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5.21.2023

POEMA DEPLORÁVEL

 

POEMA DEPLORÁVEL

 

 

O despeito é muito feio…

Mostra o que ‘tá sob o véu

Dos políticos deste meio,

Se falam lá do seu botaréu.   

 

Mal habituados que estão

Creem intimidar a democracia,

Com discursos, cuja razão

Já se não limita à economia.

 

Mas argumentos de vencido

São crenças de quem é incréu;

São cuspinho ressequido,

Que nem com água cheg’ao céu!

 

Joaquim Maria Castanho

#poesia #poemas #literatura

#poeta

5.19.2019

A GRANDE DIFERENÇA





TUDO TERIA SIDO TÃO DIFERENTE


Toca de leve nos meus sentidos:
Clica aqui, clica ali, clica acolá.
E os sonhos disparam desmedidos
Nuns beijos que te dei...
Mas tu não estavas lá!

A sede não tem fontes, não tem marés,
Não tem mares, não tem rios, não tem céu.
Pisa as areias das almas sem ter pés.
Põe nossos tímidos corações ao léu.

Beijo-te os lábios à distância...
Pequenos passos que só o olhar dá,
Como sílabas em metros de ânsia
Restos duma infância
Que não fui, nem sei...
Porque tu não estavas lá!

Joaquim Maria Castanho

4.08.2018

Sr. SUPERLATIVO




O Sr. SUPERLATIVO

Eu sei que é falta de educação escutar as conversas alheias, ainda que não sejam íntimas. Porém, estando sem nada mais que fazer num dos bancos do Jardim Avenida, em Casal Parado, eis que não pude evitar ouvir o que, um casal se dizia mutuamente, e certamente seria apenas um simples fragmento de conversa maior, onde residiriam as respostas que à minha curiosidade se impunham: 
– Mas eu sou um substantivo superlativo abstrato... – afirmava ele, convito, de farta cabeleira em encaracolado castanho-escuro, calças de ganga rasgadas (propositadamente) aqui e ali, para arejar a cueca, ténis de marcha, polo cinzento e kispo esverdeado. 
– Substantivo superlativo abstrato... Hhhhuummm! Isso não existe – sublinhou, perentória, ela, também nova, a flanar num vestido de chita em xadrez largo, com tonalidades de azul, dourado, creme e castanho-terra, sapatos mocassins quase pretos e cabelos compridos, ondeados e soltos, em louro-palha. 
– Não?!? – admirou-se ele. – Como assim? É um sacrilégio...
– É? Porquê... 
– Porque deveria existir, pois é isso mesmo que eu sou –, justificou-se. – É preciso, é urgente, é imprescindível inventá-lo. E quanto antes, uma vez que estou em perigo de extinção por falta de identidade. 
– Estás? Não se nota... Mas pronto, faça-se a tua vontade. Como o vais inventar, então? 
– Minto: nem é necessário inventá-lo, pois já existe. Eu sou um substantivo superlativo abstrato, o que ninguém pode negar, visto que existo, até perante ti, que crês que tal sujeito não existe, mas não podes negar que estás a conversar com ele... Ou podes? 
– Não, não posso negar que estou a falar contigo. A minha dúvida é que tu sejas essa coisa que dizes ser. Como mo podes provar? 
– Ora, é facílimo! Olha para mim: sou uma pessoa, de carne e osso, não sou? 
– És.
– Logo, sou uma substância, um substantivo. E sou radical, como costumas muitas vezes acusar-me... Portanto, superlativo. 
– Também és, é um facto. E bastante chato, por sinal... 
– Por conseguinte, sou um substantivo superlativo... uma pessoa radical, embora não saiba bem exatamente em quê. Em que é que eu sou inequivocamente radical... 
– Pois não. Até acho que além de não saberes em quê, nem porquê, as mais vezes julgo que és mas é um tonto... – E deitou-lhe a língua de fora, como que a desafiá-lo a contestá-la, pela ironia. 
– Tonto, ou abstrato... Querias tu dizer! 
– Isso! 
– Então, não restam dúvidas nenhumas de que sou um substantivo superlativo abstrato. Tu própria mo chamaste. E se chamaste, como poderei não existir? Aliás, foste tu quem me inventou.

«Chiça, que dois!», exclamei para com os meus botões. «Vão casar de certeza, pois se forem sempre assim, como se observa na amostra, vão ter conversa prà vida inteira, que é o principal item para a felicidade dos casais: nunca se calarem seja pelo que for.  E quem chega a conclusões destas, tenho para mim, que há de conseguir falar seja a propósito do que for.»  – Pensamento esse que me obrigou a abstrair-me dele e dela, claro está... 

Joaquim Maria Castanho, 
in CALEIDOSCÓPIO CIRCUNSTANTE
(Página 45)        

4.20.2017

TONHO TALEGO




TONHO TALEGO

Tonho Talego era brigão e berrava lá no Sítio de Casal
Parado na minha terra do Tonho Talego, porque ele, sabem
Nunca debitou sentenças na televisão e podia berrar
E o Sítio era dum brigão, que era ele a sitiar. 

Às vezes, à tarde, em verões escaldantes, sentava-me
Na parede à beira do alcatrão apenas para o ouvir
E ele gritava e dizia que havia de a matar, que ela era
Uma puta, uma puta!!!, e ela era só a mulher e mãe
Dos filhos dele, mas ele não queria saber disso, 
Queria era o dinheiro dela para beber mais uns copos
De branco (jamais conseguiriam que mudasse prò tinto)
E poder jogar uma bisca de soldado, e ter motivos
Para discutir com outro qualquer
E esquecer-se da mulher.
À noite, madrugada fora, iria roubar que comer de dia
E os donos das hortas sabiam que ele os roubava
Mas não queriam saber, nem se importavam,
Pelo que Tonho Talego morreu sem nunca ter pedido
Nunca ter implorado nada a ninguém. 

Viveu miserável e só foi ao médico uma vez 
Em toda a vida, quando foi às sortes, nem estava doente
Que só adoecia quem podia naquele tempo. 
Tinha uma mesinha pra todo o mal, dizia
(Comprimidos de virar a mão e vacinas contra o teto)
A aguardente bem forte, que o grau é doutoramento
E até patente que tudo cura, febre, dor no dente
Fraqueza no tino ou estranhamento das ideias. 
Aos quarenta anos parecia um velho e era velho
Até era o mais velho da família dele, porque durara
Não muito mais que isso mas também poucos mais havia
Assim, tão duradoiros, depois do sol-a-sol e lambugem
Chilra pra não perderem a linha e ligeireza. 

Nunca lhe faltou a foiteza, nunca arrepiou caminho
Todavia se nunca torceu não o fez por razão nem certeza
Mas por desfastio e teimosia, que quem não sabe pra onde vai
Qualquer trajeto é perfeito. 

Tonho Talego morreu cedo, que agora é que ele havia de ser
E sentir-se como peixe na água com que os sapos cantam
E as dobradiças enferrujam. E é pena, pois dava-nos jeito
O seu jeito de ser, para explicar às crianças 
Como se não deve ser nem estar e muito menos fazer.

Creio até que é por estas ausências que a imaginação,
A criatividade, a ficção mais se justifica nestes dias...

Joaquim Maria Castanho 

1.22.2017

O CANDEEIRO BRUXULEANTE




CANDEEIRO BRUXULEANTE


Quase como quem adormece assim
Entre luzes de estação suburbana, 
Aquele que se desconhecia hesitou… 
E eu, que já aí desci ou subi, enfim
Fiz mil reparos à forma assaz insana
Com que ele se ajeitou entre jornais.

Se não sabia ler, com que direito, então
Recorria ele à imprensa vespertina? 

Há silêncios que apenas parecem ais.
Há ais que gritam genuína humilhação. 
Há humilhações que vão de esquina 
Em esquina, onde nada mais… ilumina! 

Joaquim Maria Castanho 

10.04.2016

HÁ ENTRADAS QUE SÃO SAíDAS




HÁ ENTRADAS QUE SÃO SAÍDAS 

Na ínclita inclinação, verbo nobre
Que se declina perante a plebe lusa, 
O épico desassossego de quem é pobre
Trambica, argumenta, pede escusa.
Em questão ‘tá a receita que não cobre
O orçado fiscal, coisa assaz obtusa
De quem conta com ovo por pôr, e descobre
Que tal galinha, a pô-lo, se recusa.
Ó opíparos no divino alheio, 
Então, vós, que gastais além do tido
Desconheceis quanto é rude e feio
Contar com o que não será recebido, 
Para pagar dívidas já contraídas…? 

– Orçar entradas assim, anseia saídas! 

Joaquim Maria Castanho

5.22.2015

OS BONS MOMENTOS DAS MÁS COISAS

crónica da semana


OS BONS MOMENTOS DAS MÁS COISAS

"«Se uma nação conta ser ignorante e livre», disse Jefferson, «espera o que nunca foi e nunca será... As pessoas nunca podem estar em segurança sem informação. Onde a Imprensa é livre, e cada homem capaz de ler, tudo está salvo.»"

In ALDOUS HUXLEY
Regresso ao Admirável Mundo Novo
Trad. Rogério Fernandes
(Pág. 78)

Portalegre, enquanto cidade e enquanto capital de distrito, não pode prescindir de um órgão de comunicação social confiável e de qualidade, e que traduza os seus anseios de desenvolvimento e aspirações de progresso, assim como promova e gere a discussão ou debate público acerca deles, uma vez que "ó rama, ó que linda rama" costumeiro dos atuais (e anteriores), pode fomentar o bailarico (das vaidades e narcisismos avulsos – é certo), ou divulgar as romarias das confrarias do pacóvio para entreter mentes doídas e com soletração custosa e esforçada, por algum tempo, mas não muito, pois, mais tarde ou mais cedo, estes e estas morrem, ou acordam, acabando por reconhecer como estavam a ser enganados e enganadas, pelas pílulas dos "sonhos felizes" que os obrigaram a engolir, manipulando-lhes o gosto com ninharias e bagatelas, que são, indubitavelmente, na sua matriz, outros palimpsestos de outras tantas nascidas, ainda na Idade Média, do obscurantismo inquisitorial que grassou nesta região, implementado na modalidade do troca-por-troca pelo foral com D. João III.  

Até porque ninguém já desconhece que um relógio parado também pode estar certo, ainda que só duas vezes ao dia, e, se o ocultarmos da vista, daqueles e daquelas a quem queremos convencer da sua exatidão, nas restantes, mostrando-lho apenas nas horas referidas dois ou três dias seguidos, fazem-nos o merecido manguito pela marosca, com o típico «pois sim» para nos calar, mas ficando a murmurar entre si, o não menos tradicional «vai lá, vai... escolhe outro!», como epílogo generalizado que concedem aos grandes e espectaculares dramas houdinianos, ou dos clássicos sobretudos azuis com forros de seda vermelha, que, por tão recentes e tão triste memória, ainda se espanejam vivazes no nosso (in)consciente coletivo.

Ou seja, acabaram-se finalmente os tempos da justificação dos meios pela bondade dos fins, tanto em política como na engenharia social, pelo que não será a convicção de precisarmos de órgãos de informação regional, que vamos engolir qualquer um que ande a monte dos princípios éticos, deontológicos e constitucionais, ou nos trate pela bitola do "pra quem é bacalhau basta", porquanto a diversidade de meios disponíveis (televisões, rádios, Internet) com que o poderemos vir a comparar é múltipla e variada, e a escolha de cada um e cada uma, por isso mesmo, se vai tornando também cada vez mais apurada e fundamentada, exigente e rigorosa, sustentada na exatidão do doa a quem doer, se é verdade tem que se dizer.   

O que nos obriga a concluir, parafraseando Thomas Jefferson (13.01.1743 – 04.07.1826, presidente norte-americano, natural da Virgínia e redator principal da Declaração de Independência dos EUA, em 04.07.1776), que se pretendem que uma cidade seja livre e emancipada dentro da atual conjuntura europeia e mundial, não podem esperar que ela seja ignorante e ignorada, porque isso é impossível, por mais que as forças do obscurantismo medievo o intente, porquanto quase todas e todos sabem ler suficientemente bem, fazendo-o com frequente galhardia e assertivamente, e já ninguém se entretém com os "bonecos polaroide" de atirar poeira para cima dos factos, com ou sem c atrás do T que, de santíssimo nada tem, nem serve de ferro para trindade nenhuma, a não ser a do atraso, miséria e desertificação (crescentes). Ser ignorante, malformado e perverso já não garante diploma de herói, nem nas tascas mais pícaras, quer dizer, típicas. Desculpar as más coisas por algum momento menos mau ou bom que (hipoteticamente) proporcionaram, enfim, já não cola... E ainda bem!

Joaquim Castanho  

5.21.2015

NÃO SE FAZEM OMELETES SEM OVOS

crónica da semana




NÃO SE FAZEM OMELETES SEM OVOS

Se defendemos um desenvolvimento que promova a afirmação das potencialidades criativas e intelectuais do ser humano, em declarada harmonia com o meio social e ambiente, então temos a obrigação de pugnar por um ensino que valorize as qualidades pessoais de cada um, e de cada uma, no sentido de lhes reforçar o equilíbrio físico, material e psíquico, bem como a autonomia, a responsabilidade, consciência cívica e emancipação basilares, e essenciais, ao desempenho dos seus direitos de cidadania e participação democrática.

Portanto, “laurear” os bons alunos e as boas alunas pelos excelentes resultados que obtiveram nas suas licenciaturas ou mestrados, não significa sancionar ou menosprezar os que não conseguiram alcançar semelhantes níveis, mas antes sugerir-lhes que não devem acomodar-se a eles, conformar-se com a mediania, pois é sempre possível atingir melhores resultados, aperfeiçoar as suas performances cognitivas, e práticas, tal como alguns e algumas fizeram, e lhes trouxe reconhecido mérito e correspondente bolsa com isso. Clarificar-lhes o acesso a mais cidadania e possibilidades de participação na (e da) sociedade. No ambiente. E na qualidade de vida.

Pelo que, embora com anos de atraso, importa registar a notável valia da iniciativa do IPP – Instituto Politécnico de Portalegre – em atribuir diploma e bolsa por mérito aos cinco melhores alunos de 2011/2012, no passado dia 06 (e a saber: Cristina Mira Luís – Educação Básica; Andreia Pereira – Produção Enológica; Anette Reintjes – Enfermagem Veterinária; João Löbe Guimarães – Jornalismo; e Joana Reis, de Higiene Oral), conforme noticia o semanário Alto Alentejo de 13.05.2015, pág. 5, e só lamentamos o facto de terem sido apenas cinco, e não vinte ou trinta como seria o ideal, porque tal significaria terem existido outros tantos alunos e alunas a preencher os critérios estipulados pelo ministério, em outros tantos cursos que o estabelecimento de ensino em causa ministraria com reconhecido sucesso e serventia social. Principalmente porque premiar os melhores é contribuir para melhorar a média dos demais, bem como apetrechar as comunidades onde estes alunos e estas alunas estão inseridos, e inseridas, com potencialidades/ferramentas significativas para o seu desenvolvimento social, humano, ambiental e económico. 

Sobretudo se lhe abrirem as portas para que ponham em prática (profissionalmente) o seu aprendizado, em vez de lhe invejarem o valor da bolsa que, por mais dois ou três tantos que fosse, nunca lhes pagariam o investimento em propinas e tempo, estudo e dedicação, que despenderam para consegui-las, ou de os exportarem para países estrangeiros como ultimamente tem acontecido, pois que esse sim seria um diploma de verdade e uma bolsa efetiva que lhes proporcionavam, e nos contemplaria também com uma autêntica valia favorecendo a intervenção ativa dos cidadãos e cidadãs, nas suas mais diversas formas de organização e autonomia, em prol do desenvolvimento, que tanta falta nos faz, numa capital de distrito a braços com a crescente desertificação, elevado envelhecimento populacional, fraca empregabilidade e incipiente tecido empresarial, baixo rendimento per capita e incaraterística contribuição para o PIB Regional. 

Porque essas é que devem ser as grandes preocupações das mesas de café e órgãos de comunicação do mesquinho burgo, onde o «que bom pra eles» vigora ainda sentenciando, porquanto são estas questões as que podem moldar o nosso presente e o nosso futuro, e que devem deixar o recatado remanso dos gabinetes da superficialidade do establishment político e administrativo, para vir a terreiro e em celebração de mais um Dia da Cidade onde se homenageia e elogia toda uma panóplia de inutilidades e insignificâncias como se fazia no tempo da outra senhora a quem "o botas" pôs a casa, e telefonia, para poder escutar os Serões Para Trabalhadores ou estanciar nos “equipamentos turísticos” da FNAT. Porque ainda não há ovo em pó que dê para fazer uma açorda de jeito, nem omelete comestível, por melhor que ele sirva qualquer doçaria… Ou há?!  



Joaquim Castanho        

8.27.2014

AJEITAR O BANCO SEM MEXER O TRASEIRO



No dia em que o BES desceu à terra, Bento criou um banco novo – esse São! –, como prova inequívoca da separação entre o poder político e o poder financeiro (lusitanos). Coisa notável e inaudita, não haja a mínima dúvida, se dirá, pelos cochichos das frondosas ramadas, cuja grandeza só é comparável aqueloutro em que o pleito académico portuga descobriu a pólvora prò fósforo, mas dando-lhe um novo nome, tão novo, tão novo, mas tão novo, que até lhe chamou empreendedorismo. 

(E é exatamente por isso que é milagroso e extraordinário viver-se num país assim... A gente voga, saltita, de inovação em inovação, de descoberta em descoberta, quais libelinhas de nenúfar em nenúfar, mas sempre dentro do mesmo pântano [político] desde 1385...)

Não raros recordarão esse dia, quiçá saudosos e sonhadores como as leitoras e damas de Dinis ou Camilo, em que as suas empresas ainda tinham trabalhadores, trabalhadores que evoluíram e viraram empregados, e empregados que cresceram e se tornaram colaboradores, mas que não se deixaram adormecer no estatuto e se libertaram do jugo assalariado, via declaração de despedimento sem justa causa, para integrar a causa superlativa dos desempregados com subsídio, como se fazia no bom velho tempo das unanimidades corporativistas e dos trabalhos sazonais, em que essa casa nacionalizada ia benzendo aqui e ali os créditos ao PIB.

E o que comprova, mais uma vez, que banco novo assente em pântano antigo, quando mais engorda mais se enterra, arrastando-nos consigo, principalmente porque não é lá por avó ser nova que lhe podemos chamar neta.    



J M C

5.29.2014

COMEÇAR DO ZERO (OUTRA VEZ!)



Felizmente, o resultado eleitoral do partido cuja lista integrei para o Parlamento Europeu, foi muito pior do que aquele que eu estava à espera. Esse fato libertou-me de todo e qualquer compromisso que me ligasse ao dito partido – o POUS, Partido Operário de Unidade Socialista –, bem como com o eleitorado portalegrense, uma vez que preferiram INEQUIVOCAMENTE votar contra alguém ou alguma força apresentada a escrutínio, do que a favor da causa regional, de si mesmos, ou de alguém que com eles vive no dia-a-dia, comunga das dificuldades e anseios. Seria um mistério insolúvel se eu lhes desconhecesse as causas e preconceitos, ou as vísceras que os governam e parecem imperar sobre os tutanos... Mas não é o caso!

Portanto, apraz-me declarar que não repetirei a proeza de candidatar-me pelo POUS, nem de colaborar com qualquer publicação, em suporte-papel, que tenha a sua origem nesta terra por Baco plantada entre as serras e a planície, que da charneca em flor tão afastada atualmente se encontra. À primeira qualquer cai, à Segunda só quem quer, e à terceira apenas quem é asno. E eu nunca me perdoarei a asneira que cometi, que foi a de exercer os meus direitos de cidadão dentro da legalidade constitucional e democrática vigente, em observância aos conceitos da participação e cidadania, e no respeito pelos valores fundamentais que assistem à formação de uma Europa inclusiva, igualitária, emancipada, solidária, coesa, civilizada e desenvolvida. (Ou, supostamente, tudo isso!)

E não o faço por despeito, ajuste de contas ou simplesmente para racionalizar os péssimos resultados conseguidos. Faço-o porque sou JOAQUIM CASTANHO, nome que não herdei nem me foi dado, mas sim conquistei letrinha a letrinha dia a dia, mês a mês, ano após ano, com esforço e galhardia, de cara limpa, e sem jamais ter prejudicado ou molestado quem quer que fosse, de rosto erguido, frontal e em todo o lado, em transparência absoluta, e sem lhe omitir o mínimo noema ou fonema.


Joaquim Castanho  

12.03.2013

ORAÇÃO DA PROFESSORA PRIMÁRIA




Senhor,
Tu que ensinaste
Perdoa que eu ensine,
Que use o nome de mestra,
Nome que tu usaste na Terra.

Mestre,
Torna perene o meu fervor
E passageiro o desencanto.
Arranca de mim este impuro desejo de justiça
Que ainda me perturba,
A mesquinha insinuação de protesto
Que sobe de mim quando me ferem.

Não me doa a incompreensão,
Nem me entristeça o esquecimento
Daqueles que ensinei.

Dá-me que seja mãe, mais do que as mães,
Para poder amar, e como elas, defender
O que não é carne da minha carne…
Dá-me que seja simples e profunda,
Livra-me de ser complicada e banal
Em minha lição quotidiana.
Dá-me que retire os olhos
Do meu peito com feridas,
Ao entrar cada manhã na minha escola.

Torna mais leve no castigo a minha mão
E torna-a mais suave na carícia.
Que com dor eu repreenda
Para ter a certeza
De que corrigi amando.


GABRIELA MISTRAL (1889-1957), professora e poetisa chilena, galardoada com o Prémio Nobel da Literatura em 1945

2.18.2013


CONTOS GAUCHESCOS – I

Por  J. Simões Lopes Neto

À memória de meu pai
                   Saudade



Patrício, apresento-lhe Blau, o vaqueano.
– Eu tenho cruzado o nosso Estado em caprichoso ziguezague. Já senti a ardentia das areias desoladas do litoral; já me recreei nas encantadoras ilhas da lagoa Mirim; fatiguei-me na extensão da coxilha de Santana; molhei as mãos no soberbo Uruguai, tive o estremecimento do medo nas ásperas penedias do Caverá; já colhi malmequeres nas planícies do Saicã, oscilei sobre as águas grandes do Ibicuí; palmilhei os quatro ângulos da derrocada fortaleza de Santa Tecla, pousei em S. Gabriel, a forja rebrilhante que tantas espadas valorosas temperou, e, corri pelas paragens magníficas de Tupaceretã[1], o nome doce, que no lábio ingénuo dos caboclos quer dizer os campos onde repousou a mãe de Deus...   
– Saudei a graciosa Santa Maria[2], fagueira e tranquila na encosta serra, emergindo do verde-negro da montanha copada o casario, branco, como um fantástico algodoal em explosão de casulos.
– Subi aos extremos do Passo Fundo, deambulei para os cumes da Lagoa Vermelha, retrovim para a merencórdia Soledade, flor do deserto, alma risonha no silêncio dos ecos do mundo; cortei um formigueiro humano na zona colonial.
– Da digressão longa e demorada, feita em etapas de datas diferentes, estes olhos trazem ainda a impressão vivaz e maravilhosa da grandeza, da uberdade, da hospitalidade.
– Vi a colmeia e o curral; vi o pomar e o rebanho, vi a seara e as manufaturas; vi a serra, os rios, a campina e as cidades; e dos rostos e das auroras, de pássaros e de crianças, dos sulcos do arado, das águas e de tudo, estes olhos, pobres olhos condenados à morte, ao desaparecimento, guardarão na retina até o último milésimo de luz, a impressão da visão sublimada e consoladora: e o coração, quando faltar ao ritmo, arfará num último esto para que a raça que se está formando, aquilate, ame e glorifique os lugares e os homens dos nossos tempos heróicos, pela integração da Pátria comum, agora abençoada na paz.
E, por circunstâncias de caráter pessoal, decorrentes da amizade e da confiança, sucedeu que foi meu constante guia e segundo o benquisto tapejara Blau Nunes, desempenado arcabouço de oitenta e oito anos, todos os dentes, vista aguda e ouvido fino, mantendo o seu aprumo de furriel da farroupilha, que foi, de Bento Gonçalves, e de marinheiro improvisado, em que deu baixa, ferido, de Tamandaré.
Fazia-me ele a impressão de um perene tarumã verdejante, rijo para o machado e para o raio, e abrigando dentro do tronco cernoso enxames de abelhas, nos galhos ninhos de pombas...
Genuíno tipo – crioulo – riograndense (hoje tão modificado), era Blau o guasca sadio, a um tempo leal e ingénuo, impulsivo na alegria e na temeridade, precavido, perspicaz, sóbrio e infatigável; e dotado de uma memória de rara nitidez brilhando através de imaginosa e encantadora loquacidade servida e floreada pelo vivo e pitoresco dialeto gauchesco.
E, do trotar sobre tantíssimos rumos; das pousadas pelas estâncias; dos fogões a que se aqueceu; dos ranchos em que cantou, dos povoados que atravessou; das coisas que ele compreendia e das que eram-lhe vedadas ao singelo entendimento; do pêlo-a-pêlo[3] com os homens, das erosões da morte e das eclosões da vida, entre o Blau – moço militar – e o Blau – velho, paisano –, ficou estendida uma longa estrada semeada de recordações – casos, dizia –, que de vez em quando o vaqueano recontava, como quem estende ao sol, para arejar, roupas guardadas no fundo de uma arca.
Querido digno velho!
Saudoso Blau!

Patrício, escuta-o.



TREZENTAS ONÇAS

– Eu tropeava[4], nesse tempo. Duma feita que viajava de escoteiro, com a guaiaca empanzinada de onças de ouro, vim parar aqui neste mesmo passo, por me ficar mais perto da estância da Coronilha, onde devia pousar.
Parece que foi ontem!... Era por fevereiro; eu vinha abombado[5] da troteada.
– Olhe, ali, na restinga, à sombra daquela mesma reboleira de mato, que está nos vendo, na beira do passo, desencilhei; e estendido nos pelegos, a cabeça no lombilho, com o chapéu sobre os olhos, fiz uma sesteada morruda.
Despertando, ouvindo o ruído manso da água tão limpa e tão fresca rolando sobre o pedregulho, tive ganas de me banhar; até para quebrar a lombeira... e fui-me à água que nem capincho[6]!
Debaixo da barranca havia um fundão onde mergulhei umas quantas vezes; e sempre puxei umas braçadas, poucas, porque não tinha cancha para um bom nado.
E solito e no silêncio, tornei a vestir-me, encilhei o zaino e montei.
Daquela vereda andei como três léguas, chegando à estância cedo ainda, obra assim de braça e meia de sol.
– Ah!... esqueci de dizer-lhe que andava comigo um cachorrinho brasino, um cusco[7] muito esperto e boa vigia. Era das crianças, mas às vezes dava-lhe para acompanhar-me, e depois de sair a porteira, nem por nada fazia cara-volta, a não ser comigo. E nas viagens dormia sempre ao meu lado, sobre a ponta da carona, na cabeceira dos arreios.
Por sinal que uma noite...
Mas isso é outra coisa; vamos ao caso.
Durante a troteada bem reparei que volta e meia o cusco parava-se na estrada e latia e corria para trás, olhava-me, olhava-me, e latia de novo e troteava um pouco sobre o rastro; – parecia que o bichinho estava me chamando!... Mas como eu ia, ele tornava a alcançar-me, para daí a pouco recomeçar.
– Pois, amigo! Não lhe conto nada! Quando botei o pé em terra na ramada da estância, ao tempo que dava – as boas-tardes! – ao dono da casa, aguentei um tirão seco no coração... Não senti na cintura o peso da guaiaca!
Tinha perdido trezentas onças de ouro que levava, para pagamento dos gados que ia levantar.
E logo passou-me pelos olhos um clarão de cegar, depois de uns coriscos tirante a roxo... depois de tudo me ficou cinzento, para escuro...
Eu era mui pobre – e ainda hoje, é como vancê sabe... –; estava começando a vida, e o dinheiro era do meu patrão, um charqueador[8], sujeito de contas mui limpas e brabo como uma manga de pedras...
Assim, de meio assombrado me fui repondo quando ouvi que indagavam:
– Então patrício? Está doente?
– Obrigado! Não senhor, respondi, não é doença; é que sucedeu-me uma desgraça: perdi uma dinheirama do meu patrão...
– A[9] la fresca!...
– É verdade... antes morresse, que isto! Que vai ele agora pensar de mim!...
– É uma dos diabos, é... ; mas não se acoquine[10], homem!
Nisto o cusco brasino[11] deu uns pulos ao focinho do cavalo, como querendo lambê-lo, e logo correu para a estrada, aos latidos. E olhava-me, e vinha e ia, e tornava a latir...

Ah!... E num repente lembrei-me de tudo. Parecia que estava vendo o lugar da sesteada, o banho, a arrumação das roupas nuns galhos de sarandi. E, em cima de uma pedra, a guaiaca e por cima dela o cinta das armas, e até uma ponta de cigarro de que tirei uma tragada, antes de entrar na água, e que deixei espetada num espinho, ainda fumegando, soltando uma fitinha de fumaça azul, que subia, fininha e direita, no ar sem vento...; tudo, vi tudo.
Estava lá, na beirada do passo, a guaiaca. E o remédio era um só: tocar a meia rédea, antes que outros andantes passassem. 
Num vu[12] estava a cavalo; e mal isto, o cachorrito pegou a retouçar, numa alegria, ganindo – Deus me perdoe! – que até parecia fala!
E dei de rédea, dobrando o cotovelo do cercado.
Ali logo frenteei com uma comitiva de tropeiros, com grande cavalhada por diante, e que por certo vinha tomar pouso na estância. Na cruzada nos tocamos todos na aba do sombreiro; uns quantos vinham de balandrau[13] enfiado. Sempre me deu uma coraçonada para fazer umas perguntas... mas engoli a língua.
Amaguei[14] o corpo e penicando as esporas, toquei a galope largo.
O cachorrinho ia ganiçando, ao lado, na sombra do cavalo.


A estrada estendia-se deserta; à esquerda os campos desdobravam-se a perder de vista, serenos, verdes, clareados pela luz macia do sol morrente, manchados de pontas de gado que iam se arrolhando nos paradouros da noite; à direita, o sol muito baixo, vermelho-dourado, entrando em massa de nuvens de beiradas luminosos.
Nos atoleiros, secos, nem um quero-quero: uma que outra perdiz, sorrateira, piava de manso por entre os pastos maduros; e longe, entre o resto de luz que fugia de um lado e a noite que vinha, peneirada, do outro, alvejava a brancura de um joão-grande, voando, sereno, quase sem mover as asas, como numa despedida triste, em que a gente também não sacode os braços...
Foi caindo uma aragem fresca; e um silêncio grande em tudo.
O zaino era um piganço de lei; e o cachorrinho, agora sossegado, meio de banda, de língua de fora e de rabo em pé, troteava miúdo e ligeiro dentro da polvadeira rasteira que as patas do flete[15] levantavam.
E entrou o sol; ficou nas alturas um clarão afogueado, como de incêndio num pajonal[16]; depois o lusco-fusco; depois, cerrou noite escura; depois, no céu, só estrelas... só estrelas...

O zaino atirava o freio e gemia no compasso do galope, comendo caminho. Bem por cima da minha cabeça as Três-Marias tão bonitas, tão vivas, tão alinhadas, pareciam me acompanhar... Lembrei-me dos meus filhinhos, que as estavam vendo, talvez; lembrei-me de minha mãe, de meu pai, que também as viram, quando eram crianças e que já as conheceram pelo nome de Marias, as Três Marias. – Amigo! Vancê é moço, passa a sua vida rindo... Deus o conserve!... Sem saber nunca como é pesada a tristeza dos campos quando o coração pena!...
– Há que tempos eu não chorava!... Pois me vieram lágrimas..., devagarinho, como gateando, subiram... tremiam sobre as pestanas, luziam um tempinho... e ainda quentes, no arranco do galope lá caiam elas na polvadeira da estrada, como um pingo d'água perdido, que nem mosca nem formiga daria com ele!...
Por entre as minhas lágrimas, como um sol cortando um chuvisqueiro, passou-me na lembrança a toada dum verso lá dos meus pagos[17]:

                                             Quem canta refresca a alma,
                                             Cantar adoça o sofrer;
                                             Quem canta zomba da morte:
                                             Cantar ajuda a viver!...

Mas que cantar, podia eu!...
O zaino respirou forte e sentou, trocando a orelha, farejando no escuro: o bagual[18] tinha reconhecido o lugar, estava no passo.
Senti o cachorrinho respirando, como assoleado. Apeei-me.
Não bulia uma folha; o silêncio, nas sombras do arvoredo, metia respeito... que medo, não, que não entra no peito de gaúcho.

Embaixo, o rumor da água pipocando sobre o pedregulho; vaga-lumes retouçando no escuro. Desci, dei com o lugar onde havia estado; tenteei os galhos do sarandi; achei a pedra onde tinha posto a guaiaca e as armas; corri as mãos por todos os lados, mais para lá, mais para cá...; nada! Nada!...
Então, senti frio dentro da alma... o meu patrão ia dizer que eu o havia roubado!... roubado!... Pois então eu ia lá perder as onças!... Qual! Ladrão, ladrão, é que era!...
E logo uma tenção ruim entrou-me nos miolos: eu devia matar-me, para não sofrer a vergonha daquela suposição.
É; era o que eu devia fazer: matar-me... e já, aqui mesmo!
Tirei a pistola do cinto; armatilhei o gatilho... benzi-me, e encostei no ouvido o cano, grosso e frio, carregado de bala...

– Ah! patrício! Deus existe!...
No refilão daquele tormento, olhei para diante e vi... as Três-Marias luzindo na água... o cusco encarapitado na pedra, ao meu lado, estava me lambendo a mão... e logo, logo, o zaino relinchou lá em cima, na barranca do riacho, ao mesmíssimo tempo que a cantoria alegre de um grilo retinia ali perto, num oco de pau!... – Patrício! Não me avexo de uma heresia; mas era Deus que estava no luzimento daquelas estrelas, era ele que mandava aqueles bichos brutos arredarem de mim a má tenção...
O cachorrinho fiel lembrou-me a amizade da minha gente; o meu cavalo lembrou-me a liberdade, o trabalho, e aquele grilo cantador trouxe a esperança...
Eh-pucha! Patrício, eu sou mui rude... a gente vê caras, não vê corações...; pois o meu, dentro do peito, naquela hora, estava como um espinilho[19] ao sol, num descampado, no pino do meio-dia: era luz de Deus por todos os lados!...
E já todo no meu sossego de homem, meti a pistola no cinto. Fechei um baio, bati o isqueiro e comecei a pitar.

E fui pensando. Tinha, por minha culpa, exclusivamente por minha culpa, tinha perdido as trezentas onças, uma fortuna para mim. Não sabia como explicar o sucedido, comigo, acostumado a bem cuidar das coisas. Agora... era vender um campito, a ponta de gado manso – tirando umas leiteiras para as crianças e a junta de jaguanés[20] lavradores – vender a tropilha[21] dos colorados... e pronto! Isso havia de chegar, folgado; e caso mermasse[22] a conta... enfim, havia se ver o jeito a dar... Porém matar-se um homem, assim no mais... e chefe de família... isso, não!
E d'espacito[23] vim subindo a barranca; assim que me sentiu o zaino escarceou, mastigando o freio.
Desmaneei-o[24], apresilhei o cabresto; o pingo[25] agarrou a volta e eu montei, aliviado.
O cusco escaramuçou, contente; a trote e galope voltei para a estância.
Ao dobrar a esquina do cercado enxerguei luz na casa; a cachorrada saiu logo, acuando. O zaino relinchou alegremente, sentindo os companheiros; do potreiro outros relinchos vieram.
Apeei-me no galpão, arrumei as garras e soltei o pingo, que se rebolcou com ganas.
Então fui para dentro: na porta dei o – Louvado seja Jesu-Cristo; boa-noite! – e entrei, e comigo, rente, o cusco. Na sala do estancieiro havia uns quantos paisanos; era a comitiva que chegava quando eu saia; corria o amargo.

Em cima da mesa a chaleira, e ao lado dela, enroscada, como uma jararaca na ressolana[26], estava a minha guaiaca, barriguda, por certo com trezentas onças, dentro.
– Louvado seja Jesu-Cristo, patrício! Boa-noite! Entonces, que tal foi o susto?...
E houve uma risada grande de gente boa.
Eu também fiquei rindo, olhando para a guaiaca e para o guaipeva[27], arrolhadito aos meus pés...  



[1] TUPACERETÃ – Município em cuja parte oriental, entre os arroios Caixa-d'Água e Caneleira, fica a cidade com o mesmo nome. [Tupaceretã é a forma tradicional, oficialmente substituída por Tupanciretã. Teodoro Sampaio em seu Tupi na Geografia Nacional, consigna Tupanceretã, "a terra da mãe de Deus, o património de Nossa senhora".]
[2] SANTA MARIA –  Cidade da região central do município do mesmo nome, entre cabeceiras do arroio Cadena.
[3] PÊLO-A-PÊLO – Lidar contínuo e duro; trato ininterrupto e rude. [Não dicionarizado. Prende-se à expressão viajar (ou andar) de pêlo a pêlo = sem mudar de cavalo, por longa que seja a viagem.]
[4] TROPEIRO – Aquele que conduz tropa, isto é, rebanho de gado vacum ou cavalar.
[5] ABOMBADO – Impossibilitado de continuar viagem por cansaço devido ao calor (diz-se do cavalo); esfalfado, exausto, arquejante (diz-se do animal e por extensão da pessoa). Termo também usual em S. Paulo.
[6] CAPINCHO – O macho da capivara; ou o filhote macho da capivara.
[7] CUSCO – Cão pequeno, de raça ordinária.
[8] Charqueador, produtor e comerciante de charque, ou carne de vaca seca, salgada e comprimida em mantas. 
[9] A la fresca – expressão de espanto, surpresa ou descrença. 
[10] ACOQUINE -- de acoquinhar, ou inquietar, amofinar, amedrontar, assustar, importunar, aborrecer. 
[11] BRASINO – Diz-se do animal, bovino ou cão, que tem pelo vermelho com listas pretas ou quase pretas.
[12] NUM VU – Num vá, num vupe, num ápice.
[13] BALANDRAU – Nome dado ao poncho de pala, ou pala simplesmente, o qual tem no meio, como a opa, uma abertura por onde é enfiado o pescoço. 
[14] AMAGUEI – De AMAGAR, isto é, levar (o corpo) para a frente, quando a cavalo, a fim de dar impulso ao animal.
[15] FLETE – Cavalo bom, árdego, de bela aparência.
[16] PAJONAL – Terreno coberto de palha-brava, santa-fé e outras gramíneas.
[17] PAGOS – Lugar onde se nasceu, o rincão, a querência, o povoado, o município de onde se é natural ou onde se reside.
[18] BAGUAL – Potro recém-domado, cavalo novo, arisco, espantadiço, grosseiro, rústico, e muito grande.
[19] ESPINILHO – Acácia de flor amarela.
[20] JAGUANÉ – Diz-se de, ou animal vacum que tem o fio do lombo e o ventre brancos, e os lados de cor preta ou avermelhada.
[21] TROPILHA – Certo número de cavalos de pelo igual, que geralmente acompanham uma égua-madrinha.
[22] MERMAR – Diminuir de peso, valor, quantidade, velocidade, etc.; diminuir, minguar.
[23] D'ESPACITO – Devagar, pouco a pouco, de espacito.
[24] DESMANEAR – Tirar a meneia (peça formada por dois pedaços de couro ligados por uma argola e com a qual as patas ao cavalo, similar às peias). 
[25] PINGO – Cavalo bom, vistoso, árdego.
[26] RESSOLANA – Soalheira forte, soalheira.
[27] GUAIPEVA – Cusco, também designado guapeca ou guaipé. 

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

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