4.12.2005

1.
Ironia

Umas pessoas
Acham-me piada.


Outras,

NÃO.

2.
Inverno

Tiveste os pés frios...
Tiveste as mãos frias...
Tiveste as pernas frias...
Tiveste os braços frios...
Tiveste a cara fria...
Tiveste o cu frio...

Não acredites!
A morte é o corpo todo.


3.
Salário

Trabalhar por dinheiro?
Água e azeite...
Ouro e estrume...
Amor e traição...


Não há alquimia que a tanto vá!




NATAL DE JULHO


Troveja ( e chove com sol ).
Ela, é morena e bela.
Ele, pequeno, louro, galante
E alvo que nem um nórdico.


Ambos se debruçam da janela.
Fuma a mãe, sorri o infante
A cada gota esvoaçante
Que se aninha no cabelo dela.
E acarinha ele, feliz,
Com enlevos de amante...


É um príncipe, aquele petiz!
E sua mãe... Outra Cinderela.



SETE-ESTRELO

1.

Sem a mais valia da diferença
Cada é indiferente a si mesmo
Como se fora um rio sem detença
Correndo sem rumo e a esmo


Para todos os lados repartido
Sem esperança de chegar à foz;
Mundo por infértil areia tido,
Boca muda, calada e sem voz...


Ponto indefinido, farol
Sem luz que não dá socorro;
Poema sem chuva nem sol,
E que nunca arrebata

Mas que a cada sílaba tanto mata


Quanto morro!...



2.

Quando reconheceres o silêncio
A cada esquina do passar e depois
O burburinho em crescendo imenso
De romper os tímpanos em dois
Aguilhões nas costas a sangrar...





Então, meu amigo, é porque estás
Para a indiferença de vez perdido.
És marulho em terra sem mar,
E onde quer que vás
Serás sempre incompreendido.


Porque é essa a cobrança
De seres quem és;
E essa a paga por caminhares,
Caminhares com os próprios pés!...



3.

Num café de aldeia duma rua
De aldeia com nevoeiro de aldeia
Registo que cada gesto se insinua
Fuga a uma ideia que me incendeia


Como se eu fosse a espera de ti,
O fogo perene, a faúlha suspensa
Que a leve esgar teu se intensa
Na fantasia que eu mesmo acendi.


És aquela que detém a diferença,
O porquê de meu pensar tresmalhado,
Mas, por seres de ninguém pertença
Também és a anarquia imensa
Neste buscar de meu ser incendiado.



4.

Sei dos gestos só aquilo que há
Para saber, nada mais que a plástica,
O incompreendido registo da prática
Duma intenção que se não dá.


São peças dum puzzle, retalhos vivos
De vidas sem princípio nem fim
Que ao sucederem entram nos arquivos
Fechados das gavetas bolorentas de mim.


Desta memória que insiste ser realidade
Farol, escora, muralha insegura
Que a cada dia me faz a caridade
De me tornar a vida ainda mais dura!...




5.

Tens em tuas mãos singelas
Três botões de rosas tristes
Desmaiadas, murchas, amarelas
A dizerem-te que ainda existes.


Foste imprópria em teu espanto
Quando ao amor tanto exigiste
Que este te deixou apenas pranto
Demasiado para o que pediste.


Agora, és pensar de mortas telas;
Coloridas outras, apagadas umas,
A espiar de fugida pelas janelas
De onde outrora a passar me viste
Derramando sobre ti o ardor em riste
Como se foras todas, todas...

E nenhumas.



6.

Um dia vais aparecer, silenciosa
O rosto prestes a sorrir, enigmas
Dum quadro por dizer.


Um dia tecerás singelos paradigmas
Com a penumbra da tarde nebulosa
A crepitar alvorecer...


Eu sei!... Ali onde a esperança
Se hipoteca – vais ser a criança
Que em nós desperta.


Então, como quem de si mesma se deserta
Farás outra Gioconda, grito de alerta
Na bonança...

Que é certa.



7.

Resguarda-te da morte sem tempo
Da que não pode jogar gin rummy antes
De te levar, nem quer beber um copo
Na tasca da esquina aberta toda a noite.
É essa sempre a que mais mal escolhe
E leva quem não deve, ainda jovem.


Pois quando a morte não tem tempo
É a altura própria de te pores alerta.
Os nervos de sobreaviso, a tez frisada,
Os olhos semicerrados. Não deixes
Escapar nada sem o teu reconhecimento
E, principalmente, não abuses do álcool
Ou te permitas ter relações sem preservativos.
A condução é outra coisa a ter cuidado.
O tabaco, e as constipações mal curadas.


Mas se “ela” sorrir ao chegar, então perde
Toda e qualquer esperança pois já te pregou
A partida mais feia, descarada e imerecida
Que alguém te podia pregar sem graça na vida.
SE


Se não perderes a cabeça quando todos à tua volta
A perdem e te culpam por isso;
Se mantiveres a confiança quando todos de ti duvidam,
Sendo porém tolerante para com a sua desconfiança;
Se puderes esperar sem que a espera te fadigue,
E rodeado de falsidade não enveredares também pela mentira
Ou sendo odiado não cederes ao ódio,
E contudo não pareceres demasiado bom ou sabedor;

Se conseguires sonhar – e não seres dominado pelos sonhos;
Se souberes pensar – sem que pensar seja o teu objectivo;
Se conseguires lidar com o triunfo e o desastre
E tratar esses dois impostores por igual;
Se puderes suportar ver a verdade que falaste
Distorcida por patifes e feita embuste para tolos,
Ou ver por terra tudo aquilo a que dedicaste a vida
E inclinares-te para o reerguer com ferramentas já gastas;

Se fores capaz de reunir todos os teus ganhos
E arriscá-los de uma só vez, cara ou coroa,
E perdendo, começares tudo de novo
Sem uma palavra sobre as tuas perdas;
Se conseguires forçar o teu coração, os teus músculos e fibras
A subsistir muito para além dos limites
E assim resistir quando já não resta
Senão a vontade que lhes comanda: "Resisti!"

Se souberes falar com a turba sem abdicar da rectidão
E no convívio dos reis não perderes a simplicidade;
Se nem adversários nem amigos queridos te puderem magoar;
Se todos os homens contarem para ti, mas nenhum demasiado;
Se puderes preencher o minuto inexorável
Com sessenta segundos de corrida de fundo,
Tua será a Terra e tudo o que nela há,
E, mais que isso, meu filho, serás um homem!


Kipling

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