Convite para partilhar caminhos de leitura e uma abertura para os mundos virtuais e virtuososos da escrita sem rede nem receios de censura. Ah, e não esquecer que os e-mails de serviço são osverdes.ptg@gmail.com ou castanhoster@gmail.com FORÇA!!! Digam de vossa justiça!
4.27.2017
4.26.2017
NEGAÇÃO DA SANIDADE
NEGAÇÃO DA SANIDADE
Já não temo a solidão
Nem receio morrer sequer,
Pois meu medo é teu não
E não outro não qualquer…
Supus, por deixar de te ver
Ser capaz d'esquecer também
O teu sorriso, a tua voz
Sem igual a mais ninguém,
Mas ora fiquei a saber
Que não há forma de perder
Quem está vincado em nós,
Quem ouvimos no caminho
(Micro-eco sem entrave
Nas ondas do vento suave)
Que fazemos para fugir
(Mas saudade agrave…),
Estrela em que m'aninho
Insiste ser a casa cinco
Sublinhado sulco, vinco
Por favor não digas não
Outra vez, que de morrido
Ficarei vivo, mas ficção
Personagem sem coração,
Tão rendido, tão sofrido
Que prà vida 'tou perdido…
– Da sanidade negação!
Não temo ser descoberto
Nem me saberem cativo,
Mas tão-só não ter-te perto
Cada segundo que vivo.
Joaquim Maria Castanho
4.25.2017
TRANSPARENTE É O ABRAÇO
ABRAÇO TRANSPARENTE
Mergulho em tuas águas
E sou o cristal de um jardim,
Sem orgulho e sem tréguas
De ser em ti, como tu em mim
Já na ribeira dissolvente
Pla liquidez da sofreguidão:
No abraço pleno a semente
Gera socalcos no coração,
Janelas por cima deste rio
Que agita as profundidades
Mata sedes, corrói o frio
Planta vides nas saudades,
Essas mais que uma, duas
Três, mil que sejam por segundo
Que, cópia de ti, serão luas
Cópias da lua qu'é A sol do mundo.
Mergulho na água que tu és
Soluto de soletrar paixões,
Que dá a volta mundo sem pés
Nem julgar o ser plas ilusões.
Joaquim Maria Castanho
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ABRAÇO TRANSPARENTE
ABRAÇO TRANSPARENTE
Mergulho em tuas águas
E sou o cristal de um jardim,
Sem orgulho e sem tréguas
De ser em ti, como tu em mim
Já na ribeira dissolvente
Pla liquidez da sofreguidão:
No abraço pleno a semente
Gera socalcos no coração,
Janelas por cima deste rio
Que agita as profundidades
Mata sedes, corrói o frio
Planta vides nas saudades,
Essas mais que uma, duas
Três, mil que sejam por segundo
Que, cópia de ti, serão luas
Cópias da lua qu'é A sol do mundo.
Mergulho na água que tu és
Soluto de soletrar paixões,
Que dá a volta mundo sem pés
Nem julgar o ser plas ilusões.
Joaquim Maria Castanho
4.24.2017
COM AS FOLHAS SOLTAS DO SENTIDO
COM AS FOLHAS SOLTAS DO SENTIDO
A dúvida me desfolha, tortura
E dilacera, que chego a delirar
Às doídas fronteiras da loucura,
E aí te guardo pra lá do guardar.
Não só teu rosto, mas também a voz
Perduram em mim, marcam o dia,
Desatam e desenleiam estes nós
Com que alma à mágoa se prendia…
Doía não te ver, com o doer atroz
Que fomenta essa melancolia,
Que isola e ata, me deixa a sós,
E bloqueia o crer, que já descria
Sentir o quanto à vida se alia
A si mesma e segreda existir,
Ou diz calada que sem ti é nada
Como igualmente eu nada sou,
Ínfimo ponto sem ser nem porvir
Gota que seca no pó da estrada
Tão longe da água que a gerou
Que é lágrima de sangue morto,
Coalho no soalho podre e torto
Do chão irregular, chão contorcido
Moída incerteza sobre teu querer,
Expetativa, papel atribuído
Ao sentir que de mim sabes ter,
Que não sabê-lo me tira o sentido
Se dilacerado meu ser na espera
Corrói o ânimo já tão corroído
Que até o respirar me dilacera…
Tão amargurado, na incerteza
Que é a dor onde fora gerado,
Que se fora flor de rara beleza
Havia de ter pétalas de cuidado
E dúvida, que me traz desfolhado.
Joaquim Maria Castanho
4.23.2017
DO ALTO DE CASAL PARADO SE VÊ TODO E QUALQUER LADO
DO MIRADOURO DE CASAL PARADO…
Em Casal Parado, as ruas
São como as ruas de qualquer lado
Com portas ímpares e portas pares
Janelas, varandas e paredes nuas,
Cujas cores variam segundo o pintado
E conforme é vulgar em demais lugares…
Mas Casal Parado não é igual
A qualquer outro lado conhecido,
Pois faz menção de dali se ver Portugal
Não plo que é mas plo que podia ter sido.
Dali vê-se como se fosse uma geringonça
E este se parecesse a qualquer viatura,
Que treme como gelatina e salta que nem onça
Quando a economia cresce segura;
Mas se, porém, oscila de incerteza
Traça, planeia e giza em linhas retas
Em direção a muitas dessas metas
Que parecem antídotos prà crise portuguesa.
E que já vem de há muito tempo atrás,
Mesmo de mil trezentos e oitenta e três
Em que a coisa andava zás catrapus-catrapaz
Pelas desenvergonhices dos nossos reis.
Portanto, está bom de ver (e sentir)
Que em Casal Parado, nada anda sem mexer
Nem nada mexe sem muito rir,
Tal e qual como costuma dizer
O nosso povo, sadio e bem-apessoado –
E que de Casal Parado não quer sair.
Joaquim Maria Castanho
4.22.2017
CASAL PARADO
Que lugar é esse, o da literatura, enquanto experiência humana? Que terra é essa que nunca foi, mas a que eu chamo simplesmente de Casal Parado?
A gente ao princípio começa por ir lá aos pouquinhos, para se distrair, para descansar da realidade, para se divertir secretamente (quiçá secretamente), para ter um lugar onde só possam entrar as nossas amigas mais chegadas, os nossos seletos amigos, onde as coisas aconteçam por diferentes razões daquelas que em família, na escola, ou na rua, as causam e justificam; para evadir-se do dia-a-dia, para esconder-se da timidez com que nos debatemos, para surripiar uma frase inteligente de que precisamos, para desentorpecer as nossas inquietações, por birra, e até mesmo para buscar auxílio e ajuda na resolução dos problemas que nos assolam. Às vezes entra-se lá pela mão de alguém mais experiente e crescido, uma avó, uma professora que nos cativou sobremaneira, um irmão, companheiro de classe ou simplesmente alguém que contou uma história para adormecermos, comermos a sopa e entreter-nos enquanto o nosso adulto responsável estava ocupado por tarefas inadiáveis. Outras porque aquele ou aquela que nos acompanha no acaso das circunstâncias não está para aturar os bichos-carpinteiros da fedelhada e nos arrumou algo útil com que permaneçamos quietos e sem chatear. Seja pelo que for, o que é certo, é que quando lá entramos nunca mais regressamos a ser os mesmos, com reações diferentes às mesmas sucedências ou acontecidos, ou alterado poder de manobra e encaixe quanto ao que somos e os demais nos parecem ser. Sofremos uma espécie de metamorfose, de transformação, ainda que delével e sem deixar mossa, mínima beliscadura ou picada de insecto, que coçamos ou sacudimos para encetar nova corrida, salto, chuto na bola, pedrada na água, deitar a língua de fora à vizinha velhota mas rabugenta que nos promete rebuçados se lhe dermos um beijinho (bhhhaaaa!!...), ou pularmos sobre a cama à sorrelfa de quem tem obrigação de a manter impoluta. Se estamos doentes, assolados por papeira, varicela, sarampo, gripe, ou de castigo no quarto por alguma malfeitoria grave, como tão-só no desentediar do momento, ao percorrer o quarto com olhar de desafio a fim de perverter a contrariedade que ali nos depusera, damos de caras com uma prenda de anos ou de Natal a que anteriormente não déramos alguma importância, exatamente por ser um livro, um naco de literatura em formato de bolso, tijolo de tapar brechas na desenvoltura lexical, excerto de paisagem de outras dimensões e díspares tempos.
Depois a gente nem nota como, mas começamos a demorar-nos lá, entretidos com esta ou aquela personagem, alguém suficientemente descarado para nos revelar segredos íntimos, dizer o que pensa disto e daquilo, capaz de desaforos mirabolantes se provocado, possuído de força incomparável, detentor de poderes mágicos que tanto jeito nos faziam para apagar do mapa os pindéricos que nos atrofiam e não nos deixam crescer em paz e retouça. Apanhando-lhes os trejeitos, tiques característicos, falas, traquinices, partidas, repentes, argúcia, e até a vocação e vivacidade imaginativa. Ou inventiva, como apraz a muitíssima e boa gente qualificar. E aí inicia-se o jogo de esconde-esconde, o guardar algo na mochila ou no bolso que nos transmite confiança, tal como uma pedra do rio, uma concha de praia, um cordel insignificante, um apetrecho de pesca, a carica ou berlinde da sorte, o selo valiosíssimo, a moeda suja e carcomida que encontrámos no sótão, no quintal, recreio da escola, caminho que percorríamos desaustinados, mas nos chamou a atenção e fez parar para ver o que era, e mostrámos aos adultos ou colegas, não merecendo outro comentário além do célebre e tradicional «Aaah!, porcarias!» Então, nasce o primeiro sintoma de que ficámos agarrados, viciados, capazes de sonhar acordados, de falar alto quando estamos sozinhos, de escutar a conversa entre duas ou mais pessoas sem que elas nos vejam, e de responder «Médico», por exemplo, se alguém nos pergunta o que queremos ser quando formos grandes, mas fazendo figas atrás das costas e pensando noutra profissão qualquer!
Principalmente porque já percebemos que, de cada vez que lá entramos, somos notados: aquilo fala connosco, trata-nos por tu, esclarece-nos acerca da nossa identidade e dúvidas sobre o pessoal conhecido. Passamos a ficar mais um pouco do que o habitual, e se nos chamam para almoçar fingimos que não ouvimos. As personagens preferidas, aquelas que nos vingam e enfrentam com galhardia os arruaceiros do nosso desassossego, os que apostaram em fazer-nos homens dê lá por onde der, prometem surpreender-nos ou revelar-nos coisas indizíveis se não abalarmos imediatamente. Se esperarmos mais uns parágrafos… Se aguentarmos até folhas adiante… Estamos feitos!
Podemos até distrair-nos com as obrigações quotidianas, estabelecer relações sociais desejáveis, tirar boas notas, responder positivamente às expectativas dos maiores e companheiros, brincar normalmente com os primos e vizinhos, integrar grupos, bandos, agremiações religiosas ou partidárias, ir de excursão em visita de estudo ou recreio, ajudar os familiares no campo ou na lide, cuidar do nosso animal de estimação, fazer corridas de bicicleta, assistir a jogos de futebol ou bater palmas na primeira fila dum espectáculo. Como igualmente socorrer-nos da idade que temos para fazer o que acham que devemos fazer com ela, ou é suposto fazer-se nela: brincar, estudar, namorar, trabalhar, conviver, estar com a família ou os amigos, participar da vida pública, encontrar na actividade social um óptimo élan vital para nos fortalecermos e enraizarmos. Além de estabelecer vida e família própria. Todavia, se já descobrimos a nossa voz, e ela foi reconhecida como a nossa voz entre outras vozes, autores ou personagens, narradores ou redatores, então toda e qualquer experiência que tenhamos, ficou com lugar marcado para ser dita por ela numa invenção oportuna e premente, onde essa revelação tomará foros de imperiosa e urgente: tornámo-nos literatos. Nómadas do conhecimento e da geografia, andarilhos da empatia, fotógrafos dos inconscientes (individual e/ou colectivo), contrabandistas de valores pouco explícitos. Vagabundos da língua, cavadores de areais em busca de tesouros que ninguém nos legou, mas antes roubámos do fantástico baú da História como das histórias… Da história pessoal como da coletiva, tenha sido ela registada no consciente como no inconsciente, sobretudo quando encontramos fronteiras demarcadas entre ambas, o que é raro, e só sucede aos que se libertaram da lei da morte por obras valorosas, como salientou o bardo lusitano dos sete mares andarilho.
E se por um lado ganhámos uma pátria (a língua em que a nossa voz se expressa), por outro, conquistámos também uma trincheira, labiríntica, subterrânea, misteriosa, de onde olharemos os outros para lhe atirar os nossos petardos. Não para os atingirmos mas para os tornarmos conscientes de quanto estão ao nosso alcance. Alguns deles são mesmo fogo-de-vista, artifícios de maravilhar, plenos de cor e exotismo, movimento e som, aroma e ritmo, que os arrebatam e deslumbram, os levam a baixar guarda, exilar-se de si próprios, e seguirem-nos na aventura de soletrar o espaço-quando. O tempo e o modo. A letra e o estilo. O género e a ousadia. Enfim, a fala e a voz!
Abandonado que foi o reino do fazer é altura de entrar no de como fazer, pois todas as nossas aptidões e experiências humanas se alteraram. Viver deixa de ser importante, mas o como fazê-lo (ou como se faz) torna-se imperativo. Então, se se entra num jogo, ou numa profissão, é premente saber praticá-los bem, não para ganhar o jogo ou evoluir na carreira, mas sim para assimilar a experiência a ponto de poder servi-la pura e real, em condições de utilização óptima, ainda muito dentro do prazo de validade, aos personagens (nossos ou alheios) que habitam no universo dos que nos reconhecem (a voz): a literatura. A mentira. A mentira tão mentirosa que chega desmentir-se numa verdade que nos espelha, reflete, projeta, alicerça e determina. A mentira tão profunda que nos devolve autênticos em palavras para além do que somos e queremos ser. A ilusão que nos descarna e coloca no rubro da carne viva, sujeitos a todas as infeções dos sentidos, incluindo da empatia e propriocepção, do envolvimento pessoal e da cumplicidade inequívoca. E que nos doutrina na forma de nos conduzirmos entre os demais, semelhantes e diferentes, físicos e imateriais… Enfim, chegamos a Casal Parado!
Joaquim Castanho
(Ilustração: fotograma do filme A VIAGEM DE CHIHIRO, de Hayao Miyazaki)
4.21.2017
OLHANDO O MAR, SOB O AZUL
SOB O AZUL, OLHANDO O MAR
(Paisagem com rosto, ou alucinação sobre a água
fulgente de um pôr-do-sol de Foz domingueira...)
Olha as gaivotas, ali linhas de voo
O seu corte pontiagudo no diamantino céu
E cristal também plácido espelho
Das águas chispando (a)deuses.
Podes pedir-lhe a calma da tarde
Que não te recusarão o destino,
Porquanto é o corpo quem parte
Mas ficando nelas o olhar-menino
Deste silêncio, líquido definido
Mascando ênfase no sonho corrompido
Pelo coração em sobressalto, desatino
Com a vida e seus incontáveis reveses,
Que nos concedem sempre o que às vezes
Apenas acidente supomos ser no puro linho.
Não apetece ainda o escurecer:
Há caminhamantes na marginal…
Mas o soslaio do sol fisga a Pousada
E põe na grama verde a linha escalada
De romper as frestas ao molhe triste
Nos olhos dos olhos se o Douro viste.
Pousada da Juventude, Porto
.../.../...– 16:30 horas
Joaquim Maria Castanho
RAIOS DIGITAIS
RAIOS DIGITAIS
São os ires e voltares de Arina na areia em raios X quem ilumina
E há no tempo altares de abrires a íris ante os milagres que vires
Relógios biológicos dos noves redondos às novidades da gravidez
Porque a dança dos números na cadeia da existência exige tua tez
Neles há elos que entrelaçam a urgência alfanumérica na sensatez
Se despem dos caprichos sulcando nichos de fluorescência e canto
Verdes ramos de silene nas frinchas do manto em retalhos multicor
Esculpidos nas escarpas do ser ainda investido da perfeição divina
Falésias fustigadas pelas marés do amor que a si mesmo se ensina
Quanto só se ama amando na vereda feita por quem muito caminha
Autoestradas a uma outra Roma sem César nem o incendiário Nero
Novo calendário onde os setembros são noves e o nove apenas zero
Recinto aberto dos deuses que duros não fogem e muros esfarelam
Quando as humanidades às vezes fiéis a seus poderes divinos apelam
Mulheres e homens tão-só sem os absolutos corcéis da exigida voz
Idades médias da refrega em laços redutos de refúgio e pura entrega
Socalcos na arena onde perante o temor o último reduto somos nós
A sós feitos nós da rede as mãos damos nas Íris conforme vamos
Assim a noite ensombre o dia e a sombra do mar na terra maresia
Que todo o ph está apenas no fósforo em Pi rico desta filosophi@
Dita nas Ágoras invisíveis e fóruns de ouro dos sentimentos vivos
Como seguro SOS da liberdade nos W que vítreos vencem os e-crãs
Transparentes almas à solta e triplo salto do sonho em solfejo digital
De esgar em esgar repartido sem instante nem o requerer consumido
Das exigências típicas ao profanar da liberdade e dessas liberdades
Pequenas de cada qual que tornam grande e valorosa a que é essencial
E única e múltipla e fecunda e transparente como o meu olhar em ti
Às vezes insistente, às vezes inquieto, mas sempre forma de chamar-te
Pra mais perto, pra requerer-te como quem quer teu ser de mulher.
Joaquim Maria castanho
UM MENINO VESGO
UM MENINO VESGO
Há pessoas que se deixam arrastar pela desventura,
Outras que se deixam seduzir pela beleza.
Alguns arriscam o destino trágico dos seres
Que se tornam definitivamente adultos!...
Mas em cada assisado
Há sempre uma criança adormecida.
Também tu, meu amigo,
Foste um menino mau como os outros.
Reconcilia-te com esse menino!
Fala ao teu filho com o teu coração de menino...
Mas, lembra-te que:
Falar não é arremessar palavras,
Não é cuspir frases.
Falar é deixar que os silêncios falem.
Tu falas às crianças
Como se tivesses um velho livro na cabeça
E um polícia no coração.
Vês o teu filho sem o olhar;
Vês só a imagem que dele inventaste,
Misturada com a ideia da criança que eras.
E assim,
O teu filho não sabe rir,
Gagueja quando o interrogas,
Não sabe estender-te os braços,
Não sabe olhar para ti,
É vesgo.
Deixa de ser um menino mau, meu amigo,
Estende os braços ao teu filho,
Faz gazeta por um dia e vagueia com ele por aí.
JOÃO DOS SANTOS
Poema escrito durante o Primeiro Colóquio Português de Estrabologia, em Sintra, no dia 21.IV.1968.
4.20.2017
ÍNTIMA ESPIRAL
ÍNTIMA ESPIRAL
Mas limito-me a ler a espera
Entre ser e ver-te, assim real
Enquanto o coração acelera
E entretece o voo original,
O retorno ao eterno querer
Onde os sonhos e a Quimera
Nunca esperam o nosso dizer
A fala, a palavra de quem dita
Que ser é ver que se acredita.
E por esse interregno suposto
De quem se sacrifica e imola,
Gosto tanto de gostar, qu’o gosto
É um éter que me dilui e evola.
Joaquim Maria Castanho
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TONHO TALEGO
TONHO TALEGO
Tonho Talego era brigão e berrava lá no Sítio de Casal
Parado na minha terra do Tonho Talego, porque ele, sabem
Nunca debitou sentenças na televisão e podia berrar
E o Sítio era dum brigão, que era ele a sitiar.
Às vezes, à tarde, em verões escaldantes, sentava-me
Na parede à beira do alcatrão apenas para o ouvir
E ele gritava e dizia que havia de a matar, que ela era
Uma puta, uma puta!!!, e ela era só a mulher e mãe
Dos filhos dele, mas ele não queria saber disso,
Queria era o dinheiro dela para beber mais uns copos
De branco (jamais conseguiriam que mudasse prò tinto)
E poder jogar uma bisca de soldado, e ter motivos
Para discutir com outro qualquer
E esquecer-se da mulher.
À noite, madrugada fora, iria roubar que comer de dia
E os donos das hortas sabiam que ele os roubava
Mas não queriam saber, nem se importavam,
Pelo que Tonho Talego morreu sem nunca ter pedido
Nunca ter implorado nada a ninguém.
Viveu miserável e só foi ao médico uma vez
Em toda a vida, quando foi às sortes, nem estava doente
Que só adoecia quem podia naquele tempo.
Tinha uma mesinha pra todo o mal, dizia
(Comprimidos de virar a mão e vacinas contra o teto)
A aguardente bem forte, que o grau é doutoramento
E até patente que tudo cura, febre, dor no dente
Fraqueza no tino ou estranhamento das ideias.
Aos quarenta anos parecia um velho e era velho
Até era o mais velho da família dele, porque durara
Não muito mais que isso mas também poucos mais havia
Assim, tão duradoiros, depois do sol-a-sol e lambugem
Chilra pra não perderem a linha e ligeireza.
Nunca lhe faltou a foiteza, nunca arrepiou caminho
Todavia se nunca torceu não o fez por razão nem certeza
Mas por desfastio e teimosia, que quem não sabe pra onde vai
Qualquer trajeto é perfeito.
Tonho Talego morreu cedo, que agora é que ele havia de ser
E sentir-se como peixe na água com que os sapos cantam
E as dobradiças enferrujam. E é pena, pois dava-nos jeito
O seu jeito de ser, para explicar às crianças
Como se não deve ser nem estar e muito menos fazer.
Creio até que é por estas ausências que a imaginação,
A criatividade, a ficção mais se justifica nestes dias...
Joaquim Maria Castanho
4.19.2017
ASPEREZA DESPERTA
ASPEREZA DESPERTA
Estamos quase dispostos e intercalados
Como sujeitos sem verbo (conjugável),
E nesse chão, os silêncios amontoados,
No pleno diverso que eles próprios são
Escrevem o futuro que, ainda visitável,
Faz parte do roteiro doutra dimensão…
E se tivemos sorte, não o reconhecemos;
Se já pedimos para ser ouvidos, só o olhar
O testemunhou; mas temos e não temos
Todas as condições essenciais para o voo
Que nos traga de onde nunca fomos, sequer
Nem nos interesse de nada saber, nem ficar
Arriscando perder também tudo que houver
Pra perder, apenas pla esperança de ganhar.
Somos a abertura determinada, essa fresta
Ínfima que há entre o todo e qualquer nada,
Com que a aspereza desperta nos empresta
A beleza do que é rude, e passos à estrada.
Joaquim Maria Castanho
4.18.2017
RIMANDO SE PERSCRUTA
A RIMAR SE PERSCRUTA
Nasceram-me novos cuidados
Sob tua voz, teu líquido olhar
Ante meus olhos e devoção
Que, das margens, aguados
– Místicos e em tua atenção –
Me pedem sôfrego naufragar;
Sucumbir à profundidade
Do soluto d'água marina
Que espelha os encantados
Pulsares e sentir de Arina;
Sentires de estrela a pulsar
Na latência da esperança
Com que as brisas fazem dançar
Folhas viçosas e salgueiros,
Tremido oscilar que alcança
Esse poder que vem de cima
Sobre os regatos e outeiros
Dando-lhes o cristal da rima…
Nasceram-me novos cuidados
Já tão há muito por nascidos,
Que os olhos aos teus colados
Rogam pra que sejam ouvidos.
Joaquim Maria Castanho
4.16.2017
É DIFÍCIL DEIXAR DE GOSTAR DE TI
DEIXAR DE GOSTAR DE TI É DIFÍCIL
(MAS NÃO É IMPOSSÍVEL)
E só tentar atira-me pró buraco
Deixa-me zonzo, põe-me tão frágil
Suja-me a alma, e fico num trapo
Amarfalhado, a bater mal, ser vil
E tirano nos afetos e no trato
Com os demais, excravo de abril
Qualquer coisa abjeta no exato
Ponto d'além de velho ficar senil.
Sim, desta vez é que não me escapo
D'esgotar todas as minhas reservas,
Ficar c'a resiliência num fiapo
E dias como noites, só de trevas.
Hei de ir prà pândega, hei de curtir
Tapar o céu, aproveitar o contato
De quem se ligar na minha, der o salto
Prò prado florido, e ser primaveril
Mesmo na ventania e chova a rodos,
Hei de andar na roda com todas e todos.
Não é fácil sei, mas hei de conseguir
Já que é isso que me resta e queres,
Enfim, se pensar em ti, hei de sorrir
E hei de exclamar: «Ora… – Mulheres!»
Joaquim Maria Castanho
QUANDO ÉS A INEQUÍVOCA INSPIRAÇÃO
QUANDO ÉS INEQUÍVOCA INSPIRAÇÃO…
Ao recortarem-se no céu adverso do circunstancial azul,
As verdes ramadas dos salgueiros (bíblicos e distintos)
Escrevem-te serena na memória desse instante, subtil
Tal como te encontrei na manhã de todos os infinitos
Ali, já quase inacreditável, quase silhueta inesperada
A trabalhar num dia feriado, logo dedicado às famílias,
E foste visão, Maia ou Arina, das princesas encantadas
Gomo de responsabilidade avançada pla emancipação
Consciente de ti, resistente de nós, de Senhora gentil
E segura que não atira a toalha ao chão e quer ganhar
Vencer porque sim, sabendo que nunca há ser tarde
Mesmo que haja incertezas e abriladas incandescentes;
E que todos os dias serão só os nossos perfeitos dias
Inequívocas inspirações da vida real pra reais poesias.
Joaquim Maria Castanho
4.14.2017
A FLOR DA ESSÊNCIA SEM ILUSÃO
A FLOR DA ESSÊNCIA SEM ILUSÃO
Se não pensar em ti não fosse crime
Eu não pensaria, nem me permitia
Procurar-te todos os dias, sentir-me
Em missão ética a favor da poesia
Combatente, monge que se redime
Dessa misoginia em que vivia
Como se fosse uma santa bênção
Ou existência elevada e sublime…
Como se fosse, mas não é, certamente
Porquanto abençoada, de verdade,
Só há no real, no campo, cidade
Teu jeito de Musa mais que gente
Mais que deusa natural, condição
Essencial pra viver sem evasão!
Joaquim Maria Castanho
O ANSEIO DE VER
O ANSEIO DE VER
Conjugo todos os verbos como rios
Que vão desaguar naquele estuário
Onde a maresia fecunda os navios
A lua é uma sombra que te imita
Um esgar que se esvanece e fita
Horizonte do real prò imaginário
Lá, atrás, nos dias longos, solitário
Se guardei o sentir incendiado
Após o primeiro dia em que te vi
Segredo tangente, resvés à fala
Como um constatar que nos abala
Nos joga prò turbilhão do indizível
Negando o que já sentíramos até aí,
Até então, mesmo até a essa hora
Até ao derradeiríssimo momento
Origem da tristeza e do contento
Detonador d'explosões universais
Que fazem com que o que antes fora
Sim, a partir daí, não o seja jamais
E passe a ser outra coisa qualquer
Perdendo o que poderia ter sido
Pra ser só pleno acatar do que vier…
Sofreguidão sem ter nada a esperar
Além dessa união que os verbos têm
Quando encontraram também alguém
Com arrebatado desejo dos conjugar.
De os aceitar tal e qual querem ser
Quando são esse seu único meio
De serem já o espelho do meu ver
Se és quem vejo… – e por ver anseio!
Joaquim Maria Castanho
4.12.2017
RETRATO SOB ROSTO SUBLIME
RETRATO SOB ROSTO SUBLIME
O vento manso afaga nubente
Os brotos, rebentos, folhas viçosas
E acaricia a pétala fremente
No veludo dos lábios nas rosas
E papoilas, princesas dos trigais
Com que as brisas enleiam (charmosas)
Os suspiros da luz por outros ais,
Outros sulcos pelo chão desenhados
Arados com esses olhos infinitos
Onde guardo os meus cuidados
Íntimos ecos, os secretos gritos
Abertos como sílabas fulgentes
Na plástica das searas e montados
– Esquissos d'Alentejo e suas gentes.
Joaquim Maria Castanho
4.10.2017
CRER É REALIZAR
CRER É REALIZAR
Se tanto Eneias como Harmonia
(Descendentes de Vénus e Adónis)
Souberam os prazeres d'alegria
Gerados por palavras e gestos gentis,
Então, porque fico eu com teu «Bom dia!»
Assim suspenso do que tua voz não diz
Mas só anseio ouvir, em sintonia
Entre as idílicas frondes e a raiz
Desse sonho que nem em si repara
Quando lhe passo rés o ar me falta
O chão me foge, a vida pára…
Será porque todo o tanto é tampouco
Que o espanto o atrai e impele
'Té ver o mundo virar insano e louco
E a luz brotar do sol em fios de mel?
Pois, se tal for, e verdade houver
Se saiba aqui e galáxias em redor
Que nada se cria nem faz sem amor
– Do chiar da roca ao voo do Condor;
Desd'a magia macia que a seda tiver
À magia do malmequer e qualquer flor –,
E qu'esse sentimento nunca é vão
Mesmo quando parece ser paixão
Tão arrebatada que nos ata e requer
Mais que a humana força permite
A morte julga, e o fogo omite,
Azar esvaneça, o pulso governe,
Melhor ou pior qu'ao poder concerne,
Só terá uma dona e nome: o teu… – Mulher!
Joaquim Maria Castanho
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