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Convite para partilhar caminhos de leitura e uma abertura para os mundos virtuais e virtuososos da escrita sem rede nem receios de censura. Ah, e não esquecer que os e-mails de serviço são osverdes.ptg@gmail.com ou castanhoster@gmail.com FORÇA!!! Digam de vossa justiça!
8.29.2012
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O rapaz levantou-se, abandonando o leito
confortável, e olhou em volta.
– Isto não é bonito – disse.
A sala tinha um aspeto bizarro. Muitos objetos
partidos estavam amontoados a um canto. O rapaz franqueou a porta, após ter
tateado um momento para encontrar o sistema de abertura.
A sala seguinte estava cheia de livros amontoados no
chão. O rapaz pegou num, examinou-o e sorriu.
– É uma caixa que fala com os sinais dos deuses –
concluiu.
Leu um pouco e não compreendeu grande coisa. Deitou
fora aquele e pegou noutro, grande e pesado. Abriu, virou a primeira página e
leu: «Dicionário universal enciclopédico. Edição 900 P-R». Depois, passou uma
página branca. A página seguinte apresentava um magnífico A.
– A – disse o rapaz, passando o dedo pela letra.
Depois, mais abaixo leu:
– A, a. Primeira letra e primeira vogal do alfabeto
humano. O A vem-nos do nosso antepassado homo
sapiens terrestre, o animal mais evoluído do seu planeta nos tempos pré-venusianos.
O rapaz virou várias páginas e chegou à palavra
alfabeto. Leu atentamente várias vezes, sentindo prazer em reconhecer, todos
reunidos, os carateres de que tanto gostava. Depois observou o livro e deu uma
alegre risada.
«Deus – sentido próprio: superstição grosseira do
animal "homo sapiens" preenchendo comodamente todas as falhas do seu
saber pela existência de um ser invisível e perfeito, omnisciente, omnipotente,
eterno, criador e senhor de todas as coisas. Certos animais de Marte acreditam
ainda num Deus. Os Srrebs de Vénus acreditam em vários deuses (ver Srreo).
Sentido figurado (familiar): chama-se deus a um personagem ridículo e ignorante
que toma ares sapientes».
O rapaz negro abanou a cabeça.
– Estes sinais dizem coisas estranhas!
7.05.2012
QUANDO SE COME NÃO SE ASSOBIA
Ao que parece todos os anos
milhares de portugueses tiram cursos superiores. Porém, só tiram os cursos,
apenas trazem os diplomas, que o conhecimento ficou lá todo – se lá estava, nos
estabelecimentos de ensino e academias que frequentaram, lá ficou, para não se
gastar e dar hipótese aos que os frequentarem a seguir…
Em literatura não há “sexo
explícito”, porque ele só lá pode estar implícito, através das palavras, das
frases, das metáforas, das imagens, das alegorias, etc. Quando os críticos de
café classificam uma obra literária como erótica por nela haver sexo explícito,
dá-me um nó na garganta e fico com vontade de chorar. De tristeza, por reconhecer
que os anos de aprendizado e graduadas habilitações apenas lhe deram à-vontade
para sentenciar asneiras sem serem admoestados e ao abrigo dos mais variados
canudos. Há, portanto, que não confundir as barras: aquilo que é plausível em
fotografia ou em cinema – factualidade observável e evidente explicitação – não
é verificável em literatura, em nenhum dos géneros. Seja no género lírico,
épico ou dramático. O que é trágico. Pois quando se come, não se assobia, como
diz o povo!
5.24.2012
PARA UMA CIÊNCIA ABERTA
PARA
UMA CIÊNCIA ABERTA
Sinopse
Este é um
livro sobre como se faz ciência em Portugal e onde se analisa essa forma de
fazer ciência em comparação com os restantes países Europeus. Neste livro procura-se
compreender o que diferencia a investigação em matemáticas ou física da
história e economia, ou entre a química e a medicina e a sociologia e o
direito. Essa análise é feita a partir dos novos paradigmas abertos de fazer
ciência num contexto informacional.
Debate-se
assim o que é hoje a Ciência Aberta, mudança de paradigma científico ou de
paradigma de investigação? É a Ciência Aberta um novo movimento social ou uma
mera partilha de práticas? E é a ciência praticada em Portugal diferente da
praticada em outros contextos europeus? Estas são algumas das perguntas a que
se procura responder, ao mesmo tempo que se tenta propor uma definição de
Ciência Aberta assente na adoção de processos de abertura na publicação
completa, franca e rápida, na ausência de restrições relativas a propriedade
intelectual e na transparência, radicalmente aumentada, em fases de pré e
pós-publicação, de dados, instrumentos, software,
atividades e decisões dentro dos grupos de investigação.
Sobre os autores
Gustavo
Cardoso é professor de Media e Sociedade no ISCTE - Instituto Universitário de
Lisboa e investigador do CIES-IUL.
Pedro
Jacobetty é mestre pelo ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa e doutorando
no Internet Interdisciplinary Institute da Universitat Oberta de Catalunya
(IN3-UOC).
Alexandra
Duarte é mestre em Sociologia e doutoranda em Políticas Públicas pelo ISCTE -
Instituto Universitário de Lisboa.
Sobre a Mundos Sociais
Mundos
Sociais é a nova editora, que vem preencher no mercado
português um vazio que se fazia sentir na divulgação científica, assumindo como
vocação a publicação de trabalhos científicos de alta qualidade desenvolvidos
nas áreas da sociologia, ciência política e outras ciências sociais. Criada
pelo Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES), do ISCTE-IUL, a
editora é dirigida por Fernando Luís Machado (Diretor) e por Renato Miguel do
Carmo (Diretor-adjunto).
PARA
UMA CIÊNCIA ABERTA
Neste livro os autores procuram contribuir para responder a um
dos desafios contemporâneos da ciência: como delinear os contornos de novas
formas “abertas” de fazer ciência. Este é um trabalho onde se questiona a
ciência praticada no século XX à luz das novas práticas científicas, num
contexto de transformação social mais alargado: a emergência da sociedade em
rede e o despontar de uma ciência de base informacional.
As tendências identificadas constituem contributos para a
compreensão do que será e como será o funcionamento da ciência no séc. XXI. Os
autores sugerem que a partilha formal e informal de conhecimento científico nas
redes digitais adquire já hoje uma expressão considerável junto dos
profissionais da ciência, e que o enquadramento institucional do trabalho
científico parece estar a mudar para incluir mecanismos de incentivo a essas
práticas. Debate-se assim o que é hoje a Ciência Aberta, mudança de paradigma
científico ou de paradigma de investigação? É a Ciência Aberta um novo
movimento social ou uma mera partilha de práticas? E é a ciência praticada em
Portugal diferente da praticada em outros contextos europeus? Estas são algumas
das perguntas a que se procura responder, ao mesmo tempo que se tenta propor
uma definição de Ciência Aberta assente na adoção de processos de abertura na
publicação completa, franca e rápida, na ausência de restrições relativas a
propriedade intelectual e na transparência, radicalmente aumentada, em fases de
pré e pós-publicação, de dados, instrumentos, software, atividades e
decisões dentro dos grupos de investigação.
5.20.2012
Dia 28 de Maio, pelas 18 horas, na Biblioteca Municipal de Portalegre, sessão de leitura do Grupo READCOM de Portalegre, sobre obra de Jorge Luis Borges
O Grupo de Leitura READCOM – ou, numa terminologia
mais corporativista, o CLUBE de LEITURA READCOM – de Portalegre, teve o seu
período de arranque entre 2005 e 2008, no qual foram abordados, com relativa
acuidade e crítica, conforme a oportunidade, aproximadamente 40 livros doutros
tantos autores. Foi uma viagem por temas como a identidade, a diferença, o
género e a literatura. Seguiu-se uma recapitulação do formato, que culminou na
mudança de lugar e cenário para esses encontros com os livros. E desde então, periódica
e regularmente, de mês a mês, na Sala Polivalente da Biblioteca Municipal de
Portalegre, têm vindo a suceder-se… Desceu-se pelo continente africano num ano,
entrou-se na América Latina no outro, com visitas guiadas a diversos autores e
nações. Os últimos foram Chile e Argentina. Esta com Jorge Luis Borges, sobre a
obra Ficções, que estará na mesa das operações analíticas, dia 28 de Maio de
2012, pelas 18 horas.
ODISSEIA, LIVRO VIGÉSIMO TERCEIRO
Já com a espada de ferro executou
O devido trabalho da vingança
E com ásperos dardos e a lança
O sangue do perverso espalhou.
A despeito de um deus e de seus
mares
A seu reino e rainha voltou
Ulisses
A despeito de um deus e dos
difíceis
Ventos e do estrépito de Ares.
Já no amor do compartilhado leito
Dorme a clara rainha sobre o
peito
Do seu rei, mas onde está o homem
Que nos dias e noites da
separação
Errava pelo mundo como um cão
E dizia que Ninguém era o seu nome.
(Jorge Luis Borges)
Quem for aficionado destas
andanças, e quiser participar, será bem acolhido e não dará por mal-empregado o
seu tempo; essa, lhe afianço! :D
LANÇAMENTO DA REVISTA PLÁTANO nº 5, dia 23 de Maio, dia da cidade, pelas 16 horas, na Biblioteca Municipal de Portalegre
Sob a
iniciativa do coordenador e responsável editorial, Mário Casa Nova Martins, a
revista PLÁTANO, revista de arte e crítica de Portalegre, nasceu em má maré mas
tem-se aguentado. Tanto assim que já vai no nº 5, e surge num momento histórico
algo anorético para a carteira da maioria. A adivinhar pela capa e
colaborações, propondo uma grelha eclética e diversificada. Vai ser apresentada
ao público, dia 23 de Maio, pelas 16 horas, na Sala Polivalente da Biblioteca
Municipal de Portalegre. Talvez não seja uma oportunidade a desperdiçar para quem,
depois de um almoço de feriado a meio da semana, esteja recetivo às novidades e
iniciativas que a sociedade civil portalegrense vai pautando, sem outra
aspiração além da participação ativa no seu tempo e território… Que tal?
4.29.2012
“Só
acredito nos deuses da fábula, da Mitologia… Ceres farta e abundante, a encher
de flores e frutas os vergeis, Ceres, a alma perfumada das laranjeiras, é uma
santa da minha devoção. – Esqueceu-se Fred, que tenho horror às mulheres
gordas…
Pan,
tocando a sua flauta de pastor, num canto florido do bosque, é o meu anjo da
guarda!
Já
depus uma complicada oferenda d’ovelhas e de pombas no altar d’Eros!
Tenho
um fraco pelos faunos, que se escondem nos maciços de madressilvas para
surpreender as ninfas, que nas brandas noites, dançam ao luar! – Em boa hora
não se lembrou de dizer que faço parte do bailado!
Acredito
na virtude cantante das fontes e acho mais devotas de que as cátedras, as
árvores, erguendo para o céu, as torres de verdura!
Se,
nas doces tardes de Maio, alguém me viu no mês de Maria, é porque nessa devoção
cristã, a uma virgem, coroada de rosas, erra ainda, perfumada e bela, a alma do
velho paganismo!...” (In LUZIA, Os Que Se Divertem, p.152)
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Alentejanos Célebres,
Há Luz no Escurecer,
Textos Alheios
4.07.2012

Porque a arte é por excelência um veículo de transporte e celebração de afetos, também a vossa participação é, sempre foi e há de continuar a ser, o nosso melhor poema
JOAQUIM CASTANHO E LÍDIA GODINHO em MOMENTOS DE POESIA
Conforme tem sido habitual, de algum tempo a esta parte, acontecem Momentos de Poesia todos os meses na Biblioteca Municipal de Portalegre, mais precisamente ao segundo Sábado de cada mês, pelas 16 horas, sob a generalizada coordenação de Deolinda Milhano.
Para essas sessões, segundo também o que normalmente tem acontecido, são convidados alguns autores portalegrenses – mas não só –, poetas – maioritariamente, mas não só – para participar e assim prestar seu contributo, lendo ou declamando os seus textos, de acordo com a livre escolha e estilo de cada um, e no formato que melhor lhes convém.Desta feita, calhou a sorte, no próximo Sábado, dia 14 de abril de 2012, a Joaquim Castanho, escritor natural de Portalegre, que terá iniciado a sua atividade literária exatamente com o género poético, e que conta já com um considerável número de
títulos originais e inéditos, entre os quais quatro de poesia ( EUCLASIA, CAPAS NEGRAS, FAIT-DIVERS e O ESCRIBALISTA E SEUS ESCRIBALISMO PRETÉRITO).
Todavia, não será somente por isso que esta edição de MOMENTOS DE POESIA se antevê como uma sessão extraordinária... Antes sim pelo formato e pela preciosa colaboração que Joaquim Castanho irá ter – a de sua amiga de longa data LÍDIA GODINHO, também ela natural deste distrito, embora atualmente a residir em Lisboa e a trabalhar
na Amadora, que conhece a sua poesia como mais ninguém e desde os tempos de estudante nesta cidade, onde frequentou o ensino secundário e superior.Ou seja, além do universo poético e habitat inequívoco de sentimentos e emoções, memórias e metáforas, registos ideológicos e apontamentos do quotidiano, se vai nela ter igualmente oportunidade de constatar o efeito direto desse outro grande afeto que é a AMIZADE, e de como ele transforma os sons, as imagens e as palavras, em exemplos vivos de pronúncia humana, cujo timbre e ritmo é indubitavelmente o do mútuo reconhecimento e apreço, uma "musicalidade" quase perdida nos dias de hoje mas tão necessária como urgente neles.
Portanto, o convite aqui fica a todas e todos que queiram testemunhar essa simbiose das falas apenas, possível numa língua em que o sotaque alentejano arrasta consigo fiapos da alma
lusitana, que se hão de entretecer numa malha de afetos vincadamente universais com que se se subscrevem todos os reencontros humanos – a ternura, a empatia e a amizade.
Portanto, o convite aqui fica a todas e todos que queiram testemunhar essa simbiose das falas apenas, possível numa língua em que o sotaque alentejano arrasta consigo fiapos da alma
lusitana, que se hão de entretecer numa malha de afetos vincadamente universais com que se se subscrevem todos os reencontros humanos – a ternura, a empatia e a amizade.Porque a arte é por excelência um veículo de transporte e celebração de afetos, também a vossa participação é, sempre foi e há de continuar a ser, o nosso melhor poema!
2.15.2012

Prémio António Alçada Baptista
O Prémio António Alçada Baptista destinado a obras de carácter autobiográfico e memorialístico foi atribuído por unanimidade ao escritor, musicólogo e radialista António Cartaxo, pelo seu livro de memórias “Quase Verdade como São Memórias”, editado pela Colibri. O júri foi constituído por António Torrado, José Jorge Letria e João Lourenço, que consideraram esta obra merecedora da distinção pela sua qualidade literária e de testemunho cultural e social.
Este prémio foi criado para homenagear António Alçada Baptista, que foi membro da Direcção da SPA e se destacou também no domínio literário que este galardão consagra. É a primeira vez que o prémio com o valor pecuniário de 2.000 euros é atribuído, mantendo-se a sua periodicidade anual e sendo o regulamento consultável junto dos serviços da SPA. Oportunamente será anunciada a data da entrega do prémio a António Cartaxo.
Lisboa, 10 de Fevereiro de 2012
Para mais informações http://www.edi-colibri.pt/Detalhes.aspx?ItemID=1294
2.09.2012
LUZIA, pseudónimo literário da portalegrense Luísa Grande, foi uma marca de inegável talento e criatividade cujo rasto não se pode diluir no tempo
É grande loucura essa, a de alguns escritores terem a mania de quererem ser felizes, mesmo quando parece tudo e todos estarem realmente empenhados em não deixar que isso aconteça… Porventura será exatamente por isso que muitas pessoas os admiram tanto, por sentirem que estes anseiam, afinal, o mesmo que elas.
Conseguiu porém LUZIA, sem que sequer alguma vez lhe resvalasse a pena para o casticismo exótico ou para o porreirismo lamechas, gizar quadros de singela e pitoresca beleza acerca do dia-a-dia dos portugueses do princípio do século passado, quer deste quadradinho continental como das ilhas atlânticas, do universo lisboeta como das latitudes alentejanas, da cosmopolita Europa como das rústicas e montanhosas aragens dos Pirenéus, sob a acentuada influência estética do parnasianismo disseminado por Anatole France, por exemplo, bem como sob as matizes simbolistas e fantasiosas da francofonia veiculadas por Jane Cals ou Marguerite Burnat-Provins, entre outros e outras, que lhe timbraram o discurso com aquela peculiar melancolia sonhadora das almas que fizeram da solidão o seu porto-seguro. Se o mundanismo modernista a arrastou consigo esporádicas vezes pela sua condição de mulher de convívio com outras mulheres, nunca porém lhe foi acérrima aficionada, talvez em resultado de suas múltiplas orfandades que desde cedo lhe torceram o destino (de mãe, de pai, de terra, de marido, de ideologia e de saúde), lavrando o choro e riso, num estilo de vincada oralidade fruto inequívoco dos serões familiares alentejanos, onde não lhe seria alheia a paulatina vagabundagem pelos universos imagéticos das Mil e Uma Noites, propícia ao conforto doméstico junto à lareira, ou as demandas shakespearianas adaptadas às circunstâncias pouco exigentes do Teatro Portalegrense, último grito da cultura e da moda numa cidade a braços com a acesa catolicidade que via com maus olhos que os sapateiros intentassem além da sovela, embora o amadorismo fosse o único recurso para lhe animar a plateia, legando-nos ainda assim uma profícua obra, cujos alicerces se implantam nos géneros dramático e bucólico, dispersando-se por epístolas, diários, contos, novelas, bilhetes-
postais, crónicas de costumes, artigos de fundo e críticas, peças de teatro, sketches, impressões de viagem, caraterização de tipos, recolhidos da observação direta e da introspeção, com narrativa na primeira pessoa, confirmando quanto é necessário que alguém se insurja contra o olvido através da prevenção, pois “quem se esquece de si próprio é fatalmente esquecido pelos outros”, como muito a propósito faz notar em Flores de Inverno: IV – Margarida, do livro Almas e Terras Onde Eu Passei, Edições Europa, pág. 190.
Teve dissabores, é claro – e quem os não teria numa época em que a mulher era considerada o sexo fraco, falho de vontade e responsabilidade cívica, exceto para as atividades ligadas à procriação da espécie e cultivo da (honra da) família? –, mas contornou-os sob o principal refúgio da leitura e da escrita, instigada imaginação, quiçá inspirada no cavaleiro da fraca figura – como se observa em Almas e Terras Onde Eu Passei, na página 42 – que errou pelas terras da Ibéria comum, aspergindo a perspicaz acutilância observativa e orientação ética de um Cervantes sobre o dorso desse Rocinante apenas prestável para o romantismo das grandes batalhas, precisamente aquelas cujo campo é tão-só e exclusivamente a alma humana.
Pois agora, que ninguém lhe deve nada, nem qualquer ressentimento, pela sua formação e crescimento numa família com etiqueta regeneradora, coisa que à nova república não agradava sobremaneira, creio ter chegado o tempo, não só de lhe lermos a obra como também de recuperar o exemplo, a modernidade e a dignidade de uma mulher que leu os sinais para não perder o sentido da vida. A sua, é óbvio, e igualmente a nossa, enquanto conterrâneos e descendentes de língua e verbo.
É grande loucura essa, a de alguns escritores terem a mania de quererem ser felizes, mesmo quando parece tudo e todos estarem realmente empenhados em não deixar que isso aconteça… Porventura será exatamente por isso que muitas pessoas os admiram tanto, por sentirem que estes anseiam, afinal, o mesmo que elas.
Conseguiu porém LUZIA, sem que sequer alguma vez lhe resvalasse a pena para o casticismo exótico ou para o porreirismo lamechas, gizar quadros de singela e pitoresca beleza acerca do dia-a-dia dos portugueses do princípio do século passado, quer deste quadradinho continental como das ilhas atlânticas, do universo lisboeta como das latitudes alentejanas, da cosmopolita Europa como das rústicas e montanhosas aragens dos Pirenéus, sob a acentuada influência estética do parnasianismo disseminado por Anatole France, por exemplo, bem como sob as matizes simbolistas e fantasiosas da francofonia veiculadas por Jane Cals ou Marguerite Burnat-Provins, entre outros e outras, que lhe timbraram o discurso com aquela peculiar melancolia sonhadora das almas que fizeram da solidão o seu porto-seguro. Se o mundanismo modernista a arrastou consigo esporádicas vezes pela sua condição de mulher de convívio com outras mulheres, nunca porém lhe foi acérrima aficionada, talvez em resultado de suas múltiplas orfandades que desde cedo lhe torceram o destino (de mãe, de pai, de terra, de marido, de ideologia e de saúde), lavrando o choro e riso, num estilo de vincada oralidade fruto inequívoco dos serões familiares alentejanos, onde não lhe seria alheia a paulatina vagabundagem pelos universos imagéticos das Mil e Uma Noites, propícia ao conforto doméstico junto à lareira, ou as demandas shakespearianas adaptadas às circunstâncias pouco exigentes do Teatro Portalegrense, último grito da cultura e da moda numa cidade a braços com a acesa catolicidade que via com maus olhos que os sapateiros intentassem além da sovela, embora o amadorismo fosse o único recurso para lhe animar a plateia, legando-nos ainda assim uma profícua obra, cujos alicerces se implantam nos géneros dramático e bucólico, dispersando-se por epístolas, diários, contos, novelas, bilhetes-
postais, crónicas de costumes, artigos de fundo e críticas, peças de teatro, sketches, impressões de viagem, caraterização de tipos, recolhidos da observação direta e da introspeção, com narrativa na primeira pessoa, confirmando quanto é necessário que alguém se insurja contra o olvido através da prevenção, pois “quem se esquece de si próprio é fatalmente esquecido pelos outros”, como muito a propósito faz notar em Flores de Inverno: IV – Margarida, do livro Almas e Terras Onde Eu Passei, Edições Europa, pág. 190.Teve dissabores, é claro – e quem os não teria numa época em que a mulher era considerada o sexo fraco, falho de vontade e responsabilidade cívica, exceto para as atividades ligadas à procriação da espécie e cultivo da (honra da) família? –, mas contornou-os sob o principal refúgio da leitura e da escrita, instigada imaginação, quiçá inspirada no cavaleiro da fraca figura – como se observa em Almas e Terras Onde Eu Passei, na página 42 – que errou pelas terras da Ibéria comum, aspergindo a perspicaz acutilância observativa e orientação ética de um Cervantes sobre o dorso desse Rocinante apenas prestável para o romantismo das grandes batalhas, precisamente aquelas cujo campo é tão-só e exclusivamente a alma humana.
Pois agora, que ninguém lhe deve nada, nem qualquer ressentimento, pela sua formação e crescimento numa família com etiqueta regeneradora, coisa que à nova república não agradava sobremaneira, creio ter chegado o tempo, não só de lhe lermos a obra como também de recuperar o exemplo, a modernidade e a dignidade de uma mulher que leu os sinais para não perder o sentido da vida. A sua, é óbvio, e igualmente a nossa, enquanto conterrâneos e descendentes de língua e verbo.
O Serviço de Ciência da Fundação Calouste Gulbenkian realizará de Fevereiro a Outubro de 2012 um ciclo de conferências subordinado ao tema MATEMÁTICA: A CIÊNCIA DA NATUREZA, no qual participarão reconhecidos cientistas portugueses, que terão lugar noAuditório 2 pelas 18:00 horas
com
Transmissão directa nos espaços adjacentes
Videodifusão http://www.livestream.com/fcglive
E por esta ordem de agendamento:
15 Fevereiro 2012 18h00
Trazer o céu para a terra
Henrique Leitão
Universidade de Lisboa
28 Março 2012 18h00
Ter muitas ideias, e a coragem de deitar quase todas fora
Dinis Pestana
Universidade de Lisboa
18 Abril 2012 18h00
Geometria com dobras de papel: como o origami bate Euclides
Ana Rita Pires
Cornell University
A primeira conferência – Trazer o Céu para a Terra – prevista para o auditório 2 da Fundação Calouste Gulbenkian, no dia 15 de Fevereiro p.f., às 18h00, será proferida pelo Prof. Doutor Henrique Leitão, da Universidade de Lisboa.
A contemplação do céu e dos astros sempre fascinou a humanidade.
Mas quando se quer fazer um estudo mais concreto das posições e dos movimentos das estrelas e dos planetas imediatamente se descobre que isso não é simples: os astros parecem deslocar-se numa superfície esférica, uma abóbada por cima das nossas cabeças.
Para se poder passar da simples contemplação ao estudo sério dos astros foi preciso que os matemáticos concebessem um modo de, na terra, se conseguir estudar rigorosamente o céu. Ou seja, um processo matemático de trazer o céu para a terra.
Henrique Leitão (n. Lisboa, 1964) é doutorado em Física Teórica pela Universidade de Lisboa (1998).
Depois de alguns anos trabalhando em física (no Centro de Física da Matéria Condensada da Universidade de Lisboa) orientou os seus interesses para a história da ciência. Foi um dos fundadores, em 2003, do Centro de História da Ciência da Universidade de Lisboa.Atualmente é Investigador do Centro Interuniversitário de História das Ciências e da Tecnologia (CIUHCT-UL) da Faculdade de Ciências de Universidade de Lisboa, e docente no Mestrado em História e Filosofia da Ciência, na mesma Faculdade. Os seus interesses de investigação centram-se na história das ciências exatas, entre o século XV e o século XVII, sendo o coordenador da comissão científica encarregue da publicação das Obras de Pedro Nunes, pela Academia das Ciências de Lisboa e a Fundação Calouste Gulbenkian. Tem também investigado a atividade científica em colégios da Assistência Portuguesa da Companhia de Jesus. Colabora regularmente com a Biblioteca Nacional de Portugal, onde já foi Comissário Científico de quatro exposições e é o responsável pelo projeto de catalogação dos manuscritos científicos antigos.
É autor de uma vasta obra, com vários livros e algumas dezenas de artigos publicados em periódicos da especialidade. Publicou em 2010 a tradução, com estudo introdutório e notas, do livro de Galileu: Sidereus Nuncius. O Mensageiro das Estrelas (Fundação Calouste Gulbenkian). Participa, como coordenador ou membro, em vários projetos nacionais e internacionais e é membro de diversas sociedades científicas portuguesas e estrangeiras, entre as quais destaca a Academia das Ciências de Lisboa, a Académie Internationale d’Histoire des Sciences, a European Society for the History of Science (foi membro do «Scientific Board» no triénio 2008-2010) e a History of Science Society.
Não esquecendo como atrás foi referido, que se poderá igualmente assistir em direto, esteja onde se estiver, através do site: www.livestream.com.fcg/live.
MATEMÁTICA: A CIÊNCIA DA NATUREZA
Uma enorme transformação no conceito de Natureza ocorre durante os séculos do Renascimento e dos Descobrimentos. As grandes navegações oceânicas tornam esta transformação impossível de esconder. A utilização intensiva de instrumentos, de tabelas, de mapas, bem como a circulação de pessoas, plantas e animais à escala do globo, criam a necessidade de se entender a forma nova que o mundo assume aos olhos maravilhados dos europeus. O século XVII, em que nasce a ciência moderna, consagra esta transformação.
Galileu põe a terra em movimento; e o movimento está por toda a parte: não há estado de repouso no Universo. Mas, ao mesmo tempo, comete um “pecado” de consequências monumentais para o futuro – para legitimar o novo conceito de descoberta das leis naturais, Galileu identifica a Natureza com um livro tão sagrado como a Bíblia, porém escrito numa outra linguagem – a da matemática. Ora a matemática era desde os gregos indissociável da Natureza; era o próprio conhecimento rigoroso, não mitológico, da realidade, através da aritmética, da geometria, da música e da astronomia. Paradoxalmente, em poucas dezenas de anos, a matemática aparece apenas como um “instrumento” de compreensão da nova Natureza. A nova matemática (o cálculo) está separada da natureza, funcionando apenas como a sua linguagem. Um novo conhecimento das coisas naturais emerge, adotando inclusivamente o nome latino de “scientia” para não se confundir com o antigo. A nova física (que surge como mecânica: o estudo do movimento e das forças) triunfa, acolhendo rapidamente os outros fenómenos naturais. Privada inadvertidamente do seu objeto, a matemática escolhe um caminho de progressiva abstração como estratégia evolutiva, com grande sucesso, até aos dias de hoje.
Foi preciso o Cubismo e a Mecânica Quântica para que a Natureza se voltasse a cobrir com os seus véus. Um século depois, percebemos que um conhecimento matemático novo será determinante para que o mundo que nos rodeia ganhe uma nova inteligibilidade. Nós também somos Natureza e esta perceção de base é fundamental para se equacionar a complexidade do nosso tempo. Entendeu por isso o Serviço de Ciência dedicar o ano de 2012 a pensar, de forma motivadora, nos novos caminhos abertos ou antevistos pela Matemática ao reassumir em plenitude o seu papel central de discurso sobre a Natureza.
João Caraça
(Diretor do Serviço de Ciência da Fundação Calouste Gulbenkian)
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2.07.2012
O ROSÁRIO, de Florence Barclay, na perspetiva de LUZIA, escritora portalegrense dos séculos XIX/XX(…)
Já mais calmo o fogacho, eu me dispunha a utilizar de certa ciência, entre todas preciosa e há muito aprendida, a da renúncia, quando a minha inteligente amiga Dora veio oferecer-me um romance, em que logo encontrei o antídoto que reclamava. Embora escrito nos primeiros anos deste século, o [The] Rosary, de Florence Barclay, está ainda impregnado de toda a deliciosa pieguice, exagero, ia a dizer outra vez… peluche – decididamente não posso pensar nessa época sem que me ocorra a peluche! – do seu antecessor.
Tudo se passa entre duquesas, Ladies, Sirs. As mulheres loiras e brancas – oh! que alívio! – usam rendas antigas no decote, guarnecem de narcisos doirados ou de camélias pálidas, as jarras de cristal. A bíblia e as grandes tiradas líricas alternam. Jane Champion – honourable, já se vê, que sob assaz respeitáveis dimensões, possui uma alma ultrarromântica e uma voz rival da Patti – canta as horas do seu amor, as pérolas do seu rosário… Exatamente o que eu precisava para esquecer Congo(1)e purificador de cocodri! Abençoada Champion!
Por muito dramático que seja o lance, nunca se põem de parte as boas maneiras nem se altera a hora do chá. E desde os bolos, os criados, as salas, os terraços, os jardins, as toilettes, os títulos, até às almas, tudo é de primeira, superfina qualidade!
Oh! Minha doce, sentimental, um nadinha ridícula e, por isso mesmo, ainda mais enternecedora, Florence Barclay, como eu gostei de ti! Sim, fez-me sorrir, de vez em quando, a tua pontinha de snobismo, senti como é absurdo, pueril, todo esse mundo que, num constante deslumbramento – Florence, Florence que fascinação exerciam, em ti, as duquesas! – descreves e, contudo, quanto tenho de agradecer-te! Afastaste o pesadelo com o teu sonho brando. Quanto te invejo! Queria viver como viveste, sempre presa ao teu engano. E quanto te admiro! Porque, tão apaixonada, tão ardente, tão imaginativa aliás, tu só viste o que é puro, bom. Ah! Muito teriam que aprender contigo… Chut! Calei-me a tempo. Você deve estar horripilado, com os cabelos em pé, tal qual um gato a que afagou o pelo em sentido contrário! Mas, querido amigo, a culpa é sua. Porque presume tanto das minhas forças, porque me pede demais?
Monte, Outubro de 1931.
(1) Congo, romance com magia negra e exotismo afro de Paul Morand.
In LUZIA, Impressões de Livros, Almas e Terras Onde Eu Passei, Edições Europa, pág. 270-271. Lisboa, 1936
1.16.2012
O TERRORISMO PSICOLÓGICO DOS ABANCADOS À DÍVIDAE os acusados de imaginação fértil logo que levantam as lebres e outros desmandos
“Fique sabendo, para seu governo, se alguma vez cá vier, que na minha terra, chamar porca… a uma porca, é um terrível palavrão.”
In LUZIA, Cartas do Campo e da Cidade, Portugália Editora. Lisboa, 1923
Os burros, como toda a gente sabe e reconhece, são bichos maníacos, de ideias fixas e obtusos, mas acontece que os teimosos não lhe ficam atrás em burridade e estuporice, pelo que continuam a insistir, tentando impingir aos demais a sua pestilência intelectual, convencidos de que é o suprassumo da cultura (pacóvia e provinciana nas modalidades de arrazoado lamechas mais célebres identificadas pelo tradicional asno que a outro asno coça), com o fito de nos persuadir e convencer acerca da mais-valia que assiste a algo por haver quem corrobore a sua opinião nociva como benévola.
Que fique definitivamente assente que saber ler e escrever em português não é nenhum handicap ou moléstia de formação; é uma prova de elevação cultural e ética de qualidade certificada. E muito menos é qualquer tara ou mania de excêntrico desafortunado, intelectual empobrecido, iluminado radical ou subserviente da lusatinidade (moribunda); é estar atualizado e ao corrente acerca do que os seus familiares fazem pelo mundo fora e como o veem, sentem, vivem, modificam e perspetivam. Portanto, pare-se de uma vez por todas de confundir os portugueses com alguns mentecaptos detentores da palavra e vociferação nos púlpitos dos Mass Media e academias do saltério: porque eles não são a nata, mas sim a escória de uma civilização milenar. Aquilo que os poetas, dramaturgos, romancistas, filósofos, críticos, artistas plásticos e criadores de imagem dos países de língua oficial portuguesa fazem, não constitui nenhuma perniciosa influência para o desenvolvimento e desígnios patrióticos, ok? É o espelho vivo da alma ancestral que nos impulsionou durante todos os períodos históricos da humanidade (vigente).
Quando alguém revela os desmandos e burlas dos instalados orçamentais, eis que aparecem de imediato os tocadores de Mozart alardeando que os dizedores têm uma imaginação muito fértil, o que, grosso modo, significa serem uns mentirosos. A estratégia é mais velha que a Serra d’Ossa, mas dá sempre resultado. Claro que a ninguém passa pela cabeça insurgir-se contra a mezinha, porquanto todos se acham com direito a usá-la de vez em quando… Vai daí, atiram a lama ao ousado e ficam alapados à espera dos proventos!
E um dos mais desejados, é o que acompanha o terrorismo psicológico inquisitorial jesuíta: o de demoníaco representante do mal, judeu ou bruxo, maçon ou radical – tanto faz. O isolamento e ostracismo deve ser eficaz e evidente, intencional e propositado, a fim de todos notarem a pedagogia envolvida. Depois, se o “energúmeno” não aguentar, resta lamentar a sua fraqueza, o ter sucumbido, para ficar demonstrado como a medida tinha montes de razão para ser tomada… Não aguentar é sintomático de um espírito atrofiado e fantasioso.
Desconheço quantos se riram das afirmações sobre a natureza maçónica das movimentações eleitorais e nomeações de cargos políticos que algumas pessoas fizeram – e tiveram! – nos últimos 20 anos. Dos olhares compungidos e caridosos, apiedados mesmo, com que foram brindados. Do descrédito que se teceu à sua volta e sobre suas atividades. Todavia, de uma coisa – tal como foi observado na semana passada sobre as relações entre a maçonaria e o poder, em Portugal – podemos estar certos: quem o afirmou estava certo e quem o ridicularizou ou escarneceu, é que estava errado, foi mal-intencionado e de uma má-fé, deslealdade e desonestidade criminosa.
Logo, se havia alguma evidência de imaginação fértil, ela não estava colada aos que declaram as suas suspeitas, mas sim aos que tentaram manobrar de modo a pintar a manta, convencendo os demais que a sua mentira era a única verdade possível, visível e incontestável. Ora, se isso não é terrorismo (psicológico), então o que é? É o cais das colunas? Ou, se calhar, é futebol, fado e Fátima… Quer, dizer: força, beleza e sabedoria.
Tem jeito, tem!...
1.15.2012
Os rafeiros ladram e a caravana passa“Ainda está para chegar o dia em que eu ficarei
chateado quando alguém me elogiar.”
Otto Isch
A coisa dizia-se ao contrário, mas nunca meteu piada nem foi levada a sério por ninguém de bem, defensor da beleza, força e sabedoria… Agora, e com certeza de afianço e garantia, diz-se – e muito bem! – que “quem não tem gato caça com cão”. E cão de pobre resmunga por tudo e por nada. Quando preso, sente-se injustiçado e faminto; então, ladra impotente a quanto mexe à sua volta, indiferente e indiscriminadamente, quer lhe seja agressivo ou benfazejo. Depois, se à solta, fica sem saber que fazer para alimentar-se e, em consequência, ataca todos aqueles que lhe estendem a mão propondo iguarias. Bloga que bloga mas não sabe aproveitar a liberdade ou os meios gratuitos que lhe põem ao dispor para se instruir, valorizar, trabalhar, partilhar, divertir-se ou somente comunicar e integrar-se no meio ambiente que o acolhe.
Acossado, refugia-se no anonimato e secretismo – que, como todos sabemos desde que Orwell o denunciou no seu Down and Out in Paris and London, de 1933 (aliás já traduzido para português, por Miguel Serras Pereira, intitulado Na Penúria em Paris e em Londres, e editado pelas Edições Antígona, em 1985) é o principal sintoma de miserabilidade existencial de qualquer mortal – e morde o suco do seu próprio veneno ou peste emocional. Aquilo que toca e lambe fica igualmente contaminado com a sua doença: a raiva pestilenta. Vítima da sua própria peçonha, ira e demência, desesperado, investe a eito sobre os demais viventes embora estes o desconheçam, ou alguma vez o tenham prejudicado. Professa a obtusidade da cegueira e emerge das profundezas da inveja e frustração para instaurar o caos e a maledicência.
Álvaro Guerra, a propósito da sua privilegiada eclosão no antigo regime, descreve-o em Mastins e Aquilino Ribeiro teceu-lhe caricatura a preceito no Quando os Lobos Uivam. Eça de Queirós mete-lhe A Trombeta nos salsedos queixos e Wilhelm Reich caracteriza-o em Escuta, Zé Ninguém! José Cardoso Pires adjudicou-lhe tanto A Cartilha [do Marialva] como O Delfim e a psicopatologia atribui-lhe larga fatia das suas preocupações científicas. Mas embora a comunicação social lhe dê honras de página em noticiários e colunismos de opinião, os comuns mortais não lhe concedem o mínimo crédito, e isso magoa-o deveras... Cai-lhe fundo! Põe-no a arrastar o ilhós por qualquer nervuda e toca de locomover-se a quatro em todo o terreno! Até na Internet!
(Assim, qualquer um pode constatar que a sua verve não passa de uma verborreia ou manancial de esterco e lombrigas!...)
Digamos que este cão é diversos cães... Que teve azar na vida e nasceu para ser abandonado! Aqueles que o representam negam-se a assumi-lo. Os que o assumem não o assinam. Quem o licencia não lhe aplica vacina. E o dono nega-o três vezes três vezes num mesmo dia, antes e depois do galo cantar.
“São os cães do senhor sem Senhor, que é uma grande e eterna vontade e, também um extenso passado, um obscuro, monstruoso e monótono passado incrustado no tempo dos tempos”, conforme a propósito deles afirmou Álvaro Guerra. Normalmente caluniam, vituperam, esganam, difamam, obstruem, despedaçam, desvirtualizam e empestam tudo e todos mas fazem-no sempre acoitados pelo anonimato das tecnologias da informação. Suficientemente ousados para mentir apenas conhecem a cobardia como método, o boato como fato e a dor de corno por motivação. Para eles a diferença chama-se aborto, a mentira imaginação fértil, ao afastamento dão o nome de desvio, confundem subjectividade com manipulação e pregam deontologias que jamais praticarão. Todavia “por toda a região, vencendo penhascos pedregosos, várzeas, ribeiros, planície, charneca, muros de quintais, forçando as portas e postigos fechados das casas da Aldeia, ultrapassando-a, correndo pela boca dos viajantes e por caminhos e atalhos, espalhou-se a fama dos cães do Senhor. São a guarda da Quinta e põem na alma de quem lá passa angústias de ladrões perseguidos, são a lei, a ordem e o medo que governam os territórios do Senhor, lei, ordem e medo em vigor por toda a parte, penhascos, várzeas, ribeiros, planície, charneca, Aldeia, bocas e corações dos que lá vivem, caminhos e passos que os trilham” (idem, ibidem).Contudo, sendo alimárias do aqui e agora não passam de uns anjinhos à luz cruel e fria de qualquer bestiário da atualidade, posto que estão tão arreigados ao servilismo que até quando querem ofender alguém apenas conseguem tecer-lhe elogios, à semelhança daquilo que Maomé disse do toucinho como propaganda ao bom gosto, a que nunca ninguém poderá chamar carne de cão por respeito à dignidade e nobreza de carácter desse animal, ou à magistral e dedicatória afeição que lhe concedem os seres humanos, independentemente da sua cor ou raça, credo ou condição física, e aos quais devo encarecidamente agradecer o terem-me colocado no convívio de gente de valor e mérito reconhecido, como os escritores da lusofonia, cujos esforços e empenho, ainda que mais nada tivessem feito pela língua portuguesa, criaram, produziram e difundiram um idioma que serve aproximadamente 200 milhões de utilizadores, vivo e pleno de afetos nos cinco dos continentes habitáveis do planeta e mais bem frequentados pela espécie.
Pode ser muito pouco face à hegemonia de culturas menos ricas mas mais prósperas, fundamentadas na observância esclavagista do mercantilismo majestático da pregação sexista bibliómana; pode. Pode estar cimentado por um universalismo da alma ibérica com raízes alicerçadas nos cultos bárbaros à Deus Sol da origem da civilização indo-europeia; pode. Pode estar em ruínas como os monumentos anteriores à Antiguidade Clássica; pode. Mas é suficiente para nos entendermos enquanto os impérios da modernidade desabam e se abatem no caos dos oportunismos energéticos e ideológicos. E isso basta-nos para a entendermos como uma solução viável nesta crise mundial, e não como mais um problema de desacordo ortográfico.
Portanto, quando há dias atrás, alguém, na declarada intenção de denegrir o êxito e abrangência dos meus textos, poemas, contos e novelas, afirmou que só essa crioulada da morna e do sambinha é que me liam, fez muitíssimo bem em dizê-lo, pois foi o maior elogio que alguma vez me fizeram e ainda está pra nascer o dia em que ficarei chateado quando me elogiam. Obrigado, pois aos que me repudiam e ofendem, porque deles será o reino do anonimato e esquecimento.
1.10.2012
Com a apresentação de José da Costa Caldeira (Ex-Secretário da Associação Portuguesa de Genealogia), e no âmbito das comemorações da vida e da obra de António Francisco Barata (1836-1910), historiador e investigador goiense, que se radicou e veio a falecer em Évora (2010, Évora – 100.º aniversário do seu Falecimento; e 2011, Góis – 175º aniversário do seu Nascimento), sob o patrocínio das Câmaras Municipais de Évora e de Góis de forma conjunta e articulada, empreenderam a evocação deste homem das letras, cujo nome, entre outras formas evocativas, perdura ainda hoje em artérias de ambas as localidades, através do lançamento do livro de António Rei, ANTÓNIO FRANCISCO BARATA: VIDA E OBRA, dia 12 de Janeiro, pelas 19h00, que terá lugar na Livraria Ferin (Rua Nova do Almada, ao Chiado), em Lisboa.Para mais informações consultar http://www.edicolibri.pt/Detalhes.aspx?ItemID=1487
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12.22.2011
NA MEDIDA DOS FATOS
"Se há alguma coisa que um funcionário público deteste fazer,
é fazer alguma coisa para o público."
K. Hubbard
é fazer alguma coisa para o público."
K. Hubbard
Enquanto nas bibliotecas públicas e demais serviços onde a administração local e central insistem em armazenar os excedentes de recursos humanos com elevado défice funcional, grosso modo conhecidos e reconhecidos, por imprestáveis e sem qualquer utilidade prática, havendo mesmo casos em que estes se escondem em secretárias barricados por estantes ou nos recantos menos visíveis das instituições, ou aos magotes de três e quatro a cortarem na casaca de quem frequenta e franqueia os portais de suas coutadas de exploração da pátria, o nosso governo, para pagar os favores dos países de língua de expressão portuguesa pelo constante e avolumado contributo em manter-nos acima dos níveis de uma Grécia, comprando-nos a dívida e investindo em Portugal nos setores energéticos como financeiros, por exemplo, aconselha aos cidadãos que têm formação, habilitações e capacidades de gerar riqueza, que emigrem, sobretudo para o Brasil, Angola e Timor que foram de entre eles os que mais nos abonaram a economia. Seria grave se não fosse ridículo. Além do que, sem a mínima dúvida, nem todos os ministros deste governo assim pensam. Sem esses em que o país tanto investiu nos últimos anos, é caso para se dizer que atirávamos fora os meninos e meninas com a água do banho!
Por outro lado, a oposição tenta justificar o calote aos credores com o «não pagamos, não pagamos» estudantil das propinas de 2000. Dizem que a folga orçamental e de cumprimento do défice troikiano deve ser usada em benefício daqueles, exatamente os mesmos, que mais oneraram os custos de manutenção do Estado, que sempre foram um excedente evidente e um peso morto na nação, os acamados do corporativismo salazarista do pós-marcelismo, tentando passar a perna ao futuro e sustentabilidade socioeconómica em benefício próprio e dos poderes instalados desde a Idade Média nas franjas da corte e erário público. Alguns refilam com razão, pois acham-se injustiçados, porque enquanto estiveram fora do aparelho de mordomias ninguém mexeu no sistema, e agora que também lhes calhava o banquete é que se andam a insurgir contra e lhe querem acabar com a mama. Entre estes os profs. da ensinança da língua portuga pelas quatro partidas do mundo, tudo gente de bom viver e melhor maneirar, a quem se paga à barba-longa para andarem de monte em monte a difundir o galaico e fumar uns porros.
De somenos ser, nos afiançam os entendidos analistas dos Media com fatos à medida, que muito provam saber desta coisa de não fazer nada mas ter sempre razão, e que engrossam o número dos que olham de mãos nos bolsos logo que encontram alguém a trabalhar, dando indicações e palpites sobre a melhor maneira de executar a tarefa. Os peritos, ou aqueles que há muito deixaram de pensar porque sabem tudo. Treinadores de bancada da política nacional, usam impreterivelmente o plural majestático para acorrentar às suas opiniões a indecisão e alheamento das audiências, principalmente quando pretendem proferir asneira grossa mas sem lhe sofrer as consequências, demonstrando mais uma vez que isso das procurações e cheques em branco se passam em Portugal a torto e a direito à vista da lei para evitar a desordem. E safam-se, os intelectuais! Os críticos! Os dissidentes! Principalmente agora, a que não falta quem tenha razões de queixa por lhe bater também à porta – e à carteira – alguma medidinha de austeridade no fato que lhe assenta, afinal, por medida e que tão bem costuraram. Ou exigiram que lhe costurassem, através do voto e ordenações.
Desconfio, porém, que de nada lhes servirá esbracejar e fazerem salamaleques aos superiores do patronato, a não ser para mostrarem o fio dental, que é isso o que calha a quem muito se abaixa...
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12.19.2011

PARA GRANDES MALES, GRANDES REMÉDIOS
“(…)
Deste País das Maravilhas
Que levam quase a sério.
A inspiração se esvai: narrar
Drenou seu poço e, embora,
Quem fatigado a conta queira
Adiar um pouco a história,
«Mais tarde eu conto», alegres vozes
Gritam «Mais tarde é agora!»
(…)”
In Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas
A globalização é um fato e contra este género de constatações não há argumentos que valham. Por outro lado, temos a crise, nacional e conjuntural, que nos impõe frugalidade e excelência nos consumos, mas principalmente nos comportamentos, coreografia, exotismos e atitudes. Alguns e algumas terão dificuldade em adaptar-se às novas circunstâncias, é certo, todavia, devem manter acesa essa centelha de esperança que acalenta tanto as almas superiores e confiantes como as mais céticas, preconceituosas e primárias.
Não desconheço que a procura do genuíno, raro, precioso e fantástico é uma demanda de nossos tempos, como noutros o foi a Terra Prometida, o Santo Sepulcro, o El Dourado ou Elixir da Juventude. Porém as coisas mais belas e extraordinárias que a vida nos pode conceder, estão ao alcance de todos, e para delas usufruir com mestria e ótimo desempenho, apenas cada qual precisa simplesmente de fechar a boca, sem qualquer habilitação especial, diploma, iniciação/prática esotérica ou brevet, e sequer lugar eleito, adequado e utópico: respirar e amar – nem mais, nem menos!
Para quem seja muito exigente e careça de concentração máxima, até pode recorrer ao exercício radical de fechar igualmente os olhos.
Nada mais simples. E se houver ainda alguém para quem o simples é deveras complicado, a quem só aquilo que é caro dá valor, então pode sempre recorrer a ambientes de luxo, suites imperiais e ar engarrafado, como o da Guarda ou Covilhã, música inspiradora e conselhos hard-core dos realizadores mais ousados da indústria da imagem.
Mas é um desperdício… Mesmo as ostras, se boas e frescas, como são melhores, é ao natural!
Respirar com a boca fechada obriga que os pelos do nariz desempenhem a sua função de filtrar as impurezas que no ar há, para não nos adentrarem para o sistema; e fechar a boca enquanto se faz amor, evita que se pronuncie o nome de alguém em que se pense enquanto se não está com ela (ou ele) que a substitui. Evitar que a/o ausente se transforme em intrusa/o é uma ótima opção para quem gosta de fazer duas coisas ao mesmo tempo (sem sacrifícios de maior). Ainda restam dúvidas da utilidade do recurso?
Sejamos sinceros. Já não nos restam muitos mais anos para fazer experiências de complicar apenas porque sim. Está fazer-se tarde para humanidade e, embora ainda haja quem pense que mais tarde é agora, do que não devemos esquecer-nos é que isso era verdade, sim, mas… ontem. Nos princípios do século passado!
“(…)
Deste País das Maravilhas
Que levam quase a sério.
A inspiração se esvai: narrar
Drenou seu poço e, embora,
Quem fatigado a conta queira
Adiar um pouco a história,
«Mais tarde eu conto», alegres vozes
Gritam «Mais tarde é agora!»
(…)”
In Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas
A globalização é um fato e contra este género de constatações não há argumentos que valham. Por outro lado, temos a crise, nacional e conjuntural, que nos impõe frugalidade e excelência nos consumos, mas principalmente nos comportamentos, coreografia, exotismos e atitudes. Alguns e algumas terão dificuldade em adaptar-se às novas circunstâncias, é certo, todavia, devem manter acesa essa centelha de esperança que acalenta tanto as almas superiores e confiantes como as mais céticas, preconceituosas e primárias.
Não desconheço que a procura do genuíno, raro, precioso e fantástico é uma demanda de nossos tempos, como noutros o foi a Terra Prometida, o Santo Sepulcro, o El Dourado ou Elixir da Juventude. Porém as coisas mais belas e extraordinárias que a vida nos pode conceder, estão ao alcance de todos, e para delas usufruir com mestria e ótimo desempenho, apenas cada qual precisa simplesmente de fechar a boca, sem qualquer habilitação especial, diploma, iniciação/prática esotérica ou brevet, e sequer lugar eleito, adequado e utópico: respirar e amar – nem mais, nem menos!
Para quem seja muito exigente e careça de concentração máxima, até pode recorrer ao exercício radical de fechar igualmente os olhos.
Nada mais simples. E se houver ainda alguém para quem o simples é deveras complicado, a quem só aquilo que é caro dá valor, então pode sempre recorrer a ambientes de luxo, suites imperiais e ar engarrafado, como o da Guarda ou Covilhã, música inspiradora e conselhos hard-core dos realizadores mais ousados da indústria da imagem.
Mas é um desperdício… Mesmo as ostras, se boas e frescas, como são melhores, é ao natural!
Respirar com a boca fechada obriga que os pelos do nariz desempenhem a sua função de filtrar as impurezas que no ar há, para não nos adentrarem para o sistema; e fechar a boca enquanto se faz amor, evita que se pronuncie o nome de alguém em que se pense enquanto se não está com ela (ou ele) que a substitui. Evitar que a/o ausente se transforme em intrusa/o é uma ótima opção para quem gosta de fazer duas coisas ao mesmo tempo (sem sacrifícios de maior). Ainda restam dúvidas da utilidade do recurso?
Sejamos sinceros. Já não nos restam muitos mais anos para fazer experiências de complicar apenas porque sim. Está fazer-se tarde para humanidade e, embora ainda haja quem pense que mais tarde é agora, do que não devemos esquecer-nos é que isso era verdade, sim, mas… ontem. Nos princípios do século passado!
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11.14.2011
NIHIL NOVI, SUB SOLEÀs vezes, quando a gente se dá conta que algo suspeito acontece, ou aconteceu recentemente, sobretudo quando nos dizem que uma coisa está certa e outra, exatamente igual a ela, estar errada, como por exemplo no caso dos partidos políticos e políticas disto ou daquilo, ficamos sem saber o que dizer, fazer e pensar, e o ânimo esmorece-nos que nem um ramo de hortaliça perto do lume prò caldo.
Então, esquecemos o conselho que os mais velhos nos deram, a propósito de tudo e de coisa nenhuma, enveredando pelas sendas da procura em busca de uma verdade que seja nossa. Podemos até atrofiar neste ou naquele somenos, coisa de pouca monta por assim dizer, bloquear ante quaisquer obstáculos, mas recuperamos, equilibra-se cada qual conforme malmente pode para ganhar de novo a velocidade de cruzeiro. E, velas ufanas, nada nos teme nem qualquer desgraça nos aflige.
O pior, é que depois vem a grande surpresa, precisamente aquela que jamais admitiríamos suceder. Como é possível que essas pessoas, desses partidos e falanges, continuarem a fazer e a dizer o que sempre fizeram e disseram, sem que nada de irreversivelmente mau lhes aconteça? Nós, os demais, não só teremos assumido o diploma de trouxas e imbecis que esses "charlatões" nos passaram, sem nos indignarmos nem mexermos uma palha sequer em nossa defesa?
Mais: não raros extrapolam e vão prà rua manifestar-se, vociferar impropérios e maldições sob o desígnio de palavras de ordem e slogans da cartilha rudimentar. Radicalizam. Afoitos dão-se motivos para lhes chamem anarquistas, e lho chamem precisamente aqueloutros dogmáticos estigmatizantes que desconhecem em absoluto o pensamento libertário e acrático, mas gostam de apelidar de traidores todos quantos não lhes batem palmas nem dão palmadinhas nas costas, a pedir ou agradecer tachinhos.
Vai daí, não obstante a abstenção cresça a olhos vistos de eleição para eleição, enquanto forma pacífica e canhestra de comentar que "entre uns e outros venha o diabo e escolha", esclarecendo que se há uma igualdade do tipo de alguns serem mais iguais que outros é porque queremos, o que parece evidente é que todos eles, esses senhores, falanges e partidos, que alardeiam a sua diferença na igualdade, fazem, em
relação ao povo português e seus eleitores, precisamente aquilo que os anteriores lhes fizeram: pintam-lhes a manta. Enchem-se, corrompem, negoceiam e exploram, tanto na bolsa como no bolso. Exercitam-se na contradança alternada na coreografia de um tango inesquecível, sonegado três vezes, e outras tantas dançado, a querer-se bem nos movimentos da suserania.E onde está a novidade e mudança? Só não a vê, quem a não quer ver. Afinal, com ou sem Troika, non nova, sed nove!
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10.23.2011
ANTIKIPLING
Se cresceres sinuoso como entre esguiasÁrvores cresce o cipó, meu filho,
Ou se engordares no charco, como lodosa planta,
Olha o azul do céu
Que o mais não tem a mínima importância.
Águia ou chacal serás. O mundo
Tudo comporta e o Sol não discrimina
Entre alcantis e pântanos.
Cometerás os pecados mais torpes
E eu te absolverei. Nada compromete
Ou dignifica a vida. A verdade e a virtude
Agonizam na mesma solidão do ataúde
Onde os vermes e os ratos
Não mais têm importância.
Estarás com Cristo, sem Cristo ou contra Cristo
E te importunarás num mundo desolado
E assaltado
Pelos lobos do bem, pelas pombas do mal,
Os cordeiros da guerra, os tigres da bonança.
Hás de amar alguém que um dia trairá
A tua confiança.
Poderás vingar-te na mulher do teu irmão,
Na tua própria irmã. Cometerás ainda
Outros incestos sem nenhuma importância.
Se fores ausente a tudo – e isto nada importa –
E for o teu Sol brilhante, logo atrás
Desse brilho acharás tua face morta
E a nada mais darás
A menor importância.
Mas se participares, sofreres, morreres
Maldizendo a vida que foi a tua única herança
E teu pai e tua mãe e o mundo que, um dia,
Te aborreceu do fórceps à última agonia
Na hora derradeira saberás ainda
Que isso tudo não teve a mínima importância.
In DOMINGOS CARVALHO DA SILVA, Poemas Escolhidos, Clube de Poesia. São Paulo, 1956
10.04.2011
NOTA EXPLICATIVANão posso fazer referência a esta colectânea sem antes abordar MOMENTOS DE POESIA – projecto que lhe deu origem e se afirmou durante quase três anos, sem qualquer interrupção. Actividade a decorrer mensalmente, sempre com um convidado diferente que falava da sua obra e a apresentava.
Nesses encontros, ao longo dos meses e anos, criou¬ se amizade, estabeleceu¬ se empatia, fomentou¬ se cumplicidade. Divulgou¬ se poesia, descobriram¬ se poetas, incentivaram¬ se amantes dessa arte. Para dar oportunidade a todos, poetas ou amantes da poesia, intercalava por vezes uma sessão colectiva, com tema pré-estabelecido. Numa dessas sessões, logo ao lançar o tema – Portalegre –, informei que esses poemas iriam ter continuidade: Uma Antologia. Alvitre bem aceite pelos presentes. Participei o projecto a todos aqueles que já tinham passado por MOMENTOS DE POESIA como convidados, também eles apoiaram a iniciativa.
Assim participam nesta Antologia os que marcaram presença como convidados de sessões individuais e aqueles que, com frequência, participaram nas sessões colectivas. É um projecto não menos delicado que o que lhe deu origem. O primeiro coube ao público avaliᬠlo. Este será o leitor a ter a palavra (a insatisfação e a dúvida, da parte da coordenadora mantêm¬ se)…
A obra divide-se em quatro partes:
PRIMEIRA PARTE – reúne, por ordem cronológica, alguns dos poemas dedicados a MOMENTOS DE POESIA.
SEGUNDA PARTE – inclui poemas dos poetas convidados (os que tiveram uma sessão individual).
TERCEIRA PARTE – agrupa poesia dos participantes nas sessões colectivas.
QUARTA PARTE – composta por poesia de José Duro, José Régio (seria inconcebível falar de Portalegre e de poesia sem mencionar os seus nomes) e Arlete da Paixão Correia.
As três últimas partes encontram¬ se organizadas por ordem alfabética do nome do autor.
Esta Antologia de tema comum – Portalegre – é tão rica na variedade dos participantes como na dos trabalhos. São óbvias as diferenças: cultura, faixa etária, estilo, vocabulário, experiência, rima, métrica… Preferi abster¬ me de apresentar considerações curriculares em relação aos autores para que, sem ideias preconcebidas, seja o leitor a tecer considerações.
É uma oportunidade de publicação para muitos, é uma banalidade para outros. Poetas ombreiam com amantes da poesia. Mais doutos não hesitam em ladear com menos letrados. Poesia erudita mistura¬ se com outra de cariz mais popular. Humildade de uns, ousadia de outros – a provar que a sociedade não existe estratificada (?) – cada um, em poesia, verso, prosa, elevou Portalegre à sua maneira, fez o melhor que conseguiu e tornou possível esta obra.
Diz¬ se que editar um livro é um acto de coragem. Eu acrescento que convidar para uma Antologia e organizᬠla exige dupla coragem…
O meu agradecimento é dirigido a todos: ao mais letrado que não hesitou, ao mais simples que ousou. Com o poetizar ou versejar de uns ou outros, com a forma de se exprimir de cada um, com a sensibilidade de todos se conseguiu esta miscelânea de sentires sobre Portalegre.
E porque, como diz o ditado, “quem dá o que tem mostra o que deseja”, se oferece esta Antologia à minha cidade, à nossa cidade, a PORTALEGRE. Obra tão simples como quem a organizou e oferecida com tanto amor, como entusiasmo cada um depôs na elaboração do trabalho que apresentou.
Compete-me expressar um GRANDE AGRADECIMENTO ao Dr. Fernando Mão de Ferro, das Edições Colibri, portalegrense que muito tem apoiado autores da região, e gentilmente se disponibilizou a, num curto espaço de poucos meses, editar esta Antologia dedicada a Portalegre, há mais de dois anos pronta, a aguardar apoio devido e edição…
Deolinda Milhano
ÍNDICE
Nota Explicativa
Prefácio
PRIMEIRA PARTE
Ó Poeta! – Deolinda Milhano
“
Momentos de Poesia” – Cesaltina NevesAcróstico – José Branquinho
Quadra – Jaime da Cruz Soares
Tu, Poeta… – Deolinda Milhano
Parabéns – Maria José Almada
Bela Iniciativa – José Branquinho
Momentos de Poesia – Deolinda Milhano
Momentos de Poesia Comemora 2.º aniversário – José Branquinho
A um Poetismo Singular – António Matias
Agradecimento – Maria Filomena Rita Atraca
Até Breve… – Ermelinda Fernandes
Obrigada a Todos
SEGUNDA PARTE
Aires Plácido
. Poema à Cidade de Portalegre
. Princesa Alentejana
América Miranda
. Portalegre, Meu Encanto
. Para Ti Portalegre
António Jacinto Pascoal
. A Sessão Paulina de Portalegre
. Portalegre
António Matias
. Elegia a Cristóvão Falcão
. Meu Preito a José Duro
Carlos Garcia de Castro
. Os Sinos de São Lourenço
. “Orbis Pictus”
Daniel de Jesus
. (sem título)
. (sem título)
Fernando Pina
. Cinco e Meia nas Portas do Crato
. Às Oito Horas no Cimo da Rua de Elvas
Jaime da Cruz Soares
. Portalegre, Porta da Poesia
. Saudando Portalegre
João da Graça Silva
. Imagens da Minha Cidade
. Portalegre… Linda Cidade
José-António Chocolate
. Lugar de Memória e de Lembrança
. Tarde de Verão em Portalegre
José Garção Ribeiro Branquinho
. Musa Transtagana
. Cidade Mãe, Cidade Branca
Luísa Lopes da Silva
. Portalegre Cidade
. Portalegre em Flor
Maria Albertina Dordio Martins
. Portalegre, Meu Amor – Poema I
. Portalegre, Meu Amor – Poema II
Maria Cecília Carvalho
. Princesa do Alentejo
. Serra da Penha
Maria Isabel Corte Real
. Portalegre Minha Cidade
. Cegonhas de Portalegre
Manuela Cardoso
. Amores?... Enganos?...
Matos Serra
. Invocando Portalegre e José Régio
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