6.23.2015

ALMA de Manuel Alegre





ALMA
Manuel Alegre
(1995)

A paródia de formação é um típico cervantino de estilo, autêntico romance de cavalaria de quem atravessa a infância montado no cavalo de pau da família considerada, honrada, por bastos pergaminhos justificada, e generosa, do establishment provinciano. É aquele olhar distante sobre a guerra de 42-45, mas interessado, aproveitado politicamente pelos clientes da Loja, que fisicamente tanto é o estabelecimento comercial e de convívio, como igualmente o centro espiritual da república, ou da sua laicizidade maçónica e da resistência clandestina. Confirmação de como Quixote deambulou por cá deixando geração apreciada. E uma breve história da sonegada participação com os situacionistas do Manholas, aos botas-de-elástico e aos solas Ceilão, que iam sustentando o regime à custa do atraso e do medianismo supersticioso aldeão.

Romance numa só voz para o adolescer em Alma, reflete contudo nela a expressão e peculiaridades das gerações de 50/60, assentes nos pilares da família, escola, loja e retouça com a natureza, também esta repartida por quantos elementos a compõem (rios, caça, pesca, pássaros, como natureza humana: política, esotérica, sexual, bélica, desportiva e relações de amizade), que perfizeram um homem e seus valores, implantando nele o respeito pelos demais, a necessidade de alterar a ordem, principalmente quando ela está errada, no apreço pela justiça, liberdade e democracia, sempre inspirada nos itens da solidariedade e coesão social para despeito da caridadezinha regimental e canasteira. 

Embora raramente me convençam os textos literários dos rabequistas, sobretudo se saídos da filarmonia partidária e/ou ideológica, o que é certo é que esta novela não se atém a ser aquilo que parece. Daí que me sinta na obrigação de a ressaltar como exceção, considerando que o seu autor, além de poeta combatente, democrata de torna-viagem pelo 25-A depois de ter exercido significativa ação revolucionária no exílio, emprestando dedicação e voz a veículos de comunicação, nomeadamente na Rádio Argel, foi (quer dizer: é) também escribalista, conforme a definição de escribalismo que aqui se sustenta, não obstante o seu campo de ficção se estenda para lá da estrita conjugação narrativa, prolongando-se nele enquanto modo de intervenção social.

Porque exceção justificada, além de obra que carece de atenção cuidadosa e destacada, não obstante esse jeito de contrabandear deus e demais obscuridades relativas através da tonalidade dos provençais e gentis-homens que povoaram o universo cavalheiresco em contos, romances, cantigas e novelas, na formação de quase todos os aspirantes a principezinhos deserdados da monarquia, que alimentava a fadação com que as mães predestinavam seus filhos para arautos da esperança, anexando-lhe sempre a distinta marca dos eleitos para missões superiores, nobres, semelhantes às que inspiraram os cavaleiros do ciclo arturiano, combatentes do bem e da justiça que, sob o pendão da cruz, defenderam o santo sepulcro ou se amuralharam em Malta, de onde demandaram o pronunciamento da uma nova ordem terrena.

Acima de tudo por ser Alma o lugar inicial para o cúmplice entrosamento na grande loja que é o mundo. Este e o outro, se o houver. Pois nunca o homem acontecerá neles por acaso. Que normalmente isso, a humanidade e humanismo que forjam o indivíduo, são atributos de pelejada conquista, frutos por poda tida nos anos antecedentes à formação académica, que aliás a prepararam, por mais completa e importante para a sobrevivência da pessoa que esta se venha a revelar vida fora. Há quem prefira usar o termo podar trocando-o pelo seu eufemismo de educar, na esperança de dar aquela pincelada de civilização em algo tão vegetativo, como o processo de aprendizagem; porém, em termos de Alma tal equivaleria a desvirtuar por ró-có-quismo maneirista a formação de qualquer personagem tão empenhadamente perto da natureza ancestral humanista ou humanitária.

Portanto, este livro é a visão adulta, avaliada, perspetivada, parodiada de uma poda que resultou bem, prescindindo de enxertias extemporâneas a fim de manter entroncada a genealogia da geração que se empenhou em sobrevier ajustando a realidade aos seus ideais, promovendo e multiplicando as possibilidades de vida em liberdade aos seus vindouros, sob a interpretação de alguém que deveras lhe pertenceu, mas sempre, incluindo quando nela participou ativamente, a viu, a observou, se lhe apresentou predestinadamente distanciado. Quem provavelmente melhor saberá os porquês de tal postura e atitude, anda à hora por paragens alheias ao mundo, e talvez se mantenha absorto falando de caça com entusiasmo ou apontando a mira a alguma lebre celestial ou perdiz astral, que se lhe levantem na frente, quiçá na companhia de Aquilino Ribeiro, que também se perdia acostumadamente nesse género de miragens calcorreando as fragas e serranias, sem receio de vender a Alma por quaisquer cinco réis e gente.

Precisamente porque depois da Alma visitada mais fácil se torna compreender a estirpe dos homens que a edificaram na rústica pedra, a teceram nos vilares da transformação operativa, tal qual as terras do despertar fizeram e onde tudo o que lhes acontece também nos acontece, pelo como e porque nelas participamos ou a elas vemos, e nos marca para sempre, de forma definitiva, balizando com datas inesquecíveis, interregnos de tempo a partir dos quais nunca mais voltaríamos a ser apenas "aquilo" ou aqueles que antes éramos.     

Joaquim Castanho  

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