6.08.2014

MUITA CHUVA E POUCA PARRA



Pese embora, no presente ano, estejamos a verificar uma pluviosidade acima da média, no que toca ao Alentejo, quero eu dizer, o que é certo, é que a ONU continua a referir nos seus relatórios oficiais que existe uma relação direta entre a escassez de água e o subdesenvolvimento, que o mesmo é dizer, que o desenvolvimento depende em grande parte da sua fartura, e que a pobreza, a fome e a doença, que afetam boa parte da humanidade, e que pode vir a afetar cada vez mais pessoas num futuro não muito longínquo, tem causas enraizadas nas alterações climáticas e dos impactos destas nos aprovisionamentos hídricos dos povos, mas também, e principalmente, nos modelos de gestão da água que os governos e governâncias vão adotando, bem como do planeamento que estipularam para este recurso.

Um terço da humanidade está ainda com problemas no seu quotidiano devido ao abastecimento de água potável, e um quinto enfrenta mesmo uma luta permanente pela própria sobrevivência, ou a do seu agregado familiar, que obriga, em não raros casos, a deslocações diárias de várias dezenas de quilómetros até ao poço mais próximo, gastando nelas bastas horas úteis do seu dia solar, às vezes só para descobrir que esse poço, afinal, secou, e que é preciso ir mais adiante uns quantos quilómetros, para alcançar outro e conseguir alguns litros de água que permitam sobreviver mais alguns dias, com inequívoca frugalidade, é óbvio, e que essa quantidade que para os ditos povos é preciosa, não passa ela, todavia, para os habitantes dos países desenvolvidos, de uma mera descarga de autoclismo, sugerindo-nos quão banais podem ser as necessidades dos outros desde que as nossas estejam satisfeitas.

Porém, isso é uma mentira de todo o tamanho. No mundo atual, quando uma população está em dificuldades, no que concerne aos recursos naturais, significa que aquelas, que o não estão pelas mesmas razões, não estão livres de o virem a estar, antes pelo contrário, pois a roleta das alterações climáticas pode acertar no seu número, e a sorte virar azar, com a rapidez característica que concedemos a tudo o que é inesperado, e de desenvolvidas passarem a subdesenvolvidas, com agravante de se encontrarem menos resistentes a essa escassez, uma vez que a fartura seja do que for nunca preparou ninguém para a sua falta. Isto é, não é pelo fato de ter chovido abundantemente que podemos achar razão para gastar água a rodos, regando jardins e relvados mesmo quando não precisam de ser regados, simplesmente porque não queremos dar-nos ao trabalho de alterar/regular o agendamento/planeamento do aspersor de rega automática, porquanto a dita água pode ou não vir a faltar, sem dúvida, mas o que também é indubitável é que autarquia que a desbarata vai ter que a pagar à empresa fornecedora, e que essa verba desperdiçada podia ser utilizada a suprir necessidades reais dos munícipes que tutela, sejam eles idosos ou criança, desempregados ou desabrigados. Principalmente porque se a chuva é para todos, já a água é só para quem pode. E, como ditam as crises, quem a merece. É que, frequentemente, a parra fica curta, quando a vergonha é grande… Entendido? É por isto que gosto tanto da minha gente: só com meia palavrinha, e já a verdade toda veio ao de cima!    

Joaquim Castanho

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