4.22.2017

CASAL PARADO




Que lugar é esse, o da literatura, enquanto experiência humana? Que terra é essa que nunca foi, mas a que eu chamo simplesmente de Casal Parado?

       
A gente ao princípio começa por ir lá aos pouquinhos, para se distrair, para descansar da realidade, para se divertir secretamente (quiçá secretamente), para ter um lugar onde só possam entrar as nossas amigas mais chegadas, os nossos seletos amigos, onde as coisas aconteçam por diferentes razões daquelas que em família, na escola, ou na rua, as causam e justificam; para evadir-se do dia-a-dia, para esconder-se da timidez com que nos debatemos, para surripiar uma frase inteligente de que precisamos, para desentorpecer as nossas inquietações, por birra, e até mesmo para buscar auxílio e ajuda na resolução dos problemas que nos assolam. Às vezes entra-se lá pela mão de alguém mais experiente e crescido, uma avó, uma professora que nos cativou sobremaneira, um irmão, companheiro de classe ou simplesmente alguém que contou uma história para adormecermos, comermos a sopa e entreter-nos enquanto o nosso adulto responsável estava ocupado por tarefas inadiáveis. Outras porque aquele ou aquela que nos acompanha no acaso das circunstâncias não está para aturar os bichos-carpinteiros da fedelhada e nos arrumou algo útil com que permaneçamos quietos e sem chatear. Seja pelo que for, o que é certo, é que quando lá entramos nunca mais regressamos a ser os mesmos, com reações diferentes às mesmas sucedências ou acontecidos, ou alterado poder de manobra e encaixe quanto ao que somos e os demais nos parecem ser. Sofremos uma espécie de metamorfose, de transformação, ainda que delével e sem deixar mossa, mínima beliscadura ou picada de insecto, que coçamos ou sacudimos para encetar nova corrida, salto, chuto na bola, pedrada na água, deitar a língua de fora à vizinha velhota mas rabugenta que nos promete rebuçados se lhe dermos um beijinho (bhhhaaaa!!...), ou pularmos sobre a cama à sorrelfa de quem tem obrigação de a manter impoluta. Se estamos doentes, assolados por papeira, varicela, sarampo, gripe, ou de castigo no quarto por alguma malfeitoria grave, como tão-só no desentediar do momento, ao percorrer o quarto com olhar de desafio a fim de perverter a contrariedade que ali nos depusera, damos de caras com uma prenda de anos ou de Natal a que anteriormente não déramos alguma importância, exatamente por ser um livro, um naco de literatura em formato de bolso, tijolo de tapar brechas na desenvoltura lexical, excerto de paisagem de outras dimensões e díspares tempos.  
Depois a gente nem nota como, mas começamos a demorar-nos lá, entretidos com esta ou aquela personagem, alguém suficientemente descarado para nos revelar segredos íntimos, dizer o que pensa disto e daquilo, capaz de desaforos mirabolantes se provocado, possuído de força incomparável, detentor de poderes mágicos que tanto jeito nos faziam para apagar do mapa os pindéricos que nos atrofiam e não nos deixam crescer em paz e retouça. Apanhando-lhes os trejeitos, tiques característicos, falas, traquinices, partidas, repentes, argúcia, e até a vocação e vivacidade imaginativa. Ou inventiva, como apraz a muitíssima e boa gente qualificar. E aí inicia-se o jogo de esconde-esconde, o guardar algo na mochila ou no bolso que nos transmite confiança, tal como uma pedra do rio, uma concha de praia, um cordel insignificante, um apetrecho de pesca, a carica ou berlinde da sorte, o selo valiosíssimo, a moeda suja e carcomida que encontrámos no sótão, no quintal, recreio da escola, caminho que percorríamos desaustinados, mas nos chamou a atenção e fez parar para ver o que era, e mostrámos aos adultos ou colegas, não merecendo outro comentário além do célebre e tradicional «Aaah!, porcarias!» Então, nasce o primeiro sintoma de que ficámos agarrados, viciados, capazes de sonhar acordados, de falar alto quando estamos sozinhos, de escutar a conversa entre duas ou mais pessoas sem que elas nos vejam, e de responder «Médico», por exemplo, se alguém nos pergunta o que queremos ser quando formos grandes, mas fazendo figas atrás das costas e pensando noutra profissão qualquer! 
Principalmente porque já percebemos que, de cada vez que lá entramos, somos notados: aquilo fala connosco, trata-nos por tu, esclarece-nos acerca da nossa identidade e dúvidas sobre o pessoal conhecido. Passamos a ficar mais um pouco do que o habitual, e se nos chamam para almoçar fingimos que não ouvimos. As personagens preferidas, aquelas que nos vingam e enfrentam com galhardia os arruaceiros do nosso desassossego, os que apostaram em fazer-nos homens dê lá por onde der, prometem surpreender-nos ou revelar-nos coisas indizíveis se não abalarmos imediatamente. Se esperarmos mais uns parágrafos… Se aguentarmos até folhas adiante… Estamos feitos!
Podemos até distrair-nos com as obrigações quotidianas, estabelecer relações sociais desejáveis, tirar boas notas, responder positivamente às expectativas dos maiores e companheiros, brincar normalmente com os primos e vizinhos, integrar grupos, bandos, agremiações religiosas ou partidárias, ir de excursão em visita de estudo ou recreio, ajudar os familiares no campo ou na lide, cuidar do nosso animal de estimação, fazer corridas de bicicleta, assistir a jogos de futebol ou bater palmas na primeira fila dum espectáculo. Como igualmente socorrer-nos da idade que temos para fazer o que acham que devemos fazer com ela, ou é suposto fazer-se nela: brincar, estudar, namorar, trabalhar, conviver, estar com a família ou os amigos, participar da vida pública, encontrar na actividade social um óptimo élan vital para nos fortalecermos e enraizarmos. Além de estabelecer vida e família própria. Todavia, se já descobrimos a nossa voz, e ela foi reconhecida como a nossa voz entre outras vozes, autores ou personagens, narradores ou redatores, então toda e qualquer experiência que tenhamos, ficou com lugar marcado para ser dita por ela numa invenção oportuna e premente, onde essa revelação tomará foros de imperiosa e urgente: tornámo-nos literatos. Nómadas do conhecimento e da geografia, andarilhos da empatia, fotógrafos dos inconscientes (individual e/ou colectivo), contrabandistas de valores pouco explícitos. Vagabundos da língua, cavadores de areais em busca de tesouros que ninguém nos legou, mas antes roubámos do fantástico baú da História como das histórias… Da história pessoal como da coletiva, tenha sido ela registada no consciente como no inconsciente, sobretudo quando encontramos fronteiras demarcadas entre ambas, o que é raro, e só sucede aos que se libertaram da lei da morte por obras valorosas, como salientou o bardo lusitano dos sete mares andarilho.  
E se por um lado ganhámos uma pátria (a língua em que a nossa voz se expressa), por outro, conquistámos também uma trincheira, labiríntica, subterrânea, misteriosa, de onde olharemos os outros para lhe atirar os nossos petardos. Não para os atingirmos mas para os tornarmos conscientes de quanto estão ao nosso alcance. Alguns deles são mesmo fogo-de-vista, artifícios de maravilhar, plenos de cor e exotismo, movimento e som, aroma e ritmo, que os arrebatam e deslumbram, os levam a baixar guarda, exilar-se de si próprios, e seguirem-nos na aventura de soletrar o espaço-quando. O tempo e o modo. A letra e o estilo. O género e a ousadia. Enfim, a fala e a voz! 
Abandonado que foi o reino do fazer é altura de entrar no de como fazer, pois todas as nossas aptidões e experiências humanas se alteraram. Viver deixa de ser importante, mas o como fazê-lo (ou como se faz) torna-se imperativo. Então, se se entra num jogo, ou numa profissão, é premente saber praticá-los bem, não para ganhar o jogo ou evoluir na carreira, mas sim para assimilar a experiência a ponto de poder servi-la pura e real, em condições de utilização óptima, ainda muito dentro do prazo de validade, aos personagens (nossos ou alheios) que habitam no universo dos que nos reconhecem (a voz): a literatura. A mentira. A mentira tão mentirosa que chega desmentir-se numa verdade que nos espelha, reflete, projeta, alicerça e determina. A mentira tão profunda que nos devolve autênticos em palavras para além do que somos e queremos ser. A ilusão que nos descarna e coloca no rubro da carne viva, sujeitos a todas as infeções dos sentidos, incluindo da empatia e propriocepção, do envolvimento pessoal e da cumplicidade inequívoca. E que nos doutrina na forma de nos conduzirmos entre os demais, semelhantes e diferentes, físicos e imateriais… Enfim, chegamos a Casal Parado!  

Joaquim Castanho 

(Ilustração: fotograma do filme A VIAGEM DE CHIHIRO, de Hayao Miyazaki)

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