10.11.2012


CARNAVAL – 1910
Por Graciliano Ramos*


Eram três dias bem desagradáveis. Sujeitos precavidos fechavam-se, olhavam suspeitosos a rua, mas isto não os livrara de pesares: se se distraíam, inundavam-nos jatos de água suja. Iam mudar a roupa, furiosos. Avizinhavam-se depois das janelas, atentos aos moleques armados de bisnagas enormes de bambu. Além desses inimigos, havia os indivíduos que traziam, em mochilas, pacotes de alvaiade, zarcão, ocre, tintas de todas as cores, com que se pintavam os transeuntes.
Um doutor verboso declamava discursos irados nas esquinas, referia-se aos selvagens, aos tupinambás. Ninguém lhe dava importância – e a zanga esfriava. Bem, agora, molhado, não valia a pena recolher-se. O jeito que tinha era entrar na função, tornar-se também selvagem, vingar-se, provocar outras indignações e arrastar para a folia os amigos cautelosos.
Animavam-se todos e perdiam a compostura, acabavam achando aquilo interessante. Alguns viam perfeitamente que estavam fazendo maluqueira e desregravam-se com moderação, quase a pedir desculpas encabuladas à cidadezinha pacata. Homens graves, pais de família, tisnados, bebendo, aos gritos. Mau exemplo, doidice. Na quarta-feira retomariam a sisudez necessária.
Cadeiras nas calçadas. Meninas sérias e bicudas reprovando os excessos, onde se arrumavam os papelotes. Não se contaminavam, estavam livres de pintura, dos banhos, de atrações perigosas: comportavam-se direito, como se aguardassem a passagem da procissão. Rapazes ousados atiravam nelas esguichos de água de cheiro e eram mal recebidos. Muxoxos. Que assanhamento! Nada de confiança. Brincadeira com moça findava na igreja ou rendia pancada. Os desejos não se escondiam sob nuvens de confete, não se amarravam com serpentinas, não se excitavam com éter.
Ainda se desconhecia o automóvel. A gente escassa pisunhava nas barrocas do calçamento ruim, equilibrava-se nas pedras pontudas.
As negras se haviam tingido com papel vermelho molhado. E andavam tesas para não desmanchar os enfeites do pixaim1, branco de fiapos.
De longe em longe desfilavam grandes parafusos, tipos envoltos em numerosas anáguas que se iam encurtando. As de cima, perto do pescoço, eram camisas de crianças. Esses espantalhos andavam inchados por dentro e por fora pacholas, cobertos de renda engomada.
Papangus2 vagabundos enrolavam-se em sacos de estopa, sujos, as caras escondidas em fronhas, as mãos calçadas em meias.
Bobos de máscaras horríveis se esforçavam por aterrorizar os meninos. Gingavam, falavam rouco e fanhoso:
– Você me conhece?
Se não conseguiam disfarçar-se, recebiam vaia e ficavam arreliados.
O índio, de penacho e tanga, era personagem obrigatória e silenciosa.
Passava o cordão, levantando poeira, causando entusiasmo. Um frevo3 decente em redor do porta-bandeira. Repetiam-se cantigas de dez anos sem nenhuma alteração, muitas bem ensaiadas. As figuras marchavam na disciplina; o homem da maromba4 conduzia o bando, importante; papai velho exibia vaidoso a cabeleira de algodão e as longas barbas de espanador; o morcego, na frente, fazia piruetas, agitando as asas de guarda-chuva.
Mascarados solitários produziam hilaridade com pilhérias antigas e ditos grosseiros, inconvenientes. Outros, reunidos, firmavam as críticas, motivo de receios e alarmas5. Alusões a notáveis acontecimentos do lugar, comentários e fatos melindrosos e particulares, mexericos tolos, sem graça nenhuma. Criavam-se inimigos. E às vezes se liquidavam contas velhas.
Um cidadão espiava o morcego e o parafuso, de longe. Dois ou três embuçados musculosos entravam-lhe em casa, batiam-no a cacete. Berros, súplicas, sangue, apitos, sumiam-se na festa. Ninguém sabia donde vinham as pauladas – e era bom evitar opiniões. No ano seguinte as críticas seriam menos ofensivas.    
 

 * Graciliano Ramos nasceu em 1892, em Quebrângulo, no Estado de Alagoas. Foi na sua terra alagoana que Graciliano Ramos apanhou estes instantâneos tão expressivos de um carnaval antigo de província, com todos os seus aspetos peculiares, alguns já desaparecidos, outros já evoluídos e multiplicados.

1Pixaim – carapinha.
2Papangus – mascarados.
3Frevo – magote.
4Maromba – vara de equilibrista.
5Alarmas – sustos.

In ANTOLOGIA DE CARNAVAL, organizada por Wilson Louzada, com desenhos de Percy Deanne, Secção de Livros da empresa Gráfica “O Cruzeiro”, S.A. Rio de Janeiro, 1945

10.03.2012





A ILHA DA PAIXÃO
(a meus amigos portugueses)

Sempre que me perguntam: – «Qual o seu livro preferido»? Respondo: «A Ilha dos Demónios» – Margarida La Rocque. Voltam a perguntar: – «E porquê?»
Sem hipocrisias ou disfarces, muito comuns entre nós, escritores, enfrento toda a minha criação literária, a começar por Floradas na Serra e a percorrer contos, romances, teatro, ficção científica.
– «Sim, escolho a figura de Margarida La Rocque», porque para mim ela é um símbolo: o da força da paixão que desencadeia determinadas mulheres que se transformam em perseguidas-perseguidoras. É a paixão feminina em seu paroxismo.
Eu não teria a pretensão de dizer, como Flaubert disse de Madame Bovary – «Margarida Rocque sou eu.» Confesso que A Ilha dos Demónios foi escrito quando eu vivia em grande sofrimento. Como acontece a muitas pessoas, desci em vida aos infernos. E Margarida foi, por esse motivo, o livro de maior violência interior, por mim escrito. Nele analisei a paixão feminina em todo o seu desvario. Se Madame Bovary deu um tipo de neurose, hoje chamado pelos clínicos de bovarismo, Margarida é a “neurose da paixão”. Àquela época em que se passa o romance, a meio do século XVI, as angústias emocionais eram vividas em imagens. Os demónios de Margarida também afligiam outras personagens do tempo, quando as mulheres baixavam os véus ao confessionário, para confessar que estavam grávidas do demónio. Há várias explicações para os duendes que circulam em torno de Margarida. A lebre falante seria seu subconsciente? A Dama Verde seu ciúme? O Cabeleira a grande cabeça sem corpo, o desejo oculto de uma escapada ébria para o sobrenatural, que a livrasse de suas obsessões? São conjeturas válidas. Mas eu não arriscaria dizer que a interpretação foi minha. Sem dúvida, escrito em 1948, o livro precedeu, de mais de vinte anos, o realismo fantástico dos latino-americanos, escritores entre os quais sobressai um Garcia Marquez. Já era, entretanto, o realismo fantástico em toda a sua plenitude. Com o correr do tempo, A Ilha dos Demónios – Margarida La Rocque – foi ganhando mundo. Tornou-se livro traduzido até no Oriente; agora entra no Canadá e na Itália.
Um dos aspetos curiosos: a discussão entre frades de um convento, no rio: Margarida La Rocque podia receber a absolvição?
Outro, também estranho: Às quatro da madrugada o telefone toca, à mesa-de-cabeceira.
– É Dinah Silveira de Queiroz?
– Sim… o que quer?
– Não posso dormir pensando no seu livro. Agora minha vingança é… que a senhora não dormir também.
Dormi mansamente. Acho que até sorria, dormindo. Seria má? Não, o primeiro desejo de um escritor é do que acreditem em seus personagens ou fantasmas.
Ainda um resto de confissão: se não houvesse escrito este livro, com toda a certeza iria, sem resultados, frequentar psicanalistas. Todo o amargor que senti se foi com ele. E dele saí plácida e livre de angústias, para sempre.
Oferecendo-o ao público português, que tanto estimo e admiro, eu desejo que ele saia da experiência do romance em paz e ternura. Ternura e paz que muito merece da amiga

                                                           DINAH SILVEIRA DE QUEIROZ



PREFÁCIO do livro A ILHA DOS DEMÓNIOS (Margarida La Rocque)
Dinah Silveira de Queiroz
Edição «Livros do Brasil» Lisboa

8.30.2012


PREFÁCIO DOS EDITORES

Estas são as histórias que os cães contam quando as fogueiras ardem e a nortada sopra com força. Então cada família reúne-se em volta do seu fogo e os cachorros sentam-se silenciosamente e escutam. Quando a história termina, fazem muitas perguntas:
– O que é um homem?
Ou talvez:
– O que é uma cidade?
Ou ainda:
– O que é uma guerra?
Não há nenhuma resposta positiva para qualquer destas perguntas. Há suposições, teorias e muitas hipóteses, mas não respostas.
Nos círculos familiares muitos narradores destas histórias têm-se visto forçados a dar a antiga explicação de que apenas é uma história, que nada há que tenha os nomes de “homem” ou de “cidade” e que a verdade não se deve procurar num simples conto: um conto aceita-se, e é tudo.
Explicações deste género, embora possam satisfazer cachorros, não são, evidentemente, explicações. De fato, a verdade deve ser procurada em simples contos, como estes são.
A lenda, composta de oito contos, tem sido narrada durante inúmeros séculos. Tanto quanto pode determinar-se, não tem ponto de partida histórico e o estudo mais minucioso não consegue determinar as fases do seu desenvolvimento. Não há dúvida de que, de tanto ser relatada, se estilizou, mas não há processo para descobrir o sentido da sua estilização.  
A afirmação de alguns escritores de que é antiga e, em certa medida, de origem não canina resulta da abundância de tagarelice que acompanha os contos – as palavras e frases (e, pior que tudo, ideias) que atualmente não têm significado e talvez nunca o tenham tido. Devido ao constante relato, estas palavras e frases foram aceites e, por hábito, foi-lhes atribuído um certo valor arbitrário. Mas é impossível saber se estes valores se aproximam ou não do significado original das palavras.
Esta edição dos contos não tem a mínima pretensão de abordar a enorme quantidade de argumentos técnicos que sobre que sobre a existência ou não existência do homem, o enigma das cidades, as várias teorias relacionadas com a guerra ou qualquer dos outros inúmeros problemas se levantam e perturbam o estudioso que percorre alguma forma de existência de uma verdade básica ou histórica da lenda.
O propósito desta edição é simplesmente dar um texto completo e genuíno dos contos tal como hoje são narrados. As notas aos capítulos são utilizadas apenas para frisar os pontos de maior especulação, não pretendendo pois tirar conclusões. Para aqueles que procuram uma maior compreensão dos contos, ou das muitas dúvidas que acerca deles se levantam, há exaustivos tratados escritos por cães de muito maior competência do que a dos presentes editores.
A recente descoberta de fragmentos do que parece ter sido um extenso movimento literário tem sido apresentada como o mais forte e atual argumento para atribuir pelo menos parte da lenda ao homem mitológico (opinião discutível, claro), em detrimento dos cães. Mas até que se prove a existência evidente do homem tem pouca importância o argumento de que os fragmentos descobertos são originários do mesmo.
Particularmente significativo ou perturbador, e isso depende do ponto de vista, é o fato de o título aparente dos fragmentos literários ser precisamente o de um dos contos apresentados. É claro que as palavras, em si, são inteiramente desprovidas de significado.
Evidentemente que a pergunta fundamental é se alguma vez existiu um ser chamado “homem”. Presentemente, na ausência de provas positivas, o raciocínio prudente leva-nos a concluir que não existiu e que o homem, tal com o é apresentado na lenda, é um produto da imaginação popular. É provável que o homem tivesse surgido no início da cultura canina como um ser imaginário, uma espécie de rácico, a quem os cães pediam auxílio e conforto.
Contudo, apesar destas conclusões prudentes, há quem veja no homem um deus mais antigo, um visitante de uma terra ou dimensão mística que chegou, deu a sua ajuda e depois regressou ao ignoto.
Há ainda outros que acreditam que o homem e o cão cresceram simultaneamente como dois animais cooperadores, que podem ter sido complementares no desenvolvimento de formas culturais, mas que em certa altura, já perdida no tempo, os seus caminhos se diferenciaram.
Entre todos os fatores perturbantes dos contos (e são bastantes), o mais confrangedor é a sugestão da reverência conferida ao homem. É difícil para o leitor médio aceitar esta reverência como um simples artifício da narração. É uma reverência que ultrapassa a descuidada adoração do deus tribal, e instintivamente se sente que ela está profundamente enraizada nalguma crença ou rito hoje esquecido, envolvendo a pré-história da nossa raça.
Atualmente são poucas as esperanças que há de se vir a resolver qualquer dos vários pontos de controvérsia que fervilham na lenda.
Aqui estão, pois, os contos, para serem lidos com espírito que aprouver ao leitor – só por simples prazer, em busca de um significado histórico ou procurando alguma sugestão dum símbolo oculto. E eis o nosso melhor conselho ao leitor médio: não os tome demasiado a sério, porque a confusão total, se não a loucura, o espera se tal fizer.   

In CLIIFFORD D. SIMAK, A Cidade no Tempo, trad. Manuel Pina e Alfredo Margarido, nº 1 da coleção Escalas do Futuro, Edições Europa-América, Lisboa 1955.

8.29.2012


PRÉ-HISTÓRIA DO FUTURO

O rapaz levantou-se, abandonando o leito confortável, e olhou em volta.
– Isto não é bonito – disse.
A sala tinha um aspeto bizarro. Muitos objetos partidos estavam amontoados a um canto. O rapaz franqueou a porta, após ter tateado um momento para encontrar o sistema de abertura.
A sala seguinte estava cheia de livros amontoados no chão. O rapaz pegou num, examinou-o e sorriu.
– É uma caixa que fala com os sinais dos deuses – concluiu.
Leu um pouco e não compreendeu grande coisa. Deitou fora aquele e pegou noutro, grande e pesado. Abriu, virou a primeira página e leu: «Dicionário universal enciclopédico. Edição 900 P-R». Depois, passou uma página branca. A página seguinte apresentava um magnífico A.
– A – disse o rapaz, passando o dedo pela letra.
Depois, mais abaixo leu:
– A, a. Primeira letra e primeira vogal do alfabeto humano. O A vem-nos do nosso antepassado homo sapiens terrestre, o animal mais evoluído do seu planeta nos tempos pré-venusianos.
O rapaz virou várias páginas e chegou à palavra alfabeto. Leu atentamente várias vezes, sentindo prazer em reconhecer, todos reunidos, os carateres de que tanto gostava. Depois observou o livro e deu uma alegre risada.
– O rapaz negro percebeu. Todas as coisas estão arrumadas como no alfabeto, primeiro A, depois B, depois C, até ao fim; depois entre A e B, primeiro Aa, depois Ab, depois Ac. E a seguir Aca, Acb, Acc... O rapaz negro compreendeu. Vai procurar o grupo dos sinais que se chama: deus.
«Deus – sentido próprio: superstição grosseira do animal "homo sapiens" preenchendo comodamente todas as falhas do seu saber pela existência de um ser invisível e perfeito, omnisciente, omnipotente, eterno, criador e senhor de todas as coisas. Certos animais de Marte acreditam ainda num Deus. Os Srrebs de Vénus acreditam em vários deuses (ver Srreo). Sentido figurado (familiar): chama-se deus a um personagem ridículo e ignorante que toma ares sapientes».
O rapaz negro abanou a cabeça.
– Estes sinais dizem coisas estranhas!
 
In STEFAN WUL, Pré-História do Futuro, tradução de Mário Henrique Leiria, coleção Argonauta, Edição «Livros do Brasil» Lisboa. Págs. 173/174 

7.05.2012


QUANDO SE COME NÃO SE ASSOBIA


Ao que parece todos os anos milhares de portugueses tiram cursos superiores. Porém, só tiram os cursos, apenas trazem os diplomas, que o conhecimento ficou lá todo – se lá estava, nos estabelecimentos de ensino e academias que frequentaram, lá ficou, para não se gastar e dar hipótese aos que os frequentarem a seguir…

Em literatura não há “sexo explícito”, porque ele só lá pode estar implícito, através das palavras, das frases, das metáforas, das imagens, das alegorias, etc. Quando os críticos de café classificam uma obra literária como erótica por nela haver sexo explícito, dá-me um nó na garganta e fico com vontade de chorar. De tristeza, por reconhecer que os anos de aprendizado e graduadas habilitações apenas lhe deram à-vontade para sentenciar asneiras sem serem admoestados e ao abrigo dos mais variados canudos. Há, portanto, que não confundir as barras: aquilo que é plausível em fotografia ou em cinema – factualidade observável e evidente explicitação – não é verificável em literatura, em nenhum dos géneros. Seja no género lírico, épico ou dramático. O que é trágico. Pois quando se come, não se assobia, como diz o povo!   

5.24.2012

PARA UMA CIÊNCIA ABERTA


PARA UMA CIÊNCIA ABERTA




Sinopse

Este é um livro sobre como se faz ciência em Portugal e onde se analisa essa forma de fazer ciência em comparação com os restantes países Europeus. Neste livro procura-se compreender o que diferencia a investigação em matemáticas ou física da história e economia, ou entre a química e a medicina e a sociologia e o direito. Essa análise é feita a partir dos novos paradigmas abertos de fazer ciência num contexto informacional.
Debate-se assim o que é hoje a Ciência Aberta, mudança de paradigma científico ou de paradigma de investigação? É a Ciência Aberta um novo movimento social ou uma mera partilha de práticas? E é a ciência praticada em Portugal diferente da praticada em outros contextos europeus? Estas são algumas das perguntas a que se procura responder, ao mesmo tempo que se tenta propor uma definição de Ciência Aberta assente na adoção de processos de abertura na publicação completa, franca e rápida, na ausência de restrições relativas a propriedade intelectual e na transparência, radicalmente aumentada, em fases de pré e pós-publicação, de dados, instrumentos, software, atividades e decisões dentro dos grupos de investigação.

Sobre os autores

Gustavo Cardoso é professor de Media e Sociedade no ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa e investigador do CIES-IUL.
Pedro Jacobetty é mestre pelo ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa e doutorando no Internet Interdisciplinary Institute da Universitat Oberta de Catalunya (IN3-UOC).
Alexandra Duarte é mestre em Sociologia e doutoranda em Políticas Públicas pelo ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa.

Sobre a Mundos Sociais

Mundos Sociais é a nova editora, que vem preencher no mercado português um vazio que se fazia sentir na divulgação científica, assumindo como vocação a publicação de trabalhos científicos de alta qualidade desenvolvidos nas áreas da sociologia, ciência política e outras ciências sociais. Criada pelo Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES), do ISCTE-IUL, a editora é dirigida por Fernando Luís Machado (Diretor) e por Renato Miguel do Carmo (Diretor-adjunto).

Mais informações em www.mundossociais.com  |  www.cies.iscte-iul.pt


PARA UMA CIÊNCIA ABERTA

Neste livro os autores procuram contribuir para responder a um dos desafios contemporâneos da ciência: como delinear os contornos de novas formas “abertas” de fazer ciência. Este é um trabalho onde se questiona a ciência praticada no século XX à luz das novas práticas científicas, num contexto de transformação social mais alargado: a emergência da sociedade em rede e o despontar de uma ciência de base informacional.
As tendências identificadas constituem contributos para a compreensão do que será e como será o funcionamento da ciência no séc. XXI. Os autores sugerem que a partilha formal e informal de conhecimento científico nas redes digitais adquire já hoje uma expressão considerável junto dos profissionais da ciência, e que o enquadramento institucional do trabalho científico parece estar a mudar para incluir mecanismos de incentivo a essas práticas. Debate-se assim o que é hoje a Ciência Aberta, mudança de paradigma científico ou de paradigma de investigação? É a Ciência Aberta um novo movimento social ou uma mera partilha de práticas? E é a ciência praticada em Portugal diferente da praticada em outros contextos europeus? Estas são algumas das perguntas a que se procura responder, ao mesmo tempo que se tenta propor uma definição de Ciência Aberta assente na adoção de processos de abertura na publicação completa, franca e rápida, na ausência de restrições relativas a propriedade intelectual e na transparência, radicalmente aumentada, em fases de pré e pós-publicação, de dados, instrumentos, software, atividades e decisões dentro dos grupos de investigação.

5.20.2012


Dia 28 de Maio, pelas 18 horas, na Biblioteca Municipal de Portalegre, sessão de leitura do Grupo READCOM de Portalegre, sobre obra de Jorge Luis Borges 


O Grupo de Leitura READCOM – ou, numa terminologia mais corporativista, o CLUBE de LEITURA READCOM – de Portalegre, teve o seu período de arranque entre 2005 e 2008, no qual foram abordados, com relativa acuidade e crítica, conforme a oportunidade, aproximadamente 40 livros doutros tantos autores. Foi uma viagem por temas como a identidade, a diferença, o género e a literatura. Seguiu-se uma recapitulação do formato, que culminou na mudança de lugar e cenário para esses encontros com os livros. E desde então, periódica e regularmente, de mês a mês, na Sala Polivalente da Biblioteca Municipal de Portalegre, têm vindo a suceder-se… Desceu-se pelo continente africano num ano, entrou-se na América Latina no outro, com visitas guiadas a diversos autores e nações. Os últimos foram Chile e Argentina. Esta com Jorge Luis Borges, sobre a obra Ficções, que estará na mesa das operações analíticas, dia 28 de Maio de 2012, pelas 18 horas.

ODISSEIA, LIVRO VIGÉSIMO TERCEIRO


Já com a espada de ferro executou
O devido trabalho da vingança
E com ásperos dardos e a lança
O sangue do perverso espalhou.

A despeito de um deus e de seus mares
A seu reino e rainha voltou Ulisses
A despeito de um deus e dos difíceis
Ventos e do estrépito de Ares.

Já no amor do compartilhado leito
Dorme a clara rainha sobre o peito
Do seu rei, mas onde está o homem

Que nos dias e noites da separação
Errava pelo mundo como um cão
E dizia que Ninguém era o seu nome.

(Jorge Luis Borges)

Quem for aficionado destas andanças, e quiser participar, será bem acolhido e não dará por mal-empregado o seu tempo; essa, lhe afianço! :D

LANÇAMENTO DA REVISTA PLÁTANO nº 5, dia 23 de Maio, dia da cidade, pelas 16 horas, na Biblioteca Municipal de Portalegre

 Sob a iniciativa do coordenador e responsável editorial, Mário Casa Nova Martins, a revista PLÁTANO, revista de arte e crítica de Portalegre, nasceu em má maré mas tem-se aguentado. Tanto assim que já vai no nº 5, e surge num momento histórico algo anorético para a carteira da maioria. A adivinhar pela capa e colaborações, propondo uma grelha eclética e diversificada. Vai ser apresentada ao público, dia 23 de Maio, pelas 16 horas, na Sala Polivalente da Biblioteca Municipal de Portalegre. Talvez não seja uma oportunidade a desperdiçar para quem, depois de um almoço de feriado a meio da semana, esteja recetivo às novidades e iniciativas que a sociedade civil portalegrense vai pautando, sem outra aspiração além da participação ativa no seu tempo e território… Que tal?  

4.29.2012


“Só acredito nos deuses da fábula, da Mitologia… Ceres farta e abundante, a encher de flores e frutas os vergeis, Ceres, a alma perfumada das laranjeiras, é uma santa da minha devoção. – Esqueceu-se Fred, que tenho horror às mulheres gordas…
Pan, tocando a sua flauta de pastor, num canto florido do bosque, é o meu anjo da guarda!
Já depus uma complicada oferenda d’ovelhas e de pombas no altar d’Eros!
Tenho um fraco pelos faunos, que se escondem nos maciços de madressilvas para surpreender as ninfas, que nas brandas noites, dançam ao luar! – Em boa hora não se lembrou de dizer que faço parte do bailado!
Acredito na virtude cantante das fontes e acho mais devotas de que as cátedras, as árvores, erguendo para o céu, as torres de verdura!
Se, nas doces tardes de Maio, alguém me viu no mês de Maria, é porque nessa devoção cristã, a uma virgem, coroada de rosas, erra ainda, perfumada e bela, a alma do velho paganismo!...” (In LUZIA, Os Que Se Divertem, p.152)

4.07.2012


Porque a arte é por excelência um veículo de transporte e celebração de afetos, também a vossa participação é, sempre foi e há de continuar a ser, o nosso melhor poema



JOAQUIM CASTANHO E LÍDIA GODINHO em MOMENTOS DE POESIA



Conforme tem sido habitual, de algum tempo a esta parte, acontecem Momentos de Poesia todos os meses na Biblioteca Municipal de Portalegre, mais precisamente ao segundo Sábado de cada mês, pelas 16 horas, sob a generalizada coordenação de Deolinda Milhano.

Para essas sessões, segundo também o que normalmente tem acontecido, são convidados alguns autores portalegrenses – mas não só –, poetas – maioritariamente, mas não só – para participar e assim prestar seu contributo, lendo ou declamando os seus textos, de acordo com a livre escolha e estilo de cada um, e no formato que melhor lhes convém.


Desta feita, calhou a sorte, no próximo Sábado, dia 14 de abril de 2012, a Joaquim Castanho, escritor natural de Portalegre, que terá iniciado a sua atividade literária exatamente com o género poético, e que conta já com um considerável número de
títulos originais e inéditos, entre os quais quatro de poesia ( EUCLASIA, CAPAS NEGRAS, FAIT-DIVERS e O ESCRIBALISTA E SEUS ESCRIBALISMO PRETÉRITO).


Todavia, não será somente por isso que esta edição de MOMENTOS DE POESIA se antevê como uma sessão extraordinária... Antes sim pelo formato e pela preciosa colaboração que Joaquim Castanho irá ter – a de sua amiga de longa data LÍDIA GODINHO, também ela natural deste distrito, embora atualmente a residir em Lisboa e a trabalhar
na Amadora, que conhece a sua poesia como mais ninguém e desde os tempos de estudante nesta cidade, onde frequentou o ensino secundário e superior.


Ou seja, além do universo poético e habitat inequívoco de sentimentos e emoções, memórias e metáforas, registos ideológicos e apontamentos do quotidiano, se vai nela ter igualmente oportunidade de constatar o efeito direto desse outro grande afeto que é a AMIZADE, e de como ele transforma os sons, as imagens e as palavras, em exemplos vivos de pronúncia humana, cujo timbre e ritmo é indubitavelmente o do mútuo reconhecimento e apreço, uma "musicalidade" quase perdida nos dias de hoje mas tão necessária como urgente neles.


Portanto, o convite aqui fica a todas e todos que queiram testemunhar essa simbiose das falas apenas, possível numa língua em que o sotaque alentejano arrasta consigo fiapos da alma lusitana, que se hão de entretecer numa malha de afetos vincadamente universais com que se se subscrevem todos os reencontros humanos – a ternura, a empatia e a amizade.


Porque a arte é por excelência um veículo de transporte e celebração de afetos, também a vossa participação é, sempre foi e há de continuar a ser, o nosso melhor poema!

2.15.2012


Prémio António Alçada Baptista

O Prémio António Alçada Baptista destinado a obras de carácter autobiográfico e memorialístico foi atribuído por unanimidade ao escritor, musicólogo e radialista António Cartaxo, pelo seu livro de memórias “Quase Verdade como São Memórias”, editado pela Colibri. O júri foi constituído por António Torrado, José Jorge Letria e João Lourenço, que consideraram esta obra merecedora da distinção pela sua qualidade literária e de testemunho cultural e social.

Este prémio foi criado para homenagear António Alçada Baptista, que foi membro da Direcção da SPA e se destacou também no domínio literário que este galardão consagra. É a primeira vez que o prémio com o valor pecuniário de 2.000 euros é atribuído, mantendo-se a sua periodicidade anual e sendo o regulamento consultável junto dos serviços da SPA. Oportunamente será anunciada a data da entrega do prémio a António Cartaxo.

Lisboa, 10 de Fevereiro de 2012

Para mais informações http://www.edi-colibri.pt/Detalhes.aspx?ItemID=1294

2.09.2012

LUZIA, pseudónimo literário da portalegrense Luísa Grande, foi uma marca de inegável talento e criatividade cujo rasto não se pode diluir no tempo

É grande loucura essa, a de alguns escritores terem a mania de quererem ser felizes, mesmo quando parece tudo e todos estarem realmente empenhados em não deixar que isso aconteça… Porventura será exatamente por isso que muitas pessoas os admiram tanto, por sentirem que estes anseiam, afinal, o mesmo que elas.

Conseguiu porém LUZIA, sem que sequer alguma vez lhe resvalasse a pena para o casticismo exótico ou para o porreirismo lamechas, gizar quadros de singela e pitoresca beleza acerca do dia-a-dia dos portugueses do princípio do século passado, quer deste quadradinho continental como das ilhas atlânticas, do universo lisboeta como das latitudes alentejanas, da cosmopolita Europa como das rústicas e montanhosas aragens dos Pirenéus, sob a acentuada influência estética do parnasianismo disseminado por Anatole France, por exemplo, bem como sob as matizes simbolistas e fantasiosas da francofonia veiculadas por Jane Cals ou Marguerite Burnat-Provins, entre outros e outras, que lhe timbraram o discurso com aquela peculiar melancolia sonhadora das almas que fizeram da solidão o seu porto-seguro. Se o mundanismo modernista a arrastou consigo esporádicas vezes pela sua condição de mulher de convívio com outras mulheres, nunca porém lhe foi acérrima aficionada, talvez em resultado de suas múltiplas orfandades que desde c
edo lhe torceram o destino (de mãe, de pai, de terra, de marido, de ideologia e de saúde), lavrando o choro e riso, num estilo de vincada oralidade fruto inequívoco dos serões familiares alentejanos, onde não lhe seria alheia a paulatina vagabundagem pelos universos imagéticos das Mil e Uma Noites, propícia ao conforto doméstico junto à lareira, ou as demandas shakespearianas adaptadas às circunstâncias pouco exigentes do Teatro Portalegrense, último grito da cultura e da moda numa cidade a braços com a acesa catolicidade que via com maus olhos que os sapateiros intentassem além da sovela, embora o amadorismo fosse o único recurso para lhe animar a plateia, legando-nos ainda assim uma profícua obra, cujos alicerces se implantam nos géneros dramático e bucólico, dispersando-se por epístolas, diários, contos, novelas, bilhetes-postais, crónicas de costumes, artigos de fundo e críticas, peças de teatro, sketches, impressões de viagem, caraterização de tipos, recolhidos da observação direta e da introspeção, com narrativa na primeira pessoa, confirmando quanto é necessário que alguém se insurja contra o olvido através da prevenção, pois “quem se esquece de si próprio é fatalmente esquecido pelos outros”, como muito a propósito faz notar em Flores de Inverno: IV – Margarida, do livro Almas e Terras Onde Eu Passei, Edições Europa, pág. 190.

Teve dissabores, é claro – e quem os não teria numa época em que a mulher era considerada o sexo fraco, falho de vontade e responsabilidade cívica, exceto para as atividades ligadas à procriação da espécie e cultivo da (honra da) família? –, mas contornou-os sob o principal refúgio da leitura e da escrita, instigada imaginação, quiçá inspirada no cavaleiro da fraca figura – como se observa em Almas e Terras Onde Eu Passei, na página 42 – que errou pelas terras da Ibéria comum, aspergindo a perspicaz acutilância observativa e orientação ética de um Cervantes sobre o dorso desse Rocinante apenas prestável para o romantismo das grandes batalhas, precisamente aquelas cujo campo é tão-só e exclusivamente a alma humana.

Pois agora, que ninguém lhe deve nada, nem qualquer ressentimento, pela sua formação e crescimento numa família com etiqueta regeneradora, coisa que à nova república não agradava sobremaneira, creio ter chegado o tempo, não só de lhe lermos a obra como também de recuperar o exemplo, a modernidade e a dignidade de uma mulher que leu os sinais para não perder o sentido da vida. A sua, é óbvio, e igualmente a nossa, enquanto conterrâneos e descendentes de língua e verbo.
O Serviço de Ciência da Fundação Calouste Gulbenkian realizará de Fevereiro a Outubro de 2012 um ciclo de conferências subordinado ao tema MATEMÁTICA: A CIÊNCIA DA NATUREZA, no qual participarão reconhecidos cientistas portugueses, que terão lugar no


Auditório 2 pelas 18:00 horas
com
Transmissão directa nos espaços adjacentes
Videodifusão http://www.livestream.com/fcglive

E por esta ordem de agendamento:

15 Fevereiro 2012 18h00
Trazer o céu para a terra
Henrique Leitão
Universidade de Lisboa


28 Março 2012 18h00
Ter muitas ideias, e a coragem de deitar quase todas fora
Dinis Pestana
Universidade de Lisboa


18 Abril 2012 18h00
Geometria com dobras de papel: como o origami bate Euclides
Ana Rita Pires
Cornell University

A primeira conferência – Trazer o Céu para a Terra – prevista para o auditório 2 da Fundação Calouste Gulbenkian, no dia 15 de Fevereiro p.f., às 18h00, será proferida pelo Prof. Doutor Henrique Leitão, da Universidade de Lisboa.

A contemplação do céu e dos astros sempre fascinou a humanidade.
Mas quando se quer fazer um estudo mais concreto das posições e dos movimentos das estrelas e dos planetas imediatamente se descobre que isso não é simples: os astros parecem deslocar-se numa superfície esférica, uma abóbada por cima das nossas cabeças.

Para se poder passar da simples contemplação ao estudo sério dos astros foi preciso que os matemáticos concebessem um modo de, na terra, se conseguir estudar rigorosamente o céu. Ou seja, um processo matemático de trazer o céu para a terra.


Henrique Leitão (n. Lisboa, 1964) é doutorado em Física Teórica pela Universidade de Lisboa (1998).

Depois de alguns anos trabalhando em física (no Centro de Física da Matéria Condensada da Universidade de Lisboa) orientou os seus interesses para a história da ciência. Foi um dos fundadores, em 2003, do Centro de História da Ciência da Universidade de Lisboa.

Atualmente é Investigador do Centro Interuniversitário de História das Ciências e da Tecnologia (CIUHCT-UL) da Faculdade de Ciências de Universidade de Lisboa, e docente no Mestrado em História e Filosofia da Ciência, na mesma Faculdade. Os seus interesses de investigação centram-se na história das ciências exatas, entre o século XV e o século XVII, sendo o coordenador da comissão científica encarregue da publicação das Obras de Pedro Nunes, pela Academia das Ciências de Lisboa e a Fundação Calouste Gulbenkian. Tem também investigado a atividade científica em colégios da Assistência Portuguesa da Companhia de Jesus. Colabora regularmente com a Biblioteca Nacional de Portugal, onde já foi Comissário Científico de quatro exposições e é o responsável pelo projeto de catalogação dos manuscritos científicos antigos.

É autor de uma vasta obra, com vários livros e algumas dezenas de artigos publicados em periódicos da especialidade. Publicou em 2010 a tradução, com estudo introdutório e notas, do livro de Galileu: Sidereus Nuncius. O Mensageiro das Estrelas (Fundação Calouste Gulbenkian). Participa, como coordenador ou membro, em vários projetos nacionais e internacionais e é membro de diversas sociedades científicas portuguesas e estrangeiras, entre as quais destaca a Academia das Ciências de Lisboa, a Académie Internationale d’Histoire des Sciences, a European Society for the History of Science (foi membro do «Scientific Board» no triénio 2008-2010) e a History of Science Society.




Não esquecendo como atrás foi referido, que se poderá igualmente assistir em direto, esteja onde se estiver, através do site: www.livestream.com.fcg/live.


MATEMÁTICA: A CIÊNCIA DA NATUREZA


Uma enorme transformação no conceito de Natureza ocorre durante os séculos do Renascimento e dos Descobrimentos. As grandes navegações oceânicas tornam esta transformação impossível de esconder. A utilização intensiva de instrumentos, de tabelas, de mapas, bem como a circulação de pessoas, plantas e animais à escala do globo, criam a necessidade de se entender a forma nova que o mundo assume aos olhos maravilhados dos europeus. O século XVII, em que nasce a ciência moderna, consagra esta transformação.

Galileu põe a terra em movimento; e o movimento está por toda a parte: não há estado de repouso no Universo. Mas, ao mesmo tempo, comete um “pecado” de consequências monumentais para o futuro – para legitimar o novo conceito de descoberta das leis naturais, Galileu identifica a Natureza com um livro tão sagrado como a Bíblia, porém escrito numa outra linguagem – a da matemática. Ora a matemática era desde os gregos indissociável da Natureza; era o próprio conhecimento rigoroso, não mitológico, da realidade, através da aritmética, da geometria, da música e da astronomia. Paradoxalmente, em poucas dezenas de anos, a matemática aparece apenas como um “instrumento” de compreensão da nova Natureza. A nova matemática (o cálculo) está separada da natureza, funcionando apenas como a sua linguagem. Um novo conhecimento das coisas naturais emerge, adotando inclusivamente o nome latino de “scientia” para não se confundir com o antigo. A nova física (que surge como mecânica: o estudo do movimento e das forças) triunfa, acolhendo rapidamente os outros fenómenos naturais. Privada inadvertidamente do seu objeto, a matemática escolhe um caminho de progressiva abstração como estratégia evolutiva, com grande sucesso, até aos dias de hoje.

Foi preciso o Cubismo e a Mecânica Quântica para que a Natureza se voltasse a cobrir com os seus véus. Um século depois, percebemos que um conhecimento matemático novo será determinante para que o mundo que nos rodeia ganhe uma nova inteligibilidade. Nós também somos Natureza e esta perceção de base é fundamental para se equacionar a complexidade do nosso tempo. Entendeu por isso o Serviço de Ciência dedicar o ano de 2012 a pensar, de forma motivadora, nos novos caminhos abertos ou antevistos pela Matemática ao reassumir em plenitude o seu papel central de discurso sobre a Natureza.


João Caraça
(Diretor do Serviço de Ciência da Fundação Calouste Gulbenkian)

2.07.2012

O ROSÁRIO, de Florence Barclay, na perspetiva de LUZIA, escritora portalegrense dos séculos XIX/XX

(…)
Já mais calmo o fogacho, eu me dispunha a utilizar de certa ciência, entre todas preciosa e há muito aprendida, a da renúncia, quando a minha inteligente amiga Dora veio oferecer-me um romance, em que logo encontrei o antídoto que reclamava. Embora escrito nos primeiros anos deste século, o [The] Rosary, de Florence Barclay, está ainda impregnado de toda a deliciosa pieguice, exagero, ia a dizer outra vez… peluche – decididamente não posso pensar nessa época sem que me ocorra a peluche! – do seu antecessor.
Tudo se passa entre duquesas, Ladies, Sirs. As mulheres loiras e brancas – oh! que alívio! – usam rendas antigas no decote, guarnecem de narcisos doirados ou de camélias pálidas, as jarras de cristal. A bíblia e as grandes tiradas líricas alternam. Jane Champion – honourable, já se vê, que sob assaz respeitáveis dimensões, possui uma alma ultrarromântica e uma voz rival da Patti – canta as horas do seu amor, as pérolas do seu rosário… Exatamente o que eu precisava para esquecer Congo(1)e purificador de cocodri! Abençoada Champion!
Por muito dramático que seja o lance, nunca se põem de parte as boas maneiras nem se altera a hora do chá. E desde os bolos, os criados, as salas, os terraços, os jardins, as toilettes, os títulos, até às almas, tudo é de primeira, superfina qualidade!
Oh! Minha doce, sentimental, um nadinha ridícula e, por isso mesmo, ainda mais enternecedora, Florence Barclay, como eu gostei de ti! Sim, fez-me sorrir, de vez em quando, a tua pontinha de snobismo, senti como é absurdo, pueril, todo esse mundo que, num constante deslumbramento – Florence, Florence que fascinação exerciam, em ti, as duquesas! – descreves e, contudo, quanto tenho de agradecer-te! Afastaste o pesadelo com o teu sonho brando. Quanto te invejo! Queria viver como viveste, sempre presa ao teu engano. E quanto te admiro! Porque, tão apaixonada, tão ardente, tão imaginativa aliás, tu só viste o que é puro, bom. Ah! Muito teriam que aprender contigo… Chut! Calei-me a tempo. Você deve estar horripilado, com os cabelos em pé, tal qual um gato a que afagou o pelo em sentido contrário! Mas, querido amigo, a culpa é sua. Porque presume tanto das minhas forças, porque me pede demais?

Monte, Outubro de 1931.

(1) Congo, romance com magia negra e exotismo afro de Paul Morand.

In LUZIA, Impressões de Livros, Almas e Terras Onde Eu Passei, Edições Europa, pág. 270-271. Lisboa, 1936

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

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