Convite para partilhar caminhos de leitura e uma abertura para os mundos virtuais e virtuososos da escrita sem rede nem receios de censura. Ah, e não esquecer que os e-mails de serviço são osverdes.ptg@gmail.com ou castanhoster@gmail.com FORÇA!!! Digam de vossa justiça!
9.01.2019
DO VALOR DO PRECONCEITO
DO VALOR DO
PRECONCEITO
Se
a burridade vira virtude
Haverá
uma gente que nada sabe
Que
muita coisa sabe e amiúde;
Porém,
de tão rudimentar efeito
E
rústica natureza, que cabe
No
teor da palavra preconceito...
E
pra todos os problemas do mundo
Acham
ser essa a solução que resta.
Contudo
eu, sem hesitar um segundo,
Digo-lhes
já: «É mentira. Não presta!»
Joaquim
Maria Castanho
8.15.2019
DECORO-TE
DECORO-TE
Decoro-te...
És pauta de harmonia
Divina
poro a poro, pálpebra a pálpebra,
Sílaba
a sílaba és códice, poesia
Digital
ode nesta nova álgebra
Que
estrela a estrela ao céu acende.
Decoro-te
que nem chave indizível
Quase
refrão perfeito que não ofende
A
língua, tal e qual a alma tangível
Quando
se estende é real, plausível...
Tal
a voz nunca se cansa de repetir nós.
Decoro-te...
És flor à beira da tarde
Que
inclina as pétalas, fala à gente
E
sorri, sorri sempre, mas sem alarde
Ante
todos os incómodos que sente.
Joaquim
Maria Castanho
8.08.2019
CHUVADA INTERIOR
CHUVADA INTERIOR
Quando a poesia me acontece
Eu nunca saberei como, nem porquê,
Mas creio que ela só me aparece
Ao ler em teus olhos o que ninguém vê...
Eles dizem o esplendor do luar
Se acaso a lua brilhar tão cedo,
Que é uma adaga de prata a cortar
Silêncio ao luscofusco e ao medo.
Dizem por esse infinito profundo
Com que a alma se torna um poço sem fim
Donde a felicidade jorra prò mundo
Numa água que também me lava a mim!
Joaquim Maria Castanho
7.24.2019
7.23.2019
DISCURSO DO TRIGUEIRO AO SEU BANDO
DISCURSO
DO TRIGUEIRO AO SEU BANDO
Tinha
uma família que o amava
E
todas as primaveras cumpriu missão
Que
o destino, ou a vida lhe destinava:
Fazer
ninho, alimentar filhos... – Mas em vão.
Aquele
que morreu, era vosso irmão.
Não
foi pra alimentar nenhuma cobra,
Não
foi para alimentar nenhum gato.
Morreu
sem um porque sim ou porque não,
Num
desperdício de vida e de razão.
Aquele
que morreu, era vosso irmão...
– Em
nenhum planeta há vida de sobra.
Os seus assassinos
ficarão salvos
Mas
nós continuaremos a ser seus alvos...
– Em
nenhum planeta há vida de sobra –
Aquele
que morreu, era vosso irmão!
7.04.2019
AI TÍLIA, TILIAZINHA
AI
TÍLIA, TILIAZINHA!
Já
quando esta tília
Era
menina, pequenina
E
inocente, tinha família
Entre
flores e demais gente.
Para
mim, ao lembrar-me dela
Faz-me
ela vários reparos,
Além
do de ser útil e bela,
Chá
de sabor e aroma raros.
Mais
me disse que não conto
E
acerca daquela grade,
Onde
esperei feito tonto
Muitas
vezes, às três da tarde.
Joaquim
Maria Castanho
7.03.2019
LÁGRIMA INCANDESCENTE
LÁGRIMA
INCANDESCENTE
Envelope
lacrado a pele,
Gota
a gotejar, se expele
É
gotícula que evapora.
É
sinal do âmago, limo,
Cristal,
pura transparência
Quando
a alma vem ao cimo
No
oceano da ausência.
Se
desse refúgio aflora
Dá
alvissaras a quem a zele,
Promete
que não irá embora.
Geme
como fado canalha.
Se
a afagamos, estremece.
Se
a sopramos, logo voa.
Mas
quando a sede nos calha
Ganha
tanta febre e aquece
Que
bebê-la viva... – magoa!
6.26.2019
VOO SEMINAL
VOO SEMINAL
Espera por ti sem menor esperança
Adjetivos novos, advérbios nos pés.
A cada passada, os braços balança
Os olhos sem suspiro algum
O grito adormecido
Ondulando de lés a lés,
Banhado por luz sem zunzum
Nem eco, estampido nenhum.
E se nesse entretanto
Houver um princípio sem fim
Ou o pintalgar da terra, cujo manto
Seja tão colorido como o espanto,
Não estranhes, nem também te sobressaltes
Com estampados de barro e esmaltes:
As flores do meu jardim
Foi uma ave que as semeou;
E se hoje ele está assim,
É por ter sonhado que voou.
Joaquim Maria Castanho
6.23.2019
RECURSO INESGOTÁVEL
RECURSO
INESGOTÁVEL
Vivo
abstrato mas sem contrato
E
dou-o àquela pra quem vivo
– Ramo
de rosas riscado a rato.
É
uma joia (sem quilate exato)
Preciosa
sem preciosidade,
Libra
cunhada, artesanato
Que
a alma esculpe pla idade.
Porque
esse cinzel inaudito
Que
aprova, reprova e desbasta,
É
o recurso mais expedito
Que
o amor usa... – mas não se gasta!
6.21.2019
6.20.2019
SALTOS ALTOS
SALTOS ALTOS
Pediu
demora, mas deram-lhe pressa.
Todavia
uma espora na alegria
Esporeou-a
para nova promessa.
Coou
sons, amputaram-lhe a melodia.
Esperou
a espera, mas não era essa.
E
aconselharam-lhe mais ousadia...
Partiu
então, só, como quem regressa.
A
esperança nascera-lhe da agrura.
Desilusão
foi tempero de salada.
Contudo,
e como pisava segura
Se
alguém reparou, não disse nada.
Cresceu
alguns centímetros... Foram poucos.
Mas
se anda e meneia... – Deixa-nos loucos!
Joaquim
Maria Castanho
6.18.2019
6.16.2019
CÂNTICO GÓTICO
CÂNTICO
GÓTICO
Encantadas
ou desencantadas almas
Confirmam-se
e configuram-se alvas
Violáceas
entre violetas e malvas
Marmóreas
entre ciprestes e palmas
Que
entre pacóvios se pavoneiam...
Baixar
o nível para ser entendido
Não
demonstra sabedoria nenhuma,
Sequer
diz ser a humanidade só uma...
É
dar esperança ao vadio vendido,
Premiá-lo
pla falta d'estudo tido.
Ignorar
não é suma sabedoria
Nem
diploma que os canudos norteiam;
E,
muito menos, saque aos que saqueiam
– Apenas
mata caça quem melhor porfia!
Joaquim
Maria Castanho
Com
foto de Elie Andrade
6.12.2019
A MAGIA JÁ NÃO É UM SUPOR...
ÉS MÁGICA SEJA ONDE FOR
Fico suspenso mas arrebatado
A alma em órbita plo infinito...
Se eu te vejo em qualquer lado
Encantamento deixa de ser mito!
A vida é simples, e sem atrito;
Sem causas obscuras nem doentias.
Acaba-se o que já fora começado
E começa-se sempre com cuidado.
Então inventa-se futuro aos dias
Pintando cada qual com a sua cor.
Os sorrisos nascem, nascem poesias
Nascem esperanças, e nasce o amor.
Mas se te vejo em qualquer lado
A magia deixa logo de ser supor!
Joaquim Maria Castanho
Com foto de Elie Andrade
INTEGRIDADE POÉTICA
INTEGRIDADE POÉTICA
Resistem
aos silêncios e amuos
Aos
junhos, abris e fevereiros
Aos
torpores azedos e recuos
Sem
se melindrarem nem pedir perdão.
De
olhos em frente, fincam os pés no chão
Arredam
adversidades várias
E
bastam-se a si, eficazmente,
Cobrindo-se
de rimas primárias
E
sentimentos avulso, dispersos.
Nunca
acatam sílabas ordinárias.
Aprumam-se
em medidas contidas
E
até se abreviam cordialmente.
Só
em último caso viram versos
Ou
s'entregam a repetições perdidas!
Joaquim
Maria Castanho
6.10.2019
6.09.2019
TUFO NA MARGEM...
TUFO À MARGEM
Principalmente
se me não vês,
Que
as horas parecem meses...
Horas
bem maiores que o mês.
Calada,
és muralha, forte
Intransponível
prò meu gostar,
Que
eu, tufo, à sede, na morte
Fico
na margem sem me molhar,
Sem
beber dessa água pura
Que
a vida traz do teu olhar
E
fecunda alma se madura.
Digo-me
tão pouco se me travas...
O
verso brota ressequido!
Poemas
são só ervas bravas
Sem
palavras na margem do ouvido!
Joaquim
Maria Castanho
Com
foto de Elie Andrade
6.02.2019
ÁPICE E VERTIGEM
ÁPICE E VERTIGEM
O
sonho pousou,
Trazendo
ternura consigo;
Doce,
suave e ligeiro,
Que
o amor é sempre o primeiro
Pra
quem deveras amou.
O
céu estremeceu,
O
grito suspirou...
Porém
rápido, rápido, rápido
Meu
coração bateu:
Irrompeu
de quem sou,
E
nunca mais foi meu!
Joaquim
Maria Castanho
Com
foto de Elie Andrade
6.01.2019
CABELOS DE FADA
CABELOS DE FADA
A poesia é um esgar absoluto
Sobre um ponto concreto, particular,
Qualquer coisa como o produto
Da célula que se partiu pr'amar
– Almas gémeas plurissemelhantes,
Siamesas separadas mas amantes... –
E, assim, duplicada, cria afeto
Gera aí a sua própria geração,
Eleva sua estirpe a outro teto
Onde o incondicional é condição.
Nada escolho sem que ela o dite
Qu'ela quer com crer de fada e de mulher
E afirma de forma que acredite
Polvilhando com pétalas de bem-me-quer
Penteados aos dias maravilhosos...
A poesia é uma fada cujos cabelos
São versos de seda duma cor qualquer,
Que dançam singelos porém luminosos
Enternecendo olhares, dias, novelos
Que se desfiam tecendo horas à mulher.
Joaquim Maria Castanho
Com foto de Elie Andrade
5.21.2019
CHUVA LACRIMAL
CHUVA LACRIMAL
Que
afagou teu cabelo preso
Pra
beijar o silêncio que arde
Caiado
d'azul celeste, ileso.
E,
assim retido, posto a sonhar
Deixo
a alma ganhar seu peso
Pra
com ela pousar os pés na terra,
Fluir
d'água que nuvem encerra
Mas
que o sol impede de gotejar.
Tal
sou eu, quando passas perto
E,
sequioso como um deserto,
Não
permites sequer contigo falar!
Joaquim
Maria Castanho
5.19.2019
A GRANDE DIFERENÇA
TUDO
TERIA SIDO TÃO DIFERENTE
Toca
de leve nos meus sentidos:
Clica
aqui, clica ali, clica acolá.
E
os sonhos disparam desmedidos
Nuns
beijos que te dei...
Mas
tu não estavas lá!
A
sede não tem fontes, não tem marés,
Não
tem mares, não tem rios, não tem céu.
Pisa
as areias das almas sem ter pés.
Põe
nossos tímidos corações ao léu.
Beijo-te
os lábios à distância...
Pequenos
passos que só o olhar dá,
Como
sílabas em metros de ânsia
Restos
duma infância
Que
não fui, nem sei...
Porque
tu não estavas lá!
Joaquim
Maria Castanho
5.15.2019
5.10.2019
GRANDE AJUDA
A GRANDE AJUDA
“É
essencial gerir a fome;
A
fartura gerida está.”
“Comer
muito também nos come,
Sobretudo
no melhor que há.”
“O
que sobra não se consome,
Que
a gordura, gordura dá.”
“Bola
de sebo não é nome,
Nem
rebola onde quer que vá.”
Tudo
coisas já bem sabidas
Plos
mais comuns dos mortais,
Prò
governo de suas vidas
A
ver se duram um pouco mais
Do
que era comum ou vulgar...
– A
fome também ajuda a durar!
Joaquim
Maria Castanho
Com
foto de Elie Andrade
5.09.2019
TANTA MORTE POR NADA...
TANTA MORTE POR
NADA...
Toca
na luz a asa estreme
Polindo
sombras e arestas;
Usa
os pólens como creme
Pra
tapar cerzindo as frestas
Com
arraiais ribeirinhos
E
daquelas marchas funestas
Que
se exibem plos pelourinhos,
Plos
altares das ordens pagãs
Onde,
com olhos esgazeados,
Loucos
mataram pessoas sãs
Por
terem sido doutrinados
Por
outros loucos endeusados...
Coisas
acontecidas outrora
Quando
éramos antigos,
Mas
que esquecemos agora
Porque
temos outros perigos.
Porém,
memória salva também,
Não
do passado mas futuro,
E
que nunca o olvide ninguém:
Tantas
crianças foram mortas
Por
o mundo lhes fechar as portas
Somente
em troca dum muro!
Joaquim
Maria Castanho
Com
montagem de Elie Andrade, em memória de todas as crianças judias
mortas pelos nazis durante a Segunda Guerra Mundial, 1939-1945.
5.08.2019
ESPELHADO SENTIR
ESPELHADO SENTIR
A
poesia ausentou-se...
Foi
contigo a qualquer lado!
Deixou-me
conforme te trouxe
Num
momento desesperado.
Fê-lo,
propósito vincado,
Com
intenção bem explícita
De
fazer sofrer um bocado,
“Qu'a
dor à inspiração incita”.
Mas
é engano e 'tá errado
Magoar
para termos valor:
Quem
vale ama descuidado
E
não despreza nenhum amor.
Nem
o seu, somente porque é seu;
Nem
o nosso, porque valor lhe deu.
Joaquim
Maria Castanho
Com
foto (Parc Monceau, Paris), de Elie Andrade
5.05.2019
4.27.2019
4.25.2019
4.24.2019
UTOPIA PESSOAL
UTOPIA
PESSOAL
Se
pudesse, esquecia-te (já)
E
nunca mais te veria;
Mas
temo tanto por mim
Como
temo pla poesia.
Fazia-m'o
breve que abrevia
Ápice
entre está e não 'tá,
Prestes
a ruir, assim
Sílaba
o enuncia.
Punha
o querer num punhado
Mancheia
de versos disformes,
Onde
as sombras, enfim
São
luz, são a maresia.
Dava-lhe
haver por sobrado
Despensa,
sementes e fomes;
Alguns
ramos de alecrim
Prò
odor da melodia.
E
então, quando conseguisse
Já
predicado sem sujeito
Havia
de dizer: «Se pudesse
Tirava-te
também do peito!»
Joaquim
Maria Castanho
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