10.23.2016

O APÊNDICE SOCIAL




O APÊNDICE SOCIAL

Não há Verdade mas verdades
Que a mentira pode corromper, 
Desde qu’ela saiba o que sabes
Embora que não o saibas dizer. 
Viver é algo em que cabes
Sem precisar de te encolher, 
Mas esticam-te em partes ardes
Ou dão-te infernos pra viver. 
«A escolha foi tua», informam
Como se nascesses criado,
Sublinhando o que contornam
Aind’assim não mudes de lado; 
Desistas de ver-te torcido
E exijas o que te é devido!

Joaquim Maria Castanho    

10.22.2016

OS SEXISMOS E A PRECARIEDADE




OS SEXISMOS E A PRECARIEDADE 


Abrem-se as espinhas da penumbra, 
Arrepia-se pela sombra este sol,
Que o ser inventa o que o deslumbra
E amassa no chão, se fica mole. 
Os contingentes nebulosos passam, 
O céu é só cinza alvoraçada, 
Sem o mínimo azul que o console
Da fé e esperança atraiçoada. 
À humana estirpe já compete
Reimplantar o advento que repete
As inquisições; e as bruxas assam
Ante as fleumas dos falatórios, 
Qu’os sonhos só vingam se corroboram 
Outros – ainda que contraditórios! 

Joaquim Maria Castanho 

10.21.2016

O EROTISMO DAS RIMAS




O EROTISMO DAS RIMAS 

Intransigente como uma haste
À beira-caminho o olhar fustiga
Acarreta sombras, dispara verbos
Desfolha papoilas, e a espiga
Invade a curva que atropelaste; 
Veste de nuvens o céu profícuo
Adorna nos silos entre sementes
Desmaia como faminto bêbado. 

Dos sonhos sobraram as raridades
Também alguns acordes encantados
Pequenos gestos nunca esquecidos 
Ou o adocicado odor das maçãs
Maduras folhas amarelas levitam
Sobre o piso de caruma moída…

Porém, em equilíbrio precário
E frugal, versos estabelecidos 
Dizem que só ficarão corrompidos
Por rimas despidas de calendário. 

Joaquim Maria Castanho

10.20.2016

OLHAR VAZIO




OLHAR VAZIO 

Por me arrastar pelas horas
Deste dia assaz corroído, 
No plangente chiar de noras
A tirar dor do tempo tido, 
É que o sol, em febre, dolente
Raios macilentos, chorosos
Anda nas sombras desta gente
A pisar fungos ou remorsos
(Líquenes sociais venenosos) 
Pra destilar em aguardente
Fogo, desespero stressado 
De quem está aqui por falta de lado. 

Sou a mágoa fria, preconceito; 
Detenho na lápide do dia
A faca da frieza que mata; 
O silêncio que a mudez retrata; 
O (in)conformado trejeito 
De quem olha dentro da poesia
E não se vê como antes via!  

Joaquim Maria Castanho 

10.19.2016

O ANALISTA DE PORMENORES




O ANALISTA DE PORMENORES

De cada instante, o próprio instante; 
Cada pormenor, o exíguo pormenor. 
E do mais da vida, o que encante
Dessa magia que também é flor,
Feitinha toda ela de sentimento
Como se fosse pétala, momento 
Do instante, e do segredo sem fim
Que escreve os dias e horas em mim: 

Ápice, Casa Nova da perfeição 
No eito do tiquetaque redutor,
Onde até plo ritmo do coração 
S’escuta sentido ecoar do … 




… sol-pôr! 


Joaquim Maria Castanho 

10.18.2016

FAZER O DESTINO FAZ-NOS




FAZER O DESTINO FAZ-NNOS 

O destino é imparcial 
Nas determinações que tem,
E às vezes até acha mal 
Aquilo que é nosso bem. 
Porque quer decidir por nós
Sem nos perguntar em nada, 
El'encontra-nos sempre sós
Na multidão da estrada... 
Bem no meio do caminho
Como se pedra aguçada, 
Que nos leva direitinho
À cova por nós cavada. 

Que o destino é banal, 
Não quer saber de ninguém; 
Tem por seu bem o nosso mal
Real, ou temido, também.  

Joaquim Maria Castanho 

10.17.2016

SÍNCRISE




SÍNCRISE 

Reposto o breve expressivo
Grito ao infinito distante, 
O passivo «Ai!!» se faz ativo
E eu vivo, só pró instante
Único, pleno, em que te ouço
Vejo, no também ser, se posso
Assim aberto e transparente; 
Assim, de certo, e perto, ente… 

Que sem ti os dias são noites
E as noites tão-só escuridão; 
Já farol que à luz acoites
Brotas em sins de qualquer não! 

Joaquim Maria Castanho 

10.16.2016

ASSÉDIO MORAL




ASSÉDIO MORAL 

O assédio moral existe
Com o fito de desmoralizar; 
E só o pratica quem persiste
Em diminuir e apoucar. 
Quem critica afetos, relações, 
Pondo em causa aos demais; 
Ou duvidando das intenções
Dos que vê como desiguais.

O assédio moral existe
Nas empresas, nas repartições, 
Supermercados, hospitais; 
Nas famílias e religiões; 
Nas câmaras municipais, 
Nos cafés; em tais dimensões, 
Que até plas redes sociais.   

O assédio moral existe, 
Digam o que disserem, agora… 
Se do lobo pele vestiste
Torna-se tua sem demora!

Joaquim Maria Castanho  

10.15.2016

POEMA DA NÃO-POESIA




POEMA DA NÃO-POESIA

Nem todos os versos são poemas, 
Sequer convocam qualquer voz, 
Pois muitos há que o são apenas
Pelo tato ou conforme o olhar,
Ou partilhar, caso estejamos sós,
Dizendo-se eles, doutra maneira, 
Segundo o balanço de uma rede, 
No invocar "daquela" nossa sede, 
Ou pelo conforto de uma esteira...  

Há poemas que nunca o foram
E que também nunca o serão; 
Mas aceitamo-los se decoram
Nossos gestos, sentires, intenção.

Joaquim Maria Castanho 

10.14.2016

DILEMA TROIANO




DILEMA TROIANO  

Com o coração agitado
Plo anseio te prevejo; 
E vendo, fico ansiado
Desejando mais que ver, 
Tentando tanto esconder
Este espinho cravado 
No cimo profundo do ser... 
Que busco ora o outro lado, 
Ora este, do meu dizer: 
Um, é saudade de ti; 
Outro, nasce mal te vejo. 
Se poema, conta o que vi; 
Se calo, diz que desejo. 

Joaquim Maria Castanho 

10.13.2016

PÉTALA SUBLIME




PÉTALA SUBLIME 

A tristeza semeia silêncios 
No mesmo chão da felicidade, 
Só que a primeira germina e singra
E a última se perde nas discórdias, 
Nas diferenças semânticas e dialectais… 

Tenho hastes de tua voz implantadas
Na alma dos afetos distintos; 
Germinaste nela, agora és flor:
Pétalas e canto de jograis. 

Joaquim Maria Castanho

10.12.2016

LIVRINHO DE POEMAS




LIVRINHO DE POEMAS 

Tenho amor pequenino
Pra me caber no coração, 
Quase ode, doce hino,
Sob a batuta do condão;
Da magia e do encanto, 
Que cresce do dia a dia, 
Que aquece como manto.
Amarra feras, destino; 
Apaga soluços (d’ontem). 
– Ó meu amor pequenino
Sorri, sorri sem que notem
O sorrir da poesia fonte. 

Tenho o amor numa linha
De apontar com o dedo, 
Onde a sílaba faz esquina
Com a oração do segredo.
Trabalha na secretaria
Dum parágrafo aberto, 
A mostrar ao mundo poesia
Com um sorriso de magia, 
Num ritmo de ponto certo. 

Joaquim Maria Castanho 

10.11.2016

ACTO DE PREFERIR DE FACTO




ATO DE PREFERIR DE FATO

Hoje preferia minhas as tuas dores
Neste momento, incómodo, magoado
Preso à ansiedade das rubras cores
Com que o ocaso pinta o azul cerrado
No Éden das roseiras, mas sem flores
Espinhos só quase, lida, cuidado;
Dias que rasgam dias, frios e calores… 
Ânimo por desânimos alquebrado. 

E tê-las-ia mui reconhecido, grato
Alegre e em “feliz contentamento”, 
Se assim te devolvesse bem de fato
O sorriso, âmbar, néctar, sustento 
Com que alimento a alma apaixonada
Por uma estrela – misto de mulher e fada. 

Joaquim Maria Castanho 

10.09.2016

SUBLIMAÇÃO POÉTICA




SUBLIMAÇÃO POÉTICA 

Refugio-me no trabalho
Tão-só pra te não procurar, 
Fazendo do criar atalho
Para a senda do esperar; 
E escondendo-me de mim
No sonho que oculta sonhar
Terei melhor sonho, enfim, 
Entretecido e desejado
Calando o sonho que tiver… 

Que sentir que ninguém disser
Não pode ser contrariado, 
Ainda que ponha a mulher
Bem no centro do pecado. 

Joaquim Maria Castanho

10.08.2016

A ALMA DOS POEMAS




A ALM :) DOS POEMAS

Sem a tua voz não me digo… 
Sem teu «Bom dia», tudo corre mal; 
A jornada é um perigo, 
E escrever, um ato formal. 
E os versos soam ocos
Com sílabas marteladas, 
Ond’os sentidos são poucos
Em estrofes derrotadas.

Então, invento que fazer
Só pra passar perto de ti… 
E eis que no amanhecer
O “sol” brilha: o dia sorri. 

Joaquim Maria Castanho 

10.06.2016

SEGREDO DE ALMA




SEGREDO DE ALMA


Queria fazer um poema
Que te merecesse… 
Que dissesse o teu rosto
– E teu rosto fosse. 
Que dissesse os teus olhos 
– E teus olhos fosse. 
Que dissesse as tuas faces
– E tuas faces fosse. 
Que dissesse teus lábios
– E teus lábios fosse. 
Que dissesse a tua fronte 
– E tua fronte fosse. 
Que dissesse teu cabelo
– E rabo-de-cavalo fosse.
Em que se ouvisse meu coração bater
E que não só de palavras fosse, 
Mas fosse o sangue a dizer.
– A correr ao leme do tema
Que nenhum poema
Consegue ser. 

Queria fazer um poema
Como se não fosse humano
– Que nascesse dos dias
E assim fosse todo o ano; 
Que não tivesse versos
Métrica, nem tons submersos,
Mas as texturas macias
Como só tua pele tem
Quando o vê-la vai além
Do sublime das poesias. 

Queria fazer um poema
Que me fosse alma pequena
Em sílabas que só tu lias. 

Joaquim Maria Castanho

10.05.2016

DISCUSSÃO SOBRE O DISCUTÍVEL




DISCUSSÃO SOBRE O DISCUTÍVEL 

É bonita, sim, é bonita, 
Disso não há como duvidar, 
Se sua trança bem catita
Me oscila e dança no olhar. 

Tem o segredo da certeza; 
Tem a certeza de meu afeto.
E só discutimos a beleza 
Porque não acredita no certo. 

Ou não repara no visível, 
Incontornável aos sentidos, 
Como se ainda fosse possível
Desmentir meus desmentidos.

É bonita, sim, é bonita, 
Maravilhosa nas feições, 
Despachada e expedita 
Em quaisquer ocasiões. 

É bonita, sim, é bonita; 
Disso não restam suspeições. 

Joaquim Maria Castanho     

10.04.2016

HÁ ENTRADAS QUE SÃO SAíDAS




HÁ ENTRADAS QUE SÃO SAÍDAS 

Na ínclita inclinação, verbo nobre
Que se declina perante a plebe lusa, 
O épico desassossego de quem é pobre
Trambica, argumenta, pede escusa.
Em questão ‘tá a receita que não cobre
O orçado fiscal, coisa assaz obtusa
De quem conta com ovo por pôr, e descobre
Que tal galinha, a pô-lo, se recusa.
Ó opíparos no divino alheio, 
Então, vós, que gastais além do tido
Desconheceis quanto é rude e feio
Contar com o que não será recebido, 
Para pagar dívidas já contraídas…? 

– Orçar entradas assim, anseia saídas! 

Joaquim Maria Castanho

10.03.2016

CINZAS FULGENTES




CINZAS FULGENTES

Porque feminina, logo plural
Como a madrugada joanina, 
Sei duma estrela estival
Que até ao sonho ensina
A ser o que é, unicamente, 
E não outra coisa qualquer; 
Para quem olho como gente
Mas vejo somente por mulher. 

Tem o jeito mágico duma fada
E guarda no olhar esse elixir,
Com que a eternidade é nada
Pelo instante de um devir;
Dum estar que o viver transforma
Tirando-lhe tédio e ilusão, 
Pondo o caos com essa forma
Que consideramos ter a paixão. 

Pois por ela já de mim não sou
E daquilo que fui nada me sobra, 
Que quem ama o ser à luz deitou
Até lh’arderem as cinzas… 

– e obra! 

Joaquim Maria Castanho

DO NÚCLEO, A ESPIRAL




DO NÚCLEO, A ESPIRAL


É difícil o despovoar dos sonhos cimentados
Crescidos no dia a dia ante os teus gestos 
Como verbos de arrumar em livros catalogados
Novos, reposições, como registos, e lestos
De pronto se autorizam e te obedecem servis… 

Por mim o digo, que no contento de tuas mãos
Me andam ajeitados os puros sentimentos
Balançando nas ondas de teus cabelos, sutis
Vaivéns de quem alisa recatados desvãos
Onde moram os secretos anseios e alentos.  

Pudera eu ser o teu andar! Pudera eu ser, então,
Todo o ar que respiras para ir até cada poro teu, 
Invadir de manso tua íntima pele, e na sofreguidão
De ver-te cirandar, rodopiar em mim até ao céu!


Joaquim Maria Castanho

10.02.2016

SOL VAGABUNDO




SOL VAGABUNDO 

Aquela que eu amo, é o meu amor. 
Não há no universo ninguém tão lindo. 
E, muito menos, até dele em redor
Se me diz «Bom dia» e fala sorrindo. 
Pequena (luz), gotinha qu’é também flor, 
É a nova estrela do céu infindo 
A quem a lua pede brilho «por favor»; 
E as plantas imitam, se florindo. 
Contudo leva os dias a trabalhar
Como astro insigne, ou segundo… 


Mas se houvesse justiça no mundo
O sol pedia ao meu amor pra brilhar; 
Assim, não passa de um vagabundo 
À volta de quem a Terra anda a girar! 

Joaquim Maria Castanho 

10.01.2016

O NOBEL DA CULTURA UNIVERSAL




O NOBEL DA CULTURA UNIVERSAL 

O momento imprevisto (sem igual)
Cuja b’leza, magia, significado
Devia ser Património Mundial, 
Queiram ou não, já foi encontrado: 
Não é fotografia, alucinação, 
Acertar na roleta, número, sorte
Vencer guerra (apoteose triunfal), 
Bater record, abrir uma casa-forte, 
Filme, livro, quadro, ocasião 
Histórica, hino, ode musical, 
Ópera, descoberta d’El Dorado, 
“Bingar” no euromilhões, ou visão; 
Evitar uma causa de dor ou de morte… 

– É olhar de repente, para um lado, 
E ver-te entre gente, conforme o sonhado! 

Joaquim Maria Castanho

9.30.2016

LIÇÃO DE COR/DE COR/DE COR/DE COR/DE COR




LIÇÃO DE COR/DE COR/DE COR/DE COR

Se debico e osculo essa seda
Pura fragrância, ó elixir 
Que pelos doces sonhos se enreda
Abrindo sulcos, caminho, vereda
Por que já sobes sorrindo ao porvir; 
Então desamor se desfaz (pla tua mão)
Que traz a paz e a luz do sim e do não,
E escreve e serve o sobre e o entre
O profundo grito de teu ventre. 

O dia esplende. E o dorso flete. 
Complexo se aninha, ou estende, 
Ou balança, na rede do amplexo… 

– E o corpo aprende s’a alma repete! 

Joaquim Maria Castanho

9.29.2016

CLIC




CLIC 

Quero esfregar minha casca
Na tua casca, minha pele
Na tua pele se atasca
O beijo arrasta, à alma zele. 

E dito assim tão calado
O grito no sangue ferve, 
Que o olhar no teu colado
Faz a eternidade breve. 

Joaquim Maria Castanho

À JANELA, COM SHAKESPEARE




À JANELA, COM SHAKESPEARE 

A conta lançou abanão 
No orçamento da pobreza, 
Ond’o Dr., indabenão 
Põe máscaras à despesa. 

Pra uns, é investimento; 
Pra outros, necessidade. 
Contudo, eu argumento
Ser só fuga à verdade. 

Porque isto de pôr nome
A que muito bem se sabe,   
Até dá fomes à fome 
Antes ca taxa s’acabe. 

Joaquim Maria Castanho


9.28.2016

SE ME ALIMENTO





SE ME ALIMENTO 
(quarta-feira, 28 de setembro de 2016
15:23)

Quando a voz no ser indistinto
Abre sulcos quase indizivéis, 
Os sonhos no vaivém do instinto
Aproveitam os seus caminhos, e eis
Que sentem o que jamais sinto
Ou se derramam por esses papéis
Pintados com tudo o que não pinto... 
Folhas avulso, ou restos dos dias
Feitos e desfeitos, descartáveis
Nas linhas que desvendam poesias; 
Nos poemas que ocultam sentimentos. 

Então, exceto o pão, por endurecer, 
Quanto como passou pela tua mão
Certo dia que não consigo esquecer, 
O que lhe concede essa dimensão
Que ninguém dará aos alimentos! 

Joaquim Maria Castanho

9.27.2016

A IDADE DO SENTIR




A IDADE DO SENTIR 

No sufrágio odorado da espera
A fala presa, esgar retraído, 
O silêncio que adora e venera
Estende-se plo dia, consumido. 
A brisa, ao tocar-lhe, recorda-te
Tal que passando por mim novamente
Te visse (outra vez!) plena de arte
Vendo o telemóvel, indiferente… 
Passo cadenciado, trança prà frente
– Exatamente do lado que me prende –, 
Sentindo tod’esse bem que ascende
Quando a esperança se faz praxe
E pulsa e ilumina, ou desmente
Que o amor só aos novos é que nasce! 

Joaquim Maria Castanho 

9.26.2016

O RITUAL DA LEITURA




O RITUAL DA LEITURA 


Regressar é rever-te (mentalmente), 
Eterno retorno feito ritual, 
Repetição de instante eficiente
Pra que se repita também o real
Cotodiano (sagrado) docemente
Inspirado na Poesia e Ideal, 
Em rotina que alia o crer da gente
Ao querer que a tornará assim plural… 

Os dias são as montras dos sentidos
Tidos e somados que a nossa alma tem, 
Sendo nesse calendário vertidos
Aonde o sol só do coração nos vem. 
E vindo, põe-nos o ser amado tão perto
Que o mundo se faz um livro aberto!

Joaquim Maria Castanho

9.25.2016

PRECE AO DIA DE HOJE




PRECE AO DIA DE HOJE 

Definitivamente amargo e triste
O sol, como quem a si mesmo resiste, 
Insiste em continuar na jornada; 
Não sei se acredita que a lua existe
Mas ainda que triste traz luz em riste
E persiste iluminar a tão marcada
Saudade em meu rosto abatido... 

Pedir-lhe que prossiga sem euforia
Cuidadoso nas badaladas e atento
Aos minutos que no Tempo afia
E espeta um a um no coração sofrido
De quem os conta por afastamento, 
É empresa de sacrifício doído
Até pra ele que não é dado sentir
O que o homem sofre neste momento. 

Todavia, eu vou rogar-lhe, implorar
Que se mantenha sútil e sem sorrir, 
Seja solidário a quem lho ‘tá a pedir, 
Tão-somente e apenas pra não chorar! 

Joaquim Maria Castanho 

9.24.2016

O SINAL




O SINAL 

Prenúncio do que irá acontecer
(Plantar de figueira no caminho, 
Queda, trepidar que deita ao chão…), 
Foi anúncio do que não quero crer
Feito às portas de meu destino; 
Aviso de que ficarei sem te ver
No preenchimento duma previsão, 
Só acontecida por demais temer
O que me é contrário ao coração. 

Por vezes, infligem-nos os deuses
Sofrer superior às capacidades
Que temos, em cruéis entremezes 
Onde se divertem com as verdades
Que tornam as almas animadas, 
Demonstrando serem ínfimos nadas
Os humanos anseios (felicidades), 
Obrigando-nos a contínua provação. 

Porém lhes digo: Só quem sabe dar a mão
E nos ajuda a erguer a fronte aos céus, 
Reconhece o amor nos súbditos seus, 
Merece da humanidade absolvição… 
Seja ou não, pelo Olimpo, um deus!   

Joaquim Maria Castanho

9.23.2016

BBBHHHAAA!!!




BBHHHAAA!!!  

Almejam os ignaros decidir 
O que os poetas devem escrever, 
Para assim, talvez, se prostituir
A fim de que alguém os queira ler… 

Ó pacóvios, contem-me outra, 
Qu’essa história já está gasta, 
Pois nenhum poema será montra
Das aldrabices da vossa casta! 

Joaquim Maria Castanho  

9.22.2016

TROVA DO SENTIR PERENE




TROVA DO SENTIR PERENE 

Tenho poema a periquitar
Plos olhos que há pouco vi, 
Tão lindos, que ‘tou a pensar
Que foi por eles que nasci. 

São avelãs de bem-querer
(Maduros sonhos cerzidos), 
Capazes de nos meus ver
Como eles andam perdidos.

Prós ver e neles acreditar; 
E sonhar vê-los agora aqui, 
Num poema quase a chegar
Tão-só por me lembrar de ti. 

São avelãs de bem-querer
(Maduros sonhos cerzidos), 
Capazes de nos meus ver
Como eles andam perdidos.

Numa tão nobre perdição
Que não se vêem sozinhos, 
Tendo feito do coração 
Seus próprios caminhos. 

São avelãs de bem-querer
(Maduros sonhos cerzidos), 
Capazes de nos meus ver
Como eles andam perdidos.

Rotas ou descobrimentos
No alinhado meridiano, 
Plo qual os sentimentos 
Dum dia valem todo ano. 

São avelãs de bem-querer
(Maduros sonhos cerzidos), 
Capazes de nos meus ver
Como eles andam perdidos.

Joaquim Maria Castanho 

9.21.2016

SEMENTE LUMINOSA




SEMENTE LUMINOSA 

Teu olhar acende estrelinhas
No meu sangue, cintilantes
Prà apagar flamas daninhas
Onde o ser me ardia antes; 
Marc’os verbos destas linhas
E planta versos ofegantes; 
Elege Musas em Rainhas
De poemas perto – e distantes. 
É avelã doce mas pleno
Sentido sonho de magia, 
A brotar puro e sereno
Dos nevoeiros sem poesia. 

É luz no amanhã incolor… 
Cujo brilho vai além da flor! 

Joaquim Maria Castanho

9.20.2016

VISÃO EXATA




VISÃO EXATA 

A pele do poema (cetim nacarado)
Gema perlado com gotas de cristal, 
Dança a cada passo teu, assim dado
Sob fulgor felino (quase) austral; 
Estremece, bruxuleia cintilado
Por alucinações afro, porém real
Deixando meu olhar em si colado, 
Sucumbido pla beleza magistral… 
Tem a sensualidade dum soneto. 
É flexível com’um S de sedução. 
E emite esse perfumado trejeito
Dum ápice, no clímax (perfeito)
De exalar, nesse instante secreto
Em que eclode, a própria perfeição. 

Joaquim Maria Castanho 

9.19.2016

ABSORTO TE ABSORVO




ABSORTO TE ABSORVO 

Há um Império de lonjura
Entre nós Pessoa chamou-lhe O Quinto
Mas, mesmo assim, na candura 
Dos dias procuro o mar entrançado, e sinto
As vagas encaracoladas do ser
A enlear-me em sonhos que não sei dizer. 

És o segredo de cada passada
O verbo aflora rimas ancestrais
E, na manhã da manhã, esperada
Sobre xis de cromossomas maternais, 
Ditas poesias pelos céus diamantinos…

O sol empurra-te para o outro lado;
Porém, seguro-te, estendendo-te o olhar
Descuidado, para te guardar (ensimesmado). 

Joaquim Maria Castanho 

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

Arquivo do blogue

Acerca de mim

A minha foto
Escribalistas é órgão de comunicação oficial de Joaquim Maria Castanho, mentor do escribalismo português