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7.08.2021

BRISAS QUENTES, de Ana Landeiro

 

BRISAS QUENTES

Ana Landeiro

(poesia)

15,5 x 23 cm, capa mole, a cores, plasticizada

103 páginas


A poesia, além de uma ancestral e exímia técnica (arte) de codificar e descodificar mensagens, originariamente orais e somente acessíveis aos por ela e nela iniciados, é também um exercício de sensibilidade e sensibilidades. E BRISAS QUENTES é um livro de poesia que cheira a azul e dunas douradas – ou salgadas –, de expressão (lírica) intimista, com a sensualidade à flor da estrofe (livre), pejada de palavras inventadas (para podermos amar), compostas por letras, fonemas, noemas, sílabas e imagens sem qualquer pretensão, mas que não couberam na tinta dos beijos da solidão, pondo o diabo a tremer (diante de tanta tentação).

É um exemplo pertinente, e comprovativo, de como as metáforas no prendem às litanias do evoluir para aportarmos à magia dos sentidos, das emoções, dos sentimentos, dos afetos, transportando-nos, assim, para essoutro universo, onde o mel brota das pregas do verso. De rápida leitura, contudo enriquecedora, exige porém uma releitura mais apurada e pausada em alguns poemas, para os podermos usufruir na plenitude que inspiram e contemplam.

Portanto, minha prezada amiga Ana Landeiro Ferreira, agradeço-lhe encarecidamente a permuta pela qual mo facultou, e aqui lhe rendo a devida homenagem, desejando-lhe não só sucesso e sorte na sua disseminação, mas também inúmeras leituras e feedbacks de apreço. Porque os merece.


Joaquim Maria Castanho

4.21.2017

UM MENINO VESGO




UM MENINO VESGO 

Há pessoas que se deixam arrastar pela desventura, 
Outras que se deixam seduzir pela beleza. 
Alguns arriscam o destino trágico dos seres 
Que se tornam definitivamente adultos!... 
Mas em cada assisado 
Há sempre uma criança adormecida. 

Também tu, meu amigo, 
Foste um menino mau como os outros. 
Reconcilia-te com esse menino! 
Fala ao teu filho com o teu coração de menino... 
Mas, lembra-te que: 
Falar não é arremessar palavras, 
Não é cuspir frases. 
Falar é deixar que os silêncios falem. 
Tu falas às crianças 
Como se tivesses um velho livro na cabeça 
E um polícia no coração. 
Vês o teu filho sem o olhar; 
Vês só a imagem que dele inventaste, 
Misturada com a ideia da criança que eras. 

E assim, 
O teu filho não sabe rir, 
Gagueja quando o interrogas, 
Não sabe estender-te os braços, 
Não sabe olhar para ti, 
É vesgo. 

Deixa de ser um menino mau, meu amigo, 
Estende os braços ao teu filho, 
Faz gazeta por um dia e vagueia com ele por aí.

JOÃO DOS SANTOS
Poema escrito durante o Primeiro Colóquio Português de Estrabologia, em Sintra, no dia 21.IV.1968.

1.28.2017

AFINIDADE





AFINIDADE 

O meu coração
em compasso de ternura
toca o teu coração
batimentos acariciam
em harmonia
no abraço apertado
corpo e alma aquecem
vidas em sintonia 
corações entrelaçados.

In IMPACTO,  2016
De ADÉLIA EINSFIELDT

11.25.2015

AOS MEUS CAMARADAS TIPÓGRAFOS por PAUL ÉLUARD




AOS MEUS CAMARADAS TIPÓGRAFOS

Tínhamos o mesmo ofício
Que ajudava a ver na noite
Ver é compreender e agir
É ser ou desaparecer. 

Era precioso acreditar preciso
Crer que está nos homens o poder
De ser livre e de ser melhor
Que o destino que lhe foi imposto

E nós esperávamos a grande primavera
E nós esperávamos uma vida perfeita
E que a claridade se decida
A carregar todo o peso do mundo.

in PAUL ÉLUARD
Poemas Políticos
Prefácio de LOUIS ARAGON
Trad. Carlos Grifo
Col. Forma / Editorial Presença
(Pág. 45)

11.15.2015

IRMÃS DA ESPERANÇA por PAUL ÉLUARD




IRMÃS DA ESPERANÇA 

Irmãs da esperança ó mulheres corajosas
Que contra a morte tendes feito um pacto
O de unir as virtudes do amor

Irmãs sobreviventes
Que jogais a vossa vida
Pra que a vida triunfe

Aproxima-se o dia ó irmãs da grandeza
Para rir das palavras guerra dor e miséria

Cada rosto terá seu direito à carícia. 

POEMAS POLÍTICOS
Prefácio de LOUIS ARAGON
Trad. Carlos Grifo
Col. Forma / Editorial Presença
(Pág. 74)

DIÁLOGO de Paul Éluard




DIÁLOGO

Belo invento coberto de vergonha
Memória de ouro enrolada no chumbo
Amor glorioso posto fora do leito
Natureza nobre manchada por anões

VINDE VER O SANGUE NAS RUAS

Somos muitos a recusar
Que seja o sol uma faca
Que seja o mar um veneno
Somos muitos a querer viver

NADA NEM MESMO A VITÓRIA
ENCHERÁ O TERRÍVEL VAZIO DO SANGUE: 
NADA, NEM O MAR, NEM OS PASSOS
DO SAIBRO E DO TEMPO
NEM O GERÂNIO ARDENDO
POR SOBRE A SEPULTURA. 

Muitos de nós perderam a vida
Na esperança de um mundo melhor
Inocentes seguros dos seus direitos
Eu lhes sorrio e me sorriem

UM ROSTO DE OLHOS MORTOS VIGIA AS TREVAS
SUA ESPADA ESTÁ CHEIA DE ESPERANÇAS TERRESTRES

Gravidade de sentidos e sexo
Veleiro da matéria subtil
E nós somos uma só ramagem
Folhas e frutos para servir a árvore

Por único exercício a bondade
Por única manobra a razão
Com centenas e milhares de aves
Levadas de planeta em planeta

FILHOS DILETOS DA VITÓRIA, TANTAS VEZES CAÍDOS, 
DE MÃOS TANTAS VEZES SUPRIMIDAS

Sempre a palavra meu coração confio
Imagens das imagens a manhã que desperta
Mas que já despertou pois que falamos dela
O sonho sol da noite tem a força de sempre

Ó MÃES ATRAVESSADAS PELA ANGÚSTIA DA MORTE
VEDE A ALMA DO DIA NOBRE QUE VAI NASCER
SABEI QUE VOSSOS MORTOS VOS SORRIEM DA TERRA
SEUS PUNHOS LEVANTADOS TREMULAM SOBRE O TRIGO

Vou fazer florir o redondo carmim
Do céu por sobre a terra e do seu dominar

Ódio é nada amor escreve-se duplo
Se um enfraquece descolaram os dois

VI COM OS OLHOS QUE TENHO, COM ESTA ALMA QUE OLHA, 
VI CHEGAR OS CLAROS COMBATENTES, OS COMBATENTES QUE DOMINAM 
DA ESBELTA, DURA, AMADURECIDA, DA ARDENTE BRIGADA DA PEDRA. 

Que a coragem mais clara esclareça a linguagem
O homem perseguido vem a ser a perfeição futura. 

(NOTA: "As passagens em MAIÚSCULAS são extraídas de poemas de PABLO NERUDA.")

in PAUL ÉLUARD 
POEMAS POLÍTICOS
Prefácio de LOUIS ARAGON
Trad. Carlos Grifo
Col. Forma / Editorial Presença
(Págs. 66-67-68)

11.11.2015

Rainer Maria Rilke




Est-ce en exemple que tu te proposes? 
Peut-on se remplir commes les roses, 
en multipliant subtile matière
qu'on avait fait pour ne rien faire? 

Car ce n'est pas travailler que d'être
une rose, dirait-on. 
Dieu, en regardant par le fenêtre, 
fait la maison. 

RAINER MARIA RILKE

(É um exemplo que tu propões? 
Podemo-nos completar com as rosas, 
multiplicando a sua subtil matéria
que se criou para nada se fazer? 

Pois não se pode dizer que ser uma rosa
é trabalho. 
Deus, ao olhar através da janela
governa a casa.)

6.01.2015

OS RIOS, de António Nobre





OS RIOS

Os rios têm cantigas de ceifeiras,
Baladas esquisitas e formosas…
Há lá no fundo cristalinas eiras,
Onde bailam crianças vaporosas.

De noite, pelas horas religiosas,
Os rios têm cantigas de ceifeiras,
E ao verem-nos passar dizem as rosas:
… Água que vem de terras estrangeiras!

No entanto, como enormes esqueletos
Cobrem o rio as árvores, Hamletos
Numa postura estática e silente…

E a lua vai boiando à tona da água,
Gémea do amor, dos séculos, da mágoa,
Como Ofélia nas águas da corrente!


ANTÓNIO NOBRE

5.31.2015

OLHAR, de António Nobre





OLHAR
(Fragmento)

Ó grandes olhos outonais, cheios de Azul!
Como nasceste vós neste país do Sul?
Quem vos pintou? Quem foi esse pintor estranho?
Que génio excecional! Que talento tamanho!
Alguém me disse que viu todos os museus,
Mas o que lá não viu foi olhos como os teus…
Nunca vi nada, assim, em toda a natureza.
O pincel que vos criou foi, com toda a certeza,
O mesmo que pintou os raros azulejos;
Vós sois um céu azul cheio de astros e beijos!

ANTÓNIO NOBRE

5.27.2015

A MÃO AO ASSINAR ESTE PAPEL


 
A MÃO AO ASSINAR ESTE PAPEL
 

 

A mão ao assinar este papel arrasou uma cidade;

cinco dedos soberanos lançaram a sua taxa sobre a respiração;

duplicaram o globo dos mortos e reduziram a metade um país;

estes cinco reis levaram a morte a um rei. 

 

A mão soberana chega até um ombro descaído

e as articulações dos dedos ficaram imobilizadas pelo gesso;

uma pena de ganso serviu para pôr fim à morte

que pôs fim às palavras.

 

A mão ao assinar o tratado fez nascer a febre,

e cresceu a fome, e todas as pragas vieram;

maior se torna a mão que estende o seu domínio

sobre o homem por ter escrito um nome.

 

Os cinco reis contam os mortos mas não acalmam

a ferida que está cicatrizada, nem acariciam a fronte;

há mãos que governam a piedade como outras o céu;

mas nenhuma delas tem lágrimas para derramar.

 

In DYLAN THOMAS

A Mão ao Assinar Este Papel

Trad. De Fernando Guimarães

5.02.2015

RELÓGIO DE AREIA



O RELÓGIO DE AREIA

Está bem que se meça com a dura
sombra que uma coluna pelo estio
arroja ou com a água desse rio
em que Heráclito viu nossa loucura.

O tempo, já que ao tempo e que ao destino
se assemelham os dois: a imponderável
sombra diurna e o curso irrevogável
da água que prossegue o seu caminho.

Está bem, mas o tempo nos desertos
outra substância achou, branda e pesada,
ou parece ter sido imaginada
para medir o tempo dos defuntos.

Surge assim o alegórico instrumento
das gravuras de muitos dicionários,
a peça que os pardos antiquários
relegarão ao mundo pardacento.

JORGE LUIS BORGES


12.03.2013

ORAÇÃO DA PROFESSORA PRIMÁRIA




Senhor,
Tu que ensinaste
Perdoa que eu ensine,
Que use o nome de mestra,
Nome que tu usaste na Terra.

Mestre,
Torna perene o meu fervor
E passageiro o desencanto.
Arranca de mim este impuro desejo de justiça
Que ainda me perturba,
A mesquinha insinuação de protesto
Que sobe de mim quando me ferem.

Não me doa a incompreensão,
Nem me entristeça o esquecimento
Daqueles que ensinei.

Dá-me que seja mãe, mais do que as mães,
Para poder amar, e como elas, defender
O que não é carne da minha carne…
Dá-me que seja simples e profunda,
Livra-me de ser complicada e banal
Em minha lição quotidiana.
Dá-me que retire os olhos
Do meu peito com feridas,
Ao entrar cada manhã na minha escola.

Torna mais leve no castigo a minha mão
E torna-a mais suave na carícia.
Que com dor eu repreenda
Para ter a certeza
De que corrigi amando.


GABRIELA MISTRAL (1889-1957), professora e poetisa chilena, galardoada com o Prémio Nobel da Literatura em 1945

10.12.2012




De manhã cedo, quando as aves trinam
E a cerração nos descampados dorme,
Saltar de cima do lombilho e logo
Lavar o rosto na lagoa enorme.

Ir ao curral, e, mesmo na porteira,
Uma guampa beber de leite quente;
Sovar a palha e ir picando o fumo
A conversar com essa boa gente.

Encilhar o matungo, ir, no tranquito,
Dar uma volta por aqueles pagos
E na venda mais próxima apeando
Cantar ao violão, tomando tragos.

Depois voltar ao rancho ou ao sobrado,
Tanto num como noutro há boa gente;
E na rede – suspensa de dois caibros –
Saborear um chimarrão bem quente.  

MÚCIO TEIXEIRA

ALMA NUA



Sou o lago que a luz do céu reflete,
Sou o voo das aves pelos ares;
Sou o vento sutil, que se intromete
Na folhagem dos bosques seculares.

Sou o leão que no deserto ruge
Se os tufões as areias movimentam;
Sou a torrente férvida, que estruge
Quando na praia as ondas arrebentam.

E… sou o colibri que beija as flores,
E no aroma das flores se embriaga;
Sou a falena: atraem-me os fulgores
De uma luz que vacila, e não se apaga.

Sendo todas as coisas, sem que possa
Saber o que é que sou, e o que são elas;
Eu, na incerteza que de mim se apossa,
Confundo a luz do olhar com a das estrelas.

É dos meus olhos que essa luz se exala,
Ou recolho os seus raios na retina?
E no silêncio, em que minh’alma fala,
Vibra uma interna música divina.

In MÚCIO TEIXEIRA, Brasas e Cinzas, Imprensa Nacional. Rio de Janeiro, 1922, págs. 15-16

10.23.2011

ANTIKIPLING

Se cresceres sinuoso como entre esguias
Árvores cresce o cipó, meu filho,
Ou se engordares no charco, como lodosa planta,
Olha o azul do céu
Que o mais não tem a mínima importância.

Águia ou chacal serás. O mundo
Tudo comporta e o Sol não discrimina
Entre alcantis e pântanos.
Cometerás os pecados mais torpes
E eu te absolverei. Nada compromete
Ou dignifica a vida. A verdade e a virtude
Agonizam na mesma solidão do ataúde
Onde os vermes e os ratos
Não mais têm importância.

Estarás com Cristo, sem Cristo ou contra Cristo
E te importunarás num mundo desolado
E assaltado
Pelos lobos do bem, pelas pombas do mal,
Os cordeiros da guerra, os tigres da bonança.

Hás de amar alguém que um dia trairá
A tua confiança.
Poderás vingar-te na mulher do teu irmão,
Na tua própria irmã. Cometerás ainda
Outros incestos sem nenhuma importância.

Se fores ausente a tudo – e isto nada importa –
E for o teu Sol brilhante, logo atrás
Desse brilho acharás tua face morta
E a nada mais darás
A menor importância.

Mas se participares, sofreres, morreres
Maldizendo a vida que foi a tua única herança
E teu pai e tua mãe e o mundo que, um dia,
Te aborreceu do fórceps à última agonia
Na hora derradeira saberás ainda
Que isso tudo não teve a mínima importância.


In DOMINGOS CARVALHO DA SILVA, Poemas Escolhidos, Clube de Poesia. São Paulo, 1956

7.31.2011

Quando assim sai a manhã, serena e bela!
Como vem no horizonte o sol raiando!
Já se vão os outeiros divisando,
Já no céu se não vê nenhuma estrela.

Como se ouve na rústica janela
Do pátrio ninho o rouxinol cantando!
Já lá vai para o monte o gado andando,
Já começa o barqueiro a içar a vela.

A pastora acolá, por ver o amante,
Com o cântaro vai á noite fria;
Cá vem saindo alegre o caminhante;

Só eu vejo o rosto da alegria:
Que enquanto de outro sol morar distante,
Não há de para mim nascer o dia.

João Xavier de Matos (Sec. XVIII)

12.16.2010



Em Resposta a Natércia (1)


Deixa-te disso, amiga, não me pregues (2).
Amor é para mim uma quimera;
Em meu peito deserto não prospera
Mais que a lei da razão, que tu não segues.

Bem percebo essas máximas sublimes
Que ostenta a gente fraca, e que despreza
Quem tem força, quem doma a natureza,
E quem não quer passar de erros a crimes (3).

Faze embora elogios à inconstância
Ama vinte, se queres, não me importa;
Eu para criticar já estou morta…
Não conheces a minha tolerância?

Sou de composição muito esquisita:
Não creio nos amores desta terra,
E declaro aos amantes maior guerra,
Quando de amor minha alma necessita (4).

Quem vês tu que mereça ser amado?
Qual do culto do Amor digno hierofonte (5)
Não terá, co’as fraquezas de inconstante,
Os augustos mistérios profanado?

Amor em mim não é qual o tu sentes,
Um clamor, um tumulto dos sentidos;
Eu tenho esses escravos submetidos
A leis mais elevadas, mais decentes.

Sinto amor como a terra toda sente
As forças que a mantêm, forças diversas;
Amor me faz fugir de almas perversas,
Por amor busco eu em vão uma inocente (6).

De opiniões cobardes governados,
Os homens hão de rir destas doutrinas,
Hão de rir os peraltas e as meninas:
Queres que adore um desses malcriados?...


(Sozinha no Bosque)

Sozinha no bosque
Com meus pensamentos,
Calei as saudades,
Fiz trégua a tormentos.

Olhei para a lua,
Que as sombras rasgava,
Nas trémulas águas
Seus raios soltava.

Naquela torrente
Que vai despedida
Encontro, assustada,
A imagem da vida.

Do peito em que as dores
Já iam cessar,
Revoa a tristeza,
E torno a penar.


(Como Está Sereno o Céu)

Como está sereno o céu,
Como sobe mansamente
A lua resplandecente,
E esclarece este jardim!

Os ventos adormeceram;
Das frescas águas do rio
Interrompe o murmúrio
De longe o som de um clarim.

Acordam minhas ideias,
Que abrangem a natureza,
E esta noturna beleza
Vem meu estro incendiar

Mas se à lira lanço a mão,
Apagadas esperanças
Me apontam cruéis lembranças,
E choro em vez de cantar.


(1) Natércia é o nome poético da viscondessa de Balsemão, D. Catarina de Sousa e Lencastre. Esta carta escrita, provavelmente, pouco tempo depois da saída do convento de Chelas, em 1777, no tempo em D. Leonor era cortejada por mais de um fidalgo da corte, responde a outra da amiga, em que esta, pelo que se deduz, proclamava os direitos do amor, a santidade da paixão, segundo as doutrinas do tempo, que prepararam seguidamente os ideais românticos. E as duas representam, em consonância, as duas correntes da época: uma, o filosofismo; a outra, o sentimentalismo.
(2) Pregues – manobra de persuasão, ou tentes convencer.
(3) De erros a crimes – D. Leonor que nesse tempo afectava espírito filosófico, considerava o excesso da paixão como um erro que pode levar ao crime. É curioso verificar que a sua amiga se colocava no polo oposto, o que suscita o elevado interesse por esta carta, enquanto item para a história da cultura do romantismo português.
(4) A atitude filosófica racionalista era uma violência ao coração de Alcipe, conforme se nota nestes versos em que a razão está a subjugar o coração.
(5) Hierofonte – sacerdote.

D. Leonor de Almeida – A futura Marquesa de Alorna nasceu em Lisboa, em 1750. Como era da família dos Távoras, foi em 1758 reclusa no mosteiro de Chelas, com sua mãe e uma irmã, D. Maria de Almeida, tendo sido o pai, por sua vez, internado no Forte da Junqueira.
Como a vida não corria, não obstante, e de todo em todo, mal para as jovens prisioneiras, que se entretinham com o aprendizado das artes e o usufruto da música e da dança, D. Leonor começou a interessar-se pelos filósofos portadores das ideias de liberdade: Locke, Voltaire, Rousseau, D’Alembert, etc. Essas leituras e a formação reclusa, a sua história pessoal e familiar, contribuíram para a gestação de uma pequena alma revolucionária, que passou a exprimir-se, sobretudo, através da composição poética, o que, elevou notoriamente a afluência ao convento, para admirar o prodígio, nomeadamente dos melhores espíritos da época, entre os quais os poetas Correia Garção, Filinto Elísio, Domingos Maximiano Torres, e demais tentaculares promessas desta geração.
A jovem Alcipe, nome que deram à nova poetisa, tomou-se de alta admiração por Filinto Elísio, que lhe ensinava latinidade e mantinha agradável idílio com a sua irmã. Em 1777 abriu-se-lhes o convento e D. Leonor veio a casar, seguidamente, com um oficial prussiano, o Conde de Oeynhausen, residente em Portugal, o qual acompanhou mais tarde a Viena, em 1780, onde se familiarizou com o estudo da literatura alemã, o que a mudou consideravelmente, transformando a antiga discípula dos filósofos da liberdade numa política tradicional e nacionalista ferrenha, que chegou mesmo a desafiar, por carta, o próprio Napoleão. Porém, dava-se nela aquele desequilíbrio, enfim, naturalmente sinal dos tempos, porquanto se demonstrara incapaz de se submeter às realidades, mentalmente indisciplinada, andando em brigas constantes com credores, o que além de muitos dissabores, lhe acarretou diversas situações difíceis.
Pina Manique considerava-a perigosa e mandou-a sair de Portugal. Fixou-se então em Inglaterra, de onde regressou em 1814. Acolhia os novos com deferência e dava-lhes conselhos literários, como sucedeu com Alexandre Herculano, que deveu “à ilustre senhora” os primeiros passos na literatura alemã. E faleceu em 1839.
O estilo da Marquesa de Alorna é um estilo de transição do classicismo (tipo horaciano) para o romantismo (incipiente), grandemente influenciado pelos autores ingleses e alemães, em que apontam temas de melancolia vaga, o «novo mal» da época, como ela afirmou, em que as «as almas sensíveis» liam poesias ao luar, sob as ramadas, atacando o despotismo em nome da liberdade.

12.15.2010


Alexandre, Marília, qual o rio,
Que, engrossando, no inverno tudo arrasa,
Na frente das coortes,
Cerca, vence, abrasa
As cidades mais fortes;
Foi na glória das armas o primeiro,
Morreu na flor dos anos (7) e já tinha
Vencido o mundo inteiro.


Mas este bom soldado, cujo nome
Não há poder algum que não abata,
Foi, Marília, somente
Um ditoso pirata,
Um salteador valente.
Se não tem uma fama baixa e escura,
Foi por se pôr ao lado da injustiça (8)
A insolente ventura.

O grande César, cujo nome voa,
À sua mesma pátria a fé quebranta;
Na mão a espada toma,
Oprime-lhe a garganta,
Dá senhores a Roma.
Consegue ser herói por um delito;
Se acaso não vencesse então seria
Um vil traidor proscrito.

O ser herói, Marília, não consiste
Em queimar os impérios: move a guerra,
Espalha o sangue humano
E despovoa a terra
Também o mau tirano.
Consiste o ser herói em viver justo:
E tanto pode ser herói o pobre,
Como o maior Augusto.


Eu é que sou herói, Marília bela,
Seguindo da virtude a honrosa estrada.
Ganhei, ganhei um trono,
Ah! Não manchei a espada,
Não o roubei ao dono!
Ergui-o no teu peito e nos teus braços;
E valem muito mais que o mundo inteiro
Uns tão ditosos laços.


Aos bárbaros, injustos vencedores
Atormentam remorsos e cuidados;
Nem descansam seguros
Nos palácios cercados
De tropa e de altos muros.
E a quantos nos não mostra a sábia História,
A quem mudou o fado em negro opróbrio
A mal ganhada glória!


Eu vivo, minha bela, sim, eu vivo
Nos braços do descanso e mais do gosto (9).
Quando estou acordado,
Contemplo o teu rosto (10),
De graças adornado;
Se durmo, logo sonho e ali te vejo.
Ah! Nem desperto nem dormindo sobe
A mais o meu desejo!

Tomás António Gonzaga (Porto, 1744 - Moçambique, 1810), in Marília de Dirceu

(7) Alexandre morreu aos 32 anos.
(8) Injustiça – conquistar pela força.
(9) O poeta que assim se exprimia estava à beira da desgraça, pois, pouco tempo após, seria metido numa escura masmorra da Ilha das Cobras, como implicado na Conspiração Mineira.
(10) Contemplo no teu rosto – no em vez de em teu rosto, populariza e torna menos expressiva a expressão.

12.15.2009



“Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes,
mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo.
E que posso evitar que ela vá a falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver apesar de todos os desafios,incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e
se tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar
um oásis no recôndito da sua alma .
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um 'não'.
É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.

Pedras no caminho?
Guardo todas, um dia vou construir um castelo...”




(Lisboa, 13 de Junho de 1888 - Lisboa, 30 de Novembro de 1935)

12.09.2009


«Não há nada...»

Não há nada que canse estas crianças.
Pulam e gritam, de regresso a casa,
após longo passeio, como se
fosse apenas um caso de memória
o cansaço que traziam nas pernas e na noite.

Gritam, pulam, gritam,
já esquecidos de que estavam cansados.

É horrorosa esta energia indomável,
sem graça e sem encanto, que deleita e baba
os que fazem mentalmente os filhos que não querem ter
ou que não podem ter, ou que perderam.

Porque é gratuita, é inumana, é
dissipação de um passado selvagem
que a cada hora espreita nos tranquilos gestos.

Eu sei que é a vida – a vida, oh sim, a vida –
manifestando-se nesses uivos, neste gosto
da grosseria, da brutalidade, e de andar sujo,
despenteado e descalço, o gosto
fascinante e medonho da degradação.

Não há nada que canse estes animais
que amamos com tédio, e pelos quais tememos
o futuro e a morte, ou mesmo os olhos deles.

Hão-de crescer cansados e viver cansados
da humanidade delicada e terna
que apenas um ou outro, menos bruto,
descobrirá por conta própria apenas.

Belas crianças? Se o forem.
E porque o hão-de ser por serem minhas?
E porque hei-de fingir que os amo como gente,
se ninguém pensou nelas para serem feitas?
E porque hei-de aceitar que seja amor
este teimoso orgulho de ter crias?

Não há nada que canse estas crianças,
nem mesmo o desespero de que o sejam.

17/10/1965
In Visão Perpétua, de Jorge de Sena

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

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Escribalistas é órgão de comunicação oficial de Joaquim Maria Castanho, mentor do escribalismo português