9.27.2018

PINÁCULO DE SÃO TOMÉ




PINÁCULO DE S. TOMÉ 


Deslizo com a vista
E aliso pelo olhar, 
Que da Serra, a crista 
Já me quer crucificar. 


Mas de luz inundada
Espreita a madrugada
Ponto de mira em riste
Qu’assesta atesta assiste
Com’uma seta de luar. 


Joaquim Maria Castanho
Com foto de Elie Andrade

9.26.2018

PURO AMASSO




183.
ESCARPA DESFEITA POR AMASSO ESCARPA  (ELEITA) 


  
Areia batida
Grão celestial; 
Granito, lida
Estrada real:
Passo a passo
Eu gesticulo
E me desfaço
Mas não azulo. 


O céu? Abraço 
Que não m’abarca…
E, pur’amasso, 
Todas as retas
São minhas netas
Se fui escarpa! 

Joaquim Maria Castanho
Com foto de Elie Andrade

9.25.2018

VARANDA VIRTUAL




VARANDA VIRTUAL

Procuro o eco mas não o sigo 
E recordo teu esgar profundo.
Nesse momento estou contigo...

– Da nossa janela vemos o mundo! 

Joaquim Maria Castanho
Com foto de Elie Andrade

8.25.2018

INEGÁVEL UNIÃO




177.
INEGÁVEL UNIÃO
  
Tudo quanto aprendi, perdi-o já
Nada sei, pouco na alma me resta
De quem fui, que pensei; onde quer que vá
Não sou eu quem vai, senão apenas esta
Ânsia de voltar a encontrar-te lá… 

Mas perguntar-me porquê, é letra morta. 
É fingir que não sinto quanto sinto. 
É fugir ao pensar; é fazer batota. 
E tão-só é verdade quando minto… 

Porém, nesse lugar profundo das veias
E brumas indistintas (nossas e alheias) 
Onde moram afetos, amor, paixões
Lanço âncora, renovo a alegria
Perco-me no teu sorriso, tenho visões… 

– Vejo corações unidos por poesia! 

Joaquim Maria Castanho

in REDESENHAR A VOZ

8.13.2018

MODINHA DO TEMPO AGORA





MODINHA DO TEMPO AGORA


Esp’rei-te à esquina
Mas não me deste atenção; 
Como qualquer menina
Jogaste pra muito longe
O qu’estava mesmo à mão. 

Neste tempo que é sem tempo
Agora tudo tem um fim, 
Que também não tenho tempo
Pra quem não tem tempo pra mim. 


Se o futuro olha pra nós
E nos olha como hoje, 
Escreve a uma só voz
O qu’à outra voz lhe foge. 

Neste tempo que é sem tempo
Agora tudo tem um fim, 
Que também não tenho tempo
Pra quem não tem tempo pra mim.  

Joaquim Maria Castanho
Com foto de Elie Andrade

MUSA ETERNA




MUSA ETERNA

A morte é um incómodo enorme… 
Vira-nos a existência do avesso. 
Quem amamos até parece que dorme… 
É dano que não mereces, nem mereço! 


E quando na ideia se conforme
Ser possível evitá-la com um Terço
De quanto és, mas ele te informe
Só d’um décimo do que em ti imerso
Navega à deriva no que julgas ser
Então, essa morte é quem por ti vive
Quem percorre os mares, rios, caminhos 
– Os afluentes da liberdade livre, 
Propriedade de quem saltou dos ninhos
Num voo picado pela sã ousadia… 
– Qu’essa sim, é a Musa de toda a poesia!


Joaquim Maria Castanho
Com foto de Elie Andrade

8.08.2018

A MOÇA E O CÃO




A MOÇA E O CÃO 

Fugiu o Biscoito à menina
Retouçou na tarde fresca, amena
Sobre relva, d'esquina em esquina
Fugiu o Biscoito à "piquena"... 
Continuou linda mas não serena!

Deu dois saltos e três corridas
Driblando com ufana galhardia
Quem, por vê-lo, ganhou novas lidas
Cuidados, temores pla ousadia... 

Fugiu o Biscoito à sua dona,
Correu-se descarado e audaz
À sua volta, e naquela zona
Dada à reinação e tropelia
Também frequentada por muito rapaz. 

Fugiu o Biscoito à pequena
Sobre a relva, esquina a esquina, 
Retouçando pela tarde amena
Fugiu o Biscoito à menina... 
Continuou linda mas não serena! 

Joaquim Maria Castanho
Com imagem do Google

8.07.2018

in LADOS DA VIDA



"JEAN-JACQUES 

É preciso saber quem são os outros – para saber quem sou."

in LADOS DA VIDA, peça radiofónica de FAUSTO CORREIA LEITE
Foto de Elie Andrade

O TEMPO É IGUAL PARA TODA A GENTE...




O TEMPO NÃO TEM ESTRATO SOCIAL

O presente, esse muro de lamentações
Com que a gente asperge o passado
E salpica de expetativas o futuro, 
Tem por óbice alisar os verões 
Emparedar quaisquer primaveras
E fala sempre muito e por dobrado
Acaso se não sinta pleno e seguro... 
Como podemos resistir-lhe, não sei
Mas vive-o tanto o povo como o rei!

Joaquim Maria Castanho
Com foto de Elie Andrade

NO LABIRINTO, A SAUDADE




NO LABIRINTO, A SAUDADE 

Procuro-te memória a memória
Bisbilhoteio a alma plo teu olhar
Atiro ao fundo o anzol da História
Para içar-te de lá reconstruída, 
Mas não te encontro neste vazio: 
Diluíste-te pelas ondas de calor... 

Sei que és descendente do infinito
Guardiã d'imortalidade adiada
Que possuis o encanto que só eu fito
E sem ele não sei desejar mais nada. 


Joaquim Maria Castanho
Com foto de Elie Andrade

8.06.2018

LADOS DA VIDA - uma versão de Luzia...



"A pequena cidade francesa de Pau, perto dos Pirinéus, entre 1920 e 1930, é o cenário de fundo para a peça de teatro LADOS DA VIDA, de Fausto Correia Leite, que a RDP transmitiu no seu TEMPO DE TEATRO. Os personagens Pierre, Teresa, Maurice, Suzanne, Jean-Jaques e Mimi Marselha, são representados pelas vozes de, respetivamente, Álvaro Faria, Catarina Avelar, Carlos Daniel, Carmen Santos, Ruy de Matos e Manuela Cassola, sob a direção de autores de Rogério Paulo e realização de Teles Gomes. Teresa é uma versão sucinta de "Luísa Grande, que pertenceu à chamada 'alta sociedade', retratou a alta burguesia lisboeta dos loucos anos 20", mas não só, como também as terras e almas por onde passou, na sua vagabundeagem literária, sempre atenta e generosa. E fê-lo através de três pseudónimos: Sónia, Madame Butterfly e LUZIA, que predominou desde 1920, data da primeira edição do seu livro OS QUE SE DIVERTEM (Comédia da Vida), até à sua morte em 1945. 

8.02.2018

NO (CON)FLUIR, A FALA




NO (CON)FLUIR, A FALA 

Desliza a fala
Entre línguas de terra... 
Espelha o que só o sonho cala, 
Só a porfia encerra. 

Tem na redondez da verde espera
A fluidez daquilo que exala
Para rolar sem ferir, 
Fazer que não erra
E se se esmera
É apenas pra florir. 

Joaquim Maria Castanho 
Com foto de Elie Andrade

SEMPRE OS MESMOS, A CADA HORA DIFERENTES




SEMPRE OS MESMOS, A CADA HORA DIFERENTES

Sim Monet, os nenúfares 
Partilham sempre mudança
Impressionam vagares
Dizem genuína aliança
Que tem hora e luz do dia... 
Estabelecem empatia
Negam alheada visão,
Que apatia não é opção. 
Não é escolha nenhuma; 
É apenas constatação... 

É só remar que não ruma! 

Joaquim Maria Castanho
Com foto de Elie Andrade

7.31.2018

CINZEL LÍQUIDO




LÍQUIDO CINZEL 

Já sereno é o canto deste manto
Cortina de lágrimas que não é pranto
Transparência que só a luz contorna... 

Contudo, rupestre, mudo, interior
O soslaio dum coração intemporal
Gotícula a gotícula a vil forma
Esculpe na fria pedra esse amor
Que a tornará animada – e imortal. 

Joaquim Maria Castanho
Com foto de Elie Andrade

7.29.2018

POEMA ÀS SOMBRAS QUE PASSAM




POEMA ÀS SOMBRAS QUE PASSAM

É um silêncio interrompido
Melodia ténue em suspensão
Dum olhar trocado e consentido
Da pedra fria à pedra, na ilusão
De outra coisa ser, já quase dita
Num gesto sem movimento, sugestão
Dele só, capricho imaginado
Qual Adamastor em vão tormento
Senhor do mundo na profundidade. 
Senhor dessa poalha universal
Superficial sem ter nem idade
E desconhece quanto é real...

A cujas sombras, pra lá da cortina
Diz o que a humidade lh'ensina!

Joaquim Maria Castanho  
Com foto de Elie Andrade

7.13.2018

LUÍSA GRANDE, uma das primeiras sócias da Associação de Defesa dos Animais





"[A escritora LUZIA que, curiosamente], embora herdeira de considerável fortuna a vida nunca lhe terá sido fácil e, após se ter casado em 04.04.1896, é obrigada a divorciar-se 18 anos mais tarde, em 14.12.1914, com o património lapidado, é certo, mas não tanto que a impossibilitasse de deixar em testamento consideráveis bens patrimoniais aos seus empregados e empregadas, amizades e instituições benfeitoras, incluindo a Associação de Defesa dos Animais, da qual foi uma das primeiras sócias, demonstrando a sua natureza de filantropa empenhada." 
JOAQUIM MARIA CASTANHO

A oralidade e teatralidade do discurso de LUZIA




"Tenho para que a sua escrita, [ a escrita de LUZIA], marcada por uma forte oralidade como por uma intensa teatralidade, se consolidou muito antes de ir para o Colégio das Salesas, aos 15 anos, em Lisboa, mais precisamente quando de uma das janelas da casa de seus tios, via sair e entrar as pessoas no Teatro Portalegrense, que lhe ficava defronte, e mesmo por algumas peças que aí terá assistido, apetrechando-a daquele olhar crítico mas enternecido, sofrido mas igualmente divertido sobre os outros e si mesma com que efabulou as comédias do mundo." 

in JOAQUIM CASTANHO, revista PLÁTANO, primavera 2012

A VERDADE rima sempre com a ETERNIDADE





VERDADE RIMA SEMPRE COM ETERNIDADE...

Que se há soluções não dissolventes
Contratos de vida, sentires eternos
Nas gentes e suas almas imortais, 
Laços, pactos nos dares a que nos dermos
Quaisquer que sejamos entr'os demais, 
Então é porque oceânicas estrelas
Bailam, riem e retouçam enleadas
Nas ondas dos teus cabelos; e vê-las
– Ora sim, ora não, esconde-esconde, 
Pêndulo que marca ritmo – cativadas
Sob luz que a distância não apaga
É outro sangue a pulsar do coração... 

É uma fraga que liberta e traga. 
É uma primavera em cada verão. 
É uma tempestada sem ser plo clima. 
É um grito que não diz seja o que for. 
É só um princípio de eternidade. 
E é uma Paixão sem ser por amor. 

Ah! E já me esquecia, é verdade: 
É desejo de... – PARABÉNS, minha prima!!!

Joaquim Maria Castanho  

7.09.2018

LUZIA reeditada quase 100 anos depois...




OS QUE SE DIVERTEM, primeiro livro de LUZIA, pseudónimo de Luísa Susana Grande de Freitas Lomelino, nascida em Portalegre mas falecida no Funchal, é a primeira parte de COMÉDIAS DA VIDA, secundada pelo livro RINDO E CHORANDO. No seu interior há textos (diálogos) que já foram teatralizados para rádio, além de muitos apontamentos (ou crónicas) que retratam o Portugal cosmopolita da segunda década do século passado. 

6.22.2018

NÃO SEI ONDE




NÃO SEI ONDE...

Procuro o teu sorriso, o teu olhar
Lá, não sei onde... 
Como se fosse o sol a esgarrar
O folhedo, de fronde em fronde. 
E assim, nesse preparo 
Nem reparo quem repara em mim; 
Que o sol à sombra esconde
Tal como o teu sorriso, o teu olhar
Que insiste em perdurar
A brilhar por entre qualquer fronde
Vindo... Vindo... Vindo... 
Lá, não sei de onde! 

Joaquim Maria Castanho
Com foto de Elie Andrade

6.20.2018

OS QUE SE DIVERTEM - A COMÉDIA DA VIDA





Já está à venda o livro da autora portalegrense LUZIA, pseudónimo de Luísa Susana Grande de Freitas Lomelino, OS QUE SE DIVERTEM - A COMÉDIA DA VIDA, que teve a sua primeira edição em 1920, a segunda sem data explícita e a terceira em 1929. Eis como ora se apresenta ao público...  

LUAR JOANINO




LUAR JOANINO 

De imaterial mas humano
E das profundezas das almas,
Só o divino mas profano
Sentido com que me acalmas
Dia a dia, mês a mês, ano a ano...

Que a vida pulsa sempre, é constante
Crescer lunar, círculo imenso, ímpar 
Feito já da imagem desse amante
Que se vê no tempo, quando quer casar.    

Joaquim Maria Castanho 

6.18.2018

A DOR TAMBÉM SOFRE




169. 
QUE A DOR TAMBÉM SOFRE   


Há um sofrimento infinito
Plo deslizar manso na água
Com que o sonho cala o grito
Com que o grito cala a mágoa. 


E nesse círculo tão fechado
Quase onda que pedrada deu, 
Fica o que é belo maculado 
Por quem ao ódio dum odiado 
Com outro ódio maior respondeu. 


Qu’esquece o que ninguém esquece
Nem sequer quando bem aflito: 
Que o amor por quem não merece
Só causa dor, só causa atrito… 

– E sofre a dor mais do que eu 
Que de todos sou quem mais sofreu!

Joaquim Maria Castanho
Com foto de Anabela Pereira

6.14.2018

QUANDO O SENTIR É PURO




QUANDO O SENTIR É PURO

Líquido instante esse
Em que penso... 


                                 de repente
O sonho aflora, desce
No trânsito fluente, 
E seguro, mas constante
Grafa granito no muro,
Numa linha diamante
Do cristal da tarde, ente
Dourado e transparente:
Amor queima mas não arde.

Joaquim Maria Castanho
Com Foto de Anabela Pereira

6.11.2018

PRINCÍPIO E FIM




167.
 PRINCÍPIO E FIM 



Sutil aflorar não é falta de paixão… 
Nem que nela há menor intensidade; 
O amor impõe cuidados ao coração 
– Subscreve sutileza à sensibilidade. 


Fulgor exige doçura, moderação… 
Sequer indica definição d’idade, 
Mas antes explica por que à intenção 
Andam coladas a razão e verdade. 


Já em mim, se exalto nobres valores
Basta-me ver-te pra desde logo sentir
Quanto amor por todas outras flores
Já senti aos pouquinhos, sem explodir,
Sem m’estrondar corpo e alma num vulcão
Que acorda… – liberta lavas de paixão. 

Joaquim Maria Castanho
Com excerto de foto de Anabela Pereira

6.07.2018

OMBRO COM OMBRO




OMBRO A OMBRO

Quando a sombra desliza perturbante
Ombro a ombro vem sem ferir, magoar
Entre as frestas da penumbra secular,
É a fantasia de um sonho distante
Esboçando promessa de lesto chegar.
É a magia do desejo traçando secante
Ao interno novelo que enleia as preces,
Transformando o longe num instante
Em que te fazes autêntica... E apareces.
É o fulgor dum flashback desejado
A enobrecer a realidade, pondo amor
Inesperado no acaso tornando torpor...
Mas também é o semáforo apagado
Frente à zebra que queres transpor
E que à ousadia sempre aplica temor, 
Empresta a cada jeito ensimesmado.

Joaquim Maria Castanho
Com foto de Elie Andrade

6.05.2018

BANCO DE SOBRA




BANCO DE SOBRA

E como tudo se disse já, 
Ou tudo já se fez também...  

... Mas a felicidade está
Em nos sentarmos tão-tão perto,
Que fique metade deserto
Mesmo que não venha mais ninguém!

Joaquim Maria Castanho
Com foto de Elie Andrade

MEU PÃO PLURAL




166. 
MEU PÃO PLURAL 



Mergulho em recordações… 
Abro a voz pra respirar-te.
Redesenho-te por secções
Onde as partes são ambiente
Unidas até serem arte, 
Sentidas até serem gente. 



Não há mar que te desconheça
Não há céu que te não cante, 
Nem sentir que te desmereça
Nem amor sem ser de amante. 



Esse ora assim destilado
Serenidade (e exatidão),
Quase afeto amassado 
Com o cuidado de tua mão 
Que assina por bem, no final
O teu olhar, meigo e plural.

Joaquim Maria Castanho
in REDESENHAR A VOZ  (Pág. CCXIV) 
Com foto de Elie Andrade

6.01.2018

TEU ADEUS




165.
TEU  ADEUS


Tu, só tu
Tormentas paras, derrocadas escoras. 
E posso dizer que teus olhos são meus?
Posso aferir quem sou de quem em mim vês? 
Ontem passaste apenas uma vez… 
Mas duraste vinte e quatro horas. 

Dormi toda a noite com teu Adeus! 

Tu, só tu
Suport’as toneladas de esperança
Que há no sonho e só o sonho alcança. 
E posso dizer que teus olhos são meus? 
Ontem sorriste, e fui criança… 


Dormi toda a noite com teu Adeus! 

Joaquim Maria Castanho
Com foto de Elie Andrade

5.30.2018

ROSMANINHO NACIONAL




164. 
ESTE ROSMANINHO NACIONAL 


Snifei rosmaninho… 
Snifei rosmaninho… 

Pla moldura da janela
Bem no meio do caminho
Vejo sonho, o rosto dela
Jeitinho de Cinderela
Meigo lindo sem igual
Todo feito do carinho
Como só há em Portugal. 

Snifei rosmaninho… 
Snifei rosmaninho… 

Mas não misturei alecrim 
Para não meter no ninho
Quaisquer restos de mim
Menos dignos menos leais
Que aos olhos do mundo
Possam sugerir desditas
E coisas essas que tais
Tão fatais parasitas
Qu’iludem o povo plural
Como só há em Portugal.  

Joaquim Maria Castanho

(Nota desnecessária: Planta por cuja ação antiespasmódica e anticancerígena, pode também ser utilizada para dificuldades no sono, problemas de circulação, prevenção de doenças degenerativas e tratamento de enxaqueca. Ou seja, não obstante o valor, ninguém dá nada por ela.)

5.29.2018

LÂNGUIDO VAGUEAR




163. 
LÂNGUIDO VAGUEAR 


Atraso o passo, retardo
Fitando teu voo e crer, 
Nascida espera ardo
Flama que clama a crescer
Mas nada digo, divago
Vagueio, tronco sem rama
Na chama desse enleio
Na calmaria dum lago. 

Joaquim Maria Castanho
in REDESENHAR A VOZ (Página CCXI)
Com foto de Elie Andrade 

5.28.2018

O TEU OLHAR DEU-ME UM NÓ




162. 
O TEU OLHAR DEU-ME UM NÓ 



Quando teu olhar me falta
Eu fico sem jeito; 
Ando à toa e na malta,
E doi-me o peito. 
Sinto as sílabas trocadas… 
Até perco a razão;
Ando onde não há estradas, 
Ardem-m’as solas no chão. 
Era coisa qu’eu não sabia…
Não se aprende fácil; 
Aprende-se no dia a dia, 
Mal o sentir é ágil. 



Comprar ajuda a (a)pagar. 
Não há mal nenhum nisso… 
A eternidade pod’estar 
No nosso compromisso: 
Podemos crescer como um só 
– Tu serás mãe, tu serás avó.  

Joaquim Maria Castanho
Com foto de Elie Andrade

5.27.2018

BREVIDADE NÃO SEPARA




161.
A BREVIDADE NÃO SEPARA



Quem poderá aproximar-se de ti
Sem te amar é pecado enorme
Que o sonho nunca para nem dorme, 
Faz o seu agora em qualquer aqui. 
Tece enredos onde também teci
Arranja encontros que o conforme
E desce às sombras mais secretas; 
Os teus olhos são mágicas setas
Que fitam na metamorfose a vida
Não quer saber s’é curta ou comprida
Abre sinais já por si abertos
Omite os longes e fá-los pertos
Mas tão perto e tão próximos assim
Tal e qual tu estás hoje em mim.

Joaquim Maria Castanho
Com foto de ELIE ANDRADE

5.26.2018

REGISTO LAVRADO

160.



REGISTO LAVRADO


Pisa 
Pisa em mim, que eu mereço
Acelera bem na minha dor
Que a palavra, se a exerço
Também fere com amor; 
Visa 
Com aviso, se estremeço
Na côdea tostada, a pele
De tua voz redesenhada
Quase crosta, líquido mel
Que reservo prà madrugada
Em que ficas acesa em mim, 
Ângulos feitos de nada
Para a redondez, enfim
Arestas polidas da paixão
Preto no branco, já assumida 
– Coração qu’abre o coração
E mete lá a chave da vida.

Joaquim Maria Castanho
Com excerto de foto de Elie Andrade

5.24.2018

AGUACEIRO CÍCLICO




CÍCLICO AGUACEIRO 

E me reergo das nuvens cinzentas
Qual gota transparente, vertical, 
Que lenta cai entr'as demais, lentas
Até ao grande oceano do plural... 

Porém, logo, de pronto, a impressão
Vincada, escorreita, vivaz, febril
Que há nessa água de águas mil
A líquida solidão desfeita
À espreita por se ver primaveril. 

Joaquim Maria Castanho
Com foto de Elie Andrade

5.23.2018

INCONFORMADO LAMENTO




159.
LAMENTO INCONFORMADO


Ela me castigou por algo que não fiz
E pedir-lhe perdão não adiantará, 
Pois até já o seu castigo eu quis 
Mais que às benesses que outrem me dá…
Que tudo na vida me falha por um triz, 
Nada contenta, nada luz, tudo é vão, 
E me arrasto plas horas escrevendo a giz
Nest’alma ardida, condoído coração.

Sofro, só a recordação me ampara.
Só a solidão me escuta, me entende;
Só nela é meu teu rosto, tua cara
Esta chama que só teu olhar acende.
E mais que astros, o céu, a lua
Só uma voz nela me brilha… a tua!

Joaquim Maria Castanho
in REDESENHAR  VOZ, página CCVII

5.22.2018

RECORRENTES E REDUNDANTES




(RE)CORRENTES E REDUNDANTES

Nesta redundância, sem ideais
Do querer ganhar o seu tostão, 
Há muitas pessoas, bem normais
Que não sabem a diferença que há
Entre o logo e o já, 
Entre o sim e o não!  

Joaquim Maria Castanho
Com foto de Elie Andrade

5.21.2018

SOLUÇO




SOLUÇO 

Viver é habitar num lago de escombros, 
Um emergir escorrendo água dos ombros; 
É um sacudir da aspereza e da fadiga
Ainda que me ande a Musa a monte
E não haja nada que diga, 
Não haja nada que conte... 

Joaquim Maria Castanho
Com foto de Elie Andrade

5.18.2018

SONHO TÁCTIL




157.
SONHO TÁCTIL


Quando passas a conduzir 
E, parece, nem sequer me ver, 
Vejo minha esperança a ruir
Sinto o meu coração a doer
No seu inesperado sentir
– Quase abalo ou sismo ser… – 
Onde o chão, a terra a fugir, 
Tem sulcos d’algodão a escorrer
Tem versos de paixão a contrair 
Plo bailado do teu cabelo
(Dlim-dlão, dlão-dlim), qual pêndulo 
Do compasso a marcar-me assim
Num fogo tal, e só por vê-lo, 
Que sonho por tocá-lo, enfim!

Joaquim Maria Castanho
in REDESENHAR A VOZ

5.16.2018

A ALEGRE PASSEATA




PASSEATA ORGULHOSA

Mesmo que a esperança seja turva
E houver insegurança, estagnação, 
Ou se ziguezaguei curva ante curva
Para não patinar num oleoso chão,
Se disser as estrofes, sigo adiante... 
Se a poesia consentir, cuido de ti... 
E entre nós, o futuro, já radiante
Segue-te pelo presente que escolhi. 

Que este navegar sobre os escolhos
Bem para além do longe e do distante,
Traz a alegria escrita em nossos olhos
Quando a vida de confiante... sorri. 

Joaquim Maria Castanho
(Foto: ELIE ANDRADE)


5.13.2018

ABRAÇO ESSENCIAL II





ABRAÇO ESSENCIAL II

Aposto-m'em cada passo
Na procura do teu olhar, 
Refletido nest'abraço
Que ninguém poderá julgar
Sem deturpar a imagem
Em que a água acredita, 
Exilando-a da margem
Onde bate extasiado,
– Porque em febril cuidado –
O coração que a edita. 

Joaquim Maria Castanho
(C/foto de Elie Andrade)

5.11.2018

DEPOIS DA FALA




DEPOIS DA FALA 



Ondula, baila, baloiça
Oscila um ósculo lunar 
– Digo-o pra que ninguém oiça… – 
Num brinco que me faz baloiçar. 


Qu’isso que a fala aprende
Mal a língua nos pronuncia, 
É um ósculo que nos defende 
Das agruras do dia-a-dia 
Mesmo que não seja tão real
Como o sonhámos tanta vez
É ideal que à vida prende
Quem oscila, balança, porfia; 
Quem baloiça assim todo o mês
Entre o menos bem e o menos-mal. 

Joaquim Maria Castanho

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

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Escribalistas é órgão de comunicação oficial de Joaquim Maria Castanho, mentor do escribalismo português