MARINHO, UM FALSÁRIO NO ALENTEJO
Jorge
Branco
224
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Colibri, julho 2024
Naquele tempo viver dentro da lei era
contribuir para a opressão dos seus vizinhos e familiares. E não cumprir a lei,
desde que fosse para sabotar os desígnios dos poderes instalados, era
considerado um comportamento de lesa pátria ou traição a ela. Mesmo que o
fizessem apenas por dinheiro, coisa apolítica que seria apenas legítima para os
defensores do sistema e ordem pública, para singrar na vida ou sair da
mediocridade e provincianismo tacanho. Pelo que este livro pode ser visto como
uma epopeia pícara de um habilidoso meliante filho de droguista da Outra Margem
à beira-Tejo, e de uma mariarrapaz alentejana, Matilde Maria Palma, uma
criança que prometia dar luta à morte, vaticino que se evidenciara pela
apetência com que se agarrara à teta da mãe na sua primeira refeição fora do
ventre materno, filha de um latoeiro ratinho que se fixou no Alentejo interior,
mais precisamente, em Vale Fundo, concelho de Lorvão, distrito de Portália,
aldeão esforçado e honesto, que morreu num despiste de carroça em má hora.
Ele, Marinho, nome de
guerra do “artista”, Marinho das Meiguices ou Mário
Pinto Castanho, quer
dizer, Mário da Costa Caetano, que
teve como mestre e guru nas malfeitorias tipográficas um tal “Zeca” – velho militante anarquista à beira da
reforma – e por alter ego
Casimiro, não o das imitações é certo, mas emigrante regressado ao torrão natal
para politização das gentes, serviu a pátria que havia de haver com as suas
habilidades e improvisações, tocando saxofone e ajudando mancebos a escapar aos
desígnios ultramarinos do Botas, pelo
menos até 1964, data em que põe os seus talentos dedicadamente dirigidos ao
sistema prisional português, em regime de exclusividade, autenticando-lhe a
garantia curricular de ter passado dos seus 75 anos de vida, 25 anos preso, o
que lhe valeu um estatuto de VIP, ou
pícaro deveras importante e notável
com direito a biografia romanceada editável.
Ela Matilde (25 anos) e ele Mário (de 32 anos), que a
notou quando o tipógrafo com ela
se cruzou pela primeira vez na Pensão
Horas Felizes, onde a “doutora” – e
assim epitetada pelo ancião galego dono do estabelecimento por razões que se
prendiam às suas anteriores funções de enfermeira e “esposa” do viúvo
ginecologista em casa do qual singrara de desde baby-sitter a dona de casa – estagiava para empresária de
restauração empreendedora e determinada, quando ambos rumassem ao Alentejo a
fim de lançarem sementes e criarem raízes prosperando rumo ao futuro que se
materializara com a gravidez dela, em 1964 – que
mais tarde trouxe às páginas almas e corpos gémeos, de seus nomes Raquel e Luís –,
imediata e consecutiva à entrada dele no EP de
Coimbra, estabelecimento onde fora acabar o curso de meliante com currículo
garantido na cidade dos doutores.
Ou seja, a presente novela, obra de Jorge Porfírio Nunes Branco, licenciado em medicina com a especialidade
de medicina geral e familiar (1980), natural da Comenda, Gavião, Portalegre,
autor de diversos títulos de ficção como Comenda com Gente (2015), Histórias
Prisionais (2016), Comenda com História (2018) e A
Quadrilha dos Galhardos e Outros Contos (2023), estando estruturada
como um relatório com itens temáticos faz a reportagem da vida dos dois
personagens principais (Mário e Matilde), de diferentes origens, juntando-os,
propiciando-lhes um ambiente profícuo e recetivo aos seus misteres, onde
puderam coabitar cultivando talentos e vocações, expedientes e saberes fazer,
facilitando-lhes uma família com acolhimento de solos e gentes familiares, sem
recorrer ou fazer-se representar por qualquer narrador, deixando-os vir à tona
da escrita misturados com factos e invenções que lhes abonem os préstimos, para
assim os enquadrar no espaço-quando alentejano mais ou menos dez anos do 25 de
abril até aos dez anos depois da revolução que segundou o MFA – Movimento das
Forças Armadas –, espelhando rituais e tradições, bem
como retalhos da História Local e Regional contemporâneas, além de fornecer
algumas ilustrações da História nacional que o corroboram, em parágrafos de
recheio intencional, em que se vai debitando informações que possam interessar
a quem lê para que reconheça a validade plausível da narrativa. Ao fundo da
qual se vai sempre ouvindo música de intervenção, música popular portuguesa,
sobretudo do José Afonso (Zeca Afonso), do Sérgio Godinho, dos Rio Grande, de
Jorge Palma…
Palimpsesto
inequívoco mas funcional – entenda-se, propositado –, que se serve da
caraterização das personagens para lhes evidenciar o seu lado histriónico,
facilitando assim “ver” como elas são isto & aquilo de acordo com as
circunstâncias do trajeto de suas vidas, que não planearam nem para a qual
gizaram um projeto comum que lhes desse sentido, antes obedecendo-lhe aos
ditames, interpretando independência por emancipação, esta novela é uma obra de
ficção fundamentada, alicerçada, suportada, por referências factuais, cuja
repetida edição vai, pouco a pouco, mostrando a vida dramática e singular das
pessoas simples dum Alentejo inóspito, agreste, primeiro amordaçado e depois
ignorado, em postais ilustrados mais ou menos enquadrados pelas adversidades
históricas, exemplificando como se viveu antes e depois da democracia, entre
telejornais e telenovelas – v.g. baseadas em scripts do Moita Flores, logo do outro lado do grande rio –, que
disputavam o mesmo tempo de antena para conquistar audiências, demonstrando uma
vez mais que as descendências ficam de tal forma marcadas pelas vidas dos seus
progenitores que ao constatar semelhantes dificuldades lhes reagem de igual
maneira, pisando sobre as pegadas que eles deixaram no chão do caminho, cardas
sobre cardas para cardar os mesmos destinos.
Cruzar-se-ão noutras Happy
Hours talvez, residenciais ou bares da moda que sejam, terão dez anos
de antes e outros dez de depois de qualquer coisa, seja do que for, e tanto faz
que estejam politicamente iniciados como não, sejam reais ou de fantasia,
licenciados ou indiferenciados, formadas ou sem formação alguma, o que é certo
é que hão de partir para fazer noutras terras o que se negaram a fazer nas
deles e delas, vivendo de expedientes, cultivando o raciocínio mágico, fazendo
umas coisas para alcançar outras, a fim de voltarem um dia e reconhecerem que
já não pertencem ali, tal e qual Matilde e Mário, ou Raquel e Luís, Casimiro,
Zeca, Vitorino, etc. Serão figurantes ou atores noutras novelas, com Romeus e
Julietas nas costuras, onde os amores nunca acabam bem, sabendo que os palcos iludem
as personagens mas não as mudam no fundamental, no essencial, reforçados no
sexismo
costumeiro, no idadismo usual, e maneiras de estar convencionais.
Isto é, a vida foi o que foi e já não a podemos mudar,
mas é legítimo termos mais conhecimentos do que na altura as gerações
dispuseram, para que possamos tomar consciência dos resultados das nossas
escolhas, pelo que esta novela é uma
ajuda importante para decidir quem queremos ser, sabendo que – palimpsestando
António Aleixo – Prà verdade ser segura / E
haver quem a prefira, / Tem que
trazer à mistura / Muita coisa de
mentira. Porque entre realidade e ficção apenas as datas e os nomes dos lugares
ganham outra configuração. E tudo quanto venha melhorar a nossa capacidade de
decisão face à vida é, não só desejável, como enriquecedor e, algumas vezes,
até divertido: é novela. Pelo que é igualmente um ponto a favor para a sua
leitura. E a torna quase imprescindível se quisermos ser quem somos.