6.02.2009












Entrevista com Jaime Crespo

Sete perguntas de amigo para amigo com o candidato

"Apenas os que arriscam ir mais longe
podem descobrir até onde podem chegar."
T. S. Eliot

1. Sinceramente não percebo o que leva alguém a agir em esclarecido benefício de uma comunidade que quase sempre se lhe antagonizou, pôs obstáculos vários e pujantes à realização pessoal como profissional, sobretudo a favor daquelas gerações que são descendentes dos membros daquela "comunidade" cujos componentes tudo fizeram, de quanto estava ao seu alcance, para os prejudicar, para que não singrassem na vida como na profissão, mas Jaime Crespo discorda de mim, embora sejamos "amigos políticos" de longa data, que remonta às andanças para a Associação de Estudantes da Escola Secundária de S. Lourenço, em Portalegre, à militança activa na (extinta) UDP, às manifestações de solidariedade com os trabalhadores da (também extinta) Fábrica dos Lanifícios de Portalegre, da redacção e distribuição de manifestos culturais para a evolução ética no meio estudantil, da partilha de leituras e ideias, nas tertúlias de tasca como de café, onde consolidávamos e divulgávamos a solução, ou pensamento libertário, para as grandes questões sociais do nosso dia-a-dia, eis que agora o venho encontrar desobstruído e desacomodado, a candidatar-se ao Parlamento Europeu (PE), pelo RUE – Comissão Nacional de Ruptura com a União Europeia –, precisamente numa lista conjunta com o POUS – Partido Operário de Unidade Socialista –, o partido político com o qual o RUE emparceira nesta complexa descruzada das soberanias subalternizadas do Velho Continente a espairecer-se nas modas novas da democracia – mas não muito.
Ora por estas e outras razões, entre as quais saliento a coragem de pugnar por algo que preocupa a todos – senão atenda-se aos resultados de sondagens recentemente divulgadas que indicam que dois em cada três portugueses consideram que teríamos mais possibilidades de enfrentar a actual crise se não tivéssemos adoptado o Euro (€) –, chegámos à "fala", do que aqui fica a prova, e se dá dela recatado testemunho...
Jaime: tu não és propriamente um imberbe nestas bailações e contradanças, pelo que me deixa expectante a tua candidatura ao PE num alinhamento político POUS/RUE, que deve ter bastantes dificuldades em romper a barreira da indiferença nos órgãos de comunicação social montada pelos papistas e arautos do establishment partidário nacional... Portanto, será que ela pretende reiterar o sentimento colectivo de que seríamos efectivamente melhores cidadãos europeus se discutíssemos abertamente, pelo sufrágio directo e consequentes referendos, as condições e particularidades da nossa adesão, sem os constrangimentos regimentais da abdicação por carambola partidária, da nossa anuência ou rejeição perante o Tratado Constitucional Europeu (TCE), perante a evidência dessa Europa que nos não representa nem defende, por ser feita a partir de cima, manufacturada e arquitectada pelos tecelões da alta malha financeira, pelas pítias do desenvolvimento neo-liberal da aristocrática elite dos baronatos do poder, pelas negociatas irreversíveis do argumento capitalista de um modelo social falido cujos efeitos secundários são incontestavelmente conhecidos, não só por acoitarem a actual crise, dita mundial, mas que é usada como alibi para encetar ou implementar políticas, reformas, de opressão e exploração do principal sector produtivo das sociedade, os trabalhadores, os operários e assalariados de todos os países do Velho Continente? Será que o que está em causa nestas eleições para o PE, não é tanto unir os trabalhadores contra a Europa, mas sim contra uma certa e determinada Europa que propositadamente os omite das suas decisões fundamentais? Será que esta tua candidatura não vem intentar que a melhor participação política que a cidadania europeia pode ter é uma, aquela que conscientemente integra e apela para a discussão responsável da participação activa e democrática?

Jaime Crespo – Com certeza que não te estás a referir à “Comunidade” do inesquecível Luiz Pacheco, nem a nenhuma das suas pachecadas. Bem, confesso que não compreendo muito bem a 1ª frase desta tua questão. Vou entendê-la como que estejas a referir-te aos partidos políticos em geral e à geração que tomou conta da política em Portugal a seguir ao 25 de Abril em particular.
Sendo assim, dir-te-ei que estas organizações, o POUS e a RUE não são nem se encaixam nesse modelo de organização política tradicional. São, digamos, uma equipa de casados (porque separados não fazem duas equipas) à qual calhou em sorte defrontar as equipas da 1ª divisão. O treinador é cábula, não tem o curso nem percebe muito de tácticas e os jogadores faltam muito aos treinos, preferindo gastar o seu tempo pelos centros comerciais e tascas da zona.
Claro que se conhece a filiação trotskista do POUS e a sua inscrição na IV Internacional, mas que de dentro do seu beco procura abrir portas e renovar alguns debates mal concluídos na política portuguesa e encontrar uma saída para o aparente impasse em que a classe trabalhadora se encontra. A RUE aparece nessa senda de alargar o debate a pessoas de outras tendências mas que comungam algumas opiniões sobre a União Europeia e sobre a situação actual dos trabalhadores.
Admiro a tua memória vivaz e muito me apraz recordar esses velhos e saudosos tempos de Portalegre e curiosamente relembras três factos os quais cada um constituiu um marco importante no meu crescimento e na aprendizagem da vida. De todas essas memórias a que mais me marcou como lição de vida foi aquele operário da Fábrica dos Lanifícios a dizer-nos ao balcão do bar dos trabalhadores que tinham aguentado mais 1 ou 2 dias de greve devido ao comunicado que nós dois escrevemos e distribuímos à porta da fábrica solidarizando os estudantes com a luta deles. Compreendi aí que os nossos actos têm consequências e criam expectativas nas pessoas e depois de tomarmos uma certa posição não podemos sair dela frustrando essas pessoas. Com a Associação de Estudantes recordo-te que apenas partilhámos uma lista e tu integraste uma outra, e essa sim, saiu vencedora. Aí aprendi que em política amigos, amigos, política à parte, ou seja, que quando se faz política esta não se faz com amigos mas com aliados estratégicos, e foi porque compreendi isso que a nossa amizade continuou, de outro modo talvez tivesse ficado por aí e teria sido pena.
Na militância da UDP descobri o significado da palavra “estalinismo” e execrei a partir daí todas as ditaduras e todas as formas de totalitarismos morais. Definitivamente tornei-me anarquista apesar de uma boa parte daqueles anarquistas com quem contactámos na altura, excepção ao saudoso Emídio Santana, ao Zé Tavares, ao Luiz Temido e ao Ricardo, a maioria dos outros se tenham revelado uns bons pulhas que têm como exemplo maior dessa pulhice o João Freire que se serviu da Anarquia enquanto lhe deu jeito e agora se transformou num arrivista neo-liberal. E nós a colaborarmos e a vendermos com prejuízo a revista “A Ideia” para esse sacaninha. Enfim, é a vida…
Quanto ao Euro €, não passa de mais um mito que nos foi impingido e que, como costume português, engolimos sem refilar. A percepção de que a atabalhoada entrada de Portugal no € foi má para o povo foi visível logo na altura com o brutal aumento do custo de vida, mas toldada com a chegada de massivas ajudas financeiras a Lisboa e logo distribuídas e esbanjadas pelos afilhados do costume.
Vamos então às perguntas propriamente ditas que a pregação vai longa…
Ao resolver aceitar o convite formulado pelo POUS de compor a sua lista ao PE como membro da RUE, fi-lo porque estou em concordância e sintonia com as posições basilares destas duas organizações sobre a U.E., que não devemos confundir com Europa, e suas instituições. Em poucas palavras: defendemos o fim desta U. E. e a consequente dissolução das estruturas que lhe estão associadas. Ao contrário de outros que dizem que são contra as políticas da U. E. mas que mudando as políticas já seriam a favor, nós achamos que esta organização enferma de vários erros de construção, quase todos apontados por ti na pergunta, não sendo possível qualquer regeneração por dentro. Nasceu torta e não há modo de a endireitar, é para ir abaixo.
No entanto a RUE não aparece em Portugal como um fenómeno isolado, por obra e graça do divino espírito santo, ou através da acção de algum iluminado. É um movimento que aparece e começa a crescer do facto de diversos trabalhadores, de todas as áreas de actividades, de alguns dirigentes sindicais, sindicatos e organizações ou partidos políticos, porque finalmente começaram a aperceber-se que a prometida equiparação entre profissões na U.E. se está a fazer não por cima, isto é, elevando os salários e dando mais garantias e direitos aos trabalhadores dos países economicamente mais fracos e mais mal pagos, mas o contrário, o nivelamento está a ser feito por baixo, ou seja, ao abrigo das leis e do corpus legislativo comunitário, sob a máscara da livre circulação de pessoas, bens e empresas, sob o pretexto de combater o proteccionismo isolacionista dos Estados-nação e de fomentar e facilitar a livre concorrência, sob uma falsa áurea de mais liberdade, pois o que se verificou foi a transferência de trabalhadores e empresas dos países mais pobres para os países mais ricos e evoluídos em termos de direitos e garantias laborais, substituindo os trabalhadores no activo nesses países mas cumprindo a legislação laboral dos países de origem ou de recrutamento, levando ao desemprego dos trabalhadores naturais ou há muito estabelecidos nesses países, como é o caso de muitos portugueses em França e na Alemanha que estavam habituados a ter os salários iguais aos dos trabalhadores nacionais desses países, os mesmos direitos, etc. e se vêem agora substituídos por compatriotas, espanhóis, italianos pessoas da Europa de Leste, que por salários menores, trabalham mais horas e quase não têm direitos. Ora esta situação está a tornar-se explosiva em muitos locais e não pode de maneira nenhuma ser aceite de bom grado pelos trabalhadores e pelas suas organizações sindicais. Por isso temos assistido ao aumento da contestação social por quase toda a U.E., têm-se realizado manifestações enormes, como não se realizavam há décadas, o 1º de Maio deste ano foi o mais participado dos últimos anos em vários países, etc., e similarmente assiste-se também a um degradar da situação social com o aumento da violência, muitas vezes partindo de grupos provocadores, ao mesmo tempo que os órgãos de comunicação social, todos (os de grande divulgação) nas mãos do capital querem fazer-nos crer e confundir que aquilo que é o renascer da velhinha luta de classes e protestos laborais afinal não passam de manifestações xenófobas e racistas. É evidente que toda esta exposição que fiz da situação leva ao aproveitamento das extremas-direitas racistas e xenófobas, por isso todos os cuidados são poucos na apreciação dos tempos que correm. Esta é mais uma falha grave que aponto a este modelo de U.E. que é o facto de ao invés de promover o cosmopolitismo e a diversidade de culturas, tem promovido uma unicidade cultural amorfa e o ódio ao que é diferente, ao que pensa de outra maneira, ao estrangeiro. Pouco falta para termos novamente acesas as fogueiras da inquisição e os diferentes a serem obrigados a rapar o cabelo e a usar símbolos distintivos nas roupas. Ou seja, tudo o que os arautos desta U.E. nos prometeram está a sair ao contrário. Chegámos assim a uma Europa que não é mais o velho continente mas sim um (mentiroso) incontinente velho.
Perante este cenário que atinge todos os trabalhadores, inclusivamente aqueles que até há pouco se consideravam com profissões a salvo de qualquer risco, quadros altamente qualificados, pessoas com diplomas universitários e hoje se encontram desempregados ou com uma situação laboral indefinida e precária, não se pode nem se deve ficar quieto à espera de ver o que acontece, sob pena de nos acontecer o mesmo que à nêspera do Mário Henrique Leiria que ficou quieta na cama à espera de ver o que acontecia, veio de lá a velha e comeu-a.
Assim e na sequência dessas manifestações de desagrado ocorridas por toda a U.E. e até fora deste espaço, há um encontro em Paris dessas forças mobilizadas para a luta política contra este estado de coisas e é neste contexto que se dá o aparecimento da RUE e das suas duas grandes reivindicações: ruptura com a U.E. propondo-se como alternativa a união livre e solidária dos povos e nações livres europeias (e quem sabe até alargar esta união para lá da Europa) e para já, no imediato, como medida urgente e inadiável, a proibição dos despedimentos.
É meu entender que o ser humano só se completa no exercício do seu mister, seja ele qual for, escritor ou cantoneiro da Câmara.
As pessoas querem trabalho (com direitos) não querem desemprego, as pessoas querem salários dignos não querem subsídios de sobrevivência. Aliás considero a subsidiodependência tão grave como as outras dependências, alcoolismo ou toxicodependência, pois tal como estas retira a dignidade ao ser humano.
Quanto à referendagem popular de toda a tralha jurídico-social-política até agora produzida pelas diversas estruturas da U.E. não vejo qualquer interesse nesse tipo de referendos. Ficaríamos na mesma pois ser-nos-ia servida uma papinha já pronta e requentada. Depois, se mesmo assim o povo dissesse não, como aconteceu na Irlanda, os políticos grandes mestres na arte da oratória haveriam de inventar explicações de maneira a contornar a vontade do povo, repetindo o referendo até que o resultado desse sim, como vai acontecer na Irlanda, quer executando a finta de passar as decisões aos parlamentos nacionais como aconteceu agora na Polónia, que curiosamente foi quem mais resistência opôs à assinatura do Tratado de Lisboa e agora resolveu ratificar esse mesmo tratado no seu parlamento nacional, à margem do povo.
O facto é que estamos a lidar com batoteiros, é um jogo de feira viciado, ou de casino, em que se sabe que o jogador-apostador só pode ganhar até um certo ponto, a partir do qual entram os truques e a batota.
O péssimo presente não pode augurar um bom futuro, ou as pessoas se convencem que têm poder nas suas mãos nuas, limpas ou calosas, e começam a resolver a sua vidinha ou se ficam sentados à espera que um político qualquer trate do assunto por elas então estão tramadas.
Pela parte que me toca achei que o momento para agir é agora ou nunca, e por isso aí estou, numa luta desigual de um davidezinho contra um goliazão.
Finalizando, respondo-te à questão proposta de como ultrapassar a barreira mediática que apenas se interessa pelas futilidades da sociedade e que evoluiu, de certa forma, em sentido contrário ao pensamento pessoano que dizia “isso da fama é para as actrizes”. De facto nos dias que correm só existe, para o bem e para o mal, nos círculos mediáticos. Para isso é necessária grande dose de loucura, quem não se recorda do Professor Marcelo a mergulhar nas águas merdosas do Tejo(?), ou o folclore do Bloco de Esquerda e as suas causas fracturantes, ou então ter muito dinheiro, muitos milhões de euros para gastar e são gastos, basta olharmos para os outdoors um pouco expostos por todo o país, apesar da lastimável falta de imaginação e qualidade fotográfica apresentadas, ninguém duvide que aquelas coisas custam os olhos da cara, ou do traseiro, a quem os encomenda. Hoje, uma simples candidata à câmara de Nisa por um dos partidos do bloco central tem atrás de si um staff de assessores de imagem, analistas de opinião, etc. quem paga esta dinheirama? O Zé Pagode! Todos nós através dos impostos que deveriam ser canalizados para os serviços essenciais ao povo, a saúde e o ensino.
Depois está o POUS/RUE que continua a fazer as coisas com o mesmo amadorismo com que nós fizemos os nossos ainda famosos comunicados e manifestos pretensiosamente culturais e educativos nos nossos tempos de Portalegre. Agora já há uns computadores e umas impressoras mas não podemos competir com os outros tendo nós um orçamento de 720€ para fazer a campanha. O qua chateia é as pessoas estarem tão fartas destes políticos que acabam por colocar todos no mesmo saco e julgam que os nossos 720€ são uma fachada que esconde um determinado saco azul vindo não se sabe de onde…
Mas os políticos não são todos iguais nem a forma de agir e fazer política. Estamos nisto porque somos sérios e o que se pede é que as pessoas olhem para a política como um assunto demasiado sério para ser analisado com a mesma ligeireza com que se analisa o Benfica ou o Sporting. É que estão a colocar as suas vidas e o futuro dos seus filhos, do seu país, nas mãos de crápulas sem o mínimo de pudor e menos escrúpulos. Olhem bem e verifiquem quem são aqueles políticos que enriqueceram de um dia para o outro e retirem as suas ilações.
Deixem por uma vez de votar naqueles que os mídia lhes apresentam como especialistas disto e daquilo, pessoas credíveis e arrisquem votar em forças alternativas, que somos nós POUS/RUE. Ao fim e ao cabo foram os especialistas e os políticos credíveis que dirigiram o mundo à crise em que está.



2. Natural de Tolosa, uma freguesia do concelho de Nisa e Distrito de Portalegre, podias ter ficado pelo curso que tiraste no Magistério Primário de Portalegre, feito as célebres Acções de Formação Complementar da praxe, que te facultariam a licenciatura, preferiste porém aventurar-te nos orientais confins do "império da lusofonia" não só para exercer o mister profissional de professor do 1º Ciclo, como também para complementar a tua formação na Universidade de Macau, onde te licenciaste em Estudos Portugueses, na variável de ensino do Português como língua estrangeira, e que te valeu o Prémio Ho Yin, por teres sido então o melhor aluno desse curso, circunstância de reconhecido mérito a que acrescentaste, mais tarde, em 1999, precisamente em vésperas da devolução desta parte do território nacional à administração chinesa, o primeiro lugar no Concurso Literário "Macau 1999", promovido e patrocinado pelo STDM e pelo órgão de comunicação social macaense Ponto Final, exactamente com a obra de "ficção histórica" intitulada Macau, 1999, ou A Crónica da Arca Redescoberta, que nos reporta, referencia e recupera à esfera da semântica camoniana, com acento tónico n'Os Lusíadas, sugere-me que, de acordo com as coincidências cronológicas, mais ou menos de dez em dez anos qualquer coisa acontece na tua vida que a reformula e marca profunda e irremediavelmente, tal como aconteceu com o 25 de Abril, por volta dos teus dez anos, depois a ida para Macau, onde estiveste sensivelmente outros dez anitos, estadia que culminou com o já referido galardão literário, e agora, passados outros tantos dez "estivais primaveras", a tua candidatura ao PE nas listas do POUS/RUE... Ora, este número – o dez, e o digital binário 10, seu descendente – anda de mãos dadas com a amizade, com a amizade entre os indivíduos, como com as famílias, entre os iguais como entre os diferentes, nos géneros como nas espécies: será que para além dos enunciados políticos inquestionáveis que assistem a um acto de participação democrática desta natureza, há também nele, ou por ele reflectido, aquele manifesto afecto de companheirismo solidário com os sectores operários europeus, aquela amizade que mete no mesmo barco de dificuldades os trabalhadores dos 27 países da UE, e que assim se vêem respeitados na sua luta e tipologia de inclusão, numa simples e convicta candidatura do e pelo RUE?

Jaime Crespo – Pois, Tolosa, Nisa, Portalegre, Gáfete, Alpalhão, Castelo de Vide, Arez, Amieira, Comenda, etc. são locais onde ainda preservo muitos amigos e da minha revisitação, sempre que possível, o que é sempre pouco para os meus desejos. Devido à minha pitosguice não posso conduzir, então para ir visitar esses locais memoráveis estou sempre dependente de terceiros. Vou deles guardando os cheiros…
Gostaria de pertencer ao grupo dos felizardos e poder responder-te que tenho uma vida plenamente realizada porque fiz e faço aquilo que mais gosto. Mas infelizmente não é verdade, nem para mim nem para outros 95%, ou mais, dos seres humanos. Os privilegiados fazem de facto o que gostam e querem, os outros limitam-se a arranjar um emprego que assegure o dinheirito para o bife, o pão e a pinga. É o que eu faço. Digamos que a canção da minha vida é aquela do José Mário Branco, “inquietação”, se não estou em erro sobre poema da Natália Correia. Ou então “o livro do desassossego” do inevitável Pessoa.
Temos uma escolha: ou fazemos o que gostamos, como o Pacheco, mas vivemos toda a vida na pedinchice e na penúria, talvez escrevendo textos por encomenda o que também não atesta muito da liberdade e coerência do sobrevivente. Ou como eu, amouchamos, vamos vivendo com a úlcera e a depressão e de quando em vez temos uma farra de liberdade.
Só os verdadeiros génios podem realmente ser livres, ou os muito ricos…
Nesse contexto, o curso do magistério primário surgiu na minha vida como uma tábua de salvação. Na verdade os meus pais não tinham dinheiro para me enviar para a universidade, daí eu ter tentado cursar electricidade na velhinha e grandiosa Escola Industrial e Comercial de Portalegre, apesar de na altura já ter o apanascado nome de escola secundária de s. lourenço. O que aconteceu é que entre mim e a electricidade havia uma repelência mútua, ainda hoje me custa trocar uma lâmpada, daí que tenha penado uma autêntica via-sacra de três no 11º ano. E nem sequer tive direito à glória da cruz. Aparece então o magistério, o qual frequentei sem denodo nem aplicação, fui mais uma alminha anónima e anódina que por lá passou. Enfim, lá me formei com uma nota miserável que ainda hoje me envergonha.
Depois sim, os anos entre o dourado e o cinzento de Macau que se para algo serviram foi para me abrir os olhos sobre a paleta colorida de que é composto o mundo, constituí família e retomei o gosto de estudar por estudar, de fazer o que realmente gosto, mas lá está, já tinha a rede de suporte ou a almofada, a profissão de professor que me fornecia a sobrevivência.
Os prémios a que te referes têm apenas o significado de servir como compensação de ter ousado pelo menos uma vez na vida optar pelo prazer daquilo que gostamos. Rapidamente voltou tudo à cruel normalidade.
Quanto ao carácter mítico ou supersticioso do número 10, a mim nada me diz, sou materialista mas também curioso nesses aspectos menos explicitáveis da existência. Ora, pelas tuas contas daqui por 10 anos serei finalmente eurodeputado, apesar de preferir antes o adjectivo de euromilionário…
De facto o objectivo maior da aceitação em fazer esta campanha junto com a RUE e o POUS é ao mesmo tempo uma necessidade cívica e um imperativo de solidariedade e unidade com aqueles, que afinal como eu, que de seu apenas têm a sua força e a sua inteligência para dispor ao serviço de outros: a classe trabalhadora!
Neste momento existe uma urgência de todos os trabalhadores retomarem a luta, uma luta livre de tutelas e a reorganizarem em muitos casos as suas organizações por excelência, os sindicatos, os quais necessitam ser limpos daqueles dirigentes aburguesados aos lugares e que mais não têm feito que empenhar a palavra e o futuro daqueles que deviam representar nas mãos dos dirigentes da burguesia e do capital, através dos pactos de estabilidade ou da concertação social mais não têm feito que resignar da luta, retirar benefícios pessoais e abandonar os trabalhadores ao seu destino, sem rebuços em lhes mentir quando afinal toda a gente vê que de acordo em acordo os seus direitos vão sendo cada vez mais reduzidos e o desemprego é hoje o horizonte mais certo no amanhã de cada um seja trabalhador do sector privado ou do sector público.
Ou seja, esta deixou de ser uma luta dos trabalhadores assalariados e com salários mais baixos para se tornar a luta de todos os que trabalham por um salário, sejam operários, professores, polícias, enfermeiros ou médicos. A precariedade, a falta de segurança no emprego e o trabalho sem direitos é hoje um problema que atravessa transversalmente toda a sociedade, diz respeito a todos e deixou de ser uma acção romântica do intelectual que se solidariza com os pobrezinhos: passou também a ser um problema inerente à vida desse intelectual.
Isto numa altura em que milhões por toda a União Europeia, para não falar no resto do mundo, até desse pouco que tinham, a força do seu trabalho, dela se viram privados. Como já referi, o ser humano, é minha convicção que se realiza na sua plenitude enquanto adulto ao desenvolver uma actividade, ao ter um emprego, mesmo que não goste muito daquilo que faz, sente-se útil e realizado dentro da sociedade ao desempenhar uma função. Ao privarem uma pessoa do seu trabalho, não é só o emprego que lhe estão a retirar, estão a retirar-lhe toda a sua dignidade. As pessoas querem empregos e salários justos, não querem sobreviver de subsídios. Aliás o subsídio rapidamente leva a uma nova dependência, a subsidiodependência, limbo no qual muitos portugueses vivem desde a entrada na união europeia. Esta nova dependência vem criar problemas novos quanto a mim muito mais graves que as velhas dependências, o álcool ou a droga, pois como elas cria um homem sem vontade, amorfo, indo mais longe roubando o próprio instinto de pertença a um grupo, empurra-o de uma forma cruel e definitiva para a solidão da miséria.
Daí os nossos princípios basilares de acção política: proibição dos despedimentos e ruptura com a união europeia.
Sobre o 1º muita gente nos interroga e como se mantêm empresas falidas em funcionamento? Havendo uma nova política em que o controlo dessas empresas passará para as comissões de trabalhadores, uma nova política em que o Estado terá que ter o controlo efectivo das actividades básicas e essenciais da economia, a banca, o sector energético, etc., sectores geradores de riqueza para que se possam manter os postos de trabalho e os serviços públicos essenciais a toda a população. Enfim, um Estado que possa garantir a paz, o pão, a liberdade, a educação, a saúde, a justiça, etc. Um Estado que disponibilize aos pobres o dinheiro que atirou aos bolsos dos banqueiros e dos especuladores da bolsa. Um Estado que garanta e gaste dinheiro em salários de pessoas que produzem e não em subsídios de desemprego para manter as pessoas sem nada fazer e a aguardar uma morte lenta. Um Estado que defenda e proteja os nossos sectores produtivos e isso só pode ser feito executando a segunda medida, ruptura e saída da união europeia. Aqui muitos questionam-nos que o que propomos é afinal um regresso ao “orgulhosamente sós”. Nada mais falso e longe da realidade, o que propomos é uma união livre e solidária de povos soberanos e livres, propomos uma economia da cooperação em contrapartida ao actual modelo económico da concorrência. Propomos uma Europa de iguais e não esta em que os ricos, Alemanha, França e Inglaterra impõem os seus interesses aos pequenos e pobres.
Estas são as nossas propostas políticas e que diferem e muito das propostas de todos os outros partidos, de esquerda ou direita, porque propomos o fim desta união que apenas serve os interesses do grande capital e ao contrário da extrema-direita propomos estados de povos soberanos mas solidários não o racismo nem a xenofobia, mas o cosmopolitismo, a multicultaridade e a liberdade.
Ora esta luta não é dos portugueses, é como tu muito bem referes, comum aos povos trabalhadores dos 27 países que compõem a actual União, atrevo-me mesmo a dizer que é uma luta que não se pode restringir ao espaço da actual União Europeia, nem sequer da Europa. É uma luta que extravasa todas as fronteiras. Os capitalistas não quiseram uma economia globalizada para melhor trafulharem? Então vamos servir-lhes uma luta de classes também ela global. Nunca a frase de Marx “trabalhadores de todo o mundo, uni-vos!” talvez tenha estado tão actual.


3. Enrico Malatesta (EM) enunciou a sociedade acrática assente em três pilares fundamentais: a liberdade, o bem-estar e o amor. E creio que não existe ninguém no mundo capaz de contestar quão importantes estes valores são na superintendência da felicidade individual como na colectiva. Portanto, para EM, a ordem social testemunhada pela estrutura confederativa (organizada sucessivamente por pessoas, associações, federações e confederações) seria o produto, a capacidade de multiplicação desses três factores, aliás contemplados pela visão doutrinária anarquista, muitos mais do que simples variáveis independentes do processo analítico e filosófico, mas itens orientadores da conduta e acção sócio-política, enquanto unidade curricular que fecundaria os demais saberes moleculares ao indivíduo como à sociedade, invariavelmente aberta e evolutiva, o que, grosso modo, faria activar e geraria uma dinâmica consolidadora positiva, pois quanto maior fosse grau de bem-estar individual, grupo sócio-profissional ou comunidade, então também melhor seria o seu nível de Liberdade, e quanto mais esclarecidos fossem estes dois patamares de franqueza humana, maior seriam as capacidades afectivas e de confiança entre os seres humanos e as suas instituições, nomeadamente as que espelham o poder tutelar da confederação UE, predispondo-o assim a amar as coisas e as ideias, a respeitar a integridade e a dignidade da natureza como das artes, dos animais, plantas, rios, oceanos, paisagens, territórios e culturas, de forma superlativa e sustentável. Enfim, se o ciclo existencial for totalmente virado para a felicidade humana dentro de um universo satisfatoriamente harmonioso e feliz, a globalização como a Europa Ideal deixariam de ser apenas uma utopia para se transfigurarem numa realidade inevitável, tão-só e apenas numa tosca, rústica e irrefutável realidade, onde viver estaria sempre para lá de qualquer luta de classes, qualquer desempenho social de afirmação étnica ou nacional, conduta de relativa qualidade local, mas simplesmente mais um nó na rede da malha planetária que nos sustém e suporta num cosmos adverso e pertinaz...
E o que te pergunto é o seguinte: o que achas que para EM, se actualmente ainda estivesse entre nós, fosse um cidadão europeu vivinho da costa e a debitar o seu pensamento activo, teria mais valor estratégico na edificação da Europa democrática da actualidade – a acção directa, a actividade de rua, ou o subtil e constante cultivo da liberdade? A configuração e combate pela formatação de uma sociedade, digamos europeia, construtivamente mais justa e igualitária, mais harmoniosa e consciente, mais emancipada e associativista, mais sustentável e preservadora do ecossistema, e como alguns tentam rotular infamemente mais radical ou, ao contrário, mais ordeira e corrupta, mais despesista e patrioteira, mais xenófoba e corporativista, mais financeira e elitista, mais secretista e assimétrica, mais opressiva e fechada? Aliás, se foram os moderados populares liberais da indústria automóvel e petrolífera, betuminosa e cimenteira, bancária e consumista, exploradora e destrutiva do meio ambiente, que nos lixaram o presente e comprometeram o futuro, porque é que hão-se ser eles a denominar-se conservadores e nós, os que tentamos limpar a merda que eles fizeram, os extremistas e radicais? A sustentabilidade da espécie humana alcança-se melhor por quem defende, pratica e cultiva a liberdade ou, ao invés, por quem a decepa, a amputa e denigre, por quem oprime e explora o seu semelhante, ou por quem o incentiva a libertar-se da escravatura ao bloco central da sapiência embusteira e farisaica?

Jaime Crespo – Curioso lembrares-te do Malatesta, ele que foi um dos meus heróis de juventude. Talvez por encarnar um pouco de Corto Maltese, Sandokan, Marco Polo, Simon Bolivar, entre outros. Um misto de filósofo e aventureiro.
Não consigo aventurar-me a imaginar quais seriam as suas posições caso vivesse hoje. Como era um homem inteligente com certeza que actualizaria o seu pensamento doutrinário. No entanto nada encontro no seu ideário que o levasse a uma união europeia como esta. Relembremos que contra muitos dos seus companheiros, em nome do seu internacionalismo, recusou apoiar as forças aliadas durante a 1ª guerra mundial mantendo-se quase orgulhosamente só nessa posição de princípio. Portanto sem futurologias é de crer que o seu pensamento conduziria a uma posição parecida com a da RUE/POUS de ruptura com a União Europeia da competitividade e a favor da solidariedade e cooperação entre os povos.
Acho imensa piada quando me falam de políticas, partidos e políticos credíveis. Ora quando se fala dessa gente credível, fala-se de Barroso, Leite, Sócrates, etc. do PS e do PSD, das políticas que nos conduziram ao actual estado de crise. É isto o ser credível? Vou ali e já venho. No entanto não devemos apontar apenas o dedo àqueles que no bloco central têm aproveitado para se irem governando e encaminhando as suas vidas enriquecendo o seu currículo e sobretudo as suas contas bancárias. Há que chamar a contas todos aqueles que em nome dos trabalhadores, PCP, Bloco de Esquerda, centrais sindicais, tem aproveitado os lugares que ocupam no sistema e a eles se tem adaptado perfeitamente, esquecendo os seus propósitos iniciais. Se hoje os trabalhadores estão na situação em que estão muito podem agradecer a estes partidos e sindicatos que permaneceram impávidos e serenos, sem mexer uma palha em defesa daqueles que lhes concederam os votos e confiança.
Falas muito bem nos três pilares fundamentais: a liberdade, o bem-estar e o amor, enunciados por Malatesta, mas sem emprego estável, salário justo e determinado número de direitos e garantias como sejam a saúde, a educação, a justiça… enfim, na precaridade dos tempos que correm, sem que o indivíduo ao deitar saiba que situação o aguarda ao acordar, esses pilares passam a ser o medo, a subjugação e a intranquilidade. Nestas circunstâncias ninguém consegue atingir a decantada liberdade.
Citando Lenine “ou se pensa pela própria cabeça ou se segue a cabeça de quam manda em nós”. Esta é a situação actual, tal qual a vejo.
Mas retomando Enrico Malatesta e para terminar esta resposta com ele, os três pilares fundamentais por ele enunciado: liberdade, bem-estar e amor como eram conseguidos? 1º através de pequenas redes ou núcleos criadas e controladas pelos trabalhadores quer nos seus locais de trabalho quer nos seus bairros, redes que se iriam alargando de uma forma piramidal de baixo para o topo. Ora isto é exactamente o contrário de como a actual União Europeia foi construída e é governada: de um topo de sábios ou privilegiados num sentido descendente, até às bases ignaras e incapazes de decidir as suas vidas. É não só o contrário das propostas de Malatesta como a negação de todo e qualquer princípio democrático.


4. Recorre-se frequentemente à ideia de que esta crise económica e financeira foi consequência de erros humanos, carências de escrúpulo, falhas éticas, faltas de fiscalização e inoperante actividade reguladora, quer dizer, incompetência e desleixo de tutela e supervisionamento de quem tinha institucionalmente competência e obrigação de executar, fiscalizar e tutelar os meandros da economia e alta finança. Diz-se, à laia de quem sacode a água do seu capote, que no primeiro quartel do século passado também houve idêntica tramontana, que isto das crises vão e vêm como às marés, e que temos não de as evitar mas de arranjar maneira, não de lhes sobreviver, mas igualmente de as aproveitar para garantir um pé-de-meia substancial de forma a enriquecer quem de porfia e manha menos se acanha. Criam-se PINs prà'qui, QRENs prà'li, leis de bases e livros brancos pra isto e prà'quilo, códigos laborais e penais de meter dó e que só servem para escurecer a esperança na qualidade de vida e dum futuro melhor, a quem cai na patetice de ouvir os discursos e assistir às apresentações de planos e estratégias de desenvolvimento, que o desemprego é uma chaga social, embora se esqueça que ele é a consequência directa do cancro político e parlamentar que quotidianamente alimentamos com os impostos e sufrágios, mas ninguém se lembra que o que está verdadeiramente em causa não é só a resolução da crise actual, mas também a evitação de qualquer outra crise igual, nas causas como nas consequências, no futuro, seja ele próximo como longínquo! Que à maioria dos políticos do establishment isso seja de somenos, porque lhes interessa, pois lhe garantem a utilidade social típica do quanto-pior-melhor, até é compreensível; agora, que aos da outra banda, por oposição extremista também denominados, isso não aquente nem arrefente, é que é de estranhar, uma vez que pouco têm perder além de arriscar a perder o nada que têm. Portanto, como é que assistindo ao que assistimos, e havendo institutos, fundações, tribunais, ministérios, regulamentos e relatórios para tudo e alguma coisa sem valor nenhum, não há, quer a título europeu como nacional, aquilo que pode, a talho de coice, denominar-se o Instituto da Sustentabilidade, por cujo âmbito e competência, estivesse a cargo o estudo e avaliação de sustentabilidade geral (económica, social, ambiental, financeira, cultural, administrativa, estrutural, conjuntural, etc.), que filtrasse todas as iniciativas, programas, projectos, políticas emitidas pelos poderes, governos e demais órgãos de soberania, empresas e grupos empreendedoristas, que tivessem influência ou condicionassem a vida e evolução das sociedades e países? Se algum dos candidatos ao PE pela lista do POUS/RUE for eleito, estará ele, ou ela, disponível para pugnar pelas directivas e legislação europeia que facilitem e obriguem a criação de tal Instituto da Sustentabilidade? Estás sensibilizado e comprometido como futuro nacional, europeu e planetário a ponto de batalhar pela sua concretização?

Jaime Crespo – Nas questões que a partir de agora me colocas, relacionadas com problemas ambientais e do necessário equilíbrio entre espécies de forma a preservar a vida, questões do foro ecológico, digamos assim, as respostas que te concedo apenas me vinculam a mim, não ao POUS nem à RUE, pois sinceramente nem sei quais as suas posições sobre estes assuntos. Posto desta forma o caso, passemos pois ao que interessa. As explicações que nos são servidas em écrans doirados, por “comentadores credíveis”, sobre a actual crise, com algumas, poucas, nuances, são as mesmas que o PCP difundiu para explicar o desastre do comunismo no Leste europeu e com dimensões humanas muito mais graves no Vietname, China e Cuba quando os ditos regimes comunistas por lá também soçobrarem. No Vietname e Camboja já se conhece a enorme dimensão da tragédia, mas como ficam lá longe das nossas vistas ninguém liga.
O erro é não só humano mas sobretudo de sistema, temos um sistema que não funciona ou funciona mal, há que ter a coragem de o substituir por outro.
Direi que propositadamente, ou não, foi deixado crescer um sistema dentro do sistema, temos o sistema capitalista cujo fim é explorar recursos e fazer, para si riqueza, e deixou que se desenvolvesse dentro dele uma espécie de cancro, motivado pela ganância e pelo lucro fácil e que já não está em si mesmo preocupado com a exploração de recursos mas inventar falsos recursos, o que agora chamam de fundos tóxicos, com o fito de enriquecer fabulosamente no menor espaço de tempo possível e depois quiçá desaparecer, ou se o ego fosse muito grande adquirir e pavonear-se com qualquer colecção de obras de arte de gosto mais ou menos duvidoso, onde cabe tudo. Todo este sistema paralelo funcionava perfeitamente dentro do, digamos, sistema “normal” capitalista das engenharias financeiras e investimento de capitais em bolsa. A diferença é que antes esses capitais eram investidos em empresas conhecidas de todos e os dividendos obtidos conforme o desempenho dessa mesma empresa. Ora no caso agora em apreço tudo era fictício, era tudo uma descomunal burla, permitida pelos próprios governos que estão metidos neste lamaçal até às orelhas. Ao pé destes meninos o saudoso Alves dos Reis ou a Dona Branca seriam meninos de coro e com certeza mais dois aldrabões canonizadas pelo Papa.
Tal como nos tempos do colectivismo comunista quem se arriscasse a opinar de modo diferente do estabelecido era socialmente condenado, isto quando não o era judicialmente, tornava-se num ser inexistente.
Também hoje, em torno da ideia de União Europeia foi criado um mito tal e uma tamanha unanimidade de pensamento que leva os poderes a tentarem calar e a marginalizar quem pensa de maneira diferente.
É também contra este unanimismo que me candidato.
Como já revelei as nossas grandes prioridades prendem-se com estes dois problemas basilares: emprego com direitos para todos e saída da união europeia. Sem estes dois problemas resolvidos é inútil tentar resolver seja mais aquilo que for.
Também por aí a nossa lista pretende marcar a diferença, ao contrário de fornecermos um cardápio para todos os gostos, dos velhos aos jovens, para homens e para mulheres, para nacionais e para imigrantes, etc. de promessas que nunca serão cumpridas, o nosso compromisso com o eleitorado é batalhar por estes dois pontos. Resolvidos estes, então vamos ao resto.
Existem como é óbvio preocupações com a preservação do meio ambiente e com as questões que a sustentabilidade levanta. É óbvio que se não conseguirmos um planeta sustentável tudo o resto é desnecessário pois não há vida para lá desse enorme lá.
Como muito bem referes fazem-se leis para isto, para aquilo mas que além de agravarem os problemas de quem já vive rodeado deles nada mais fazem ou resolvem.
Por outro lado criam-se grupos de trabalho e comissões de sábios para isto e mais aquilo que também não resolvem puto de problema nenhum.
Utilizando o que eles chamam de mecenato inventam-se ONG nomeadamente na área do ambiente e da ecologia mas que se formos seguir o rasto aos dinheirinhos e subsídios que elas recebem verificaremos que ou estão dependentes dos governos ou pior ainda das multinacionais, o que desde logo lhes retira qualquer hipótese de independência e em pouco tempo a ecologia e o ambiente deixa de ser a prioridade deles, apesar de continuarem por ele a fazer propaganda, mas valores € mais altos se alevantam.
Se a criação de um Instituto da Sustentabilidade, e julgo que terá neste campo que ser algo como “nações unidas” do ambiente, com as virtudes desta retirando-lhe os vícios, se for composto por pessoas reputadas nas suas áreas e que tenham dívidas apenas para com a ciência e o saber, se esse Instituto se formar de uma maneira clara e limpa com fundos também claros e limpos de modo a garantir o seu funcionamento de forma independente de países e de interesses económicos e se permitir que a sua prática se reflicta apenas e só na defesa da vida e na melhoria das condições ambientais em que todos vivemos, não tenho dúvidas em dar a minha palavra de que estarei na linha da frente para defender não só a sua criação mas a necessidade urgente de um organismo desse tipo funcionar.
Para a criação de mais um sorvedouro de dinheiros públicos com medidas a pedido e controlado ou pelos políticos ou pelas multinacionais, não, para esse peditório já dei.
Ainda, os sistemas económicos até agora experienciados, a saber: o capitalismo de estado, travestido de socialismo, aplicado sobretudo na URSS e países seus satélites e na China; ou o capitalismo propriamente dito, o capitalismo individual e liberal que está agora em moda de magazine um pouco por todo o mundo, aquele capitalismo que advoga o "milagre americano” em que qualquer um pode ser qualquer coisa, tudo o que queira, desde que tenha iniciariva empresarial, presume-se que boas iniciativas e melhores informações sobre as oscilações bolsistas. Ambos estes sistemas políticos não servem a um Homem ser humano na sua realização plena enquanto ser natural. Essa sustentabilidade de que falas é absolutamente impossível nos actuais modelos políticos que se baseiam precisamente no seu contrário, a insustentabilidade.
A política do lucro, do lucro quanto mais fácil e num menor espaço de tempo é a bússola orientadora dos actuais modelos económicos que levam a uma rápida e por vezes irreversível degradação do meio ambiente.
Repara, quando agora os maiores empresários defendem a jornada de trabalho sem limites, trabalho aos sábados e domingos, onde fica por exemplo a sustentabilidade familiar sustentáculo da sociedade humana?
Acho muito bem e darei o melhor de mim na defesa do “Instituto da Sustentabilidade”, mas para isso são necessários novos rumos, trilhar novos caminhos para a economia, encontrar soluções em que o lucro fácil não seja a solução.
África constitui talvez hoje o melhor exemplo de tudo o que não deve ser feito, recursos naturais a saque, muitos dos quais de um modo irrecuperável ou que demorará muitos anos a recuperar os estragos, um povo mantido em miséria extrema, predisposto a tudo, inclusivamente matar, para garantir a própria sobrevivência.
Infelizmente é este o nosso mundo. Por algum lado teremos de começar mas sem uma verdadeira alteração de políticas não há Instituto que nos valha. Repara que muitas vezes as “boazinhas” ONG, cheias de boas intenções, tal como delas está o Inferno cheio, ao prestarem as suas migalhas de ajuda aos povos miseráveis de África, da Ásia ou América Latina, mais não fazem, ainda que de forma inconsciente o perpetuar de situações de exploração e subdesenvolvimento humano.
Instituto para a Sustentabilidade, força, vamos a ele mas para trabalhar sem equívocos e alterar o que de facto tem de ser mudado.
Quanto à eleição de um deputado, se bem que remotamente hipotético, está em discussão no seio da lista qual será a sua acção, se ocupa o lugar e até se manteremos a candidatura até às urnas, é ma discussão em aberto.
Depois essa eleição não me preocupa minimamente porque luto por convicções, tal como os meus camaradas da lista, dentro ou fora do parlamento são essas convicções que nos movem, ainda que apenas lutássemos contra moinhos de vento, essa luta é imprescindível.
Um Observatório da Sustentabilidade, sim! Mas num contexto limpo, não o destes políticos nepóticos. A minha ideia é que esse Observatório poderá e deverá ser criado e gerido por Universidades e sábios de prestígio dentro dessa área, mas sustentado, volto a repetir por políticas limpas e essas políticas limpas só se conseguem com políticos também eles limpos, ou seja, nenhum dos actuais dirigentes europeus.

5. O gagaísmo civilizacional é aquela corrente, teoria de vida e atitude sócio-cognitiva que defende que o velhinho é que é bom, eivada pelo cultura do lamechismo, instituída pela estética da tradição do arroto clássico, disseminada pela educação do (as)sim/não maniqueísta (fortes/fracos, bonitos/feios, ricos/pobres, bons/maus, brancos/pretos, inteligentes/burros, notas positivas/notas negativas, etc., etc.) e engordada pelo efeito primário do sempre assim foi, sempre assim há-de ser, que põe os que pensam por si no índex dos terrorismos e marginalidades, e arrola os copistas da enciclopédia da asneira na lista dos doutorandos premiáveis sob tutela e magistério artístico e intelectual do diletantismo saloio endinheirado – e arredores –, que subscreve a democracia como um sistema perfeito desde que a participação individual e colectiva se esgote no voto e se alicerce na representatividade corporativista. Porém, eu não acredito, ou por outra, oponho-me deverasmente a acreditar que a competência e responsabilidade sócio-política do indivíduo democrata se limite ao bandeirismo tachista, além do que considero inevitável que a sociedade portuguesa só terá significação e respeitabilidade aos níveis europeu como global, se for composta por pessoas conscientes e emancipadas, livres e capazes de discernir por si mesmas a diferença entre cidadania democrática e carneirismo regimental, sendo para isso necessário haver uma educação e cultura combativa dos criancismos, ao contrário daquela que tem sido fomentada pelas directivas sistémicas modelares e programáticas ministeriais da escola pública que tem, em matéria formativa do cidadão e da portugalidade, assentado o seu esforço e financiamento no insistente plano estratégico da hipervalorização dos saberes fazer e saberes aprender/ensinar, em detrimento intencional do conhecimento ético, dos saberes estar e saberes ser, que são igualmente saberes fundamentais de uma sociedade que vê a escolaridade contínua e para toda a vida, não como um descarado placebo estatístico de novas oportunidades do desenrasca e do xicoespertismo, mas sim como uma atitude de adaptação humana às necessidades do seu tempo, condições ambientais e exigências conjunturais económicas e geopolíticas. Portanto, acho estranho que não sejam contemplados nos parâmetros de avaliação educativa e académica a actividade extracurricular dos alunos que se preocupam com o Estado social e integram grupos de intervenção civil, associações de bombeiros e de doadores de sangue, de voluntariado gerontológico, ambiental, paisagístico, artístico, etnográfico, de vigilância florestal, de divulgação de boas práticas sanitárias, alimentares, desportivas, de combate à iletracia, de auxílio burocrático e administrativo às populações interiores, e por aí fora, não só não valorizando a responsabilidade e maturidade sociais, como ao invés, penalizando pelo método de avaliação por testes e cumprimento de papagueação dos conteúdos ou itens programáticos da unidade curricular, prejudicando-os invariavelmente pois é certo e sabido que o "marrão" não faz outra coisa qualquer, para não prejudicar o seu nível de "obediência cognitiva e intelectual". Tem o RUE alguma proposta para alterar o actual status quo educativo e cultural europeu? Pedro Ramus, fez uma revolução cultural europeia com a introdução do livro enquanto instrumento didáctico e pedagógico por excelência... Está o POUS/RUE disposto a pugnar no PE para que esse papel seja agora transferido para os computadores pessoais, do género Magalhães ou doutro formato parecido,incluindo as versões chinesas dos 130 e 180 €, uma vez que são menos dispendiosos em termos de recursos naturais e gasto de CO2, menos prejudicais à saúde e menos pesados para os alunos, como mais económicos os manuais electrónicos para as famílias do que os em suporte papel? Quer a classe docente portuguesa melhorar a educação e suas consequências sociais ou só a sua remuneração? Está o RUE disposto a cercear o gagaísmo local, regional, nacional e europeu ou, pelo contrário, contentar-se-ão os seus deputados a serem apenas mais oposição à Europa dentro da Europa como fazem os partidos das grandes famílias ideológicas e demais movimentos europeus quando não têm as rédeas do poder em suas mãos? Combater o elitismo europeu não passa também por alterar o modus operandi educativo e sistemático do ensino nacional ou comunitário?

Jaime Crespo – Ora todo esse gagaísmo de que falas corresponde a todas as lutas que embora timidamente travámos na Portalegre da nossa infância. Tal como nessa altura continuo fiel a essas lutas. Tal como nem tudo o que é velho, nem todos os clássicos são maus também há por aí muita ideia travestida de nova e que de novo nada tem e outras que mesmo sendo novas nada valem. Portando temos que ter os sentidos bem afinados para podermos aferir a cada momento. Depois também como referes o mundo não é maniqueísta, ou não deve ser e sobretudo em arte ou nas ciências humanas em que apesar de tudo os factores estéticos e subjectivos têm a sua importância, é mais importante a multiplicidade que a unanimidade.
A RUE está com os professores na defesa da Escola Pública, de qualidade e para todos, ao contrário deste governo apoiado por comentadores acoitados nos diversos órgãos de comunicação social que pretendem destruir essa escola e criar boas escolas privadas para quem tem dinheiro e deixar aos pobres uma escola pública degradada e sem qualidade.
A Escola Pública de que falo é aquela que tem lugar para todos e onde todos se possam sentir felizes, uma escola em que a meta da excelência seja ditada pelas condições individuais de cada jovem ou criança e não pelas competências uniformizadas do ministério da educação.
Os professores como todos os seres humanos também são pessoas de hábitos e como é normal tendem a desconfiar e a rejeitar o que lhes muda as rotinas de forma radical como seja a introdução das novas tecnologias no ensino.
Mas o mal-estar instalado na educação em Portugal vai muito mais longe que essa matéria. Esse mal-estar vai contra aqueles que roubam a dignidade às pessoas e as querem reduzir a meros executantes de políticas orientadas e determinadas pelos nomeados chefes. Nenhum sistema de ensino poderá sobreviver com professores acéfalos. Mais que pedagogia (ainda que a não possa dispensar) um professor tem que ter conhecimentos e tem que ser uma pessoa criticamente activa. Esta conversa levar-nos-ia à formação e selecção de professores mas isso é outra conversa.
Tal como já falei na resposta que dei sobre o ambiente, também aqui, na área da educação, há prioridades e etapas a serem cumpridas para não darmos com os burros na água, aliás coisa que está muito perto de acontecer.
Os portugueses estão infelizmente muito formatados na sua maneira de pensar pelo futebol, e se sobre uns gajos a darem uns pontapés na bola é fácil opinar o problema é que transportam essa facilidade em opinar para todas as outras áreas e então todos opinam sem procurar antes terem conhecimento de causa sobre o que opinam.
Ora, num país em que talvez 5% das escolas do 1º ciclo têm acessos para crianças que se deslocam em cadeiras de rodas, o estarmos a pedir já a substituição dos velhinhos manuais por “magalhães” é uma loucura eleitoralista e que no futuro o país vai pagar caro.
Quero ser claro e dizer, eu que estou a falar num país em que a maioria das escolas não está preparada para receber as suas crianças e jovens. Frio de Inverno calor insuportável no Verão, quadros em que o giz muito dificilmente escreve, técnicos de terapias diversas fazem falta mas não trabalham nas escolas, estão desempregados ou trabalham como caixas nos supermercados do eng. Belmiro ganhando o ordenado mínimo, psicólogos, terapeutas da fala, técnicos de motricidade, técnicos de linguagem gestual e de escrita braille, técnicos de nutrição, etc. são ainda um mito na maioria das escolas portuguesas.
Há que dotar as escolas destas condições básicas que apontei (e de outras que eventualmente me tenham escapado) e depois então sim, vamos avançar para as novas tecnologias e para os computadores pessoais, contra os quais nada tenho e a partir de amanhã iniciarei trabalho no “magalhães” com os meus alunos. Já que os pais e o país gastou uma fortuna para ajudar uns amigos do 1º ministro a safarem as suas empresas, enfim, do mal o menos, vamos aproveitar aquilo que pudermos para a aprendizagem e desenvolvimento dos alunos.
Uma escola pública nos termos que eu e a RUE defende, de qualidade e para todos e em que são as condições individuais das crianças e jovens a ditar a excelência, é claro que se trata de uma escola perigosa para o elitismo e que trás em si o germe destruidor de uma sociedade verdadeiramente democrática.
Apesar de tudo isso e como o “Magalhães” existe, como técnico do ensino não o vou desperdiçar e aos poucos estou a descobrir com os meus alunos as melhores práticas que dele podemos tirar no interesse do desenvolvimento cognitivo, cultural, organizativo e até lúdico das crianças. É uma mais-valia que nunca poderá substituir aquelas falhas graves que te apontei anteriormente mas que terá com toda a certeza um papel importante no desenvolvimento da escola pública em Portugal e sobretudo ao dotar dos mesmos meios crianças de classes sociais e proveniências diferentes, ajudando pelo menos a atenuar algumas diferenças e iniciando alguns passos ainda tímidos no aniquilamento das chamadas elites.
Tudo isto nunca ganhará sentido se não concretizarmos redes de apoio às famílias disfuncionais permitindo que as crianças cresçam e sejam felizes junto dos seus progenitores e que não sejam institucionalizadas, conhecendo bem cedo as amarguras do abandono e da solidão.
Sei que o mundo não é um arco-íris de felicidade e o paraíso, se existe em algum lugar, será na literatura que nos permite todos os sonhos, a realidade é bem dura, mas é também por aí que teremos que enveredar novos rumos ajudando indivíduos marginais a inserirem-se na sociedade e a ajudar também na sustentabilidade que” todos” procuramos e desejamos.

6. A violência, quer ela se manifeste em gangs de subúrbio, entre e pelas "matilhas" de bairro, entre géneros, famílias, etnias, ideologias, clubes, rua contra rua, bandas ou margens contra bandas e margens, corporação contra corporação, sociedades contra sociedades, entre grupos de interesses opostos, sob antagonismos religiosos, económicos, culturais, partidários, de teoria de vida, biológicos ou personalistas, é aquela atitude social que reinsere a agressividade pessoal no plano da funcionalidade argumentativa, e portanto politicamente evitável desde que os políticos nacionais e europeus não recorram a ela frequentemente e ultrapassem a fase egocêntrica do seu desenvolvimento humano, se abstraiam do medo criancista do outro e executem, ao invés de apenas subscreverem e legislarem através de cópia e arremedo de imitação, as directivas das Nações Unidas (ONU), para aplicação dos Direitos Humanos, e não só contemplá-los cada país europeu na restrita redacção das suas Constituições fundamentais, enquanto modelo de referência, mas sim criando os organismos vocacionados para a sua implementação geral e local, estudo, análise, avaliação, promoção de conteúdos, divulgação e publicação de resultados e níveis, ou graus de satisfação, realidade e défice, aconselhamento nas governâncias nacionais e regionais, como também na fiscalização e mediação entre veículos e contentores de violências: organismo esse que funcionaria como um estruturado e estruturante observatório de reportagem e previsão de clima de violência multinacional e continental, tal como já sucedem nos planos do mercado e da economia, da Bolsa e supervisão financeira ou bancária, com Banco Central Europeu e restantes Bancos Nacionais, bem como na meteorologia, digamos, que se manteria inequivocamente atento ao fenómeno, agindo em conformidade com o seu estado nos Estados e evolução, na UE, de per si ou nas relações consequentes à sua natureza multiétnica e plurinacional. Sobretudo porque em matéria de violência a reacção é sempre pior que a acção, a emenda pior que o soneto, quer nos cinjamos à esfera do pessoal como à do colectivo, não nos restringindo apenas a combatê-la em nome da ordem e segurança, mas igualmente a evitá-la por métodos científicos e políticos, muitíssimo distantes nos conteúdos como desarticulados nas estratégias, espalhados à toa pelos diferentes planos nacionais e tão-só e unicamente relatados pelos RSI (Relatórios de Segurança Interna) que somente informam do que aconteceu depois de ter acontecido, que tal como o arrependimento só o é deveras quando antecede o acto, e não depois de o ter consumado, se de índole criminosa for, atentando assim nas causas, motivos, variantes independentes, contornos particulares e característica de modelo e evolução, de forma consciente, continuada, precisa e responsável, antes que essa violência seja detonada e onde quer que a hipótese dela ocorra.
Este Observatório Europeu da Violência (OV), cujo âmbito e composição seriam duplamente europeus e nacionais, formando uma estrutura em rede com o centro nevrálgico na intercepção entre o PE e o CE (Comissão/Conselho Europeu), não se resumiria à reunião de porcentagens iguais destas duas instituições, como de organismos universitários, judiciais e científicos cimeiros e nacionais, de equivalência aos órgãos de soberania, como das forças de segurança, entidades judiciárias, universitárias e de investigação e ciência.
Ora, se confrontado com a efectiva eleição dos candidatos do RUE para o PE, estarias resolvido e empenhado a levar por diante a aprovação e concretização deste OV, mobilizando as diferentes sensibilidades parlamentares não só para o debate da proposta, mas também para encontrar o consenso necessário à sua prossecução concreta, e viabilidade? O que é mais racional, sustentável, económico, humano e legítimo: é arrear nos insurrectos desordeiros ou prevenir na resolução das causas que os geram e motivam, disseminam, multiplicam e "justificam"? Há alguma destinada prevalência objectiva e interesse social em manter pujante e activo o conteúdo significativo do ditado aldeão que indica meter trancas na porta só depois de ela ser arrombada? Ou, pelo contrário, devemos optar, não só por ficar mais barato, eficaz e rentável para a sociedade, para a UE, como sucede no caso do cancro, prevenir a violência implementando e estabelecendo um elevado grau de respeitabilidade e observância dos Direitos Humanos, da Carta para Igualdade de Género, Direitos dos Animais, das Plantas, nomeadamente instituindo o seu estatuto de identidade jurídica, e a Ética da Terra, promovendo, reforçando e divulgando as boas práticas complementares? É assim tão difícil compreender a Lei dos Profetas que indica que devemos fazer aos demais somente aquilo que queremos, ou não nos importamos, que eles nos façam a nós? Ou deve-se, em matéria de segurança e ordem pública, como o touro que oferece a outra face depois de esbofeteado porque sabe que ao fazê-lo atingirá com os chifres mortíferos o seu agressor, numa demonstração plena da beatitude taurina e caridosa da sua "ordenada" natureza? Da sua pacividade portentosa de gladiador da paz? É o OV um problema ou uma solução do ponto de vista sócio-político multinacional e europeu? Ou só se pode interessar pela paz e harmonia social quem anda de crucifixo e caldeirinha a enxofrar as mentes e está iniciado pelas espadeiradas templárias nos aljubarrotas da secularidade medieval? É a UE uma iniciativa do presente para evitar as insustentabilidades futuras, ou apenas a anónima herdeira dos herdeiros dos sócios da sociedade do aço e do carvão? Está ela assente na lucidez da ética, do conhecimento e da ciência actual, ou é ela a rebuscada reminiscência do gagaísmo gerontológico e obscurantista medieval? O que é preferível no combate racionalmente organizado ao crime e à violência: a força do argumento ou o argumento da força? Queremos uma Europa da cidadania e do conhecimento, ou uma Europa das corporações e da ignorância?

Jaime Crespo – Como já respondi antes vejo o problema num ponto de vista global e de prioridades. Há um sistema em crise que não dá resposta às necessidades das pessoas.
Neste contexto não vejo que a criação de observatórios, grupos, comissões, etc., dentro e nos moldes e gerido pelos actuais políticos e suas nefastas políticas, traga às populações benefícios de alguma ordem.
Depois o próprio problema em si é demasiado complexo para que eu o trate aqui de uma maneira simplista.
Tende a haver duas correntes: uma que a violência advém das condições miseráveis em que uma larga faixa de população vive; outros defendem que ela advém das comunidades estrangeiras a viver em Portugal, como se todos os portugueses fossem uma espécie de três pastorinhos. E mesmo esses mentiram com todos os dentes que tinham na boca.
Ainda temos que contar com outros aspectos como sejam as provocações organizadas por elementos das forças comandadas pelos governos que lançam confusões violentas muitas vezes para camuflar protestos sinceros e justos. Há os grupos de criminosos altamente organizados e sofisticados que também usam por vezes esses gangs de jovens em acções de violência para que outros interesses passem sem incómodos.
Enfim, como se trata de um problema demasiado complexo para o grau de conhecimentos que tenho sobre ele, exigiria um estudo mais aprofundado, de momento não tenho muito mais para avançar sobre o assunto, agora aquela escola pública, para todos, adaptando-se às condições de cada criança ou jovem, aquela escola que constitua um espaço de felicidade e de conhecimento de que falei atrás terá um importante papel no combate a todas as formas de violência.
Indivíduos informados são indivíduos menos violentos portanto penso que o combate à violência também passa por uma informação livre ao dispor de todos e não aquela informação que temos hoje, uma calda mal condimentada e passada ao passevite, esta informação pela mentira conduz à violência.
Como também já deixei expresso na resposta anterior, as crianças nascidas em famílias disfuncionais, seja essa disfunção motivada por alcoolismo, toxicodependência, miséria extrema, imigração mal integrada, etc. Sou defensor do princípio de que deverão ser as próprias famílias, sempre, a cuidar das crianças, apenas em casos extremos se deverá recorrer à institucionalização das crianças.
Sei que estamos a falar de seres humanos e que o ser humano é o animal com comportamentos mais imprevisíveis no mundo. Há pessoas com um grau tal de indigência e marginalidade que muito difícil se conseguirá fazer com elas algo de válido. Mas nunca ninguém deverá ser posto de parte.
Cabe sempre à(s) maioria(s) respeitarem a(s) minoria(s). Cabe-nos a nós cidadãos comuns e de classe média preparar os rumos para acolher os desafortunados desta vida e todos aqueles que vindos de outras paragens escolheram o nosso país para fazer aqui a sua vida.
É uma tarefa bastante difícil e complicada, sei que custa deixar para trás o preconceitozinho pequeno-burguês e a tacanhice ancestral do medo pela diferença.
Existe hoje uma nova caça às bruxas, mas um pouco mais civilizada e sem fogueiras. Transformamos as bruxas em ciganos, pretos e toda e qualquer espécie que não comungue da nossa fala e tenha costumes diferentes.
E voltamos a apontar o dedo aos estrangeirados.
Triste sorte para os filhos daqueles que um dia ousaram enfrentar o mostrengo da realidade física mas que continuaram pela calada da noite a agarrarem-se às faldas das camisas de dormir e a temer o mostrengo que há na cabeça de cada um.
Quando conseguirmos ultrapassar o monstro que há em nós então passos decisivos poderão ser dados na luta contra a verdadeira violência, aquela que gera milhões, é controlada pelos colarinhos brancos e não vive de certeza na Zona J nem no Aleixo.
Tal como respondi em relação ao Instituto da Sustentabilidade, respondo-te quanto à criação de um Observatório da Violência, estou totalmente de acordo desde que não tema em tomar as medidas necessárias, exija novas políticas sociais e de integração, não tenha medo de enfrentar nem o preconceito, nem os lóbis de opinião pré-estabelecidos.
Mais uma vez aviso para o facto de que não sendo o mundo um organismo maniqueísta, também não é flor que se cheire às boas. Mais que as ideias aqui expostas o virar desta situação implica muito trabalho, muita força de vontade e uma indomável certeza de que mudar o estado de coisas é possível.
Não sou santo e direi mesmo que tenho mais vocação de pecador, mas se queremos realmente existir de cabeça erguida não podemos acomodar-nos e deixar andar que os políticos encartados e a polícia resolvam o assunto. Se não formos nós a tomarmos os nossos destinos em mãos bem podemos esperar sentados que eles o façam.
Neste caso, a criação do Observatório contra a Violência na minha modesta opinião só tem sentido se nascer da “chamada sociedade civil”. Pessoas que pela sua postura, saber e conduta sejam capazes de agrupar e respeitar as diversas comunidades e povos, respeitando a cultura de cada um, criando um verdadeiro multiculturalismo e não uma multicultaridade de decreto mas eficácia nenhuma. Também em todas as culturas há que ter a coragem de desistir do que incomoda ou insulta o outro, o passo inicial é compreender o outro, criticá-lo, não o aceitar na sua totalidade pois isso pode significar o perigoso desistir da sua própria cultura.
Devemos estar conscientes de que uma acção apenas porque é praticada desde há muito é boa e deve ser continuada, temos irremediavelmente que ser capazes de englobar uma perspectiva evolucionista e progressiva.
Sei que estou a falar difícil e pouco claro até, mas o tema é delicado e complicado. A convivência entre seres humanos não é sempre uma festa nem tem de o ser. Mas melhorar é possível e julgo que pela arte é o caminho da multiculturalidade e da compreensão entre os povos.
Numa sociedade competitiva até ao extremo, em que as pessoas estão inseguras quanto ao seu dia futuro, em que se vive a correr para não perder um qualquer tgv, não de futuro e progresso, mas de uma cada vez maior alienação. Numa sociedade assim não há lugar para contemplar e falar das coisas belas e boas da vida. É uma sociedade feia e que só pode dar nascimento ao monstruoso e horrível, à violência.
Voltamos à vaca fria, o que temos que começar a fazer é eleger outras pessoas, com outras políticas e mudar este sistema opressivo de morte lenta.

7. Pela contínua necessidade de sucesso empresarial, político, económico, patriótico, cultural, religioso, ideológico, de identidade, afirmação, proliferação e expansão, como de crescimento, a espécie humana cultivou exaustivamente e até de forma absolutista o antropocentrismo, que em si é a síntese do especismo terráqueo, através da selecção maniqueísta das espécies, mondando as más para melhor singrarem as que considerava boas, eliminando as indesejáveis para tornar o mundo mais apetecível, propício e maravilhoso para as preferidas, tendo para isso recorrido a diversas guerras, entre as quais podemos nomear a II Guerra Mundial, em que Hitler tentou impor o modelo ariano ao Velho Continente e ao mundo, a variados Planos Agrícolas, como o de Salazar para o trigo alentejano, cuja província, o Alentejo, denominou o Celeiro de Portugal, a inúmeras desinfestações, como sucedeu com a campanha do DTT, a infindáveis vacinações, à semelhança das brasileiras sobre os índios contra a papeira, nativos esses a quem quase acabou com a raça sobre a Terra, sistemas de monda química e abate de refugo, combate de pragas e sulfatares indiscriminados por meios aéreos, uso e abuso de insecticidas, herbicidas, pesticidas, germicidas, e até fumigações "incendiárias" com e sobre florestas, sobre solos e subsolos, oceanos, rios, albufeiras, lençóis freáticos, atmosfera, minas e boças subterrâneas. Ou seja, tanto o conhecimento fez, e tanto o progresso andou, que em vez de sarar as misérias do mundo, pelo contrário, antes as agravou.
Actualmente, em que dezenas de espécies sucumbem dia a dia, perdendo-se para todo o sempre algum valioso capital genético da vida terrena, que dificilmente a circunstancial repetição fará novamente eclodir, havendo em contrapartida o considerável crescimento das espécies predadas ou endógenas, que lhes serviam de alimento, como por influência do aquecimento global se multiplicam as endogenias e proliferam aquelas outras que se dão bem com o caldo morno da modernidade, como vírus nocivos, micróbios, bactérias novas e velhas, além do ressuscitar de elos antes eliminados, por perniciosos, da cadeia evolutiva, que estão a ocupar livremente os nichos ecológicos da sua predilecção, à semelhança do que se passa no ambiente político com o ressuscitar dos nazismos e estalinismos conhecidos, dos quais, um deles, de natureza porcina, anda a tapar as bocas do mundo por mor das pestes, pandemias e viroses noticiadas nos dias de hoje, e que têm como principal vítima o ser humano, o indivíduo enquanto membro de uma espécie, especialmente os mais fracos e pobres, dependentes e frágeis, com carências múltiplas, sem recursos sustentáveis nos planos económicos, sanitários, habitacionais, ambientais, científicos, civilizacionais e, pasme-se senhor, religiosos, como é o caso da Índia e Paquistão onde a purificação se processa pelo mergulho dos crentes num rio imundo. Todavia, na nossa santa pátria por Combadão aspergida, como na secular Europa dos genocídios imperiais, nada tem sido feito para evitar o surto de germinações que têm vindo a ocupar os "territórios" dos seus predadores directos e naturais, exactamente eliminados por nós por motivos especistas e onde, mais grave ainda, os temos vindo a substituir por organismos geneticamente modificados, que são um passo largo na desertificação, bem como infiltrado diversas espécies colonizadores, que à semelhança das hortênsias açoreanas, dos choupos e acácias, dos eucaliptais e pinheirais do "contenente" têm aberto rombos, frechas, buracos irreversíveis no equilíbrio ambiental, polvilhando o espaço campestre e urbano de frutos sem pevide e melancias de reprodução assistida...
Ora, o que se pergunta, e para acabar esta "conversa electrónica" que já vai demasiado longa, é se não achas que deve existir pelo menos no país e restantes parceiros da UE, um organismo tutelar da biodiversidade europeia, que tenha em atenção e estudo, formatando modelos de defesa, formulando estratégias, alinhe performances de evolução e cultive na opinião pública o biocentrismo, que é a única corrente ambiental que não vê o ecossistema como uma ferramenta funcional ao serviço do homem, ou seja, a criação de um Observatório da Biodiversidade (OB), que à semelhança do OV, venha a orientar e definir as políticas agrícolas, energéticas, piscículas, de ordenamento do território, de gestão aquífera, da orla costeira e bacia hidrográfica, florestal e bancos de sementes, agro-química e da indústria alimentar, de avaliação e controlo das densidades populacionais, não só que ponha um fim no actual caos existente, como obste a novas "catástrofes" no universo genético terreno? Pode a humanidade continuar a dar-se ao luxo narcisista e antropocêntrico de considerar que tudo quanto existe à face da Terra e para lá dela, só tem razão de ser se for em sua função, benefício ou serventia para satisfação das suas necessidades básicas? Devemos arriscar o bem-estar de todos apenas para enriquecer e melhorar a vida, ou grau de ostentação, de uma camada social, ou elite de eleitos e fenomenais privilegiados europeus? Há alguma justificação plausível e racional, científica e ética, para lixarmos o planeta acreditando na salvação divina ou que Deus descerá à Terra outra vez, não para nos livrar do pecado, mas da extinção que nem outro meteorito que mandou os dinossauros à viola? Anda o Olimpo a preparar mais alguma fisgada certeira contra a controversa natureza só para que os astronautas portugueses dobrem os cabos necessários para alcançar as Índias? Será preciso morrer metade da humanidade para a restante parte veja o que Galileu viu séculos atrás: que não somos o centro do Universo? Enfim, pode o RUE pugnar pela implementação do OB na UE? Supondo que quem concorre se arrisca a ser eleito, e essa é única esperança que assiste à democracia, estarias disposto a batalhar no PE por um organismo similar?

Jaime Crespo – A História é o que é e o tempo não nos permite regressar atrás. É muitas vezes a oportunidade de um muito breve momento. Contudo permite-nos reflectir sobre nós mesmos e sobre a nossa acção.
O Homem é pela sua natureza um fazedor, de artefactos, de ideias, enfim, tenta modificar e adaptar o mundo a si próprio, à sua maneira de viver, ao seu conforto.
É-me difícil e até muito complicado efectuar julgamentos sobre acontecimentos históricos, para mais quando nos separa desses acontecimentos o imenso véu do tempo.
A este propósito gosto sempre de recordar uma história contada por Miguel Torga, a propósito um dos meus escritores preferidos, talvez devido ao carácter telúrico da sua escrita, de um telúrico agreste e inóspito bastante diferente do acalentador ambiente do nosso Alentejo. Pois contava Miguel Torga que numa deslocação ao Brasil, onde proferiu uma conferência na qual terá dissertado sobre este enigma de ser português, aqui e no mundo, quando se passou à fase das perguntas ao conferencista, ele ter-se-á sentido um tanto incomodado pela irreverência própria da juventude de uma estudante que o questionou de um modo algo brusco dizendo”seus avós são os responsáveis directos pela eliminação de milhares de índios e para que muitos continuem a viver em condições miseráveis de sobrevivência”, ao que Torga terá retorquido “ minha boa menina, se tudo isso aconteceu, então deve-se aos seus avós porque os meus nunca saíram de Trás-os-Montes e ainda hoje por lá vivem”.
Descontextualizar os acontecimentos históricos ou analisá-los perante conhecimentos posteriores é complicado e pode até levar ao ridículo.
Os mesmos portugueses que sem medo enfrentam superstições, o desconhecimento do mar e das marés, tornam o Mundo de facto um lugar global, depois têm também uma vertente negativa que vem da ganância sôfrega e da feira da avidez concentracionária de riquezas, onde valeu tudo, a mentira, o crime, o roubo, a escravatura.
Mas como dizes, o Homem tem por tendência de encarar o problema do Mundo, que é apenas uma parte do seu próprio problema, de uma forma antropocêntrica, sendo levado nessa sua análise a esquecer-se do resto dos seres vivos e de todos os outros elementos naturais como um todo e leva-o a uma apropriação desses bens em seu próprio benefício.
No entanto de todas estas práticas não deixou de tirar as suas lições. E é também esta dimensão humana, para a reflexão, a experimentação, o conhecimento que eu prefiro realçar, apesar de também nem sempre as coisas correrem pelo melhor, há a capacidade de procurar e conseguir “dar a volta ao texto”.
Evidentemente que algum conhecimento sobre a matéria da necessidade de se usar dos bens naturais de maneira mais cautelosa, equilibrada e frugal. Apareceram entre outros Schumacker e o seu “small is beatifull”, Hubert Reeves com uma grande obra “um pouco mais de azul” e também a sua teoria do cuidado que temos ao tocar seja no que for, pois tudo acaba por estar interligado e que ficou conhecida pela “teoria da borboleta”, Goodwin e as suas cidades sustentáveis e para não me estender muito, no campo da política, uma política justa, de igualdade, de parcerias, que nos é trazida entre outros por Noam Chomsky.
Ora não sendo fácil, prevejo mesmo lutas bastante difíceis e renhidas, uma coisa é certa, cada vez mais as pessoas têm a noção da importância de olhar para o planeta de uma forma global e no qual todos os organismos têm a sua função e indispensabilidade. Daí a noção de uma necessária biodiversidade e mais que isso, a consciência de que é necessário não ficar de braços cruzados e lutar por ela.
Agora, amigo Joaquim, bem podes tirar o cavalinho da chuva que não será do seio deste parlamento europeu que algo de bom virá sobre essas matérias.
O actual parlamento europeu tem um poder muito limitado. Limita-se a legislar sobre a marcha dos cágados para a Índia e a conceder aval às medidas, essas sim importantes e gravosas para o ambiente e para os trabalhadores, emanadas pela comissão europeia.
A união europeia e suas instituições têm um fito, organizar, proteger e expandir o capitalismo a nível global. Não é uma globalidade humana mas apenas o desenvolvimento do capitalismo a todo o Mundo.
Ora encontramos na génese do capitalismo tudo o que de negativo apontas na tua pergunta.
E vê-se pelo que aconteceu em Portugal em que tinha uma agricultura e actividade pesqueira de subsistência e o que foi feito foi pagar a essas pessoas para deixarem essas actividades para assim abrirem a exploração da agro-pecuária e das pescas à exploração intensiva sobretudo às multinacionais espanholas desses sectores.
Portanto e para concluir esta resposta, com esta união europeia e a política que vem da sua génese criativa que propõe a exploração dos recursos naturais de forma intensiva e subsidiando novas culturas do que se convencionou chamar ogm (organismos geneticamente modificados), daí o eu defender que ao permanecermos nesta união europeia e insistindo em acolher as suas políticas, podes ter a certeza que um dia destes apanhamos algo bem pior que uma papeira.

8. E finalmente o "encore" da oitava pergunta, que alarga as vistas para o infinito, e sem qual nenhuma das demais sete teria qualquer sentido: haveria alguma crise capaz de sobreviver e resistir a estas três estratégias europeias de consolidação democrática – Instituto da Sustentabilidade, Observatório da Violência e Observatório da Biodiversidade? Hum?!?...

Jaime Crespo – As estratégias que apontas são de facto europeias, têm a marca dos seus grandes pensadores e filósofos, mas não só, felizmente outros povos nos têm dado lições nestas matérias e muitas vezes povos que o nosso eurocentrismo leva a menosprezar os seus conhecimentos de experiência feitos.
Por exemplo conheces maior simplicidade e ao mesmo tempo argúcia na observação do mundo que a leitura do “papalagui”? ou do “macunaíma”?
Não reconheço nenhuma destas estratégias na união europeia:
Consolidação democrática, para que a mesma se desenvolvesse seria necessário fazer uma união a partir da base (dos povos em liberdade) e daí chegar às inúteis “elites”. Ora o que temos é a consolidação da democracia “burguesa” que ocupa os cargos, faz as leis e manda a bem ou a mal as forças ditas da ordem cumpri-las. Nas inaugurações de fábricas vês quase sempre meio ministério a degustar os vivas e abraços populares, mais o pastelinho de bacalhau e o Porto de honra. Quando passada meia dúzia de anos a mesma fábrica fecha quem lá aparece? Nem uns simples funcionários dos centros de emprego a registar as pessoas e poupar-lhes horas nas filas. Ainda assim o exemplo mais flagrante que contraria a proclamada democracia é o caso do referendo irlandês. Para o bem ou para o mal o povo votou, e disse claramente não ao tratado de Lisboa, o que pelas próprias regras da comissão europeia inviabilizava a sua execução. Foi isso que aconteceu? Os senhores políticos da comissão europeia logo trataram de inventar umas desculpas e vai ser sob uma ignóbil chantagem que o povo irlandês vai voltar a sufragar o Tratado. E irá a tantos referendos quantos os necessários a que o resultado seja um magnífico Sim! É isto democracia? E nos outros países pelo sim pelo sim, não fosse aparecer outro incómodo Não, depressa alteraram as constituições e passaram a ser os parlamentos nacionais a sufragar os tratados da união. Quando e onde o povo português já se pronunciou sobre alguma medida vinda da união europeia? Enfim, serve a dita cuja para alguns cujos abichanarem alguns milhares (ou milhões) de euros, para a arraia-miúda ficam os cêntimos. Consolidação democrática na Europa? (nesta união europeia?) puf!
Instituto da Sustentabilidade, Observatório da Violência e Observatório da Biodiversidade, constituem quanto a mim instrumentos indispensáveis à consolidação democrática na Europa, mas sempre fora desta União falsificada e das suas políticas burguesas.
Esta união com a necessidade de ter sempre à mão uma grande massa de trabalhadores indiscriminados e dispostos a fazerem qualquer trabalho por qualquer preço, tem permitido uma emigração sem condições e que vem ocupar os antigos antros de miséria de onde entretanto os nacionais já se mudaram para outros antros mais modernos, chamados os bairros sociais. Com esta política os senhores da união aumentaram a violência adjunta da miséria, aumentaram os sentimentos xenófobos e racistas numa europa de tradição cosmopolita e agravaram todo o desfile de misérias humanas que me coíbo de acrescentar.
Quando eles falam de sustentabilidade é precariedade que estão a dar aos trabalhadores.
Quando se referem a biodiversidade é quando aumentam mais uns milhares de hectares de exploração de transgénicos.
A crise é o cenário de fundo que fazia falta a esta representação horrenda em que os trabalhadores são os figurantes que desconhecem o seu papel e de camarote temos os especuladores na bolsa, os banqueiros, etc., a gozarem o espectáculo.
Na verdade estamos nas mãos de mafiosos políticos ao serviço do capital, a crise não é ultrapassável sem uma nova revolução popular e que aí sim, consolide os valores de que falas: consolidação democrática (Instituto da) Sustentabilidade, (Observatório da Violência) Paz e (Observatório da) Biodiversidade.
Afinal este Parlamento Europeu serve para quê? Ou de que falamos quando falamos deste Parlamento Europeu e das suas competências?
Muitos arrivistas do comentário político e que antes apontavam exactamente ao PE a sua evidente ineficácia, agora que são candidatos ao mesmo parlamento, quer pelo Bloco de Esquerda ou pela CDU, mas também por novos partidos, “flocos de aveia” sem passado nem ideologia e que aparecem a soldo do capital para confundir o mais desatento Zé Votante, ou ainda os partidos da direita, da mais moderada à mais reaccionária, racista e xenófoba, agora de modo geral todos começaram milagrosamente a encontrar virtudes no PE, desde que sejam os seus a ocupar esses lugares.
Por isso somos diferentes e temos a coragem de não esconder do Povo a inutilidade desse Parlamento.
Concretizemos então o que é a realização concreta dos poderes dos deputados ao Parlamento Europeu:
1. O que o PE pode propor são alterações às Directivas ou propostas da Comissão Europeia;
2. Estas propostas de alteração têm que estar contidas no âmbito dos tratados da União Europeia e ser aprovadas pela maioria dos deputados;
3. A Comissão Europeia aceita as propostas de alteração aprovadas pela maioria dos deputados do PE, e, em seguida, elas são de novo aprovadas no PE;
4. A Comissão Europeia é ainda livre de as aceitar ou não, evocando o cumprimento de Directivas anteriores e dos Tratados Europeus.
Portanto, e terminando que a conversa já vai no Pisão, a conversa em redor deste sistema de PE e da consequente política que lhe subjaz, recorda-me o teu conto “o morto a cavalo num burro”. Trata-se de conversa fiada destes malandrecos avençados na política e tidos pelos mídia da moda e apresentados ao Povo como gente credível, decente e com ideias políticas arejadas porque livres de ideologias apenas defendem a que importa: o capitalismo burguês.
Por isso e para terminar, reafirmo aqui os lemas pelos quais me irei bater até ao próximo dia 7, como desse dia em diante:
- Pela proibição dos despedimentos!

- Pela União livre das nações soberanas de toda a Europa!

- Pela ruptura com a União Europeia!

Construção de uma política alternativa, ao serviço dos trabalhadores e que respeite o meio ambiente!

Falou Jaime crespo, português de Tolosa, 45 anos de idade, professor do 1º CEB, ex-emigrante, escritor nas horas vagas e pensador a tempo inteiro.

5 comentários:

Bonnie disse...

vocês são uns inchados do caraças!
estou orgulhosa... de vocês dois.

... mas quem foi o escriba que escreveu: circunstância de reconhecido mérito a que acrescentas-te,... ?
hum?
e escreve-se 'encore.

eu sei, sou chata!

jokas

Bonnie

j maria castanho disse...

Tens toda a razão, mas esta entrevistas ainda não está revista. Este blogue não é um órgão de comunicação, é um(a) moleskine de trabalho. Em breve terás a versão definitiva; todavia sempre que houver alguma gralha ou erro, que vejas e seja "gritante", comunica-o, pois sabes bem que nunca serás uma chata e os teus comentários são importantes para mim.
Obrigado. Beijokinhas

Bonnie disse...

eu sêiii.

mea culpa!

só depois li o mail...

... lei de murphy!

tadinho do nosso amigo...

:(

Bonnie

JotaCê disse...

Aportei aqui por acaso...
mas creio que conheço tanto o entrevistado quanto o entrevistador.
Do primeiro tenho [onde é que o tenho agora?] um poema dele, escrito nos anos 80, em Portalegre no Café Facha...
Vou seguir este blog

JotaCê

j maria castanho disse...

Exacto: o Café Facha, que foi durante muito tempo a Sala de Convívio da minha escola, ou serviu disso enquanto estudei nela (escola secundária de s. Lourenço, agora, e anteriormente Escola Industrial e Comercial de Portalegre). Este café e a tasca do Sr. Marchão, um pouquinho acima, mas igualmente um centro afamado de convívio "estudantil"... Bem-vindo, amigo!

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