4.03.2011


Porque parece que algumas ondas pseudo-feministas se estão a reavivar por aí, faço aqui a minha homenagem a uma das minhas "ídolas" de juventude. Agora já não tenho ídolos, mas companhias fiéis e inspiradoras. Virginia Woolf será sempre uma delas.












O mundo não mudou por causa dos seus livros, evidentemente; mas a minha (e a de muitos) visão do mundo alterou-se bastante, sobretudo com ORLANDO, RUMO AO FAROL, MRS. DALLOWAY, AS ONDAS ou ATÉ MESMO FLUSH, UMA BIOGRAFIA ou Um quarto que seja seu. O feminismo elegeu-a como uma das suas figuras fundamentais, mas o retrato não corresponde; ela não era feminista, era apenas um espírito independente; a sua frase famosa («uma mulher deve ter dinheiro e um quarto que seja seu») referia-se à disponibilidade para escrever. E Virginia Woolf escreveu muito e marcou a modernidade de antes da guerra, quer pela sua escrita (uma torrente incessante que contrasta com a sua "fragilidade"), quer pelo papel que desempenhou como influente intelectual nesses anos difíceis e turbulentos. Virgínia Woolf (1882-1941) morreu há exactamente 70 anos [28 de Março]. Atirou-se às águas do rio Ouse com pedras nos bolsos e passos determinados; o corpo só foi encontrado a 18 de Abril.


O texto que se segue é apenas uma pequena biografia que escrevi há 5 anos; mas quem quiser sentir aquele cheirinho leve que ela deixou na atmosfera cultural adjacente, então pode sempre ver o filme As Horas. E pronto, fica feita a minha homenagem. Porque lembrar nunca é demais.


Filipa Ribeiro


A mulher que decifrou para além do algodão


Amante da vida, suicidou-se aos 59 anos. Pintora do instante, a sua obra projectou-a para o lugar das referências universais. Odiando o seu corpo, filtrou estados de espírito e continua a existir (nos outros).


Ela foi uma mulher que viu além da sua varanda (da vida). Daí viu o horizonte, sendo simplesmente uma mulher, mas com a tal visão. Acima de tudo, ela conseguiu estar nessa varanda apesar de todas as vicissitudes por que passou, entre elas: os raros momentos de intimidade que teve com uma mãe adorada e que, mais tarde, com a morte desta, representou a primeira grande viragem na vida de Virgínia Woolf (V.W.); a falta de formação escolar enquanto criança (muito por ser mulher); a convivência próxima com as depressões do pai; os abusos sexuais por parte dos meios-irmãos; o peso da sociedade vitoriana em que cresceu; os sintomas de uma perturbação mental (psicose esquizofrénica, dizia-se no seu tempo); a morte de um seu irmão; os tormentos das duas Grande Guerras e, claro, a inquietude muito própria e vital para a actividade literária. Hermeneuta da vida, segundo escreve Werner Waldmann, um dos biógrafos da autora de As Ondas, “logo a partir dos primeiros textos sente-se a obstinada procura da escritora quanto a abranger por palavras o mundo que a rodeia e toda a sua profundidade: «toda a realidade», sem ignorar gradações e afastando-se dos clichés e dos métodos literários até então experimentados”. “V.W. não pretende fantasiar histórias, mas arrancar matéria ao caos das sensações interiores, à amálgama de vozes exteriores e interiores”. Como salienta Pierre Nordon, professor emérito de literatura na Sorbonne, em Paris, no artigo A estética do fragmento, publicado no dossier dedicado a V.W, em Le Magazine Littéraire de Dezembro de 2004, “a narrativa woolfiana remete-nos sempre para o universo da pintura”. “Uma das inovações mais marcantes de Virginia é a de, voluntariamente, ter transposto para a literatura a prática dos impressionistas”. Ou seja, toda a vida da escritora foi uma prova de esforço para si própria e para a sua linguagem.




Vida até ao casamento



Filha do segundo casamento de Leslie Stephen com Julia, V.W. nasceu a 25 de Janeiro de 1882. Leslie começou como pastor numa igreja, passando, mais tarde a desempenhar funções como jornalista, biógrafo e historiador. Tido como temperamental, ambicioso e de vivo intelecto, Leslie desde cedo proporcionou um ambiente de elevada intelectualidade na sua casa. Personalidades da cultura britânica de então eram visitas regulares para a família Stephen. Virgínia e a sua adorada irmã Vanessa não receberam qualquer formação escolar, mas antes uma educação própria para senhoras (equitação, canto, música, dança), como convinha à rígida época de costumes em que viviam.


Waldman documenta que ”enquanto criança, V.W. absorvia tudo o que conseguia ouvir, mas não só idiomas. Virgínia aprendeu a ver e sentir o que a rodeava, a apreender o lado visível das coisas e as oscilações invisíveis por detrás das mesmas, todo o espectro de emoções em cada momento da vida”. “Imitava a linguagem dos adultos. Cedo começou a escrever para si, no tom dos adultos, a escrita como imitação. Para ela era um treino, exercícios de dedos para mais tarde”.


Aos 13 anos teve a sua primeira grande crise depressiva por ocasião da morte inesperada e impossível de sua mãe, o que mudou o harmonioso ambiente familiar que, com esforço, existia até àquele acontecimento. Assistir ao profundo sofrimento de Leslie devido à morte da segunda mulher, foi, ao mesmo tempo penoso, revoltante e um ponto de fuga para as irmãs inseparáveis, Virgínia e Vanessa.


É também a partir dessa idade e até aos 21 anos que Virgínia passa a ser vítima de abusos sexuais por parte do meio-irmão George Duckworth, 16 anos mais velho que ela. “Ainda me recordo da sensação quando a mão dele se enfiava por baixo do meu vestido e avançava energicamente e cada vez mais para cima. Recordo-me de como ansiava que ele se apercebesse de como me contraía e desviava quando a sua mão se aproximava das minhas partes sexuais. Recordo-me de que isso me revoltava e repelia – qual é a palavra exacta para um sentimento tão asfixiante e confuso? Deve ter sido forte, pois ainda se conserva na memória”, escreveu no diário que manteve durante toda a sua vida. Mais tarde, Virgínia viria a dizer que Duckworth havia arruinado a sua vida antes mesmo de ter começado. Muito devido a isto, VW nunca viria a desenvolver gosto pelo seu corpo e, mais tarde, nunca se sentiu atraída sexualmente por nenhum homem. “A natureza dotara-o com um excesso de vitalidade animalesca, mas não se dera ao cuidado de inserir um bom cérebro como órgão controlador”, disse sobre o seu odiado meio-irmão.


Até à morte do pai, Virgínia sentiu-se sempre acabrunhada pelo peso da sociedade vitoriana de que Leslie era um poderoso representante, revelando uma personalidade, segundo afirmam diversos críticos e biógrafos da escritora, introvertida, muito sensível, vulnerável, ansiosa, tímida e cheia de complexos de inferioridade. No entanto, o desmoronamento do cenário ideal de família que culminou com a morte de Leslie, em 1904, agravou as manifestações de perturbação psíquica que viriam a ensombrar toda a vida da romancista. Por exemplo, numa carta a Violet Dickinson, comentava que “se houvesse um Deus louvá-lo-ia por me ter liberto da infelicidade dos últimos seis meses [ouvia vozes, tinha pesadelos, nevralgias, enxaquecas]. Não podes imaginar como saboreio agora alegremente cada minuto da minha vida. Só peço que consiga chegar aos 70 anos (…) O desgosto pela morte de meu pai, como agora o sinto, contém algo de apaziguador e torna a vida, ainda que mais triste, igualmente mais valiosa”.


Bloomsburry


Foi no nº 46 de Gordon Square, Londres, que tudo começou para o Grupo Bloomsburry. Já motivada pelas discussões filosóficas que mantinha durante as refeições com o irmão Adrian, onde atiravam cubos de manteiga um ao outro, assim como pela vontade de estar à altura dos amigos do seu culto irmão Thoby e seus amigos, Bloomsburry – o espaço de tertúlias – constituiu uma grande alegria e um enorme estímulo para V.W. Além disso, tornou-se “atraente para uma certa camada social, para os intelectuais, artistas, escritores, jornalistas, pintores, estudantes, numa palavra para os boémios. Cultivava-se o liberalismo, sem grandes discursos a esse respeito”, nas palavras de Waldmann.


Mais uma vez, os seus complexos de inferioridade e o medo de ser ignorante, aguçaram-lhe o espírito para a leitura, sobretudo quando os restantes membros do grupo incitaram a grande silenciosa de Bloomsburry a ter um papel mais activo nas discussões que o grupo promovia.


Por outro lado, como escreveu Hermione Lee, a mais conceituada biógrafa de V.W., num artigo publicado no The Guardian, em Fevereiro de 2003, a autora de Orlando, passou a ser “conhecida por ser uma conversadora brilhante e divertida que arrancava gargalhadas aos amigos” e isto não como forma de provocar a hegemonia masculina da altura, mas mais como forma de dizer que também ela seria capaz, que estava ali. Outros há que associam a esta sua faceta mais social uma manifestação do que hoje se designaria por doença bipolar.


“A presença de Woolf era marcada pela magreza, a bela estrutura óssea, a fragilidade, os olhos, a voz, a mistura de angulosidade e de estranheza”, elucida ainda a investigadora.


O incondicional Leonard


Virgínia foi, apesar de tudo, uma mulher afortunada, por exemplo, quando a vida lhe ofereceu Leonard Woolf, o homem com quem viria a casar em 1912. Mais à frente neste artigo e até na sua última nota de suicídio, ela mostrará o porquê. Ora, foi também entre a intensa actividade cultural que acontecia no grupo Bloomsburry que Virgínia conheceu Leonard – o homem que estava sempre a tremer –, antes deste partir de viagem para o Ceilão. “Fiquei, como é óbvio, profundamente fascinada por este selvático, trémulo e misantropo judeu, que já erguera o punho contra a civilização”, escreveu ela no seu diário sobre o futuro marido. Para aceitar casar-se, muito contribuiu o facto de recear ser marginalizada pela sociedade que a rodeava, bem como se preocupar, como revelou em cartas enviadas à sua irmã Vanessa, em 1911, por aos 29 anos se considerar “uma falhada”, porque não era casada, nem escritora, nem tinha filhos. Afinal, também Virgínia queria partilhar o quotidiano com um companheiro, mesmo que as suas tendências sexuais pendessem para as mulheres, facto que atribuiu quer ao domínio que a figura materna teve em si até aos 40 anos, quer ao facto de saber a sua recusa de tudo o que se interligasse ao seu corpo. Ao mesmo tempo, receava e desejava o amor, os filhos, a aventura, a intimidade e o trabalho próprios do que é um casamento.


Desde a sua união com Leonard, como refere Waldmann, Virgínia não passou por anos fáceis: “a prolongada e sempre recrudescente doença, a constante ameaça de mergulhar por completo no abismo da loucura; a decepção de que problemas indissolúveis pesavam sobre o seu casamento: a falta de filhos, as dificuldades no âmbito sexual; o modesto êxito ideal e material do seu trabalho de escritora; a guerra; amizades que haviam chegado ao fim, o pálido reflexo de Bloomsbury”. Sobre a vida particular de V.W, o biógrafo escreveu: “Virgínia podia confiar em Leonard, que a aceitara tal como ela era. O amor de ambos, se é que assim lhe pode chamar, assentava em bases sólidas, jamais questionáveis. “Estou deitada e penso no meu querido monstro que torna cada dia da minha vida mais feliz do que alguma vez julgara possível. Estou sem dúvida terrivelmente apaixonada por ti. Penso sem cessar no bem que me fazes e tenho de parar – desperta-me logo o desejo de te beijar”.


Viver da e na escrita


A editora que o casal Woolf montou foi uma das maiores aventuras que ambos viveram. V.W. era a responsável editorial da familiar Hogarth Press, enquanto Leonard administrava toda a envolvência do negócio com uma competência e cabeça fria notáveis. T. S. Elliot, Tolstoi, Gorki, Tchekov, Doitoievski, Ítalo Svevo, Rainer Maria Rilke, Gertrude Stein, Vita Sackville-West, H. G. Wells, Freud (V.W. mostrou-se várias vezes céptica em relação às ideias do pai da psicanálise) são apenas alguns dos nomes que fizeram parte do catálogo da editora dos Woolf. Mas o negócio do casal também ficou conhecido por recusar Sartre e, sobretudo, por ter negado a publicação de James Joyce.


Esquizofrenia ou processo criativo?


V.W era uma mulher que vivia no seu tempo e de acordo com a ideia que dela faziam, mas nunca permitiu que isso a manietasse. Sujeitou-se a todas as pressões e impulsionou-as para dentro de si. Deprimiu-se.


Se era ou não esquizofrénica e se isso se retratava na sua escrita é ainda hoje motivo de longas dissertações entre os estudiosos. No entanto, a efabulação e as toxinas que a obrigavam a tomar por causa da tal psicose, proporcionaram-lhe um mundo onde só ela habitava. Era quase como que autista, como muitos escritores e artistas são por necessidade, mas, na verdade, V.W. intercalava alturas de grande excitação, lucidez, criatividade com outras de depressão, isolamentos, medo de não conseguir fazer mais nada. Também por essa razão, escrever um romance causava-lhe, ao mesmo tempo, prazer e terror.


Outra explicação é dada por Diane de Margerie, romancista e autora de um prefácio a uma edição de Orlando, que outorga a V.W. uma “identidade retalhada”, isto é, “à vez nostálgica, deprimida, inquieta, vital, irónica, feroz, mundana, atraente, solitária, concentrada, desconcentrada”. “Ela não poderia viver senão num instante de cada vez”, remata a também ensaísta.


Note-se, por curiosidade, que como explicou Waldmann, após receber a resposta positiva do editor do seu primeiro livro “A Viagem”, V.W. padeceu de profundas depressões e de alucinações devido ao receio da reacção do público ao seu livro. Estas crises repetiram-se sempre que terminava um romance.


Uma das suas obras mais conhecidas – Mrs. Dalloway – que teve como primeiro título As Horas, representou um verdadeiro tormento para V.W. “A concepção é tão estranha e misteriosa”, dizia, referindo-se a “uma luta dos diabos”, e de que ficaria completamente esgotada durante o tempo em que o escreveria, receando acordar novamente o que chamava de loucura. “A parte sobre a loucura põe-me tanto à prova”, clamava Virgínia. As dúvidas constantes assolavam-lhe o espírito: “Terei o poder de transmitir a verdadeira realidade? Ou escrevo apenas ensaios sobre mim própria? Responda o que responder…a minha agitação permanecerá sempre”. Apesar disto, era a escrever que V. W. sentia a força vibrante do seu ser. Penetrar no inconsciente detalhado das personagens, registar a fluidez complexa do quotidiano, confrontar as terríveis associações de que se constitui a vida humana são características claras de uma nova forma de narrativa que V.W. protagonizou e de que Mrs Dalloway é exemplo. “A obra de Woolf é a pragmatização de uma frutuosa pesquisa sobre a arte do romance, da qual resultou uma forma elástica, servida pela representação descarnada da consciência e por um ritmo cada vez mais interiorizado, demanda que consumiu e espelhou a sua vida” (Jornal de Letras, de 5 de Março de 2003). “Qual a fronteira entre o real e a ilusão?”, perguntava ela no livro Um quarto que seja seu.


As Ondas, o outro vértice do triângulo primordial da obra de V.W. (Mrs. Dalloway, As Ondas e Orlando), foi escrito no limiar de mais uma crise depressiva de V.W. Depois de o ter acabado, a autora desabafou assim: “Escrevi as últimas palavras há um quarto de hora – depois de ter desbobinado as últimas dez páginas com tal intensidade que ainda me parece estar a seguir, vacilante o eco da minha própria voz ou antes o eco da voz de alguém (como se estivesse louca) …. Seja como for, está feito e há quinze minutos que estou num estado de êxtase e calma; também chorei um pouco…Como é física a sensação do triunfo e do alívio!” O marido classificou o seu livro como uma obra-prima, o melhor dos seus livros.


Paradoxo humano


V.W., em Rumo ao Farol, apresenta uma visão segundo a qual “cada homem e mulher é uma criatura isolada e cada um deles requer e procura alguma comunicação legítima com os outros em particular e com o mundo em geral”, diz Kenneth Tighe num artigo crítico ao supracitado romance, “Arte e ateísmo em Rumo ao Farol”. Segundo o ensaísta, o isolamento individual das personagens naquele romance é sustentado pela ausência de Deus. Ou seja, sem a presença de Deus como apoio ao humano, cabe ao indivíduo atribuir ordem, significado, sentido de unidade no (seu) universo intrinsecamente caótico. Sendo assim, “para a Sra. Woolf, no romance Rumo ao Farol, a arte é a ponte que se eleva sobre a anarquia do ateísmo”, apesar de o homem e a mulher serem sempre criadores imperfeitos e falíveis. Por outro lado, é perfeitamente visível que V.W. queria um mundo onde a mulher e a diferença fosse reconhecida. Ela desenha esse mundo em Orlando. E é curioso verificar, por exemplo, que o anagrama de Orlando [Leandro] é o paradigma da obra de Lídia Jorge, escritora portuguesa, O Vento assobiando nas Gruas.


V.W. era maçónica (das lojas regulares) e debateu-se toda a vida com o estatuto de menoridade que era atribuído à mulher, inclusivamente depois de ter tido algum êxito com as suas obras. A isso se deve também o facto de se ter imbricado nas teorias humanistas da diferença. Também as suas constantes depressões que a assolaram terão derivado muito dessa dicotomia entre o mundo dos homens e das mulheres que era tão gritante para alguém que apenas queria ser vista como ser humano. Por isso e muito mais, ela tentou, com a vida e com a sua literatura, desvendar a profundidade da alma humana, o que a aproximou de autores como Rainer Maria Rilke, apesar de ambos terem tido trajectos distintos.


Morte no rio


“Tu, sobre quem cavalgo, diz-me que inimigo vemos agora avançar contra nós, neste momento em que golpeias a calçada com os teus cascos? É a Morte. A Morte é o nosso inimigo. É contra a morte que cavalgo de lança em riste e os cabelos flutuando ao vento, como os de um jovem, como os de Percival quando galopava na Índia. Cravo a esporas nos flancos do meu cavalo. Invencível e indómito é contra ti que combato, oh Morte!”, escreveu Virgínia em As Ondas.


Diane de Margerie considera que os vários acontecimentos que implicaram um sofrimento profundo em V.W. resultaram na fragmentação da identidade da escritora, apesar dela sentir uma “intensa nostalgia de uma unidade impossível de alcançar (excepto na morte)”. E é daqui que vem a resposta à frase que serviu de título ao filme de Mike Nichols e a uma peça de teatro de Edward Albee, “Quem tem medo de Virgínia Woolf?”. O mesmo é dizer quem tem medo da morte, quem tem medo do que é a vida, quem tem medo de exceder (-se) nas convenções estabelecidas. Ou seja, a morte é a mais alta forma de dignificar e valorizar a vida, porque é a mistura entre o infinito e a liberdade absoluta. O recurso à morte terá sido, para Virgínia, uma forma de se manter viva. Porque importa não esquecer que Virgínia, sendo uma espécie de morta-viva, sempre amou a vida e os outros.


Como morreu?


V. W. dizia que o oceano lhe ensinava mais sobre a natureza humana do que as próprias pessoas, mas escolheu um rio como leito da sua morte. “Woolf afogou-se num frio dia de Março num perigoso e horrível rio que corre tão rápido que nada cresce nas suas margens. Vestia um velho casaco de pele, botas e um chapéu. Se saltou, entrou ou lutou, não sabemos”, informa Hermione Lee. Com os bolsos cheios de pedras, V.W. terá tido a sua resposta, depois de ter decifrado para além do algodão (=além da realidade da natureza humana): “A morte era um desafio. A morte era uma tentativa de união ante a impossibilidade de alcançar esse centro que nos escapa; o que nos é próximo afasta-se; todo o entusiasmo desaparece; fica-se completamente só...Havia um enlace, um abraço, na morte?”. [Mrs. Dalloway, Livros do Brasil, edição de 1992].


“Mrs. Dalloway mudou a minha existência”


Michael Cunningham, que recebeu o Prémio Pulitzer, pelo romance As Horas, partiu para essa aventura de dar um renascimento à obra de V.W., quando tinha apenas 16 anos, depois de ler Mrs Dalloway. “Este livro foi realmente o primeiro a causar uma impressão real em mim, foi o primeiro a mostrar-me tudo o que se pode fazer com um pouco de tinta e de papel. Nunca mais li frases com tanta densidade, complexidade, musicalidade e beleza. Mrs Dalloway mudou a minha existência, ao revelar-me a literatura”, comentou numa entrevista concedida à ”Le magazine littéraire, edição de Dezembro de 2004. O resultado deste encanto materializou-se em 1996 quando começou a escrever As Horas. Virgínia Woolf: a irmã de Shakespeare que triunfou Um dia foi impedida de entrar numa Biblioteca Pública de Londres por não possuir uma carta do seu marido, autorizando-a para tal. E um dia, em 1929, publica Um quarto que seja seu, cuja ideia principal assenta no facto de as mulheres terem sido sempre subjugadas não devido à sua natureza, mas como resultado de algumas “tristes” circunstâncias económicas e sociais. No entanto, como é referido no livro Mulheres nas Letras, Mulheres dos livros, “aparentemente, ela desfrutava das condições que considerava essenciais para uma mulher se afirmar como escritora, advogadas no seu ensaio Um quarto que seja seu, dispor de espaço físico e psicológico e de dinheiro suficiente para se bastar a si própria”. A propósito disto, inventou uma irmã para Shakespeare que, por ser mulher, nunca poderia ser escritora.

1 comentário:

Clepsidra disse...

Interessante descritivo da autora. Foi-me útil. Obrigada!

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