10.14.2016

DILEMA TROIANO




DILEMA TROIANO  

Com o coração agitado
Plo anseio te prevejo; 
E vendo, fico ansiado
Desejando mais que ver, 
Tentando tanto esconder
Este espinho cravado 
No cimo profundo do ser... 
Que busco ora o outro lado, 
Ora este, do meu dizer: 
Um, é saudade de ti; 
Outro, nasce mal te vejo. 
Se poema, conta o que vi; 
Se calo, diz que desejo. 

Joaquim Maria Castanho 

10.13.2016

PÉTALA SUBLIME




PÉTALA SUBLIME 

A tristeza semeia silêncios 
No mesmo chão da felicidade, 
Só que a primeira germina e singra
E a última se perde nas discórdias, 
Nas diferenças semânticas e dialectais… 

Tenho hastes de tua voz implantadas
Na alma dos afetos distintos; 
Germinaste nela, agora és flor:
Pétalas e canto de jograis. 

Joaquim Maria Castanho

10.12.2016

LIVRINHO DE POEMAS




LIVRINHO DE POEMAS 

Tenho amor pequenino
Pra me caber no coração, 
Quase ode, doce hino,
Sob a batuta do condão;
Da magia e do encanto, 
Que cresce do dia a dia, 
Que aquece como manto.
Amarra feras, destino; 
Apaga soluços (d’ontem). 
– Ó meu amor pequenino
Sorri, sorri sem que notem
O sorrir da poesia fonte. 

Tenho o amor numa linha
De apontar com o dedo, 
Onde a sílaba faz esquina
Com a oração do segredo.
Trabalha na secretaria
Dum parágrafo aberto, 
A mostrar ao mundo poesia
Com um sorriso de magia, 
Num ritmo de ponto certo. 

Joaquim Maria Castanho 

10.11.2016

ACTO DE PREFERIR DE FACTO




ATO DE PREFERIR DE FATO

Hoje preferia minhas as tuas dores
Neste momento, incómodo, magoado
Preso à ansiedade das rubras cores
Com que o ocaso pinta o azul cerrado
No Éden das roseiras, mas sem flores
Espinhos só quase, lida, cuidado;
Dias que rasgam dias, frios e calores… 
Ânimo por desânimos alquebrado. 

E tê-las-ia mui reconhecido, grato
Alegre e em “feliz contentamento”, 
Se assim te devolvesse bem de fato
O sorriso, âmbar, néctar, sustento 
Com que alimento a alma apaixonada
Por uma estrela – misto de mulher e fada. 

Joaquim Maria Castanho 

10.09.2016

SUBLIMAÇÃO POÉTICA




SUBLIMAÇÃO POÉTICA 

Refugio-me no trabalho
Tão-só pra te não procurar, 
Fazendo do criar atalho
Para a senda do esperar; 
E escondendo-me de mim
No sonho que oculta sonhar
Terei melhor sonho, enfim, 
Entretecido e desejado
Calando o sonho que tiver… 

Que sentir que ninguém disser
Não pode ser contrariado, 
Ainda que ponha a mulher
Bem no centro do pecado. 

Joaquim Maria Castanho

10.08.2016

A ALMA DOS POEMAS




A ALM :) DOS POEMAS

Sem a tua voz não me digo… 
Sem teu «Bom dia», tudo corre mal; 
A jornada é um perigo, 
E escrever, um ato formal. 
E os versos soam ocos
Com sílabas marteladas, 
Ond’os sentidos são poucos
Em estrofes derrotadas.

Então, invento que fazer
Só pra passar perto de ti… 
E eis que no amanhecer
O “sol” brilha: o dia sorri. 

Joaquim Maria Castanho 

10.06.2016

SEGREDO DE ALMA




SEGREDO DE ALMA


Queria fazer um poema
Que te merecesse… 
Que dissesse o teu rosto
– E teu rosto fosse. 
Que dissesse os teus olhos 
– E teus olhos fosse. 
Que dissesse as tuas faces
– E tuas faces fosse. 
Que dissesse teus lábios
– E teus lábios fosse. 
Que dissesse a tua fronte 
– E tua fronte fosse. 
Que dissesse teu cabelo
– E rabo-de-cavalo fosse.
Em que se ouvisse meu coração bater
E que não só de palavras fosse, 
Mas fosse o sangue a dizer.
– A correr ao leme do tema
Que nenhum poema
Consegue ser. 

Queria fazer um poema
Como se não fosse humano
– Que nascesse dos dias
E assim fosse todo o ano; 
Que não tivesse versos
Métrica, nem tons submersos,
Mas as texturas macias
Como só tua pele tem
Quando o vê-la vai além
Do sublime das poesias. 

Queria fazer um poema
Que me fosse alma pequena
Em sílabas que só tu lias. 

Joaquim Maria Castanho

10.05.2016

DISCUSSÃO SOBRE O DISCUTÍVEL




DISCUSSÃO SOBRE O DISCUTÍVEL 

É bonita, sim, é bonita, 
Disso não há como duvidar, 
Se sua trança bem catita
Me oscila e dança no olhar. 

Tem o segredo da certeza; 
Tem a certeza de meu afeto.
E só discutimos a beleza 
Porque não acredita no certo. 

Ou não repara no visível, 
Incontornável aos sentidos, 
Como se ainda fosse possível
Desmentir meus desmentidos.

É bonita, sim, é bonita, 
Maravilhosa nas feições, 
Despachada e expedita 
Em quaisquer ocasiões. 

É bonita, sim, é bonita; 
Disso não restam suspeições. 

Joaquim Maria Castanho     

10.04.2016

HÁ ENTRADAS QUE SÃO SAíDAS




HÁ ENTRADAS QUE SÃO SAÍDAS 

Na ínclita inclinação, verbo nobre
Que se declina perante a plebe lusa, 
O épico desassossego de quem é pobre
Trambica, argumenta, pede escusa.
Em questão ‘tá a receita que não cobre
O orçado fiscal, coisa assaz obtusa
De quem conta com ovo por pôr, e descobre
Que tal galinha, a pô-lo, se recusa.
Ó opíparos no divino alheio, 
Então, vós, que gastais além do tido
Desconheceis quanto é rude e feio
Contar com o que não será recebido, 
Para pagar dívidas já contraídas…? 

– Orçar entradas assim, anseia saídas! 

Joaquim Maria Castanho

10.03.2016

CINZAS FULGENTES




CINZAS FULGENTES

Porque feminina, logo plural
Como a madrugada joanina, 
Sei duma estrela estival
Que até ao sonho ensina
A ser o que é, unicamente, 
E não outra coisa qualquer; 
Para quem olho como gente
Mas vejo somente por mulher. 

Tem o jeito mágico duma fada
E guarda no olhar esse elixir,
Com que a eternidade é nada
Pelo instante de um devir;
Dum estar que o viver transforma
Tirando-lhe tédio e ilusão, 
Pondo o caos com essa forma
Que consideramos ter a paixão. 

Pois por ela já de mim não sou
E daquilo que fui nada me sobra, 
Que quem ama o ser à luz deitou
Até lh’arderem as cinzas… 

– e obra! 

Joaquim Maria Castanho

DO NÚCLEO, A ESPIRAL




DO NÚCLEO, A ESPIRAL


É difícil o despovoar dos sonhos cimentados
Crescidos no dia a dia ante os teus gestos 
Como verbos de arrumar em livros catalogados
Novos, reposições, como registos, e lestos
De pronto se autorizam e te obedecem servis… 

Por mim o digo, que no contento de tuas mãos
Me andam ajeitados os puros sentimentos
Balançando nas ondas de teus cabelos, sutis
Vaivéns de quem alisa recatados desvãos
Onde moram os secretos anseios e alentos.  

Pudera eu ser o teu andar! Pudera eu ser, então,
Todo o ar que respiras para ir até cada poro teu, 
Invadir de manso tua íntima pele, e na sofreguidão
De ver-te cirandar, rodopiar em mim até ao céu!


Joaquim Maria Castanho

10.02.2016

SOL VAGABUNDO




SOL VAGABUNDO 

Aquela que eu amo, é o meu amor. 
Não há no universo ninguém tão lindo. 
E, muito menos, até dele em redor
Se me diz «Bom dia» e fala sorrindo. 
Pequena (luz), gotinha qu’é também flor, 
É a nova estrela do céu infindo 
A quem a lua pede brilho «por favor»; 
E as plantas imitam, se florindo. 
Contudo leva os dias a trabalhar
Como astro insigne, ou segundo… 


Mas se houvesse justiça no mundo
O sol pedia ao meu amor pra brilhar; 
Assim, não passa de um vagabundo 
À volta de quem a Terra anda a girar! 

Joaquim Maria Castanho 

10.01.2016

O NOBEL DA CULTURA UNIVERSAL




O NOBEL DA CULTURA UNIVERSAL 

O momento imprevisto (sem igual)
Cuja b’leza, magia, significado
Devia ser Património Mundial, 
Queiram ou não, já foi encontrado: 
Não é fotografia, alucinação, 
Acertar na roleta, número, sorte
Vencer guerra (apoteose triunfal), 
Bater record, abrir uma casa-forte, 
Filme, livro, quadro, ocasião 
Histórica, hino, ode musical, 
Ópera, descoberta d’El Dorado, 
“Bingar” no euromilhões, ou visão; 
Evitar uma causa de dor ou de morte… 

– É olhar de repente, para um lado, 
E ver-te entre gente, conforme o sonhado! 

Joaquim Maria Castanho

9.30.2016

LIÇÃO DE COR/DE COR/DE COR/DE COR/DE COR




LIÇÃO DE COR/DE COR/DE COR/DE COR

Se debico e osculo essa seda
Pura fragrância, ó elixir 
Que pelos doces sonhos se enreda
Abrindo sulcos, caminho, vereda
Por que já sobes sorrindo ao porvir; 
Então desamor se desfaz (pla tua mão)
Que traz a paz e a luz do sim e do não,
E escreve e serve o sobre e o entre
O profundo grito de teu ventre. 

O dia esplende. E o dorso flete. 
Complexo se aninha, ou estende, 
Ou balança, na rede do amplexo… 

– E o corpo aprende s’a alma repete! 

Joaquim Maria Castanho

9.29.2016

CLIC




CLIC 

Quero esfregar minha casca
Na tua casca, minha pele
Na tua pele se atasca
O beijo arrasta, à alma zele. 

E dito assim tão calado
O grito no sangue ferve, 
Que o olhar no teu colado
Faz a eternidade breve. 

Joaquim Maria Castanho

À JANELA, COM SHAKESPEARE




À JANELA, COM SHAKESPEARE 

A conta lançou abanão 
No orçamento da pobreza, 
Ond’o Dr., indabenão 
Põe máscaras à despesa. 

Pra uns, é investimento; 
Pra outros, necessidade. 
Contudo, eu argumento
Ser só fuga à verdade. 

Porque isto de pôr nome
A que muito bem se sabe,   
Até dá fomes à fome 
Antes ca taxa s’acabe. 

Joaquim Maria Castanho


9.28.2016

SE ME ALIMENTO





SE ME ALIMENTO 
(quarta-feira, 28 de setembro de 2016
15:23)

Quando a voz no ser indistinto
Abre sulcos quase indizivéis, 
Os sonhos no vaivém do instinto
Aproveitam os seus caminhos, e eis
Que sentem o que jamais sinto
Ou se derramam por esses papéis
Pintados com tudo o que não pinto... 
Folhas avulso, ou restos dos dias
Feitos e desfeitos, descartáveis
Nas linhas que desvendam poesias; 
Nos poemas que ocultam sentimentos. 

Então, exceto o pão, por endurecer, 
Quanto como passou pela tua mão
Certo dia que não consigo esquecer, 
O que lhe concede essa dimensão
Que ninguém dará aos alimentos! 

Joaquim Maria Castanho

9.27.2016

A IDADE DO SENTIR




A IDADE DO SENTIR 

No sufrágio odorado da espera
A fala presa, esgar retraído, 
O silêncio que adora e venera
Estende-se plo dia, consumido. 
A brisa, ao tocar-lhe, recorda-te
Tal que passando por mim novamente
Te visse (outra vez!) plena de arte
Vendo o telemóvel, indiferente… 
Passo cadenciado, trança prà frente
– Exatamente do lado que me prende –, 
Sentindo tod’esse bem que ascende
Quando a esperança se faz praxe
E pulsa e ilumina, ou desmente
Que o amor só aos novos é que nasce! 

Joaquim Maria Castanho 

9.26.2016

O RITUAL DA LEITURA




O RITUAL DA LEITURA 


Regressar é rever-te (mentalmente), 
Eterno retorno feito ritual, 
Repetição de instante eficiente
Pra que se repita também o real
Cotodiano (sagrado) docemente
Inspirado na Poesia e Ideal, 
Em rotina que alia o crer da gente
Ao querer que a tornará assim plural… 

Os dias são as montras dos sentidos
Tidos e somados que a nossa alma tem, 
Sendo nesse calendário vertidos
Aonde o sol só do coração nos vem. 
E vindo, põe-nos o ser amado tão perto
Que o mundo se faz um livro aberto!

Joaquim Maria Castanho

9.25.2016

PRECE AO DIA DE HOJE




PRECE AO DIA DE HOJE 

Definitivamente amargo e triste
O sol, como quem a si mesmo resiste, 
Insiste em continuar na jornada; 
Não sei se acredita que a lua existe
Mas ainda que triste traz luz em riste
E persiste iluminar a tão marcada
Saudade em meu rosto abatido... 

Pedir-lhe que prossiga sem euforia
Cuidadoso nas badaladas e atento
Aos minutos que no Tempo afia
E espeta um a um no coração sofrido
De quem os conta por afastamento, 
É empresa de sacrifício doído
Até pra ele que não é dado sentir
O que o homem sofre neste momento. 

Todavia, eu vou rogar-lhe, implorar
Que se mantenha sútil e sem sorrir, 
Seja solidário a quem lho ‘tá a pedir, 
Tão-somente e apenas pra não chorar! 

Joaquim Maria Castanho 

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

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Escribalistas é órgão de comunicação oficial de Joaquim Maria Castanho, mentor do escribalismo português