11.06.2016

A CASA DO CORPO - II


DA TIMIDEZ (IN)CONCLUDENTE


NAMORO - II


LETRA F




LETRA F 

Fazer isto e aquilo, fisgar, fintar
A fome, a fadiga, o fingimento, 
É afã que nos ajuda a durar
Além do destinado duramento. 
Afagar ficções felizes, e dourar
Fenómenos fugazes, sabimento
Dos outroras, mas que se fez secular,
É afazer – afoitado entendimento. 
Que os feitores das almas humanas
Não fomentam famas sem fundamento; 
Nem se perdem por fulanos e fulanas
Que fulanizam só por fobia vã… 
Fitam frontais invejas insanas
E fazem, e criam, e preparam o amanhã! 

Joaquim Maria Castanho 

11.05.2016

LETRA E




LETRA E 

Ébrio que nem um sonho fugitivo
Dum vendaval de estrelas insanas, 
O sol, que foi rainha do primitivo 
Homem, é ora réstia de semanas. 
O esplendor, pede-o emprestado. 
O calor, vai de oito a oitenta. 
Sorriso? Esse, só se for imitado
Pelo teu, quando me acalenta. 

Ele (que é Ela), tudo cria assim; 
Tudo inventa, alimenta em ser 
– Energia, luz, voo de Fénix e Querubim –, 
É círculo perfeito, ciclo de dizer
A vida, também em ti aprendido
E imitado… mês a mês repetido.

Joaquim Maria Castanho   

11.04.2016

Conjunto de poemas de autores que participaram nos Momentos de Poesia


LETRA D




LETRA D 

Depois do depois, dito agora
Despe-se devagar-devagarinho
Uma árvore que o vento aflora,
E sem demora acata teu jeitinho
De sol, luz em pétalas aspergida
A brilhar em si bemol, pró hino 
Que soa se entoa a própria vida. 
Diz que lançou raízes no destino. 
Diz que deve quanto é A Deus. 
À desdita, porém, nega o caminho
Feito à imagem dos passos teus.

E diz-me a mim, que somente digo
Para dizer quanto te quero bem, 
Que, se puder seguir no vento, sigo
Pra tocar-te, mal ele te aflore também. 

Joaquim Maria Castanho

11.03.2016

LETRA C




LETRA C 

Circe transformava homens em porcos; 
Colette deu-lhes ainda menos valor. 
Camões atirou-os prà Ilha em barcos
Reféns, que não viram no mar esplendor. 
Muitos somente queriam escapar; 
Outros, ter a segurança terrena. 
Mal sabiam eles que o infindo mar
Faria da Terra uma, por pequena! 

Triste triunvirato este nosso
(Sorte, Oportunidade e Acaso)
Que dá aos seres “o que só eu posso”
Dos monstros, e de Deus o desembaraço; 
Mais o poder de salto do cavalo
Que faz espesso o que é parco e ralo. 

Joaquim Maria Castanho

11.02.2016

LETRA B




LETRA B 

Já bailam pla natureza da hora
Os bêbados segundos da espera, 
Que quem fica também se vai embora
E, colado ao outro lado, degenera; 
À segunda versão de si proposta, 
Opção e contraste, conforme se aposta
E da face negra a luz recupera. 
Silencio que diz ou fala que cala, 
Que quem é feliz num ai se exala
Mal se descuide ante o querer bem, 
Que seguido ao nome toda flor tem
A pérola que Hamlet nunca bebeu 
– Tendo-a bebido apenas sua mãe… 

Logo, ele ficou; porém, ela morreu! 

Joaquim Maria Castanho

11.01.2016

LETRA A




LETRA A 

Abrevio a sede, abrevio o nome
Se no vaivém do mar oscila rede,
Esperança balança, se consome
Por duas sílabas apenas duas
Não mais, e por letras outras tantas,
Repetindo-se a primeira no fim
Incluindo bem no meio três ruas, 
Subindo ou descendo por quantas
Vogais repetidas tenho em mim.  

Se fosse fruto eram triplicadas… 
Porém, como cor, bisam simplesmente; 
Tal e qual no teu nome espalhadas. 
Do alfabeto é a porta da frente. 
E começo do sentir maior na gente!

Joaquim Maria Castanho

10.30.2016

OUVIR A LUZ




OUVIR A LUZ 

Inebriado pla sede e sofreguidão 
Osculo cada pétala do instante; 
Sonho que também tivera por tua mão 
A razão de ser plena e circunstante. 
A ela deve a fruta o ser doce e sã.
A ela deve o pão seu mister sagrado. 
E por ela o sol nasce em cada manhã
Quente, reconfortante e “iluminado”. 
Tem no brilho mesma forma de sorrir
Que tu tens quando o fazes (natural); 
Mas se fala… Então, é luz de ouvir
Sem sofismas nem fintas pra iludir… 
Só simples, clara e sem outra igual 
– No passado, no presente e no porvir! 

Joaquim Maria Castanho

10.29.2016

ACORDO PRA SENTIR




ACORDO PRA SENTIR 

Discreta, serena, contagiante
Sobre este caminho nítida voz
Abre veredas, a todo o instante, 
Que repetem aquelas versões de nós
Com que costuramos o ser (sem retrós). 

São veredas de arar na alma aberta
Com sílaba corrente prà lucidez, 
Que, se transparente, anseio conserta
Sem pecúlio no contar «Era uma vez», 
Tido por definitivo – coisa certa. 

Porque eu escuto-te SEMPRE e ainda
Bem depois de ter falado contigo, 
E sinto que esse falar nunca finda
Mesmo se plo olhar reitero e digo
Que sentir é uma voz que nos desperta.

Joaquim Maria Castanho 

10.28.2016

LADEIRAS INTERIORES




LADEIRAS INTERIORES 

Já solta e suave coroa ardente
Onda encrespada tubular, arco
Sístole do verbo que diz a parte
Como todo, silente te abarco
E, suspenso, em ti me reparto 
Ósculo após ósculo se acarto
Dos olhos o magma intencional… 

És o meu segredo que toda gente
Conhece; todos sabem que existes. 
Do ar circundante a flor ambiente
(Corola e cálice em que consistes)
Por cujo aroma a pétala insiste
Segar dos sonhos o que seja triste 
– Como o ímpar das estrelas do plural. 

Tenho-te presa dentro do meu grito
A viajar entre o ocaso e infinito
Pelas ladeiras da luz interior; 
Tão intensa, genuína, que acredito
Que és da sílaba a pérola em flor. 
E mais que voz de «Bom dia» ocasional
És ainda o sol veloz, se me permito 
Senti-lo puro, bendito, e normal. 

Joaquim Maria Castanho 

10.27.2016

A MAGIA DA SURPRESA




A MAGIA DA SURPRESA 


A fada que me enternece 
Desaparece ou aparece, 
E enquanto Musa tece
Sempre essoutra dimensão 
Com que o sol às almas aquece
Quer no inverno como verão… 

Faz a magia parecer real, 
Porém, com um encanto tal
Que a realidade é ideal 
Mas sem a sombra da ilusão, 
Que traz às vezes o bem e o mal
Se se instala no coração. 

Das Musas que pela vida há
Só ela tem o dom perfeito, 
De ao vê-la, saber que está
Também dentro do meu peito.  

Joaquim Maria Castanho

10.26.2016

ALCANÇAR AS ESTRELAS




ALCANÇAR AS ESTRELAS 

Às portas do céu, a cavaleira
Celeste, tão celta como moura, 
Interrogou a luz vindoura
E, após curveta, foi certeira 
Flecha, raio divino, maneira 
Que Olimpo tem de falar às gentes
Humanas, soberanas, que do sonho
Guardam cetro, cálice e lanho
Entre auroras e ocasos fulgentes, 
Tendo-lhe respondido (sem voz): 
«És a glória sagrada que há em nós, 
Que nascemos da chama primordial
Múltiplas, aspersões sobre bem e mal.» 

Seus cabelos escorreitos e lisos
De seda quase chumbo nacarado
Em camadas descaídos, precisos
Oscilam plo voo ao azul estrelado, 
E aí brilham feéricos inocentes. 

Osculo-os de pronto, mentalmente 
– Fiel devoção às fadas supremas… –,
E tão inebriado e obediente 
O faço, que brotam flores serenas
A dançar a compasso, e balanço, 
Que também eu às estrelas alcanço! 

Joaquim Maria Castanho     

10.25.2016

A NOVA DEMANDA




A NOVA DEMANDA 

Contundente como um adjetivo 
O advérbio de modo disparou 
À desfilada, o freio nos dentes
Brida arrastando chão na planície
Oh sorraia, baio torrado dos sonhos  
Crina esvoaçando sul desnorteado
Entre estevas, giestas e alecrins. 

Sobre sela de cetim e pele de anho
Traz Viviane o cálice da fertilidade
Senhora das chuvas e das nascentes
Rios e lagos, e das flores sem idade
Caem vertigens das pétalas no clímax  
Se Excalibur em suas mãos chispa o sol. 

Seus raios são capazes de segar a dor. 
Seu ventre explode ao balanço do salto.
Seu olhar emite nova demanda do amor. 

Joaquim Maria Castanho

10.23.2016

O APÊNDICE SOCIAL




O APÊNDICE SOCIAL

Não há Verdade mas verdades
Que a mentira pode corromper, 
Desde qu’ela saiba o que sabes
Embora que não o saibas dizer. 
Viver é algo em que cabes
Sem precisar de te encolher, 
Mas esticam-te em partes ardes
Ou dão-te infernos pra viver. 
«A escolha foi tua», informam
Como se nascesses criado,
Sublinhando o que contornam
Aind’assim não mudes de lado; 
Desistas de ver-te torcido
E exijas o que te é devido!

Joaquim Maria Castanho    

10.22.2016

OS SEXISMOS E A PRECARIEDADE




OS SEXISMOS E A PRECARIEDADE 


Abrem-se as espinhas da penumbra, 
Arrepia-se pela sombra este sol,
Que o ser inventa o que o deslumbra
E amassa no chão, se fica mole. 
Os contingentes nebulosos passam, 
O céu é só cinza alvoraçada, 
Sem o mínimo azul que o console
Da fé e esperança atraiçoada. 
À humana estirpe já compete
Reimplantar o advento que repete
As inquisições; e as bruxas assam
Ante as fleumas dos falatórios, 
Qu’os sonhos só vingam se corroboram 
Outros – ainda que contraditórios! 

Joaquim Maria Castanho 

10.21.2016

O EROTISMO DAS RIMAS




O EROTISMO DAS RIMAS 

Intransigente como uma haste
À beira-caminho o olhar fustiga
Acarreta sombras, dispara verbos
Desfolha papoilas, e a espiga
Invade a curva que atropelaste; 
Veste de nuvens o céu profícuo
Adorna nos silos entre sementes
Desmaia como faminto bêbado. 

Dos sonhos sobraram as raridades
Também alguns acordes encantados
Pequenos gestos nunca esquecidos 
Ou o adocicado odor das maçãs
Maduras folhas amarelas levitam
Sobre o piso de caruma moída…

Porém, em equilíbrio precário
E frugal, versos estabelecidos 
Dizem que só ficarão corrompidos
Por rimas despidas de calendário. 

Joaquim Maria Castanho

10.20.2016

OLHAR VAZIO




OLHAR VAZIO 

Por me arrastar pelas horas
Deste dia assaz corroído, 
No plangente chiar de noras
A tirar dor do tempo tido, 
É que o sol, em febre, dolente
Raios macilentos, chorosos
Anda nas sombras desta gente
A pisar fungos ou remorsos
(Líquenes sociais venenosos) 
Pra destilar em aguardente
Fogo, desespero stressado 
De quem está aqui por falta de lado. 

Sou a mágoa fria, preconceito; 
Detenho na lápide do dia
A faca da frieza que mata; 
O silêncio que a mudez retrata; 
O (in)conformado trejeito 
De quem olha dentro da poesia
E não se vê como antes via!  

Joaquim Maria Castanho 

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

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Escribalistas é órgão de comunicação oficial de Joaquim Maria Castanho, mentor do escribalismo português