4.20.2017

TONHO TALEGO




TONHO TALEGO

Tonho Talego era brigão e berrava lá no Sítio de Casal
Parado na minha terra do Tonho Talego, porque ele, sabem
Nunca debitou sentenças na televisão e podia berrar
E o Sítio era dum brigão, que era ele a sitiar. 

Às vezes, à tarde, em verões escaldantes, sentava-me
Na parede à beira do alcatrão apenas para o ouvir
E ele gritava e dizia que havia de a matar, que ela era
Uma puta, uma puta!!!, e ela era só a mulher e mãe
Dos filhos dele, mas ele não queria saber disso, 
Queria era o dinheiro dela para beber mais uns copos
De branco (jamais conseguiriam que mudasse prò tinto)
E poder jogar uma bisca de soldado, e ter motivos
Para discutir com outro qualquer
E esquecer-se da mulher.
À noite, madrugada fora, iria roubar que comer de dia
E os donos das hortas sabiam que ele os roubava
Mas não queriam saber, nem se importavam,
Pelo que Tonho Talego morreu sem nunca ter pedido
Nunca ter implorado nada a ninguém. 

Viveu miserável e só foi ao médico uma vez 
Em toda a vida, quando foi às sortes, nem estava doente
Que só adoecia quem podia naquele tempo. 
Tinha uma mesinha pra todo o mal, dizia
(Comprimidos de virar a mão e vacinas contra o teto)
A aguardente bem forte, que o grau é doutoramento
E até patente que tudo cura, febre, dor no dente
Fraqueza no tino ou estranhamento das ideias. 
Aos quarenta anos parecia um velho e era velho
Até era o mais velho da família dele, porque durara
Não muito mais que isso mas também poucos mais havia
Assim, tão duradoiros, depois do sol-a-sol e lambugem
Chilra pra não perderem a linha e ligeireza. 

Nunca lhe faltou a foiteza, nunca arrepiou caminho
Todavia se nunca torceu não o fez por razão nem certeza
Mas por desfastio e teimosia, que quem não sabe pra onde vai
Qualquer trajeto é perfeito. 

Tonho Talego morreu cedo, que agora é que ele havia de ser
E sentir-se como peixe na água com que os sapos cantam
E as dobradiças enferrujam. E é pena, pois dava-nos jeito
O seu jeito de ser, para explicar às crianças 
Como se não deve ser nem estar e muito menos fazer.

Creio até que é por estas ausências que a imaginação,
A criatividade, a ficção mais se justifica nestes dias...

Joaquim Maria Castanho 

4.19.2017

ASPEREZA DESPERTA

  


ASPEREZA DESPERTA

Estamos quase dispostos e intercalados
Como sujeitos sem verbo (conjugável),
E nesse chão, os silêncios amontoados, 
No pleno diverso que eles próprios são
Escrevem o futuro que, ainda visitável, 
Faz parte do roteiro doutra dimensão…  

E se tivemos sorte, não o reconhecemos; 
Se já pedimos para ser ouvidos, só o olhar
O testemunhou; mas temos e não temos
Todas as condições essenciais para o voo
Que nos traga de onde nunca fomos, sequer
Nem nos interesse de nada saber, nem ficar
Arriscando perder também tudo que houver
Pra perder, apenas pla esperança de ganhar.

Somos a abertura determinada, essa fresta
Ínfima que há entre o todo e qualquer nada, 
Com que a aspereza desperta nos empresta
A beleza do que é rude, e passos à estrada.

Joaquim Maria Castanho  

4.18.2017

RIMANDO SE PERSCRUTA




A RIMAR SE PERSCRUTA 

Nasceram-me novos cuidados
Sob tua voz, teu líquido olhar
Ante meus olhos e devoção
Que, das margens, aguados
– Místicos e em tua atenção –
Me pedem sôfrego naufragar; 
Sucumbir à profundidade
Do soluto d'água marina
Que espelha os encantados 
Pulsares e sentir de Arina; 
Sentires de estrela a pulsar
Na latência da esperança
Com que as brisas fazem dançar
Folhas viçosas e salgueiros, 
Tremido oscilar que alcança
Esse poder que vem de cima
Sobre os regatos e outeiros
Dando-lhes o cristal da rima… 

Nasceram-me novos cuidados
Já tão há muito por nascidos, 
Que os olhos aos teus colados
Rogam pra que sejam ouvidos.

Joaquim Maria Castanho

4.16.2017

É DIFÍCIL DEIXAR DE GOSTAR DE TI




DEIXAR DE GOSTAR DE TI É DIFÍCIL 
(MAS NÃO É IMPOSSÍVEL) 

Deixar de gostar de ti não é fácil
E só tentar atira-me pró buraco
Deixa-me zonzo, põe-me tão frágil
Suja-me a alma, e fico num trapo
Amarfalhado, a bater mal, ser vil
E tirano nos afetos e no trato
Com os demais, excravo de abril
Qualquer coisa abjeta no exato 
Ponto d'além de velho ficar senil.
Sim, desta vez é que não me escapo
D'esgotar todas as minhas reservas, 
Ficar c'a resiliência num fiapo
E dias como noites, só de trevas.
Hei de ir prà  pândega, hei de curtir
Tapar o céu, aproveitar o contato
De quem se ligar na minha, der o salto
Prò prado florido, e ser primaveril
Mesmo na ventania e chova a rodos,
Hei de andar na roda com todas e todos. 


Não é fácil sei, mas hei de conseguir
Já que é isso que me resta e queres, 
Enfim, se pensar em ti, hei de sorrir
E hei de exclamar: «Ora… – Mulheres!»

Joaquim Maria Castanho

QUANDO ÉS A INEQUÍVOCA INSPIRAÇÃO




QUANDO ÉS INEQUÍVOCA INSPIRAÇÃO…

Ao recortarem-se no céu adverso do circunstancial azul, 
As verdes ramadas dos salgueiros (bíblicos e distintos)
Escrevem-te serena na memória desse instante, subtil
Tal como te encontrei na manhã de todos os infinitos
Ali, já quase inacreditável, quase silhueta inesperada
A trabalhar num dia feriado, logo dedicado às famílias, 
E foste visão, Maia ou Arina, das princesas encantadas
Gomo de responsabilidade avançada pla emancipação
Consciente de ti, resistente de nós, de Senhora gentil 
E segura que não atira a toalha ao chão e quer ganhar
Vencer porque sim, sabendo que nunca há ser tarde 
Mesmo que haja incertezas e abriladas incandescentes; 
E que todos os dias serão só os nossos perfeitos dias
Inequívocas inspirações da vida real pra reais poesias.

Joaquim Maria Castanho

4.14.2017

A FLOR DA ESSÊNCIA SEM ILUSÃO




A FLOR DA ESSÊNCIA SEM ILUSÃO

Se não pensar em ti não fosse crime
Eu não pensaria, nem me permitia
Procurar-te todos os dias, sentir-me
Em missão ética a favor da poesia
Combatente, monge que se redime
Dessa misoginia em que vivia
Como se fosse uma santa bênção
Ou existência elevada e sublime… 
Como se fosse, mas não é, certamente
Porquanto abençoada, de verdade, 
Só há no real, no campo, cidade
Teu jeito de Musa mais que gente
Mais que deusa natural, condição 
Essencial pra viver sem evasão! 

Joaquim Maria Castanho

O ANSEIO DE VER




O ANSEIO DE VER

Conjugo todos os verbos como rios
Que vão desaguar naquele estuário
Onde a maresia fecunda os navios
A lua é uma sombra que te imita
Um esgar que se esvanece e fita
Horizonte do real prò imaginário
Lá, atrás, nos dias longos, solitário
Se guardei o sentir incendiado
Após o primeiro dia em que te vi
Segredo tangente, resvés à fala
Como um constatar que nos abala
Nos joga prò turbilhão do indizível
Negando o que já sentíramos até aí,
Até então, mesmo até a essa hora
Até ao derradeiríssimo momento
Origem da tristeza e do contento
Detonador d'explosões universais
Que fazem com que o que antes fora
Sim, a partir daí, não o seja jamais
E passe a ser outra coisa qualquer
Perdendo o que poderia ter sido
Pra ser só pleno acatar do que vier…
Sofreguidão sem ter nada a esperar
Além dessa união que os verbos têm
Quando encontraram também alguém
Com arrebatado desejo dos conjugar. 

De os aceitar tal e qual querem ser 
Quando são esse seu único meio 
De serem já o espelho do meu ver
Se és quem vejo… – e por ver anseio!

Joaquim Maria Castanho

4.12.2017

RETRATO SOB ROSTO SUBLIME




RETRATO SOB ROSTO SUBLIME 

O vento manso afaga nubente
Os brotos, rebentos, folhas viçosas
E acaricia a pétala fremente
No veludo dos lábios nas rosas
E papoilas, princesas dos trigais
Com que as brisas enleiam (charmosas)
Os suspiros da luz por outros ais, 
Outros sulcos pelo chão desenhados
Arados com esses olhos infinitos
Onde guardo os meus cuidados
Íntimos ecos, os secretos gritos
Abertos como sílabas fulgentes
Na plástica das searas e montados 
– Esquissos d'Alentejo e suas gentes. 

Joaquim Maria Castanho

4.10.2017

CRER É REALIZAR




CRER É REALIZAR 

Se tanto Eneias como Harmonia
(Descendentes de Vénus e Adónis)
Souberam os prazeres d'alegria
Gerados por palavras e gestos gentis, 
Então, porque fico eu com teu «Bom dia!»
Assim suspenso do que tua voz não diz
Mas só anseio ouvir, em sintonia
Entre as idílicas frondes e a raiz 
Desse sonho que nem em si repara
Quando lhe passo rés o ar me falta
O chão me foge, a vida pára… 

Será porque todo o tanto é tampouco
Que o espanto o atrai e impele
'Té ver o mundo virar insano e louco
E a luz brotar do sol em fios de mel? 

Pois, se tal for, e verdade houver
Se saiba aqui e galáxias em redor
Que nada se cria nem faz sem amor 
– Do chiar da roca ao voo do Condor; 
Desd'a magia macia que a seda tiver
À magia do malmequer e qualquer flor –, 
E qu'esse sentimento nunca é vão
Mesmo quando parece ser paixão
Tão arrebatada que nos ata e requer
Mais que a humana força permite
A morte julga, e o fogo omite, 
Azar esvaneça, o pulso governe,
Melhor ou pior qu'ao poder concerne,
Só terá uma dona e nome: o teu… – Mulher! 

Joaquim Maria Castanho

4.09.2017

SEGAR (CONSEQUENTE) E SEGURO




SEGAR (CONSEQUENTE) E SEGURO

Atraso-me nas circunstâncias
Como um advérbio à deriva
E trago na mochila infâncias
Crestadas na teimosa porfia
Como de propósito cultivadas, 
Sem subterfúgios nem esquiva
Voz que das nuvens fez estradas
Tornadas ínfimas pelo meio-dia
– Entre o cativado e a cativa.

Não dou ao nó o que o aperto pede
Pois não há soluções apressadas, 
Que o que é feito à pressa cede
Mostra as costuras, sucumbe aos nadas; 
Agrava por alívio (precoce), 
Adultera qualquer objetividade, 
Apodrece antes de ganhar doçura, 
E tanto quebra como torce. 
Que sentir é tal e qual o sorriso
Esse mesmo, o teu, de que preciso
Se espontâneo, exato, natural
A escrever na alma o plural
Com tinta mágica e pura. 

Tinta que é tinta branca na brancura. 
Tinta que é tinta negra na negrura. 
Mas própria prà grafia de quem sente, 
De quem habita sonho consequente –
E até seca a própria secura. 
E até sega quanto procura. 

Joaquim Maria Castanho

4.08.2017

NA BIFURCAÇÃO DAS RAMAGENS




DA BIFURCAÇÃO DAS RAMAGENS

Cada árvore carrega a história
Que a memória da voz celebrou, 
Cujos brotos são nova vitória
Que a História por nós hasteou… 
Bandeiras desta vida sensória
Nós de emalhados tons e glória, 
Gerando gerações a germinar voo
Que é gerar que a si mesmo gerou. 
Que eclodiu na voz de sermos sós
Foz e rio igualmente nascido
À volta do ser pra ganhar sentido
Nessa navegação em cascas de noz
– Qual grito que se parte ao meio, 
Pra ficar sujeito, trama e enleio.

Joaquim Maria Castanho

4.07.2017

CAPITULAÇÃO




CAPITULAÇÃO 

Se chego te nomeio
E cego me entrego
Ao teu trago bem cheio, 
Que do sentido prego
Trago de nobre enleio…

E mago imagino
Que chego logo cego
Pra ficar de permeio
Entre este que trago
Nobre sentido cheio
E quanto tragueio 
Já do doce enleio… 

– E só a ele m'entrego!

Joaquim Maria Castanho

4.06.2017

MEU CREDO, MINHA LEI




MEU CREDO, MINHA LEI 

Dilui-se-me a alma já por pensar-te
Horizonte estendido pra lá do lá, 
Que a fonte é teu querer nesta arte
Onde me sou, se vida em nós está, 
E tu és a imperativa imensidão
De "sofreguir" os verbos dess'além-cá
Do corpo, órbitas da sorte e parte
Da fé n'A sol, infinito mel que há
Na serena luz, se desfaz a ilusão
Sem omitir o sonho do sim, nem do não… 
Porque a voz, se tua, é A lei minha
Crente num ente, de cuja vontade
É igualmente o nó dado, e a linha
Que aprende o pulsar da liberdade. 

Joaquim Maria Castanho

4.05.2017

CORAÇÃO BÁRBARO E SANDEU




CORAÇÃO BÁRBARO E SANDEU 

Meu coração inquieto
Esteve hoje tão perto do teu, 
Que me arde no fogo esperto
De consumir-se plebeu –
E cativo da suserana
Qu'emana do céu que me teceu. 

Esteve tão perto d'arder
Consumir-se nessa chama, 
Em que viver só é viver
Se inquietude de quem ama 
– Que bárbaro já não é meu
Mas sandeu que me reclama. 

Meu coração afogueado
Saltou bárbaro e sandeu, 
Apenas por ter estado
Hoje muito perto do teu; 
Que o siso me é queimado
No fogo em que ele ardeu
– Anseio, céu espelhado, 
Alma me deixou em chama, 
Inquieto o  coração plebeu
A consumir-se porque ama
Já a suserana que o teceu, 
Que sendo meu já só é teu.

Meu coração inquieto
De bravo no fogo esperto
A consumir-se me ardeu, 
É cativo porque já ama
Essa pura e viva chama
Qu'emana da suserana
Por quem é bárbaro e sandeu. 

Joaquim Maria Castanho

4.04.2017

DO PARDALITAR DOS PINTASSILGOS





DO PARDALITAR DOS PINTASSILGOS 

Conheço, dos pintassilgos um casal
Que parece que pardalitam como qualquer pardal… 
Namoriscam e constroem o ninho
Em seu vaivém regular, 
Nas árvores, à beira do caminho
Como se fossem prédios de andar
Sobre andar; 
Apartamentos para novos casais, 
Singelos e pequenotes, 
Que não deve haver verba pra mais. 

A brisa areja-lhes as janelas
E as ramadas laterais, 
Sem patins nem escadotes, 
Que quem voar entra nelas
Sem carecer doutras portelas, 
Frontispícios ou umbrais.

Ele canta – é um janota! 
Fadista da marcação cerrada… 
Ela, faz a obra, acarreta materiais, 
E tão-pouco se importa
Que o parceiro não faça nada. 
("Pelo menos, não atrapalha", 
Deve pensar, se calha…) 

Que suponho ser isso que faz
Ao andar dum lado prò outro
Quando nem uma palhinha traz, 
Embora tenha muito bom corpo
Para ajudar a companheira
A construir a morada
Para essa nova ninhada
De sua própria sementeira. 

Ele há casais curiosos! 
Sim, senhora… Essa é que é essa! 
Mas mesmo se se debicam (amorosos)
Não demonstram nenhuma pressa – 
Vão e vêm, vêm e vão, e, volta e meia
Se um estende linha o outro enleia, 
E dão-se um pouco mais de atenção… 
Quer dizer: coisa e tal… 
Como faria qualquer pardalita com seu pardal! 

Joaquim Maria Castanho

4.03.2017

MAS... MAS... MAS... MAS...




MAS… MAS… MAS… MAS… MAS…  

Mas já me dança a alma agora
Por uns olhos que não esqueço, 
Tão lindos, que até dói por fora
Não saber s'ainda os mereço, 
Que do quanto na vida tem
Ou me deu, já a eles ofereço
Tudo, e tanto dela houver bem
Só por eles imploro e peço… 
Não o perdão, que ninguém pecou; 
Não desculpas, que não as há já. 
Só voltar a vê-los, sentir o voo 
Do sonho, que por eles está. 

Me dança ora a alma noutro tom
Que nem sei s'errado, se certo;
Apenas que vê-los foi tão bom
Que quero vê-los mais perto. 

Joaquim Maria Castanho

4.02.2017

TOSSE DE INANNA




A TOSSE DE INANNA 

Quem foi a bela
Que tão belamente tossiu? 
E, porque sendo ela
Assim, tão bela
Ninguém mais a ouviu 
– Como eu ouvi?

E eis que a tosse se repete… 
De uma vez até sete. 
Então, de imediato a reconheci. 

– É Inanna –, digo aqui.  
E a tosse fugiu!

Joaquim Maria Castanho

3.31.2017

A MOTIVAÇÃO PRIMORDIAL




A MOTIVAÇÃO PRIMORDIAL 

Agora vi o quem em ti sei... 
Porque nos escolhemos? 
Porque te escolherei? 
Porque a vida nos escolheu? 

Porque, para quando perguntar
Aos filhos e filhas que tivermos
Quem tem a mãe mais linda mundo, 
Eles e elas respondam, sem hesitar
Sequer um segundo
Saltitando e com os dedinhos no ar
« Eu! » « Eu! » « Eu! » « Eu! » 

Joaquim Maria Castanho

3.10.2017

NUNCA SABEMOS TUDO




NUNCA SABEMOS O SUFICIENTE

Há muitos caminhos a percorrer,
Há muitos sinais que não sei.
Não posso magoar ninguém
Antes de chegar junto a ti. 
Se estamos perto de nós
Vemos como já não estamos sós… 

E se às vezes fico parado e mudo
É por ser aquele que não sabe tudo.

Joaquim Maria Castanho

AS TRÊS REGRAS BÁSICAS




AS 3 (TRÊS) REGRAS BÁSICAS DA SÃ CONVIVÊNCIA MATRIMONIAL

1ª - Ela é quem manda. 
2ª - O homem obedece. 
3ª - Em caso de dúvida, fraca lucidez ou esquecimento, prevalece sempre a 2ª (SEGUNDA) regra. 

Joaquim Maria Castanho. 

ISTO NÃO É UM POEMA

ISTO NÃO É UM POEMA

Naquela oliveira velha com rebentos  
Novos, junto à estrada da casa quatro, 
Ao passar, olhei para ela… 
Um par de pintassilgos acabara de pousar. 
Era quase capaz de jurar
Que havia ali alguém naquele par
Que nascera no ninho frente à minha janela
Naquela árvore quixotesca
E que tanta preocupação me deu
A primavera passada. 

Joaquim Maria Castanho

3.08.2017

O DESVINCAR DA SOMBRA




O DESVINCAR DA SOMBRA

É como se o vinco da linha se esbatesse… 
A ruga deslaçasse, o caminho voltasse, 
O destino dissesse que tudo acontece
Ao tornar-se laço, a criar alento e espaço
Onde nada se perde nem desfolha –
E a chuva subisse de quem molha… 
E nessa subida te repetisse, te acolhesse
De onde nada desce senão essa benesse
Que floresce em que a merece, só por sorrir. 
O sol é tanto, e os teus olhos a espelhá-lo
Devolvem-me o canto sem o encanto delir
Nem sentir já a mínima vontade de calá-lo.
E se o digo parecendo não o dizer a dizê-lo
É só porque sigo e prossigo sempre a vê-lo. 

Joaquim Maria Castanho

3.07.2017

DIA DA MULHER




DIA DA MULHER

Era bom celebrar o teu dia
Escutando só a tua voz… 
E saber que a poesia 
Era toda gente, incluindo nós.
Atravessar a estrada
Para entrar-te em casa, 
Será uma longa travessia; 
Porém, calculo a chegada
Pelas dez prò meio-dia. 

Nenhum momento tem pressa, 
Nem alguma espera sequer. 
Que só o querer atravessa
Até seu lugar de pertença
Se for também o teu querer.
Se for também o teu dizer.  

Joaquim Maria Castanho

O QUE IMPORTA ENTRE TUDO MAIS




MAIS NADA IMPORTA 

O peito nunca nos engana… 
Tu é que és a soberana
E eu sou teu vassalo; 
Mesmo que erres eu não vejo
– Se desejares, eu desejo –
E em tudo mais 
Apenas calo. 

Joaquim Maria Castanho

3.06.2017

_/|\_ QUE ASSIM SEJA _/|\_




_/|\_ QUE ASSIM SEJA _/|\_ 

As pessoas não são nenhuns pitéus… 
São seres dignos e respeitáveis. 
E ainda que haja recados nos céus
Desfraldando nuvens, agitando véus
Serão sempre íntegra lição de luz e bem
Que em águas puras e saudáveis, 
Cristalinas, o azul celeste é mar também,
E navegar é escrever a liberdade
Com a mesma tinta (seiva) que a vida tem.

Não há pessoas que sejam pra comer
Embora muitas o providenciem até, 
Cujas mãos de fada, cujo mister e saber, 
Cuja magia e encanto, com ou sem fé, 
Emprestam a quanto tocam esse vigor
Melódico e sublime das canções d'amor. 

Joaquim Maria Castanho
(in O Analista de Coreografias)

3.03.2017

CIDADE JARDIM




CIDADE JARDIM

Tenho uma fotografia da cidade
Onde me procuro frequentemente… 
Estava lá nesse dia
Mas não me vejo entre a gente. 

Terei entrado no rio? 
Terei ficado à margem? 
Enquanto escorre o frio
Espero a estiagem. 

Tenho uma fotografia da cidade
Onde me procuro cidadão… 
Mas, pra falar a verdade, 
Não me encontro lá, não. 

Terei esgotado o ser? 
Terei sumido na cor? 
Enquanto me procuro ver
Vou olhando de flor em flor. 

Joaquim Maria Castanho
(in O Analista de Coreografias)

3.02.2017

PLANAR NA SERENIDADE...






PLANAR NA SERENIDADE… 

A brisa respira o próprio dia
Trazendo consigo toda a magia
Que nem o divino ousa explicar,
E explica onde o brilhar ousou
Sentir esse sentido a respirar…

Então, de repente o tempo parou; 
Ficou sem depois nem antes, 
Apenas passagem… instantes
Que ecoam duma só maneira
E se repetem no repetindo
Pelo passo a passo, e subindo
Até à curva derradeira –
Pra voltar à imagem primeira…

O sol elucida, e algo ora flui,
Roda lá no cimo, une em sua eira,
Liga os voos somente num voo; 
E o que era ímpar, par se tornou
Como quem deserta do que fui.

Joaquim Maria Castanho

3.01.2017

LIMITE INTRÍNSECO




LIMITE INTRÍNSECO 

Deslizam nas horas tidos sentidos
Quase a tornarem-se sentimentos, 
Feitos da luz que nos momentos idos
Se fizeram no deveras de uma arte… 

Pra mim são o todo, mas se te encontram
Se dividem, e divergem, ou somam…
E jamais irão além do ser só parte!

Joaquim Maria Castanho

A CEVADA E O TRIGO




TRIGO É TRIGO, CEVADA É CEVADA

Aquilo que fazes ou fizeres
Sem dizer porque o fizeste
Não significa o que quiseres
Sequer tem significado algum, 
Além daquele que lhe deste: 
Ou seja, absolutamente nenhum! 

Num dia dão-te caixas prò vinho…
No outro "bonita" música te dão… 
Mas como isso não foi explicado
Por que motivos, por que razão
Tudo se terá perdido plo caminho, 
Tudo perdeu "o tal" significado
Pelo qual terá sido inventado…

Só quem é bobinho lhe liga,
Só quem tem mente celerada
Dá à palha o valor de espiga,
Julga o trigo como cevada. 

Joaquim Maria Castanho

2.27.2017

A LENDA DO VASSALO CATIVO




A LENDA DO VASSALO CATIVO 

No reino das cidades maravilhosas
Entre escarpas, entre montes
Havia um canteiro de rosas
Que abarcava três horizontes. 

O primeiro, tocava as frondes 
Da grande árvore das janelas
Que é onde estão todas as vezes de Era Uma Vez
E demais coisas puras e belas
Nascidas dos beijos trocados entre Pedro e Inês. 

O segundo – quase tenho medo de contar… –
Dava para uma ilha de pérolas feita
Das mais apuradas que já houve no mar, 
Que é aonde o sonho espreita
Quando encontra a vida a sonhar. 

E o terceiro, tinha todos os filhos do primeiro, 
Todas as netas do segundo
E ainda mais o resto do mundo, 
Pelo que era um horizonte todo e inteiro
Com nuvens, visões, intermitências 
Credos, artes, ambientes e ciências, 
Com gavetas, prateleiras e estantes
Onde se arrumavam as histórias de até hoje e muito antes, 
Assim como as que ainda faltam contar. 

É nesse reino que eu vivo… 
É ele o meu país. 
E onde exerço o cargo de vassalo cativo
Súbdito do que o teu olhar me diz. 

Joaquim Maria Castanho

2.26.2017

E FEZ-SE LUZ!




RAIO ILUMINADOR 

Virou-se-me a vida do avesso
– Mancheia de gatas num balaio! –
Que dias há em que não só tropeço
Como, mal dou por mim, também caio. 
E fico sem saber onde pertenço
Nas músicas de se entro ou saio
Quando, entrançado, estremeço
Suspenso por esse divino raio… 
Luz que A Deus jorra e aplica
À razão dos que quer fortalecer, 
Que onde Ela se mete não s'explica
Nem nenhum soneto o saberá dizer: 
Assim, como eu, mudei prò Benfica
E não foi só por cansaço de perder! 

Joaquim Maria Castanho

2.25.2017

BUSCA GLOBAL




BUSCA GLOBAL

Procuro, entre as cabeças, e vaivém 
Dessas pessoas do agrupamento
Do momento que me são ninguém, 
Teus olhos de mel de rosmaninho, 
O teu rosto de flor contemplativa… 

E faço-o numa continuidade tal, 
Tão empenhado, tão insistente, 
Numa maneira assaz superlativa
Que já me não basta este Portugal
E nem sequer qualquer continente!

Joaquim Maria Castanho

2.24.2017

ABRAÇO DE ONDA




ABRAÇO DE ONDA

Alargo o passo,
Tenho-te em vista
Que é esse o laço
Em que caio e me desfaço
Pra que nunca desista… 

Alargo o passo
E na areia me derramo, 
Que em cada embate nasço
Nesse estreito abraço
Com que enlaço
E amo!

Joaquim Maria Castanho

ESSÊNCIA QUALITATIVA




ESSÊNCIA QUALITATIVA

Escreves poemas em mim
Onde os versos a brotar
São do veludo e cetim
Que só existem no olhar,
Com as sílabas de mel,
Com as letras de sol puro, 
Que escolheram o papel
De me empenhar sem juro
E a pronto pagamento,
Estrela, voz no escuro
–  Corpo, alma, alimento
Sem conter a veleidade
Doutro desconto incerto, 
Além dessa qualidade 
Que é nobreza e afeto.

Joaquim Maria Castanho

2.23.2017

TARDAR É TENTAR O NUNCA




NUNCA É TARDE

É… as horas resignam-se devagarinho 
Minuto a minuto em cliques cinzentos, 
Espalhando a tarde à toa plo caminho
Para não perder sementes nem alentos; 
Sequer desentorpecidas aspirações, 
Que quem rega as rosas rega espinhos
Pelos caminhos das tardes e dos serões… 

Que o prazer é aquilo que se vai fazendo
Nas costas dos pecados e das confissões, 
Minutos que subindo se veem descendo
Se a tarde se alheia de tardias opiniões.  

Joaquim Maria Castanho 

2.22.2017

HÁ OU NÃO JUSTIÇA DIVINA?




JUSTIÇA DIVINA: HÁ OU NÃO?

O meu poema tem os teus olhos, 
Mas não és tu. 
O meu poema tem o teu rosto, 
Mas não és tu. 
O meu poema tem o teu rabo-de-cavalo, 
Mas não és tu. 
O meu poema é meu, mas tu não. 

Porém, se houvesse justiça divina,
Ainda que fosse infimamente pequenina, 
Deus já tinha corrigido esta contradição! 

Joaquim Maria Castanho

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

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Escribalistas é órgão de comunicação oficial de Joaquim Maria Castanho, mentor do escribalismo português