10.17.2012


CARNAVAL

Por Carlos Chiacchio*

Clarins. A boémia teve os seus dias de ouro. Três dias. A boémia, cor de chumbo, taciturna, de calos duríssimos nas mãos. Três dias. As guizalhadas de Pierrô, os saracoteios de Colombina e as astúcias amorudas de Arlequim. Não há sair desses símbolos eternos. O demónio toma asas de anjo, e espalmadas lantejoulas de sol, estonteadoramente, sobre o turbilhão das almas prontas para o riso, para o gozo, para o amor… É o ritual bizarro em que se confundem os esperneios da miséria gaiata das ruas com os dulcíssimos aconchegos da ventura do álcool. Ninguém, como tu, meu irónico Arlequim, para saber dar majestades à tristeza contingente. És o maior colorista dos aspetos humanos. Quando mesmo se apertam as vísceras, exigentes do pão cotidiano, mal desponta o sol carnavalesco atando a máscara de coral sangrento (que te importam desigualdades naturais?) saltas do teu leito de Procusto, onde dores te agrilhoaram, por trezentos e tantos dias, saltas por cima dos preconceitos sociais, das regras, dos rótulos, dos cânones, dos milhões de hipocrisias e convencionalismos cómodos do mundo, e vens rir, a rir como qualquer, ao lado do Bobo do Bombo, instrumento em forma de mundo truncado nos polos. Bravo do Bobo do Bombo, e do meu Arlequim filósofo. Eu vos saúdo aos tons gloriosos dos clarins do dia.
Guizos. Há, porém, no estonteamento estrídulo dessas festas da carne e da loucura, a persistente nota dos avisos estranhos. Quem acaso se afoite às caminhadas longas por essa “selva escura” de Dante, de qualquer coisa se tema, sutil, íntima, pequenina. Trémulo tinido das missangas de metal, esses pequeninos crótalos zarelhantes que lhe brincam nos pés, nas mangas, nas calças, nos gorros, por todos os floreados de seda, dos lindos travestidos, são como um sinal sonoro de discrição no riso. Marcam notas comedidas, sem voos, nem surtos, humildes, fracas, ténues, como rasteiro ritmo da nossa alegria, ali que vão saltar, desmesuradamente, os limites necessários à sua condição fisiológica. Porque, tão frágil se ostenta o dom superior de rir contente que, se nos falha o diapasão na gama para logo a dor, a negra intrusa dos nossos prazeres, aí está presente no húmido enegrecer das pálpebras. Lábios e pálpebras são vizinhos, como as fronteiras fatais das loucuras que aí vão… Nem há cores, por mais sábias das palhetas pinturescas que se fixassem nas infinitas ondulações das suas cambiantes. Somente os sons. Certo, foi um músico genial, esse, que fez os primeiros guizos. Os guizos, risos soltos que voam…

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Bombos. O Carnaval é o delírio das imagens em liberdade. A delícia das cores, e capricho das cores, a volúpia das cores. Rio policromo de trapos volantes, vivos, felizes, a alma humana rola cantando pelos clarins, pelos guizos, pelos bombos. O bombo é uma hipertrofia nacional desse prazer. O bom é o cómico instrumento dos ridículos balofos dos bufos. O bombo, a expressão universal desses três dias de algazarra e estouro. Já mal penso que está aí o Carnaval, já essa figura suburbana do Zé-Pereira, a popularíssima criação espontânea da algazarra sem freios, aí rataplana os seus rábidos tambores infernais até que se lhe partam as cordas e se lhe rompam os couros cabeludos da momice. O riso, ao contrário do pensar de muita gente, é coisa muito nossa nas horas mais amargas da vida, por isso que, em vez do canto fúnebre das lágrimas, muito melhor nos fala à alma esse azoar de bombos sob as loucas percussões das maçanetas. O bombo é um símbolo nacional.
E máscaras. A máscara é o nível do espírito de toda a gente. Não há imbecil que se não queira génio. Não há papalvo que se não sinta rei. A estupidez dissimula-se, engalanada em máscara. É todo-o-mundo. É o todo-o-aquele. É a toda-a-gente. Nivelamento geral. Regime ruidoso do qualquer. Máscaras de papel em cores. Máscaras de carne em polvilhos. Mas tudo máscaras, como é da praxe entre os homens. Ai de nós se não fosse então a mascarada necessária ao bem-estar da espécie. Máscaras, precisam-se afiladas, senão ricas em substância, pelo menos suficientes em exterioridade. Há quem proclame o imperativo das máscaras, como estímulo da união entre os espíritos. Diz-se ainda que, se não fora a hipocrisia, que doura as ações humanas do pó mistificador da carnavalia, nesses três ou trezentos e tantos dias de riso convencional, certo, a humanidade teria estourar do mal recalcado das conveniências respeitáveis, que pela válvula da máscara se desatam em desforras lícitas, amáveis, oportunas. Rir, com ou sem máscaras, é, pois, uma função exonerante de peçonhas coletivas. Nem de outra forma se poderá entender a instituição do Momo, o higienista, por excelência, das tristezas e despeitos contra a vida tirânica. Vamos, então, amigos meus, ao riso amplo, largo, livre (sem máscara) como o instinto mesmo da alegria, condição da força, da saúde e da paz. Vamos rir, sem magoar. Rir, por um ato de amor. Rir a bom rir. Fraternalmente.       


* Carlos Chiacchio nasceu em 1889, na cidade de Januária, Estado de Minas Gerais. O texto acima pertence ao Ciclo de Festas Populares da Baía. Analisando os elementos exteriores do carnaval, os elementos que lhe dão colorido e brilho – os sons e as máscaras – Carlos Chiacchio concede à festa de Momo, a finalidade larga e muito humana do riso amplo, livre e espontâneo.

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