Convite para partilhar caminhos de leitura e uma abertura para os mundos virtuais e virtuososos da escrita sem rede nem receios de censura. Ah, e não esquecer que os e-mails de serviço são osverdes.ptg@gmail.com ou castanhoster@gmail.com FORÇA!!! Digam de vossa justiça!
10.29.2021
EXATAMENTE AMANHÃ
10.28.2021
GALERIA DE S. SEBASTIÃO, em PORTALEGRE
SONETO MATINAL
MOSTO MATINAL
Esta noite atravessou-se-me a madrugada
A meio do caminho, vinha vestida de breu
Com cada constelação d’estrelas estampada
Num imenso sorriso que não era só seu…
Quis-me parecer c’apertava numa das mãos
Um diamante por lapidar, duro e preciso
A brilhar por entre os dedos justos irmãos
Que edificam o mundo, pela mó do juízo.
As franjas do xaile, onde os fados dançam
Eram promessas de chuva a pingar plas costas,
Se o suor dos que tentam é o dos que alcançam.
O chão de neblina se afasta pròs deixar passar
E sobre as dúvidas frias, infiéis e expostas
Pisam o fruto e os engaços do dia a chegar!
Joaquim Maria Castanho
10.26.2021
A LITERATURA CELEBRA A VIDA E A CULTURA
A LITERATURA CELEBRA A VIDA,
A CULTURA, O QUOTIDIANO
E A MANEIRA DE ESTAR PRESENTE
ONDE QUER QUE SEJA
E dias 30 e 31 deste mês, estará no INTERMARCHÉ – PORTALEGRE, onde o autor Joaquim Maria Castanho, também vai estar para autografar os seus livros DADINHA DÁ UMA LIÇÃO LÁPIS VLUP-VLUP, o Valentão das Dúzias, NA MINHA CASA MORA UM GATO, REDESENHAR A VOZ e A BOLSA DAS MARMITAS. Dia 30 (só) na parte da manhã; e dia 31, (só) na parte da tarde. Até lá serão divulgados mais pormenores acerca da iniciativa.
Saudações literárias
10.16.2021
LITERATURA NO DIA A DIA
A LITERATURA É UM PRODUTO
CULTURAL DO DIA A DIA
... E NA ATUALIDADE
De acordo com informações de última hora, os livros de Joaquim Maria Castanho, devem ficar à venda no Intermarché de Portalegre, por volta do dia 30 deste mês, sábado, em cuja manhã, neste dia, o autor de Dadinha Dá Uma Lição ao Lápis Vlup-Vlup – o Valentão das Dúzias, Na Minha Casa Mora Um Gato, Redesenhar a Voz e A Bolsa das Marmitas, estará presente para autografar os livros a quem manifestar interesse nisso.
Saudações literárias e ótimo fim de semana.
Foto by Maria João Fontes
10.14.2021
LITERATURA E AMBIENTE
LITERATURA E AMBIENTE
UMA FORMA DE ESTAR E DE ENTENDER A VIDA
Tudo indica que os livros de Joaquim Maria Castanho, publicados durante os períodos de confinamento e estado de emergência em consequência da Covid 19, Dadinha Dá Uma Lição ao Lápis Vlup-Vlup – o Valentão das Dúzias, Na Minha Casa Mora Um Gato, Redesenhar a Voz e A Bolsa das Marmitas, venham a estar à venda no INTERMARCHÉ de Portalegre. Por agora nada mais nos é possível adiantar, mas desde já fica a promessa de, assim que algo mais se venha a saber, será dado a conhecer a todos e todas vós.
Saudações literárias
Foto by Maria João Fontes
10.02.2021
III REINO
O TERCEIRO REINO
Disse a meus olhos que parassem
Mas eles não ouviram, sequer;
Foram a avelã madura dos teus
Antes que deuses os chamassem,
Para lhes proibir ver na mulher
Deusa da terra, rainha dos céus.
E eles, como todos os olhos são,
Que só mentem, se bem treinados,
Deram-lhe também meu coração
Qu’é outro reino, pròs seus reinados!
Joaquim Maria Castanho
10.01.2021
CAIR EM REALIDADE...
CAIR NA REALIDADE
Voz noturna (desmagoada)
Solta estrelas ao redor,
Pintando manhãs, calada,
Em telas d’anilada cor.
Compenetrada, e distante
Com gestos precisos, imediatos
Voltou, para ser quem antes
Era, dos meus dias
Motivo, poesias
– Sentires mais concordatos.
Que de vê-la me não canso
Mesmo que à espera fique,
E sufi sonho oro danço
Caindo do céu… e a pique!
Joaquim Maria Castanho
9.28.2021
TODOS OS TEMPOS NUM SÓ
NUM SÓ, TODOS OS TEMPOS
Há gestos preciosos, lestos, precisos
Imediatos à voz, cuja doçura
Espelha a brancura dos narcisos;
Os sonhos das açucenas, dos jasmins
Cativados pela serena brandura
Com que os meios se transformam em fins.
Que nos agarram por dentro e por fora.
Que nos espanejam a alma alcantilada
Nos promontórios com que o ser se escora
Pra imaginar-te do outro lado da estrada.
E quando a sorte se aproxima
Quase um precipício prà sina,
Eis que estranho braço a empurra
A vertigem do grito a fustiga
E banindo-a a zurze e a surra
Até lhe extorquir toda a fadiga…
Então ante ti, meu olhar fica nu.
Tudo quanto ele omitiu, eu omiti.
E se alguém mais viu, eu também não vi
– Que, de repente, no meu presente
Somente uma pessoa existiu… – Tu!
Joaquim Maria Castanho
9.24.2021
NA DEGUSTAÇÃO DAS SÍLABAS
NA DEGUSTAÇÃO DAS RIMAS
Pela crosta estaladiça dos dias
Em que pleno o palato se me dilui
Sôfrego colho eu duns olhos poesias
Onde, por serena, a beleza flui
Quase avelã madura, desmedida,
Inteira entrega de mim, total cerne,
Se nesse quase ponho toda a vida
Desde o mais íntimo à flor da derme.
Do miolo nuclear à textura pura
Aí, sólido imbricado o ser assenta,
Com que a tez empresta a sã frescura
Que atesta a formosura que aparenta…
E assim nascido dum quase perfeito
Mastigo rimas, degusto-as uma a uma,
Até que farta a alma m’enche o peito
Onde só as tuas cabem… Mais nenhuma!
Joaquim Maria Castanho
9.23.2021
O OUTONO VEM AÍ
O OUTONO VEM AÍ COM AS FOLHAS
QUE INSISTEM EM MUDAR DE COR
Conta-se que outrora
Que contar
Era explicar...
… uma história.
Mas agora
Em que em nada há memória
Nem tem explicação,
É só mostrar o resultado
Numa foto de mel coado
De que se pode gostar... ou não!
Joaquim Maria Castanho
9.17.2021
É TARDE DEMAIS, de DEOLINDA MILHANO
É TARDE DEMAIS
Deolinda Milhano
(155 páginas)
Edições Colibri, 2012
Teresa migrou do campo para a cidade. Contudo, tinha um sonho. E ele, que é coisa que não pode ser coisificada, mas pela qual as principais coisas nascem, se desenvolvem e proliferam, sugere-lhe que deve regressar às origens campesinas para o realizar. Então retorna à casa dos progenitores – uma casa portuguesa, com certeza – falecidos já, para assim, não só recuperar as vivências de infância, mas também esse roteiro e ideário recheado de linguajares, amizades, peripécias, costumes e tradições, que forjaram o sal do espaço-quando em que eclodiu para a vida, para o romance, para a proficuidade criadora, onde as simples e raras intrigas germinam para se irem, pouco a pouco, do obscuro olvido libertando.
E quis fazê-lo em carne viva, isto é, na incomodidade de outrora, e apenas com os recursos domésticos de antanho, evitando recorrer às novidades da tecnologia que a modernidade disponibilizou, das avançadas TIC (Tecnologias da Informação e Comunicação) aos menos sofisticados eletrodomésticos. Sem telemóvel nem computador, sem TV nem máquina de escrever, que lhe facilitasse a tarefa de erigir da brancura do nada de uma resma de papel A4, uma montanha mágica de significados e significantes, mais ou menos enfileirados, coordenados, e de sentires alerta para a exata função de contar. De narrar. De expor, expondo-se, a fim que as suas amigas e amigos dessa narrativa pudessem desfrutar, ou melhor se pudessem aperceber de quem ela é e a faz mover, mostrando-lhes também quem foi e de onde veio.
E nessa viagem, feita em arredondado cursivo de professora primária, não só porque feminina mas também de costureira e bordadora, deixar transparecer os termos, os ditos, as modinhas, as modas, as aventuras no ribeiro, as paisagens, os saber-fazer, os sabores, as fauna e flora, a que assistiu enquanto usanças comuns à família, como das demais gentes que estiveram presentes durante o período da sua formação, não somente de personagem que amadurece paras as letras, como igualmente de pessoa, visto que entre Teresa e Deolinda Milhano há um paralelismo evidente, uma nítida convergência de identidades, transferindo-se a segunda para a primeira através da palavra escrita, numa transfusão de conteúdos, recordações, emoções, pensamentos, sentires e reações, anexas à preocupação literária, no discurso lírico, bucólico, bem como na postura social, e que assim proporcionam aquela plausibilidade tão imprescindível quanto necessária a todas as narrativas, sejam elas contos, novelas, romances, sagas ou simples memórias de viagem, mais ou menos ficcionadas. O que nos legitima para concluir, considerando que a autora, não obstante tenha publicado anteriormente diversos títulos (Cartas Amordaçadas, 2006 – Edições Colibri; Dicionário de Ditados (Provérbios) e Frases Feitas, 2008 – Edições Colibri; Portalegre em Momentos de Poesia, 2011 – Edições Colibri; Sentires da Alma, 2012 – Gráfica Guedelha e Alentejo em Poesia, 2012), é uma estreante nas lides romanescas, inicia com êxito a sua carreira de escritora e ficcionista, porquanto É TARDE DEMAIS nos indicia que nunca é demasiado tarde para realizar um sonho, uma vez que, à semelhança de Teresa, a narradora, também ela realizou o seu sonho – e ainda bem que o fez, possibilitando consequentemente a que todos e todas o observássemos de fio a pavio. Obrigado por isso!
9.04.2021
8.30.2021
JOAQUIM MARIA CASTANHO: livros
Meus amigos e minhas amigas,
Apraz-me informar-vos que os meus livros DADINHA DÁ UMA LIÇÃO AO LÁPIS VLUP-VLUP, O VALENTÃO DAS DÚZIAS, REDESENHAR A VOZ, NA MINHA CASA MORA UM GATO e A BOLSA DAS MARMITAS, também se encontram à venda na loja MILÉNIO GOLD, no segundo piso do Centro Comercial Fontedeira, em Portalegre.
Preços:
Dadinha Dá Uma Lição ao Lápis VLUP-Vlup, o Valentão das Dúzias 7.00€
Redesenhar a Voz 15.00€
Na Minha Casa Mora um Gato 6.00€
A Bolsa das Marmitas 10.00€
8.15.2021
AGITADA TEIA
AGITADA TEIA
Digo diferentemente a cada passo
Pra ser quanto sou em quanto faço,
Sinfonia aberta e alva de sons guturais
Sílabas grávidas, sem pecados mortais,
Nem compulsões que invertam os seres,
Que se afastam tão de si, como dos demais,
Pla vileza das ações, como dos dizeres…
S’o modo impera, torno-me maneira.
Se o grito dança, voltei até bonança,
Pondo na lembrança passado que escasseia.
Porém a infância, que era por brincadeira
Se regressa é regressão, que a voz ateia,
Aos flancos incendeia, põe em polvorosa
Numa agitada teia, de nós sem prosa!
Joaquim Maria Castanho
8.02.2021
7.25.2021
Gentes Que Marcam a Vida da Gente, de ROSA HONRADO CALADO
GENTES QUE MARCAM A VIDA DA GENTE
Rosa Honrado Calado
(138 páginas)
Edições Colibri
Lisboa, 29 de maio de 2021
Não fosse a autora deste livro, Rosa Honrado Calado, formada em História, com diversas obras já publicadas neste universo temático e disciplinar, nomeadamente coautora de manuais escolares (História e Geografia de Portugal), ou, mais recentemente, de coautoria com Francisco Santana em Ponte Vasco da Gama (1996), e autora de Aos 100 Anos, História do Grémio de Instrução Liberal de Campo de Ourique (2010), facilmente estaríamos inclinados para classificar Gentes Que Marcam a Vida da Gente, como mais um künstlerroman – palavra alemã que significa “romance do artista” e se reporta a um tipo de narrativa que nos dá conta da vida e formação dum autor, ou autora, ou até duma personagem que se lhe assemelha desde a infância à maturidade –, ainda que na maioria destas obras se descreva a luta duma criança de temperamento artístico e delicado para se libertar da incompreensão da família, como das demais crianças de sua geração, e aqui se reflita antes a sua sensibilidade humanitária, consciência cívica e indignação pela injustiça social vigente nos últimos 20 anos do regime ditatorial salazarista/marcelista, incidente sobretudo no Baixo Alentejo, mas com especial relevo em Ferreira do Alentejo, onde o núcleo familiar se concentrava levando a bom porto o negócio da família: a Nova Pensão, estabelecimento de porta aberta inaugurado por seus avós paternos.
Todavia, seria quase indecoroso classificá-lo assim. E porquê? Porque Gentes Que Marcam a Vida da Gente, é uma memória pessoal mas também um documento histórico, elaborados com o aprimorado cuidado de quem cresceu a par do evoluir da sociedade e ambiente provinciano, que, pela frugalidade de meios, se manifestava deveras importante para a vida das pessoas que lhe estavam adstritas. E também porque esse crescer se podia identificar com outros cresceres noutras vilas alentejanas, das quais me estou a lembrar, por ter assistido a ele, por exemplo, de Alter do Chão, onde nem a Pensão Nova faltaria. Digamos que naquele tempo se crescia tal e qual em todas as vilas alentejanas, e o que marcava realmente a diferença eram as particularidades pessoais de algumas “gentes” que aí viviam. E Rosa Honrado Calado, filha única duma família que tinha rompido a pulso sobre a insuficiência geral, cujos pais, tios, tias, primas e primos, já marcavam a diferença, porque já iniciados politicamente, e com sensibilidade suficiente para interpretarem o status quo não como resultado da imutabilidade e determinação do destino, mas sim como reflexo duma ordem social construída e legislada, com vista a beneficiar a classe social que a edificara e cultivava com recurso à polícia, à política salarial e condições de trabalho, à propaganda e a um aparelho de Estado repressor e arbitrário, assistido por uma religiosidade pré-luterana, senão medieval, foi, grosso modo, uma privilegiada que não perdeu rumo por emburguesamento lisboeta, nem o vínculo às suas origens, e que ao invés o reforçou, quer pela formação conseguida, como pela participação e desempenho em todas as causas que abraçou, entre as quais se pode salientar o ser membro da Direção da Casa do Alentejo, situada na nossa capital, ou diretora executiva da Revista Alentejo, dá delas como de si, um testemunho que nos enobrece.
O que, diga-se a propósito, é um motivo mais que suficiente para atentar na sua leitura.
Joaquim Maria Castanho
7.17.2021
ESQUECE, de Margarida Paredes
ESQUECE
Escrever o Colonialismo em Angola
MARGARIDA PAREDES
Prefácio Inocêncio Mata
128 páginas
Edições Colibri
Lisboa, maio de 2021
A literatura é ficção. Logo, nunca retrata a realidade. Nem a atualidade. E a vida. Antes as usa, as utiliza, de forma mais ou menos realista. Portanto ESQUECE, que é um livro escrito com uma bolsa de criação literária da Direção Geral dos Arquivos e das Bibliotecas do Ministério da Cultura, que a autora recebeu no concurso nacional de 2018, tal como é afirmado na contracapa, “é uma obra ficcionada sobre a colonização portuguesa em Angola”.
Nessa perspetiva, em que espelha memórias e registos, experiências e malhas que o império teceu, o processo de colonização/descolonização é humanizado e concentrado na biografia de uma negrinha de criação, desde a sua atormentada infância, até à sua emancipação definitiva, em resultado dos diversos movimentos/estádios de libertação e amadurecimento que atravessou. Com raízes fundamentadas no sistema colonial português, Uíja, que assim foi batizada em homenagem à sua terra, cedo aprendeu que viver é escolher – e nem todas as escolhas são fáceis. Quer dizer, nunca são fáceis.
Todavia vingou. Aproveitou cada oportunidade que se lhe ofereceu para estudar. A escola, a formação, a geração, o exército de libertação, o contato com a sua gente, como com os outros, obtiveram relevo importante no seu currículo geral, autenticando-lhe a cidadania que os colonos tentaram amputar-lhe, logo que a recolheram para fazer companhia ao menino branco – Carlitos.
Negrinha de criação do Rei da Fuba e do Peixe Seco era, à partida, um estigma, um handicap de peso que havia de carregar vida fora. Estatuto que lhe reservava um papel na sociedade que nada de bom tinha para lhe oferecer, além do convívio com um estrato social superior na hierarquia do sistema. Porém, ela, a desenraizada crónica, queria conquistar o seu lugar no mundo, e agiu em conformidade. Iniciada pela violência, conheceu-lhe todos os aspetos e vertentes. A da guerra, da economia, da religiosidade, do trabalho, da educação, da família, da aculturação, da sexualidade. E a da memória, porque o passado nunca morre, fica debaixo da pele, qual velho e esquizofrénico passado a emergir da cultura com águas muito turvas. Mas “quando um criança corre, a areia salta e o capim abana”(pág. 16).
Aprendeu a ler, reparou que “sofrimento é a palavra com que os sobreviventes escrevem todos os discursos” (pág. 28), aderiu às células clandestinas do GETRA – Grupo de Estudantes Trabalhadores Angolanos, que lutava contra a grande noite do regime colonial –, embrenhou-se nas selvas narrativas de Proust (Em Busca do Tempo Perdido), Lawrence Durrell (O Quarteto de Alexandria), Boris Vian (A Espuma dos Dias), Jack Kerouac (Pela Estrada Fora), e ouviu Led Zeplin, Deep Purple, Black Sabbath, em parceria com os demais habitantes do nevoeiro dos cacimbados, consumidores dos capins sagrados, mas não se deixou consumir que quem foi criado por cobra aprende a morder. Até que um dia a Dipanda aconteceu, e reconheceu finalmente que “ver uma coisa não é o mesmo que ver outra” por quanto a descolonização não começara após o 25 de abril, como os coloniais referiam, mas sim o resultado de um processo histórico iniciado em 1961, quando os colonizados pegaram em armas reivindicando o fim da ocupação. Principalmente porque por mais adiantada que seja qualquer democracia, nenhum sistema nos dá nada de mão beijada.
Enfim, uma leitura agradável e altamente nutritiva para qualquer espírito que conserva ativo esse mínimo de curiosidade que diferencia quem é humano de quem apenas pertence à espécie humana.
Joaquim Maria Castanho
7.10.2021
JOÃO DE MANCELOS, Nunca Digas Adeus ao Verão
NUNCA DIGAS ADEUS AO VERÃO
João de Mancelos
Edições Colibri
Lisboa, março de 2021
A literatura é uma arte esquiva. Ela nunca reproduz a realidade. Quanto muito, utiliza-a. Usa-a em proveito da poesia, do teatro, do romance, da saga, da epopeia, da novela, do conto, da crónica e da shortstory, sob os mais diversos aspetos e suportes, motivações e estilos. Algumas delas, como as crónicas/conto de Nunca Digas Adeus ao Verão, de João de Mancelos, são tão compactas, que raiam o guião de casos, de situações, que os leitores e leitoras podem observar com considerável distanciamento. E é ele – esse afastamento objetivo – que nos faculta apreciar a palavra elaborada, a cadeia de filigranas (frases curtas), a intrincada teia de significantes e significados através dos quais são geradas. Edificadas. E expostas.
Às vezes o discurso aproxima-se tanto da técnica cinematográfica que as elipses contribuem a olhos vistos para os desfechos inesperados, surpreendentes, a rasar tanto Hitchcock como Edgar Allan Poe, mas sem que tenham sidos pronunciados; outras, fazem-nos lembrar Raymond Carver ou psicologismo de Patricia Highsmith, Ray Bradbury ou Arthur C. Clarke, mostrando todas as cartas em jogo a quem lê, ocultando-as contudo dos jogadores em ação (as personagens vítimas do enredo ou intriga), a quem baralham propositadamente mostrando as secundárias por trunfos e vice-versa, até chegarmos ao ponto de lhes gritar (avisando-as) meio aflitos «Parva, não faças isso, que vais dar-te mal». E isto são as linhas com que se coze, confeciona, o novo neorrealismo.
Este novo neorrealismo que, já dissidente do realismo mágico, tem memórias e perceções seletivas próprias, bem como um fundo sonoro intrínseco, cuja intenção primeira subjacente à elaborada gestão do discurso literário é criar nos leitores, e nas leitoras, emoções e sensações, vivas e pujantes, sem nunca argumentar e concluir, a favor ou contra seja do que for, limitando-se a mostrar, a descrever, através duma imagética e duma narrativa tão nitidamente pictóricas, sugestivas, que inspiram e refletem uma frieza objetiva que nos não atrevemos a contestar, tipo “se ele diz que foi assim, é porque foi”, caraterística da reportagem, mas também da experiência didático-pedagógica.
Ou seja, os dados estão tão claros e evidentes, observáveis e tão bem alinhados, enquanto pressupostos do discurso ficcional, que ficamos a torcer pelo autor para que funcionem na perfeição, e enxerguemos não só o que ele mostrou mas principalmente o que ele quis que sentíssemos, que víssemos. Enfim, o que pretendeu mostrar-nos, numa cumplicidade envolvente.
E sem perdermos muito tempo, uma vez que o livro não tem mais que 88 páginas, e treze histórias, numa média de quatro, cinco páginas por história, economizando quer no recurso, como no discurso e na narrativa. O que, para os tempos que correm, é uma mais-valia significativa.
Joaquim Maria Castanho
7.08.2021
BRISAS QUENTES, de Ana Landeiro
BRISAS QUENTES
Ana Landeiro
(poesia)
15,5 x 23 cm, capa mole, a cores, plasticizada
103 páginas
A poesia, além de uma ancestral e exímia técnica (arte) de codificar e descodificar mensagens, originariamente orais e somente acessíveis aos por ela e nela iniciados, é também um exercício de sensibilidade e sensibilidades. E BRISAS QUENTES é um livro de poesia que cheira a azul e dunas douradas – ou salgadas –, de expressão (lírica) intimista, com a sensualidade à flor da estrofe (livre), pejada de palavras inventadas (para podermos amar), compostas por letras, fonemas, noemas, sílabas e imagens sem qualquer pretensão, mas que não couberam na tinta dos beijos da solidão, pondo o diabo a tremer (diante de tanta tentação).
É um exemplo pertinente, e comprovativo, de como as metáforas no prendem às litanias do evoluir para aportarmos à magia dos sentidos, das emoções, dos sentimentos, dos afetos, transportando-nos, assim, para essoutro universo, onde o mel brota das pregas do verso. De rápida leitura, contudo enriquecedora, exige porém uma releitura mais apurada e pausada em alguns poemas, para os podermos usufruir na plenitude que inspiram e contemplam.
Portanto, minha prezada amiga Ana Landeiro Ferreira, agradeço-lhe encarecidamente a permuta pela qual mo facultou, e aqui lhe rendo a devida homenagem, desejando-lhe não só sucesso e sorte na sua disseminação, mas também inúmeras leituras e feedbacks de apreço. Porque os merece.
Joaquim Maria Castanho
6.25.2021
Herdeira de Colombo na Ilha Dourada
Acerca deste livro, como de seu autor, afirma (no Prefácio: Nostalgia do Futuro) Casimiro Santos, Professor de História, que “miscigenando a ficção e a etnografia comparada a cada passo, Gabriel Raimundo coloca as suas verosímeis personagens, num quadro utópico sonhado na base da vida real, apontando um futuro em que, parafraseando o Agostinho da Silva, a utopia deixará de o ser para se tornar realidade.
Estas personagens vão-se revelando ao leitor, movimentando-se numa tela de grande reportagem etno-jornalística em que o realismo fantástico assoma a cada passo, ancorado na vida. São personagens de grande riqueza humana, que de riqueza material, quase todos pertencem ao povo trabalhador e muitos comeram o pão que o diabo amassou nesses tempos da travessia náufraga de 48 anos e noutras travessias ainda mais recuadas no tempo.
Mas, para a festa também há espaço. Assume um tom pitoresco a roçar o humorístico numa linguagem descritiva aquiliniana, do século que vivemos, traçando pinceladas que nos fazem sentir no cenário portossantense ou beirão e derramando na nossa imaginação o tinto de Porto Santo de 18 graus que não deixa amargos de boca no dia seguinte, mas uma sensação de plenitude dionisíaca de paraíso. Nestes trechos quase poderíamos dizer que Gabriel Raimundo assume um hedonismo popular na sua escrita.
Repassa nesta escrita um frémito de nostalgia do futuro; este será construído com os melhores materiais do passado, os valores da solidariedade, a alegria da convivialidade, sem falsidades, com a garantia de um desenvolvimento, ecológica e humanamente equilibrado.
Casegas, julho de 2006”
Também creio que sim. Desde sempre que os futuros só tornaram presentes, e mais tarde passados, graças a essa reciclagem qualitativa dos valores e da sustentabilidade. Mas convenhamos que está difícil acreditar nisso às primeiras impressões… Uma das coisas que não foram previstas foi esta chaga pandémica atual. Nem Colombo que teve vistas largas, a ponto de ver índios no continente americano, o conseguiria prever. Todavia, algo importa salientar desse movimento caraterístico do tempo nos tempos: é que muitos dos registos utópicos que o passado conheceu, são agora documentos genuínos de como os homens e mulheres de épocas imediatamente anteriores à nossa se viram a si mesmos e a si mesmas, a demais gente, seus sonhos, labutas, lugares e tradições. O que indubitavelmente é uma mais-valia que à presente obra não se pode negar.
HERDEIRA DE COLOMBO NA ILHA DOURADA
Gabriel Raimundo
Arguim Editora Regionalista (Madeira)
1ª Edição, setembro de 2006
6.24.2021
ELINA GUIMARÃES: Uma Feminista Portuguesa, Vida e Obra (1904/1991)
A atenção aos demais não é favor que lhe fazemos: é uma obrigação que lhe devemos. Quem lê sabe isso desde os primeiros livrinhos de estórias. Na pior das hipóteses, ou porque leram distraídos e sem a concentração suficiente, se não o registou na memória com as primeiras narrativas, memorizo-o com as segundas. Se não o fez também nessas, é porque é mais um leitor ou leitora rã. Quer dizer, mergulha [no oceano do texto e da leitura] mas não se molha, pois a sua carapaça caraterial não deixa repassar nada. E são dignos de dó, dignas de compaixão…
Portanto, para as pessoas que não têm medo de molhar as asinhas da ingenuidade, proponho uma visitinha ao interior do livro ELINA GUIMARÃES: Uma Feminista Portuguesa, vida e obra (1904\1991); para as restantes, não proponho absolutamente nada, que “quem morre porque quer, não se lhe reza por alma”, como costuma dizer o nosso povo, considerando que se às vezes é rude e áspero, é por saber que lhe andam a querer fazer o ninho detrás da orelha com espíritos santos mal benzidos.
Livro, e personalidade, a propósito da qual Madalena Barbosa, no Prefácio em boa hora afirmou “Com as devidas ressalvas, tal como Sofia de Mello Breyner escreveu no seu poema Catarina Eufémia, são estas as mais belas palavras para uma mulher que soube fazer frente:
O primeiro tema da reflexão grega é a justiça
E eu penso que nesse instante em que ficaste exposta
Estavas grávida porém não recuaste
Porque a tua lição é esta: fazer frente
Pois não deste homem por ti
E não ficaste em casa a cozinhar intrigas
Segundo o antiquíssimo método oblíquo das mulheres
E não usaste de manobra ou de calúnia
E não serviste apenas para chorar os mortos
Tinha chegado o temporal
Em que era preciso que alguém não recuasse
E a terra bebeu um sangue duas vezes puro
Porque eras a mulher e não somente a fêmea
Eras a inocência frontal que não recua
Antígona poisou a sua mão sobre o teu ombro
no instante em que morreste
E a busca da justiça continua
Lutou com armas que sempre serão eficazes, o pensamento e a escrita, e por isso lhe rendemos homenagem e queremos perpetuar a sua memória.”
La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos
Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu
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- Escribalistas é órgão de comunicação oficial de Joaquim Maria Castanho, mentor do escribalismo português


















