3.11.2010

Abrasamentos por Arrastão



"Guardado e selado num crânio humano
Fechado em cela triste e sombria
Cansado pelo tédio dos anos passados
Jaz agora um espírito adormecido.
Embalado no seu sono de morte
Pela cena insulsa do professor,
O brilho dourado da televisão,
E o constante zumbido da propaganda de imprensa
Um fantoche execra encarar a luz.
Mas a tragédia fere e mostra a verdade:
Para a vida, neste mundo, há um caminho melhor
Assim o espírito acorde para a Aurora, na luz do dia."

L. Peter

Há quem ande num desatino por temer os blogs, vociferando que estes são uma ameaça constante ao bom trato da língua, contudo, quer queiram ou não, é neles que a verdadeira resistência da cultura portuguesa, de sucumbir ameaçada sob a pata europeizante da globalização, se vai fazendo, não tanto com a intensidade desejável (e aconselhada) para tamanha empresa, mas pelo menos com a agilidade e compromisso que esta merece, sobretudo nos quinhentos do reinadio, da paródia, da ironia, sem as pitadas de cinismo com que o desespero político-partidário, qual Mírdeas fadado, transforma em caca tudo o que toca. Todavia, isto não acontece por acaso. Sucede porque à abdicação constante dos órgãos e instituições competentes, advém a espécie de inveja que acompanha quem, ao assistir à concretização de algo que estava na sua alçada, não o fez, arriscando-se assim a vê-lo feito por quem não acatou o dolce fare niente decretado, e se insurgiu contra o status quo vigente, provocando a dor de corno usual e costumeira, típica do marialvismo da impotência perante as suas Severas, que insiste em fazer finca-pé no se não queres ser minha então também não serás de mais ninguém, que alimenta o sonho e choradinho de quem estragou o que tinha, mas é lesto em arranjar bodes expiatórios para o desleixo e maus tratos a que votou as consortes. Os jornais, as editoras, as rádios, as televisões, as associações de autores, os institutos, os grémios e ministérios, correram com os autores, os cronistas, os poetas, os prosadores, os fãs da lusofonia, em favor dos inglesados da cultura, férteis em todo o tipo de asneiras literárias, mas criativos no arrecadamento dos cobres, lampeiros no inglês, pese embora incapazes de discernir entre um texto e outro as diferenças de estilo ou linguajar. Trataram a língua como se fossem empreiteiros da construção e obras públicas, medidas pelo volume dos betões edificados ou pelos quilómetros de alcatrão estendidos entre desertos idiomáticos. Deram prémios a pessoas, e por amizades ou cumplicidades justificados, em de o fazerem a obras e criações, por júris isentos, imparciais, conscientes, responsáveis e tecnicamente sofríveis. Impregnaram os discursos oficiais com a humidade modelar do burro coça o burro, engrossando o caldo aos alquevas do politicamente correcto, no regadio das confrarias e corporativismos vários, com vista a encherem a atmosfera cultural portuguesa com os coloridos famosos balões de soro (subsídios) da mediocridade bem falante e dos salamaleques próprios da falsa portugalidade, fazendo apenas o bem quando esse feito propiciasse lesar outrem. Foram exímios no a favor desde que com isso pudessem ser, demonstrassem ser, e efectivamente fossem contra alguém, sobretudo se esse alguém se estivesse nas tintas para o culto personalista que comungavam, ou não aplaudisse com exorbitância e ostensivamente o chorrilho de baboseiras com que enfeitavam os seus quotidianos, enquanto personalidades de crédito nas praças da coscuvilhice, maledicência e destilarias de fel, onde passeavam frequentemente o glamour e pedantismo, irremediavelmente anexo e consequente.
Afugentaram quem lhes podia valer, e hoje, nas correntes de escrita em que ninguém escreve, nos encontros que ninguém frequenta, das edições que ninguém compra, lamentam-se como Nise do seu estado, no jeito de dizer do Elmano Sadino, pela indiferença votada, por andarem todos mais vidrados com os blogs do quem com as suas pindéricas borradelas no almaço e pardo dos enchidos e fumados, a que dão virtudes de enriquecimento, não por os venderem, não por os comprarem e lerem, mas sim por com eles conseguirem contributos e dádivas generosas das instituições que os patrocinam por compadrio político, normalmente arregimentadas nos regionalismos e bairrismos da competitividade provinciana, que nos assola desde o império do Botas até à Europa dos inglesinhos na cultura dos luteranos papistas, xenófobos e de cobres feudais trancados em masmorras de sete portas. Incapazes de reconhecer que estão queimados, abrasados, por um incêndio que eles próprios provocaram, e obrigados a pregar num deserto que a si mesmos devem, atribuem a causa da sua inactividade à actividade que a bloguistíca vai tendo, aos leitores que vai ganhando e lhe ficam fiéis, aos momentos de debate que geram, à partilha que facilitam e à troca de ideias, valores e conhecimentos que concretizam. Moribundos, quais mortos sem sepultura, apenas aguardam o golpe de misericórdia que o futuro lhes reserva; porém, ao invés de agir e usufruir o que de melhor o presente lhes propicia, seguindo até o exemplo dos países desenvolvidos, em que o direito a aceder à Internet é um direito fundamental, como o direito à educação, à saúde, à habitação, tudo fazem para impedir que mais portugueses lhe acedam, mais famílias a desfrutem, e mais cidadãos reforcem a dignidade através da sua utilização. Enfim, continuam vítimas do seu veneno e desdém, que só quando vêem que os demais estão mal, se sentem deveras bem.
Ah, pois!

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