7.03.2011

É Preciso Descaramento!

"Babando sobre sórdida tigela
subtil mercúrio, em pílulas tomado,
jura o dorido, pálido soldado,
nunca mais ver a cara à tal donzela.

Mas, como fados zombam de cautela,
com bom capote, à choupa conquistado,
sobre duas muletas encostado,
se pôs a assobiar à porta dela.

Tal, ajoelhado ao vencedor banqueiro,
com mil votos formais, mas sem virtude,
jurou a paz este infeliz parceiro.

Chegam as horas: resistir não pude;
e da porta a que fui vim de dinheiro
como o soldado veio de saúde."


Nicolau Tolentino, poeta e mestre meninos português do século XVIII

Nunca ninguém imaginou que para fazer tão pouco fosse preciso gastar tanto, mas o popular aforismo judaico-cristão (e semítico) de que com a saúde não se poupa, ou que nela todo o gasto é um investimento, foi levado a um exagero tal que ultrapassou os limites do caricato para entrar nos condomínios do deplorável. Não só porque nesse enredo envolve cada português com 917 €, que é montante que lhe cabe pelo calote que não cometeu, embora tenha permitido que outros o cometessem pelas escolhas que na urna sucessivamente fez, eleições atrás de eleições sempre nos mesmos alternantes do convénio, mas também porque o dito Serviço Nacional de Saúde (SNS) só parece ser bom para quem não precisa dele. E que o digam aqueles que foram fazer operações à vista e ficaram cegos ou, anteriormente, os que por causa de uma transfusão de sangue bateram as botas. Os que entraram num hospital com uma unha encravada e trouxeram de lá um vírus fatal. Os que foram lá medir a pressão arterial e tiveram que recorrer às farmácias para verem esse "ato clínico" consumado.
Daí que muitos se interroguem, não sem razão, sobre onde é que o SNS desbaratou a verba que lhe coube dos sucessivos Orçamentos de Estado (OE) mais o acumulado correspondente ao "buraco" aberto em dívida de 2,7 mil milhões de €, se nem para medir a pressão arterial a uma pessoa serve? Gostava de conhecer as estatísticas, números e natureza dos atos clínicos praticados que justificam tal calote... Quantos carros topo de gama compraram e quantas vivendas apalaçadas fizeram os seus profissionais de “giro”, técnicos ou administrativos? Então, a primeira tranche da ajuda da Troika (1,75 mil milhões) não chega para cobrir a dívida da saúde portuguesa e fica tudo por isso mesmo, sem convocar os responsáveis pelo desmando à barra das responsabilidades?
Eu sei que isto é um país onde até os polícias conduzem sem carta, durante meio século, sem nada lhes acontecer, senão deixarem de girar na rua... Mas é preciso muito descaramento para branquear o atual status quo só porque não se quer melindrar a vaca sagrada da feitiçaria e dos curandeiros da tribo onde, ao que parece, existem pelo menos 1428 profissionais sem a escolaridade obrigatória, todos dias se depara, em média, com 134 queixas formais (reclamações), e a maioria dos conselhos de administração hospitalar não cumpre a Lei do Orçamento de Estado mantendo-se impune e alegremente a auferir o chorudo vencimento e em funções quase vitalícias. É claro que não faltará quem há de apontar o dedo aos políticos deste ou daquele partido, no poder ou na oposição, fazendo deles o bode expiatório desse rol de crimes observáveis diariamente (e à vista desarmada). Porém, de uma coisa podemos estar certos: a Assembleia da República e os políticos portugueses têm culpa de muita coisa inconcebível e vergonhosa que acontece neste país, mas desta vez não foram eles que meteram o montante em causa no bolso. Foram outros, ajudados pelos funcionários benquistos às administrações e direções várias, com quem tropeçamos dia a dia ou sempre que nos dirigimos aos Centros de Saúde e Hospitais da portugalidade corporativista do nosso contentamento. Haja decoro e respeitinho pela inteligência dos cidadãos deste país. Tentar virar o bico ao prego é passar um atestado de desinteligência a cada utente do SNS. É dar-lhe o antídoto certeiro para o inspirar numa revolta cujos contornos e resultados podem sair do controlo mínimo e desejável, pois para quem já perdeu tudo, nada o pode fazer refém. Nem a esperança de uma saúde melhor!

7.01.2011

Precisa de Código!

Hoje fui ao Hospital Distrital de Portalegre – que suponho dar pelo pomposo nome José Maria Grande – para recolher o electroencefalograma que ali fizera dias atrás. Como a minha médica de família me passara uma guia de tratamento para medir a pressão arterial periodicamente e, ao tentar fazê-lo no Centro de Saúde bati com os burrinhos na lama – salvo seja! –, empenhei-me em cumprir aí o aconselhado, conforme indica o bom senso nos doentes que querem ajudar os médicos a ajuda-los. Pois bem: foi outro trinta e um!

Primeiro, mal perguntei às funcionárias do guichet de atendimento das Consultas Externas, foram unânimes e peremptórias: «Não é utente do Centro de Saúde? Então é lá!» (De lá viera eu corrido na quarta-feira, como devem estar lembrados…)

Depois perguntei onde podia levantar o ECC cujo talão de identificação e recolha exibi. «Isso é ali, à direita, peça à pessoa que estiver de serviço.» Não estava ninguém. Nem vivalma, à exceção de dois ou três “clientes” em inequívoca posição de espera. Finalmente filei uma enfermeira que passou e desabafei ao que ia… Foi atenciosa e expedita. «Claro que medimos a pressão arterial. Vá ali ao guichet e peça uma “guia” de tratamento, que eu faço isso.» Naïf como sou, crente, obstinado em acreditar que os serviços públicos servem para servir as pessoas, fui. «Não pode», rerespoderam-me lá. «Não se pode passar nenhuma "ordem" de serviço para medir a tensão arterial porque não temos código para fazê-lo, e sem código não se pode fazer. É preciso uma ordem lá de baixo.» (Lá de baixo devia ser da administração ou coisa no género…)

Fui chamar a enfermeira e confrontei-a com a nova informação que, afinal, era velha para mim. «Vê! Eu não lhe dizia?»

Foi uma pândega. Quatro ou cinco funcionárias num guichet de informações e marcações, mas como precisava de medir a pressão arterial nenhuma podia fazer nada, nem autorizar a enfermeira a fazê-lo. Passos Coelho a estas até devia retirar não metade do décimo terceiro mês, mas o ordenado de todos os meses que ali trabalham, uma vez que nem para providenciar um serviço, que até as farmácias, empresas particulares fornecem à borla, servem.

Não obstante, a profissional de enfermagem demonstrou que o diploma de curso não lhe saiu como brinde na Farinha Amparo, e fez a medição, anotando os valores na guia de tratamento que a minha médica de família passara. Fui servido e pude comprovar mais uma vez porque é que chegámos onde chegámos e a dívida da saúde é aquela que é.

Não percebem onde quero chegar? Acham que falta dizer alguma coisa mais? Então, se não perceberam à primeira o que estou a pensar mas não digo, é porque não estão também a usar o código certo. E o que é preciso é código! De conduta, de ética, por exemplo…

6.29.2011


Aqui Há Gato


Talvez tenha chegado a hora dos políticos começarem a pensar naquilo que dizem e fazem. Vivemos tempos difíceis – como disse o nosso presidente. Porém os funcionários públicos, sobretudo os da área da saúde, ainda os complicam e dificultam mais.
Hoje, e porque a minha médica de família me “receitou” a medição da pressão arterial uma vez por semana, dirigi-me ao Centro de Saúde a fim de cumprir o estipulado. Bastava medir a tensão e anotar os valores desta no documento para o efeito. Pois bem, qual não foi o meu espanto quando a funcionária de serviço me sentenciou que, para as ditas medições e porque a minha médica era aquela e não outra, isso só podia ser feito na segunda-feira.
Ora hoje é quarta-feira. Quando regressar à consulta, que justificação lhe darei por não ter cumprido o preceito aconselhado? Que os serviços de saúde não quiseram efetuar um serviço que ela estipulou dever ser efetuado havendo nas instalações pessoas e equipamentos disponíveis para o efeito?
É triste. Lamentável. E abjeto.
O Ministério da Saúde é um dos mais pesados e onerosos na arquitetura organizacional do Estado, nomeadamente nesta legislatura que agora começa. E tanto dinheiro, tamanha fatia orçamental, nem sequer dá para cumprir um preceito tão simples que até as farmácias fazem de borla? Farmácias que são empresas e que com os seus descontos, impostos e participações fiscais “engordam” o PIB? Aqui há gato!

6.28.2011


Das Estruturas Fundamentais


Pelo pensamento da pessoa se define a sua qualidade, conforme decreta a Bíblia que, embora sendo para muitos sagrada não deixa de ser maldita para outros tantos, e parte o mundo ao meio, o que não abona nada a seu favor, porquanto algo que se diz advogar o bem não pode criar o mal e desunir a humanidade nunca há de ser coisa lá muito boa. Mas é impossível edificar, construir, fazer uma democracia sem democratas, da mesma forma que sem ovos, naturais ou sintéticos que sejam, jamais se conseguirá confeccionar uma omeleta. O ambiente é o teatro, o palco, o suporte natural e modificado onde as economias e sociedades se objetivam e executam na sua mais convincente intercepção entre a biosfera, as políticas de desenvolvimento e a humanidade. Logo, é impossível não pressentir má índole ao pensamento que subjaz ao organograma governamental que junta no mesmo saco, quer dizer, sob a mesma tutela, território, agricultura, mar e ambiente, uma vez que a mais-valia deste ministério é o de atender à sustentabilidade ecológica através de estudos de impacto ambiental. E advogar em casa própria nunca deu bons resultados!
Dispor de uma Política Ambiental para corrigir as disfunções entre as atividades socioeconómicas e a ecosfera, não é um luxo que os países em vias desenvolvimento possam ter, mas uma exigência e inegável necessidade dos nossos tempos, sobretudo europeus e civilizados, onde se verifica uma continuada crise agravada pela escassez de recursos naturais, sobrepopulação dos litorais e desertificação interior, excesso de consumo e elevados padrões de desperdício, uso pouco racional da tecnologia, gestões viradas para a insustentabilidade sem objetivos de médio e longo prazo, comportamentos egoístas generalizados, alterações climáticas e desestruturação acelerada dos ecossistemas, consequência de uma exploração descomunal e arbitrária dos recursos de que se compõem.
Portanto, e porque nada disto é novo, e até já foi enunciado na Revista Progresso Social e Democracia, desde os primeiros números, o ambiente devia ter sido melhor acondicionado, junto à Cultura por exemplo, e sob tutela do primeiro-ministro, a fim de lhe salientar a importância na linha de preocupações governamentais, dando continuidade às preocupações tradicionais sociais-democratas que estiveram – quem se lembra de Pimenta? – na vanguarda do ambientalismo portucalense de pós 25 A. Sobretudo porque o ambiente também é cultura, é sociedade, é desenvolvimento e, principalmente, política e economia.

6.18.2011


Que saudades que eu já tenho do Ministério de antanho!


(Cantiga feita nos grandes campos de Roma)

Por estes campos sem fim,
onde a vista assi se estende,
que verei, triste de mim,
pois ver-vos se me defende?

Todos estes campos cheos
são de saudade e pesar,
que vem para me matar
debaixo de céus alheos.
Em terra estranha e no ar,
mal sem meo e mal sem fim,
dor que ninguém na entende
até quam longe se estende
o vosso poder em mim!

(Sá de Miranda, 1481-1558)

Aplaudo veementemente a decisão de Passos Coelho em extinguir o Ministério da Cultura, não só porque nunca fez nada de positivo e meritório de louvor sobre a cultura, como nunca passou de um elementar e básico sorvedouro dos dinheiros públicos que depois esbanjou a alimentar clientelismos, compadrios e propaganda (mal) encapotada. Finalmente os portugueses têm aquilo que merecem. E de nada lhes valerá virem depois rabiar e lamuriarem-se, que desde a campanha eleitoral que estavam avisados quanto ao destino da cultura na legislatura que se segue. Aliás, se não fossem o que são, brutos e ignorantes, incivilizados e cábulas, trambiqueiros e medíocres, incultos, falsos, maliciosos, déspotas, vingativos e iletrados nunca teriam votado no PSD. E votaram!
Todavia, preferia que esta pasta, a da cultura, estivesse mais perto da modernidade e do conhecimento do que do folclore e da propaganda. Vê-la adstrita ao ministério e sob tutela de Nuno Crato, onde convivem já – e muito bem! – a Educação, o Ensino Superior e a Ciência, seria um sintoma de reforma social além do da reforma administrativa anunciada com o atual organograma do Estado sob a alçada governativa. Ou será que a cultura não tem nada a ver com conhecimento, ensino superior e educação, e vice-versa? Ou será que na versa do vice a educação, ensino superior e ciência não têm nada a ver com a cultura? Há muito tempo que me tenho ando a lembrar, e sentir mesmo algumas saudades, de Roberto Carneiro... Pois, agudizam-se.
Há males que vêm por bem. A cultura portuguesa só é bem vista se for lamechas, maneirista e pacóvia, e vale mais não a termos nem quaisquer pretensões nesse campo ainda romano, por via jesuítica ou judaico-cristã, do que imaginarmos as potencialidades de um cluster nacional que nos catapultasse para a ribalta da atualidade, como sucedeu com a Itália desde a renascença, a França desde o iluminismo, a Inglaterra desde os Beatles ou o Brasil desde o Rio. Depois, que faríamos ao «que pensas, porco? Na lavadura» com que o artesanato e os naïfs gostam de classificar e definir a cultura? Já Sá de Miranda, quando fez a cantiga em epígrafe, encontrando-se em Roma, diante da extensa campina romana, deixou de ver a excelsa beleza da paisagem, porque lhe ficaram os olhos embargados e obscurecidos pela nostalgia do amor e da saudade.
Ora este obscurecimento da realidade e do mundo visível é muito próprio do lirismo português. E tendo eu sempre aqui vivido, salvo raros momentos de curta viagem, não será de estranhar a ninguém que sinta saudades do tempo em que a educação era igualmente cultura, pelo menos no condomínio, fechado ainda como impunham os assaltos e demais vilanagens da ralé sobre a coisa pública, e em que se supunha fazerem alguma vizinhança, embora com muita coscuvilhice e desmandos entre as comadres, sobretudo nos bailaricos joaninos ou na retouça dos desfiles... Não eram grande amigas, ao que consta. Nunca o foram, nem se espera que alguma vez o venham ser. Mas, enfim, pagavam a renda a meias!

6.14.2011


Palmatórias, cadeados e sepulturas, tudo coisas sem semelhança mas com relação direta na história dos povos…


De bolorentos livros rodeado,
Moro, Senhor, nesta fatal cadeira:
De quinze anos a voraz carreira
Me tem no mesmo posto sempre achado.

Longo tempo em pedir tenho gastado,
E gastarei talvez a vida inteira;
O ponto está em que quem pode queira,
Que tudo o mais é trabalhar errado.

Príncipe augusto, seja vossa a glória,
Fazei que este infeliz ache ventura,
Ajuntai mais um fato à vossa história;

Mas se inda aqui me segue a desventura,
Cedo ao meu fado e vou co'a palmatória
Cavar num canto da aula a sepultura.
(1782)
Nicolau Tolentino, poeta português do século XVIII.

[Nota: O autor, fora nomeado professor de Retórica, em Lisboa, em 1767, e ainda que não houvesse naquele tempo avaliações nem cortes por virtudes orçamentais derivadas da dívida e do défice, a vida docente também não era nada fácil. Este soneto foi dirigido ao príncipe D. José, herdeiro do trono, que faleceu prematuramente em Setembro de 1788. Era um espírito culto, inclinado aos poetas e filósofos. Foi grande amigo do duque de Lafões, que o instruía sobre o que se passava na Europa.]

Permitam que escreva por direito algumas palavras que entortam os sentidos adjacentes ao ser, como ao estar, que sendo essenciais ao viver, muito esforço temos contudo de fazer para que disso se lembrem os demais, ou nós nos venhamos pura e simplesmente a lembrar...
Eu sou do tempo em que nas escolas, se havia bibliotecas, todas tinham os livros em prateleiras (ou armários) com grades de arame grosso e fechadas a cadeado. E a primeira vez que me aventurei a entrar nessa dependência, excentricidade suspeita, segundo observei pela cara dos presentes, e num manifesto favor concedido pela contínua de piso, que sequer teria a terceira classe, escolaridade obrigatória do seu tempo, jurei para nunca mais. Mas era novo, e as juras desse tempo, valem para um dia ou dois se tanto, e se não voltei àquela frequentei então outras que ajudaram a esvanecer o trauma das iniciações dolorosas.
A escola em causa sofreu recentemente notórias melhorias e modernização, porém o sistema e a democracia é que não. Não há palmatória, é óbvio, mas os castigos continuam a ser os únicos meios didático-pedagógicos como reforçamento negativo. Como os aplicam, em que medida, quem o faz, isso é que ainda não está bem esclarecido. Consta que é no final da formação: os educandos querem entrar no mercado de trabalho e dizem-lhe para esperar que a crise passe. Como já estamos em crise desde 1383-85 ninguém duvida da força do determinismo e... desiste. Alguns arriscam e partem. Outros vão dormir prò Rossio e Restelo.
Entretanto, as medidas de contenção e ajustamento recomendadas pelo BCE/CE/FMI admoestam as soberanias, e alguns ministérios fundem-se com outros, havendo mesmo alguns que se evaporam num clique mágico para deslumbramento dos papagaios da “coorte” e do capitão da fragata onde o Tejo lhe ondeia os cascos. Podia ser grave e lamentável, mas “não no é”. Antes sim, conforme reiteram os diplomados pelas novas oportunidades, exemplo vivo e condigno de inovação e empreendedorismo. Vamos enfim descobrir o mar. E a pólvora prò fósforo!
Porque os caminhos dos senhores são infinitos…
Ora, se épocas houve em que os livros de bolorentos e empilhados se tornaram raros, e resistentes, na minha formação tornaram-se intocáveis para se não estragarem, sob o medo de lhes tocar que apenas era superado pelo medo de os ler, quais preciosidades fora do alcance dos brutos iletrados, crianças e alunos em geral, como igualmente (prisioneiros) intocáveis uns porque não seriam adequados à minha idade, outros muito avançados para o meu conhecimento, aqueloutros por os não merecer e ainda os demais por estarem vedados (proibidos) a toda gente por perniciosos e de malvada estirpe. Também “sofrem” agora do efeito gradeamento mas principalmente por estarem fora, fora das salas de aula, fora de uso, fora dos interesses medianos, fora de cuidados estatais, fora de moda, fora de casa, fora da atualidade e do conhecimento, fora de jeito e de lombadas viradas para a vida em geral, porquanto os seus autores em vez de a contemplarem nos seus conteúdos apenas puxam o brilho às doutrinas e às tradições do narcisismo serôdio no marketing personalista. No vira a leiva da fama, que o mesmo é que dizer, da vaidade ao quilo de papel.
Por conseguinte, dificilmente em Portugal haverá algo de novo a não ser alguma velharia recuperada dentro da lamechice do pão com manteiga usual no que à cultura diz respeito, uma vez que é sabida a apetência dos reizinhos do poder para amputarem a massa crítica da sociedade para melhor reinarem, coisa que melhor se faz em reino de cegos, como esclarece o ditado. Exceto, é claro, o cadeado nas estantes (gaiolas) que poderá passar a ser electrónico!

6.09.2011

As roturas no movimento da ruptura entre a esquerda e a direita a-radicais


Os democratas em segunda mão preparam-se para afundar ainda mais Portugal do que já está, podendo uns reivindicar os seus direitos, nomeadamente o de manifestação e o de greve, e os outros, depois de instituído o governo, o interesse nacional, mas todos sabemos bem que nenhum deles está a falar verdade, que o buraco é mais em baixo e chama-se insegurança, falta de soluções genuínas e sustentáveis, incontinência orçamental e dificuldade de comportar-se democraticamente sob a mira do BCE/CE/FMI.
Até porque a vida política portuguesa, ao contrário do que alguns iluminados "agentes políticos e politólogos" nos querem fazer crer, se estava sujeita aos ciclos "climáticos" do ora-mandas-tu, ora-mando-eu, ora-mandas-tu-mais-eu, tradicionalmente bailado entre o PS e o PSD, com o CDS à esquina a tocar a concertina, deixou definitivamente de o estar. Em ambos, as rupturas internas potenciaram clivagens insanáveis com a atribuição de cargos (agora seriamente comprometedora) ou alargamento da clientela subserviente, e o espectro das simpatias exteriores dilui-se pela falta de credibilidade gerada, principalmente, pelos inúmeros casos judiciários em que as suas maiores figuras se viram (ou estão) envolvidos. As alterações climáticas chegaram, portanto, à esfera da política pelos mesmos motivos que à ecosfera: por excesso de poluição e consequente aquecimento emocional.
No instante imediato a que José Sócrates (JS) se desceu do trem governamental, eis que Pedro Passos Coelho (PPC) iniciou a sua viagem no pouca-terra, pouca-terra, pouca-terra, do progresso adiado, da cidadania em stand by e da participação ainda a esfregar o olho do despertar que Garcia Pereira lhe facultou. E o ter PPC recrutado das hostes independentes Fernando Nobre, poder-lhe-á fazer sossegar durante o período inicial governativo aquela franja do eleitorado mais atreita à "voluntariosa cidadania das ONG", proporcionando alguma da ténue trégua que as mudanças encerram no vamos-a-ver-no-dá, mas será sempre uma aberta de pouco tempo, uma vez que muitos dos seus apoiantes discordaram da sua adesão ao PSD, havendo até quem a apelidasse de traição.
Como se não bastasse, os sectores da economia ameaçados pelas alterações dos mercados, a competição infrutífera com os países emergentes, a inadequada qualificação da mão-de-obra nacional e as dificuldades de financiamento, eis que a classe política se manifesta incapaz de renovar o seu discurso continuando a fazer das legislaturas uma espécie de jogo de futebol com estropiados genéricos mas equipados a rigor.
Portanto, pergunta-se: Será que Anibal Cavaco Silva, presidente da República Portuguesa, nos quer alertar para o facto de estar na hora de partir, coisa que os judeus deviam ter feito logo em 1932 da Alemanha, quando nos seus discursos anda a sublinhar a importância da diáspora? Será um aviso? Um sinal? Pelo sim, pelo não, acho que os órgãos de comunicação social portugueses deviam pôr-se de atalaia às movimentações da família do nosso presidente, para onde vão e por quanto tempo, pois há muita gente que tendo informações privilegiadas não se coíbe de usá-las na salvação dos consanguíneos... É que a língua pátria é muito traiçoeira, e a pronúncia entre rotura e ruptura nem sempre nos dá uma indicação clara do que foi afirmado. E, pelo que calculamos, se a segunda é má, a primeira é cem vezes pior!

6.07.2011


Profecias e Imitações

Conforme os resultados das últimas eleições legislativas, o círculo eleitoral de Portalegre, apresenta-se-me como um dos poucos em que a democracia se espelha nos números: não há vitórias claras nem derrotas esmagadoras para ninguém – exceto para os portugueses, na generalidade e em particular os nordeste-alentejanos, que vão continuar troikados até ao pescoço. Por conseguinte, eu também me demito. Regresso, pois, à honrosa condição de independente.

Fez a fina flor do entulho uma bulha de sete lições para nada, pois que continuam todos na mesma, à beira da rotura, bem entendido, mas de mangas arregaçadas prò negócio da coisa pública. As rádios noticiam, os jornais sublinham, o diz-que-disse do café não se evita de repetir que o «uma’ssim!» era esperado e conhecido desde o tempo em que a nacionalidade fora arrebatada pelos Filipes, que de Espanha nem bom vento, nem bom casamento. Pois bem: o vento do exemplo veio e nós imitámo-lo, e à boda não faltou nem ele, nem ela. Se havia dúvidas quanto ao ditado, nada nos demove que tinha fundamento com raízes de Bandarra. A profecia cumpriu-se.

Já há apostas quanto ao tempo que durará esta legislatura, uma vez que os cadernos eleitorais estão desconformes a quantidade de eleitores, podendo decrescer a percentagem não só das abstenções como dos partidos votados, nulos e brancos, assim como a legislação que põe todas as forças políticas em pé de igualdade apenas foi aplicada na última semana de campanha, sem qualquer consequência para os grandes partidos, únicos beneficiados com a “ilegalidade”, onde, curiosamente, até o partido que fez acionar os mecanismos legais, o PCT/MRPP, saiu lesado (em votos) da tentativa de democratização do plebiscito.

É óbvio, portanto, que alguém soprará nas cinzas da corrupção e abuso de poder pendentes sobre as cabeças que lideram a direita portuguesa e, à semelhança do que vai sendo dito em França a propósito do boss do FMI que foi apanhado com as calças na mão nos UEA, que todos sabiam as tendências do senhor embora as calassem por questões corporativistas e “patrióticas”, venham a trazer à baila processos antigos para enquadrar os novos, e então se exclamará que isso era do domínio público e expectável, de acordo com a biografia dos sujeitos. Todavia será serôdia a constatação porque o mal já está feito.

As recentes eleições podiam ter sido aproveitadas para varrer a casa, incluindo a parte debaixo dos tapetes. Não o foi e, pelo contrário, mais lixo foi escondido sob eles. Oxalá não venhamos a arrepender-nos pagando na carne e na alma os ímpetos da ousadia!

6.04.2011


Consciência ou Criancismo, Eis a Questão
(:Apontamentos à mesa do Alentejano)

As democracias não são todas tão democráticas quanto aparentemente se observa e nos querem fazer crer. Podemos mesmo dizer que há umas mais democráticas do que outras, à semelhança daquilo que G. Orwell disse a propósito dos animais da sua quinta explicada no book da sua faceta mais irónica e satírica, em galhofeira crítica a determinadas sociedades fundamentalistas: todas as democracias são iguais, mas há umas mais do que as outras. Isto é, depois dos modelos económico-sociais não devemos parar nas nossas conquistas e ir um pouquinho mais além, entrando no capítulo das qualidades – da qualidade de vida, do grau de prosperidade e bem-estar, do nível da participação e da cidadania, das expectativas de futuro e sustentabilidade, do aprofundamento das relações democráticas, da transparência, da igualdade de oportunidades, do combate à corrupção e ao tráfico de influências, do debate franco e aberto, enfim, num modelo democrático que contemple o contínuo exercício da alternância e diversidade na composição, bem como se cultive na prática da discussão profunda, que favoreça a intervenção activa de todos os cidadãos e de todas as diversas formas de organização e/ou movimentos que expressem a sua vida gregária, outorgando-lhe os correspondentes direitos e deveres de participação efectiva, e não simplesmente, constitucional como atualmente se manifesta.
Uma democracia que permita e exija um poder mais próximo, melhor partilhado, mais transparente e superiormente fiscalizado por todos, num quadro administrativo eficaz e descentralizado, em que os diferentes patamares da organização do Estado, desde as associações de bairro, freguesias, concelhos, regiões ao poder central e da União Europeia (UE) se entrelacem e interpenetrem como um todo que persegue o progresso, o desenvolvimento, a igualdade e a sustentabilidade.
Principalmente porque à organização do Estado e ao Planeamento económico não podem alhear-se todos quantos lhes sofrem a governância, uma vez que as grandes questões do presente e do futuro lhe dizem diretamente respeito, independentemente dos seus graus de responsabilidade, consciência cívica, emancipação e autonomia, ou da apetência voluntariosa e contributiva em que enquadrem, desde empregados a empresários, com inegável direito de decisão nos vetores da nacionalidade, sejam eles de ordem militar e do envolvimento do país em operações belicistas internas ou externas, no processo de construção da UE, nas questões de segurança e aduaneiras com países cujos limites nos são próximos e onde a classe operária se nos irmana.
Um tipo de democracia que assenta nos pressupostos da Sociedade da Informação e do Conhecimento, onde as TIC (Tecnologias da Informação e da Comunicação) facultam a tomada de consciência coletiva dos fatos e dos problemas nacionais e continentais, como globais, motivando cada um para as contingências(1) existenciais de cada outro e simultaneamente de todos, e torna a IV Internacional Socialista na plataforma de excelência na prossecução dos ideais e anseios de todos os trabalhadores da atualidade que se quer perpetuar num futuro definitivamente imorredoiro.
(1) Contingências – factos possíveis mas incertos; que podem acontecer ou não, cuja essencialidade não está determinada; eventualidades, condicionalismos de duvidosa estirpe e consequência; que têm natureza fortuita e ocasional.

6.03.2011


Os brancos, os amorfos e os “nem aí”

Quando uma geração é, ou está, de tal forma atrofiada que não consegue analisar com clareza aquilo que as anteriores fizeram e definir o que quer, tudo quanto lhe aconteça de menos propício é-lhe merecido. Principalmente quando é uma geração que tem formação superior na sua quase maioria. Será que nem para ler e discernir entre os projetos sustentáveis e os do venha nós o vosso reino lhes serve o canudo? Nem para reconhecer que existe alguma diferença entre o modelo democrático económico-social e o modelo democrático da participação e cidadania, e que essa se chama qualidade, evolução da democracia para uma etapa onde a qualidade se mistura com a sustentabilidade para propiciar qualidade de vida, igualdade entre iguais como entre diferentes, assegurar o futuro dos seus como do planeta? Não votar em nenhum ou votar naquele que o avô aconselha, pagando até para que o façam e abaniquem a bandeirinha em cima do Jeep ou trator da cooperativa é exatamente a mesmíssima coisa. Infelizmente, mas é. Entre aqueles que se calam e os que fazem tanto barulho que impedem de ouvir as propostas dos demais não há diferença nenhuma: todos querem destruir a democracia – e, seja por que motivo for, isso há de ser sempre um retrocesso para os povos que arriscaram libertar-se das tiranias/ditaduras do século passado.
Uma coisa é convencer pessoas de escolaridade medíocre que algo que ainda não experimentaram é bom ou mau; outra, a léguas de distância, é pressentir que pessoas com formação superior não saibam discernir entre propostas sustentáveis e balelas oportunistas de inspiração serôdia no caudal marxista como no liberal. Há diferenças, muitas e inegáveis, e quem sabe ler regista-as e pondera-as, compara-as; e quem desconhece o verbo, para esses tanto faz, pois nunca hão de ver umas nem outras. Tudo para elas só poderá ser martírio ou saudade, que, se sentida e real, também é martirizante.
Eu sei que há famílias que preferem prejudicar todos os seus semelhantes a beneficiar um dos seus membros; sei, e conheço muitas. Mas não podiam deixar de ser mais uma mafia desorganizada nestas eleições? Portugal agradecia!

5.26.2011



Debater para compreender; compreender para decidir; decidir para agir.


A democracia não é fácil. Pois não: se fosse fácil também não nos estaria reservada!
E em democracia, sempre que há eleições, todas as listas concorrentes partem para o escrutínio, sejam elas as dos partidos com assento na Assembleia da República, experiência governamental ou não, com os contadores a "zero", independentemente de quaisquer resultados que tenham obtido em anteriores eleições. Este princípio, o da igualdade, tem que ser garantido e observado por todas as estruturas administrativas e organizativas envolvidas no processo eleitoral, bem como por todos os órgãos de comunicação com responsabilidades sociais na campanha. A argumentação conforme os resultados anteriores e das origens históricas das forças políticas a concurso são da esfera da opinião e da argumentária, percepção motivada e da propaganda destas, e não deve ser contemplada nem atendida pelas instituições envolvidas no processo eleitoral sob risco de o inquinarem, porquanto estas instituições só serão democratas se se mantiverem equidistantes a todas e a cada uma das forças a escrutínio, mantendo perante elas a inequívoca imparcialidade e inconfundível neutralidade que as democracias aconselham e as Constituições determinam. Beneficiar ou prejudicar as forças políticas concorrentes tendo como justificação para tal a História recente ou remota delas, é fazer batota nas eleições, instituir a injustiça como meio de conduta e fomentar o descrédito na política, na democracia e nas instituições estruturantes e fundamentais das sociedades modernas que rumam ao desenvolvimento e progresso. Pelo que, obviamente, é uma conduta meritória do mais veemente repúdio por parte de todos os eleitores como de todas as listas que se propõem concorrer em eleições livres e democráticas – sem excepção, em qualquer regime, e se democráticas.
Caso contrário, e a propósito desta ordem de ideias, se poderá acrescentar que a democracia de nada vale se continuar a empregar a metodologia das ditaduras e demais não-democracias, incluindo, evidentemente, os absolutismos monárquicos e os marxismos totalitários com expressão duradoura nos últimos duzentos anos.
O POUS, no distrito de Portalegre, apresenta-se a estas eleições legislativas a fim de contribuir para a mobilização de todas as forças vivas da sociedade e do movimento dos trabalhadores no sentido de implantar o Modelo Democrático da Participação e Cidadania, e na senda do Programa da IVª Internacional Socialista, que estipulou que (1) devíamos tirar o máximo partido de tudo quanto já foi feito de positivo até hoje, (2) activar o balanço e avaliação das experiências negativas sob o motivo de evitar que se venham a repetir, (3) não aceitar e repudiar todo e qualquer retrocesso na democratização social alcançada, nomeadamente nos sectores da saúde, educação, segurança social, trabalho, ambiente e desenvolvimento, (4) debater continuamente para encontrar respostas crescentemente eficazes para os problemas crescentes da actualidade, e (5) superar as arbitrariedades da TROIKA bem como das governações inconsequentes e irresponsáveis que o povo português não quis, não autorizou, não pediu, mas que infelizmente é o único a sofrer as consequências e a pagar as "favas".
Assim, reitero, que não há forças políticas de terceira, segunda ou primeira divisão, excepto para as pessoas que se esqueceram que o 25 de Abril aconteceu já e ainda no século passado, e que insistem em viver num país patrocinado pelo carisma dos três F's – Fátima, Futebol e Fado, em que tudo aquilo que não eram copos e guitarradas era do domínio da fé e dos sacramentos, ou não sendo uma coisa nem outra, então seria da esfera do futebol, que acicatava os bairrismos mais profundos e as assimetrias mais pueris a fim de melhor separar para melhor a mediocridade poder reinar.
Em democracia não há forças políticas de primeira divisão, de segunda ou de terceira, tal como na Europa não há trabalhadores menos trabalhadores por trabalharem neste ou naquele país da UE. Aqui como neles, todos conquistámos o direito de nos expressar e não somente alguns, e querer convencer os portugueses do contrário é próprio, não só de quem está mal-intencionado, mas também de quem quer ir para o futuro propalar a obtusidade gasta e caduca do passado. Estas eleições como todas as eleições são feitas porque é preciso mudar, não para pior, mas para conseguirmos resolver os problemas e dificuldades com que os passados e idos governos nos brindaram.
Então, lamentamos, temos pena de desiludir-vos, todavia, muitos portugueses querem continuar a sê-lo e não foram eles que afundaram o país.

5.20.2011


Essa Lista! Esse Partido!


Graças a Deus que vivemos em Portugal, um país dito de poetas, de pessoas que até conhecem os recursos estilísticos de um Camões, esse grande e imortal épico, assaz celebre, principalmente pelos sonetos, que até quando queria elogiar alguém usava a simples construção frásica e variedade vocabular para dizer tudo o que sentia a propósito desse alguém, possibilitando a quem gosta de cumprir os preceitos da Lei fazê-lo recorrendo às iguarias literárias do calibre dos sonetos do homem da pala no olho quando se referia à sua escrava para todo o serviço como “Aquela cativa que me tem cativo”, ficando bem claro que não era nomeável a não ser por demonstrativos, coisa que alguns repetem carregando a tinta “imaginária” nos esses, estes, estas, aquelas, aqueloutras, nestas e nestes, que vão escrevinhando enquanto os contribuintes e munícipes, esses energúmenos incorrigíveis que além de lhes pagarem os ordenados insistem em ser tratados como cidadãos e não como coisas indefinidas e desprezíveis.
Ora, que esse tipo de pessoas, ainda que com formação superior o façam no seu dia-a-dia, se à paisana, até é sofrível, uma vez que o discurso pessoal é o melhor espelho da alminha que o profere; agora, que use e abuse desse preceito e pérola estilística para apoucar os adversários políticos quando está no exercício das suas funções de funcionário público numa autarquia, isso é que se assemelha muito bárbaro e incivilizado. Essa lista, Sr. Presidente da Câmara? Então costuma assinar esse tipo de notificações sem as ler ou, não obstante as ler, subscreve o apoucamento evidenciado pelo linguajar dos funcionários que tutela? É grave, Excelência, muito grave, porque estamos em democracia nesta república há pelo menos 37 aninhos… ou isso não o comove? Bom: então desculpe o reparo.
O mandatário pela lista do Partido Operário de Unidade Socialista – POUS
Joaquim Castanho

5.16.2011




PASPALHICES!!!...


Surgiu recentemente na Internet (Youtube, Facebook, FWD's, etc., etc.) um vídeo com arroubos nacionalistas pseudopatrióticos que enaltecia alguns feitos dos egrégios avós da lusa gesta para denegrir os de outra pátria, os vikings finlandeses, a fim de se vingarem de estes terem defendido os seus interesses e não os nossos, coisa que aliás nós nunca fizemos em lado nenhum, nem acerca de ninguém, muito menos dos nórdicos que, ao que parece, têm as contas em dia, estão desenvolvidos, trabalhadores, cumpridores da sua parte na convergência europeia, não são pedintes nem corruptos, ou sequer trafulhas na política nacional e nas relações externas. E o mais grave ainda, é que essa macacada teve origem e patrocínio numa dependência do poder local a que soe chamar-se autarquia.
Seguidamente apareceu uma pretensa resposta finlandesa em que usando a preterição sublinhava que podia pagar-nos na mesma moeda mas não o fazia porque tinha pena de nós, porquanto estávamos com imensas dificuldades e não se batem em ninguém que já está no chão. Merecíamos o reparo, é óbvio, e não fosse o voto da Finlândia ainda andávamos a pedir por essas europas fora com o Os Homens da Luta a pôr a caixa da guitarra afonsina às bocas do Metro.
Já é a terceira vez que o FMI, sabe-se agora chefiado por homens viris e pujantes que se aproveitam de inocentinhas empregadas de hotelaria, nos vem dar uma ajuda para pagarmos as nossas dívidas e cumprirmos os principais compromissos financeiros, no entanto, para muitos é como se fosse a primeira vez, pois não se coíbem em agir e gerir as suas “tendas públicas” como se estivessem com terrado garantido na feira das vaidades, não fazendo quanto devem e gastando o que não têm.
Mas ainda há quem sinta orgulho em ser português… Alguns de nós, quero eu dizer. Sobretudo quantos estamos no dia-a-dia sem o luxo de um emprego, sem a ostentação de um salário, sem a qualificação dos analfabetos. Os competentes porque se apetrecharam de inúmeras competências e qualificações; os desempregados porque ninguém nem nenhuma empresa os quis empregar porque sabiam mais do que o suficiente para o desempenho das funções; os que não andaram de curso em curso do IEFP para garantir o ordenado dos formadores e não recorreram ao IRS ou RMG porque a família os sustentou cometendo contínuos sacrifícios.
Ora, é em nome desses portugueses que me insurjo contra os defensores da pátria, desses que fazem vídeos bairristas às custas do erário público, posto que também sou patriótico e nunca ofenderia os demais para fazer valer o meu argumento, além do que se estavam a defender o meu orgulho de ser português ainda o aviltaram mais, e se é para me defenderem enquanto português então perguntem-me se estou de acordo, pois de defensores desses estão as hostes inimigas cheias. Calculem que os finlandeses levavam a coisa a sério e nos davam uma resposta à altura das circunstâncias… Onde estaríamos agora?
Desta vez passou, mas ser mais papista que o Papa nem sempre traz bons resultados. É preciso não tucutar a onça com vara curta, diziam os meus avós, que nunca se meteram em alhadas para as quais não tinham estaleca. Devíamos respeitá-los. No mínimo!

4.28.2011

A Avaaz está a todo vapor. A escala das nossas atividades, o nosso crescimento e as nossas vitórias são intensas! Olhe até o fim para ver os destaques dos últimos meses -- é incrível o que nós estamos construindo e alcançando juntos.

Já somos mais de 8,2 milhões e estamos adicionando 100.000 pessoas ao nosso movimento por semana! Duas semanas atrás, 650.000 indianos participaram da nossa campanha por uma lei anti-corrupção liderada pela sociedade civil, e nós vencemos!! Nós estamos conquistando vitórias importantes todos os meses -- combatendo a corrupção na Itália, corrupção midiática no Reino Unido e Canadá, a destruição ambiental no Brasil e muito mais. E também, por todo o Oriente Médio ativistas corajosos enfrentando forças de seguranças tenebrosas estão recebendo valiosos equipamentos e apoio com comunicação financiados pelas doações de mais de 3.000 de nós.

Desde as revoluções populares no Oriente Médio até movimentos nacionais anti-corrupção podemos sentir e ver em vários acontecimentos recentes: a democracia está avançando e juntos nós estamos rufando os tambores. A imprensa está atenta, escrevendo centenas de matérias, incluindo um destaque de 2.000 palavras no Times of London nos chamando de "o novo super poder da opinião pública global". Veja um breve relato dos últimos meses da nossa incrível comunidade de cidadãos mobilizados...

DESTAQUES RECENTES DE CAMPANHA

Campanha anti-corrupção explode na Índia

Duas semanas atrás, Anna Hazare um ativista Gandiano de 73 anos, declarou uma greve de fome até a morte, com a condição do governo deixar a sociedade civil elaborar uma nova e poderosa lei anti-corrupção. Em apenas 36 horas, um número sem precedentes de 500.000 indianos assinaram a campanha da Avaaz em apoio ao chamado do Hazare por uma reforma dramática. Em 4 dias, o clamor público forçou o governo da Índia a assinar uma resposta escrita a todas as demandas do Hazare! Nós vencemos! Hoje, uma nova Índia está nascendo e somente um anos atrás o Brasil também aprovou a legislação inédita da Ficha Limpa.

Furando o apagão das comunicações no Oriente Médio

Financiado por quase 30.000 membros da Avaaz, uma equipe está trabalhando diretamente com lideranças dos movimentos pró-democracia na Síria, Iêmen, Líbia e em outros países para distribuir telefones de alto tecnologia e modens de Internet via satélite, conectando-os com com as maiores redes de notícias do mundo e ajudando com a comunicação. Nós vimos o poder deste trabalho -- ciclos midiáticos globais são gerados por imagens e entrevistas de ativistas locais criadas e distribuídas com a ajuda da nossa equipe. A coragem dos ativistas que estamos apoiando é incrível -- uma mensagem de skype de um deles diz "... as forças de segurança estão vasculhando a minha casa, a bateria do meu notebook está acabando, se eu não estiver online amanhã estou morto ou preso". Ele está bem e as vozes destes corajosos ativisitas estão circulando o globo.











Grande vitória com os Hotéis Hilton vs o Comércio do Estupro

21 horas depois de 317.000 pessoas unirem-se ao chamado para o Presidente da Hilton assinar o Código de Conduta contra a exploração sexual, ameaçando publicar anúncios nos jornais da sua cidade, nós recebemos uma ligação do seu vice-presidente. "Vocês vão fazer o que?!" ela perguntou. O Hilton estava enrolando a meses. Nós demos 4 dias para eles assinarem, e eles aceitaram. Agora, os 180.000 funcionários da Hilton serão treinados para identificar e prevenir o horror da escravidão sexual de mulheres e meninas.

Reino Unido: o Povo vs. o Monopólio Midiático do Murdoch

A tentativa do barão midiático Rupert Murdoch de controlar a imprensa no Reino Unido gerou uma reação incansável dos membros da Avaaz, que lançaram anúncios, ações de rua, entregaram petições e participaram de campanhas de telefonemas, em um esforço para garantir um debate público aberto. A Avaaz encomendou uma pesquisa independente que mostrou que apenas 5% dos britânicos concordam com o Murdoch -- e novas acusações criminais por colocar escutas ilegais em telefones de políticos estão ajudando a derrubar a força da máquina midiática do Murdoch. O governo foi forçado a demandar concessões do Murdoch, e agora a decisão foi adiada -- custando ao Murdoch bilhões e ganhando tempo para pará-lo de vez.




Prevenindo um massacre na Líbia -- 1 milhão de mensagens para o Conselho de Segurança

As nossas mensagens pediam sanções, congelamento de contas e uma zona de exclusão aérea para proteger os civis na Líbia. As nossas vozes foram ouvidas: o embaixador da ONU dos EUA, um dos últimos a apoiar a proposta, publicamente nos agradeceu pelas mensagens. A ação internacional começou justamente quando os tanques do Kadafi cercaram a pequena cidade rebelde de Benghazi -- e foi amplamente creditada como a responsável por prevenir um massacre de civis em larga escala.

Projeto de Lei de Censura do Berlusconi foi Derrubado

O Primeiro Ministro da Itália, Silvio Berluscni, lidando com controvérsia política e acusações de estupro estatutário perto das eleições, tentou aprovar uma lei de censura no Parlamento que iria silenciar os seus críticos em programas de televisão independentes. Porém os membros italianos da Avaaz reagiram -- gerando uma petição de 70.000 nomes e milhares de telefonemas para o Parlamento em um momento crucial que ajudou a virar a votação A lei foi bloqueada, em uma vitória dos membros da Avaaz e pelo futuro a democracia e liberdade de expressão na Itália.





O "Anjo" anti-corrupção na Espanha

Esta semana um jornal espanhol chamou a Avaaz de "O Anjo do Dia" por lutar contra a corrupção na Espanha -- apenas um destaque entre uma onda de cobertura midiática sobre a petição de 100.000 espanhóis e um ação de teatro de rua que pedia a exclusão de políticos com acusações de corrupções das próximas eleições. Com a mobilização aumentando, um debate nacional sobre a corrupção está esquentando e os partidos políticos estão sentindo a pressão.





Brasil: Barrando a Hidrelétrica de Belo Monte na Amazônia

A proposta usina de Belo Monte, uma catástrofe ambiental, está sendo atrasada em parte devido à forte pressão da sociedade -- incluindo uma entrega espetacular da petição por lideranças indígenas com mais de 600.000 nomes de brasileiros e pessoas ao redor do mundo. A Organização dos Estados Americanos se juntaram aos críticos da barragem, dizendo que ela viola direitos humanos -- gerando mais pressão pelo cancelamento do projeto e o investimento em energias verdadeiramente sustentáveis no seu lugar.





Wikileaks: uma Vitória Contra a Tortura

Duas semanas atrás, mais de 500.000 apoiadores da Avaaz de todo o mundo apelaram ao Presidente Obama para ele interromper o isolamento brutal e tratamento desumano do Bradley Manning, supostamente responsável por vazar os documentos militares para o Wikileaks. Alguns dias depois, o governo dos EUA cederam a pressão crescente anunciando que Manning seria transferido para um prisão de segurança média e receberia tratamento adequado de saúde mental. Representantes da imprensa foram convidados a testemunharem o fim da tortura. A pressão pública funcionou!


Um milhão para Salvar as Abelhas

Mais de um milhão de pessoas, incluindo 200.000 na França assinaram uma petição explosiva para banir agrotóxicos que exterminam as abelhas em massa ao redor do mundo -- e junto com um grupo de apicultores franceses, nós entregamos a petição para o Ministro da Agricultura da França em uma grande conferência. A campanha continua com demandas por ações concretas na França União Européia e ao redor do globo.




Vitória sobre noticiários "Falsos e Enganosos" no Canadá

Oficiais conservadores do Canadá estavam tentando lançar uma mídia do estilo Murdoch nas redes de televisão -- mas em fevereiro eles tentaram diminuir padrões jornalísticos para noticiários falsos e enganosos, gerando uma avalanche de oposição. 100.000 membros canadenses da Avaaz assinaram a oposição e a proposta absurda para enfraquecer o jornalismo sério foi retirada.






Solidariedade Global pelo Egito

Nos momentos mais sombrios da luta pela expulsão do Mubarak, os egípcios disseram ao mundo que precisavam de solidariedade -- e os membros da Avaaz responderam. 600.000 de nós assinamos a mensagem de apoio levado direto para a Praça Tahrir pela rede Al Jazeera -- ajudando a apoiar um movimento abastecido de esperança nos seus momentos mais difíceis e incertos.








Os Bilhões do Mubarak, congelados

Quando o Mubarak deixou o poder no Egito, ele tentou levar a sua fortuna roubada com ele -- porém em dias, mais de meio milhão de nós pedimos para o Ministros das Finanças do G20 congelarem imediatamente os seus bilhões. Entregamos a mensagem com uma "pirâmide de protesto" próxima da Torre Eiffel durante a reunião dos ministros. Nas semanas seguintes a União Européia e países ao redor do mundo concordaram em congelar as contas do Mubarak e seus principais assessores.






Entregando 1 Milhão de Vozes pela Segurança dos Alimentos

Logo após uma nova ferramenta de democracia direta na Europa ser lançada, mais de um milhão de pessoas de todos os países da União Européia participaram da primeira Iniciativa de Cidadãos Europeus da história -- um processo onde as pessoas podem apresentar petições oficiais que exigem uma resposta. Os membros da Avaaz pediram o congelamento imediato da entrada de plantações de OMGs - transgênicos - na União Européia até que estudos objetivos, livres da influência da indústria, consigam provar que eles são seguros. A iniciativa teve uma entrega espetacular para a Comissão da União Européia que inundou a mídia com notícias, levando uma mensagem clara para os governantes.





Sob pressão, a África do Sul começa a confrontar o "estupro corretivo"

Quando um grupo local na África do Sul lançou uma petição demandando que o seu governo lidasse com o "estupro corretivo" -- a epidemia doente de estupro de lésbicas para "torná-las heterossexuais" -- elas foram a princípio, ignoradas. Porém quando a sua petição alcançou 170.000 assinaturas, o governo respondeu. E agora, com quase 1 milhão de nós e uma atenção midiática enorme, a pressão por ações significativas está se tornando inevitável.


… E Tudo isso é 100% Financiado pelos Membros da Avaaz do Mundo Todo!

Todas estas campanhas são demonstrações da promessa da força da sociedade civil -- do que é possível quando nós nos unimos pelo que é certo. E todas elas foram completamente financiadas por pequenas doações de membros da Avaaz, incluindo 250.000 pessoas que doaram para campanhas específicas e 10.00 de nós que somos "mantenedores" e doamos alguns reais, euros ou dólares por semana ou por mês para cobrir os custos básicos da Avaaz -- clique aqui para ajudar também. Por causa destas pequenas doações, a Avaaz não tem que responder a financiadores corporativos, grandes doadores individuais ou se limitar com restrições governamentais. Ao contrário, a Avaaz só reporta aos seus membros e pelos sonhos de um mundo melhor para todos.

Com esperança e um agradecimento enorme pelo apoio de cada pessoa desta comunidade incrível,

Ricken, Ben, Saloni, Alice, Graziela, David, Shibayan, Morgan, Tihomir, Emma, Giulia, Rewan, Kien, Luis, Alex, Mia, Stephanie, Milena, Heather, Veronique, Iain, Pascal, Benjamin, Yura, Laura, Saravanan, Alma, Dominick, Brianna, Sam, Mohammad, Tricia, Janet, Laryn, Aleksandr, Maksim, Denis e todos os voluntários, tradutores e todas as pessoas da equipe da Avaaz.

Veja alguns destaques na mídia:

Artigo no Times of London (em inglês):
http://www.scribd.com/doc/48808533/?press

Mobilização 2.0: a voz da Avaaz, Página 22 FGV
http://pagina22.com.br/index.php/2011/04/mobilizacao-avaaz/

Militância online, Revista Criativa:
http://revistacriativa.globo.com/Revista/Criativa/0,,EMI167448-17375,00-MILITANCIA+ONLINE.html

A vez dos militantes 2.0, Correio Brasiliense:
http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/tecnologia/2010/06/02/interna_tecnologia,195711/index.shtml

Cerca de 72 mil aderem à petição que critica Bolsonaro, Estadão:
http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,cerca-de-72-mil-aderem-a-peticao-que-critica-bolsonaro,702182,0.htm

Cobertura da camapanha anti-corrupção na Índia, The Hindu (em inglês)
http://avaaz.org/the_hindu_hazare_launch
Artigo "Anjo do Dia", La Republica (em espanhol):,
http://avaaz.org/republica_angel_of_the_day

Iniciativa de Cidadãos Europeus, Le Monde (em francês)
http://www.avaaz.org/le_monde_eci

Veja outras matérias na imprensa aqui:
http://www.avaaz.org/po/media.php






Lisboa - Celebração em PORTUGAL


No próximo 9 de Maio, no Rossio, haverá animações de rua, concertos, debates e stands de informação para celebrar o dia da Europa e a iniciativa europeia Juventude em movimento, cuja embaixadora é a fadista Carminho, que estará presente na abertura

A Representação da Comissão Europeia em Portugal, em parceria com o Gabinete em Portugal do Parlamento Europeu, a Presidência do Conselho da União Europeia (Hungria) e o Ministério dos Negócios Estrangeiros da República Portuguesa organizam anualmente um conjunto de actividades para celebrar o Dia da Europa, 9 de Maio.

Na histórica data de 9 de Maio de 1950, Robert Schuman apresentou uma proposta de aprofundamento das relações entre países europeus, criando-se uma comunidade organizada de nações numa Europa que tinha as memórias da guerra ainda frescas. Esta proposta, conhecida como "Declaração Schuman", foi um instrumento fundamental na solidificação da paz na Europa e justamente é considerada o começo da criação do que é hoje a União Europeia.

O dia 9 de Maio tornou-se um símbolo dos ideais mais nobres da Europa e do projecto europeu e a sua celebração constitui uma oportunidade para desenvolver actividades e festejos que aproximam a Europa dos cidadãos e os povos da União entre si.

Este ano, uma parte importante desta celebração será centrada em temas caros aos jovens, e em especial na campanha "Juventude em Movimento – Aposta em Ti", promovida pela Comissão Europeia como meio de os jovens realizarem sonhos, partilharem experiências, viajarem, alargarem conhecimentos, partilharem e desenvolverem talentos, reforçarem competências e alcançarem objectivos. Numa frase: Fazerem a diferença.

Esta iniciativa visa informar os cidadãos sobre os seus direitos laborais, a inclusão, a igualdade de oportunidades e a mobilidade profissional.

Detalhes sobre o evento:

De 7 a 9 de Maio estará instalada, na Praça do Rossio, em Lisboa, uma tenda aberta a todos com 16 stands onde os organismos nacionais e os projectos europeus no âmbito das políticas de emprego, políticas sociais e da igualdade de oportunidades apresentarão as suas actividades e as ofertas relevantes para os cidadãos portugueses.

Em paralelo, serão apresentados projectos escolares, dança, música, animações circenses, cinema. Serão também organizados debates sobre os temas do emprego, das políticas sociais, da igualdade de oportunidades e da luta contra as discriminações.

Outras actividades comemorativas do Dia da Europa terão lugar em todo oo País, organizadas designadamente pela Rede de Centros Europe Direct, em parceria com actores locais.

Concerto nos Jerónimos

As celebrações do dia da Europa terminarão no Mosteiro dos Jerónimos com um concerto de Pedro Caldeira (mediante convite).

4.24.2011


«Morri pela Beleza – mas mal eu
Na tumba me acomodara,
Um que pela Verdade então morrera
A meu lado se deitava.

De manso me perguntou por quem tombara…
– Pela Beleza – disse eu.
– A mim foi a Verdade. É a mesma Coisa.
Somos Irmãos – respondeu.

E quais na Noite os que se encontram falam –
De Quatro a Quatro a gente conversou –
Até que o Musgo veio aos nossos lábios –
E os nossos nomes – tapou.»

Poema de Emily Dickinson, e Tradução de Jorge de Sena

4.17.2011

MANIFESTO EM PROL DA SEMENTE E DA SOBERANIA ALIMENTAR


Não se sabe bem ao certo, mas terá sido há dez ou onze mil anos que a humanidade lançou à terra as primeiras sementes com o intuito de colher algo para seu sustento. Dessa colheita terão resultado, por certo, não apenas alimentos imediatos, mas também novas sementes, que tornariam a ser semeadas no ano seguinte. Ficou assim traçada a orientação que viria a assegurar, até há algumas dezenas de anos atrás, a capacidade de todos nós, homens e mulheres, conseguirmos ultrapassar as contingências da natureza, deixando de estar sujeitos à sua aleatória generosidade no tocante à oferta de alimentos colectáveis, passando a cultivá-los para assegurar a soberania alimentar.
Passados alguns milhares de anos de evolução desta orientação de vida, foram sendo domesticadas pelo homem milhares de variedades de plantas e animais, ampliando muito as espécies disponíveis. Esta diversidade de espécimes de cultivares e de animais, fomentada pelo homem, muitas vezes como resultado do seu engenho, permitiu-lhe transpor as mais diversas barreiras, físicas e temporais, para conquistar os mais recônditos lugares do planeta. Hoje sabemos, pelos muitos factos históricos conhecidos, que em cada novo contacto do homem com diferentes plantas e animais ocorre não apenas um enriquecimento do indivíduo enquanto ser cultural, mas também uma melhoria no seu ser físico, graças ao acesso a acrescidas fontes de alimentos.
Estas longas conquistas da humanidade estão agora prestes a ser eliminadas ou, pelo menos, restringidas, pois outros interesses se levantam. A pretexto de questões como a necessidade de rastrear o percurso dos alimentos e a segurança alimentar, a Comunidade Europeia prepara-se para estabelecer uma directiva legal no sentido de impedir que as pessoas que sempre semearam e recolheram, assegurando a sua soberania alimentar, possam continuar a agir dessa maneira. Esta lei põe em causa um direito ancestral conquistado para todos nós, o de utilizarmos e guardarmos as sementes resultantes do trabalho e engenho dos nossos antepassados, direito esse que devemos continuar a legar às gerações futuras. Esta lei pretende atribuir estatuto museológico às variedades tradicionais que nos foram legadas por incontáveis gerações, enraizando-as no seu suposto lugar de origem e impondo que a sua comercialização e cultura, bem como o aproveitamento das suas sementes, se faça apenas nesse local e somente por alguns. Esta lei europeia, a ser aprovada, limita as áreas de cultivo e o número de pessoas que podem aceder às variedades tradicionais, as quais só terão direito a existir depois de submetidas a certificação. Não se entende como uma Europa que defende os valores da democracia, do livre acesso a bens e da sua livre circulação, pretende assim limitar o acesso de todos nós a este legado das sementes ancestrais.
No caso em apreço, podemos estar mais uma vez perante uma mentira. Quais são os verdadeiros interesses que estão por trás destas leis restritivas da Comunidade Europeia? Na verdade, por trás de palavras como «certificação», cujo sinónimo deveria ser autenticidade ou segurança, esconde-se muitas vezes a restrição no acesso a um direito, que fica, a partir daí, apenas ao alcance de quem pode pagar ou tem mais meios. A certificação significa, para uma Europa ávida de dinheiro e com uma economia em ruínas, a entrada de mais dividendos nos seus cofres.
Com efeito, se a semente não fosse «a origem», não seria tão aliciante querer controlar os seus destinos. A pressão que nos últimos anos vem sendo exercida por algumas multinacionais do sector da agro-indústria, as quais, não satisfeitas com o domínio que já exercem através das patentes das suas «criações», procuram também apropriar-se das plantas que são património comum da humanidade estabelecendo patentes sobre as variedades ancestrais, revela a urgência imperativa de controlarem a distribuição dos alimentos desde a origem até à nossa mesa.
Na verdade, não se percebe como é possível permitir que alguém, pessoa ou empresa, registe em seu nome algo que não criou e se torne seu «legítimo» proprietário. Não se percebem estas leis europeias com dois pesos e duas medidas, a não ser, repetimos, porque o registo de patentes constitui mais uma fonte de receitas para os cofres das instituições que as pretendem impor. Mas é evidente que corremos sérios riscos quando as sementes das variedades tradicionais, que são património da humanidade e como tal devem estar livremente acessíveis a todos, passam a ser objecto de controlo estatal para ficarem nas mãos de entidades exclusivas.
Poderemos estar prestes a assistir à consumação do maior atentado cometido na história das civilizações humanas, em que alguns homens, com as suas leis, põem em causa a sobrevivência da maioria. Porque é disso que se trata quando se pretende reduzir drasticamente o número de variedades e obrigá-las a permanecer imóveis nos seus supostos locais de origem, parando assim a sua e a nossa evolução.
Perante a possibilidade de ser aprovada a nova Lei das Sementes na Europa, declaramos ser nossa intenção continuar a fazer o que sempre fizemos: lançar as sementes à terra, recolhê-las no fim da estação, guardar algumas para o ano seguinte e partilhar outras com amigos, vizinhos e interessados. Achamos que esta será a melhor forma de resistir, pois foi a postura que os nossos antepassados mantiveram ao longo de milénios e que, apesar das muitas hecatombes a que a humanidade se viu sujeita ao longo da sua existência, não impediu que chegasse até nós um sem número de espécies e variedades. É certo que muitas se perderam ao longo desse percurso, mas isso aconteceu mais por desinteresse ou por abandono da actividade agrícola do que por qualquer lei impeditiva. Esta será sempre a nossa principal linha de acção. Se não assumirmos esta postura, será difícil reclamarmos o direito a usar e guardar as sementes, pois só isso permite que elas continuem a existir.
Instigamos todas as pessoas favoráveis à permanência das variedades tradicionais que nos sigam no exemplo e resistam, mesmo que a referida lei venha a ser aprovada. Por ser também da máxima importância usá-las no nosso dia-a-dia, instigamos todos os interessados a conhecer melhor este espólio, solicitando-o nos pontos de venda, estimulando a sua oferta e consumo.
A Colher para Semear vai levar a cabo uma iniciativa de âmbito nacional, no dia 17 de Abril, em Lisboa, no Parque Eduardo VII, pedindo a todos os interessados que se desloquem à capital para trocar as suas sementes e manifestar o seu apreço pelo direito à existência das variedades tradicionais como um legado da humanidade.


4.16.2011

Trastes e mamarrachos

É quase assumido pela generalidade – antigamente até se contava a anedota do aeronauta que sabia ter chegado a Portugal por, ao meter o braço de fora, lhe terem dado a palmada ao relógio – que este País é ingovernável, não pelas circunstâncias adversas da conjuntura, das crises e desses desaguisados altamente globalizadores, mas sim porque os nossos quadros (gestores, administradores – nomeados e vitalícios, classe política e adjacentes ao funcionalismo central ou autárquico) quando têm verba a desperdiçam e aplicam de forma insustentável, e quando se lhes acaba, culpam sempre os outros, desde sistema financeiro às diretivas europeias, pela situação em que “derraparam” por afogadilho e aflições.
Coisa nenhuma os afeta se puderem pedir mais uns dinheiritos aqui ou ali, sem contrapartidas, a que normalmente chamam ingerências na política e soberania. Mas que dizer aos mamarrachos em que gastaram fortunas e atualmente, além de não servirem para nada, apenas poluem os espaços públicos? Quem gastou “dinheiro nacional” na compra de trastes do género daquele que se apresenta na ilustração, não só devia ser obrigado a devolver o dinheiro aos munícipes como a remover o lixo (sucata) que restou. Os políticos e os autarcas têm de ser responsabilizados pelos seus atos incoerentes, uma vez que foram pagos para agir em benefício de quem os elegeu e apenas se serviram do seu estatuto para singrar na vida melhor que os seus semelhantes. E não digam que não sabiam fazer melhor, pois se de fato assim era, então não se candidatavam.
Sempre era um exemplo que ficaria para futuro!
MENTIRA!!!


Da mesma forma que não se devem trazer para casa as futriquices que se ouvem na rua, ou é igualmente condenável trazer para a rua quanto em casa se passa, também é contraproducente transportar para “a casa da democracia” os bichaneios abichados entre portas e travessas quando os votos nos afloram. Essa teoria antidemocrática das florinhas de estufa do-quero-posso-e-mando e quem-pensar-o-contrário-é-terrorista-e-traidor-à-pátria que pretendem ser fundamental para a estabilidade política e desenvolvimento humano e económico do nosso país que o futuro governo nasça de uma maioria eleitoral, não só é uma incomensurável peta recheada de má vontade e medíocre dogmatismo, como também a manifesta expressão dos sentimentos tirânicos, despóticos e ditatoriais que motivam e alimentam alguns líderes partidários da nossa república. Quem é democrata não precisa de vitórias esmagadoras seja no que for, pois sabe conviver com os que pensam de forma diferente, sabe dialogar e negociar com os demais, não faz do argumento alheio um atentado pessoal, nem ejacula desejos convicto de que são realidades incontornáveis. PORQUE EM DEMOCRACIA AS MAIORIAS GOVERNAMENTAIS NASCEM E MANTÊM-SE NOS PARLAMENTOS que foi para tanto que o povo elegeu os seus representantes nele. Se o não conseguem, é porque falharam e enganaram os eleitores e quem neles acreditou como deputados não como narcisos deslumbrados por tanta gente gostar das suas figuras e ficar bem no cartaz. Hitler e Salazar, também foram “democraticamente eleitos com expressiva maioria” e todos sabemos no que deu essa expressão…
Portanto, se aqueles que presentemente se alardeiam como salvadores de uma crise que eles próprios provocaram, pedindo essas maiorias, forem eleitos com elas, não me venham dizer depois que desconheciam no que iria dar quando lhes vier a acontecer pior do que lhes está acontecer agora, porque isso é uma dupla mentira, na declarada intenção de branquear a outra com que justificaram os seus votos, e quem tem o que merece perdeu todo o direito a lamúrias e queixumes de vítimas das circunstâncias, uma vez que por essas, são os únicos responsáveis.
Logo, sob o desígnio do interesse nacional há muita patranha encoberta, e quem copia as estratégias que convergiram para a eclosão do célebre “28 de Maio do século passado”, é porque está deserto de conseguir o mesmo em que aquele descambou. Porque de 1926 a 1928 foi uma questão de pa$ta, e depois veio o 33 do plebiscito que nos deu o Estado Novo, qual fénix (legião portuguesa – 1936) renascida das cinzas e da pobreza, a extinção da oposição democrática por uma democraticamente eleita, que culminou com a acidente de Humberto Delgado, e durou até 27 de Julho de 1970, cujos herdeiros se têm mantido no poder, com intervalos aqui e ali, mas de pouca monta, nos últimos 37 anos, todavia já a esfregar as mãos para o repasto de 5 de Junho de 2011.


4.09.2011

A rebelião das diferenças



Scherezade aprende a sobreviver. As regras da vida não estão escritas. Cabe-lhe inventá-las a cada aurora (2)”


“A memória dos Homens é curta”, dizia a minha professora de História do 7º ano. Desde então, inúmeras têm sido as ocasiões em que essa frase me vem à cabeça. Os recentes acontecimentos no mundo árabe e o comportamento do Ocidente em geral e da Europa em particular são uma dessas ocasiões.


Se nas sociedades árabes o que está a acontecer é muito mais do que simples revoluções (políticas, económicas ou sociais), a Europa e os EUA, por sua vez, já não conseguem esconder a hipocrisia que tem minado as suas políticas externas e as suas atitudes que perfazem novas formas de racismo e colonialismo. Por outro lado, persistimos no erro de nunca considerar a História a partir da “periferia” ou daquilo que julgamos ainda ser “periferias”, o que deturpa sempre essa velha senhora europeia a que chamamos História. A este nível, espero que quando a poeira assentar consigamos aprender com o que “as periferias” nos estão a mostrar (e que Prigogine já tinha descrito em As Leis do Caos): já não basta descrever as mudanças dos regimes políticos e sociais no seio da nossa concepção de História; é preciso ultrapassar este ocidentalcentrismo e dialogar com as Histórias extra-europeias para que possamos viver num contexto que não se confunda com o património ocidental. Tal como nos mostraram escritores como o jugoslavo Ivo Andric, apesar de haver sempre mais bárbaros do que construtores, no fim de cada caminho de opressão, há sempre uma luz e uma oportunidade para se criarem pontes. Andric também esteve sempre ao lado dos derrotados e insultados, ainda que compreendesse os poderosos. Esta é mais uma altura da História em que devemos fazer o mesmo, pois é um facto que o mundo não vai mudar para melhor por decreto, mas pode mudar se nos remetermos para os princípios da alteridade e da empatia que devem necessariamente nortear a vida em sociedade daqui para a frente.


As máscaras do racismo


Vejamos, então, algumas das novas formas de hipocrisia histórica e de racismo que estamos a viver, com uma breve panorâmica por alguns dos pontos geopolíticos mais quentes no momento actual.



1. Muitos dos revoltosos líbios foram abatidos com armas vendidas, no ano passado, no salão de armamento líbio no qual participaram 50 fabricantes britânicos. Isto quando o Governo britânico defende uma política de “intervencionismo liberal” para acabar com regimes não democráticos. Bom, eu não sou britânica, nem líbia, mas com certeza que não quero esta democracia de que Cameron e os seus confrades falam. Das duas uma, ou armam os opressores dos árabes ou, se falamos em intervencionismo, não vendemos armas a ditadores. Não me parece algo assim tão difícil de fazer, se se quiser, claro.



2. Em viagens recentes à Suíça, consternaram-me cartazes ofensivos em ruas tão supostamente ordenadas, que insultavam os imigrantes e exortavam à sua expulsão do país. Parece que a moda está a pegar e, recentemente, a ministra do interior da Áustria, endureceu [contra] os direitos dos estrangeiros, numa tentativa inútil de travar o afluxo de refugiados do Norte de África. E a verdadeira questão é esta: o medo, que mais não é do que uma manifestação da ignorância. Não vale a pena fingir que o medo dos Europeus perante um afluxo maciço de estrangeiros não é maior do que a sua compaixão pelas vítimas de uma ditadura. Mais uma vez, recorramos à memória. Porque é que o medo ganha perante a compaixão? Entre outras razões, porque os europeus têm tido políticas externas insensatas quanto às suas relações com ditadores (a Itália e Malta assumiram compromissos vergonhosos com Kadhafi) e ainda porque muitos países da União Europeia têm políticas internas de faz-de-conta que oscilam entre uma imigração necessária e mal-gerida e o alarmismo instrumentalizado em relação ao que sai do seu quadrado. Mas, claro, já não há problema se clandestinos africanos forem contratados para colheitas sazonais sob condições desumanas e garantirem negócios para muitos desses países que ora exploram os estrangeiros que não querem receber nem ajudar ora os querem libertar em nome de uma qualquer democracia.



3. Mas se o Ocidente pouco se importa com os banhos de sangue em África (sim, porque nem se fala nos países cujas populações ainda nem sequer se conseguiram rebelar e protestar ou aqueles, como Marrocos, em que se vive numa ditadura com os tiques democráticos ocidentais), já se preocupa com a perda de influência que está a ter no mundo árabe. O académico Anthony Cordesman sintetizou bem a coisa: “A França centra a sua atenção na Tunísia sem conseguir perceber como perdeu uma zona de influência. A Grã-Bretanha, por sua vez, volta a mostrar interesse no Egipto e no Canal de Suez”. Entretanto, os EUA continuam a procurar o Wally, i.e., islâmicos radicais entre as revoluções, os russos só querem vender armas e os chineses só atendem aos seus interesses petrolíferos. As atenções viram-se agora para a Turquia que surge em posição privilegiada para negociar com os novos quadros políticos que surgem na região. É claro que a UE se vira agora para a Turquia, a mesma que não queria integrar no seu clubinho.



Insegurança civilizacional



Estes são apenas alguns factos que rodeiam algo bem mais relevante: a hipocrisia ocidental não aprende com a História, nem com os resultados das suas próprias acções. Há muito que quer os EUA quer a Europa têm usado retratos simplistas, degradantes e, por vezes, racistas dos árabes e outros povos nos órgãos de comunicação.



Por outro lado, o espaço europeu tem estado crescentemente confrontado com um processo de heterogeneização espartilhado em duas lógicas: a lógica moderna da homogenização de pensar a Europa como um grande Estado-nação e outra, baseada num conceito de unidade bricolada na diversidade, ou seja, é como um bazar em que se negoceiam diferenças. Acontece que a cultura ocidental viveu secularmente – salvo alguns momentos críticos – numa espécie de auto-contemplação da sua própria superioridade ética e política, a qual era justificada das mais diversas formas, desde a narrativa religiosa até à narrativa filosófica. A tendência foi sempre a de encarar a nossa forma de pensar e de conhecer como sendo a mais universal e mais verdadeira, sendo as outras organizações sociais e políticas julgadas a partir dessa posição.



No entanto, vivemos agora uma altura em que a auto-segurança do Ocidente volta a ser posta em causa num movimento em que nos olhamos no espelho da nossa própria face civilizacional; os modelos de relação com as diferenças (internas e externas) que a sociedade e cultura europeias desenvolveram são, por si só, um indício da actual insegurança civilizacional. A Líbia – que não tinha nada parecido com uma sociedade civil tal como a pensamos – dá-nos agora uma lição de História. Louvável é a força colectiva de que os líbios têm dado mostras; a diplomacia, esforços revolucionários estruturados, órgãos de informação limitam-se a seguir as reivindicações e as acções do povo e isto é fascinante e inédito, pois significa que o que está a mudar é também o que significa ser árabe a nível individual e colectivo.



Se há muito que os estereótipos ocidentais têm desqualificado os árabes e celebrado invasões israelitas, britânicas e americanas em nome da “democracia”, hoje são os árabes que nos mostram a oportunidade que é a união de esforços por algo muito mais importante do que a democracia hipócrita dos que carregaram a cruz da civilização e supostamente eram detentores de uma superioridade moral que lhe dava acesso ilimitado às terras, recursos, história e dignidade dos árabes. De Napoleão a George W. Bush os árabes sempre foram definidos de acordo com os objectivos coloniais e conquistadores.



O importante a reter de tudo isto é que, como notou Robert Fisk, este segundo despertar árabe da História moderna requer algumas novas definições e novas palavras. Esta rebelião das diferenças revolta-se também contra o lugar passivo que a modernidade ocidental lhes atribuiu em termos culturais, políticos e epistemológicos. Agora, essas diferenças assumem os seus próprios discursos (da diferença e não sobre a diferença) e resistem a qualquer forma de domesticação cultural. Resta agora à cultura ocidental assumir-se também como outra diferença e não como padrão com base no qual as outras diferenças devem ser definidas ou julgadas. Ora, a evolução é isto mesmo: a transição do ser da condição de escravo à condição de senhor do seu próprio destino.


Como tão bem lembrou o educador Paulo Freire, qualquer acção modificadora não é possível se não nos distanciarmos de uma visão acomodada do mundo e se formos incapazes de nos distanciarmos desse conformismo para admirar e perceber melhor o conjunto deste mundo. As diferenças, de facto, na sua incomensurabilidade de género, raça, etnia, estilos de vida, etc., não assumem como agenda nem um princípio universal comum, nem uma agenda política comum. Porque a democracia já não é um “estádio”, mas um fim em si mesmo (ou sem fim) e a “cidadania atribuída” deu lugar “a uma “cidadania reclamada”. A realização política inerente a estas mudanças tem uma geometria variável, negociável, em rede que mostra que não somos todos diferentes e todos iguais, mas sim que não há privilégios nem para diferentes, nem para iguais, pois falamos da legitimidade das diferenças regularem as suas próprias vidas. “Eu pago impostos (dever), mas quero educar (direito) os meus filhos como bem acho que eles devem ser educados”.


Numa altura em que a Europa analisa a questão do direito ao esquecimento na Internet, não nos esqueçamos que foi a “democracia ocidental”, “a chama da civilização”, “o capitalismo europeu” que esteve na origem de grande parte dos tipos de racismo que conhecemos. Não nos esqueçamos também que o progresso da civilização passa, necessariamente, pela abolição de toda e qualquer forma de preconceito. Antes de se achar sujeito a determinada cultura, nacionalidade, etnia ou religião, o homem é um ser cósmico, um cidadão do universo e, acima de tudo, perante a lei da reencarnação, a superioridade que certos grupos étnicos atribuem a si torna-se insustentável e até ridícula. A ideia de que o homem possa encarnar como branco, negro, mulato ou índio, estabelece uma ruptura com o preconceito e a discriminação raciais e políticas. Tanto que até hoje, na Inglaterra, muitos adeptos do Neo-espiritualismo rejeitam a tese da reencarnação, por não admitirem a possibilidade de terem tido encarnações em posições inferiores quanto à raça e à condição social.


Lembremos ainda que, nos Estados Unidos, foi preciso uma guerra civil para acabar com o esclavagismo. Até à década de 60, o país mais rico e poderoso da Terra, que sempre se arvorou em campeão da democracia, praticava a segregação racial. A maioria branca impunha humilhantes restrições aos negros, que não podiam frequentar as mesmas escolas, sanitários públicos, clubes ou hospitais. Na África do Sul, em pleno continente africano, uma minoria de origem europeia sustentou, durante décadas, a separação radical, relegando os donos da casa a posições de subalternidade. No Brasil, não obstante a índole fraterna de nosso povo, durante mais de três séculos muitos achavam natural a existência de homens transformados em animais de carga.


Aproveitemos, pois, este movimento do pêndulo da História para subverter a produção de ausências em que o ocidente tem sido prolífico para transformar essas ausências em objectos presentes, tornando visível o que foi obscurecido pela sociedade (e ignorância) dominante. Já não existem realidades únicas e exclusivas e, no jogo de conhecer e ser conhecido, já não deve haver lugar para relações de dependência, pois a vida que se deseja é a que “decorre da liberdade consciente, capaz de enfrentar obstáculos e dificuldades que se apresentam no relacionamento humano e na própria individualidade”(1); é essa a meta que a consciência almeja e, na inexistência do que seja local ou global, é nessa escala que tudo se joga e para onde interessa olhar. Ouçamos, portanto, as vozes do deserto(2), porque são também as nossas vozes.


Filipa M. Ribeiro


(Jornalista e investigadora)


(1) In Franco, Divaldo. O Homem Integral (1990).


(2) Referência ao livro Vozes do deserto, de Nélida Piñon.







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