4.23.2019

DA SANIDADE DOENTIA


  



DA SANIDADE DOENTIA

Consequência de alma travessa
Por tantos nós ter já da vida ganhado,
Ficou-m'a voz mais grossa e espessa
E com sotaque meio arrevesado
Digo umas coisas pra falar doutras
Como alguns poetas mortos imortais
Se liam odes aos manequins das montras
Editados, dia seguinte, nos jornais.

E isto agravou-se repentinamente
Aproximou-se da gripe hepática
Ou da azelhice tipo “pouca prática”
Caraterística dessa comum gente
Que parece sã mas está tão doente
Que só vê que quer – movendo-s'estática.

Joaquim Maria Castanho

4.19.2019

NUVEM APRAZÍVEL






            NUVEM APRAZÍVEL
A poesia é imprevista
Tal uma trovoada d'abril;
Pega a arte e o artista,
Surpreende poetas, aedos,
Afia nomes pelo esmeril,
Revela íntimos segredos
– Mesmo os escondidos de nós
Nas cavas profundezas da voz.

A poesia subverte os sons,
Os significados distantes
E os próximos; dá meios tons
Aos tons que entoara antes;
Mas, principalmente, é fugaz
E só por instantes nos apraz.

Joaquim Maria Castanho

4.17.2019

If I Stay - Today "Legendado"

OUTRA RECAÍDA

  



OUTRA RECAÍDA
Recaio,
Sempre recaio...

Depois de ter jurado
Nunca mais te pôr a vista em cima,
Eis que esfriado
Saio
E caio
Em fazer-te mais uma rima.

A poesia desceu à rua
Era já manhã cerrada,
Trazia manto cor de lua
Olhar de mulher desejada.
Plo andar era liberta
Dengosa flor, estrelada
Pétala, a boca, desperta
Pròs suspiros duma toada.


Fiquei sem jeito, portanto
Ao reconhecer que sou assim...
Basta sorrires, e logo o santo
Que era, foge pra longe de mim!

Joaquim Maria Castanho

4.13.2019

Peter Gabriel - In Your Eyes (Secret World Live)

A SAUDADE NUNCA ESPERA





A SAUDADE NUNCA ESPERA

Solícita e serena
A saudade se acerca...
E com subtileza terna
A meu coração aperta,
Espreme dor aquosa
Pra escrever dolorosa
Com tinta de ausência,
Esse espinho sem rosa
Ou luz sem transparência
Do amor, sem a amada;
Da áurea sem madrugada
Sombra que nasce do nada
Como se só fora palpitação,
Batida negra na escuridão
Solícita e serena
A saudade nunca espera:
Abre caminho plo coração
De quem ama e venera!

Joaquim Maria Castanho

4.12.2019

Led Zeppelin - Stairway To Heaven Legendado Tradução

POEMA (IN)PRÓPRIO






POEMA (IN)PRÓPRIO

A história regista
Porém, o amor, inventa
Para que nela exista
O algo que nos assenta
Como terno por medida
E haja de facto vida.

Mas não posso dizê-l'assim
Àquela que é a poesia,
Pois se olhou para mim
Fingiu que não me via...

Aí, a história inventa
Lume brando, chama lenta,
E o amor é só memória
Que repete se faz e cria
Nossa própria história.

Nesses dias sofro duro.
Amar não é pera doce:
É espécie de futuro
Que só nasceu do passado
Pra repeti-lo copiado...
Só que a cópia alterou-se!

Joaquim Maria Castanho

4.05.2019

A CAUSA (MOTIVADORA)


   



A CAUSA (MOTIVADORA)

Suave e doce ela desliza
Pela estrada do meu peito...
Então, meus olhos vão na brisa
Deixada lá plo seu jeito
Fragrância, sonho que não desiste
Nem traz vinco, não tem nervura
Mas antes o aroma qu'existe
Na flor com pétalas de ternura;
Talvez cinco, talvez dez, em suma
Tal mão se outra nela segura,
Pois dos dias é essa espuma
Que deles nasce e se aventura
Demasiado viva pra sonho ser
Mas tão pujante, que faz viver!

Joaquim Maria Castanho

4.04.2019

Tony Bennett - Smile Legendado Tradução (Trailer Joker Coringa)

DIAS ADVERSOS


   



DIAS ADVERSOS

Todos os dias
Há pequenos desencontros
Que são grandes desgraças.

Em alguns dias
Há esse encolher de ombros
Se espero mas não passas.

Todos os dias
Há desencontros tão fatais
Que até as sombras doem.

Em alguns dias
Sofro tanto com'os demais
Que desesperados sofrem.

Hoje estou assim...
Em alguns dias
Todos os dias são pra mim!

Joaquim Maria Castanho

4.03.2019

NO RECANTO DO DIA






NO RECANTO DO DIA

Alicerce comungável
Entre espias de bronze,
Ágil, vejo-te ao longe
Mas já levando contigo
Quanto de mim não digo...

Depois passas de largo
Voando sobre meu dia,
Que não é doce nem amargo
– Só recanto de poesia!


Joaquim Maria Castanho

4.02.2019

Enigma - Invisible Love - (Subtitulado en Español)

A IMACULADA PRONTIDÃO






IMACULADA PRONTIDÃO

Hei de rasgar a voz
Com notas de sofreguidão,
Que o amor somos nós
Ao soltar os pés do chão.

Consente o avelã de teu olhar
Sob meu suspiro imediato,
Teus lábios de líquen manso
Aflorando a palavra retrato;
As coxas em moldura singular
Enquadram desenho abstrato
Do desejo, aberto pomo a pulsar
Em cujo sonho eu me balanço,
Qu'é esse intransigente transe
A suma pose do poema amante
Se à boca do grito o rosto franze
E só por dentro o corpo salta adiante.

Hei de rasgar a dor
Com as unhas da solidão,
Que o poder do amor
Gera a imaculada prontidão.

Joaquim Maria Castanho

4.01.2019

A TÁBUA DE AJUIZAR






A TÁBUA DE AJUIZAR



Creio haver algo que me mantém
Tão deverasmente insatisfeito,
Que não sei onde nasce, d'onde vem
Se da mente ou se do peito...



Traz quase tudo pra ser pensar,
Porém sinto que é mais que isso:
Às vezes, leva-me ao verbo amar;
Outras, tão-só a perder o juízo
Como se ele fosse coisa tida
E não balança para ponderar
O que nos acontece na vida!


De medir o certo e o errado,
Suas amplitudes e cumprimento,
Onde o pecado é um bocado
Que escapou ao entendimento
De bem auscultar o interior
Olhando de fora, demorado
A discernir se acaso o amor
Tem alguma coisa d'ajuizado.


E dar, então, por concluído
Que o que se mede por humano,
Embora faça das veias um cano
Anda nas famílias diluído.


Joaquim Maria Castanho

CÉREBRO DO CORAÇÃO


   



O CÉREBRO DO CORAÇÃO


Entrelinha executável dum sonho
O sentido prático, já divisório
Afirma, contradiz, exige amanho
Pra qu'o sonhador dele seja meritório.

É espinha prosaica dessa angústia
Que fustiga, espicaça para a ação;
Vontade crispa-se célere e rústica
Sangue invade cérebro do coração.

O instante é de esperas recheado
E, se antes fugaz, fica ora pesado
Emitindo flashs de tão alta tensão
Que o sangue, iluminado, ao pulsar
Ribomba e ouve-se quase troar.

Joaquim Maria Castanho

3.28.2019

VISÃO BREVE VISÃO






VISÃO, BREVE VISÃO


Desceu mansa no seu andar de pomba
O olhar despido de esperança
Saltitando sobre cada lomba
Balançando os braços, os cabelos
Pelas costas – apetece descê-los
Com os lábios, em meiga dança...

Escorrer na sua sombra ao diluir-se
Como polpa desses pomos silvestres
Que são mais poderosos do que Atenas,
E ainda mais poderosos do que Circe!,
Por quem a luz do sol, e as açucenas
Pintam os prados com Vestais e Mestres.

Dão vida ao joio, e alma ao trigo;
Empurram brotos pra fora da haste,
Tal querem fazer meus olhos contigo
Se te vejo e passas... como passaste!

Joaquim Maria Castanho

3.27.2019

O TROPEIRO ALENTEJANO






TROPEIRO ALENTEJANO

Dobra-se sobre o dorso
O cavalo não esquece,
Que ido o mês de março
Ainda mais aquece...

Ambos rezam por água,
Montada e cavaleiro;
Sob a cela do ano inteiro
Cavalgando mesma mágoa.

Joaquim Maria Castanho

3.13.2019

O MISTER DO VENTO






O MISTER DO VENTO

Sopra o vento enquanto passas
E diz-me coisas tão invulgares,
Que até folhas ganham novas asas
Pra limparem o chão pra tu passares.

Outro tanto eu faria, se pudesse
Mas o vento pode tão mais que eu,
Que me aventaria ao chão se fizesse
Aquilo que acha ser mister só seu.

Joaquim Maria Castanho

GIZ CELESTIAL


   



GIZ CELESTE

Sempre plo azul inovado
O exemplo vem de cima,
Penteia-se com Xis imaculado
Escorrendo solfejos se sublima...

Tem o mesmo tom em qualquer lado.
Carrega a esperança da gente...
Porém, se espera fá-lo calado
Ainda que gize o céu, indiferente.

Joaquim Maria Castanho

3.07.2019

A PAIXÃO DOS VERSOS






A PAIXÃO DOS VERSOS

Pela incomparável luz
Dias de chuva são assim
Na pureza que os produz
Quais gotas de sonho em mim
Que sou atreito ao sentir
Este fremir dentro do peito
Que mal te vê, quer logo sair...

São cristais gota a gota
Que os ramos predem apenas;
Mas eis que o vento os solta
Para escreverem no chão
A paixão, dos versos, pelos poemas.

Joaquim Maria Castanho

A FOLHA IRREVERENTE






A FOLHA IRREVERENTE
Hoje, choveu um pouquinho
Mas já se levantou vento
A secar a água fria...
E, nas poças do caminho
Quando à beira delas
Em pedras toscas me sento,
As folhas parecem velas
A singrar no tédio do dia.

Então, soprou de repente
Uma rajada mais forte,
Que levou quantas havia
A perder tino e norte...

Porém uma, indiferente
Fincou-se na lama da sorte
E disse-lhes que ia!

Joaquim Maria Castanho

3.05.2019

O VOO DA VOZ






O VOO DA VOZ

Por sob esta luz me perdoo
Se sou quem grita à imensidão,
Pois por ela, e só por ela soou
A voz que escapou à solidão.

Nessa dança deveras milenar
Aonde a ilusão tropeçou,
A voz escolhe luz pra dançar...
Então se enleiam par a par
Até que a luz parece pairar
E a voz se atirou prò ar... – e voou! 
 
Joaquim Maria Castanho
Com foto de Elie Andrade

2.27.2019

INTIMIDADE






INTIMIDADE

O meu segredo, é transformação
Do ímpar em par, da noite em dia,
Do indivíduo em cidadão –
E da palavra em poesia.

Joaquim Maria Castanho

BORBOLOTEIO





BORBOLOTEIO

Digo-me com o verbo na mão...
Reescrevo-te os lhos, faces
Na companhia dessa solidão
Onde se desenvolvem enlaces.

Tens a beleza simples e grata
Que nos dias ensolarados,
Deixa de ser só uma lagarta
Pra nascer em sonhos alados
De coloridos trajes a rigor,
Onde os corpos, por desejados
Volteiam nas asas do amor...

Então, dada por cumprida a missão
A sua vida pode expirar,
Que quem a lagartas deu atenção
Sempre sonhos tem a borboletear. 

Joaquim Maria Castanho

2.18.2019

O DESTINO DAS LAGARTAS






O DESTINO DAS LAGARTAS

Pré-borboletas em trânsito lagartas são
E seguem em fila pelas azinhagas,
Hão de voar qualquer dia, ou talvez não
À parte os encontros que venham a ter...

Se com naturezas funestas e aziagas
Não se lhe adivinha bom fim nem razão
Já que as vão matar ou somente comer!

Joaquim Maria Castanho

2.17.2019

AS FLORES DO BEM






AS FLORES DO BEM


Surgiram no quintal
Sem ninguém esperar
Click!!! – quatro flores
Que ao invés do mal
Na florest’às cores
Pareciam brincar
Só a ser felizes.
As duas pequenas
Ao colo das grandes
(Que seriam fadas
Pla certa), serenas
Já inventavam sons,
Assim concertadas,
Uns maus, outros bons,
Graves ou gritantes,
Imensos, petizes,
Com/sem deslizes
No modesto falar
Língua das flores
Da florest’às cores.


Não sei que diziam
Pela ecolalia…
Não fui iniciado
Com a melodia
Do entendimento,
Ond’elas faziam
O doutoramento.
Mas tenho olhado
Para tantas flores
Da florest’às cores,
Qu’é afiançado
Nesta sinfonia
O fazer dobrado
O que ninguém requer…
Plo que desconfio
Estavam a dizer
«Vivo do arrepio,
Faça o que fizer.»



Coisa de poetas
Que não me engana,
Chamado d’alertas
Pela sua cigana…
Qu’é isso que cantam
Pla melancolia
Na ecolalia
Que o sonho requer,
Quand’assim andam
Pla florest’às cores
Com seus amores
A brincar felizes…
Flores e petizes!

Joaquim Maria Castanho

A AUTORIA DA CULPA






A AUTORIA DA CULPA

Arrumaram-na a um canto
Como uma caixa vazia
De camisas, de sapatos
Como qualquer cartão inútil
No sótão da tarde fria.
Calaram-na, por enquanto
Arrumaram o seu canto.
E todos fomos cúmplices.
E todos somos suspeitos.
Mas só eu sou o culpado!

Joaquim Maria Castanho

BRISA ACROBÁTICA





BRISA ACROBÁTICA
Junto às muralhas gastas (a esfarelarem-se) a teenager faz o pino:
Os calcanhares encostados a pique na parede de pedra sulcada
E lhe desce tanto o vestido garrido coxas abaixo desmaiado
Até se lhe ancorar nos púbicos sovacos, a barra sobre a testa
Os cabelos diluindo-se na relva entrelinhada e mansa e fresca
Onde os gatos cabriolam de retouça com os corvos de Mármara.

Haverá mínimo crime em ousar o gesto num rompante acrobático?
Que mergulho cometeu seu corpo que tão-só rompeu o infinito
Azul violeta, turquesa doce invertida no mundo de cabeça pra baixo
Na sublime perversão dos sonhos escritos em futuro de ter sido?

Mas serena a língua te explora agora tentando recompor as vestes
Como se fosses desbravada ainda não as curvas descendentes ao verbo
Ainda os pés, os seios
O pescoço, o ventre
As coxas, a boca
A voz
O triângulo da intenção mátria
A serra, o monte-de-Vénus
A planície, a seiva
A ânsia cega de falar.

Serena a língua interpreta
Penetra e inquieta o corpo percorre
O teu país de gritar paixão
Navegar entre continentes incontida
A sombra que tece e invade e em chama analisa
A brisa explode contigo – sim, ela também!!

Joaquim Maria Castanho
Com Foto de Elie Andrade

2.13.2019

A ESTÉTICA - DISCURSO


 



DISCURSO SOBRE A ESTÉTICA


Os sonhos também sonham a gente...
E não é novidade nenhuma;
Sonham a frio e sonham a quente,
Em frescas sestas sobre caruma.
Às tardes, no areal à beira-mar
A ver o pôr do sol sobre as águas
Ou a gritar à lua, e a fintar
Ansiedades, medos e mágoas.


Os sonhos sonham isto e aquilo.
Cavalgam em cavalos-marinhos.
Têm arados puxados por esquilo.
Nas cabeças ocas fazem ninhos.


Os sonhos, sonham – é tão certeza
Que a dúvida, se nasce, morre
Logo, e em vista disto só discorre
Se o puder fazer sobre a beleza.


Joaquim Maria Castanho


BANHO DO PAR







PAR DE BANHO


Tenho que aprender o teu corpo
Para que tu também aprendas o meu
E a nossa alma deixe de ser um sopro
Numa teia em que ela própria se entreteceu,
E seja enfim a fusão de duas almas numa...


E seja grito de prazer, de sonho e de espuma!


Joaquim Maria Castanho




A MAIS LINDA DO MUNDO




O FADO DO LAR

Por amor duma caixeira
Sou um homem destroçado,
Pois ela foi a primeira
Por quem vivo em cuidado.


«Puxo coisa, meto o dedo,
Passo código digital;
Faço-o com tanto segredo
Que até ele acha normal.»


Ajudo prà reciclagem
Ando de sacola na mão,
Facilito na contagem
Pagando sempre em cartão.


«Abro o saco, meto-o dentro,
Dou desconto e destaco;
Ponho a barra no centro
Peso fruta apalpo o naco.»


Sou um bom homem já se vê
Passeio o cão, leio o jornal,
E não me meto em sarilhos;
Com o preço certo na TV
Eu dou a papa nos filhos.


«Dou-lhe instrução e carta,
Deixo-o empurrar carrinhos
Desse modelo virginal
Com qu’este povo acarta
Nossa alma plos caminhos.»

Quand’há bicha na caixa
Olho com viés profundo,
Pio a ver se se despacha
A mais linda do mundo.


«Peço prò laço em baixa
Aperto o nó num segundo,
E ind’assim ele me acha
A mais linda do mundo.»

A mais linda do mundo
A mais linda do mundo
A mais linda do mundo
A mais linda do mundo


Joaquim Maria Castanho

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

Arquivo do blogue

Acerca de mim

A minha foto
Escribalistas é órgão de comunicação oficial de Joaquim Maria Castanho, mentor do escribalismo português