7.12.2017




ECOS DE JULHO 

Já mergulhando nesse mar
Como um cubo gelado
Que se derrete no dia
Diluído, a soletrar
Fios de cabelo dourado
Conforme laço de poesia
Que mais solta do que ata, 
Ouço ecos em melodia… 

Por quem será? Por mim não é. 
Por ti, por ti e por ti também não. 
Nem por qualquer Tonho ou Zé. 
Nem é por quem nos descarta
E desagrega na condição… 
E que dizem? 
– PA-RA-BÉNS MAR-TA – 
Ora… então, já sei por quem são! 

Joaquim Maria Castanho

7.09.2017

POEMAS POLÍTICOS de A a Z - A




A - POEMAS POLÍTICOS DE A a Z

Jamais portas que nos dividam
Jamais distância A Deus
Que já os olhos teus despertam
Mais que infinitos nos meus. 
Hei de dizê-los mudo, calado
Gritá-los pra lá do presente, 
Ainda que do diferente lado
E mostrando inversos à gente
Nas costuras, trocos mesquinhos
Misérias ou raios de Zeus
Que lavram as florestas e ninhos
Com labaredas avaras de eus!

Joaquim Castanho 

7.08.2017




RAZÃO TOTAL

A minha alma levantou voo
E nega-se agora a pousar; 
Diz que quer ser o que sou…
Não sinto força prà contrariar!
Quando me culpa, eu perdoo. 
Se me crítica, dou-lhe atenção. 
E às vezes, até finjo que vou 
Considerá-la só meia razão…

Mas mal te vejo, logo desisto; 
É qu'ela quer à força ser beijo, 
E eu… eu sem ela não existo! 

Joaquim Maria Castanho 

7.07.2017

ERRÂNCIA FIXA




ERRÂNCIA FIXA

Por esta redoma nos digo, 
Nesta cápsula navegamos; 
O sonho navega contigo
Contigo vou, e voamos. 

Temos a imensidão do breu 
Sabemos a cor da terra, 
Que o amor somos tu e eu
Neste errar que não erra.  

Joaquim Maria Castanho

7.02.2017

MELODIA ENCANTADA




MELODIA ENCANTADA 

O dia das quatro estações
Decorreu hoje sem inverno, 
E o arco-íris das pulsações
Pintou-o ameno, moderno
Pra pacificar os corações
Escalou penhascos, penedos; 
Viajou por oásis e desertos; 
Voou sobre mares e silvedos;
E escoou-se entre os dedos
Palma com palma bem abertos
À desfilada, plo espaço… 
Mas levaste-me na garupa
Prà apagar da alma o traço, 
Vinco do receio e da culpa, 
Pondo pureza no que faço
Dando o cunho da poesia
A cada hora que expira
Com hinos em harpa e lira
Pra ouvir arco-íris no dia.  

Joaquim Maria Castanho

7.01.2017

RESSUSCITADO EGO




EGO RESSUSCITADO 

Amarro-me ao teu rosto
Pra fitar o infinito
Sob vendaval de desgosto, 
Sob o tsunami do grito… 

E bem lá do fundo do céu
– Imensidão e distância –, 
Ergueu-se deste eu incréu
Essa fé que nunca morreu
Nem perdeu a infância. 

Joaquim Maria Castanho

6.27.2017

A POESIA, ESSA INVENÇÃO




A POESIA, ESSA INVENÇÃO

Retardo o passo pra que passes
Cruzes portal pró desconhecido, 
Que faças o que só tu fazes
Dites a rota, dês sentido
Aos caminhos que te celebram
–  Aos poemas que te inventam!

Joaquim Maria Castanho 

6.25.2017

SILVO COLORIDO





SILVO DE COLORIDA LUZ 


Só quando te não vejo 
Posso refugiar-me em ti, 
Dizer que penso, que sinto
Que anseio, que desejo
Como foi o dia que vivi
Sem viver, se dele pinto
O esgar sonhado e ali
Refugiado atento
Mais caminho de pronto
Com os poemas que avento
À Sol num cruel rodopio
Pelas fisgas do assobio
Que sufi me deixa tonto… 

Joaquim Maria Castanho

6.23.2017

LEVEZA INTEMPORAL DA ROCHA




LEVEZA INTEMPORAL DA ROCHA

Me deponho ante ti
Num desígnio de então, 
Que no descruzar já li
Na pele a imensidão

Calada, 
                de granito
Como uma pedrada 
Acua tempo proscrito!

Joaquim Maria Castanho

6.16.2017

(RE)GANHAR A PASSADA

  


(RE)GANHAR A PASSADA 

Plo óculo do infinito
Na descoberta incolor
Sonhos travam, e o atrito
Se refaz próprio propor 
E propósitos propõem
As singelas alegrias
Que pouco a pouco compõem 
Pegadas pra pegar os dias… 

Então, o verbo floresce
Pelas pétalas completo
No beijo que não esquece 
Carinhos d'avó e neto.

Joaquim Maria Castanho 

6.02.2017

Excerto de NOTA a OS SIMPLES, de Guerra Junqueiro




“Quis mentalmente viver a vida singela e primitiva de boas e santas criaturas, que atravessavam um mundo de misérias e injustiças, de vícios e de crimes, de fomes e de tormentos, sem um olhar de maldição para a natureza, sem uma palavra de queixume para o destino. E então encarnei, por assim dizer, no pastor grandioso e asceta, na moleirinha octogenária e sorridente, no cavador trágico, nos mendigos bíblicos, na mansidão dos bois arroteando os campos e nas labaredas de oiro do castanheiro, aquecendo a velhice, alegrando a infância, iluminando a choupana. E, depois de uma existência de sacrifício e pureza, de abnegação e bondade, deitei esses ingénuos e pobres aldeões na terra misericordiosa e florida do campo santo, pondo-lhes por cima das sepulturas rasas o Céu maravilhoso e cândido, que em vida sonharam e desejaram. 
É claro que essas figuras não são inteiramente reais, da realidade estrita, efémera e tangível. Criei-as, ou antes, completei-as com a minha alma, com o meu próprio ideal.” 

14 de Maio de 1892

Guerra Junqueiro  - Excerto da NOTA à edição de OS SIMPLES

6.01.2017

DÁDIVA

  


A DÁDIVA 

Olho lá pra fora
Através de teu olhar, 
E de como ele se demora
Sem saber que esperar… 

Luz sobre azul celeste
Dum sorriso que me deste! 

Joaquim Maria Castanho

5.30.2017

SOMBRAS CARDINALES




AS SOMBRAS CARDINALES

A sombra de Cláudia é
Bem mais velha que ela; 
Está dobrada sobre si. 
Alguém que perdeu a fé
Soprou a própria vela
Se esqueceu de ser, ali
Longe de quem vimos… e eu vi. 

– E como era bela! 

Joaquim Maria Castanho

5.28.2017

SERENO DEGUSTAR




SERENO E SILENCIOSO DEGUSTAR

Almoço devagar. 
Acrescento-m'assim
Só pelo paladar
A olhar o alecrim
Nas bermas do jardim
Ond'olhos resvalam
Nesse tanto sentir
Por ver-te a sorrir… 

– Que até o calam! 

Joaquim Maria Castanho

5.25.2017

ISCO VOADOR




O ISCO VOADOR

Pousou exatamente ali... 
Quase de propósito, pra que a visse... 
E eu vi! 
Callei, callei, calei
Segurei, 
E só agora o disse. 

Joaquim Maria Castanho 

MINHA PRIMA, PARABÉNS




PARABÉNS Clara, minha prima
Neste dia de felicidade. 
Que cavalgues por ele acima
Até aos oásis da idade, 
Sem as ciladas nem azares
Sem atropelos nem mau clima, 
E companhia que desejares 
– Sejam família como pares! 

Joaquim Maria Castanho

5.12.2017

VEJO-TE ENTRE BÁTEGAS




TE VEJO ENTRE BÁTEGAS

Desço pelo meio da tarde
Por negras pedras gretadas
Onde a saudade me arde
Em quadras incendiadas
Dessa luz, entre sombras, nua
Pisada pela memória
Se, letra a letra, quase crua
Copia de nós sua história
E nos devolve esse elixir
Cujo suco é tempo puro, 
Mel coado n'areia do porvir
Cruzado em ponto seguro
Plas costuras da água caída, 
Como intervalos num muro 
Que são as seteias da vida. 

Joaquim Maria Castanho

5.10.2017

MURMÚRIO VENEZIANO...




MURMÚRIO VENEZIANO… 

Nada é tão linear como parece
Nem sombras repetem realidade, 
Que quanto há humano merece
Ser observado na profundidade, 
Não das almas, mas do significado; 
Sequer sentir é apenas demonstrar
O que se pensa se, pois, quem sente
Anda com isso, assim, estampado
Nas atitudes, caprichos, ou cuidar
Agir igual plo que é diferente. 
Porque tão-só, pura e simplesmente
Ser profundo bebe-se do passado
Que não passou, pra retornar a viver, 
Ser futuro, sem ter sido presente.


Portalegre, Café José Régio, 10.05.2017

Joaquim Maria castanho

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

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Escribalistas é órgão de comunicação oficial de Joaquim Maria Castanho, mentor do escribalismo português