10.12.2012


A EVOLUÇÃO DA FAMÍLIA
Por José do Patrocínio Filho

(Excerto do livro Mundo, Diabo e Carne)

O Carnaval ia acabar.
Já não restava na Avenida nada daquela excitação, em que, ao profundo dos zé-oereiras, ao ritmo amaxixado da música dos ranchos, a multidão pulava, corria, apalpava-se, vozeava, num efusivo delírio.
O povo recolhia em teorias fatigadas, apinhado nos bondes.
Todavia, grupos de raparigas e rapazes, encaminhando-se para casa, tentavam superar a fadiga, cantando em coro:
“Na minha casa não se racha lenha,
Não abunda água, não se pica fumo…”
Eram quase três horas da madrugada.
Pela soleira das portas, mascarados exaustos, ou bêbados, jaziam derreados, esfregando um pé descalço…
As serpentinas, os confetes, no chão, já eram lixo e lama.
Fomos ao High-Life Club.
Em vão… Já estava no fim, aí também, o Carnaval. A concorrência combalida por quatro dias consecutivos de renhidos combates de confete e de lança-perfume, tentava angariar a derradeira champanha em torno às mesas de bacará. A música desfalecia no jardim, tocando arrastadamente no coreto um reportório sonolento.
Tudo ia resvalando aos poucos para as cinzas quaresmais da quarta-feira…
– Adeus… Até prò ano! Vamos dormir?
– Vamos… Isto está chocho: não tem futuro…
Neste momento, porém, entrou pela sala em que estávamos um bando alacre de Pierrôs – se é que Pierrôs podem ser rubros…
Foram uma rajada! Virando as cadeiras, desarrumando as mesas, vociferando e rindo, como se as amargas traições de Colombina fossem apenas uma fábula italiana…
Verdade é que nesse grupo, Colombina, em maioria, se travestira das vestes do lírico trovador… À orla das largas pantalonas rubras, apareciam, moldados na seda transparente das meias pretas, finos, nervosos tornozelos, como os da égua de raça de que nos fala o varão sensual do Cântico dos Cânticos… Sob as largas vareuses de seda desenhavam-se rins esculturais, enquanto seios túmidos e rijos saltavam como cabritos, cabriolando no rodopiar das danças.
Àquela hora da madrugada, na sala quase deserta daquele clube suspeito, não se podia contar com esses surtos espontâneos de juvenil folia: mesmo durante o Carnaval as profissionais da vida alegre são melancólicas e lerdas, no Brasil… De sorte que o cabaré só com espanto se animou ao contato febricitante dessa alvissareira mocidade que o invadira.
A música, no jardim, a grande reforço de zabumbas, rompeu imediata e repinicadamente num maxixe comunicativo. E os robustos palhaços, aceitando pares, saíram a requebrar com entusiasmo, abalroando com os garções e com as mesas, que ruíam num grande estrondo de louças!
Depois romperam os cantos, as vivas coplas apimentadas do estro efêmero e anónimo Momo:
“A Bahia é boa terra…
Ela lá e eu aqui!”
A noite ressuscitou. Recomeçaram as danças, espocaram champanhas, os notívagos e as cocotes desceram todos do bacará, a festejar, a admirar aquela inesperada juventude apetitosa, aquela alegria audaz e sem medida.
Só saímos de lá com o sol de fora!
Pelas ruas melancólicas das seis já havia gente a caminho do trabalho… Nós íamos para as ostras, em automóveis buzinantes e rápidos.
No mercado, porém, mal abancamos no “Garôto”, reclamando bucelas e moluscos, um guarda-civil austero nos intimou a retirar as máscaras.
Discutimos. Protestámos com energia. Mas as ostras já estavam servidas e, diante do categórico «são ordens», o Carnaval acabou: as máscaras caíram.
Passou-se então uma coisa muito mais surpreendente que tudo quanto ocorrera na ressurreição da noite, no clube desolado onde os clowns rubros tinham entrado com uma rajada de excitação: as carantonhas que viramos durante toda a madrugada, rindo alarvemente com seus grossos lábios bestiais de papelão, recobriam os rostos amarrotados pela pândega, mas juvenis e patrícios, de algumas estonteantes senhorinhas.
E ali, nas ostras, como num salão honesto, um pouco contrafeito, mas estimulado pela audácia de alguns pares travessos de olhos amendoados e negros, um dos clowns, em cuja face espinhava uma forte barba de quatro dias, apresentou-me cortesmente:
– Minhas manas… 

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