4.09.2017

SEGAR (CONSEQUENTE) E SEGURO




SEGAR (CONSEQUENTE) E SEGURO

Atraso-me nas circunstâncias
Como um advérbio à deriva
E trago na mochila infâncias
Crestadas na teimosa porfia
Como de propósito cultivadas, 
Sem subterfúgios nem esquiva
Voz que das nuvens fez estradas
Tornadas ínfimas pelo meio-dia
– Entre o cativado e a cativa.

Não dou ao nó o que o aperto pede
Pois não há soluções apressadas, 
Que o que é feito à pressa cede
Mostra as costuras, sucumbe aos nadas; 
Agrava por alívio (precoce), 
Adultera qualquer objetividade, 
Apodrece antes de ganhar doçura, 
E tanto quebra como torce. 
Que sentir é tal e qual o sorriso
Esse mesmo, o teu, de que preciso
Se espontâneo, exato, natural
A escrever na alma o plural
Com tinta mágica e pura. 

Tinta que é tinta branca na brancura. 
Tinta que é tinta negra na negrura. 
Mas própria prà grafia de quem sente, 
De quem habita sonho consequente –
E até seca a própria secura. 
E até sega quanto procura. 

Joaquim Maria Castanho

4.08.2017

NA BIFURCAÇÃO DAS RAMAGENS




DA BIFURCAÇÃO DAS RAMAGENS

Cada árvore carrega a história
Que a memória da voz celebrou, 
Cujos brotos são nova vitória
Que a História por nós hasteou… 
Bandeiras desta vida sensória
Nós de emalhados tons e glória, 
Gerando gerações a germinar voo
Que é gerar que a si mesmo gerou. 
Que eclodiu na voz de sermos sós
Foz e rio igualmente nascido
À volta do ser pra ganhar sentido
Nessa navegação em cascas de noz
– Qual grito que se parte ao meio, 
Pra ficar sujeito, trama e enleio.

Joaquim Maria Castanho

4.07.2017

CAPITULAÇÃO




CAPITULAÇÃO 

Se chego te nomeio
E cego me entrego
Ao teu trago bem cheio, 
Que do sentido prego
Trago de nobre enleio…

E mago imagino
Que chego logo cego
Pra ficar de permeio
Entre este que trago
Nobre sentido cheio
E quanto tragueio 
Já do doce enleio… 

– E só a ele m'entrego!

Joaquim Maria Castanho

4.06.2017

MEU CREDO, MINHA LEI




MEU CREDO, MINHA LEI 

Dilui-se-me a alma já por pensar-te
Horizonte estendido pra lá do lá, 
Que a fonte é teu querer nesta arte
Onde me sou, se vida em nós está, 
E tu és a imperativa imensidão
De "sofreguir" os verbos dess'além-cá
Do corpo, órbitas da sorte e parte
Da fé n'A sol, infinito mel que há
Na serena luz, se desfaz a ilusão
Sem omitir o sonho do sim, nem do não… 
Porque a voz, se tua, é A lei minha
Crente num ente, de cuja vontade
É igualmente o nó dado, e a linha
Que aprende o pulsar da liberdade. 

Joaquim Maria Castanho

4.05.2017

CORAÇÃO BÁRBARO E SANDEU




CORAÇÃO BÁRBARO E SANDEU 

Meu coração inquieto
Esteve hoje tão perto do teu, 
Que me arde no fogo esperto
De consumir-se plebeu –
E cativo da suserana
Qu'emana do céu que me teceu. 

Esteve tão perto d'arder
Consumir-se nessa chama, 
Em que viver só é viver
Se inquietude de quem ama 
– Que bárbaro já não é meu
Mas sandeu que me reclama. 

Meu coração afogueado
Saltou bárbaro e sandeu, 
Apenas por ter estado
Hoje muito perto do teu; 
Que o siso me é queimado
No fogo em que ele ardeu
– Anseio, céu espelhado, 
Alma me deixou em chama, 
Inquieto o  coração plebeu
A consumir-se porque ama
Já a suserana que o teceu, 
Que sendo meu já só é teu.

Meu coração inquieto
De bravo no fogo esperto
A consumir-se me ardeu, 
É cativo porque já ama
Essa pura e viva chama
Qu'emana da suserana
Por quem é bárbaro e sandeu. 

Joaquim Maria Castanho

4.04.2017

DO PARDALITAR DOS PINTASSILGOS





DO PARDALITAR DOS PINTASSILGOS 

Conheço, dos pintassilgos um casal
Que parece que pardalitam como qualquer pardal… 
Namoriscam e constroem o ninho
Em seu vaivém regular, 
Nas árvores, à beira do caminho
Como se fossem prédios de andar
Sobre andar; 
Apartamentos para novos casais, 
Singelos e pequenotes, 
Que não deve haver verba pra mais. 

A brisa areja-lhes as janelas
E as ramadas laterais, 
Sem patins nem escadotes, 
Que quem voar entra nelas
Sem carecer doutras portelas, 
Frontispícios ou umbrais.

Ele canta – é um janota! 
Fadista da marcação cerrada… 
Ela, faz a obra, acarreta materiais, 
E tão-pouco se importa
Que o parceiro não faça nada. 
("Pelo menos, não atrapalha", 
Deve pensar, se calha…) 

Que suponho ser isso que faz
Ao andar dum lado prò outro
Quando nem uma palhinha traz, 
Embora tenha muito bom corpo
Para ajudar a companheira
A construir a morada
Para essa nova ninhada
De sua própria sementeira. 

Ele há casais curiosos! 
Sim, senhora… Essa é que é essa! 
Mas mesmo se se debicam (amorosos)
Não demonstram nenhuma pressa – 
Vão e vêm, vêm e vão, e, volta e meia
Se um estende linha o outro enleia, 
E dão-se um pouco mais de atenção… 
Quer dizer: coisa e tal… 
Como faria qualquer pardalita com seu pardal! 

Joaquim Maria Castanho

4.03.2017

MAS... MAS... MAS... MAS...




MAS… MAS… MAS… MAS… MAS…  

Mas já me dança a alma agora
Por uns olhos que não esqueço, 
Tão lindos, que até dói por fora
Não saber s'ainda os mereço, 
Que do quanto na vida tem
Ou me deu, já a eles ofereço
Tudo, e tanto dela houver bem
Só por eles imploro e peço… 
Não o perdão, que ninguém pecou; 
Não desculpas, que não as há já. 
Só voltar a vê-los, sentir o voo 
Do sonho, que por eles está. 

Me dança ora a alma noutro tom
Que nem sei s'errado, se certo;
Apenas que vê-los foi tão bom
Que quero vê-los mais perto. 

Joaquim Maria Castanho

4.02.2017

TOSSE DE INANNA




A TOSSE DE INANNA 

Quem foi a bela
Que tão belamente tossiu? 
E, porque sendo ela
Assim, tão bela
Ninguém mais a ouviu 
– Como eu ouvi?

E eis que a tosse se repete… 
De uma vez até sete. 
Então, de imediato a reconheci. 

– É Inanna –, digo aqui.  
E a tosse fugiu!

Joaquim Maria Castanho

3.31.2017

A MOTIVAÇÃO PRIMORDIAL




A MOTIVAÇÃO PRIMORDIAL 

Agora vi o quem em ti sei... 
Porque nos escolhemos? 
Porque te escolherei? 
Porque a vida nos escolheu? 

Porque, para quando perguntar
Aos filhos e filhas que tivermos
Quem tem a mãe mais linda mundo, 
Eles e elas respondam, sem hesitar
Sequer um segundo
Saltitando e com os dedinhos no ar
« Eu! » « Eu! » « Eu! » « Eu! » 

Joaquim Maria Castanho

3.10.2017

NUNCA SABEMOS TUDO




NUNCA SABEMOS O SUFICIENTE

Há muitos caminhos a percorrer,
Há muitos sinais que não sei.
Não posso magoar ninguém
Antes de chegar junto a ti. 
Se estamos perto de nós
Vemos como já não estamos sós… 

E se às vezes fico parado e mudo
É por ser aquele que não sabe tudo.

Joaquim Maria Castanho

AS TRÊS REGRAS BÁSICAS




AS 3 (TRÊS) REGRAS BÁSICAS DA SÃ CONVIVÊNCIA MATRIMONIAL

1ª - Ela é quem manda. 
2ª - O homem obedece. 
3ª - Em caso de dúvida, fraca lucidez ou esquecimento, prevalece sempre a 2ª (SEGUNDA) regra. 

Joaquim Maria Castanho. 

ISTO NÃO É UM POEMA

ISTO NÃO É UM POEMA

Naquela oliveira velha com rebentos  
Novos, junto à estrada da casa quatro, 
Ao passar, olhei para ela… 
Um par de pintassilgos acabara de pousar. 
Era quase capaz de jurar
Que havia ali alguém naquele par
Que nascera no ninho frente à minha janela
Naquela árvore quixotesca
E que tanta preocupação me deu
A primavera passada. 

Joaquim Maria Castanho

3.08.2017

O DESVINCAR DA SOMBRA




O DESVINCAR DA SOMBRA

É como se o vinco da linha se esbatesse… 
A ruga deslaçasse, o caminho voltasse, 
O destino dissesse que tudo acontece
Ao tornar-se laço, a criar alento e espaço
Onde nada se perde nem desfolha –
E a chuva subisse de quem molha… 
E nessa subida te repetisse, te acolhesse
De onde nada desce senão essa benesse
Que floresce em que a merece, só por sorrir. 
O sol é tanto, e os teus olhos a espelhá-lo
Devolvem-me o canto sem o encanto delir
Nem sentir já a mínima vontade de calá-lo.
E se o digo parecendo não o dizer a dizê-lo
É só porque sigo e prossigo sempre a vê-lo. 

Joaquim Maria Castanho

3.07.2017

DIA DA MULHER




DIA DA MULHER

Era bom celebrar o teu dia
Escutando só a tua voz… 
E saber que a poesia 
Era toda gente, incluindo nós.
Atravessar a estrada
Para entrar-te em casa, 
Será uma longa travessia; 
Porém, calculo a chegada
Pelas dez prò meio-dia. 

Nenhum momento tem pressa, 
Nem alguma espera sequer. 
Que só o querer atravessa
Até seu lugar de pertença
Se for também o teu querer.
Se for também o teu dizer.  

Joaquim Maria Castanho

O QUE IMPORTA ENTRE TUDO MAIS




MAIS NADA IMPORTA 

O peito nunca nos engana… 
Tu é que és a soberana
E eu sou teu vassalo; 
Mesmo que erres eu não vejo
– Se desejares, eu desejo –
E em tudo mais 
Apenas calo. 

Joaquim Maria Castanho

3.06.2017

_/|\_ QUE ASSIM SEJA _/|\_




_/|\_ QUE ASSIM SEJA _/|\_ 

As pessoas não são nenhuns pitéus… 
São seres dignos e respeitáveis. 
E ainda que haja recados nos céus
Desfraldando nuvens, agitando véus
Serão sempre íntegra lição de luz e bem
Que em águas puras e saudáveis, 
Cristalinas, o azul celeste é mar também,
E navegar é escrever a liberdade
Com a mesma tinta (seiva) que a vida tem.

Não há pessoas que sejam pra comer
Embora muitas o providenciem até, 
Cujas mãos de fada, cujo mister e saber, 
Cuja magia e encanto, com ou sem fé, 
Emprestam a quanto tocam esse vigor
Melódico e sublime das canções d'amor. 

Joaquim Maria Castanho
(in O Analista de Coreografias)

3.03.2017

CIDADE JARDIM




CIDADE JARDIM

Tenho uma fotografia da cidade
Onde me procuro frequentemente… 
Estava lá nesse dia
Mas não me vejo entre a gente. 

Terei entrado no rio? 
Terei ficado à margem? 
Enquanto escorre o frio
Espero a estiagem. 

Tenho uma fotografia da cidade
Onde me procuro cidadão… 
Mas, pra falar a verdade, 
Não me encontro lá, não. 

Terei esgotado o ser? 
Terei sumido na cor? 
Enquanto me procuro ver
Vou olhando de flor em flor. 

Joaquim Maria Castanho
(in O Analista de Coreografias)

3.02.2017

PLANAR NA SERENIDADE...






PLANAR NA SERENIDADE… 

A brisa respira o próprio dia
Trazendo consigo toda a magia
Que nem o divino ousa explicar,
E explica onde o brilhar ousou
Sentir esse sentido a respirar…

Então, de repente o tempo parou; 
Ficou sem depois nem antes, 
Apenas passagem… instantes
Que ecoam duma só maneira
E se repetem no repetindo
Pelo passo a passo, e subindo
Até à curva derradeira –
Pra voltar à imagem primeira…

O sol elucida, e algo ora flui,
Roda lá no cimo, une em sua eira,
Liga os voos somente num voo; 
E o que era ímpar, par se tornou
Como quem deserta do que fui.

Joaquim Maria Castanho

3.01.2017

LIMITE INTRÍNSECO




LIMITE INTRÍNSECO 

Deslizam nas horas tidos sentidos
Quase a tornarem-se sentimentos, 
Feitos da luz que nos momentos idos
Se fizeram no deveras de uma arte… 

Pra mim são o todo, mas se te encontram
Se dividem, e divergem, ou somam…
E jamais irão além do ser só parte!

Joaquim Maria Castanho

A CEVADA E O TRIGO




TRIGO É TRIGO, CEVADA É CEVADA

Aquilo que fazes ou fizeres
Sem dizer porque o fizeste
Não significa o que quiseres
Sequer tem significado algum, 
Além daquele que lhe deste: 
Ou seja, absolutamente nenhum! 

Num dia dão-te caixas prò vinho…
No outro "bonita" música te dão… 
Mas como isso não foi explicado
Por que motivos, por que razão
Tudo se terá perdido plo caminho, 
Tudo perdeu "o tal" significado
Pelo qual terá sido inventado…

Só quem é bobinho lhe liga,
Só quem tem mente celerada
Dá à palha o valor de espiga,
Julga o trigo como cevada. 

Joaquim Maria Castanho

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

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Escribalistas é órgão de comunicação oficial de Joaquim Maria Castanho, mentor do escribalismo português