6.01.2013

FILMES GENERICAMENTE ESQUECIDOS

Serenidade, de Rosa Coutinho Cabral, Anne Trister, de Léa Pool, Jane B., de Agnès Varda, As Noites Bárbaras, de Marion Hansel, Robinsinada ou O Meu Avô Inglês, de Nana Ozhardzhade, A Rua das Casas Negras, de Euzhan Paley, A Hora da Estrela, de Susana Amaral, só para citar alguns de entre os muitos títulos que apareceram e de imediato desapareceram do panorama cultural português, são filmes de realizadoras cinematográficas que viram no discurso feminino o leitmotiv mais que suficiente para fazerem no cinema uma destrinça de género, quer nos modos de contar as histórias (incluindo a terminologia e linguagem), quer nos elencos e conteúdos escolhidos e/ou enfatizados, ou aquilo que essas realizadoras entenderam ser relevante para ilustrar a sua narrativa, que consideraram importante ou interessante nós observarmos enquanto espetadores e descodificantes.

Neles, a condição feminina, enquanto elemento de uma sensibilidade particular, bem como a forma como ela foi traduzida à velocidade de duas ou três dezenas de imagens por segundo, parece ser-lhes o denominador comum que fez com que nunca tivessem sido muito vistos, fato que sobejamente ajudou para que também fossem lestamente atirados para o esquecimento, mesmo dessa parte da humanidade a quem as questões de género acarretam identidade e empatia. As situações sociais que espelham, as teorias de vida que refletem, os objetivos e anseios que perseguem, as narrativas sentimentais e emocionais que equacionam e entretecem, não deixaram de ser atuais, pese embora a escala de prioridades e preocupações existenciais tenha mudado, remetendo-as para patamares subalternos. Porquê?

Será que alguém pensa terem sido dissolvidas (e removidas) todas as inquietações que desassossegavam o género feminino só pelo fato de ninguém falar delas com a mesma acutilância e veemência das cineastas do século passado? De 80 para cá muita água correu debaixo da ponte, mas também penso que não… O tempo tudo cura, sobretudo na idade avançada, que culmina com a morte, que é um tempo sem tempo onde todas as fortunas e infortúnios se equiparam em valor, num tanto-faz que anestesia, todavia há feridas que nunca cicatrizam sob a crosta ou carapela que as omite do inventário das chagas pessoais e sociais visíveis. Porque elas remanescem à mínima beliscadura… Salvo seja!

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