10.05.2016

DISCUSSÃO SOBRE O DISCUTÍVEL




DISCUSSÃO SOBRE O DISCUTÍVEL 

É bonita, sim, é bonita, 
Disso não há como duvidar, 
Se sua trança bem catita
Me oscila e dança no olhar. 

Tem o segredo da certeza; 
Tem a certeza de meu afeto.
E só discutimos a beleza 
Porque não acredita no certo. 

Ou não repara no visível, 
Incontornável aos sentidos, 
Como se ainda fosse possível
Desmentir meus desmentidos.

É bonita, sim, é bonita, 
Maravilhosa nas feições, 
Despachada e expedita 
Em quaisquer ocasiões. 

É bonita, sim, é bonita; 
Disso não restam suspeições. 

Joaquim Maria Castanho     

10.04.2016

HÁ ENTRADAS QUE SÃO SAíDAS




HÁ ENTRADAS QUE SÃO SAÍDAS 

Na ínclita inclinação, verbo nobre
Que se declina perante a plebe lusa, 
O épico desassossego de quem é pobre
Trambica, argumenta, pede escusa.
Em questão ‘tá a receita que não cobre
O orçado fiscal, coisa assaz obtusa
De quem conta com ovo por pôr, e descobre
Que tal galinha, a pô-lo, se recusa.
Ó opíparos no divino alheio, 
Então, vós, que gastais além do tido
Desconheceis quanto é rude e feio
Contar com o que não será recebido, 
Para pagar dívidas já contraídas…? 

– Orçar entradas assim, anseia saídas! 

Joaquim Maria Castanho

10.03.2016

CINZAS FULGENTES




CINZAS FULGENTES

Porque feminina, logo plural
Como a madrugada joanina, 
Sei duma estrela estival
Que até ao sonho ensina
A ser o que é, unicamente, 
E não outra coisa qualquer; 
Para quem olho como gente
Mas vejo somente por mulher. 

Tem o jeito mágico duma fada
E guarda no olhar esse elixir,
Com que a eternidade é nada
Pelo instante de um devir;
Dum estar que o viver transforma
Tirando-lhe tédio e ilusão, 
Pondo o caos com essa forma
Que consideramos ter a paixão. 

Pois por ela já de mim não sou
E daquilo que fui nada me sobra, 
Que quem ama o ser à luz deitou
Até lh’arderem as cinzas… 

– e obra! 

Joaquim Maria Castanho

DO NÚCLEO, A ESPIRAL




DO NÚCLEO, A ESPIRAL


É difícil o despovoar dos sonhos cimentados
Crescidos no dia a dia ante os teus gestos 
Como verbos de arrumar em livros catalogados
Novos, reposições, como registos, e lestos
De pronto se autorizam e te obedecem servis… 

Por mim o digo, que no contento de tuas mãos
Me andam ajeitados os puros sentimentos
Balançando nas ondas de teus cabelos, sutis
Vaivéns de quem alisa recatados desvãos
Onde moram os secretos anseios e alentos.  

Pudera eu ser o teu andar! Pudera eu ser, então,
Todo o ar que respiras para ir até cada poro teu, 
Invadir de manso tua íntima pele, e na sofreguidão
De ver-te cirandar, rodopiar em mim até ao céu!


Joaquim Maria Castanho

10.02.2016

SOL VAGABUNDO




SOL VAGABUNDO 

Aquela que eu amo, é o meu amor. 
Não há no universo ninguém tão lindo. 
E, muito menos, até dele em redor
Se me diz «Bom dia» e fala sorrindo. 
Pequena (luz), gotinha qu’é também flor, 
É a nova estrela do céu infindo 
A quem a lua pede brilho «por favor»; 
E as plantas imitam, se florindo. 
Contudo leva os dias a trabalhar
Como astro insigne, ou segundo… 


Mas se houvesse justiça no mundo
O sol pedia ao meu amor pra brilhar; 
Assim, não passa de um vagabundo 
À volta de quem a Terra anda a girar! 

Joaquim Maria Castanho 

10.01.2016

O NOBEL DA CULTURA UNIVERSAL




O NOBEL DA CULTURA UNIVERSAL 

O momento imprevisto (sem igual)
Cuja b’leza, magia, significado
Devia ser Património Mundial, 
Queiram ou não, já foi encontrado: 
Não é fotografia, alucinação, 
Acertar na roleta, número, sorte
Vencer guerra (apoteose triunfal), 
Bater record, abrir uma casa-forte, 
Filme, livro, quadro, ocasião 
Histórica, hino, ode musical, 
Ópera, descoberta d’El Dorado, 
“Bingar” no euromilhões, ou visão; 
Evitar uma causa de dor ou de morte… 

– É olhar de repente, para um lado, 
E ver-te entre gente, conforme o sonhado! 

Joaquim Maria Castanho

9.30.2016

LIÇÃO DE COR/DE COR/DE COR/DE COR/DE COR




LIÇÃO DE COR/DE COR/DE COR/DE COR

Se debico e osculo essa seda
Pura fragrância, ó elixir 
Que pelos doces sonhos se enreda
Abrindo sulcos, caminho, vereda
Por que já sobes sorrindo ao porvir; 
Então desamor se desfaz (pla tua mão)
Que traz a paz e a luz do sim e do não,
E escreve e serve o sobre e o entre
O profundo grito de teu ventre. 

O dia esplende. E o dorso flete. 
Complexo se aninha, ou estende, 
Ou balança, na rede do amplexo… 

– E o corpo aprende s’a alma repete! 

Joaquim Maria Castanho

9.29.2016

CLIC




CLIC 

Quero esfregar minha casca
Na tua casca, minha pele
Na tua pele se atasca
O beijo arrasta, à alma zele. 

E dito assim tão calado
O grito no sangue ferve, 
Que o olhar no teu colado
Faz a eternidade breve. 

Joaquim Maria Castanho

À JANELA, COM SHAKESPEARE




À JANELA, COM SHAKESPEARE 

A conta lançou abanão 
No orçamento da pobreza, 
Ond’o Dr., indabenão 
Põe máscaras à despesa. 

Pra uns, é investimento; 
Pra outros, necessidade. 
Contudo, eu argumento
Ser só fuga à verdade. 

Porque isto de pôr nome
A que muito bem se sabe,   
Até dá fomes à fome 
Antes ca taxa s’acabe. 

Joaquim Maria Castanho


9.28.2016

SE ME ALIMENTO





SE ME ALIMENTO 
(quarta-feira, 28 de setembro de 2016
15:23)

Quando a voz no ser indistinto
Abre sulcos quase indizivéis, 
Os sonhos no vaivém do instinto
Aproveitam os seus caminhos, e eis
Que sentem o que jamais sinto
Ou se derramam por esses papéis
Pintados com tudo o que não pinto... 
Folhas avulso, ou restos dos dias
Feitos e desfeitos, descartáveis
Nas linhas que desvendam poesias; 
Nos poemas que ocultam sentimentos. 

Então, exceto o pão, por endurecer, 
Quanto como passou pela tua mão
Certo dia que não consigo esquecer, 
O que lhe concede essa dimensão
Que ninguém dará aos alimentos! 

Joaquim Maria Castanho

9.27.2016

A IDADE DO SENTIR




A IDADE DO SENTIR 

No sufrágio odorado da espera
A fala presa, esgar retraído, 
O silêncio que adora e venera
Estende-se plo dia, consumido. 
A brisa, ao tocar-lhe, recorda-te
Tal que passando por mim novamente
Te visse (outra vez!) plena de arte
Vendo o telemóvel, indiferente… 
Passo cadenciado, trança prà frente
– Exatamente do lado que me prende –, 
Sentindo tod’esse bem que ascende
Quando a esperança se faz praxe
E pulsa e ilumina, ou desmente
Que o amor só aos novos é que nasce! 

Joaquim Maria Castanho 

9.26.2016

O RITUAL DA LEITURA




O RITUAL DA LEITURA 


Regressar é rever-te (mentalmente), 
Eterno retorno feito ritual, 
Repetição de instante eficiente
Pra que se repita também o real
Cotodiano (sagrado) docemente
Inspirado na Poesia e Ideal, 
Em rotina que alia o crer da gente
Ao querer que a tornará assim plural… 

Os dias são as montras dos sentidos
Tidos e somados que a nossa alma tem, 
Sendo nesse calendário vertidos
Aonde o sol só do coração nos vem. 
E vindo, põe-nos o ser amado tão perto
Que o mundo se faz um livro aberto!

Joaquim Maria Castanho

9.25.2016

PRECE AO DIA DE HOJE




PRECE AO DIA DE HOJE 

Definitivamente amargo e triste
O sol, como quem a si mesmo resiste, 
Insiste em continuar na jornada; 
Não sei se acredita que a lua existe
Mas ainda que triste traz luz em riste
E persiste iluminar a tão marcada
Saudade em meu rosto abatido... 

Pedir-lhe que prossiga sem euforia
Cuidadoso nas badaladas e atento
Aos minutos que no Tempo afia
E espeta um a um no coração sofrido
De quem os conta por afastamento, 
É empresa de sacrifício doído
Até pra ele que não é dado sentir
O que o homem sofre neste momento. 

Todavia, eu vou rogar-lhe, implorar
Que se mantenha sútil e sem sorrir, 
Seja solidário a quem lho ‘tá a pedir, 
Tão-somente e apenas pra não chorar! 

Joaquim Maria Castanho 

9.24.2016

O SINAL




O SINAL 

Prenúncio do que irá acontecer
(Plantar de figueira no caminho, 
Queda, trepidar que deita ao chão…), 
Foi anúncio do que não quero crer
Feito às portas de meu destino; 
Aviso de que ficarei sem te ver
No preenchimento duma previsão, 
Só acontecida por demais temer
O que me é contrário ao coração. 

Por vezes, infligem-nos os deuses
Sofrer superior às capacidades
Que temos, em cruéis entremezes 
Onde se divertem com as verdades
Que tornam as almas animadas, 
Demonstrando serem ínfimos nadas
Os humanos anseios (felicidades), 
Obrigando-nos a contínua provação. 

Porém lhes digo: Só quem sabe dar a mão
E nos ajuda a erguer a fronte aos céus, 
Reconhece o amor nos súbditos seus, 
Merece da humanidade absolvição… 
Seja ou não, pelo Olimpo, um deus!   

Joaquim Maria Castanho

9.23.2016

BBBHHHAAA!!!




BBHHHAAA!!!  

Almejam os ignaros decidir 
O que os poetas devem escrever, 
Para assim, talvez, se prostituir
A fim de que alguém os queira ler… 

Ó pacóvios, contem-me outra, 
Qu’essa história já está gasta, 
Pois nenhum poema será montra
Das aldrabices da vossa casta! 

Joaquim Maria Castanho  

9.22.2016

TROVA DO SENTIR PERENE




TROVA DO SENTIR PERENE 

Tenho poema a periquitar
Plos olhos que há pouco vi, 
Tão lindos, que ‘tou a pensar
Que foi por eles que nasci. 

São avelãs de bem-querer
(Maduros sonhos cerzidos), 
Capazes de nos meus ver
Como eles andam perdidos.

Prós ver e neles acreditar; 
E sonhar vê-los agora aqui, 
Num poema quase a chegar
Tão-só por me lembrar de ti. 

São avelãs de bem-querer
(Maduros sonhos cerzidos), 
Capazes de nos meus ver
Como eles andam perdidos.

Numa tão nobre perdição
Que não se vêem sozinhos, 
Tendo feito do coração 
Seus próprios caminhos. 

São avelãs de bem-querer
(Maduros sonhos cerzidos), 
Capazes de nos meus ver
Como eles andam perdidos.

Rotas ou descobrimentos
No alinhado meridiano, 
Plo qual os sentimentos 
Dum dia valem todo ano. 

São avelãs de bem-querer
(Maduros sonhos cerzidos), 
Capazes de nos meus ver
Como eles andam perdidos.

Joaquim Maria Castanho 

9.21.2016

SEMENTE LUMINOSA




SEMENTE LUMINOSA 

Teu olhar acende estrelinhas
No meu sangue, cintilantes
Prà apagar flamas daninhas
Onde o ser me ardia antes; 
Marc’os verbos destas linhas
E planta versos ofegantes; 
Elege Musas em Rainhas
De poemas perto – e distantes. 
É avelã doce mas pleno
Sentido sonho de magia, 
A brotar puro e sereno
Dos nevoeiros sem poesia. 

É luz no amanhã incolor… 
Cujo brilho vai além da flor! 

Joaquim Maria Castanho

9.20.2016

VISÃO EXATA




VISÃO EXATA 

A pele do poema (cetim nacarado)
Gema perlado com gotas de cristal, 
Dança a cada passo teu, assim dado
Sob fulgor felino (quase) austral; 
Estremece, bruxuleia cintilado
Por alucinações afro, porém real
Deixando meu olhar em si colado, 
Sucumbido pla beleza magistral… 
Tem a sensualidade dum soneto. 
É flexível com’um S de sedução. 
E emite esse perfumado trejeito
Dum ápice, no clímax (perfeito)
De exalar, nesse instante secreto
Em que eclode, a própria perfeição. 

Joaquim Maria Castanho 

9.19.2016

ABSORTO TE ABSORVO




ABSORTO TE ABSORVO 

Há um Império de lonjura
Entre nós Pessoa chamou-lhe O Quinto
Mas, mesmo assim, na candura 
Dos dias procuro o mar entrançado, e sinto
As vagas encaracoladas do ser
A enlear-me em sonhos que não sei dizer. 

És o segredo de cada passada
O verbo aflora rimas ancestrais
E, na manhã da manhã, esperada
Sobre xis de cromossomas maternais, 
Ditas poesias pelos céus diamantinos…

O sol empurra-te para o outro lado;
Porém, seguro-te, estendendo-te o olhar
Descuidado, para te guardar (ensimesmado). 

Joaquim Maria Castanho 

9.17.2016

AS QUATRO PENAS DE LEI




AS QUATRO PENAS DE LEI 

Tantos há contra a pura transparência 
Tornando turvas as águas da consciência 
– Sendo as verdades de tão amargo custo
Pra quem não é sério, honesto e justo… –,
Que se nos atrofia a pena da poesia
E cresce a pena do penar plo dia-a-dia. 

Mas a mim – que não sou sábio nem rico, 
Nem o douto tido por inteligente –, 
Basta-me contar a pena com que fico
Por rever nestas estrofes tanta gente! 

Joaquim Maria Castanho

9.15.2016

VIDA REFRATÁRIA




VIDA REFRATÁRIA

Repito os gestos, os caminhos pisados
Como s'eles tivessem o condão de repetir-te, 
De tornar-te presente (novamente). 

Insisto neles. Insisto em mim. Insisto
Como quem se atravessa na linha
Antes da existência passar (arbitrária). 

Porque a minha vida jamais será minha... 
E se o for – por hipótese! – será também refratária. 

Joaquim Maria Castanho

9.14.2016

A TUA AUSÊNCIA




A TUA AUSÊNCIA 

É como se a poesia nos tivesse morrido
De uma síncope qualquer, 
E a palavra, o verbo assim suprimido
Caísse ao túmulo abatido
Sem conseguir chorar, sequer…

Como se o vento vergastasse seu choro
Pelo chão sujo de palha ressequida, 
Para despir as árvores, sem decoro, 
Das verdes folhas que lhe foram vida. 

É como se nos doesse o doer, até 
Não haver hoje, nem amanhã, 
Noites, dias, imagens, nota, rodapé; 
E os poemas sangrassem sem fé, 
E numa esperança vã. 

Como se a voz ácida corroesse
A alma no seu íntimo mais puro, 
E o mundo todo inteiro tremesse
Nos picos de um gráfico (inseguro). 

É como se perdêssemos o nosso ser
Minuto a minuto esvaído, 
E nos doesse pelo próprio dizer
Até ver o não-ver por temer
Ser o perder-se esquecido. 

Joaquim Maria Castanho 

9.13.2016

À FLOR DO OLHAR




À FLOR DO OLHAR 

Como um lamento incolor
Lágrima do momento ou flor, 
Deixo meus olhos esquecidos em ti. 

Se pedisse vinham comigo
Sem sentir nisso um castigo, 
Ou qualquer dolorosa impressão. 

Mas se os escutasse ficavam aí
Mesmo sem se questionar da razão; 
Porque eles serão sempre de quem vi… 
De quem assim me chegou ao coração! 

Joaquim Maria Castanho 

9.12.2016

TEMPO SEM FIM




TEMPO SEM FIM 

Ainda tenho o olhar preso
Na trança de teu cabelo, 
Mar rematado mas ileso
Onde naufrago por vê-lo.
Ainda escuto a tua voz
Nesse instante d’atenção, 
Por cujo tom ecoam em nós
Címbalos de magia e condão. 
Ainda agora fosse ainda
Meu olhar nascido em ti, 
E já era elo que não finda
Preso à trança em que o vi. 

Que ainda é tempo sem fim; 
Começa assim que te vejo
Prà’cabar depois de mim… 
– E rimas deste versejo! 

Joaquim Maria Castanho 
(Foto: Imagens Google) 

9.10.2016

RENASCIMENTO




RENASCIMENTO 

Era tão difícil a poesia
Sem teu olhar, que nada sou
Se sem ele me perco no dia
A esbracejar, mas não voo… 

Eram tão dolorosas, as horas
Com cada minuto forçado, 
Quase chicotes, esporas
De flagelar meu eu acabado… 

Porém, a estrela cintilou
E o escriba azedo, calado
Por magia desentristeceu;

Que a brisa amena voltou
Soltando o poema encerrado
Nas tristes grilhetas do breu! 

Joaquim Maria Castanho

9.05.2016

ECO E LUZ




ECO E LUZ

Ninguém te espera; 
Ninguém te entende. 
Mas a esta esfera
Nem só sol a acende… 

Ao calor interior
(Também essencial)
Damos pouco valor
– Ou nenhum, por sinal. 

Mas à semelhança
Da humanidade, 
É nesta importância
Que está a verdade. 

Joaquim Maria Castanho

9.04.2016

DA DURAÇÃO DOS DIAS




DA DURAÇÃO DOS DIAS 

A saudade mina-nos 
Como a doença ruim, 
Que, por sermos humanos, 
Já nos acontece também, 
Como acontece em mim. 

Trança de sétimo dia
(Triângulo por um elo), 
Brisa mansa da Poesia
E sentir sem paralelo, 
Por quem esta saudade
(Doendo de verdade!) 
Não acontece a ninguém 
Como m'acontece a mim? 

A saudade mina-nos
Que nem a doença ruim… 
Mas se somos humanos
Já nos acontece também 
Como m’aconteceu a mim. 

Sorriso é flor de poema
(Meu segredo de avelã),
Cujo olhar é tom e tema
Pró vento manso da manhã, 
Porque doi tua ausência 
Em delírio e demência
Nesta saudade sem fim, 
Como se doença ruim?

O qu’acontece mina-nos
Porque somos humanos, 
E vem um dia ensina-nos 
Que os dias duram anos. 

Pequena Musa, destino
De meu canto tão doído, 
Porque soa forte este sino
(A ribombar de sofrido), 
Que neste domingo sem fim
Ecoa, magoa, como desdém… 
E se me acontece a mim, 
Porque nos acontece também? 

Duram dias por te não ver, 
Como voam se te vejo, 
Que a saudade é um ter
Sem ir além do desejo. 

Joaquim Maria Castanho
(Foto: Imagens Google) 

9.03.2016

FITANDO O PONTO





FITANDO O PONTO 

Há aves de rapina sobre a Poesia, 
Garras afiadas, peçonha nos grasnidos, 
Rondam as odes incautas no dia-a-dia, 
Rasgam brechas nos sentires distraídos… 
Todo o cuidado é pouco; que alegria
Demonstram, mas têm outros intuitos
Sub-reptícios em sua mente fria
Calculista, de rapaces fortuitos. 

Entrementes, de palavras aperradas
Perscrutamos as poeiras no caminho; 
Na bandoleira, rimas calibradas
Estão d’alerta e a postos, sem desatino
Ansiando salto, disparo e refrega.
Prontas já ao derrame na entrega!

Joaquim Maria Castanho 

9.02.2016

INSTANTE ÍMPAR





INSTANTE ÍMPAR 

E eis que nesse exato momento
Em que me viro, tu estás a passar… 
Então, fico em suspenso e nem tento
Sequer um gesto, ou um pestanejar. 

No existir (ideal) que acalento
A perfeição (inicial) só pode estar
No instante (em que te vejo o vento
Manso se ergue…) da brisa a murmurar. 

Séculos e séculos que eu vivesse,
Todos e nenhum valeriam metade
Desse segundo em que a rua desces;

Em que te vejo e és toda a verdade, 
Não só imaginada, mas também real
E passo a passo sentida como tal. 

Joaquim Maria Castanho

9.01.2016

OS TRÊS POMOS SUBLIMES





OS TRÊS POMOS SUBLIMES 
(: ESTIMA, FIDELIDADE E RESPEITO)

Me enrolo nas palavras, tropeço
Nelas, exijo-lhes que «Falem!», «Digam!»
«Sejam!» imediatas, que não esqueço 
Os teus olhos nem o que eles ligam
Entrançam, Lua secreta, renovada… 
És a insubstituível luz, a fada
Da ternura, a que faz perto o distante, 
E de Atena, a eleita cintilante, 
Brisa da aurora e da madrugada, 
Meu último pensamento na jornada
E primeiro «Bom dia!» que tenho e dou.  

Se sorrio, é porque te vejo (e vi). 
Se a poesia existe, é pelo que tu és. 
Se amo a vida, e o sonho, devo-o a ti. 
Se sementes germinam, criação ousou
Então é porque és a vontade e os pés 
Com que na Terra o feminino caminhou. 

Porque em tua honra os três conceitos
Divinos são ora terrenos, e feitos
Pomos de afeto, se cruzam e descruzam
Numa trança eterna, mas celeste; 
E, mortais como eu, os respeitam 
E adoram, que se o mundo é agreste
Só eles ao sublime bem inspiram! 

Joaquim Maria Castanho

8.31.2016

PEQUENO ÉDEN




PEQUENO ÉDEN 

Há pétalas a florescer
Na trança de fios de luar, 
Em que um dia me pude ver
No avelã madura do olhar;
Sentir aroma de violetas, 
E reconhecer este lugar
Feito pra fadas e poetas… 
Pequenos sonhos, mágicos, 
Estrelas de Lua Nova, 
Odes, víveres práticos, 
Frutas, das cores e paletas
Cujo odor o sabor comprova. 

Mas, principalmente, alguém
Que me transporta à certeza, 
De ser outro Éden também
Simplicidade e beleza.

Joaquim Maria Castanho 

8.30.2016

OLÁ, AMIGA!




OLÁ, AMIGA!

Procuro-te como um cego
E não te encontro; todavia, 
Só a mim mesmo eu renego
Ante a desfaçatez do dia. 
Procuro-te, e à luz entrego
Toda a ânsia e melancolia, 
Que nunca nego, colo e prego
Nas costas doídas da poesia. 
Ela e tu são meu supremo bem; 
Destrinça entre ambas não há. 
A Ela motivas, mas és pra quem
A escrevo, ou sinto, ou digo. 

Procuro-te. E onde quer que vá
Contigo vou e só por ti (sigo!)

Joaquim Maria Castanho

8.29.2016

HUUUAAAUU




HUUUAAAUU

Me reescrevo desmagoado
Sílaba sílaba agora, 
Em teu rosto (disfarçado
Naquele que foi outrora 
Também da poesia motivo...) 

Só para lembrar-te... - e vivo! 

Joaquim Maria Castanho

8.18.2016

E AINDA HÁ ALGUÉM QUE SE PERGUNTE PARA QUE SERVE A EUROPA?




E AINDA HÁ ALGUÉM QUE SE PERGUNTE PARA QUE SERVE A EUROPA? 

Se “a lei pune os funcionários públicos e os titulares de cargos políticos, que, no exercício das suas funções ou por causa delas, solicitarem ou aceitarem, vantagem patrimonial ou não patrimonial, que não lhes seja devida” (conforme afirma NARCISO MACHADO, juiz desembargador jubilado, no artigo de opinião A lei e ética como limites da acção política, constante do jornal Público nº 9620, do XXVII ano, de 18 de Agosto de 2016), então é, no mínimo, absurdo que ao abrigo dos usos e costumes tal não aconteça, em Portugal, com a regularidade e frequência necessárias e suficientes para sairmos dos lugares cimeiros do ranking dos países mais corruptos da Europa. Principalmente porque a “autorização legisladora” nacional, de acordo com a ordem (constitucional) vigente recai e está centrada na Assembleia da República e no Governo, o que indicia, consequentemente, que foram os políticos, instituições e altos funcionários do Estado, no exercício democrático de que estavam imbuídos, que legislaram para os poderes executivos, igualmente democráticos, e em usufruto de um direito que lhes foi outorgado/consagrado, aplicarem na prática da governancia, quer institucional, quer governativa.  

Ou seja, em abono da verdade, ou à luz da sensatez, consciência cívica e ética de um Estado de Direito, que aconselha que sejam exatamente os políticos e funcionários públicos os primeiros a cumprir as leis, não somente para não perderem a autoridade moral que lhes concede o direito (merecido) de as imporem aos demais, mas também para emitirem um sinal de transparência e honestidade democrática aos paisanos do establishment, sociedade civil e tecido económico/empresarial, fazendo a pedagogia do exemplo, eis que são incontornavelmente estes a fugir à lei, a fintar a justiça, a ludibriar as intenções do legislador, fazendo da ordem jurídica letra morta. 

O caso voltou a ser verificável hoje, na proposta administrativa governamental para a Caixa Geral de Depósitos (CGD), em que das 19 personalidades que a integravam, só 11 foram aceitadas pela entidade reguladora para o fim em causa, o Banco Central Europeu (BCE), ou, mais rigorosamente 10,5 – uma vez que o próprio presidente da CGD se encontra em estado de exceção, acumulando à presidência do Conselho Administrativo da Caixa também a presidência da Comissão Executiva da mesma CGD, o que nos sugere haver já em ascensão uma nova estirpe de “donos disto tudo”. Digamos que tivemos sorte desta vez, porquanto fomos obrigados a cumprir a nossa lei, não porque fosse vontade expressa dos responsáveis nacionais, mas porque a Europa tutela neste capítulo da área financeira, o que nos deixa com a pulga atrás da orelha, pois se não fosse o BCE a interpretar e aplicar a lei, certamente esta seria cilindrada pelos célebres usos e costumes da tradição do, não obstante ela, a lei, “na terra do bom viver, faz-se como se vê fazer”, filosofia nascida do igualmente tradicional “uma das mãos lava a outra, e com as duas lava-se a cara”, e da cumplicidade pacóvia do “tu que sabes e eu que sei, cala-te tu, que eu me calarei”, tão ao gosto dos brexistas à portuguesa. 

É caso para dizermos que, felizmente, ainda vivemos em democracia e ainda integramos a UE – União Europeia… Que remédio! 

Joaquim Castanho

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

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Escribalistas é órgão de comunicação oficial de Joaquim Maria Castanho, mentor do escribalismo português