1.29.2017

DA RECICLAGEM OU REUTILIZAÇÃO




RECICLAGENS E REUTILIZAÇÕES 

Agonizam antigas atitudes
Condutas desatuais, maduras
Caem no desuso, perdem virtudes
Caminham vacilantes, inseguras
Temem vazios, se radicalizam
Entrincheiradas em ghettos e nichos,
E se justificam quando pecam 
De recaída em recaída ficam e vão 
Pedindo ao sonho e utopia seu pão
Sua dose dominical de bem e de mal…

Os jovens desconhecem-nas, os idosos
Largam-nas; contemporâneos, então
Como quem trata do cão, dão-lhe ossos
Nas pratas e papel das prendas de Natal.

Joaquim Maria Castanho

1.28.2017

AFINIDADE





AFINIDADE 

O meu coração
em compasso de ternura
toca o teu coração
batimentos acariciam
em harmonia
no abraço apertado
corpo e alma aquecem
vidas em sintonia 
corações entrelaçados.

In IMPACTO,  2016
De ADÉLIA EINSFIELDT

DAS HORAS, A CHAVE




A CHAVE DAS HORAS

Procuro-te nos labirintos do dia
Entre os produtos, entre as estantes
Entre sonhos que não tinha, nem havia
Nos gestos que repetia, como soía antes… 
Tens o nacarado lunar que me guia, 
O jeito das estrelas caminhantes, 
A luz que estilhaça as manhãs frias, 
Pondo doçura nas suas cambiantes.
E se as sombras oprimem, tu libertas.
S'águas doem, tu lavas, purificas. 
Mas, sobretudo, silente dignificas
Habitando horas que, antes, desertas
Me desabitavam, por dilacerantes.
Fechadas. E só, por carinho, abertas! 

Joaquim Maria Castanho 


1.27.2017

SENTIMENTO UNIVERSAL




SENTIMENTO UNIVERSAL 

Como uma estátua, no pedestal
Minha Musa organiza no caos
Coisas que a humanidade usa 
Pra fazer as limpezas das naus
Desta navegação infinita
Que é garimpar os sentimentos
Com que o sonho, pepita a pepita, 
Edifica tesouros e momentos
Em que acredita e a faz plural, 
E lhe dita o sentir universal… 

E mais ainda, a silhueta linda
Duma fada pla luz absorvida, 
Perante essa centelha infinda
Da amizade, que é sol da vida!

Joaquim Maria Castanho

1.26.2017

ESTRELA CA(N)DENTE




ESTRELA CADENTE  

Esgueirou-se, a minha musa 
Entre as colunas do templo, 
Ágil, leda, lesta, difusa
Vestal beleza sem exemplo.
Por ela guerrearam titãs;
Em sua honra nascem os dias; 
Estrelas congeminam amanhãs; 
Amor é flor nas manhãs frias.
E não obstante seja reclusa
Do ganhar prà própria vida,
É bem mais de quem com(n)templo: 
É da morte a pura recusa,
Luar que do sonho é guarida,
Luz que ao breu impõe saída! 

Joaquim Maria Castanho

1.25.2017

DIVINO NÉCTAR




DIVINO NÉCTAR 

Teu pequeno «Olá!» foi imenso
Na minha imensa solidão, 
Tão grande que até penso
Que é semente de paixão
Que germinará e será flor, 
Pétalas, odor sem igual,
Se for regada com o amor
Que é a língua de Portugal
Adoçada pla brasileira
Num sonho de mel maduro
Torna-viagem da videira
Que dá o néctar do futuro…

– O sentir da vida inteira,
E em cada dia mais puro!

Joaquim Maria Castanho

1.24.2017

DIZER ALUCINADO




ALUCINADO DIZER

Se saiba, pois, que de toda poesia
Apenas um verso me chega:
É estender o braço e tocar-te
Meu sonho, meu grito de arte, 
Memória que ao presente se confia
– Presente que ao futuro se entrega.

Porque amar-te é também porfia
Insistência que à rima prega
Musa contínua, inspiração constante,
Renovada luz que a sorrir existes
Flor que nenhum verão, porém, secará
Quando na palavra a beleza permites
Onde quer que esteja, onde quer que vá.

E se digo agora o teu nome durante
Os amanhãs que nasceram já ontem, 
É por sentir que serei sempre infante
Pajem fiel da suserana estrela, rainha
Alucinação que ilumina e nunca cega
Real encarnação terreste de Arina
Por cujos cabelos a poesia me chega.  
Por cujos raios o dizer se alucina! 

Joaquim Maria Castanho

1.23.2017

BAILIA DA AUSÊNCIA TRANSPARENTE




BAILIA DA AUSÊNCIA TRANSPARENTE

Pardalitam teus olhos na lembrança
Saltitando ainda dentro dos meus, 
Marcando ritmo aos passos de dança
Com que a alma me baila nestes céus
Sem uma nuvem, uma dúvida sequer
Em entrega total, inocente criança
Ao nome de "mãe", numa linda mulher…

Podiam voar, ser livres, mas, todavia
Preferem ficar presos a esses teus,
Com que a própria luz do dia (a dia)
Pintou no azul uma dança sem véus.

Joaquim Maria Castanho

1.22.2017

SAGRAÇÃO DO FRUTO




A SAGRAÇÃO DO FRUTO 
(poema dominical)


Simples e breve, flash na imensidão,
O destino descreve pra que serve
A escolha do momento na ocasião;
Então, qual ceifeiro, por paralelo, 
Colhido o fruto no pomar singelo
Ei-lo deposto em tua carinhosa mão… 

Suas linhas tornam-no doce e belo.
E minha mesa, a latitude exata 
Onde o raio de luz (ouro amarelo)
Lhe sublinha o gosto, o colorido
De um maduro "trigo" feito em pão
Suculento, e vivo que me mata
Esta fome de sonho qu'é a paixão! 

Joaquim Maria Castanho 

O CANDEEIRO BRUXULEANTE




CANDEEIRO BRUXULEANTE


Quase como quem adormece assim
Entre luzes de estação suburbana, 
Aquele que se desconhecia hesitou… 
E eu, que já aí desci ou subi, enfim
Fiz mil reparos à forma assaz insana
Com que ele se ajeitou entre jornais.

Se não sabia ler, com que direito, então
Recorria ele à imprensa vespertina? 

Há silêncios que apenas parecem ais.
Há ais que gritam genuína humilhação. 
Há humilhações que vão de esquina 
Em esquina, onde nada mais… ilumina! 

Joaquim Maria Castanho 

1.21.2017

O MEU CÉU É OUTRO CÉU




MEU CÉU, É OUTRO CÉU, PORTANTO 

Polvilham de estrelas teus gestos
Dizendo amainado, manso luar, 
Como se entre escolhos e restos
Fossem mais doces que o sonhar; 
E demais que agitados sejam
Encrespados pela expetativa, 
Serão guardiães, que sãos protejam 
A senda da vida com seiva viva. 

Polvilham teus gestos meu canto
Teus olhos, palavras, meiga rima, 
Que jamais o céu me dirá tanto
Se ver-te, é vê-lo, sem olhar pra cima… 
Que o céu é um além que nos ‘tá dentro
Tão ideal, tão real, tão perfeito, 
Que, caso o universo tenha centro,
Nasceu-lhe ele do Big-Bang do peito.

Meio assim, do puro sentimento
Com que este céu escreveu em mim,
Sempre e toda vida a espera sem fim
– O eclodir mágico num só momento! 

Joaquim Maria Castanho 

1.20.2017

OS VERSOS SECRETOS




OS VERSOS SECRETOS 

Há momentos, ápices fugazes
Que valem uma vida inteira, 
E mais que ela são capazes
De inventar a felicidade
Quer se queira, quer não queira. 

Não os direi, agora, aqui
Que quero guardá-los só pra mim
Nas profundezas da alma (secreta), 
Onde os tesouros são em carmim
Bordados d'avó plas mãos da neta. 

São versos tais, que jamais li
Escritos num idioma sem idade, 
Eras antes da Era em que nasci
Na serra em frente da cidade.

Joaquim Maria Castanho

1.19.2017

AMOR TOTAL - III




AMOR TOTAL - III 

Não há sonetos que te descrevam
Nem sílabas que te sejam fiéis, 
Que ancestrais deus observam
E zelam e capricham (empenhadas)
Prà beleza não andar nos papéis; 
Não há palavras para contar-te
Nem cores que imitem como és: 
Só Arina pode igualar-te
Só Inanna te chega aos pés
Só Xara(zade) sabe o teu nome. 
Nem és coisa-objeto prò desejo… 
Tens o olhar das odes estreladas, 
A voz com que o sonho me consome. 

És o amor total com que te vejo! 

Joaquim Maria Castanho 

1.18.2017

A REGRA DE OURO




A REGRA DE OURO

Tenho a distância num barco
Que te há de um dia trazer, 
Pois todo o sentido é parco
Para quem se quiser devolver.
E eu me devolvo envolvido
Já naquilo que pra ti serei: 
Remada com muito sentido
Em todos os sentidos da lei.

Joaquim Maria Castanho

1.17.2017

FATALIDADE




FATALIDADE 

"Aquele que me adorar está perdido"
(Inscrição da estatueta da deusa Vénus Ibérica)

Se sol brilha, é tua voz que me abraça… 

Sei que há esperança, e dela partilho. 
Sei que podemos escrever o destino, 
Inventar nosso trajeto, nosso trilho;
E que crescer é ganhar independência
(Perder os dependeres de menino). 
Mas de todos os vícios que apanhei
O de ti é o único que me não passa 
– Que és a cura por que me desgraço. 
E se à noite a mim mesmo afianço
Que hei de pôr cobro à dependência, 
Eis que novo dia nasce, e alcanço, 
A certeza pura de minha essência: 
Prefiro mil vezes viver em desgraça! 

Joaquim Maria Castanho

1.16.2017

AO LUAR MATINAL




LUAR DA MANHà

Se não fossem os velhos marretas
Hoje, fazia-te um lindo poema; 
Mas assim, pra evitar as petas
Não o faço... – O que é pena! 

Joaquim Maria Castanho

1.14.2017

ALGODÃO DOCE




ALGODÃO DOCE


Estou combalido?
Sim. Com o quê?
Com a sorte, que não me quer;
Com a vida, que não me pensa.
Como se a última, fosse mulher
Mãe da segunda
E avó da primeira – a ofensa.

É um encanto que arrelia,
Uma arrelia que não foge,
Como esse niquinho de lã
A voar no bico do hoje.

Joaquim Maria Castanho

PAGAR O PATO




ACERCA DO PAGAR O PATO


Dizem da verdade ser relativa,
Qualquer coisa de menor monta,
Pondo a ênfase superlativa
Em  «O ponto de vista é que conta!»

Não me faria dano, nem afronta
Se virasse regra imperativa
O que tamanho dislate aponta;
Contudo, se tomar parte ativa
Importa registar, meus amigos
E amigas, com voz grave e rouca,
Para que evitem maiores perigos
Não ser de somenos, nem coisa pouca
O facto de uns comerem os figos
Quando a outros arregoa a boca! 

Joaquim Maria Castanho

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

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Escribalistas é órgão de comunicação oficial de Joaquim Maria Castanho, mentor do escribalismo português