10.17.2012


«A LINGUAGEM SECRETA
DO UNIVERSO»
José Natário*

Fundação Calouste Gulbenkian
24 Outubro 2012 | 18h00


Há quase quatro séculos, Galileu Galilei escreveu, de forma profética que a “ Filosofia [Ciência] está escrita neste grande livro, o Universo, que está permanentemente aberto e ao alcance do nosso olhar. Mas o livro não pode ser compreendido sem antes aprendermos a linguagem e os caracteres em que está escrito. A linguagem é a Matemática, e os caracteres são triângulos, círculos e outras figuras geométricas, sem as quais é humanamente impossível compreender uma única palavra.'' (Il Saggiatore, 1623).

Nesta palestra se constatará como tudo o que descobrimos desde então acerca da natureza e funcionamento do Universo, dos fenómenos quotidianos às galáxias e às partículas elementares, tem vindo a dar razão a Galileu: a Matemática é a linguagem secreta do Universo, e quanto mais profundamente examinarmos os fenómenos superlativamente sofisticada (e bela) se torna a Matemática necessária para os descrever.

*José Natário nasceu em Lisboa em 1971, mas cresceu em Viseu, onde completou o ensino secundário. Licenciou-se em Matemática Aplicada e Computação no Instituto Superior Técnico em 1994, e doutorou-se em Matemática na Universidade de Oxford em 2000. É atualmente Professor Associado no Departamento de Matemática do Instituto Superior Técnico. E é autor de dezenas de artigos científicos, bem como do livro, General Relativity Without Calculus (Springer, 2011), no qual tenta explicar as ideias principais da Relatividade Geral usando apenas Matemática elementar.




Próximas conferências:
 14 Novembro 2012 | 18h00
Trigamia intelectual: Poincaré, Hamilton e Perelman
André Neves
Imperial College

12 Dezembro 2012 | 18h00
A Matemática, o Universo e tudo o resto
Jorge Buescu
Universidade de Lisboa

________________
Informações | Serviço de Ciência | Fundação Calouste Gulbenkian
 Av. de Berna 45 A, 1067-001 LISBOA
Estabelecimentos de ensino interessados em participar: T. 21 782 35 25

10.12.2012


A EVOLUÇÃO DA FAMÍLIA
Por José do Patrocínio Filho

(Excerto do livro Mundo, Diabo e Carne)

O Carnaval ia acabar.
Já não restava na Avenida nada daquela excitação, em que, ao profundo dos zé-oereiras, ao ritmo amaxixado da música dos ranchos, a multidão pulava, corria, apalpava-se, vozeava, num efusivo delírio.
O povo recolhia em teorias fatigadas, apinhado nos bondes.
Todavia, grupos de raparigas e rapazes, encaminhando-se para casa, tentavam superar a fadiga, cantando em coro:
“Na minha casa não se racha lenha,
Não abunda água, não se pica fumo…”
Eram quase três horas da madrugada.
Pela soleira das portas, mascarados exaustos, ou bêbados, jaziam derreados, esfregando um pé descalço…
As serpentinas, os confetes, no chão, já eram lixo e lama.
Fomos ao High-Life Club.
Em vão… Já estava no fim, aí também, o Carnaval. A concorrência combalida por quatro dias consecutivos de renhidos combates de confete e de lança-perfume, tentava angariar a derradeira champanha em torno às mesas de bacará. A música desfalecia no jardim, tocando arrastadamente no coreto um reportório sonolento.
Tudo ia resvalando aos poucos para as cinzas quaresmais da quarta-feira…
– Adeus… Até prò ano! Vamos dormir?
– Vamos… Isto está chocho: não tem futuro…
Neste momento, porém, entrou pela sala em que estávamos um bando alacre de Pierrôs – se é que Pierrôs podem ser rubros…
Foram uma rajada! Virando as cadeiras, desarrumando as mesas, vociferando e rindo, como se as amargas traições de Colombina fossem apenas uma fábula italiana…
Verdade é que nesse grupo, Colombina, em maioria, se travestira das vestes do lírico trovador… À orla das largas pantalonas rubras, apareciam, moldados na seda transparente das meias pretas, finos, nervosos tornozelos, como os da égua de raça de que nos fala o varão sensual do Cântico dos Cânticos… Sob as largas vareuses de seda desenhavam-se rins esculturais, enquanto seios túmidos e rijos saltavam como cabritos, cabriolando no rodopiar das danças.
Àquela hora da madrugada, na sala quase deserta daquele clube suspeito, não se podia contar com esses surtos espontâneos de juvenil folia: mesmo durante o Carnaval as profissionais da vida alegre são melancólicas e lerdas, no Brasil… De sorte que o cabaré só com espanto se animou ao contato febricitante dessa alvissareira mocidade que o invadira.
A música, no jardim, a grande reforço de zabumbas, rompeu imediata e repinicadamente num maxixe comunicativo. E os robustos palhaços, aceitando pares, saíram a requebrar com entusiasmo, abalroando com os garções e com as mesas, que ruíam num grande estrondo de louças!
Depois romperam os cantos, as vivas coplas apimentadas do estro efêmero e anónimo Momo:
“A Bahia é boa terra…
Ela lá e eu aqui!”
A noite ressuscitou. Recomeçaram as danças, espocaram champanhas, os notívagos e as cocotes desceram todos do bacará, a festejar, a admirar aquela inesperada juventude apetitosa, aquela alegria audaz e sem medida.
Só saímos de lá com o sol de fora!
Pelas ruas melancólicas das seis já havia gente a caminho do trabalho… Nós íamos para as ostras, em automóveis buzinantes e rápidos.
No mercado, porém, mal abancamos no “Garôto”, reclamando bucelas e moluscos, um guarda-civil austero nos intimou a retirar as máscaras.
Discutimos. Protestámos com energia. Mas as ostras já estavam servidas e, diante do categórico «são ordens», o Carnaval acabou: as máscaras caíram.
Passou-se então uma coisa muito mais surpreendente que tudo quanto ocorrera na ressurreição da noite, no clube desolado onde os clowns rubros tinham entrado com uma rajada de excitação: as carantonhas que viramos durante toda a madrugada, rindo alarvemente com seus grossos lábios bestiais de papelão, recobriam os rostos amarrotados pela pândega, mas juvenis e patrícios, de algumas estonteantes senhorinhas.
E ali, nas ostras, como num salão honesto, um pouco contrafeito, mas estimulado pela audácia de alguns pares travessos de olhos amendoados e negros, um dos clowns, em cuja face espinhava uma forte barba de quatro dias, apresentou-me cortesmente:
– Minhas manas… 



De manhã cedo, quando as aves trinam
E a cerração nos descampados dorme,
Saltar de cima do lombilho e logo
Lavar o rosto na lagoa enorme.

Ir ao curral, e, mesmo na porteira,
Uma guampa beber de leite quente;
Sovar a palha e ir picando o fumo
A conversar com essa boa gente.

Encilhar o matungo, ir, no tranquito,
Dar uma volta por aqueles pagos
E na venda mais próxima apeando
Cantar ao violão, tomando tragos.

Depois voltar ao rancho ou ao sobrado,
Tanto num como noutro há boa gente;
E na rede – suspensa de dois caibros –
Saborear um chimarrão bem quente.  

MÚCIO TEIXEIRA

ALMA NUA



Sou o lago que a luz do céu reflete,
Sou o voo das aves pelos ares;
Sou o vento sutil, que se intromete
Na folhagem dos bosques seculares.

Sou o leão que no deserto ruge
Se os tufões as areias movimentam;
Sou a torrente férvida, que estruge
Quando na praia as ondas arrebentam.

E… sou o colibri que beija as flores,
E no aroma das flores se embriaga;
Sou a falena: atraem-me os fulgores
De uma luz que vacila, e não se apaga.

Sendo todas as coisas, sem que possa
Saber o que é que sou, e o que são elas;
Eu, na incerteza que de mim se apossa,
Confundo a luz do olhar com a das estrelas.

É dos meus olhos que essa luz se exala,
Ou recolho os seus raios na retina?
E no silêncio, em que minh’alma fala,
Vibra uma interna música divina.

In MÚCIO TEIXEIRA, Brasas e Cinzas, Imprensa Nacional. Rio de Janeiro, 1922, págs. 15-16


Minha alma fria, e já desenganada,
Despida de ilusões a fantasia,
Em gostoso sossego aqui vivia
Dos prazeres do mundo já deixada.

Eis que por novo acaso sou tirada
Do profundo letargo, em que jazia;
Pela mais agradável simpatia,
Aos Elísios minha alma é transportada!

Magnético poder a ti me prende;
É só fria amizade? Não: eu minto;
Tanto fogo a amizade não acende.

Que descubro! Ó Céus! Belo Filinto!
Que repentina luz me aclara e fende!
É amor… é amor que por ti sinto!

ANA EURÍDICE EUFROSINA DE BARANDAS

CARNAVALESCOS
Por Olavo Bilac*


São uma gente à parte – quase uma raça distinta das outras. Os que amam o Carnaval, como amam todas as outras festas, não são dignos do nome de carnavalescos. O carnavalesco é um homem que nasceu para o Carnaval, que vive para o Carnaval, que conta os anos de vida pelos Carnavais que tem atravessado, e que, na hora da morte, só tem uma tristeza: a de sair da vida sem gozar os Carnavais incontáveis que ainda se hão de suceder no Rio de Janeiro pelos séculos sem fim.
Que se hão de suceder no Rio de Janeiro – escrevi eu. Porque o verdadeiro, o legítimo, o autêntico, o único tipo de carnavalesco real é o carnavalesco do Rio de Janeiro. A espécie é nossa, unicamente nossa, essencialmente e exclusivamente carioca: só o Rio de Janeiro, com os seus Carnavais maravilhosos, delirantes e inconfundíveis, possui o verdadeiro carnavalesco.
E não suponham que haja por aí muitos verdadeiros carnavalescos… Quase todos os foliões do Carnaval folgam por acidente, ou por imitação, ou por desfastio, ou por entusiasmo passageiro: folgam dois anos, ou cinco anos, ou dez anos – e casam, recolhem-se à vida séria.
Mas o carnavalesco legítimo não tem cansaço nem aposentadoria: envelhece carnavalesco, e morre carnavalesco; morre no seu posto, extenuado pelo Carnaval, devorado pelo Carnaval. O Carnaval é para ele, ao mesmo tempo, uma paixão absorvente e arruinadora, um vício indomável, uma religião fanática. Para ele, o Carnaval é o único oásis fresco e perfumado, que se antolha no adusto deserto da vida.
É esse o verdadeiro carnavalesco. Trabalha todo o ano, pena e sua doze meses a fio, privando-se de tudo, alimentando-se mal, vestindo-se mal, acumulando somiticamente, ansiosamente, alucinadamente, vintém a vintém, os contos de réis que há de gastar no Carnaval. São doze meses de sacrifício, de renúncia, de desprendimento: o carnavalesco pensa no Carnaval. Não era maior do que a sua constância de Jacó, pastor apaixonado, servindo o velho Labão, pai da formosa Raquel… O carnavalesco, pata conquistar o Carnaval, pena toda a vida.
“Dizendo: mais penara, se não fora,
Para tão grande amor tão curta a vida!...”
Acontece, às vezes, que o carnavalesco já não é um rapazola, sem família e sem deveres sociais: – é um homem maduro, negociante matriculado tendo próprio casal e nele assistindo, tendo mulher e filhos, tendo apólices e comenda. Pouco importa! É um carnavalesco… Na vida desse homem, de vida regrada e equilibrada, o Carnaval é um hiato, é uma síncope, é a anulação completa da sua consciência de homem e de chefe de família, é a suspensão absoluta de toda a sua gravidade de negociante e de comendador.
A família conhece e perdoa a sua paixão: e no sábado de Carnaval, ei-lo que se despede dos seus, e parte para o delírio, com os olhos acesos em febre e o coração rufando um zé-pereira precipitado – como os antigos paladinos da Cruz partiam para Jerusalém a defender o Santo Sepulcro, ou como os heróis da ciência partem para o polo a devassar o mistério das neves eternas. Parte – e a família não o vê durante os três dias fatais; e, na quarta-feira de cinzas, o carnavalesco volta ao seu lar e ao seu negócio, moído, pisado, contundido – e muitas vezes com a cara quebrada – mas sem remorso, sem arrependimento, com o orgulho que dá a consciência da missão bem cumprida…
Evoco a recordação, neste momento, de alguns carnavalescos autênticos, que tendo conhecido – e dois, sobre todos, avultam na minha memória, claramente relembrados.
Um deles era um comerciante rico, cuja opinião pesava na praça, e cuja firma valia ouro nos bancos. Não tinha vícios: não fumava, não jogava, não bebia, não frequentava cantinas nem chafaricas suspeitas. Era carnavalesco…
Haviam-no feito presidente de uma sociedade de carnavalescos – e era ele quem pagava a baderna, quem sustentava a glória do pavilhão do clube. E somente duas vantagens e regalias exigia, em troca das muitas dúzias de contos de réis que lhe custava cada ano a sua paixão: a honra de carregar o estandarte social e o privilégio de dar as “idéias” para os carros de crítica no grande préstito da terça-feira.
Quando o conheci, já ele tinha vinte anos de carnavalesco e de fornecedor de “idéias”. E, como eu o cumprimentasse pela fecundidade da sua imaginação, disse-me, apertando a cabeça entre as mãos: «Realmente, eu não sei como esta cabeça ainda pode ter ideias! Imagine o senhor: vinte Carnavais!...» E parecia-me realmente acabrunhado e sucumbido ao peso da sua missão; e eu inclinei-me diante dele, saudando-o, como se tivesse diante de mim um Darwin, um Comte, um Spencer, um desses criadores de doutrinas e sistemas, que atravessam a vida semeando ideias pela imensa extensão do campo moral…
Mas era de vê-lo, na terça-feira de carnaval, no alto do grande carro do estandarte, sobre uma montanha de papelão dourado, empunhando o pavilhão do clube, entre quatro meretrizes que lhe formavam a guarda de honra – e atravessando a cidade, numa apoteose, ao clamor triunfal das fanfarras, sob a abóboda chamejante dos arcos de gás, ao clarão vermelho dos fogos-de-bengala! A sua face, nédia e escanhoada, de honrado comerciante – resplandecia ali como a de um Deus! Assim devia Baco partir para a conquista das Índias! Assim deviam os triunfadores romanos entrar em Roma, depois da vitória, precedidos pelos senadores, pelos litores e pelos bucinatores, entre os despojos de guerra e as riquezas do saque! Aquela noite só, pagava ao carnavalesco todos os seus sacrifícios de dinheiro e todos os seus esbanjamentos de ideias… Hoje, esse carnavalesco é morto; morreu sempre rico, sempre respeitado, sempre honrado – e sempre carnavalesco. Quanto à causa da morte, não tenho informações seguras: não sei se foi apoplexia proveniente do orgulho de uma daquelas noites de triunfo, ou se foi anemia cerebral, proveniente de imoderada criação de ideias…
O outro, cuja figura tenho agora presente ao espírito, era um carnavalesco pobre – dos que economizam o dinheiro durante todo o ano para gastá-lo no Carnaval. Era um guarda-livros. Não lhe escrevo o nome – nem a alcunha, mais conhecida ainda do que o nome. Era famoso! Fantasiava-se e mascarava-se no sábado, e só tirava a fantasia e a máscara na quarta-feira, para dar entrada num hospital da Ordem Terceira, onde se refazia durante um mês dos estragos dos quatro dias de loucura. Com a continuidade do exercício carnavalesco, já a sua face adquiria esgares grotescos de máscara e a sua voz descera a tons aflautados de disfarce de dominó.
A tuberculose acabou por lhe tomar conta do corpo, depois de um dos seus desvairados Carnavais. Mas ainda o carnavalesco viveu dois ou três anos, tísico – sem abandonar o Carnaval. E nos Carnavais desses dois ou três anos – lembro-me bem! – era um espetáculo de chita ou de cetim, com os ossos do corpo descarnado, dançando dentro das pantalonas amplas e de blusa larga, tendo por máscara a sua própria cara escaveirada, em que os olhos ardiam com o brilho da febre hética – e dizendo as coisas engraçadas entre dois acessos de tosse convulsa. Era um pesadelo!
Alguém que o conheceu até à morte contou-me que esta se deu – ironia da sorte ou da bondade do destino – num domingo de Carnaval, à hora em que a mais atroadora e bárbara era pelas ruas a alegria carnavalesca…
Não creio que a morte lhe tenha aparecido com a sua trágica e terrível majestade habitual. Suponho que, no seu delírio último, ela lhe apareceu como uma Morte de Carnaval – dessas que encontramos por aí, entre os velhos de cabeça enorme e os diabinhos de cauda vermelha, nos cordões que, inconscientemente, reproduzem as cerimónias cómicas e pavorosas da Idade Média.
Assim ela pode ter aparecido, a Morte, ao carnavalesco moribundo – como uma velha amiga de folia e de pândega. E o carnavalesco arrojou-se aos seus braços com alegria, e foi valsando com ela, cabriolando com ela, cancaneando com ela, até com ela cair no grande abismo negro…
Coisas de carnavalescos! Não lhes dizia eu que os verdadeiros carnavalescos são uma raça à parte, uma gente que se não parece com as outras gentes e que nasce carnavalesca para viver carnavalesca e morrer carnavalesca?        

* Olavo Bilac nasceu em 1865, no Rio de Janeiro, e faleceu na mesma cidade em 1918. Este trecho pertence ao livro Ironia e Piedade.
E nesta crónica, o autor, com a sua extraordinária sensibilidade de poeta, traça um nítido perfil do verdadeiro tipo de carnavalesco, aquele que vive e morre pelo Carnaval.

10.11.2012


CARNAVAL – 1910
Por Graciliano Ramos*


Eram três dias bem desagradáveis. Sujeitos precavidos fechavam-se, olhavam suspeitosos a rua, mas isto não os livrara de pesares: se se distraíam, inundavam-nos jatos de água suja. Iam mudar a roupa, furiosos. Avizinhavam-se depois das janelas, atentos aos moleques armados de bisnagas enormes de bambu. Além desses inimigos, havia os indivíduos que traziam, em mochilas, pacotes de alvaiade, zarcão, ocre, tintas de todas as cores, com que se pintavam os transeuntes.
Um doutor verboso declamava discursos irados nas esquinas, referia-se aos selvagens, aos tupinambás. Ninguém lhe dava importância – e a zanga esfriava. Bem, agora, molhado, não valia a pena recolher-se. O jeito que tinha era entrar na função, tornar-se também selvagem, vingar-se, provocar outras indignações e arrastar para a folia os amigos cautelosos.
Animavam-se todos e perdiam a compostura, acabavam achando aquilo interessante. Alguns viam perfeitamente que estavam fazendo maluqueira e desregravam-se com moderação, quase a pedir desculpas encabuladas à cidadezinha pacata. Homens graves, pais de família, tisnados, bebendo, aos gritos. Mau exemplo, doidice. Na quarta-feira retomariam a sisudez necessária.
Cadeiras nas calçadas. Meninas sérias e bicudas reprovando os excessos, onde se arrumavam os papelotes. Não se contaminavam, estavam livres de pintura, dos banhos, de atrações perigosas: comportavam-se direito, como se aguardassem a passagem da procissão. Rapazes ousados atiravam nelas esguichos de água de cheiro e eram mal recebidos. Muxoxos. Que assanhamento! Nada de confiança. Brincadeira com moça findava na igreja ou rendia pancada. Os desejos não se escondiam sob nuvens de confete, não se amarravam com serpentinas, não se excitavam com éter.
Ainda se desconhecia o automóvel. A gente escassa pisunhava nas barrocas do calçamento ruim, equilibrava-se nas pedras pontudas.
As negras se haviam tingido com papel vermelho molhado. E andavam tesas para não desmanchar os enfeites do pixaim1, branco de fiapos.
De longe em longe desfilavam grandes parafusos, tipos envoltos em numerosas anáguas que se iam encurtando. As de cima, perto do pescoço, eram camisas de crianças. Esses espantalhos andavam inchados por dentro e por fora pacholas, cobertos de renda engomada.
Papangus2 vagabundos enrolavam-se em sacos de estopa, sujos, as caras escondidas em fronhas, as mãos calçadas em meias.
Bobos de máscaras horríveis se esforçavam por aterrorizar os meninos. Gingavam, falavam rouco e fanhoso:
– Você me conhece?
Se não conseguiam disfarçar-se, recebiam vaia e ficavam arreliados.
O índio, de penacho e tanga, era personagem obrigatória e silenciosa.
Passava o cordão, levantando poeira, causando entusiasmo. Um frevo3 decente em redor do porta-bandeira. Repetiam-se cantigas de dez anos sem nenhuma alteração, muitas bem ensaiadas. As figuras marchavam na disciplina; o homem da maromba4 conduzia o bando, importante; papai velho exibia vaidoso a cabeleira de algodão e as longas barbas de espanador; o morcego, na frente, fazia piruetas, agitando as asas de guarda-chuva.
Mascarados solitários produziam hilaridade com pilhérias antigas e ditos grosseiros, inconvenientes. Outros, reunidos, firmavam as críticas, motivo de receios e alarmas5. Alusões a notáveis acontecimentos do lugar, comentários e fatos melindrosos e particulares, mexericos tolos, sem graça nenhuma. Criavam-se inimigos. E às vezes se liquidavam contas velhas.
Um cidadão espiava o morcego e o parafuso, de longe. Dois ou três embuçados musculosos entravam-lhe em casa, batiam-no a cacete. Berros, súplicas, sangue, apitos, sumiam-se na festa. Ninguém sabia donde vinham as pauladas – e era bom evitar opiniões. No ano seguinte as críticas seriam menos ofensivas.    
 

 * Graciliano Ramos nasceu em 1892, em Quebrângulo, no Estado de Alagoas. Foi na sua terra alagoana que Graciliano Ramos apanhou estes instantâneos tão expressivos de um carnaval antigo de província, com todos os seus aspetos peculiares, alguns já desaparecidos, outros já evoluídos e multiplicados.

1Pixaim – carapinha.
2Papangus – mascarados.
3Frevo – magote.
4Maromba – vara de equilibrista.
5Alarmas – sustos.

In ANTOLOGIA DE CARNAVAL, organizada por Wilson Louzada, com desenhos de Percy Deanne, Secção de Livros da empresa Gráfica “O Cruzeiro”, S.A. Rio de Janeiro, 1945

10.03.2012





A ILHA DA PAIXÃO
(a meus amigos portugueses)

Sempre que me perguntam: – «Qual o seu livro preferido»? Respondo: «A Ilha dos Demónios» – Margarida La Rocque. Voltam a perguntar: – «E porquê?»
Sem hipocrisias ou disfarces, muito comuns entre nós, escritores, enfrento toda a minha criação literária, a começar por Floradas na Serra e a percorrer contos, romances, teatro, ficção científica.
– «Sim, escolho a figura de Margarida La Rocque», porque para mim ela é um símbolo: o da força da paixão que desencadeia determinadas mulheres que se transformam em perseguidas-perseguidoras. É a paixão feminina em seu paroxismo.
Eu não teria a pretensão de dizer, como Flaubert disse de Madame Bovary – «Margarida Rocque sou eu.» Confesso que A Ilha dos Demónios foi escrito quando eu vivia em grande sofrimento. Como acontece a muitas pessoas, desci em vida aos infernos. E Margarida foi, por esse motivo, o livro de maior violência interior, por mim escrito. Nele analisei a paixão feminina em todo o seu desvario. Se Madame Bovary deu um tipo de neurose, hoje chamado pelos clínicos de bovarismo, Margarida é a “neurose da paixão”. Àquela época em que se passa o romance, a meio do século XVI, as angústias emocionais eram vividas em imagens. Os demónios de Margarida também afligiam outras personagens do tempo, quando as mulheres baixavam os véus ao confessionário, para confessar que estavam grávidas do demónio. Há várias explicações para os duendes que circulam em torno de Margarida. A lebre falante seria seu subconsciente? A Dama Verde seu ciúme? O Cabeleira a grande cabeça sem corpo, o desejo oculto de uma escapada ébria para o sobrenatural, que a livrasse de suas obsessões? São conjeturas válidas. Mas eu não arriscaria dizer que a interpretação foi minha. Sem dúvida, escrito em 1948, o livro precedeu, de mais de vinte anos, o realismo fantástico dos latino-americanos, escritores entre os quais sobressai um Garcia Marquez. Já era, entretanto, o realismo fantástico em toda a sua plenitude. Com o correr do tempo, A Ilha dos Demónios – Margarida La Rocque – foi ganhando mundo. Tornou-se livro traduzido até no Oriente; agora entra no Canadá e na Itália.
Um dos aspetos curiosos: a discussão entre frades de um convento, no rio: Margarida La Rocque podia receber a absolvição?
Outro, também estranho: Às quatro da madrugada o telefone toca, à mesa-de-cabeceira.
– É Dinah Silveira de Queiroz?
– Sim… o que quer?
– Não posso dormir pensando no seu livro. Agora minha vingança é… que a senhora não dormir também.
Dormi mansamente. Acho que até sorria, dormindo. Seria má? Não, o primeiro desejo de um escritor é do que acreditem em seus personagens ou fantasmas.
Ainda um resto de confissão: se não houvesse escrito este livro, com toda a certeza iria, sem resultados, frequentar psicanalistas. Todo o amargor que senti se foi com ele. E dele saí plácida e livre de angústias, para sempre.
Oferecendo-o ao público português, que tanto estimo e admiro, eu desejo que ele saia da experiência do romance em paz e ternura. Ternura e paz que muito merece da amiga

                                                           DINAH SILVEIRA DE QUEIROZ



PREFÁCIO do livro A ILHA DOS DEMÓNIOS (Margarida La Rocque)
Dinah Silveira de Queiroz
Edição «Livros do Brasil» Lisboa

8.30.2012


PREFÁCIO DOS EDITORES

Estas são as histórias que os cães contam quando as fogueiras ardem e a nortada sopra com força. Então cada família reúne-se em volta do seu fogo e os cachorros sentam-se silenciosamente e escutam. Quando a história termina, fazem muitas perguntas:
– O que é um homem?
Ou talvez:
– O que é uma cidade?
Ou ainda:
– O que é uma guerra?
Não há nenhuma resposta positiva para qualquer destas perguntas. Há suposições, teorias e muitas hipóteses, mas não respostas.
Nos círculos familiares muitos narradores destas histórias têm-se visto forçados a dar a antiga explicação de que apenas é uma história, que nada há que tenha os nomes de “homem” ou de “cidade” e que a verdade não se deve procurar num simples conto: um conto aceita-se, e é tudo.
Explicações deste género, embora possam satisfazer cachorros, não são, evidentemente, explicações. De fato, a verdade deve ser procurada em simples contos, como estes são.
A lenda, composta de oito contos, tem sido narrada durante inúmeros séculos. Tanto quanto pode determinar-se, não tem ponto de partida histórico e o estudo mais minucioso não consegue determinar as fases do seu desenvolvimento. Não há dúvida de que, de tanto ser relatada, se estilizou, mas não há processo para descobrir o sentido da sua estilização.  
A afirmação de alguns escritores de que é antiga e, em certa medida, de origem não canina resulta da abundância de tagarelice que acompanha os contos – as palavras e frases (e, pior que tudo, ideias) que atualmente não têm significado e talvez nunca o tenham tido. Devido ao constante relato, estas palavras e frases foram aceites e, por hábito, foi-lhes atribuído um certo valor arbitrário. Mas é impossível saber se estes valores se aproximam ou não do significado original das palavras.
Esta edição dos contos não tem a mínima pretensão de abordar a enorme quantidade de argumentos técnicos que sobre que sobre a existência ou não existência do homem, o enigma das cidades, as várias teorias relacionadas com a guerra ou qualquer dos outros inúmeros problemas se levantam e perturbam o estudioso que percorre alguma forma de existência de uma verdade básica ou histórica da lenda.
O propósito desta edição é simplesmente dar um texto completo e genuíno dos contos tal como hoje são narrados. As notas aos capítulos são utilizadas apenas para frisar os pontos de maior especulação, não pretendendo pois tirar conclusões. Para aqueles que procuram uma maior compreensão dos contos, ou das muitas dúvidas que acerca deles se levantam, há exaustivos tratados escritos por cães de muito maior competência do que a dos presentes editores.
A recente descoberta de fragmentos do que parece ter sido um extenso movimento literário tem sido apresentada como o mais forte e atual argumento para atribuir pelo menos parte da lenda ao homem mitológico (opinião discutível, claro), em detrimento dos cães. Mas até que se prove a existência evidente do homem tem pouca importância o argumento de que os fragmentos descobertos são originários do mesmo.
Particularmente significativo ou perturbador, e isso depende do ponto de vista, é o fato de o título aparente dos fragmentos literários ser precisamente o de um dos contos apresentados. É claro que as palavras, em si, são inteiramente desprovidas de significado.
Evidentemente que a pergunta fundamental é se alguma vez existiu um ser chamado “homem”. Presentemente, na ausência de provas positivas, o raciocínio prudente leva-nos a concluir que não existiu e que o homem, tal com o é apresentado na lenda, é um produto da imaginação popular. É provável que o homem tivesse surgido no início da cultura canina como um ser imaginário, uma espécie de rácico, a quem os cães pediam auxílio e conforto.
Contudo, apesar destas conclusões prudentes, há quem veja no homem um deus mais antigo, um visitante de uma terra ou dimensão mística que chegou, deu a sua ajuda e depois regressou ao ignoto.
Há ainda outros que acreditam que o homem e o cão cresceram simultaneamente como dois animais cooperadores, que podem ter sido complementares no desenvolvimento de formas culturais, mas que em certa altura, já perdida no tempo, os seus caminhos se diferenciaram.
Entre todos os fatores perturbantes dos contos (e são bastantes), o mais confrangedor é a sugestão da reverência conferida ao homem. É difícil para o leitor médio aceitar esta reverência como um simples artifício da narração. É uma reverência que ultrapassa a descuidada adoração do deus tribal, e instintivamente se sente que ela está profundamente enraizada nalguma crença ou rito hoje esquecido, envolvendo a pré-história da nossa raça.
Atualmente são poucas as esperanças que há de se vir a resolver qualquer dos vários pontos de controvérsia que fervilham na lenda.
Aqui estão, pois, os contos, para serem lidos com espírito que aprouver ao leitor – só por simples prazer, em busca de um significado histórico ou procurando alguma sugestão dum símbolo oculto. E eis o nosso melhor conselho ao leitor médio: não os tome demasiado a sério, porque a confusão total, se não a loucura, o espera se tal fizer.   

In CLIIFFORD D. SIMAK, A Cidade no Tempo, trad. Manuel Pina e Alfredo Margarido, nº 1 da coleção Escalas do Futuro, Edições Europa-América, Lisboa 1955.

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

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Escribalistas é órgão de comunicação oficial de Joaquim Maria Castanho, mentor do escribalismo português