NA JANELA DO
TEMPO
Georgina Ferro
Capa de Raquel Gil Ferreira s/
foto de Abel Cunha
Edições Colibri
234 Páginas
Lisboa, julho de 2024
Os textos simples
são muito complicados. Sobretudo se pejados do linguajar popular das nossas
gentes que, de terra em terra, não obstante o limitado dicionário que
normalmente é apenas composto pelo léxico do quotidiano aldeão, dão aos termos
sentidos práticos e significações diferentes, matizando palavras iguais
conforme o uso que as pessoas e os tempos lhe vieram concedendo. Mas é
exatamente essa alteridade, essa variação, essa cor local, essa
elasticidade, que enriquece a língua portuguesa e nos exercita na capacidade de
raciocínio, associação e entendimento a propósito de quem somos, ou como fomos
evoluindo (paulatinamente, entre dizeres e afazeres. E umas vezes com uns,
outras vezes por outros – ou vice-versa).
Crónicas,
bilhetes, cenas, poemas ou
cantiga, cartas, episódios
campestres, contos – v. g. O Tio Pepe e O Ti
Fernando –, quadros
bucólicos, short-stories,
ambiências, recordações, apelos e regressões, ou invocações da infância,
desfilam ante nós com clareza e bem arrumadas, onde as palavras, incluindo as
de pronúncia mais regional e incomuns para a generalidade dos portugueses, foram
notoriamente escolhidas e estão ligadas umas às outras
completando-se amavelmente, proporcionando harmonia emocional e de
significação, para conseguirmos, enquanto meros leitores e ocasionais leitoras,
transformar-nos quase em testemunhas, reconhecendo-lhes as suas funcionalidade
e determinação, como se fossem nossas, garantindo assim veracidade às situações
espelhadas nos textos através da cumplicidade que a empatia oferece. E exige –
pois dificilmente alguém conseguirá negar aquilo que lhe é evidente.
Nos
poemas o ritmo poético
trabalha no sentido de gerar uma razão especial que justifique a sua elaboração
e sentimentalidade, primeiro, bem como a sua presença no todo, depois, posto
que os dois sonetos lhe servem de epígrafe, para celebrar o nascimento da
autora (8-12-1948) como da obra, em conjugação com os astros e os elementos da
natureza, fadando-a para os desígnios que lhe hão de seguir; e o segundo, um
poema em sextilha ao Ti
Toino, próprio para entoar à guitarra portuguesa, encorpando a extensa sequência
de quadros, a fim de gerar reconhecimento e comoção acerca do destino, do fado
de um ser humano em fim de vida, sobre cuja desdita não devem restar dúvidas,
demonstrando, por conseguinte, como é deveras digno de compaixão.
No
geral, o discurso é lírico em registo bucólico, todavia a prevalência de certos
sentimentos e emoções mais envolventes dirige-o para aquele almiscarado
afetuoso, tão peculiar ao tradicionalismo da gente provinciana, que nos tolhe e
embarga, mas sem nunca descambar na lamechice atávica típica dos meados do
século passado, atribuindo sim aos afetos a capacidade de marcar situações,
ambientes, artefactos e acontecimentos de maneira a que inaugurem uma nova
maneira de ver os demais. Tomemos o caso, o episódio do avental.
Já
não era o primeiro avental nem o mais bonito dos que a narradora tivera. Mas a
avó Benta fez-lhe o primeiro aventalinho de trabalho. E, conta a autora, um dia
“chegou lá a casa pouco depois do pequeno almoço e disse-me: / – Hoje é que te vou ensinar a descascar
batatas! Trago aqui a faca pequenina com que a tia (sua filha) aprendeu. Foi o
avô (meu bisavô Pires), que Deus tem em descanso, que a fez. Mas, primeiro tens
que pôr este aventalinho. Gostas? Fi-lo ontem à noite para ti. / A partir
desse dia, aquele avental servia-me de apoio para tudo!”
Neste
episódio simples, um avental igualmente simples, mas carregado de afeto,
transformou-se em matriz, em modelo dos aventais, que não eram coisas de
somenos numa gente em que só não ia à igreja de avental. Logo
não foi a coisa, que ganhou valor sentimental, mas o episódio que a envolveu e
originou, que marcou uma maneira de estar na vida, tornando-se não um fetiche e
sim um exemplo, uma predisposição, uma lição, um motivo, um ensinamento, uma
inspiração, um modus operandi para a
apreensão de valores, que fizeram dela quanto foi pela vida fora, e ainda agora
o é.
Portanto,
pese embora aos autores não
devam ser imputadas as ideias, sentimentos, opiniões, virtudes e vícios dos
seus heróis ou narradores, podemos sem sombra de dúvida afirmar que NA JANELA DO TEMPO é um künstlerroman
equilibrado em
formato de memórias, com que a autora completa a sua biografia editando-lhe as
origens com nostálgico sentido mas, igualmente, emprestando-lhe os valores, a
responsabilidade, o know-how
e a perspetiva de vida, cultivando-lhe a feminilidade com o exemplo feminino
aldeão e familiar, a sensibilidade com a prazenteira convivência das suas
gentes, sem folclores nem frenesins, e que foram razão suficiente para se
abalançar noutras publicações ligadas a projetos da natureza e plantas como o
Projeto Serra d’Ossa «Por um amanhã mais verde», ou o Projeto “Ceia”, e o livro
O MEU ARRAIAR POR TERRAS DO SABUGAL (2013).
Uma história de Era uma vez que se passa Naquele
tempo em que as fadas e famílias se misturavam a eito na carava – nós pronunciamos caraiva, para lhe acrescentar o i que tiramos ao lête, e lhe dar assim a possibilidade de também significar moina – dispondo das circunstâncias como
das pessoas e das suas dificuldades e necessidades, pondo exemplo nas que as
levaram ao contrabando ou emigração, dando
o salto para França, qual Europa antes da UE, preparando também o nosso
coletivo nacional pràs particularidades que nos subscrevem presentemente, tendo
em conta que as janelas do tempo, dão nunca para outros lugares ou panorâmicas,
mas para outros tempos, sendo das do passado que vislumbramos as do presente
que, naquela altura, não passava apenas duma hipótese de futuro. Uma história
que começou em dezembro de 1948 mas veio ainda além do Natal de 2020, e para
permitir que a menina continue a sonhar…