4.20.2017

TONHO TALEGO




TONHO TALEGO

Tonho Talego era brigão e berrava lá no Sítio de Casal
Parado na minha terra do Tonho Talego, porque ele, sabem
Nunca debitou sentenças na televisão e podia berrar
E o Sítio era dum brigão, que era ele a sitiar. 

Às vezes, à tarde, em verões escaldantes, sentava-me
Na parede à beira do alcatrão apenas para o ouvir
E ele gritava e dizia que havia de a matar, que ela era
Uma puta, uma puta!!!, e ela era só a mulher e mãe
Dos filhos dele, mas ele não queria saber disso, 
Queria era o dinheiro dela para beber mais uns copos
De branco (jamais conseguiriam que mudasse prò tinto)
E poder jogar uma bisca de soldado, e ter motivos
Para discutir com outro qualquer
E esquecer-se da mulher.
À noite, madrugada fora, iria roubar que comer de dia
E os donos das hortas sabiam que ele os roubava
Mas não queriam saber, nem se importavam,
Pelo que Tonho Talego morreu sem nunca ter pedido
Nunca ter implorado nada a ninguém. 

Viveu miserável e só foi ao médico uma vez 
Em toda a vida, quando foi às sortes, nem estava doente
Que só adoecia quem podia naquele tempo. 
Tinha uma mesinha pra todo o mal, dizia
(Comprimidos de virar a mão e vacinas contra o teto)
A aguardente bem forte, que o grau é doutoramento
E até patente que tudo cura, febre, dor no dente
Fraqueza no tino ou estranhamento das ideias. 
Aos quarenta anos parecia um velho e era velho
Até era o mais velho da família dele, porque durara
Não muito mais que isso mas também poucos mais havia
Assim, tão duradoiros, depois do sol-a-sol e lambugem
Chilra pra não perderem a linha e ligeireza. 

Nunca lhe faltou a foiteza, nunca arrepiou caminho
Todavia se nunca torceu não o fez por razão nem certeza
Mas por desfastio e teimosia, que quem não sabe pra onde vai
Qualquer trajeto é perfeito. 

Tonho Talego morreu cedo, que agora é que ele havia de ser
E sentir-se como peixe na água com que os sapos cantam
E as dobradiças enferrujam. E é pena, pois dava-nos jeito
O seu jeito de ser, para explicar às crianças 
Como se não deve ser nem estar e muito menos fazer.

Creio até que é por estas ausências que a imaginação,
A criatividade, a ficção mais se justifica nestes dias...

Joaquim Maria Castanho 

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