5.02.2008

Dois motes para uma décima


Tal como a generalidade das pessoas, os escritores podem dividir-se em dois grandes grupos: aqueles que, com o seu labor de escrita, servem a vida e aqueloutros que, ao contrário, se servem apenas dela para realizar (ou executar) a sua ficção. Entre os primeiros e os segundos poucas diferenças técnicas existem, podendo mesmo afiançar-se que não é pelo estilo, pelo género, pela corrente, pela doutrina literária que explanam, e muito menos pela religião, língua, ideologia, época ou leque temático que os podemos identificar. Como também não é pela maneira como que gerem a sua obra ou personalidade pública. Nem pela sua participação social e grau de cidadania. É pela completude humana, isto é, se são seres amputados, ou não, dos seus sexto e sétimo sentidos: a propriocepção e a empatia. Pois aquele que não se percepciona não se sabe, e quem se não sabe nunca sentirá o outro (tanto fora, como em si). E é essa a grande diferença entre um escritor de génio e um genial escritor. Porque há escritores geniais a quem o seu génio não os manieta apenas para o êxito e qualidades competitivas, mas sim anseiam melhorar as condições planetárias e humanas que sustentam (e eternizam) a vida.
Quando, a propósito do Acordo Ortográfico, vimos, na "coreografia" do programa televisivo, dois escritores – Lídia Jorge e Vasco Graça Moura –, e dois catedráticos de interpretação e análise textual – Carlos Reis e Maria Alzira Seixo –, uns defendendo-o (Lídia Jorge e Carlos Reis), outros atacando-o (Vasco Graça Moura e Alzira Seixo), com igual veemência e pertinácia, pedindo-se meças com prós e contras numa coisa que desconhece qualquer medida e cuja riqueza reside precisamente na sua capacidade de inovação e ultrapassagem dos limites, a língua, falada e escrita, não quer com isso dizer que uns estejam certos e outros errados, nem que uns sirvam a vida e outros lhes sejam contra, mas antes que nesse diferendo há muito dinheiro em jogo, tipo tesouro de Salomão, pois que se assim não fosse nunca J estaria contra B, ou vice-versa, uma vez que eles são colunas gémeas do mesmo templo.
Em 1986 as mesmas colunas mexeram-se e o Acordo ficou parado. A intenção actual era conseguir idêntico resultado. Os prémios tipo Camões da lusofonia continuariam a ser distribuídos, outros dirão repartidos, e com toda a legitimidade, por duas línguas diferentes, mas que curiosamente contarão, para as estatísticas de natureza política, unidas com 250 milhões de falantes, sobretudo quando precisamos da contabilidade para abichar vantagens de ranking. Continuamos a sonhar com as árvores das patacas enquanto as demais línguas sobejamente faladas (e escritas) no mundo vão somando prestígio, divulgação e Prémios Nobel, ganhando lugares de destaque na Literatura Universal. O que queremos é o bambam do sol na eira e água no nabal para continuar a salmodiar a nossa ancestral e eterna saloiíce de abençoados e defendidos por Baco nos Olimpos das Graças. Empertigamo-nos com o número de falantes, mas nada disso passa da tesão matinal do mijo, e murchamos sempre que é necessário marchar em frente e acabar com a bestialidade de termos uma língua falada com diversas grafias, como acontece actualmente. E continuaria a acontecer, se continuasse a depender das decisões político-literárias dos novos ricos da gramática...
Porém, um dado externo vem alterar substancialmente a questão: as ferramentas dos processadores de texto como a correcção automática, dicionário, ortografia e gramática – enfim, o Windows/Word. Exactamente. Porque se ele adoptar as alterações estipuladas pelo novo Acordo não antevejo como escritores e catedráticos situacionistas o possam inviabilizar... E por dez razões que aqui não vou esmiuçar, pois posso resumi-las apenas em duas: primeira, que a vida fica sempre do lado dos escritores que a melhor servem; e segunda, que se queremos ir para o futuro nas carroças do passado, por mais que fustiguemos as bestas nunca chegaremos a qualquer lado.

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