10.12.2012


CARNAVALESCOS
Por Olavo Bilac*


São uma gente à parte – quase uma raça distinta das outras. Os que amam o Carnaval, como amam todas as outras festas, não são dignos do nome de carnavalescos. O carnavalesco é um homem que nasceu para o Carnaval, que vive para o Carnaval, que conta os anos de vida pelos Carnavais que tem atravessado, e que, na hora da morte, só tem uma tristeza: a de sair da vida sem gozar os Carnavais incontáveis que ainda se hão de suceder no Rio de Janeiro pelos séculos sem fim.
Que se hão de suceder no Rio de Janeiro – escrevi eu. Porque o verdadeiro, o legítimo, o autêntico, o único tipo de carnavalesco real é o carnavalesco do Rio de Janeiro. A espécie é nossa, unicamente nossa, essencialmente e exclusivamente carioca: só o Rio de Janeiro, com os seus Carnavais maravilhosos, delirantes e inconfundíveis, possui o verdadeiro carnavalesco.
E não suponham que haja por aí muitos verdadeiros carnavalescos… Quase todos os foliões do Carnaval folgam por acidente, ou por imitação, ou por desfastio, ou por entusiasmo passageiro: folgam dois anos, ou cinco anos, ou dez anos – e casam, recolhem-se à vida séria.
Mas o carnavalesco legítimo não tem cansaço nem aposentadoria: envelhece carnavalesco, e morre carnavalesco; morre no seu posto, extenuado pelo Carnaval, devorado pelo Carnaval. O Carnaval é para ele, ao mesmo tempo, uma paixão absorvente e arruinadora, um vício indomável, uma religião fanática. Para ele, o Carnaval é o único oásis fresco e perfumado, que se antolha no adusto deserto da vida.
É esse o verdadeiro carnavalesco. Trabalha todo o ano, pena e sua doze meses a fio, privando-se de tudo, alimentando-se mal, vestindo-se mal, acumulando somiticamente, ansiosamente, alucinadamente, vintém a vintém, os contos de réis que há de gastar no Carnaval. São doze meses de sacrifício, de renúncia, de desprendimento: o carnavalesco pensa no Carnaval. Não era maior do que a sua constância de Jacó, pastor apaixonado, servindo o velho Labão, pai da formosa Raquel… O carnavalesco, pata conquistar o Carnaval, pena toda a vida.
“Dizendo: mais penara, se não fora,
Para tão grande amor tão curta a vida!...”
Acontece, às vezes, que o carnavalesco já não é um rapazola, sem família e sem deveres sociais: – é um homem maduro, negociante matriculado tendo próprio casal e nele assistindo, tendo mulher e filhos, tendo apólices e comenda. Pouco importa! É um carnavalesco… Na vida desse homem, de vida regrada e equilibrada, o Carnaval é um hiato, é uma síncope, é a anulação completa da sua consciência de homem e de chefe de família, é a suspensão absoluta de toda a sua gravidade de negociante e de comendador.
A família conhece e perdoa a sua paixão: e no sábado de Carnaval, ei-lo que se despede dos seus, e parte para o delírio, com os olhos acesos em febre e o coração rufando um zé-pereira precipitado – como os antigos paladinos da Cruz partiam para Jerusalém a defender o Santo Sepulcro, ou como os heróis da ciência partem para o polo a devassar o mistério das neves eternas. Parte – e a família não o vê durante os três dias fatais; e, na quarta-feira de cinzas, o carnavalesco volta ao seu lar e ao seu negócio, moído, pisado, contundido – e muitas vezes com a cara quebrada – mas sem remorso, sem arrependimento, com o orgulho que dá a consciência da missão bem cumprida…
Evoco a recordação, neste momento, de alguns carnavalescos autênticos, que tendo conhecido – e dois, sobre todos, avultam na minha memória, claramente relembrados.
Um deles era um comerciante rico, cuja opinião pesava na praça, e cuja firma valia ouro nos bancos. Não tinha vícios: não fumava, não jogava, não bebia, não frequentava cantinas nem chafaricas suspeitas. Era carnavalesco…
Haviam-no feito presidente de uma sociedade de carnavalescos – e era ele quem pagava a baderna, quem sustentava a glória do pavilhão do clube. E somente duas vantagens e regalias exigia, em troca das muitas dúzias de contos de réis que lhe custava cada ano a sua paixão: a honra de carregar o estandarte social e o privilégio de dar as “idéias” para os carros de crítica no grande préstito da terça-feira.
Quando o conheci, já ele tinha vinte anos de carnavalesco e de fornecedor de “idéias”. E, como eu o cumprimentasse pela fecundidade da sua imaginação, disse-me, apertando a cabeça entre as mãos: «Realmente, eu não sei como esta cabeça ainda pode ter ideias! Imagine o senhor: vinte Carnavais!...» E parecia-me realmente acabrunhado e sucumbido ao peso da sua missão; e eu inclinei-me diante dele, saudando-o, como se tivesse diante de mim um Darwin, um Comte, um Spencer, um desses criadores de doutrinas e sistemas, que atravessam a vida semeando ideias pela imensa extensão do campo moral…
Mas era de vê-lo, na terça-feira de carnaval, no alto do grande carro do estandarte, sobre uma montanha de papelão dourado, empunhando o pavilhão do clube, entre quatro meretrizes que lhe formavam a guarda de honra – e atravessando a cidade, numa apoteose, ao clamor triunfal das fanfarras, sob a abóboda chamejante dos arcos de gás, ao clarão vermelho dos fogos-de-bengala! A sua face, nédia e escanhoada, de honrado comerciante – resplandecia ali como a de um Deus! Assim devia Baco partir para a conquista das Índias! Assim deviam os triunfadores romanos entrar em Roma, depois da vitória, precedidos pelos senadores, pelos litores e pelos bucinatores, entre os despojos de guerra e as riquezas do saque! Aquela noite só, pagava ao carnavalesco todos os seus sacrifícios de dinheiro e todos os seus esbanjamentos de ideias… Hoje, esse carnavalesco é morto; morreu sempre rico, sempre respeitado, sempre honrado – e sempre carnavalesco. Quanto à causa da morte, não tenho informações seguras: não sei se foi apoplexia proveniente do orgulho de uma daquelas noites de triunfo, ou se foi anemia cerebral, proveniente de imoderada criação de ideias…
O outro, cuja figura tenho agora presente ao espírito, era um carnavalesco pobre – dos que economizam o dinheiro durante todo o ano para gastá-lo no Carnaval. Era um guarda-livros. Não lhe escrevo o nome – nem a alcunha, mais conhecida ainda do que o nome. Era famoso! Fantasiava-se e mascarava-se no sábado, e só tirava a fantasia e a máscara na quarta-feira, para dar entrada num hospital da Ordem Terceira, onde se refazia durante um mês dos estragos dos quatro dias de loucura. Com a continuidade do exercício carnavalesco, já a sua face adquiria esgares grotescos de máscara e a sua voz descera a tons aflautados de disfarce de dominó.
A tuberculose acabou por lhe tomar conta do corpo, depois de um dos seus desvairados Carnavais. Mas ainda o carnavalesco viveu dois ou três anos, tísico – sem abandonar o Carnaval. E nos Carnavais desses dois ou três anos – lembro-me bem! – era um espetáculo de chita ou de cetim, com os ossos do corpo descarnado, dançando dentro das pantalonas amplas e de blusa larga, tendo por máscara a sua própria cara escaveirada, em que os olhos ardiam com o brilho da febre hética – e dizendo as coisas engraçadas entre dois acessos de tosse convulsa. Era um pesadelo!
Alguém que o conheceu até à morte contou-me que esta se deu – ironia da sorte ou da bondade do destino – num domingo de Carnaval, à hora em que a mais atroadora e bárbara era pelas ruas a alegria carnavalesca…
Não creio que a morte lhe tenha aparecido com a sua trágica e terrível majestade habitual. Suponho que, no seu delírio último, ela lhe apareceu como uma Morte de Carnaval – dessas que encontramos por aí, entre os velhos de cabeça enorme e os diabinhos de cauda vermelha, nos cordões que, inconscientemente, reproduzem as cerimónias cómicas e pavorosas da Idade Média.
Assim ela pode ter aparecido, a Morte, ao carnavalesco moribundo – como uma velha amiga de folia e de pândega. E o carnavalesco arrojou-se aos seus braços com alegria, e foi valsando com ela, cabriolando com ela, cancaneando com ela, até com ela cair no grande abismo negro…
Coisas de carnavalescos! Não lhes dizia eu que os verdadeiros carnavalescos são uma raça à parte, uma gente que se não parece com as outras gentes e que nasce carnavalesca para viver carnavalesca e morrer carnavalesca?        

* Olavo Bilac nasceu em 1865, no Rio de Janeiro, e faleceu na mesma cidade em 1918. Este trecho pertence ao livro Ironia e Piedade.
E nesta crónica, o autor, com a sua extraordinária sensibilidade de poeta, traça um nítido perfil do verdadeiro tipo de carnavalesco, aquele que vive e morre pelo Carnaval.

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