SE ME ALIMENTO
(quarta-feira, 28 de setembro de 2016
15:23)
Quando a voz no ser indistinto
Abre sulcos quase indizivéis,
Os sonhos no vaivém do instinto
Aproveitam os seus caminhos, e eis
Que sentem o que jamais sinto
Ou se derramam por esses papéis
Pintados com tudo o que não pinto...
Folhas avulso, ou restos dos dias
Feitos e desfeitos, descartáveis
Nas linhas que desvendam poesias;
Nos poemas que ocultam sentimentos.
Então, exceto o pão, por endurecer,
Quanto como passou pela tua mão
Certo dia que não consigo esquecer,
O que lhe concede essa dimensão
Que ninguém dará aos alimentos!
Joaquim Maria Castanho
A IDADE DO SENTIR
No sufrágio odorado da espera
A fala presa, esgar retraído,
O silêncio que adora e venera
Estende-se plo dia, consumido.
A brisa, ao tocar-lhe, recorda-te
Tal que passando por mim novamente
Te visse (outra vez!) plena de arte
Vendo o telemóvel, indiferente…
Passo cadenciado, trança prà frente
– Exatamente do lado que me prende –,
Sentindo tod’esse bem que ascende
Quando a esperança se faz praxe
E pulsa e ilumina, ou desmente
Que o amor só aos novos é que nasce!
Joaquim Maria Castanho
O RITUAL DA LEITURA
Regressar é rever-te (mentalmente),
Eterno retorno feito ritual,
Repetição de instante eficiente
Pra que se repita também o real
Cotodiano (sagrado) docemente
Inspirado na Poesia e Ideal,
Em rotina que alia o crer da gente
Ao querer que a tornará assim plural…
Os dias são as montras dos sentidos
Tidos e somados que a nossa alma tem,
Sendo nesse calendário vertidos
Aonde o sol só do coração nos vem.
E vindo, põe-nos o ser amado tão perto
Que o mundo se faz um livro aberto!
Joaquim Maria Castanho
PRECE AO DIA DE HOJE
Definitivamente amargo e triste
O sol, como quem a si mesmo resiste,
Insiste em continuar na jornada;
Não sei se acredita que a lua existe
Mas ainda que triste traz luz em riste
E persiste iluminar a tão marcada
Saudade em meu rosto abatido...
Pedir-lhe que prossiga sem euforia
Cuidadoso nas badaladas e atento
Aos minutos que no Tempo afia
E espeta um a um no coração sofrido
De quem os conta por afastamento,
É empresa de sacrifício doído
Até pra ele que não é dado sentir
O que o homem sofre neste momento.
Todavia, eu vou rogar-lhe, implorar
Que se mantenha sútil e sem sorrir,
Seja solidário a quem lho ‘tá a pedir,
Tão-somente e apenas pra não chorar!
Joaquim Maria Castanho
O SINAL
Prenúncio do que irá acontecer
(Plantar de figueira no caminho,
Queda, trepidar que deita ao chão…),
Foi anúncio do que não quero crer
Feito às portas de meu destino;
Aviso de que ficarei sem te ver
No preenchimento duma previsão,
Só acontecida por demais temer
O que me é contrário ao coração.
Por vezes, infligem-nos os deuses
Sofrer superior às capacidades
Que temos, em cruéis entremezes
Onde se divertem com as verdades
Que tornam as almas animadas,
Demonstrando serem ínfimos nadas
Os humanos anseios (felicidades),
Obrigando-nos a contínua provação.
Porém lhes digo: Só quem sabe dar a mão
E nos ajuda a erguer a fronte aos céus,
Reconhece o amor nos súbditos seus,
Merece da humanidade absolvição…
Seja ou não, pelo Olimpo, um deus!
Joaquim Maria Castanho
BBHHHAAA!!!
Almejam os ignaros decidir
O que os poetas devem escrever,
Para assim, talvez, se prostituir
A fim de que alguém os queira ler…
Ó pacóvios, contem-me outra,
Qu’essa história já está gasta,
Pois nenhum poema será montra
Das aldrabices da vossa casta!
Joaquim Maria Castanho
TROVA DO SENTIR PERENE
Tenho poema a periquitar
Plos olhos que há pouco vi,
Tão lindos, que ‘tou a pensar
Que foi por eles que nasci.
São avelãs de bem-querer
(Maduros sonhos cerzidos),
Capazes de nos meus ver
Como eles andam perdidos.
Prós ver e neles acreditar;
E sonhar vê-los agora aqui,
Num poema quase a chegar
Tão-só por me lembrar de ti.
São avelãs de bem-querer
(Maduros sonhos cerzidos),
Capazes de nos meus ver
Como eles andam perdidos.
Numa tão nobre perdição
Que não se vêem sozinhos,
Tendo feito do coração
Seus próprios caminhos.
São avelãs de bem-querer
(Maduros sonhos cerzidos),
Capazes de nos meus ver
Como eles andam perdidos.
Rotas ou descobrimentos
No alinhado meridiano,
Plo qual os sentimentos
Dum dia valem todo ano.
São avelãs de bem-querer
(Maduros sonhos cerzidos),
Capazes de nos meus ver
Como eles andam perdidos.
Joaquim Maria Castanho
SEMENTE LUMINOSA
Teu olhar acende estrelinhas
No meu sangue, cintilantes
Prà apagar flamas daninhas
Onde o ser me ardia antes;
Marc’os verbos destas linhas
E planta versos ofegantes;
Elege Musas em Rainhas
De poemas perto – e distantes.
É avelã doce mas pleno
Sentido sonho de magia,
A brotar puro e sereno
Dos nevoeiros sem poesia.
É luz no amanhã incolor…
Cujo brilho vai além da flor!
Joaquim Maria Castanho
VISÃO EXATA
A pele do poema (cetim nacarado)
Gema perlado com gotas de cristal,
Dança a cada passo teu, assim dado
Sob fulgor felino (quase) austral;
Estremece, bruxuleia cintilado
Por alucinações afro, porém real
Deixando meu olhar em si colado,
Sucumbido pla beleza magistral…
Tem a sensualidade dum soneto.
É flexível com’um S de sedução.
E emite esse perfumado trejeito
Dum ápice, no clímax (perfeito)
De exalar, nesse instante secreto
Em que eclode, a própria perfeição.
Joaquim Maria Castanho
ABSORTO TE ABSORVO
Há um Império de lonjura
Entre nós Pessoa chamou-lhe O Quinto
Mas, mesmo assim, na candura
Dos dias procuro o mar entrançado, e sinto
As vagas encaracoladas do ser
A enlear-me em sonhos que não sei dizer.
És o segredo de cada passada
O verbo aflora rimas ancestrais
E, na manhã da manhã, esperada
Sobre xis de cromossomas maternais,
Ditas poesias pelos céus diamantinos…
O sol empurra-te para o outro lado;
Porém, seguro-te, estendendo-te o olhar
Descuidado, para te guardar (ensimesmado).
Joaquim Maria Castanho
AS QUATRO PENAS DE LEI
Tantos há contra a pura transparência
Tornando turvas as águas da consciência
– Sendo as verdades de tão amargo custo
Pra quem não é sério, honesto e justo… –,
Que se nos atrofia a pena da poesia
E cresce a pena do penar plo dia-a-dia.
Mas a mim – que não sou sábio nem rico,
Nem o douto tido por inteligente –,
Basta-me contar a pena com que fico
Por rever nestas estrofes tanta gente!
Joaquim Maria Castanho
VIDA REFRATÁRIA
Repito os gestos, os caminhos pisados
Como s'eles tivessem o condão de repetir-te,
De tornar-te presente (novamente).
Insisto neles. Insisto em mim. Insisto
Como quem se atravessa na linha
Antes da existência passar (arbitrária).
Porque a minha vida jamais será minha...
E se o for – por hipótese! – será também refratária.
Joaquim Maria Castanho
A TUA AUSÊNCIA
É como se a poesia nos tivesse morrido
De uma síncope qualquer,
E a palavra, o verbo assim suprimido
Caísse ao túmulo abatido
Sem conseguir chorar, sequer…
Como se o vento vergastasse seu choro
Pelo chão sujo de palha ressequida,
Para despir as árvores, sem decoro,
Das verdes folhas que lhe foram vida.
É como se nos doesse o doer, até
Não haver hoje, nem amanhã,
Noites, dias, imagens, nota, rodapé;
E os poemas sangrassem sem fé,
E numa esperança vã.
Como se a voz ácida corroesse
A alma no seu íntimo mais puro,
E o mundo todo inteiro tremesse
Nos picos de um gráfico (inseguro).
É como se perdêssemos o nosso ser
Minuto a minuto esvaído,
E nos doesse pelo próprio dizer
Até ver o não-ver por temer
Ser o perder-se esquecido.
Joaquim Maria Castanho
À FLOR DO OLHAR
Como um lamento incolor
Lágrima do momento ou flor,
Deixo meus olhos esquecidos em ti.
Se pedisse vinham comigo
Sem sentir nisso um castigo,
Ou qualquer dolorosa impressão.
Mas se os escutasse ficavam aí
Mesmo sem se questionar da razão;
Porque eles serão sempre de quem vi…
De quem assim me chegou ao coração!
Joaquim Maria Castanho
TEMPO SEM FIM
Ainda tenho o olhar preso
Na trança de teu cabelo,
Mar rematado mas ileso
Onde naufrago por vê-lo.
Ainda escuto a tua voz
Nesse instante d’atenção,
Por cujo tom ecoam em nós
Címbalos de magia e condão.
Ainda agora fosse ainda
Meu olhar nascido em ti,
E já era elo que não finda
Preso à trança em que o vi.
Que ainda é tempo sem fim;
Começa assim que te vejo
Prà’cabar depois de mim…
– E rimas deste versejo!
Joaquim Maria Castanho
(Foto: Imagens Google)
RENASCIMENTO
Era tão difícil a poesia
Sem teu olhar, que nada sou
Se sem ele me perco no dia
A esbracejar, mas não voo…
Eram tão dolorosas, as horas
Com cada minuto forçado,
Quase chicotes, esporas
De flagelar meu eu acabado…
Porém, a estrela cintilou
E o escriba azedo, calado
Por magia desentristeceu;
Que a brisa amena voltou
Soltando o poema encerrado
Nas tristes grilhetas do breu!
Joaquim Maria Castanho
ECO E LUZ
Ninguém te espera;
Ninguém te entende.
Mas a esta esfera
Nem só sol a acende…
Ao calor interior
(Também essencial)
Damos pouco valor
– Ou nenhum, por sinal.
Mas à semelhança
Da humanidade,
É nesta importância
Que está a verdade.
Joaquim Maria Castanho
DA DURAÇÃO DOS DIAS
A saudade mina-nos
Como a doença ruim,
Que, por sermos humanos,
Já nos acontece também,
Como acontece em mim.
Trança de sétimo dia
(Triângulo por um elo),
Brisa mansa da Poesia
E sentir sem paralelo,
Por quem esta saudade
(Doendo de verdade!)
Não acontece a ninguém
Como m'acontece a mim?
A saudade mina-nos
Que nem a doença ruim…
Mas se somos humanos
Já nos acontece também
Como m’aconteceu a mim.
Sorriso é flor de poema
(Meu segredo de avelã),
Cujo olhar é tom e tema
Pró vento manso da manhã,
Porque doi tua ausência
Em delírio e demência
Nesta saudade sem fim,
Como se doença ruim?
O qu’acontece mina-nos
Porque somos humanos,
E vem um dia ensina-nos
Que os dias duram anos.
Pequena Musa, destino
De meu canto tão doído,
Porque soa forte este sino
(A ribombar de sofrido),
Que neste domingo sem fim
Ecoa, magoa, como desdém…
E se me acontece a mim,
Porque nos acontece também?
Duram dias por te não ver,
Como voam se te vejo,
Que a saudade é um ter
Sem ir além do desejo.
Joaquim Maria Castanho
(Foto: Imagens Google)