1.22.2017

O CANDEEIRO BRUXULEANTE




CANDEEIRO BRUXULEANTE


Quase como quem adormece assim
Entre luzes de estação suburbana, 
Aquele que se desconhecia hesitou… 
E eu, que já aí desci ou subi, enfim
Fiz mil reparos à forma assaz insana
Com que ele se ajeitou entre jornais.

Se não sabia ler, com que direito, então
Recorria ele à imprensa vespertina? 

Há silêncios que apenas parecem ais.
Há ais que gritam genuína humilhação. 
Há humilhações que vão de esquina 
Em esquina, onde nada mais… ilumina! 

Joaquim Maria Castanho 

1.21.2017

O MEU CÉU É OUTRO CÉU




MEU CÉU, É OUTRO CÉU, PORTANTO 

Polvilham de estrelas teus gestos
Dizendo amainado, manso luar, 
Como se entre escolhos e restos
Fossem mais doces que o sonhar; 
E demais que agitados sejam
Encrespados pela expetativa, 
Serão guardiães, que sãos protejam 
A senda da vida com seiva viva. 

Polvilham teus gestos meu canto
Teus olhos, palavras, meiga rima, 
Que jamais o céu me dirá tanto
Se ver-te, é vê-lo, sem olhar pra cima… 
Que o céu é um além que nos ‘tá dentro
Tão ideal, tão real, tão perfeito, 
Que, caso o universo tenha centro,
Nasceu-lhe ele do Big-Bang do peito.

Meio assim, do puro sentimento
Com que este céu escreveu em mim,
Sempre e toda vida a espera sem fim
– O eclodir mágico num só momento! 

Joaquim Maria Castanho 

1.20.2017

OS VERSOS SECRETOS




OS VERSOS SECRETOS 

Há momentos, ápices fugazes
Que valem uma vida inteira, 
E mais que ela são capazes
De inventar a felicidade
Quer se queira, quer não queira. 

Não os direi, agora, aqui
Que quero guardá-los só pra mim
Nas profundezas da alma (secreta), 
Onde os tesouros são em carmim
Bordados d'avó plas mãos da neta. 

São versos tais, que jamais li
Escritos num idioma sem idade, 
Eras antes da Era em que nasci
Na serra em frente da cidade.

Joaquim Maria Castanho

1.19.2017

AMOR TOTAL - III




AMOR TOTAL - III 

Não há sonetos que te descrevam
Nem sílabas que te sejam fiéis, 
Que ancestrais deus observam
E zelam e capricham (empenhadas)
Prà beleza não andar nos papéis; 
Não há palavras para contar-te
Nem cores que imitem como és: 
Só Arina pode igualar-te
Só Inanna te chega aos pés
Só Xara(zade) sabe o teu nome. 
Nem és coisa-objeto prò desejo… 
Tens o olhar das odes estreladas, 
A voz com que o sonho me consome. 

És o amor total com que te vejo! 

Joaquim Maria Castanho 

1.18.2017

A REGRA DE OURO




A REGRA DE OURO

Tenho a distância num barco
Que te há de um dia trazer, 
Pois todo o sentido é parco
Para quem se quiser devolver.
E eu me devolvo envolvido
Já naquilo que pra ti serei: 
Remada com muito sentido
Em todos os sentidos da lei.

Joaquim Maria Castanho

1.17.2017

FATALIDADE




FATALIDADE 

"Aquele que me adorar está perdido"
(Inscrição da estatueta da deusa Vénus Ibérica)

Se sol brilha, é tua voz que me abraça… 

Sei que há esperança, e dela partilho. 
Sei que podemos escrever o destino, 
Inventar nosso trajeto, nosso trilho;
E que crescer é ganhar independência
(Perder os dependeres de menino). 
Mas de todos os vícios que apanhei
O de ti é o único que me não passa 
– Que és a cura por que me desgraço. 
E se à noite a mim mesmo afianço
Que hei de pôr cobro à dependência, 
Eis que novo dia nasce, e alcanço, 
A certeza pura de minha essência: 
Prefiro mil vezes viver em desgraça! 

Joaquim Maria Castanho

1.16.2017

AO LUAR MATINAL




LUAR DA MANHà

Se não fossem os velhos marretas
Hoje, fazia-te um lindo poema; 
Mas assim, pra evitar as petas
Não o faço... – O que é pena! 

Joaquim Maria Castanho

1.14.2017

ALGODÃO DOCE




ALGODÃO DOCE


Estou combalido?
Sim. Com o quê?
Com a sorte, que não me quer;
Com a vida, que não me pensa.
Como se a última, fosse mulher
Mãe da segunda
E avó da primeira – a ofensa.

É um encanto que arrelia,
Uma arrelia que não foge,
Como esse niquinho de lã
A voar no bico do hoje.

Joaquim Maria Castanho

PAGAR O PATO




ACERCA DO PAGAR O PATO


Dizem da verdade ser relativa,
Qualquer coisa de menor monta,
Pondo a ênfase superlativa
Em  «O ponto de vista é que conta!»

Não me faria dano, nem afronta
Se virasse regra imperativa
O que tamanho dislate aponta;
Contudo, se tomar parte ativa
Importa registar, meus amigos
E amigas, com voz grave e rouca,
Para que evitem maiores perigos
Não ser de somenos, nem coisa pouca
O facto de uns comerem os figos
Quando a outros arregoa a boca! 

Joaquim Maria Castanho

1.07.2017

MAL ME QUER, BEM ME QUER




BEM ME QUER, MAL ME QUER

Sufixo germinável, o ramo
O galho, esse em que pousaste
No último dia do velho ano
Quando – e por bem! – achaste
Ouvir o cante com que te chamo
Onde o vento, pelo caminho,
A varrer, cumprindo tradição, 
Escolheu como seu destino
Entrançar, raminho a raminho, 
Uma espécie de ninho
Para acolher o coração... 

Talvez o nosso, que é tão maior
Do que o órgão de cada qual, 
E por cujo compasso abre a flor
Pétalas em binário (digital). 

Joaquim Maria Castanho

1.04.2017

ALMA TRAIDORA


ALMA TRAIDORA

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017
17:22
Passas por mim como uma gota de sol
E trazes advérbios que esplendem,
Porém calado, no suspense, em bemol
Eis-me rendido e os olhos só dizem
Quanto te pertenço (unicamente).
Contudo, não me traem, pois nem notas
Já que ágil, ou lesta, te distancias
Cerzindo com determinação as rotas
Do afazer nas tardes dos teus dias…
 
Quero gritar, mas com a boca fechada
Para dizer-te que penso, e que sinto,
E de como tudo é ora diferente;
Então, nesse instante, alvoraçada
Esta alma que me pinta no que "pinto"
Deixa-me só na solidão da estrada…
Só pra seguir contigo à minha frente!
 
Joaquim Maria Castanho 

1.03.2017

ME ANINHO EM TEU NINHO




ME ANINHO EM TEU NINHO 

Só entre sombras sobramos
Apontamentos na margem difusa
Pétalas no capim dos tempos
Bredos pisados, bermas de várzea… 
Víssemos distância do breve ao perene
E soubéssemos o coaxar dos pauis… 
Se teus passos ecoassem nas veredas
Linhas de sangue, caudal sôfrego 
Intenção de ver-te em contínuo presente, 
Nenhuma história teria folhas caducas
E tua casa seria invisível para quem passa. 

O teu salto no vazio – o primeiro voo! 

Joaquim Maria Castanho    


O PÃO DOS AFETOS





O PÃO DOS AFETOS  

Saudade sem distância
Ou viagem sem partida, 
São vizinhos desta ânsia 
De quem sobe pla descida; 
De quem balança os braços
Ao lés a lés de si mesmo, 
E fica preso nos laços
Que armou neste torresmo
Pra caçar, na desventura,
Algum préstimo ou sorte, 
E cultivar com ternura 
O esquecimento da morte 
– Negra ceifeira do pão 
Feito com o joio da razão! 

Joaquim Maria Castanho   

12.28.2016

AS PESSOAS CONSOMEM-SE

  


AS PESSOAS CONSOMEM-SE
Adultas, infiéis, na espera
Do impossível, da idolatração
Como se pudessem apagar-se
Por cada novo dia, outra noite
Outra maneira de usar-se
De comunicar com a própria fera
A sua alma maldita, a razão
Perdida numa esperança que se afoite
Que se retempere em cada ilusão
De força de alerta, grito de dar-se
Permitir-se, e igualmente libertar-se
A soletrar promessas incumpridas...
De quem se esmera.

J Maria Castanho

12.24.2016

SORTEIO DE NATAL




SORTEIO DE NATAL 

Estimado cliente: 
Após repasto conveniente
E um grão na asa, 
Apraz-nos informá-lo
De que este ano, o galo…

Saiu à casa! 


O presidente do Conselho Executivo
Joaquim Maria Castanho

O presidente da Assembleia-Geral 
Joaquim Castanho

O presidente do Conselho Fiscal 
J. Maria Castanho 

12.20.2016

TRÊS HAIKUS SOBRE URUBUS




TRÊS HAIKUS COM URUBUS
  
1. 
E urubus avançam sobre a carniça
Mas, na derriça, 
Não a alcançam. 

2. 
Há urubus insanas
Que urubusam
Pela liça, como manas. 

3. 
Mais se diz sobre urubus
Só com um verso
Do que com três haikus!  

Joaquim Maria Castanho 

(Nota: 
HAIKU – género de poesia japonesa que emprega, geralmente, alusões e comparações. O haiku é formado por três versos sob um número total fixo de sílabas: dezassete ou dezanove.)

12.19.2016

PLAUSIBILIDADE




VERSÃO PLAUSÍVEL 

Sob as pálpebras
O poema perfeito, 
A sílaba divina; 
E, do mesmo jeito, 
Entre álgebras
O céu azul ensina
À nuvem o caminho, 
O vento peregrino… 

A cruzada é ímpar… 
Viés imperecível, 
Esquina ao destino 
– Mas concreto só o olhar
Entre tudo o mais: 
Versões especiais 
Do que é plausível. 

Joaquim Maria Castanho


GRATIDÃO





OBRIGADO 

Mereces cada sílaba deste poema
De reconhecimento, e de gratidão, 
Pela maneira aprazível e amena, 
Pelo jeitinho de fada, cujo condão
Faz magia, faz poesia pura, serena, 
Tão natural ou dentro da ocasião
Que o sonho plural nasce na dimensão 
Duma realidade que vale a pena… 
É esse mistério, pérola do segredo, 
Capaz de sepultar algum cemitério
Habitado pelos urubus do medo, 
Que tentam implantar o preconceito
E a segregação como razão social; 
Que fazem da ignorância um pleito
Para a estuporice do bem e do mal. 

Joaquim Maria Castanho

12.17.2016

O SEGREDO DO OCASO




O SEGREDO DO OCASO

A Deus Sol, no seu carro de luz
Venceu todas as nuvens que havia
E dourou o céu com seus raios, 
Magma de eternidade e poesia. 
Estacionou com calma e perfeição, 
Cruzou o espaço, gizou o destino
E ecoou no mais profundo de mim; 
Ditou mágicos encantos ao dia, 
Disse a vida sem princípio nem fim
Como plas notas dum salmo ou hino… 

– E deixei de ser meu como soía! 

Joaquim Maria Castanho 

12.13.2016

DIA 13 do 12, Lua Cheia





Há poemas que não se dizem... 
Há poemas que não se escrevem... 
Apenas existem!

Joaquim Maria Castanho 

12.12.2016

HOJE ENTREI EM ÓRBITA






HOJE ENTREI EM ÓRBITA 

Vou, ao arrepio do tempo 
(Cultivador de maturidade), 
Enquanto as folhas e vento 
Semeiam outonos na cidade, 
E pintam a amarelo-torrado
Esses outros rodapés plo chão 
Que esperam no Natal gelado
De caramelo cremado a nevão, 
Percorrendo passo após passo
Erguido acerca do que faço
(Botaréus e socalcos de ilusão, 
A espécie de véu e melaço
Que é a goma dos simples dias
Em que reverdecem as poesias, 
Senão todas, mas principalmente 
As que nascidas por encontrar-te 
Descendo a rua com tua amiga/
/Colega, são essência da arte
Presença e parte suficiente, 
Além de precisa), grão e espiga
Desse cereal, único âmbar 
Sentidos e sentimentos, unidos
Num só, sem o juízo, sem julgar
Que os tornaria empedernidos, 
Contrafeitos ou presumidos, 
Antes do ser na alma os acatar… 

Vou, dizia, passo após passo 
Sem pensar em que pensar, e então 
De repente ali, na minha frente, 
És traço, e és ponto, e és traço
De um morse que só o coração 
Ouve – e fico a girar no espaço. 

Joaquim Maria Castanho

12.11.2016

SINETE DE INANNA - II


O AMOR É UM SUPOR






O AMOR É UM SUPOR 

Respiro devagarinho
Para não quebrar o encanto
Que me apraz sentir, tanto, 
E desde que há pouquinho
Estive contigo a falar. 

Nenhum pensamento ousa
Diluir-te desta mente, 
Que tem por melhor coisa
Que já lhe aconteceu,
Este sentir que só sente 
Quem pressente já não ser seu
O sentir que o agora tem. 

Que se o bem vem ao pensar
O coração encontra calhar
Mal pense em bater por quem
Nos ficou no pensamento, 
Já que procurámos alguém
Até ao encontro causar,
Como se nesse momento
Só quiséssemos encontrar
Essa pessoa e mais ninguém. 

Que a procura é o ato
Cujo avesso tem as linhas
Que tateio como minhas
E me mostram se constato 
T’encontrar onde suponho: 
Bem juntinho nesta alma
Que nem supor arrumado
Por ti, com afeto, com calma
Onde perto, lado a lado
Ficam teus olhos e o sonho. 

Joaquim Maria Castanho

12.10.2016

SINETE DE INANNA




SINETE DE INANNA 

Tenho uma rosa formosa 
Cravada nos espinhos do dia, 
Em cujas pétalas a prosa
Traz aromas de poesia
Pelo gentil e meigo traço
Em tons de nácar e carmim,
Que os poemas que lhe faço
Vou guardá-los só pra mim.  

Joaquim Maria Castanho 

12.08.2016

NO DIA DE INANNA




NO DIA DE INANNA 

Como por magia surgiste
(Saíste do carro familiar), 
E o que era um dia triste
Virou sorte que não desiste
De surgir em qualquer lugar… 

O acaso tece e entretece
Nos pleitos configurações, 
Que o peito quase merece 
O proveito das ocasiões: 
Essência nascida dum nada 
– Duma ínfima centelha só –, 
Estrela a indicar estrada 
Que nos coloca na peugada
Da Grande Mãe, chamada avó. 
Da conceção também sabida
Na realeza dos pergaminhos, 
Pela natureza da vida 
Que é mãe de tod’os destinos. 

Joaquim Maria Castanho

12.07.2016

EM SI MESMO, NENHUM PRINCÍPIO É UM FIM




NENHUM PRINCÍPIO É UM FIM EM SI MESMO

Aos princípios se reservam enfins
Derradeiras razões, últimos apelos, 
Axiomas sem as asas dos querubins 
Mas que de Sansão herdaram os cabelos. 
São suma força dos mais destemidos. 
São poder oculto que ao milagre convém. 
São cunho pra moeda a câmbios idos. 
São segredos escondidos de ninguém. 
Todavia, contudo, porém, se adversos 
São um salvoconduto prà injustiça
Do pensar mágico em novos universos…
Qualquer coisa que somente atiça 
O autoconvencimento fundamental 
Ao serviço dos velhíssimos bem e mal.  

Joaquim Maria Castanho 

12.06.2016

DO SUBLIME BATALHÃO




DO SUBLIME BATALHÃO 

Prolongo teu olhar plo verso adentro
E deslizo o meu nos encaracolados, 
Pendentes cachos, enquanto enfrento
A saudade de ti; e os contristados 
Momentos transformados, como magia!, 
Ganham asas, quais cavalos alados 
À desfilada pla planície da poesia…  
És a inspiração total, Musa eleita
Magnânime Senhora, dona e Prefeita
Deste reino ond’as sílabas soldados 
São, e esgrimem rimas em seus combates. 
E elevam sentimentos por estandartes. 
Marcham a compasso e bater do coração. 

E nunca mentem. Nem cometem traição! 

Joaquim Maria Castanho

12.05.2016

MANOBRAS PERIGOSAS




MANOBRAS PERIGOSAS 

Se às vezes o canto se degrada
E o verso corrompe a medida, 
É por a poesia, se celebrada, 
Se desviar da própria estrada
Que determinou pra ser cumprida; 
E que por ser desvio, se desvia
Até das estabelecidas regras, 
Correndo nos caminhos que havia
Bem no meio dessas milhentas pedras
Que juntou, pra fazer os castelos
Onde sequer as nuvens alcançam 
Com palavras vis, defeitos tão belos, 
Imagens – operários sem martelos
Que em vez de martelar rimas, dançam! 

Joaquim Maria Castanho

12.04.2016

A FONTE DO SENTIR




A FONTE DO SENTIR 

Tão breve como se um microssegundo…
Tão imediato como só um repente… 
Tão valioso como todo o ouro do mundo…  
Tão intenso como um metal fulgente
Foi, e é esse instante contigo perto
Que, por certo, viveria assaz contente
Ainda que fosse num cruel deserto
Entre agruras mil, e sob mil tormentos… 
Que a felicidade nasce do sentir
Começado quando te vejo, assim 
Real, gesto e palavra, em ser, em devir
Como se o tempo nunca tivesse fim, 
E fosse unicamente esses momentos
Contigo, fonte de todos os sentimentos! 

Joaquim Maria Castanho 

12.03.2016

ÍNTIMO PREVENIR






ÍNTIMO PREVENIR 

Guardo os teus cabelos, teu olhar
Teu jeitinho mágico de ser e estar, 
No mais íntimo, e secreto, de mim, 
Pra recordar nos dias em que te não vir, 
Onde, por sentir tantas saudades tuas, 
Chego até a ter vontade de morrer
Só para me pararem de doer… 

Guardo egoísta, em segredo, enfim 
Teu rosto de flor, de pérola, de luas
Que escrevem a prata, a nácar e marfim
Hinos de sonho n’alma, pra não esquecer
Teus gestos, doce e sereno encanto, 
Pròs dias em que te não vir, e queira morrer
Só para pararem de doer, 
Parar esse doer que doi tanto
De que o pranto
É o único modo de o dizer. 

Guardo cada segundo de ti em mim, 
Como valesse mais que a vida toda,
Para quando te não vir, possa assim
Ter uma recordação, quase bênção,  
Que me salve do naufrágio, alta tensão
Da ânsia que me põe a cabeça à roda.  

Joaquim Maria Castanho

12.01.2016

LETRA Z




LETRA Z

Zoom desde os A B C D’s
Alcança o zénite, aqui
Onde os comos e os porquês 
Falam apenas do falar de si; 
Das quadras e oitavas rimas, 
Do desconserto do soneto, 
Dos afetos e pintar de climas
Que dos poemas são esqueleto. 
Do círculo redondo rosto
Pérola linda, nacar puro
Que ensina a rima e o gosto
Quando o sentir é seguro; 
Que o carinho é flor singela…
– Ninho que à família perla! 

Joaquim Maria Castanho

11.30.2016

LETRA Y




LETRA Y 

Yollanda caiu de banda, Ya-
Ya sabe que os cravos murcham
À lareira secam ao frio; 
Já não ordenam “EMPREGO JÁ!
Se desfolham quando marcham
Saltam das lapelas no estio
Entre havanos e mariscadas; 
E atravessam os oceanos
Pra ter as havaianas molhadas.
Nem swingam Yé-Yé no popó
(Caixa de fósforos andante), 
Porque ainda só querem, tão-só
Ser yuppies mais adiante… 


– Depois das Festas do Avante!   

Joaquim Maria Castanho

11.29.2016

LETRA X




LETRA X 

Xistos, ardósias, lousas, axiomas
Logística existencial pretérita
Que – oxalá! – deixem de ser sintomas
Da XPTO, cruel congénita 
Incógnita, variável fundamental 
Ampulheta, argila ou cromossoma
Da cultura e genética acidental… 

Porque sem fé crê a razão acreditar
Em Xara, de Xarazade, é tutora 
Excelsamente exímia e senhora 
Do narrar que ao conto soma pontos
Cruz, nas linhas cruzadas desse contar
Com a excelência pelos encontros
Onde o Xis ganha alma – e é lugar! 

Joaquim Maria Castanho  

11.28.2016

LETRA W




LETRA W

Watt iluminador deste mundo
Capaz de gerar 1 J por segundo
(Mesmo sem Andy Warhol publicista), 
Eis-se no pisca-pisca do instante 
– Flash que não melhora nossa vista, 
Nem sequer divulga o diletante –; 
É o pirilampo das noites sem lua… 

Não carece diesel, nem de alpista;
E não polui por qualquer combustão. 
Mas se o virmos a cintilar na rua
Reconhecemos logo qu’é artista, 
A bailar pela pista do negrume
Com tracejado digital de sim e não…   
– Mostrando a razão de ser vaga-lume! 

Joaquim Maria Castanho

11.27.2016

FUGA AO TEMPO PRÓPRIO




FUGA AO TEMPO PRÓPRIO 

Conserto desconcertado o ser 
Tentando converter a solidão 
Em palavras que queiram dizer 
Mais do que diz a ocasião. 
O ocaso além da pedra fria, 
Os sonhos que o sol consumiu
Nas cidades do dia a dia 
Onde a humanidade cria 
Tempo que ao tempo já fugiu! 

Joaquim Maria Castanho 

VERBO SEMPRE




VERBO SEMPRE

A felicidade é isso… 
Ver teus olhos todos dias, 
Observar o teu sorriso, 
Ouvir sublimes melodias
Dançar nas ondas dos cabelos
Onde o sonho se enleia
Entretece como em teia, 
Arrebata tão-só por vê-los… 

É uma queda que nos ergue
(Reparar sem que reparar!), 
Reparando qu’em Portalegre
Somos verbo sempre a conjugar. 

Joaquim Maria Castanho

11.26.2016

REVER-TE




Reencontrar-te é rever por escrito
As pétalas à esperança (sonhada), 
Presas plo nácar da tarde, flor perlada
Abrindo as portas do céu infinito
Onde as estrelas copiam teu nome,
Onde a feliz alegria me consome
Quando a vida regista a tua lei; 
Onde nasce tudo quanto sou e sei 
– O que há e não há, além do que acredito! 

Joaquim Maria Castanho 

11.25.2016

LETRA V




LETRA V 

Viver é ouvir o vaivém 
Nas veias, 
Sejam nossas, sejam alheias 
Viúvas, como sem vintém; 
Novas, velhas, vazias, cheias
Beatas, nobres, pobres, plebeias
Vitoriosas ou vadias
Vividas na vida dos dias, 
Como esvaídas e sem ninguém. 

É avivar a voz do vento
Com vitrais, uivos da vontade
Vorazes e virtuais, vidrados
Pelos vernizes da liberdade… 
– Varonis, vitais, condenados 
A virarem-se em movimento! 

Joaquim Maria Castanho  

11.24.2016

LETRA U




LETRA U 

Usura dura e única esta: 
Ultrapassar a tua ausência – 
Ustir último se já funesta 
Urdidura uiva urgência, 
Ultima lugar prà sepultura, 
Aquiesce em suma anuência, 
Aqueda em tumular cesura… 
Que quando é usual ustir
Sem amuar (cumprindo ajuste), 
Nem undíssono urde iludir 
Porque “quem quer uste, que lhe custe”,
Num muito sumário aprumo
De quem curte seu supremo rumo
Em nunca ocultar – nem desunir! 

Joaquim Maria Castanho 

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

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Escribalistas é órgão de comunicação oficial de Joaquim Maria Castanho, mentor do escribalismo português