11.27.2016

VERBO SEMPRE




VERBO SEMPRE

A felicidade é isso… 
Ver teus olhos todos dias, 
Observar o teu sorriso, 
Ouvir sublimes melodias
Dançar nas ondas dos cabelos
Onde o sonho se enleia
Entretece como em teia, 
Arrebata tão-só por vê-los… 

É uma queda que nos ergue
(Reparar sem que reparar!), 
Reparando qu’em Portalegre
Somos verbo sempre a conjugar. 

Joaquim Maria Castanho

11.26.2016

REVER-TE




Reencontrar-te é rever por escrito
As pétalas à esperança (sonhada), 
Presas plo nácar da tarde, flor perlada
Abrindo as portas do céu infinito
Onde as estrelas copiam teu nome,
Onde a feliz alegria me consome
Quando a vida regista a tua lei; 
Onde nasce tudo quanto sou e sei 
– O que há e não há, além do que acredito! 

Joaquim Maria Castanho 

11.25.2016

LETRA V




LETRA V 

Viver é ouvir o vaivém 
Nas veias, 
Sejam nossas, sejam alheias 
Viúvas, como sem vintém; 
Novas, velhas, vazias, cheias
Beatas, nobres, pobres, plebeias
Vitoriosas ou vadias
Vividas na vida dos dias, 
Como esvaídas e sem ninguém. 

É avivar a voz do vento
Com vitrais, uivos da vontade
Vorazes e virtuais, vidrados
Pelos vernizes da liberdade… 
– Varonis, vitais, condenados 
A virarem-se em movimento! 

Joaquim Maria Castanho  

11.24.2016

LETRA U




LETRA U 

Usura dura e única esta: 
Ultrapassar a tua ausência – 
Ustir último se já funesta 
Urdidura uiva urgência, 
Ultima lugar prà sepultura, 
Aquiesce em suma anuência, 
Aqueda em tumular cesura… 
Que quando é usual ustir
Sem amuar (cumprindo ajuste), 
Nem undíssono urde iludir 
Porque “quem quer uste, que lhe custe”,
Num muito sumário aprumo
De quem curte seu supremo rumo
Em nunca ocultar – nem desunir! 

Joaquim Maria Castanho 

11.23.2016

LETRA T




LETRA T 

Tenho teus olhos 
No coração… 
Teu rabo de cavalo… 
E hoje, pra fugir à traição,
Fui lá buscá-los… 
Fui lá buscá-lo! 

Que a vida tem em si
Todas as tutelas. 
E às portas fechadas, ali
Abre, na memória, aqui
Teus olhos… 
Cortinas aos folhos… 
Lindas janelas! 


Joaquim Maria Castanho

11.22.2016

LETRA S




LETRA S 

Senhora da penha
Da luz, da chegada, 
Se sinal, és senha
De rio alvorada, 
Nas hortas marcada
Plo pão com manteiga, plo galão quente
Das primeiras notícias do mundo
Da escola, da terra ou da gente,
Nesse nosso pertencer tão profundo. 
Tão no ser sentido
No querer forjado, 
Chutando o perigo
Para outro lado. 
Para outras bandas
Sem almas nem gado, 
Onde as desmandas
São por mel coado. 
Pelo grão na asa
Por tudo e por nada: 
Batizo em casa,
Velar de finada. 
Ou ida às “sortes”
Buscando canudo, 
Onde essas mortes 
Por tudo e por nada
São nadas do tudo. 

Joaquim Maria Castanho  

11.21.2016

LETRA R




LETRA R 

Regressar ao sorriso que nos resume
Pérola, redoma, reflexo de nácar, 
Fénix (renascida) das cinzas é lume
E ritual que repete sonho e luar; 
É ritmo renovado para quem rume
Atrás da réstia redonda de cabelos
Que nos aprisionam, só por querer vê-los
Sempre, sempre, sempre e repetidamente
Que o frémito surge, coração frecha
Ao sentir, urge sussurro extremado
Rumando estreme de brecha em brecha
No cabelo atado, como quem fecha
Círculo, regressa sorriso criado… 

Réstia reflexa no rimar nacarado! 

Joaquim Maria Castanho 

LANÇAMENTO DO LIVRO MOMENTOS DE POESIA no HOTEL JOSÉ RÉGIO, em PORTALEGRE








LANÇAMENTO DO LIVRO “MOMENTOS DE POESIA”, ontem, dia 20 de novembro de 2016, no HOTEL JOSÉ RÉGIO, em PORTALEGRE 

Eis três momentos de entre os muitos instantes que marcaram, de forma simples, atrativa e genuína, o lançamento do livro MOMENTOS DE POESIA, que é já o reportório de inúmeros Momentos de Poesia, iniciativa com a periodicidade mensal regular, durante dez anos, coordenada por Deolinda Milhanho, onde o encantamento e magia de poemas e atividades de poetas e poetisas, se terão destacado, nas mais diferentes formas e formatos, incluindo o da palavra dita, lida ou escrita, mas que nos sugerem como a poesia pode surgir sem recurso exclusivo a ela, essa palavra, instrumento de comunicação por excelência, embora que não o único para a sua concretização: no ballet, no fado e no canto polifónico (entoando o hino de Momentos de Poesia, sob a “batuta” de João Banheiro, um dos participantes ativos desta iniciativa). 

A sala do restaurante do Hotel José Régio seria pequena para tanta gente, não fora a temática principal, a poesia, ser já de si, e em si, um aproximamento efetivo, um incitamento ao estreitar de laços, aliciar de sentidos e afetos, recapitular profundidades que foram também, um dia, o à flor da pele desses mesmos dias. 

Desnecessário será afirmar o valor deste tipo de eventos, ou iniciativas, não só porque representam o regressar às origens da poesia, quer nos motivos, quer nos lugares e gentes que a inspiraram, devolvendo-a, assim, ao seu habitat natural, a cidade de Portalegre, seus habitantes e tradições, mas também porque recuperam a atualidade da arte das artes, tornando-a parte integrante do quotidiano, franjas de dia a dia dessa colcha de renda que é a praça pública, massificando-a e fazendo-a visível até para os “olhos” menos sensíveis das sociedades contemporâneas.  Porque são momentos como estes que nos ajudam a recuperar os instantes passados e a presentificar todos os futuros, incluindo os mais imprevisíveis.    
  
Joaquim Maria Castanho 

11.19.2016

LETRA Q




LETRA Q 

Quando queremos quase e enquanto
Aproximação ao querer que é querendo, 
Quota-parte do ser em qualquer sendo
Questionamos qualidade e encanto
Ao querido, desejado, mas nele tendo
Outro sentido, que não o querer puro,
Pois queremos que nos queira também... 
Tem seu quê relativo, pouco seguro
Em queda já, sem quaisquer votos de quem
Dá ao querer um não-sei-quê de futuro
Que toda esperança quando quer, tem. 

Que o possa ver, requer que mais alguém
Veja, que mais alguém o note e queira
Como querença – e de qualquer maneira! 

Joaquim Maria Castanho  

11.18.2016

LETRA P




LETRA P 

Produto de partilha, a poesia
Põe, dispõe ou reproduz, mas por parcelas
O que apenas suprema, ela poderia
Possuir de próprio, e por profundo… 
É a prata de quem pelo dizer porfia; 
É ponte, é projeto, é vento e velas; 
É o espelho do que pode ser o mundo
Nas suas alegrias, magias e mazelas. 
Porém, podendo ser tudo e muito mais, 
Quer seja poder, como pleito sentido, 
Presta-se também a ser para jograis
O que nem imaginaram sequer ter podido: 
Porta que lhes dá direito de perdura
Em toda parte – até em literatura! 

Joaquim Maria Castanho

11.17.2016

LETRA O




LETRA O 

Ouço o teu rosto redondo, em osmose, 
Como no sonho, e omisso me socorro
E me decoro, e oponho, ao sono, à pose
De oximoro, se afirmo e nego, se morro
E vivo, em contradição, apoteose
Que ocorre logo que oco recorro
A outro rosto, procuro hipótese 
Provável de substituí-lo (de novo), 
Génese e ovo dos modos que absorvo, 
Louvo, somente saudoso dele, de ti… 
Porque o amor, o universo, é isso
Só isso, o teu olhar, forma e esquisso
Que conforma rota ao meu, pondo-o aqui
A focá-lo, sem sufocar como te vi. 

Joaquim Maria Castanho 

11.16.2016

LETRA N




LETRA N 

Nos teus lábios, língua languescente
Se aninha, letra no meio de nós assim
Que não nega renascer no ocidente
Nem faz, ou nem afirma, tão-só porque sim. 
E se no início é naipe exigente
Linha anil ou nesga de sonho no marfim, 
Nácar de ninfa no nenúfar tremente
Ante a corrente cristalina e de cetim, 
No fim é destino, melodia divina… 
Encantamento num’alma peregrina
Sem promessas por pagar nem por receber; 
Mas acatando sempre se o olhar ensina – 
Porque no inaudito nasce bem-querer! 

Joaquim Maria Castanho  

11.15.2016

LETRA M




LETRA M 

Mais que mistério, mais que magia, 
Mais que momento, são os teus modos
De solucionar medíocre mediania 
E o sem poesia dos dias incómodos; 
Dos dias menos, tardios, serôdios 
Que mumificam as almas, se desfias
Missangas num rosário de Marias
Mudas pròs mundos – mundanos quase todos. 
E que é essa maneira que é só tua
De resumir hemisférios de humor, 
Multiplicando numa forma contínua 
O quadrar alegria pla redondez do amor; 
Pois muitos dias poderá ter um dia, 
Mas só se te vejo, neles, há poesia! 

Joaquim Maria Castanho

11.13.2016

LETRA L




LETRA L 

Lídima lealdade na leitura 
Das sílabas dos lugares e ligações, 
Legítimo salto-cavalo, moldura 
De lótus, de lis, de lírios e de leões 
Que limaram e sublimaram tradições, 
Deltas iluminados, luz ou figura; 
Sombras a deslumbrar plateias, ilusões 
Com realidades dentro se em nós dura
A nobreza leve, nobre sentimento. 
Cinquenta linhagens universais
De áspides e ninfas, cujo cruzamento 
Concedeu a humanos e comuns mortais
O dom da entrega e arrebatamento  
Em ser frontais, sem deixar de ser leais. 

Joaquim Maria Castanho

11.12.2016

CAPA do Livro MOMENTOS DE POESIA

Eis a capa do livro de celebração do décimo ano de Momentos de Poesia, a ser lançado no próximo dia 20, pelas 15:30 horas, no Hotel José Régio, em Portalegre, e que reúne a participação de 48 poetas e poetisas da nossa atualidade.
Este momento será constituído, além da apresentação da obra, também por alguns apontamentos musicais, corais e poéticos.

LETRA K





LETRA K 

Caderno trinta três na ordem suprema;
Tipografia avançada e em escala; 
Isolado, deitado, é nosso tema
Quando na língua, a escrita fala. 
Do cuneiforme ao digital emala
A bagagem – da humanidade a gema –, 
Que à ficção e fantasia dá “olá kala”
Mostrando as obras, mas não a arbitragem.
Só surgiu no mundo por necessidade
Mas imperou como a razão do meio, 
Oferecendo a Gutenberg a veleidade 
De ser do globo a esfera como o veio; 
Sucumbiu às catacumbas da idade
Pra fazer alegretes de bonito e feio!

Joaquim Maria Castanho 

11.10.2016

LETRA J




LETRA J 

Joias de Salomão justificadas
Em tesouros de justa preciosidade, 
Não teriam sido essas guardadas
Mas sim quem as guardou como verdade. 
Pilares da civilização, juradas 
Colunas na suma verticalidade… 
Portas do mundo. Cais pra sãs cruzadas, 
Que sustentaram nossa modernidade. 
Que muito mais que os bens guardados
São os sentidos valores aí propostos, 
Pois além de gerarem mil cuidados
São cuidado e aprumo de quem ‘tá a postos
Vigilante, determinado, de plantão; 
E à injúria faz negaça, trespassa 
A intrujice e à trapaça diz que não! 

Joaquim Maria Castanho 

11.09.2016

LETRA I




LETRA I 

Nove III, imperador do infinito
Condómino maior na escala decimal
Senhor do fim, do abismo e do esquisito
Faz saber que todo centro é marginal.
Todo o coletivo é individual. 
Todo o corpo é sempre um espírito.
Todo o silêncio é seu próprio grito.
E todo bem tem seu correspondente mal.

E mais que isso, se decreta agora, 
Que embora diga que és tudo e nada 
(Serviço de urgência, base, escora…), 
Não há prova que existas realmente: 
Só és ponto de partida e de chegada 
– Pintinha de sangue no olho desta gente! 

Joaquim Maria Castanho

11.08.2016

LETRA H




LETRA H 

Hasteada hipótese na humana 
Hipotenusa que já em Hipatia 
(Farol da “Eduba” de Alexandria)
Tinha hélice e elipse, mas a tirana
Hipocrisia emudece em heresia, 
Nem Hipócrates houvera de honrar 
Entre hermanos na deontologia 
E hediondos hospitais da sangria
Ethica e bosta pestilenta pra sarar, 
Ou a fé a fim de queimar e purificar
Quem temesse ou tivesse outro Hades, 
O que entendemos por Hoje foi mudo, 
Calado sob grilhetas ou hostis grades… 

Porém, pra nós, é só o maiúsculo tudo! 

Joaquim Maria Castanho 

11.07.2016

NA VOZ DAS MÃOS


LETRA G




LETRA G 

Ginete gaibéu da ordem solar,
Gólgota genital no grande clímax, 
Gestor do gozo, do grito e da gesta, 
Gigante da gramática e da sintaxe, 
Guru da gleba e pigmeu em festa
Nas grafias globais e do bem voar, 
Governa os governos com geometria 
– Giza planos, estratégias, poesia… 

Branco garimpeiro na argila chã
Gorou egoísmos a gatunos e golpistas, 
E iniciou no negro céu a alva lã
Que gerou os letrados e os artistas;
Que tudo isso é, quem com giz giza, 
Chame-se Geraldo, Babel ou Luísa! 

Joaquim Maria Castanho

11.06.2016

A CASA DO CORPO - II


DA TIMIDEZ (IN)CONCLUDENTE


NAMORO - II


LETRA F




LETRA F 

Fazer isto e aquilo, fisgar, fintar
A fome, a fadiga, o fingimento, 
É afã que nos ajuda a durar
Além do destinado duramento. 
Afagar ficções felizes, e dourar
Fenómenos fugazes, sabimento
Dos outroras, mas que se fez secular,
É afazer – afoitado entendimento. 
Que os feitores das almas humanas
Não fomentam famas sem fundamento; 
Nem se perdem por fulanos e fulanas
Que fulanizam só por fobia vã… 
Fitam frontais invejas insanas
E fazem, e criam, e preparam o amanhã! 

Joaquim Maria Castanho 

11.05.2016

LETRA E




LETRA E 

Ébrio que nem um sonho fugitivo
Dum vendaval de estrelas insanas, 
O sol, que foi rainha do primitivo 
Homem, é ora réstia de semanas. 
O esplendor, pede-o emprestado. 
O calor, vai de oito a oitenta. 
Sorriso? Esse, só se for imitado
Pelo teu, quando me acalenta. 

Ele (que é Ela), tudo cria assim; 
Tudo inventa, alimenta em ser 
– Energia, luz, voo de Fénix e Querubim –, 
É círculo perfeito, ciclo de dizer
A vida, também em ti aprendido
E imitado… mês a mês repetido.

Joaquim Maria Castanho   

11.04.2016

Conjunto de poemas de autores que participaram nos Momentos de Poesia


LETRA D




LETRA D 

Depois do depois, dito agora
Despe-se devagar-devagarinho
Uma árvore que o vento aflora,
E sem demora acata teu jeitinho
De sol, luz em pétalas aspergida
A brilhar em si bemol, pró hino 
Que soa se entoa a própria vida. 
Diz que lançou raízes no destino. 
Diz que deve quanto é A Deus. 
À desdita, porém, nega o caminho
Feito à imagem dos passos teus.

E diz-me a mim, que somente digo
Para dizer quanto te quero bem, 
Que, se puder seguir no vento, sigo
Pra tocar-te, mal ele te aflore também. 

Joaquim Maria Castanho

11.03.2016

LETRA C




LETRA C 

Circe transformava homens em porcos; 
Colette deu-lhes ainda menos valor. 
Camões atirou-os prà Ilha em barcos
Reféns, que não viram no mar esplendor. 
Muitos somente queriam escapar; 
Outros, ter a segurança terrena. 
Mal sabiam eles que o infindo mar
Faria da Terra uma, por pequena! 

Triste triunvirato este nosso
(Sorte, Oportunidade e Acaso)
Que dá aos seres “o que só eu posso”
Dos monstros, e de Deus o desembaraço; 
Mais o poder de salto do cavalo
Que faz espesso o que é parco e ralo. 

Joaquim Maria Castanho

11.02.2016

LETRA B




LETRA B 

Já bailam pla natureza da hora
Os bêbados segundos da espera, 
Que quem fica também se vai embora
E, colado ao outro lado, degenera; 
À segunda versão de si proposta, 
Opção e contraste, conforme se aposta
E da face negra a luz recupera. 
Silencio que diz ou fala que cala, 
Que quem é feliz num ai se exala
Mal se descuide ante o querer bem, 
Que seguido ao nome toda flor tem
A pérola que Hamlet nunca bebeu 
– Tendo-a bebido apenas sua mãe… 

Logo, ele ficou; porém, ela morreu! 

Joaquim Maria Castanho

11.01.2016

LETRA A




LETRA A 

Abrevio a sede, abrevio o nome
Se no vaivém do mar oscila rede,
Esperança balança, se consome
Por duas sílabas apenas duas
Não mais, e por letras outras tantas,
Repetindo-se a primeira no fim
Incluindo bem no meio três ruas, 
Subindo ou descendo por quantas
Vogais repetidas tenho em mim.  

Se fosse fruto eram triplicadas… 
Porém, como cor, bisam simplesmente; 
Tal e qual no teu nome espalhadas. 
Do alfabeto é a porta da frente. 
E começo do sentir maior na gente!

Joaquim Maria Castanho

10.30.2016

OUVIR A LUZ




OUVIR A LUZ 

Inebriado pla sede e sofreguidão 
Osculo cada pétala do instante; 
Sonho que também tivera por tua mão 
A razão de ser plena e circunstante. 
A ela deve a fruta o ser doce e sã.
A ela deve o pão seu mister sagrado. 
E por ela o sol nasce em cada manhã
Quente, reconfortante e “iluminado”. 
Tem no brilho mesma forma de sorrir
Que tu tens quando o fazes (natural); 
Mas se fala… Então, é luz de ouvir
Sem sofismas nem fintas pra iludir… 
Só simples, clara e sem outra igual 
– No passado, no presente e no porvir! 

Joaquim Maria Castanho

10.29.2016

ACORDO PRA SENTIR




ACORDO PRA SENTIR 

Discreta, serena, contagiante
Sobre este caminho nítida voz
Abre veredas, a todo o instante, 
Que repetem aquelas versões de nós
Com que costuramos o ser (sem retrós). 

São veredas de arar na alma aberta
Com sílaba corrente prà lucidez, 
Que, se transparente, anseio conserta
Sem pecúlio no contar «Era uma vez», 
Tido por definitivo – coisa certa. 

Porque eu escuto-te SEMPRE e ainda
Bem depois de ter falado contigo, 
E sinto que esse falar nunca finda
Mesmo se plo olhar reitero e digo
Que sentir é uma voz que nos desperta.

Joaquim Maria Castanho 

10.28.2016

LADEIRAS INTERIORES




LADEIRAS INTERIORES 

Já solta e suave coroa ardente
Onda encrespada tubular, arco
Sístole do verbo que diz a parte
Como todo, silente te abarco
E, suspenso, em ti me reparto 
Ósculo após ósculo se acarto
Dos olhos o magma intencional… 

És o meu segredo que toda gente
Conhece; todos sabem que existes. 
Do ar circundante a flor ambiente
(Corola e cálice em que consistes)
Por cujo aroma a pétala insiste
Segar dos sonhos o que seja triste 
– Como o ímpar das estrelas do plural. 

Tenho-te presa dentro do meu grito
A viajar entre o ocaso e infinito
Pelas ladeiras da luz interior; 
Tão intensa, genuína, que acredito
Que és da sílaba a pérola em flor. 
E mais que voz de «Bom dia» ocasional
És ainda o sol veloz, se me permito 
Senti-lo puro, bendito, e normal. 

Joaquim Maria Castanho 

10.27.2016

A MAGIA DA SURPRESA




A MAGIA DA SURPRESA 


A fada que me enternece 
Desaparece ou aparece, 
E enquanto Musa tece
Sempre essoutra dimensão 
Com que o sol às almas aquece
Quer no inverno como verão… 

Faz a magia parecer real, 
Porém, com um encanto tal
Que a realidade é ideal 
Mas sem a sombra da ilusão, 
Que traz às vezes o bem e o mal
Se se instala no coração. 

Das Musas que pela vida há
Só ela tem o dom perfeito, 
De ao vê-la, saber que está
Também dentro do meu peito.  

Joaquim Maria Castanho

10.26.2016

ALCANÇAR AS ESTRELAS




ALCANÇAR AS ESTRELAS 

Às portas do céu, a cavaleira
Celeste, tão celta como moura, 
Interrogou a luz vindoura
E, após curveta, foi certeira 
Flecha, raio divino, maneira 
Que Olimpo tem de falar às gentes
Humanas, soberanas, que do sonho
Guardam cetro, cálice e lanho
Entre auroras e ocasos fulgentes, 
Tendo-lhe respondido (sem voz): 
«És a glória sagrada que há em nós, 
Que nascemos da chama primordial
Múltiplas, aspersões sobre bem e mal.» 

Seus cabelos escorreitos e lisos
De seda quase chumbo nacarado
Em camadas descaídos, precisos
Oscilam plo voo ao azul estrelado, 
E aí brilham feéricos inocentes. 

Osculo-os de pronto, mentalmente 
– Fiel devoção às fadas supremas… –,
E tão inebriado e obediente 
O faço, que brotam flores serenas
A dançar a compasso, e balanço, 
Que também eu às estrelas alcanço! 

Joaquim Maria Castanho     

10.25.2016

A NOVA DEMANDA




A NOVA DEMANDA 

Contundente como um adjetivo 
O advérbio de modo disparou 
À desfilada, o freio nos dentes
Brida arrastando chão na planície
Oh sorraia, baio torrado dos sonhos  
Crina esvoaçando sul desnorteado
Entre estevas, giestas e alecrins. 

Sobre sela de cetim e pele de anho
Traz Viviane o cálice da fertilidade
Senhora das chuvas e das nascentes
Rios e lagos, e das flores sem idade
Caem vertigens das pétalas no clímax  
Se Excalibur em suas mãos chispa o sol. 

Seus raios são capazes de segar a dor. 
Seu ventre explode ao balanço do salto.
Seu olhar emite nova demanda do amor. 

Joaquim Maria Castanho

10.23.2016

O APÊNDICE SOCIAL




O APÊNDICE SOCIAL

Não há Verdade mas verdades
Que a mentira pode corromper, 
Desde qu’ela saiba o que sabes
Embora que não o saibas dizer. 
Viver é algo em que cabes
Sem precisar de te encolher, 
Mas esticam-te em partes ardes
Ou dão-te infernos pra viver. 
«A escolha foi tua», informam
Como se nascesses criado,
Sublinhando o que contornam
Aind’assim não mudes de lado; 
Desistas de ver-te torcido
E exijas o que te é devido!

Joaquim Maria Castanho    

10.22.2016

OS SEXISMOS E A PRECARIEDADE




OS SEXISMOS E A PRECARIEDADE 


Abrem-se as espinhas da penumbra, 
Arrepia-se pela sombra este sol,
Que o ser inventa o que o deslumbra
E amassa no chão, se fica mole. 
Os contingentes nebulosos passam, 
O céu é só cinza alvoraçada, 
Sem o mínimo azul que o console
Da fé e esperança atraiçoada. 
À humana estirpe já compete
Reimplantar o advento que repete
As inquisições; e as bruxas assam
Ante as fleumas dos falatórios, 
Qu’os sonhos só vingam se corroboram 
Outros – ainda que contraditórios! 

Joaquim Maria Castanho 

10.21.2016

O EROTISMO DAS RIMAS




O EROTISMO DAS RIMAS 

Intransigente como uma haste
À beira-caminho o olhar fustiga
Acarreta sombras, dispara verbos
Desfolha papoilas, e a espiga
Invade a curva que atropelaste; 
Veste de nuvens o céu profícuo
Adorna nos silos entre sementes
Desmaia como faminto bêbado. 

Dos sonhos sobraram as raridades
Também alguns acordes encantados
Pequenos gestos nunca esquecidos 
Ou o adocicado odor das maçãs
Maduras folhas amarelas levitam
Sobre o piso de caruma moída…

Porém, em equilíbrio precário
E frugal, versos estabelecidos 
Dizem que só ficarão corrompidos
Por rimas despidas de calendário. 

Joaquim Maria Castanho

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

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Escribalistas é órgão de comunicação oficial de Joaquim Maria Castanho, mentor do escribalismo português