10.12.2012


ALMA NUA



Sou o lago que a luz do céu reflete,
Sou o voo das aves pelos ares;
Sou o vento sutil, que se intromete
Na folhagem dos bosques seculares.

Sou o leão que no deserto ruge
Se os tufões as areias movimentam;
Sou a torrente férvida, que estruge
Quando na praia as ondas arrebentam.

E… sou o colibri que beija as flores,
E no aroma das flores se embriaga;
Sou a falena: atraem-me os fulgores
De uma luz que vacila, e não se apaga.

Sendo todas as coisas, sem que possa
Saber o que é que sou, e o que são elas;
Eu, na incerteza que de mim se apossa,
Confundo a luz do olhar com a das estrelas.

É dos meus olhos que essa luz se exala,
Ou recolho os seus raios na retina?
E no silêncio, em que minh’alma fala,
Vibra uma interna música divina.

In MÚCIO TEIXEIRA, Brasas e Cinzas, Imprensa Nacional. Rio de Janeiro, 1922, págs. 15-16


Minha alma fria, e já desenganada,
Despida de ilusões a fantasia,
Em gostoso sossego aqui vivia
Dos prazeres do mundo já deixada.

Eis que por novo acaso sou tirada
Do profundo letargo, em que jazia;
Pela mais agradável simpatia,
Aos Elísios minha alma é transportada!

Magnético poder a ti me prende;
É só fria amizade? Não: eu minto;
Tanto fogo a amizade não acende.

Que descubro! Ó Céus! Belo Filinto!
Que repentina luz me aclara e fende!
É amor… é amor que por ti sinto!

ANA EURÍDICE EUFROSINA DE BARANDAS

CARNAVALESCOS
Por Olavo Bilac*


São uma gente à parte – quase uma raça distinta das outras. Os que amam o Carnaval, como amam todas as outras festas, não são dignos do nome de carnavalescos. O carnavalesco é um homem que nasceu para o Carnaval, que vive para o Carnaval, que conta os anos de vida pelos Carnavais que tem atravessado, e que, na hora da morte, só tem uma tristeza: a de sair da vida sem gozar os Carnavais incontáveis que ainda se hão de suceder no Rio de Janeiro pelos séculos sem fim.
Que se hão de suceder no Rio de Janeiro – escrevi eu. Porque o verdadeiro, o legítimo, o autêntico, o único tipo de carnavalesco real é o carnavalesco do Rio de Janeiro. A espécie é nossa, unicamente nossa, essencialmente e exclusivamente carioca: só o Rio de Janeiro, com os seus Carnavais maravilhosos, delirantes e inconfundíveis, possui o verdadeiro carnavalesco.
E não suponham que haja por aí muitos verdadeiros carnavalescos… Quase todos os foliões do Carnaval folgam por acidente, ou por imitação, ou por desfastio, ou por entusiasmo passageiro: folgam dois anos, ou cinco anos, ou dez anos – e casam, recolhem-se à vida séria.
Mas o carnavalesco legítimo não tem cansaço nem aposentadoria: envelhece carnavalesco, e morre carnavalesco; morre no seu posto, extenuado pelo Carnaval, devorado pelo Carnaval. O Carnaval é para ele, ao mesmo tempo, uma paixão absorvente e arruinadora, um vício indomável, uma religião fanática. Para ele, o Carnaval é o único oásis fresco e perfumado, que se antolha no adusto deserto da vida.
É esse o verdadeiro carnavalesco. Trabalha todo o ano, pena e sua doze meses a fio, privando-se de tudo, alimentando-se mal, vestindo-se mal, acumulando somiticamente, ansiosamente, alucinadamente, vintém a vintém, os contos de réis que há de gastar no Carnaval. São doze meses de sacrifício, de renúncia, de desprendimento: o carnavalesco pensa no Carnaval. Não era maior do que a sua constância de Jacó, pastor apaixonado, servindo o velho Labão, pai da formosa Raquel… O carnavalesco, pata conquistar o Carnaval, pena toda a vida.
“Dizendo: mais penara, se não fora,
Para tão grande amor tão curta a vida!...”
Acontece, às vezes, que o carnavalesco já não é um rapazola, sem família e sem deveres sociais: – é um homem maduro, negociante matriculado tendo próprio casal e nele assistindo, tendo mulher e filhos, tendo apólices e comenda. Pouco importa! É um carnavalesco… Na vida desse homem, de vida regrada e equilibrada, o Carnaval é um hiato, é uma síncope, é a anulação completa da sua consciência de homem e de chefe de família, é a suspensão absoluta de toda a sua gravidade de negociante e de comendador.
A família conhece e perdoa a sua paixão: e no sábado de Carnaval, ei-lo que se despede dos seus, e parte para o delírio, com os olhos acesos em febre e o coração rufando um zé-pereira precipitado – como os antigos paladinos da Cruz partiam para Jerusalém a defender o Santo Sepulcro, ou como os heróis da ciência partem para o polo a devassar o mistério das neves eternas. Parte – e a família não o vê durante os três dias fatais; e, na quarta-feira de cinzas, o carnavalesco volta ao seu lar e ao seu negócio, moído, pisado, contundido – e muitas vezes com a cara quebrada – mas sem remorso, sem arrependimento, com o orgulho que dá a consciência da missão bem cumprida…
Evoco a recordação, neste momento, de alguns carnavalescos autênticos, que tendo conhecido – e dois, sobre todos, avultam na minha memória, claramente relembrados.
Um deles era um comerciante rico, cuja opinião pesava na praça, e cuja firma valia ouro nos bancos. Não tinha vícios: não fumava, não jogava, não bebia, não frequentava cantinas nem chafaricas suspeitas. Era carnavalesco…
Haviam-no feito presidente de uma sociedade de carnavalescos – e era ele quem pagava a baderna, quem sustentava a glória do pavilhão do clube. E somente duas vantagens e regalias exigia, em troca das muitas dúzias de contos de réis que lhe custava cada ano a sua paixão: a honra de carregar o estandarte social e o privilégio de dar as “idéias” para os carros de crítica no grande préstito da terça-feira.
Quando o conheci, já ele tinha vinte anos de carnavalesco e de fornecedor de “idéias”. E, como eu o cumprimentasse pela fecundidade da sua imaginação, disse-me, apertando a cabeça entre as mãos: «Realmente, eu não sei como esta cabeça ainda pode ter ideias! Imagine o senhor: vinte Carnavais!...» E parecia-me realmente acabrunhado e sucumbido ao peso da sua missão; e eu inclinei-me diante dele, saudando-o, como se tivesse diante de mim um Darwin, um Comte, um Spencer, um desses criadores de doutrinas e sistemas, que atravessam a vida semeando ideias pela imensa extensão do campo moral…
Mas era de vê-lo, na terça-feira de carnaval, no alto do grande carro do estandarte, sobre uma montanha de papelão dourado, empunhando o pavilhão do clube, entre quatro meretrizes que lhe formavam a guarda de honra – e atravessando a cidade, numa apoteose, ao clamor triunfal das fanfarras, sob a abóboda chamejante dos arcos de gás, ao clarão vermelho dos fogos-de-bengala! A sua face, nédia e escanhoada, de honrado comerciante – resplandecia ali como a de um Deus! Assim devia Baco partir para a conquista das Índias! Assim deviam os triunfadores romanos entrar em Roma, depois da vitória, precedidos pelos senadores, pelos litores e pelos bucinatores, entre os despojos de guerra e as riquezas do saque! Aquela noite só, pagava ao carnavalesco todos os seus sacrifícios de dinheiro e todos os seus esbanjamentos de ideias… Hoje, esse carnavalesco é morto; morreu sempre rico, sempre respeitado, sempre honrado – e sempre carnavalesco. Quanto à causa da morte, não tenho informações seguras: não sei se foi apoplexia proveniente do orgulho de uma daquelas noites de triunfo, ou se foi anemia cerebral, proveniente de imoderada criação de ideias…
O outro, cuja figura tenho agora presente ao espírito, era um carnavalesco pobre – dos que economizam o dinheiro durante todo o ano para gastá-lo no Carnaval. Era um guarda-livros. Não lhe escrevo o nome – nem a alcunha, mais conhecida ainda do que o nome. Era famoso! Fantasiava-se e mascarava-se no sábado, e só tirava a fantasia e a máscara na quarta-feira, para dar entrada num hospital da Ordem Terceira, onde se refazia durante um mês dos estragos dos quatro dias de loucura. Com a continuidade do exercício carnavalesco, já a sua face adquiria esgares grotescos de máscara e a sua voz descera a tons aflautados de disfarce de dominó.
A tuberculose acabou por lhe tomar conta do corpo, depois de um dos seus desvairados Carnavais. Mas ainda o carnavalesco viveu dois ou três anos, tísico – sem abandonar o Carnaval. E nos Carnavais desses dois ou três anos – lembro-me bem! – era um espetáculo de chita ou de cetim, com os ossos do corpo descarnado, dançando dentro das pantalonas amplas e de blusa larga, tendo por máscara a sua própria cara escaveirada, em que os olhos ardiam com o brilho da febre hética – e dizendo as coisas engraçadas entre dois acessos de tosse convulsa. Era um pesadelo!
Alguém que o conheceu até à morte contou-me que esta se deu – ironia da sorte ou da bondade do destino – num domingo de Carnaval, à hora em que a mais atroadora e bárbara era pelas ruas a alegria carnavalesca…
Não creio que a morte lhe tenha aparecido com a sua trágica e terrível majestade habitual. Suponho que, no seu delírio último, ela lhe apareceu como uma Morte de Carnaval – dessas que encontramos por aí, entre os velhos de cabeça enorme e os diabinhos de cauda vermelha, nos cordões que, inconscientemente, reproduzem as cerimónias cómicas e pavorosas da Idade Média.
Assim ela pode ter aparecido, a Morte, ao carnavalesco moribundo – como uma velha amiga de folia e de pândega. E o carnavalesco arrojou-se aos seus braços com alegria, e foi valsando com ela, cabriolando com ela, cancaneando com ela, até com ela cair no grande abismo negro…
Coisas de carnavalescos! Não lhes dizia eu que os verdadeiros carnavalescos são uma raça à parte, uma gente que se não parece com as outras gentes e que nasce carnavalesca para viver carnavalesca e morrer carnavalesca?        

* Olavo Bilac nasceu em 1865, no Rio de Janeiro, e faleceu na mesma cidade em 1918. Este trecho pertence ao livro Ironia e Piedade.
E nesta crónica, o autor, com a sua extraordinária sensibilidade de poeta, traça um nítido perfil do verdadeiro tipo de carnavalesco, aquele que vive e morre pelo Carnaval.

10.11.2012


CARNAVAL – 1910
Por Graciliano Ramos*


Eram três dias bem desagradáveis. Sujeitos precavidos fechavam-se, olhavam suspeitosos a rua, mas isto não os livrara de pesares: se se distraíam, inundavam-nos jatos de água suja. Iam mudar a roupa, furiosos. Avizinhavam-se depois das janelas, atentos aos moleques armados de bisnagas enormes de bambu. Além desses inimigos, havia os indivíduos que traziam, em mochilas, pacotes de alvaiade, zarcão, ocre, tintas de todas as cores, com que se pintavam os transeuntes.
Um doutor verboso declamava discursos irados nas esquinas, referia-se aos selvagens, aos tupinambás. Ninguém lhe dava importância – e a zanga esfriava. Bem, agora, molhado, não valia a pena recolher-se. O jeito que tinha era entrar na função, tornar-se também selvagem, vingar-se, provocar outras indignações e arrastar para a folia os amigos cautelosos.
Animavam-se todos e perdiam a compostura, acabavam achando aquilo interessante. Alguns viam perfeitamente que estavam fazendo maluqueira e desregravam-se com moderação, quase a pedir desculpas encabuladas à cidadezinha pacata. Homens graves, pais de família, tisnados, bebendo, aos gritos. Mau exemplo, doidice. Na quarta-feira retomariam a sisudez necessária.
Cadeiras nas calçadas. Meninas sérias e bicudas reprovando os excessos, onde se arrumavam os papelotes. Não se contaminavam, estavam livres de pintura, dos banhos, de atrações perigosas: comportavam-se direito, como se aguardassem a passagem da procissão. Rapazes ousados atiravam nelas esguichos de água de cheiro e eram mal recebidos. Muxoxos. Que assanhamento! Nada de confiança. Brincadeira com moça findava na igreja ou rendia pancada. Os desejos não se escondiam sob nuvens de confete, não se amarravam com serpentinas, não se excitavam com éter.
Ainda se desconhecia o automóvel. A gente escassa pisunhava nas barrocas do calçamento ruim, equilibrava-se nas pedras pontudas.
As negras se haviam tingido com papel vermelho molhado. E andavam tesas para não desmanchar os enfeites do pixaim1, branco de fiapos.
De longe em longe desfilavam grandes parafusos, tipos envoltos em numerosas anáguas que se iam encurtando. As de cima, perto do pescoço, eram camisas de crianças. Esses espantalhos andavam inchados por dentro e por fora pacholas, cobertos de renda engomada.
Papangus2 vagabundos enrolavam-se em sacos de estopa, sujos, as caras escondidas em fronhas, as mãos calçadas em meias.
Bobos de máscaras horríveis se esforçavam por aterrorizar os meninos. Gingavam, falavam rouco e fanhoso:
– Você me conhece?
Se não conseguiam disfarçar-se, recebiam vaia e ficavam arreliados.
O índio, de penacho e tanga, era personagem obrigatória e silenciosa.
Passava o cordão, levantando poeira, causando entusiasmo. Um frevo3 decente em redor do porta-bandeira. Repetiam-se cantigas de dez anos sem nenhuma alteração, muitas bem ensaiadas. As figuras marchavam na disciplina; o homem da maromba4 conduzia o bando, importante; papai velho exibia vaidoso a cabeleira de algodão e as longas barbas de espanador; o morcego, na frente, fazia piruetas, agitando as asas de guarda-chuva.
Mascarados solitários produziam hilaridade com pilhérias antigas e ditos grosseiros, inconvenientes. Outros, reunidos, firmavam as críticas, motivo de receios e alarmas5. Alusões a notáveis acontecimentos do lugar, comentários e fatos melindrosos e particulares, mexericos tolos, sem graça nenhuma. Criavam-se inimigos. E às vezes se liquidavam contas velhas.
Um cidadão espiava o morcego e o parafuso, de longe. Dois ou três embuçados musculosos entravam-lhe em casa, batiam-no a cacete. Berros, súplicas, sangue, apitos, sumiam-se na festa. Ninguém sabia donde vinham as pauladas – e era bom evitar opiniões. No ano seguinte as críticas seriam menos ofensivas.    
 

 * Graciliano Ramos nasceu em 1892, em Quebrângulo, no Estado de Alagoas. Foi na sua terra alagoana que Graciliano Ramos apanhou estes instantâneos tão expressivos de um carnaval antigo de província, com todos os seus aspetos peculiares, alguns já desaparecidos, outros já evoluídos e multiplicados.

1Pixaim – carapinha.
2Papangus – mascarados.
3Frevo – magote.
4Maromba – vara de equilibrista.
5Alarmas – sustos.

In ANTOLOGIA DE CARNAVAL, organizada por Wilson Louzada, com desenhos de Percy Deanne, Secção de Livros da empresa Gráfica “O Cruzeiro”, S.A. Rio de Janeiro, 1945

10.03.2012





A ILHA DA PAIXÃO
(a meus amigos portugueses)

Sempre que me perguntam: – «Qual o seu livro preferido»? Respondo: «A Ilha dos Demónios» – Margarida La Rocque. Voltam a perguntar: – «E porquê?»
Sem hipocrisias ou disfarces, muito comuns entre nós, escritores, enfrento toda a minha criação literária, a começar por Floradas na Serra e a percorrer contos, romances, teatro, ficção científica.
– «Sim, escolho a figura de Margarida La Rocque», porque para mim ela é um símbolo: o da força da paixão que desencadeia determinadas mulheres que se transformam em perseguidas-perseguidoras. É a paixão feminina em seu paroxismo.
Eu não teria a pretensão de dizer, como Flaubert disse de Madame Bovary – «Margarida Rocque sou eu.» Confesso que A Ilha dos Demónios foi escrito quando eu vivia em grande sofrimento. Como acontece a muitas pessoas, desci em vida aos infernos. E Margarida foi, por esse motivo, o livro de maior violência interior, por mim escrito. Nele analisei a paixão feminina em todo o seu desvario. Se Madame Bovary deu um tipo de neurose, hoje chamado pelos clínicos de bovarismo, Margarida é a “neurose da paixão”. Àquela época em que se passa o romance, a meio do século XVI, as angústias emocionais eram vividas em imagens. Os demónios de Margarida também afligiam outras personagens do tempo, quando as mulheres baixavam os véus ao confessionário, para confessar que estavam grávidas do demónio. Há várias explicações para os duendes que circulam em torno de Margarida. A lebre falante seria seu subconsciente? A Dama Verde seu ciúme? O Cabeleira a grande cabeça sem corpo, o desejo oculto de uma escapada ébria para o sobrenatural, que a livrasse de suas obsessões? São conjeturas válidas. Mas eu não arriscaria dizer que a interpretação foi minha. Sem dúvida, escrito em 1948, o livro precedeu, de mais de vinte anos, o realismo fantástico dos latino-americanos, escritores entre os quais sobressai um Garcia Marquez. Já era, entretanto, o realismo fantástico em toda a sua plenitude. Com o correr do tempo, A Ilha dos Demónios – Margarida La Rocque – foi ganhando mundo. Tornou-se livro traduzido até no Oriente; agora entra no Canadá e na Itália.
Um dos aspetos curiosos: a discussão entre frades de um convento, no rio: Margarida La Rocque podia receber a absolvição?
Outro, também estranho: Às quatro da madrugada o telefone toca, à mesa-de-cabeceira.
– É Dinah Silveira de Queiroz?
– Sim… o que quer?
– Não posso dormir pensando no seu livro. Agora minha vingança é… que a senhora não dormir também.
Dormi mansamente. Acho que até sorria, dormindo. Seria má? Não, o primeiro desejo de um escritor é do que acreditem em seus personagens ou fantasmas.
Ainda um resto de confissão: se não houvesse escrito este livro, com toda a certeza iria, sem resultados, frequentar psicanalistas. Todo o amargor que senti se foi com ele. E dele saí plácida e livre de angústias, para sempre.
Oferecendo-o ao público português, que tanto estimo e admiro, eu desejo que ele saia da experiência do romance em paz e ternura. Ternura e paz que muito merece da amiga

                                                           DINAH SILVEIRA DE QUEIROZ



PREFÁCIO do livro A ILHA DOS DEMÓNIOS (Margarida La Rocque)
Dinah Silveira de Queiroz
Edição «Livros do Brasil» Lisboa

8.30.2012


PREFÁCIO DOS EDITORES

Estas são as histórias que os cães contam quando as fogueiras ardem e a nortada sopra com força. Então cada família reúne-se em volta do seu fogo e os cachorros sentam-se silenciosamente e escutam. Quando a história termina, fazem muitas perguntas:
– O que é um homem?
Ou talvez:
– O que é uma cidade?
Ou ainda:
– O que é uma guerra?
Não há nenhuma resposta positiva para qualquer destas perguntas. Há suposições, teorias e muitas hipóteses, mas não respostas.
Nos círculos familiares muitos narradores destas histórias têm-se visto forçados a dar a antiga explicação de que apenas é uma história, que nada há que tenha os nomes de “homem” ou de “cidade” e que a verdade não se deve procurar num simples conto: um conto aceita-se, e é tudo.
Explicações deste género, embora possam satisfazer cachorros, não são, evidentemente, explicações. De fato, a verdade deve ser procurada em simples contos, como estes são.
A lenda, composta de oito contos, tem sido narrada durante inúmeros séculos. Tanto quanto pode determinar-se, não tem ponto de partida histórico e o estudo mais minucioso não consegue determinar as fases do seu desenvolvimento. Não há dúvida de que, de tanto ser relatada, se estilizou, mas não há processo para descobrir o sentido da sua estilização.  
A afirmação de alguns escritores de que é antiga e, em certa medida, de origem não canina resulta da abundância de tagarelice que acompanha os contos – as palavras e frases (e, pior que tudo, ideias) que atualmente não têm significado e talvez nunca o tenham tido. Devido ao constante relato, estas palavras e frases foram aceites e, por hábito, foi-lhes atribuído um certo valor arbitrário. Mas é impossível saber se estes valores se aproximam ou não do significado original das palavras.
Esta edição dos contos não tem a mínima pretensão de abordar a enorme quantidade de argumentos técnicos que sobre que sobre a existência ou não existência do homem, o enigma das cidades, as várias teorias relacionadas com a guerra ou qualquer dos outros inúmeros problemas se levantam e perturbam o estudioso que percorre alguma forma de existência de uma verdade básica ou histórica da lenda.
O propósito desta edição é simplesmente dar um texto completo e genuíno dos contos tal como hoje são narrados. As notas aos capítulos são utilizadas apenas para frisar os pontos de maior especulação, não pretendendo pois tirar conclusões. Para aqueles que procuram uma maior compreensão dos contos, ou das muitas dúvidas que acerca deles se levantam, há exaustivos tratados escritos por cães de muito maior competência do que a dos presentes editores.
A recente descoberta de fragmentos do que parece ter sido um extenso movimento literário tem sido apresentada como o mais forte e atual argumento para atribuir pelo menos parte da lenda ao homem mitológico (opinião discutível, claro), em detrimento dos cães. Mas até que se prove a existência evidente do homem tem pouca importância o argumento de que os fragmentos descobertos são originários do mesmo.
Particularmente significativo ou perturbador, e isso depende do ponto de vista, é o fato de o título aparente dos fragmentos literários ser precisamente o de um dos contos apresentados. É claro que as palavras, em si, são inteiramente desprovidas de significado.
Evidentemente que a pergunta fundamental é se alguma vez existiu um ser chamado “homem”. Presentemente, na ausência de provas positivas, o raciocínio prudente leva-nos a concluir que não existiu e que o homem, tal com o é apresentado na lenda, é um produto da imaginação popular. É provável que o homem tivesse surgido no início da cultura canina como um ser imaginário, uma espécie de rácico, a quem os cães pediam auxílio e conforto.
Contudo, apesar destas conclusões prudentes, há quem veja no homem um deus mais antigo, um visitante de uma terra ou dimensão mística que chegou, deu a sua ajuda e depois regressou ao ignoto.
Há ainda outros que acreditam que o homem e o cão cresceram simultaneamente como dois animais cooperadores, que podem ter sido complementares no desenvolvimento de formas culturais, mas que em certa altura, já perdida no tempo, os seus caminhos se diferenciaram.
Entre todos os fatores perturbantes dos contos (e são bastantes), o mais confrangedor é a sugestão da reverência conferida ao homem. É difícil para o leitor médio aceitar esta reverência como um simples artifício da narração. É uma reverência que ultrapassa a descuidada adoração do deus tribal, e instintivamente se sente que ela está profundamente enraizada nalguma crença ou rito hoje esquecido, envolvendo a pré-história da nossa raça.
Atualmente são poucas as esperanças que há de se vir a resolver qualquer dos vários pontos de controvérsia que fervilham na lenda.
Aqui estão, pois, os contos, para serem lidos com espírito que aprouver ao leitor – só por simples prazer, em busca de um significado histórico ou procurando alguma sugestão dum símbolo oculto. E eis o nosso melhor conselho ao leitor médio: não os tome demasiado a sério, porque a confusão total, se não a loucura, o espera se tal fizer.   

In CLIIFFORD D. SIMAK, A Cidade no Tempo, trad. Manuel Pina e Alfredo Margarido, nº 1 da coleção Escalas do Futuro, Edições Europa-América, Lisboa 1955.

8.29.2012


PRÉ-HISTÓRIA DO FUTURO

O rapaz levantou-se, abandonando o leito confortável, e olhou em volta.
– Isto não é bonito – disse.
A sala tinha um aspeto bizarro. Muitos objetos partidos estavam amontoados a um canto. O rapaz franqueou a porta, após ter tateado um momento para encontrar o sistema de abertura.
A sala seguinte estava cheia de livros amontoados no chão. O rapaz pegou num, examinou-o e sorriu.
– É uma caixa que fala com os sinais dos deuses – concluiu.
Leu um pouco e não compreendeu grande coisa. Deitou fora aquele e pegou noutro, grande e pesado. Abriu, virou a primeira página e leu: «Dicionário universal enciclopédico. Edição 900 P-R». Depois, passou uma página branca. A página seguinte apresentava um magnífico A.
– A – disse o rapaz, passando o dedo pela letra.
Depois, mais abaixo leu:
– A, a. Primeira letra e primeira vogal do alfabeto humano. O A vem-nos do nosso antepassado homo sapiens terrestre, o animal mais evoluído do seu planeta nos tempos pré-venusianos.
O rapaz virou várias páginas e chegou à palavra alfabeto. Leu atentamente várias vezes, sentindo prazer em reconhecer, todos reunidos, os carateres de que tanto gostava. Depois observou o livro e deu uma alegre risada.
– O rapaz negro percebeu. Todas as coisas estão arrumadas como no alfabeto, primeiro A, depois B, depois C, até ao fim; depois entre A e B, primeiro Aa, depois Ab, depois Ac. E a seguir Aca, Acb, Acc... O rapaz negro compreendeu. Vai procurar o grupo dos sinais que se chama: deus.
«Deus – sentido próprio: superstição grosseira do animal "homo sapiens" preenchendo comodamente todas as falhas do seu saber pela existência de um ser invisível e perfeito, omnisciente, omnipotente, eterno, criador e senhor de todas as coisas. Certos animais de Marte acreditam ainda num Deus. Os Srrebs de Vénus acreditam em vários deuses (ver Srreo). Sentido figurado (familiar): chama-se deus a um personagem ridículo e ignorante que toma ares sapientes».
O rapaz negro abanou a cabeça.
– Estes sinais dizem coisas estranhas!
 
In STEFAN WUL, Pré-História do Futuro, tradução de Mário Henrique Leiria, coleção Argonauta, Edição «Livros do Brasil» Lisboa. Págs. 173/174 

7.05.2012


QUANDO SE COME NÃO SE ASSOBIA


Ao que parece todos os anos milhares de portugueses tiram cursos superiores. Porém, só tiram os cursos, apenas trazem os diplomas, que o conhecimento ficou lá todo – se lá estava, nos estabelecimentos de ensino e academias que frequentaram, lá ficou, para não se gastar e dar hipótese aos que os frequentarem a seguir…

Em literatura não há “sexo explícito”, porque ele só lá pode estar implícito, através das palavras, das frases, das metáforas, das imagens, das alegorias, etc. Quando os críticos de café classificam uma obra literária como erótica por nela haver sexo explícito, dá-me um nó na garganta e fico com vontade de chorar. De tristeza, por reconhecer que os anos de aprendizado e graduadas habilitações apenas lhe deram à-vontade para sentenciar asneiras sem serem admoestados e ao abrigo dos mais variados canudos. Há, portanto, que não confundir as barras: aquilo que é plausível em fotografia ou em cinema – factualidade observável e evidente explicitação – não é verificável em literatura, em nenhum dos géneros. Seja no género lírico, épico ou dramático. O que é trágico. Pois quando se come, não se assobia, como diz o povo!   

5.24.2012

PARA UMA CIÊNCIA ABERTA


PARA UMA CIÊNCIA ABERTA




Sinopse

Este é um livro sobre como se faz ciência em Portugal e onde se analisa essa forma de fazer ciência em comparação com os restantes países Europeus. Neste livro procura-se compreender o que diferencia a investigação em matemáticas ou física da história e economia, ou entre a química e a medicina e a sociologia e o direito. Essa análise é feita a partir dos novos paradigmas abertos de fazer ciência num contexto informacional.
Debate-se assim o que é hoje a Ciência Aberta, mudança de paradigma científico ou de paradigma de investigação? É a Ciência Aberta um novo movimento social ou uma mera partilha de práticas? E é a ciência praticada em Portugal diferente da praticada em outros contextos europeus? Estas são algumas das perguntas a que se procura responder, ao mesmo tempo que se tenta propor uma definição de Ciência Aberta assente na adoção de processos de abertura na publicação completa, franca e rápida, na ausência de restrições relativas a propriedade intelectual e na transparência, radicalmente aumentada, em fases de pré e pós-publicação, de dados, instrumentos, software, atividades e decisões dentro dos grupos de investigação.

Sobre os autores

Gustavo Cardoso é professor de Media e Sociedade no ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa e investigador do CIES-IUL.
Pedro Jacobetty é mestre pelo ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa e doutorando no Internet Interdisciplinary Institute da Universitat Oberta de Catalunya (IN3-UOC).
Alexandra Duarte é mestre em Sociologia e doutoranda em Políticas Públicas pelo ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa.

Sobre a Mundos Sociais

Mundos Sociais é a nova editora, que vem preencher no mercado português um vazio que se fazia sentir na divulgação científica, assumindo como vocação a publicação de trabalhos científicos de alta qualidade desenvolvidos nas áreas da sociologia, ciência política e outras ciências sociais. Criada pelo Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES), do ISCTE-IUL, a editora é dirigida por Fernando Luís Machado (Diretor) e por Renato Miguel do Carmo (Diretor-adjunto).

Mais informações em www.mundossociais.com  |  www.cies.iscte-iul.pt


PARA UMA CIÊNCIA ABERTA

Neste livro os autores procuram contribuir para responder a um dos desafios contemporâneos da ciência: como delinear os contornos de novas formas “abertas” de fazer ciência. Este é um trabalho onde se questiona a ciência praticada no século XX à luz das novas práticas científicas, num contexto de transformação social mais alargado: a emergência da sociedade em rede e o despontar de uma ciência de base informacional.
As tendências identificadas constituem contributos para a compreensão do que será e como será o funcionamento da ciência no séc. XXI. Os autores sugerem que a partilha formal e informal de conhecimento científico nas redes digitais adquire já hoje uma expressão considerável junto dos profissionais da ciência, e que o enquadramento institucional do trabalho científico parece estar a mudar para incluir mecanismos de incentivo a essas práticas. Debate-se assim o que é hoje a Ciência Aberta, mudança de paradigma científico ou de paradigma de investigação? É a Ciência Aberta um novo movimento social ou uma mera partilha de práticas? E é a ciência praticada em Portugal diferente da praticada em outros contextos europeus? Estas são algumas das perguntas a que se procura responder, ao mesmo tempo que se tenta propor uma definição de Ciência Aberta assente na adoção de processos de abertura na publicação completa, franca e rápida, na ausência de restrições relativas a propriedade intelectual e na transparência, radicalmente aumentada, em fases de pré e pós-publicação, de dados, instrumentos, software, atividades e decisões dentro dos grupos de investigação.

5.20.2012


Dia 28 de Maio, pelas 18 horas, na Biblioteca Municipal de Portalegre, sessão de leitura do Grupo READCOM de Portalegre, sobre obra de Jorge Luis Borges 


O Grupo de Leitura READCOM – ou, numa terminologia mais corporativista, o CLUBE de LEITURA READCOM – de Portalegre, teve o seu período de arranque entre 2005 e 2008, no qual foram abordados, com relativa acuidade e crítica, conforme a oportunidade, aproximadamente 40 livros doutros tantos autores. Foi uma viagem por temas como a identidade, a diferença, o género e a literatura. Seguiu-se uma recapitulação do formato, que culminou na mudança de lugar e cenário para esses encontros com os livros. E desde então, periódica e regularmente, de mês a mês, na Sala Polivalente da Biblioteca Municipal de Portalegre, têm vindo a suceder-se… Desceu-se pelo continente africano num ano, entrou-se na América Latina no outro, com visitas guiadas a diversos autores e nações. Os últimos foram Chile e Argentina. Esta com Jorge Luis Borges, sobre a obra Ficções, que estará na mesa das operações analíticas, dia 28 de Maio de 2012, pelas 18 horas.

ODISSEIA, LIVRO VIGÉSIMO TERCEIRO


Já com a espada de ferro executou
O devido trabalho da vingança
E com ásperos dardos e a lança
O sangue do perverso espalhou.

A despeito de um deus e de seus mares
A seu reino e rainha voltou Ulisses
A despeito de um deus e dos difíceis
Ventos e do estrépito de Ares.

Já no amor do compartilhado leito
Dorme a clara rainha sobre o peito
Do seu rei, mas onde está o homem

Que nos dias e noites da separação
Errava pelo mundo como um cão
E dizia que Ninguém era o seu nome.

(Jorge Luis Borges)

Quem for aficionado destas andanças, e quiser participar, será bem acolhido e não dará por mal-empregado o seu tempo; essa, lhe afianço! :D

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

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Escribalistas é órgão de comunicação oficial de Joaquim Maria Castanho, mentor do escribalismo português