6.20.2015

A TERCEIRA ROSA




A  TERCEIRA ROSA
Manuel Alegre 
(1998) 

Eis mais um romance  fragmento que caminha, que se revela em cada painel desdobrado do pórtico histórico do pré, pró, contra e após 25-A,  com diversos amores ao amor pelo meio, exalando uma mescla de qualquer iguaria quimérica de elevado condimento provençal e cavalheiresco, que quase remanesce por milagre, posto que se interpelarmos a mancha gráfica sobre o que traz por dentro, entre capas e fólios, a resposta cai rotunda e sem margem para dúvidas: «São mulheres, senhor. Rosas de seu nome, a maioria delas, mesmo se já morreram ou prostradas repousem nas bermas da prosa, alguéns que cresceram em mim, para mim, por mim e comigo, enquanto a liberdade se reinventava e nascia para nós.» O que, ressalte-se, tanto se pode dizer acerca deste romance como de qualquer outro que tenha por background o ambiente sociopolítico português, dos finais do salazarismo, da primavera marcelista e do primeiro 1º de Maio sob os auspícios da revolução. Ou cuja data de referência se viesse dos 60 libertando quanto o permitissem as malhas do império e da raça insana, considerando que se nota deveras nele a intenção autoral de os refletir, de os lapidar, depurar e, consequentemente, espremendo-lhe os inúmeros pontos negros com que pintalgaram a história. Uma revolução sentada na varanda com um sinal (flor) na mão, confirmando a sua anuência ao encontro marcado. Qual menina que não expira nunca totalmente e se procura em cada mulher cuja inocência ficou e passou mas ficou em nós, como marca distinta de todas as paixões que imperiosas arrebatam, ferram, selam, aplicam o ferrete modelar que nos há de perseguir vida fora. 
Aliás sequência de flores, de pessoas, de sinais... Primeira Rosa, segunda Rosário, terceira: rosa. Como que a inquirir-nos, semelhando William Shakespeare, o "que há num nome? Será que isso a que chamamos rosa, deixará de ter o mesmo suave e doce aroma, com outro nome qualquer?" O que nos motiva a esperar para ver, para confirmar o talvez – de Talavera e Malos Pasos –, que faz com que a morte seja o mais bonito, o clímax da faena, o que somente poderá acontecer no final do espectáculo que ahora se recuerda pelas cinco em sombra de la tarde, já que não há nenhuma morte que não seja igualmente muitas outras. Precisamente porque sempre que alguém morre, sempre que algum companheiro perece pelo caminho, é também mais um pedacinho de nós que se apaga. Talvez Rosário; talvez Cláudia; talvez Talavera. Mas o seu verdadeiro nome até poderia ser Pandora, se houvesse quem o procurasse insistentemente... e quisesse abrir. 
E porque não? Alguém que seja todas as que não querem morrer das paixões que suscitam, que passam mas que ficam. Porque esse alguém há de ser visível nas águas do rio, da Ria – para ser mais exato –, no dia 1º de Maio, conforme conta William Faulkner, em Mayday, que é crença enraizada, segundo a qual aquele que olhar a água do rio neste dia verá nela o rosto da pessoa com quem casará e por quem se darão todos os tropeções no escuro, incluindo aqueles que já não acreditávamos ainda ser possível alguém dar, tamanha é a cegueira, considerando que a força das rotinas disso o impeçam, tão inevitavelmente quanto estas nos prolongam, mas nunca conseguimos contornar por maior que seja a nossa experiência de vida e, reforçada pelo conhecimento, esteja nela firmemente consolidada a sensatez que nos assiste. 
E quem diz rio, diz Ria, diz rio Alva, diz Alba, diz aurora, diz madrugada, enfim, diz multidão que se manifesta na rua. Pois o homem ainda continua a ser aquela mosca zumbindo sob o copo invertido das suas ilusões, que inventa verdades, histórias, romances de cavalaria, aventuras onde seja o herói absoluto, tendo a sua amada como causa e motivo único. Exactamente assim. Cruelmente assim, e conforme cada qual seja capaz de se arremessar para melhor ficar.

Joaquim Castanho

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