Convite para partilhar caminhos de leitura e uma abertura para os mundos virtuais e virtuososos da escrita sem rede nem receios de censura. Ah, e não esquecer que os e-mails de serviço são osverdes.ptg@gmail.com ou castanhoster@gmail.com FORÇA!!! Digam de vossa justiça!
2.01.2020
1.31.2020
1.12.2020
1.02.2020
GRATIDÃO
Devo-te
a liberdade...
Obrigado
por não gostares de mim!
Graças
a ti, vivo numa cidade
De
sonhos, flores e marfim.
As
ruas são todas planas
– Prédios
acessíveis.
Não
há palavras em flamas,
Os
horários primam por flexíveis.
E,
às vezes, quando apareces,
Antecedendo
o boato e o rumor,
Parece
que apodreces
Só
pra exalar o sutil perfume do fedor.
Joaquim
Maria Castanho
12.27.2019
EXATIDÃO DA DISTÂNCIA
A
EXATIDÃO DA DISTÂNCIA
Se
na equidistância entre estrelas o afastamento a uma é aproximação
A
outra entre dois pólos navega como pêndulo à procura da unidade
Esse
ritmo binário digital com que nos sustentamos irrequieta condição
A
bater as horas entre ser e não e não-ser, sintetiza-nos átomo
paridade
Ao
construir-nos duplos no género mas iguais perante a generalidade.
Olho
devagar a concisão de teu sorriso aflorando o recanto da alegria
E
nesse olhar em que me vou tornando está o manto rosáceo, puro, liso
Que
não descuro nem quanto dele preciso para seguir em frente no dia-
A-dia,
sobre a mesa da ocasião, apenas à solidão calada as letras aviso
Arriscarem-se
a perecer se ao cometer a traição temerem doce ousadia
De
tecer teus ombros na fina e branca seda dos astros reflexos os areais
Bronzeados
mestiços metais nada são se os comparar a alvos celestiais
Das
velas navegantes que mundos viram e trouxeram uma página mais.
Duas
folhas unidas pela medianiz como dos troncos nasce só uma raiz
A
veia feita das duas metades que já foram quartos doutras tantas luas
Ao
querer como se crê e tanto quis que as pétalas saídas do cálice
tuas
Fossem
únicas verdades essas lidas assim tatuadas na pele tão-só a giz
De
gizar o caminho ao amaciar o linho da repousada água na líquida fé
De
se apagar a mágoa no mansinho ser somente quem, ao querer-te, é.
Joaquim
Maria Castanho
DIZER-TE ENTRE AS FOLHAS
DIZER-TE
ENTRE AS FOLHAS
Pela
cadência da batida do tear se dispõe
Enquanto
vestes o tempo de flores coroadas
A
marca do ritmo se a consciência propõe
A
sopesar, a transferir as cores bordadas
Para
o horizonte que se quer distanciar…
Cresceste-me
como um ventre inaugural
A
redoma do destino na imensidão da planície
A
lente de alvorar à estrela incondicional
Afinal
a heurística desse sempre que nos inicie
Como
se cada passo fosse o derradeiro primeiro passo
Cada
voz a incontornável revelação de sermos sós
Cada
laço lasso a única maneira de darmos nós
Cada
nó a distância feita atreita à curva do compasso
No
desembaraço do balanço redondo na redoma do plural.
Havia
de dizer-te entre as folhas
Como
luz esgarçada saltitante
A
bailar na sofreguidão da tarde
Que
conforme ao verbo, me recolhas
E
assim perecerá a sombra distante
Deste
Sol que por nós em nós arde!
Joaquim
Maria Castanho
GRAFITE
GRAFITE
Com
tanto de tão pouco nasce a fortuna que é sorte sina o ter nascido
Que
outro milagre não houvera igual em qualquer tempo futuro ou ido
Este
de levantar os olhos e reconhecer que o sonho é tão real-autêntico
Como
respirar, falar contigo, estar a par, porém saber o propedêutico
Instar
da luz no recanto da folha digital tangente ao desejo assumido.
Que
devagarmente se isola na rispidez o gesto assaz nulo, oco e vão
Pois
nisso de viver é coisa basta a resistência comezinha e até pueril
Dizer
«sim» quando ao «não» se pensa ou tido vice-versa por decisão
Como
qualquer fogo que arde sem combustível pode apenas ser ardil
Da
matéria, ao espírito alheia, simples fusão a frio do ninguém e
nada
Pondo
a parte tida em forma perdida já por demais em si tão achada.
Porém,
tempos houve outrora ainda do aqui-e-agora tão-só distantes
Que
lídimos dedos apontaram os céus infindos e disseram o espanto,
E
perante tua luz os olhos fulgiram como mil sóis candentes voantes
Explodindo
as vozes dos mais entendidos em desgarradas no descanto.
Foram
esses os primeiros dias de todos os dias daí seguintes adiante
Que
feitos à tua imagem na repetida procura, busca ansiosa e diária
Nenhuns
outros se assemelhando em intensidade, que se de férias
Ou
folga tida, me senti pária roubado por mim de minha própria vida.
Me
senti desnecessário do sentir que é viver e não saber até quando
Teus
olhos me segam o desespero sem qualquer intenção de fazê-lo,
Pois
que ao Sol do acaso todo o verbo é um gerúndio afecto andando
A(r)riscar
reflexos e ângulos silentes e lisos às esquinas do teu cabelo.
Joaquim
Maria Castanho
12.24.2019
12.22.2019
A ARTE ETERNA
A
ARTE ETERNA
A
literatura é lixada...
Quando
lemos, partimos
E
tudo o mais vale nada.
Plo
chão ficam destroços, limos
Vestígios
da enxurrada,
Do
são tsunami em que vimos
Tanta
vez a alma espelhada;
Viagem
com bilhete de ida
Donde
nunca volta quem fomos,
Retalha
a polpa da vida
Dá-lhe
estrutura por gomos.
E
se acaso nos socorre
Com
brisa de prosperidade,
Mata-nos,
contudo não morre
– Que
só ela é eternidade.
Joaquim
Maria Castanho
12.16.2019
ADIVINHA
ADIVINHA
Anexo
à alma universal
Nota
de dívida ou extrato
Remendado
a linhas de bem e mal,
Com
pespontos na bainha do fato
(Que
perdeu o C numa demanda),
Anda
agora a parecer que anda
Mas
só sabe mesmo marcar passo
Jogar
bombas, poluir, terçar aço.
Se
acaso não adivinhou quem é
É
só por ter acertado em cheio,
Dando
ora outro tiro no mesmo pé
Da
pegada com que sujou o meio...
Joaquim
Maria Castanho
12.15.2019
O HORTELÃO DA LIXOSA
O
HORTELÃO DA LIXOSA
Meu
amor é só mistério,
Aberta
gruta num beijo
Lenda
passada a sério...
Mas
em três libras vertida
Desse
ouro paupérrimo
Que
é ilusão bem sentida,
Visão
em brocado vestida
– Linda
moura encantada.
Foste
élan vital e vida
Cada
vez qu'ergui enxada,
Tantas
vezes nesta lida
Noutras
tantas imaginada.
SUBLINHADAS RIMAS
SUBLINHADAS
RIMAS
Com
identidade perfumada,
Agrupas
sentires dispersos
Onde
a vida será amada.
Libertas
os sonhos submersos
Pela
sisudez estagnada,
Mostrando,
se são perversos,
Como
torná-los só uns versos
Que
entoam paixão calada...
Então
esculpes um cuidado
Feito
pelos cheiros sem flor,
Num
odor subtil, perfumado,
E
escrevo poema cruzado
Apenas
com rimas de amor.
Joaquim
Maria Castanho
12.13.2019
CADÊNCIA EXISTENCIAL
CADÊNCIA
EXISTENCIAL
Toda
a prática indica
Qu'onde
poesia faz prosa
A
existência tremelica,
Trepida
onda aquosa
Que
a moda multiplica...
Se,
por bem, vira glosa
Mas
por mal nem se explica.
Assim,
é vera opinião
Lógico
efeito e causa
Qu'o
amor nunca faz pausa
– Bate
conforme o coração.
Se
grande, então acelera.
Porém,
se maior... espera.
Joaquim
Maria Castanho
12.09.2019
CHEIAS NATALÍCIAS
CHEIAS
NATALÍCIAS
Meu Deus, por que há gente assim...
Por que me castigas deste jeito?
Gente que amo, mas me não ama a mim
Embora acenda rubra lava em meu peito!
E nesse desencontro d'encontros feito
Marginal à ânsia, e ao desespero
Meu rio bravo, revolto, corre a eito
Lavand'as margens do sonho com esmero.
Arquiteto de belezas existenciais
Como Senhor das profundezas rotundas
Exige qu'o amor ame cada vez mais,
Cave certezas nas dúvidas profundas.
E então penhora, cobra bens marginais
Silentes ao afeto com que me inundas.
Joaquim Maria Castanho
Com foto de Elie Andrade
12.04.2019
A BANDEIRA UNIVERSAL
BANDEIRA
UNIVERSAL
Era como se um móvel, porém assim
Com prà'i mil gavetas e gavetinhas...
Umas bem trancadas e pequeninas;
Outras, de tão amplas pareciam sem fim.
Aqueloutras só abriam com segredo
E ninguém saberia como as fechar;
E podia acontecer que só plo medo
As fechaduras viessem a emperrar.
Nessas, perdíamo-nos no interior
Embora noutras mal pudéssemos entrar;
Mas a mais acolhedora era a do amor
Ond'éramos desejados antes de chegar.
Um móvel quase redondo, achatado
Aqui e ali, nalguns pontos enrugado
Noutros lasso, plano, tal como um pano
Bem passado de seda, lona ou caqui.
Joaquim Maria Castanho
12.01.2019
ANO NOVO ESPERANÇA NOVA
ANO
NOVO ESPERANÇA NOVA
Úrsula
von der Leyen, presidente da Comissão Europeia (CE), que inicia hoje
o seu mandato, decretou como direção de trabalho, para si e demais
26 comissionários que a secundam nas funções, a de colocar a União
Europeia (UE) na liderança mundial do combate às alterações
climáticas, promovendo a transição geracional para a neutralização
carbónica, dentro de uma sociedade obrigatoriamente justa e
inclusiva, da qual a sociedade portuguesa é uma parcela
inequivocamente próxima para todos e todas que se expressam e
entendem em português, independentemente do grau açucarado de suas
pronúncias. E isto não tem volta, embora haja quem insista
(obtusamente) em contrariar a diretriz, reivindicando-se saudoso ou
saudosa disto ou daquilo, enfim, de tudo quanto, já nos tempos do
António Mourão, era mais velho que a Serra d'Ossa, intitulado Ó
Tempo Volta Pra Trás, porquanto não voltou naquela altura e muito
menos o fará agora. A brecha entre o passado e o futuro está cada
vez mais larga, não só porque a duração da vida é maior, mas
também porque a humanidade aumentou o seu grau de literacia e
consciência cívica, bem como o presente se solidificou e a
determinação racional é superiormente objetiva.
Portanto
a grande questão a que a atualidade nos convoca, já não é saber
se queremos ou não combater as alterações climáticas, mas sim se
ainda vamos a tempo para o fazer e como agir para minimizar os danos
que esse atraso está a provocar. A economia verde, o Green Deal
(Pacto Ecológico Verde) e a redução em 50% das emissões de
dióxido de carbono, por tardios, podem não chegar para atingir os
parâmetros do Acordo de Paris – manter o crescimento do
aquecimento global abaixo dos 2 graus celsius --, pelo que a maioria
das organizações e instituições científicas credíveis nesta
matéria aconselham uma redução mais significativa, na ordem dos
65%, por exemplo, até 2030.
A
UE prepara-se para dar um passo importante no combate às alterações
climáticas e pugnar pelo equilíbrio da ecosfera, mas se não for
acompanhada nesse movimento pela China, EUA e restante países da
América do Sul, de África e da Ásia, sujeita-se a marcar passo e
ficar sozinha nessa frente, o que é um desperdício de esforço,
capital e boa-vontade, uma vez que os resultados visíveis serão
nulos, pouco objetivos e ineficazes nesse combate que deveria ser
global, considerando que vai beneficiar o planeta e toda vida que
alberga. A neutralidade carbónica é essencial para alcançar
melhorias visíveis acerca das alterações climáticas mas, conforme
se verificará, mesmo que alguns países reduzam em 80% as suas
emissões de dióxido carbono, se os seus vizinhos e vizinhos de seus
vizinhos não colaborarem, não passará de mais uma pedrada no
charco, provocando algumas ondinhas à superfície, o que significa,
tal como na anedota do ébrio que tinha bebido vinho tinto e vinho
branco em igual abundância, ao cambalear para passar numa ponte,
tanto os países ricos como os países em vias de desenvolvimento, se
se não entenderem, nesta questão, o mais certo é irmos todos e
todas prò charco, enfim, entrarmos num viagem às catacumbas do
inferno sem regresso possível.
Úrsula
von der Leyen é uma batalhadora sensata e positiva, bem acompanhada
e esclarecida nas intenções, capaz e eficiente, com provas dadas e
com entrega total ao seu míster. Acredito que tudo fará para
conseguir superar estes desaguisados e imaturidades que nos entravam
ainda o progresso e sustentabilidade planetária. O Parlamento
Europeu já declarou a emergência climática para lhe facilitar a
tarefa, dando o pontapé de saída nesse combate, mas seria agora
tempo de os restantes parlamentos dos países europeus se lhe
manifestassem solidários, subscrevendo e outorgando nesse sentido a
sua cumplicidade plena, objetiva e prática, incluindo o nosso,
sobretudo porque está localizado em Lisboa, que foi escolhida como
Capital Verde Europeia para o ano 2020, ainda que outras razões
imperativas não tivesse... Será que vão demorar muito a fazê-lo
ou preferem antes dar-nos uma prenda de Natal concreta e valorosa?
Seria como recarregar a bateria da esperança para entrarmos no Ano
Novo.
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