Cultural e Política (Universidade Nova de Lisboa, 1992) ou defende a tese de mestrado (1995), cria família própria (três filhos: Paulo, José e Ana Raquel) e inicia a sua carreira literária, publicando primeiramente O Ensino Primário no Distrito de Portalegre (1983 – edição da Assembleia Distrital de Portalegre, em colaboração com Dionísio Cebola, Director Escolar do Distrito de Portalegre), a que se seguiram Rostos e Gostos do Norte Alentejano (publicado em vários semanários, desde 1983), Escritores do Distrito e Portalegre (publicado no jornal Fonte Nova, desde 1984), Luís Gomes – Perfil e Obras de Um Portalegrense (edição de O Semeador, em 1985), Diálogos do Fim de Século (publicado no jornal Notícias de Elvas, desde 1987) António Silvestre, Artista em Ponte de Sor (Folheto comemorativo, Ponte de Sor, em 1987), Festa dos Aventais – Festa Popular, Regionalista, Republicana e Laica (edição da ESSL – Escola Secundária de S. Lourenço, em 1987), Teatro de Portalegre (edição do autor, em1987), Um Minuto de Olhos Fechados (poemas publicados no Notícias de Elvas, desde 1987), José Maria Grande – Figura Nacional do Liberalismo (Edições Colibri, em 1998), Luzia, o Eça de Queiroz de Saias (edição do autor, em 1990), As Chaves da Vida (publicado pela ESSE – Artes Gráficas, Lda, Lisboa, em 2002), Duas Vidas – Poemas (conjunto de versos de 1962 a 1999, editado por Produções Gráficas UNP, Lda, Lisboa, em 2003, cujo lançamento acontecerá durante as Festas da Cidade, com apresentação/leitura de Joelle Ghazarian e Júlio Henriques, e espectáculo de Ana Raquel Conde, numa performance de interactividade multidisciplinar de música, som, vídeo, gestos, movimento e palavras) e, para publicação, Beatriz Emília Rente – Glória de Portalegre nos Palcos Nacionais (rubrica inserida na revista Miradouro, mas que, segundo vontade expressa do autor, só será publicado em livro se a Câmara Municipal de Portalegre tomar a seu cargo iniciativa e custos, o que caso contrário nunca acontecerá), Instantâneos (com publicação prevista para este ano, espécie de fragmentos que retratam o alter-ego do autor, repartindo-o por momentos, situações e relatos avulso) ou Pronomes (Marvão – 2002, conjunto de quadros burlesco-satíricos, onde se descrevem com ironia e graça algumas figuras típicas do quotidiano português).
Se enquanto colaborador de diversos títulos da imprensa regional – colaborou na revista Miriam (de índole teológica, entre 1960 e 1967), nos jornais Fonte Nova (de 1984 a 1988), O Distrito de Portalegre (e 1985 a 1989), Notícias de Elvas (1987 a 1989), O Arraiano (de Elvas, em 1990), e na revista cultural portalegrense Miradouro, em 1989, ou como tradutor (traduziu do italiano, francês e castelhano cinco livros de divulgação teológica, publicados em 1969/70) – a sua atitude não foi a de profundo empenhamento, já enquanto professor se não pode dizer o mesmo, posto que no campo profissional excedeu sobremaneira as exigências do ensino, quer no sector privado, onde leccionou Língua e Literatura Portuguesa (nomeadamente no Seminário de Cristo Rei – Vila Nova de Gaia, Colégio La Salle – Abrantes, Colégio Municipal de Serpa Pinto – Angola, e Salas de Estudo “Renascença”, do qual foi também director em 1970/72, entre 1960 e 1972), quer no ensino oficial, que marcou multidisciplinarmente, onde ingressou em 1972 para leccionar Português e Latim em Malange, Benguela, Bailundo e Batalha, até 1977, e a partir daí como professor de História (Escolas Secundárias de S. Lourenço e Mouzinho da Silveira - ESMS, em Portalegre, e D. Dinis, em Lisboa), não se limitando contudo a ministrar conhecimentos mas sim também a participar activamente em Conselhos Directivos (Escolas Secundárias de Vila Teixeira da Silva e ESMS – 1974/75 e 1978/9, respectivamente), ora fazendo estágios (Estágio do 10º Grupo A, na Escola Secundária D. Dinis, em Lisboa, em 1979/80), ora enquanto orientador de estágio (zona sete, distritos do Alentejo, em 1984/85 e 1985/86), ora como director de turmas ou delegado de grupo (p.e. na ESMS, durante os anos lectivos de 198/81, 1981/82 e 1982/83, e na ESSL, em 1986/87 e 1987/88), bibliotecário (ESSL, nos anos lectivos de 1986/87, 1987/88, 1990/91 e 1991/92), professor de Português e Mundo Actual (Centro de Formação Profissional do Instituto do Emprego), planificador de visitas de estudo nacionais e internacionais, assim como definiu e orientou actividades de pesquisa em bibliotecas e arquivos.
Adepto do riso vital e da ironia mansa, jocosa, apaixonada de prazer e de alegria, consciente da sua pequenez na imensidade do Universo, mas também da importância que tem para o seu equilíbrio o tudo está relacionado com tudo, os elementos naturais e as pequenas coisas e seres, despojado de egoísmo messiânico fundamental, embora cada um dos seus livros possua valor intrínseco e interesse pontual, é em Luís Gomes – Perfil e Obra de um Portalegrense, Chaves da Vida e Duas Vidas que melhor se notam a pujança discursiva e acutilante de um espírito universal e convicto do papel reservado ao homem no planeta e o deste para a humanidade e vida. Desencantado mas lúcido, tranquilo, fluente, mas igualmente rigoroso e objectivo, o seu discurso espelha a determinação, segurança e coragem de uma pessoa habituada a encontrar-se consigo mesmo sem subterfúgios nem esquizofrenias. Ali, onde no olhar de quem se reinventou quotodianamente entre a moral e a ética, entre o pedagogo e o chefe de família, entre o historiador e o poeta, entre o passado e o (então) presente, entre o religioso e o social, com que sublinhou figuras esquecidas que se empenharam na prossecução do bem público com capacidade de entrega ao trabalho e ao dever, na defesa intransigente dos valores em que acreditavam (José Maria Grande – Figura Nacional do Liberalismo) ou personagens primeiríssimas no panorama das literaturas femininas europeias, enaltecendo-lhe a sensibilidade profunda e vibrátil, destruindo preconceitos e restabelecendo a verdade que circunscreveu Luzia, o Eça de Queiroz de Saias, ou ainda assentando a importância histórica dos tradicionais festejos dos caixeiros no Dia da Espiga (A Festa dos Aventais – Festa Popular, Regionalista, Republicana e Laica), bem como tecendo a panorâmica da actividade dramática em Portalegre através dos tempos (Teatro em Portalegre), cresceu uma personalidade exemplar e um cidadão modelo. Porque quem como ele soube o que é a fraternidade universal, reconheceu que a solidariedade significa estar com os outros, pagar a sua parte de obrigação ou de soldo, navegar no mesmo barco e prosseguir a mesma viagem, em igualdade de circunstâncias e sentimentos, se edificou no sacrifício e abdicação, retirando das horas amargas lições de luta, franqueza e galhardia, e enfrentou com riso e temperança os dissabores com que a mediocridade adversa bastas vezes lhe foi atreita, como no caso do concurso ao Ensino Superior Politécnico, em que foi preterido em favor de um estagiário sem a mínima prova dada, e denunciou apropriações autorais (soneto de Luís Gomes reciclado por José Régio, in Fonte Nova nº 31, de 29 de Maio de 1985), e jamais deixou de crer na democracia e liberdade, nem de ser firme na salvaguarda da vida, como valor essencial do Universo, de proteger os animais (v. g. os cães Becas e Pixy) e a natureza da inconsciência e do terrorismo humano, guardar o património artístico e histórico da humanidade, apoiar os criadores da beleza, pugnar pelo aumento de paz, justiça e verdade n mundo... Enfim, um homem que sempre esteve à altura da sua nobreza, e que até no leito de morte soube legar aos que lhe sobreviveram o melhor da sua existência, incutindo-lhes esperança numa última e derradeira palavra: «coragem!» - tal e qual como lhes disse. Coragem, de coração, praticando com os seus aquilo que a muitos ensinou!
Joaquim Castanho

4.20.2004

UM POETA NASCEU


Quando alguém vir
Parir
Um coração
Quando alguém vir
Uma flor a abrir
E dela sair
Um fruto são
Quando alguém vir
Uma luz acesa
Que nas trevas se acendeu
Foi de certeza
Que um poeta nasceu!


NO SILÊNCIO DAS NOITES PERDIDAS


Corpos adormecidos,
Pontas de cigarros,
Jarras partidas,
Copos entornados,
Flores ressequidas.
Almas esquecidas
No silêncio das coisas mortas.
Camas desfeitas,
Sonhos vazios.
Rostos amalgamados
- Sem sorrir.
Corações ignorados
- Sem ódio nem amores.
Comprimidos de todas as cores
- Para dormir.
Memórias cansadas
Por nada pensar.
Mundos nunca encontrados.
Luzes apagadas,
Sangues viciados.
No silêncio das noites curtidas
- Vidas perdidas!


A REVOLTA DO POETA

Sobre nuvens
Ele voa
Dentro do sonho
Ele vai
Ouve-se o grito
Que da garganta lhe não sai
E ouvem-se por resposta
Gargalhadas
Descontroladas,
Descabidas,
Saindo de bocas
Ainda mais perdidas
Numa onda
Ele navega
E troveja
Escorrega
E naufraga.

O meu coração é um relógio
Que bate em compasso
As horas felizes
E as horas tristes
Ninguém dorme em meu regaço
Não há calor que o aconchegue
Não há pé que o agarre
Nem há peso que ele não carregue
Há um mar de sangue
Há um horizonte de angústia
E sofrimento
Há bondade
E há maldade
E há tormento
Ele vê e ele sente
O mundo mudado
Punhal que se lhe espeta
É a revolta do poeta!


Maria Isabel Gaspar
AGORA

A meus pais

pensamentos nostálgicos
toca a flauta no monte
é esta a hora


a água corre na mente
breves são os silêncios
a felicidade ignora


o tempo corre no espaço
é d’aço mas cansa
e morre agora

Maria Isabel Gaspar

4.08.2004

Viva, pessoal! Como vêem a Ana já aderiu ao reino da literatura viva, e ainda não tinha visto tudo para manifestar a sua predilecção... è assim: tiro e queda! Se quiserem colaborar, ponham as vossas dicas através do e-mail grokare@hotmail.com e estarão editadas num pulo! Força... A poesia, a prosa, o romance é de todos... E a LIBERDADE TAMBÉM! Celebremos Abril JÁ!!!!

4.07.2004

ola sou a ana! ainda não vi mas gostei.

4.03.2004

PORTUGUÊS SUAVE


Perto da alvorada um barco parte.
Solitário. Altivo. Mastro desvirgindo
Desflora plúmbeos anjos fugindo
Dum luso quadro de engenho e arte.


Leva no bojo um nome escrito –
Que mal se vê, que mal se soletra –
E por vela enrolado manuscrito
Que vírgil mão em seus dedos aperta.


Foi homem e rei ao seu leme
Que mais que homem foi também nação;
E em cada vez que o cordame geme
Lhe estremece a voz, o fado e o coração


No peito uma madrugada sustenida
Que ao vaivém das ondas o ritmo bate
Levando-lhe também a própria vida...



OUTRO REINO PARA INÊS

É preciso amar as sombras que me falam de ti
Ou as nuvens quando estas ganham formas
Que em tudo se assemelham às tuas ausências;
É preciso. E ser lesto no referir dos olhos
Amoras silvestres de ouvir os gestos
Falar às fontes de teus lábios gomosos lineares
Ou descer pela seda ondeada castanho-escuro escorreita
De teus cabelos partidos ao meio dos sonhos iguais.



É preciso esconder as mãos nas ânsias de ser,
Meter os dedos nos refegos e costuras de existir
E saber que continuar é uma metafísica adiada,
Uma ontologia auspiciosamente pejorativa preterida
Como se de uma vergonhosa mania íntima se tratasse,
Sem recear as curvas derrapantes ou as agulhas marginais,
As culpas assumidas e as projecções perversas,
Os fundamentalismos intolerantes ou as crostas
Sempre demasiadamente rígidas das dores alheias.



Porque é preciso a cada hora minuto segundo reconverter
A ausência saudade em espaço quando imagem acabada
Suficiência compensatória do quanto é irremediável viver
Não sei onde, não sei porquê, mas saber é bastante
É bom ouvir o telefone de “ podes ser tu a tocar “
Retinir insistentemente insistes em esconder o nome
No alô impessoal, profano, thriller mal contado
À beira dos dedos com unhas roídas até à pele de veludo
Acariciante dos gomos sensuais e meigos em leque dispersos
Pelos gestos indomáveis da fala sublinhando iluminuras.



Sei isso e muito mais que tu também não esqueces
Nunca jamais seremos outros em nós ainda que importe
A conjuntura, o carro novo, a mobília a prestações.
E quando é preciso as coisas acontecerem, acontecem
Ninguém pode mudar a lei porque a lei é a Lei
Não uma decisão da assembleia que calhou votar assim
Tão-só assim, precisamente não doutra lei mas daquela.



É não estares aqui ou eu aí o único órgão que me pesa
Nunca os pés, as pálpebras, a língua também entaramelada.
A sonolência é outra coisa não parecida com languidez,
Mas pode ser um despertar para o reino do sonho
Navegar entre as tuas coxas naufragar e naufragar
Não importa esquecendo, esquecendo, esquecendo sempre,
Até ao fim do gesto morno de estender os ombros e gritar.



Gostava de pensar que me esperas os olhos postos na porta
A respiração suspensa a cada sombra que se aproxima
Um formigueiro na espinha e as espáduas que fremem
Embalam expectante fantasia no perfil convergente à ombreira
« Eu vou voltar!... » - A certeza cresce ainda cresce
Não repete, não pára, não fica aí como se fosse estádio
Mas paragem à tona fluente terna dos absolutos possíveis.



PÃO E VINHO

Fazer um poema não é como fazer um filho.
Não é partir uma vidraça. Nem é olhar uma cria
Enquanto brinca nas ruas do crescer
Nas escolas do crescer
Nas rampas do crescer
Nas pistas do crescer
Nas balizas do crescer
Nas passerelles do crescer
Nas discotecas do crescer
Nas tabernas do crescer
Nas avenidas do crescer
Nas câmaras do crescer
Nas camas do crescer
Nas bolsas do crescer
Nas reformas do crescer.


Não é. Mas comer uma azeitona de Elvas também não;
E todavia, ambas as coisas dão imenso gosto e prazer.
1.

Cor-de-laranja acentuadamente acordado de mansinho….
Sim, por ti, meu amor grego de unhas pintadas
Por acaso úrsulas caminhantes de areia pisada
Calcada por aqueles que te amam sem saber
Mendigo angélico, vem a meu canto burguês
Vem que eu te amo… A correr como quem descasca bananas
A olhar o céu – sim, é assim que quero amar o mundo
Usando plenamente todos os poros que abundam
A minha cheirosa pele, segundo diz o meu amor.


Quero beber todo o sangue humano do mundo!
Quero lamber as lágrimas dos anjos-que-não-sabem-que-são-anjos.
Quero quebrar o silêncio morto das fantasias impúdicas.
Oh, meu anjo bíblico, porque não sabem eles o que perdem?
Porque desconhecem o poder das contracções ritmicamente acentuadas
A atmosfera pressionando o corpo dos que não têm medo de mostrar quem são?
Sabeis? Sabeis que, mel-de-abelhas-casmurras, correr, correr
Correr de encontro ao mal é como comer biscoitos com manteiga?...
Ris?? Ri. Ri! Ri!!! Sente as cócegas cornucopiantes de amarelo-torrado
Correntes de ar com perfumes não usados por humana gente.
Ri; imortaliza-me! Faz-me vibrar de medo, medo morto
Morto muito morto, capaz de se desfazer ao toque
Ao suspiro da princesa cabelo-cor-de-mel, coitadinha que chora
Que chora… Não, ela não perdeu o sapatinho de falso cabedal
Porque nessa festa ela não foi, e nem sequer foi convidada!
Ah, e também não acordou pelo beijo do seu príncipe encantado:
Quando adormeceu no sofá, frente à TV, com a pantufa no colo
(Coitadita, faltou à festa…) só acordou quando o lobo-mais-que-mau
(Trrriiiimmm-Trrriiiiim) lhe tocou à porta a pedir a contagem da luz!...


Vá, chora... Chora. Chora! Chora!!!... Vejo o grande fio cor-de-marfim
Enrolado na menina que descobriu quem está dentro dela... Feliz!
Estendida na estrada negra alcatroadamente enfeitada de traços brancos
Ora contínuos, ora descontínuos, com ou sem relevo, como tudo na vida
E de todas as cores vividas por todas as pessoas que querem saber todas as coisas
Coisas que todas as canetas sabem rabiscar, rabiscos em todas as direcções
Todas as maneiras possíveis de preencher e ser-se preenchido
Tal como todos os seres, humanos a orgasmiar que nem lobos na floresta
Sábios do sadismo de amar para enlouquecer o seu eu e o mundo em que vivem.
Amo-me! Amo-me! Quero agora! Quero possuir-me aqui e agora, já
Neste autocarro em que mais trinta pessoas viajam comigo, púdicas
Efémeras, pujantes na frigidez do prazer que acorda todas as manhãs
Todas, para acariciar o mundo deslizando, caminhando nele... Silêncio!!!
Quero lacrimar meu sangue sofrido aqui e ali, sofrido além e acolá
Tal como todos os homens se fertilizam com a mente, vasta, vasta, vasta.
Sufoco de prazer sem ninguém saber, ninguém ver, ninguém sentir...
Porque não querem ver, não querem saber, não querem querer!
Repito: não querem sentir o mundo onde apoiam seus pés...
Senti-lo tal e qual ele é, sem ilusões... estúpidos carnívoros!
Amantes da quase apaixonante carnificina na ilusão do mundo
Ilusão sem limites que apenas os humanos vêem com portas
Portas bem fechadas para o ar respirável dos duendes (feios
Feios, feios – como eu vos amo, meu deus!... ) lindos de tão feios
Não entrarem pelas portas fechadas, bem fechadas, até ao trinco
Mel mundano que adocica nos cabelos cor-de-milho-ainda-verde
De Melinda, princesa extraditada, Rapunzel ibero-lusitana...


Mas nas portas lêem-se cartazes: “ABRIR SÓ NO MUNDO DOS SONHOS
Letreiros anunciadores dos estúpidos carnívoros
Abri, abri, abri as portadas, que a rainha louca quer entrar!
E o povo grita: “Loca! Loca! Sois uma putanita loquita!
Sois uma devassa com os parafusos a menos e desaparafusados!”

No entanto, lamenta-a: “coitadita, pobre doida tresloucada!...”
Mas eu transbordo na fluidez dos prazeres corporais e mentais
Desejo, desejo como nunca desejei nada na vida, entrar por aquela porta
Na liquefacção do meu corpo resultante das altas temperaturas
Com que chicoteio todas as minhas subalternas veias
Quais nuvens de ameixas lançadas do céu pelos magos celestes
Fumadores de orações incensadas, garota da minha pátria
God save the queen” dito em desejo, desejo, desejo carnal
De entrar no mundo da loucura extasiante ao descontrolo oblíquo
Amavelmente riscado e pintado com cores que ninguém entende!...


Eis a porta dos sete orgasmos! Sim, sete cornucopiantes flagélicos
Ablascentes e floridos absolutamente mortíferos imortalizantes orgasmos!
O primeiro... (continua)



2.

Não sei o que está dentro de mim... É algo que explode de vez em quando
E quando isto acontece, choram-me lágrimas, lágrimas que levam consigo
O cheiro a carne humana, a carne humana raivosa, carne sufocada
Inebriada por cheiros de aqui e acolá, coroada pelo amor dos deuses
Rasgada pelas unhas do cão suculento e amarelo-torrado
Que passeia na vida sem saber, sem saber porquê nem para quê...


Amo o Heitor, mas ele sufoca-me! Prometi ajudá-lo. Ele vai precisar
É de mim daqui a alguns anos... Daqui a alguns anos irei ajudá-lo!
Ele merece. Ele amou-me. Deu-se-me todo... Deu-se sem limites!
Quero cuidar dele; quero fazê-lo adormecer no meu colo,
Quero dar-lhe o banho salgado e duro e cruel de minhas lágrimas
E com meu sangue íntimo fosforescente hei-de pintar nele o arco-íris!
Quero tanto que ele seja feliz... Mas eu sei que não mereço a infelicidade,
E é tão difícil sermos ambos felizes, que só tentar, é de si demasiado insano!


Olho para trás... Tudo quanto ele me provocou
Tudo quanto ele em mim libertou ou despertou
Tanto amor, tanta raiva, tanta pena, tanta amizade
Tanta curiosidade pela vida, a enorme vontade e olhar o mundo
De tirar o melhor que há em mim, a grande força do sexo
O de querer amar para reproduzir e criar esses rebentos...
Eu quis ter filhos dele! Ser mãe dos filhos dele...
E quis morrer por e para ele, com ele... quis que nos fundíssemos num só ser!


Foi ele quem despertou os sentimentos mais puros e mais humanos
Em mim ele é especial, só por isto, terá de ser especial...
Ele vê para além dos traços do mundo, para além dos pêlos da pele
Portanto, mesmo que amanhã ele não venha como prometeu
A minha casa, mesmo que nunca mais me telefone
Nem com ele converse, mesmo que a morte nos procure antes e nos encontrarmos
Eu amo-o e sei, tenho a certeza, de que ele me ama também,
Que nos amamos de e para sempre, porque meu coração e alma não têm limites!


Por isso amo muitas pessoas, muitas... E entre elas, amo nem mais nem menos
Amo diferente! Se todas despertaram algo diferente em mim, para quê compará-las?
Amo homens, mulheres, gordos, magros, feios, bonitos, lindos, horríveis
Bem cheirosos, fedorentos, altos, baixos, cabeçudos, carecas, brilhantes
Sombrios, bem vestidos, maltrapilhos, velhos, novos, mansos, rebeldes
Com ou sem adjectivo – tudo nomes e renomes concebidos pelos outros...
Pois que para mim todos têm outros nomes, que os identificam no que em mim são!


Deixa ver as pessoas que amo... Amo o Heitor!
O Heitor para mim é água, água pura, cristalina, etérea
Impossível de aprisionar em qualquer recipiente, água que é vida,
Que tal como ele, que em si mesmo a transporta, com tudo o que ela tem
Amor, ódio, tristezas, alegrias, e vive-os! Ele é o homem
Literalmente vivo, não os homens ditos vivos mas que passeiam pela crusta
Terrestre, mortos, inteira e eroticamente mortos! Ele não; ele está vivo e passeia
Passeia e está louco... Porque quem vive é louco! É a própria loucura!


Sim... Acabei agora mesmo de o descobrir: quem vive é louco
À semelhança do que afirma o ditado massai acerca do Heitor
Que “primeiro a loucura, depois a sabedoria” assim dito verdade pura
Também o Heitor vive, no seu coração e de quem o rodeia, vive
E põe flores onde nunca ninguém admitiu a hipótese de haver vida
Ele põe flores, flores loucas, as magníficas flores das loucuras!...

3.


A vida pesa nos ombros de quem a leva pesada...
Naquilo que as pessoas vêem e não olham
Aquilo que quero perante ti e mim
Ás escuras, no trampolim dos tecidos fluorescentes
Que a vida murcha nas flores atiradas à sombra
Que sombra minha abrange os outros?
Que sombra minha abrange o mundo?
Iluminação dos dentes brancos, com carapinha emaranhada
De terra vermelha africana
Luz de mim e ti
Escolhas perante cruzamentos de olhos moldados em ti
Escolhas do Mundo vestido de castanho em pó
Amavelmente cai em Terra...
Tenta...
Trémula...
Vivida...
Fujo dos olhos que me traem por trás dos ombros...
Fujo do mundo que me quer derrotar...
Fujo de mim...dos limites que delineei...
Ou que me delinearam por ser humana
Por ser Mulher
Por amar os cornos da Vida Terrestre
A cinza cresce nos meus músculos
Não consigo respirar...
O mundo sufoca-me e não me deixa crescer
Poros da minha pele amuralhados pela realidade
Realidade?
Passas-me o pão todos os dias de manhã?
Poros da minha pele obstruídos pelas minha visões...humanas..
Sinto-me enlouquecer a cada segundo que passa
Sinto a descoordenação mental, a desarticulação de tudo
O que me compõe como ser
Sinto a quebra do lápis com que escrevo a vida
Poros obstruídos por tudo o que olho e não vejo.
Não vejo...
Limites que me impõem...
Impõem como me impuseram o leite materno á nascença...
Outras formas de comunicar?
Não sei!...pressinto-as?
Não sei!
Sinto a vida? Sinto a morte?
Sinto a morte como um encontro final e completo comigo mesma...
Só lá me encontrarei com a minha verdadeira alma..
Alma
Alma que me persegue e eu fujo...
Fujo do seu encontro...
Fujo da morte... mentalmente...
Fujo do que me persegue e que amo...
Amo a morte.
Amo a morte da vida...
Amo as palavras que me compõem
Amo o que me persegue e não controlo
Amo o descontrolo que compõe as linhas de minha mão.
Verdades escondidas no corpo?
Devaneios na pele que nos fronteiriza com o mundo?
Assim quero viver...
Tremo só de pensar que vivo aqui, comigo...
Tremo de ódio? Prazer?
Já não me interessa nomear sentimentos...
Já não me interessam nomear as coisas que vejo...
Não gosto de nomeações..
Vou inventar uma língua que não nomeia coisas


LI
DISTRACÇÕES

Esquecidas no tempo
num saco sem fundo
algures num espaço desequilibrado,
sentadas, as palavras
revelaram-se solidárias
libertaram-se
vaguearam de mãos dadas
e pensaram serenamente
ARMARAM-SE
SITIARAM

invadiram milhões de páginas
anónimas
dissolutas
esquecidas
que ganharam vida
Lutaram contra prefácios ocos
derrubaram frases vazias
desordenaram batalhões de ideias
detalhadas
Assaltaram parágrafos
e arrasaram capítulos
Venceram a lassidão


E o autor, aspirante a poeta
criticou

claudicou.



Zélia Marchão


ESCRITA DOMÉSTICA


Por cima dos telhados oblíquos
pairam frases gramaticalmente harmoniosas
pelos canais de telhas gastas de adjectivos
deslizam palavras simples e melodiosas
das goteiras, sílabas caem-me gradualmente
nas mãos em concha
E numa página em branco
construo metáforas
tentando disfarçar o pensamento
De vez em quando um salpico de pretérito
invade um espaço ou outro
Das chaminés, em espirais enfeitiçadas
fluem, subindo, preposições desordenadas
pousando a pouco e pouco na roupa do estendal
E o vento chega, forte, para baralhar
toda a ortografia
Desejo que a neve traga
as pontuações certas
Porque, neste inverno, presumo que
não se construam textos seriamente delineados
Talvez, quem sabe, o ferro de engomar
quente, escaldante de realidade
alguma coisa, ainda, possa salvar
Cada peça é moldada por dedos de tinta
acariciando as linhas de lã
para simplesmente se aculturar com todo
o tipo de verbos alinhados, metodicamente, na gaveta
Por fim, após um banho quente de diversão
prosas de cetim arrepiam-me a pele
perfumada de poemas
que se soltam de primaveras melódicas, passadas.

Zélia Marchão

4.02.2004

escuta o olhar da sonhadora
ela vê para além do visível
ela ouve para além do audível
e sente para além do sensível
está tudo escrito no brilho apaixonado dos seus olhos
todas as noites a sonhadora vai à janela
e olha para as estrelas
ela sabe que há uma que um dia brilhará mais
nesse mesmo dia, as suas asas estarão prontas para voar
para a levarem a essa estrela...
... a TAL

não deixes que a chama se apague

Philipa B. Antunes
No lusco-fusco
a quietude eu busco
Encerra-se o dia
com as gentes e sua rotina
de soldada cortina
Saúdo a noite que se aproxima
Tão clara
E olho para cima:
o meu ser se anima
a minha ferida se sara
Porquanto é Dia!

Philipa B. Antunes
ROMANCE CLANDESTINO


O menino, com sua mão frágil
No papel desenhou a floresta,
Desenhou a cabana,
E num repente ágil
Colocou dentro desta
A mais linda cigana.

Depois pintou um príncipe
Chamado de João,
Que lhe bateu à porta
Pedindo com brandura
Um pouco de água e pão,
E que ao ver a formosura
Se lhe prostra em oração.

« Levanta-te e entra »,
Lhe disse a cigana linda
« Pois te esperava e certa
Estava de ainda chegares
Antes de a tarde finda. »


Brilharam doces seus olhares
Para logo seus brilhos se apagarem.
« Mas senhora!, como poderei
Depois sair sem morrer
De saudade? »


E após se beijarem,
Cigana e filho de rei,
Nela entraram sem querer
Saber da dura verdade.


João ao palácio não quis
Jamais voltar até que seu pai
A todos ordenou encontrá-lo.
A seus exércitos diz:
« Tragam-no vivo e dai
A morte a quem tentou raptá-lo. »

Os soldados cumpridores
Batem montes,
Batem vales e rios,
Perguntam aos pastores,
Perscrutam horizontes
E inquirem doutores.
Sofrem os tempos de calores,
Calores e frios.

E é quando um dia
À volta da floresta se juntam
Como soubessem só poderem estar além
Que um velho guia
Informa os generais do rei
Haver nela dois amantes que andam
Felizes a brincar ao “ pai-e-mãe “
Sem se importarem com a lei.

Então, o menino pára.
“ Desenhar, para quê?... “
Se aqueles que ele tanto amara
Por sabê-los como seu pai e sua mãe,
Tão iguais para quem os vê,
Têm que vir a sofrer também
A imposição da corte e seus porquês
“ Como se foram Pedro e Inês... “

Se... Mas não! Não!!
Ninguém lhe iria levar a melhor!
E num gesto rápido e exigente
Pega na tesoura do papel.
Com ela vai ao desenho saído de sua mão
Com tanto carinho e calor,
E num corte lacrimoso e tremente
Retira à floresta a cabana
Em que estão o príncipe e a cigana
E corre a escondê-la no sótão.


O rei e seus generais
Percorrem a floresta de lés a lés;
Atiçam os cães, erguem os punhais,
Cansam os cavalos, ferem os pés.
Mas de nenhum têm sinal!
Nasce-lhes aos poucos a desilusão.
Corre-lhes a vida mais que mal,
E abrem as bocas de espanto: “ Onde estão!!...
Onde estão?!... “


Depois o menino, suspirou e sorriu.
Feliz, contente com seu feito
Segredou a si, em inocente jeito:
« Pschiu!... Ninguém viu. Ninguém viu!... »


ODISSEIA III


EUFALO...
( Eu falo do lado de lá do lá )
Partiu um dia
À procura de sua mãe.

E no calo
Da linguagem – EUCALO,
O calo da alegria –
Levava uma mulher de ninguém.

Percorreu montes e rios.
Fez viver flores onde
Se torrava a erva pelos frios
Havia a veste do pária e do conde.

Fez o riso e a dor
No seio pequeno novo
Correu como se fosse amor
De penetrar EULOUVO.

Eu louvo tudo quanto é belo!
( A mãe assim... Os seios livres e tomados...
A boca sugando... ) A língua?... O selo?...
A conquista de sermos conquistados.

E Eulouvo casou com Eufalo.
Fez um lindo par!
Inda hoje, Eucalo
Diz que a cerimónia foi amar.


CÂNTICO CLARO
( Dedicado a Portalegre)

O teu olhar parecia dizer:
“ Aquele que me amar está perdido. “
Mas mesmo assim
Do interior de mim
Ecoava um cântico muito antigo:
“ Enquanto viver
Estou contigo. “

A minha certeza é única:
Sou ponte entre aqui e além.
Que minha fala é a túnica
Do romeiro que se chama Ninguém.

Enquanto viver estou
Contigo nos morros, nas praias;
E dançarei até que o voo
Das gaivotas se liberte das saias,
Dos batuques, dos sambas
Dos corais, dos cantares de amigo.
Que isto de cruzar cordas bambas
Só foi verdade por um crer:
“ Enquanto viver
Estou contigo. “


E se sou zambo ou mestiço
Foi porque Deus quis partilhar
Comigo seus poderes de criador
Ao trocar a guerra pelo amor.


Por isso, quando ouço cantar
O gaio, o canário, o carriço
Faço-me ao Porto e dou-me ao mar
Que combate o amarelo outoniço.
E então sou tão eu de mim – eu,
Com todas as minhas correntes
As minhas veias, o meu céu
O multicolor das minhas gentes
Livres e capazes e ousadas e objectivas e transparentes,
Que cresço nos milhões de bocas
Mostrando suas línguas loucas.


Quem me invoca é Sagres e Vera Cruz; o resto é pó.
Minhas testemunhas são duas numa só.
Que Santa Cruz continue a ser onda e clamor
Ventos de liberdade a soprar por Timor.


Mas que ninguém me pergunte porquê,
Nem me peça segredos que não sei,
Ou me ofereça outro castigo.
Que meu ser é o mar que se navegou.
É o corpo indígena que se amou.
Que me curtiu e salvou
Educou e fez crescer
E o querer com que digo:
“ Enquanto viver
Estou contigo. “


Lisboa, 23 de Maio de l999


A CAUSA DAS COISAS

1.

Vê como o sol, embora o não queiramos
Nasce todos os dias!... – quem lho teria ordenado?
Talvez o sonho daquela criança que todos amamos,
Que escreve e desenha, e esconde romances no sobrado!

Talvez o silêncio morninho do olhar
Ou a mão que afaga descontraída
Para em cada letra de brincar
Inventar a palavra vida...


Talvez a necessidade
Que o mundo tem de ter cor...
Talvez a verdade...

Ou, porque não!?... O amor.



2.

Quem diz da voz o lugar imprevisto?
Quem diz da boca a fonte?
Dos olhos a mágoa de partir
Num amo, logo insisto,
Numa vida em que o ser não desconte
Anos como paga de existir?!


Quem se debruça da janela
Recolhe a pétala, afasta a madeixa...
Quem doma o sonho fraterno
Lhe monta o dorso, lhe põe a sela,
E quer correr na brisa que desleixa
De ser livre e não eterno?


Quem pelos jardins corre ligeiro
Anda de bicicleta, atira flechas
Faz castelos e nos acorda pela manhã,
Ou se quer no lugar primeiro
Duma vida a que acendemos mechas
De ternura, para que se não torne vã?


Quem é capaz de ainda chorar
Por nós, nos pede pão, dá lições
De abrir as mãos sem fazer batota,
E à montra dum comércio quer parar
Para com quaisquer dez tostões
Comprar gelados, bater à porta?


Quem?! Quem nos diz da simplicidade
Ser tão bela como a confiança?
Ou se surpreende com a verdade...
Quem?
Quem?
Quem?

A criança.


PASSEIO EXISTENCIAL

( Av. da Liberdade )

No fundo do amor está o amor.
À volta, no cimo, estão diversas coisas
Que às vezes nos entretêm: os nomes,
Principalmente, os nomes!
Somos todos iniciados na técnica de compreender
Que Outono é quando as folhas caem!


Podíamos passar por entre elas...
Ser-lhes a invocação imediata...
Enfim! Sermos díspares parcelas
Desse jogo infinito, a concordata...
...Um tratado! Caminhamos..., elas caem,
O sol vem recortante, capilar,
E os olhos descem e cerram, descem
Para dentro em busca do seu começar!

As pombas rodam, rodam as árvores,
Codificam-se os gestos e as cores
E faz imenso vento ruissussurrante
Mexendo as vestes, os cabelos
Os endereços, os remetentes, os selos
A imagética do corpo tonificante
E o chiar dos pneus, o tilintar eléctrico
A voz anunciante, o nome métrico.
Se nos liquidamos as pombas saem
Do quadro – é melhor deixá-las ficar
Como se fossem paz à volta do amor
Coisas, nomes principalmente, a rodar
A voar!...


Estamos num jardim: um qualquer!
Faz menção de sermos homem e mulher
( É que podíamos!... Deveras! ) Ou avenida!
Porque não sonhos?... O sonho também!
Um saco deles! Bagagem de mistério...
Um livro... Um quarto de aluguer...
Pessoas amorfas que vão e que vêm
E que arrastam consigo toda a vida,
E um odor a incesto e adultério...


E os olhos cerram, descem, descem...

E os olhos cerram, descem, descem...


Deixámos os lábios que sabem a amizade:
Deixámos as roupas que usam o desejo:
Deixámos o sangue que cozinha prazer:
Deixámos as mãos que esculpem carinho:
Deixámos a palavra que recita a verdade:
Deixámos a despedida que encontra o beijo:
Deixámos o sol que encanta o crescer:
Deixámos o vento que murmura caminho:
Mas os olhos cerram, descem, descem...

Mas os olhos cerram, descem, descem...

Mas os olhos cerram, descem, descem...


Há, então, um pestanejar: o sonho agita-se.
E os olhos cerrados, descidos, perguntam:
« Para onde vais? » - somos feitos assim!
E cada um pensa e contrai-se.
Fecha-se. Circula. E as respostas ecoam:
« À procura de mim » « À procura de mim »
« À procura de mim » « À procura de mim »
« À procura de mim » « À procura de mim »


ENCONTRO FINAL

Quem sabe do amor
A palavra certa?


Exacta.


Secreta.


O nome.


O dia.


A hora?




Quem se busca?
Descobre a luz exígua.
Multidão

Cruzam-se olhares
melhor dizendo, pensares
de almas fugidias
de um hábito de dias.
É a multidão!
E lá em cima, tranquilo
o Homem do Leme observa
um oceano de cores
sentimentos inequívocos
vários sentidos perdidos...
aromas, cheiros, perfumes
O que será?
Deliciosa sensação
preenche-me o espírito
bebo tal utopia
embriago-me nela
perco-me, encontro-me,
volto a perder-me
Procuro uma brisa,
uma direcção, que me leve
ao cume daquela montanha
de sentidos flutuantes,
de melodias penetrantes
que trespassam almas e corpos...
Descubro-me num sonho
(ser realista!)
com tons musicais, transcendentes
Caleidoscópio de emoções,
universo de visões,
miragens, viagens,
já não sei para onde vou
já não sei quem sou
tantas vidas a passar
são ondas de um outro mar
são vagas de uma maré
ou destino, ou fé
ou aquilo em que se possa
num segundo
acreditar!!

Helder Faria

3.23.2004

A próxima edição da Comunidade de Leitores recairá sobre o romance O PROCESSO, de Franz Kafka. Por enquanto temos disponíveis três traduções que servirão de base de trabalho. A data ainda não foi determinada mas calcula-se que acontecerá para meados de Abril. Assim que se escolher a data, dar-se-á a informação. Boa leitura!

3.09.2004

Não obstante ser terça-feira e a maior parte dos poetas estudar ou trabalhar para ganhar a vidinha, é de supor que teremos várias presenças surpresa.

2.28.2004

Na sessão de 16 de Março, teremos também um momento multimédia com poemas lidos pela voz do poeta portalegrense, falecido em Agosto do ano passado, José Martins dos Santos Conde, se, conforme está combinado, a família nos disponibilizar o CD.

2.26.2004

Durante esta semana entrou-se em contacto com alguns poetas de Portalegre que garantiram a sua presença. Não se diz o nome de cada um, não para manter suspense ou segredo, mas apenas porque se lhe não pediu autorização para o fazer. Até lá

2.21.2004

Afinal, a próxima sessão da Comunidade de Leitores não decorrerá durante a semana da poesia mas sim uma semana antes, no dia 16, terça-feira, pelas 17,30 horas. O tema, como já se sabe, continuará a ser CLUBE DOS POETAS VIVOS e terá como prato forte a presença de alguns poetas portalegrenses.

2.13.2004

Das próximas sessões da Comunidade de Leitores apenas se sabe que a primeira acontecerá durante a semana da poesia subordinada ao tema CLUBE DOS POETAS VIVOS e terá como protagonistas diversos poetas portalegrenses, com ou sem livros publicados. A segunda, será à volta de uma figura das letras bastante esquecida, que nasceu em Alegrete, viveu a maior parte da vida no Porto, e foi casada com Abel Santos, pintor e professor de renome no velho regime: ISAURA CORREIA DOS SANTOS. Do que mais houver se dará conta atempadamente

2.05.2004

Os cartazes já estão na rua, com imagens retiradas ao Principezinho e tonalidades azuis. Não ficou feito com o tempo de antecedência que seria preferível, mas ainda chegou a tempo. Tudo quanto se pede é reconhecer que a literatura infantil nos garante que se começarmos a vida com boas histórias, as demais que a vida nos reserva jamais lhe conseguirão subtrair o valor e o arrebatamento. Há quem leve livros dos mais incomuns!... Eu descobri O PÁSSARO AZUL, de Leyguarda Ferreira, editado em 1966, pela Romano Torres. Haverá outras iguarias? De certeza que sim!...

1.29.2004

De acordo com o que irá ser anunciado na Agenda Cultural de Portalegre, a próxima sessão da Comunidade de Leitores, será dia 10 de Fevereiro, com abordagem à Literatura Infantil. O princípio básico é que cada um leve as suas preferências neste capítulo e as divulgue perante os restantes membros da Comunidade... A ideia está no ar!

1.22.2004

UM CANTO NA HISTÓRIA (DAS ESTÓRIAS)

“E nisto o rouxinol começou com os seus trilos.
– É ele! – exclamou a rapariguinha. – Oiçam, oiçam! E está mesmo ali.
E apontou para um passarinho cinzento, pousado em cima de um ramo.”


Numa altura em que a legislação sobre direitos autorais se apresta a alteração, quiçá corrigindo algumas incoerências que vigoram sobre o assunto, a Comunidade de Leitores de Portalegre (CLP) incentiva a sua actividade com uma proposta fora da polémica, visto que a escolha recai numa obra que há muito perdeu a pertinência dos ditos: o conto de Hans Christian Andersen, considerado como o primeiro na modalidade com abordagem ecológica – O Rouxinol do Imperador.
Mas talvez a preferência não seja tão ingénua com se supõe... Escolher um conto, um género cuja simplicidade em quase nada reflecte os tempos actuais, onde predominam as complexas questões da pedofilia e do segredo de justiça, o palimpsesto político do aborto e o referendo ilegal para o Tratado de Constituição Europeia, das greves e congelamento de salários da função publica, da retoma da economia e do défice democrático, da coesão social e da cidadania, aliás exemplarmente enunciado na última edição da Fonte Nova através do texto de Fernando Mano, é, ou pode ser, quase uma pincelada de inocência sobre as matérias publicáveis e em alternidade com elas.
Que surpreende pelo desprendimento tanto como pela acutilância, pelo floreado estilístico como pela sentença judiciosa acerca da dicotomia progresso tecnológico vs natureza, e que põe em evidência a atitude humana face à utilização e usufruto das máquinas, mas que inclusive nos propõe alguma reflexão sobre a necessidade de sonhar a beleza se queremos manter acesa a utopia da sanidade – mental e física. Até porque numa Europa em construção se perdermos a capacidade de ser felizes com as pequenas coisas como o canto das aves, é bem provável que fiquemos amputados da melhor forma de a reconhecer: na sua fantasia e cultura, milenar e reconhecidamente influente na civilização global que ora eclode.
Este sonho peregrino, que acalentou alquimistas na procura da pedra filosofal, como os gentis-homens na busca do Santo Gral, esclareceu as mentes juvenis à sombra dos embondeiros como os remansos dos cavaleiros andantes sob as ramagens dos carvalhos nas clareiras das florestas e das missões superiores, nos convés dos vapores como nos bancos dos combóios, na fuga às matemáticas dos currículos como no refúgio do quarto durante as festas sociais da família, e impregnou de irreverência o espírito abúlico das classes serviçais, dos mais fracos e geniais em sua modéstia de conhecer os mistérios indizíveis do paradeiro dos cantadores insubstituíveis, para os elevar à categoria de seres capazes de navegar ainda além de todas as Taprobanas, numa minúscula epopeia que é o segredo do encontro do homem consigo mesmo, aquele que resiste a perder-se no exclusivo desgaste do dia a dia. Ou salteou com algo de sublime a agressividade do seu compromisso com a sobrevivência...
Porque em matéria de sonho é sempre a realidade quem leva a palma! Portanto, e não obstante os boatos de fragilidade e reticente continuação, a CLP veio para ficar, assentando a tónica na periodicidade quinzenal, tendo já agendada, para além desta sessão, que decorrerá no dia 27 deste mês, terça-feira, às 17:30 horas, na Sala Polivalente 1 da Biblioteca Municipal, também outra, mas de âmbito tematicamente mais alargado, que circunscreverá a Literatura Infantil, tentando assim determinar a pedra-de-toque daquilo que em princípio a todos foi comum e se alicerça no verbo que se fez génese, ao edificar o ser que a palavra não evita.
Mais: é bem provável que cada sessão venha a ter o aperitivo do vídeo sempre que haja algum filme baseado na obra sobre a qual ela recai, como é o caso de O Rouxinol do Imperador, possibilitando assim constatar quanto da disparidade nos suportes se avizinham e usufruem da mesma técnica e resultados narrativos, posto que é de há muito consciente entre nós que a complementar audiovisual cabe absolutamente na polissemia literária.
Concluindo, apraz-me convidar todos quantos já tenham lido, estejam a ler ou pretendam fazê-lo, a vir partilhar com a CLP as suas impressões sobre o conto citado, e testemunhar o deslumbramento dos imperadores face a um canto singelo mas universalmente reconhecido, deveras elogiado por intelectuais e artistas, mas cuja morada era sobretudo conhecida da menina que levava as sobras do palácio à sua avó. Que negava solidão das gerações e ditava com seu gesto que a esperança dos adultos se cimenta nos corações da criança que não adormeceu. Que está vigilante aos trilos das aves no crepúsculo da História!

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

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Escribalistas é órgão de comunicação oficial de Joaquim Maria Castanho, mentor do escribalismo português