4.12.2008


Do Diário de Minie: E o 25 de Abril contou para alguma coisa?

Patapolis, 11 de Dezembro de 1979

Querido Diário:

Sabes, gosto da minha profissão...
Gosto de me vestir bem e preocupar-me com a minha aparência. Faço-o por gosto, embora a minha condição, a minha situação de empregada de uma fábrica de prestígio, também o exija. Criar asco nos clientes, companheiros e superiores, nunca foi o meu intento; sou estimada e respeitada por eles, e não pretendo perder essa consideração. Às vezes sucede que os meus colegas de trabalho façam chacota, graçolas, lancem ditos humorísticos que realçam relações duvidosas, de carácter indesejável, com os quadros superiores da empresa. Não lhes levo a mal, nem me sinto ridicularizada. Ainda hoje sucedeu. Sou consciente e estou perfeitamente segura da minha honestidade. A seriedade da minha profissão é muitas vezes posta em causa, por alguns exemplos que vieram a público, mas nunca esqueço que eles são a excepção, e não a regra. E não é verdade aquilo que muitos realizadores e revistas burlescas veiculam. E o que algumas vizinhas querem fazerem entender?... Penso que não. Pelo menos, comigo, isso, a que chamam assédio, nunca aconteceu; nunca o meu chefe atentou contra a minha dignidade, nem contra a minha ou sua reputação. A empresa tem os seus interesses em criar de si uma boa imagem. Esta reputação é-lhe necessária. Nós fazemos parte dela.
Hoje tive de atender um cliente, pois o chefe não estava presente. Foi uma tarefa difícil, por parecer um tipo estranho, difuso, e não conseguir enquadrá-lo em nenhum dos tipos psicológicos, que os meus estudos me facultaram: não era pícnico, não era asténico, nem propriamente atlético. Os primeiros cinco minutos decorreram numa dolorosa incerteza, mas ele, talvez por ter uma cultura assinalável e fora do vulgar, abriu a porta à comunicação e, antes de tratar do negócio a que vinha, tivemos uma frutífera troca de impressões sobre a arte moderna, bastante eclética por sinal, embora desse para evidenciar as preferências de cada um na matéria. Em especial, sobre música. Em que divagámos desde Bethowen até Frank Zappa. As horas de leitura de revistas musicais e audição de muito disco, incluindo através da rádio, foram-me bastante úteis para o acompanhar racionalmente, além de me possibilitarem resolver com êxito e empatia a estranheza inicial provocada. Sinto-me feliz por isso. Extremamente feliz e orgulhosa, porquanto a empresa, se já tinha um cliente, ficou com mais um amigo.
À tarde, depois de ter almoçado no refeitório da fábrica, na companhia de alguns operários, recebi o convite para assistir a um debate que tem por tema "a ergonomia, a utilização da máquina e suas consequências", na Universidade de Patapolis, promovido pelo departamento de Ciências do Trabalho e da Empresa, que tem vindo a desenvolver algumas iniciativas de mérito no capítulo da Segurança e Saúde no Trabalho, matérias que, no meu parecer, devem ser mais esclarecidas e aprofundadas por todos os trabalhadores de qualquer actividade. É amanhã, à noite, e posso ir. Respondi que sim, marcando a presença nele, mesmo sem antes me ter aconselhado com o chefe sobre a questão. Creio que não se oporá, nem que veja na minha ida um extravasar de funções ou ingerência em assuntos mais coadunados com as directorias e quadros técnicos. Aliás, a empresa já me pagou duas viagens à Europa para fins idênticos, e neste, nem precisa de contribuir com nada, ou dispensar-me do serviço, por ser fora das horas de expediente e na cidade em que vivo. Creio, inclusive, que as viagens ao velho continente, vão ter realmente valia, pois por ter assistido a outros debates do género, estarei à vontade no campo da discussão, podendo até contribuir para o debate, naquilo que importa à fábrica ou a demais trabalhadores que estejam presentes.
Saí mais tarde que a generalidade dos trabalhadores da casa, visto que, quando me preparava para abandonar o gabinete, depois de ter confirmado a ordem e estado de desenvolvimento dos negócios, mais importantes, sobre que me debruçara durante o dia, recebi um telefonema do chefe, em que solicitava os meus préstimos. À última hora, mesmo pelo telefone, ditou-me duas cartas, que considerou de urgência, e deveriam seguir de imediato. Não fossem a minha velocidade na estenografia e fluência no francês, dificilmente teria dado despacho às incumbências. Os telefonemas estão caríssimos e o posto de correios, onde é feita a última tiragem, encerra às 19 horas. Uma era para Paris, e a outra para uma cidade rural francesa. Dactilografei-as directamente, enquanto fazia retroversão estenográfica, o que adiantou muito a tarefa e, quando retornava a casa, passei pelos correios a registá-las, com aviso de recepção, tal como me indicara o meu superior.
Chegada a casa, preparando-me eu para cozinhar a única refeição do dia em que podia escolher os ingredientes e conforme o gosto pessoal, ou preferências de sabor, fui "abalroada", e surpreendida, pela visita de dois antigos companheiros de escola e retouça. Dois personagens das mesmas bandas que eu, cúmplices e testemunhas das peripécias do crescimento, a que não sinto coragem de negar companhia: o Mickey e o Pateta. O rato e o cão da minha vida!
Abri-lhes a porta, evidentemente.
– Oh, doces fortunas! – saudei, quando encarei a dupla. – Mas que honoráveis pessonhas se me apresentam nesta meridional hora... Entrem, entrem, que já o jantar fervinha e adivinha a divisão por que vai ser castigado, e por três boca comido, em vez, de apenas por uma, devorado!
Infiltrados na toca, e após ser descarregada a euforia dos primeiros contactos, iniciámos o reviver de aventuras passadas, deram-me notícias do Tio Patinas e da família Donaldo, dos irmãos Metralha e demais gente do bairro de infância, das cotações da Bolsa e da colecção de notas do nosso banqueiro preferido, enfim, da despreocupação com que ocupávamos o tempo e a preciosa maneira de o gastar, sem nada fazer, além preenchê-lo a nosso bel-prazer. Eles também tinham ido à Europa, acabadinhos e chegar, mais concretamente, estiveram em França e Inglaterra, e traziam-me lembranças desses lugares. Sobretudo duas, que muito apreciei, pela falta que me faziam: dois dicionários, com as respectivas gramáticas, das línguas desses países, onde pude constatar que, não obstante o tempo passado entre a minha aprendizagem delas e o seu estado actual, em nada tinham mudado, nem acordos novos na grafia tinham sofrido. Um verdadeiro achado, que por certo me auxiliarão muito no desempenho da minha profissão, estimulando-me o seu exercício de fala e escrita, reforçando-me a confiança no aprendido, que não terá sido em vão.
Depois, durante o repasto, ouvi deles a descrição dos monumentos que visitaram, das paisagens e sítios em que estiveram, dos locais que também já vira, nomeadamente das duas capitais; Paris, o Sena, o Louvre, a Torre...; Londres, o Tamisa, o Big-Ben, o West End. E as suas descrições foram de tal forma pormenorizadas, ricas, detalhadas e divertidas, que criaram em mim emoções tão reais, como se lá estivesse estado presente recentemente e em boa companhia. Foi gratificante!
Em resumo, um serão formidável, de que apenas lamentei não o podermos prolongar por mais tempo, por ter de me levantar cedo para chegar ao serviço com a pontualidade que o cargo exige. Entrar mais cedo que o restante pessoal, preparar as tarefas para o dia todo, cuidar que subordinados e superiores disponham de quanto precisem para desempenhar as suas funções, estar pronta e disponível para qualquer e nova tarefa que me solicitem, aprovisionar material e rever o bom estado e operacionalidade do equipamento, mas principalmente, não me surpreender se tiver que ficar até mais tarde, se for necessária, o que quase sempre, e invariavelmente, é. Sair quando já quase não estiver ninguém na empresa e não esquecer de entregar a candidatura para futura directora, coisa que tem sido falada, e sublinhada pelo chefe, logo que haja alguma vaga entre os quadros. Quem sabe! A esperança acalenta o sonho, e sonhar tem sido o meu principal sustento... É o salário da vida!

Sem comentários:

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

Arquivo do blogue