Convite para partilhar caminhos de leitura e uma abertura para os mundos virtuais e virtuososos da escrita sem rede nem receios de censura. Ah, e não esquecer que os e-mails de serviço são osverdes.ptg@gmail.com ou castanhoster@gmail.com FORÇA!!! Digam de vossa justiça!
2.17.2019
BRISA ACROBÁTICA
BRISA ACROBÁTICA
Junto às muralhas gastas (a esfarelarem-se) a teenager faz o pino:
Os calcanhares encostados a pique na parede de pedra sulcada
E lhe desce tanto o vestido garrido coxas abaixo desmaiado
Até se lhe ancorar nos púbicos sovacos, a barra sobre a testa
Os cabelos diluindo-se na relva entrelinhada e mansa e fresca
Onde os gatos cabriolam de retouça com os corvos de Mármara.
Haverá mínimo crime em ousar o gesto num rompante acrobático?
Que mergulho cometeu seu corpo que tão-só rompeu o infinito
Azul violeta, turquesa doce invertida no mundo de cabeça pra baixo
Na sublime perversão dos sonhos escritos em futuro de ter sido?
Mas serena a língua te explora agora tentando recompor as vestes
Como se fosses desbravada ainda não as curvas descendentes ao verbo
Ainda os pés, os seios
O pescoço, o ventre
As coxas, a boca
A voz
O triângulo da intenção mátria
A serra, o monte-de-Vénus
A planície, a seiva
A ânsia cega de falar.
Serena a língua interpreta
Penetra e inquieta o corpo percorre
O teu país de gritar paixão
Navegar entre continentes incontida
A sombra que tece e invade e em chama analisa
A brisa explode contigo – sim, ela também!!
Joaquim Maria Castanho
Com Foto de Elie Andrade
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Endechas a Bárbara Joana,
Há Luz no Escurecer
2.13.2019
A ESTÉTICA - DISCURSO
DISCURSO
SOBRE A ESTÉTICA
E
não é novidade nenhuma;
Sonham
a frio e sonham a quente,
Em
frescas sestas sobre caruma.
Às
tardes, no areal à beira-mar
A
ver o pôr do sol sobre as águas
Ou
a gritar à lua, e a fintar
Ansiedades,
medos e mágoas.
Os
sonhos sonham isto e aquilo.
Cavalgam
em cavalos-marinhos.
Têm
arados puxados por esquilo.
Nas
cabeças ocas fazem ninhos.
Os
sonhos, sonham – é tão certeza
Que
a dúvida, se nasce, morre
Logo,
e em vista disto só discorre
Se
o puder fazer sobre a beleza.
Joaquim
Maria Castanho
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Há Luz no Escurecer,
Literárias e Libertinas
A MAIS LINDA DO MUNDO
O FADO DO LAR
Por amor duma caixeira
Sou um homem destroçado,
Pois ela foi a primeira
Por quem vivo em cuidado.
«Puxo coisa, meto o dedo,
Passo código digital;
Faço-o com tanto segredo
Que até ele acha normal.»
Ajudo prà reciclagem
Ando de sacola na mão,
Facilito na contagem
Pagando sempre em cartão.
«Abro o saco, meto-o dentro,
Dou desconto e destaco;
Ponho a barra no centro
Peso fruta apalpo o naco.»
Sou um bom homem já se vê
Passeio o cão, leio o jornal,
E não me meto em sarilhos;
Com o preço certo na TV
Eu dou a papa nos filhos.
«Dou-lhe instrução e carta,
Deixo-o empurrar carrinhos
Desse modelo virginal
Com qu’este povo acarta
Nossa alma plos caminhos.»
Quand’há bicha na caixa
Olho com viés profundo,
Pio a ver se se despacha
A mais linda do mundo.
«Peço prò laço em baixa
Aperto o nó num segundo,
E ind’assim ele me acha
A mais linda do mundo.»
A mais linda do mundo
A mais linda do mundo
A mais linda do mundo
A mais linda do mundo
Joaquim Maria Castanho
2.05.2019
DESCENDENTE É O POENTE
POENTE
DESCENDENTE
Tu
és todas as soluções
Possíveis
e imaginárias
Por
cujos testes e padrões
Florescem
pessoas várias...
E
na diferença premente
Em
que esbarram ilusões,
Cresces
sobre a luz diária
Pondo-a
tua dependente.
Não
há homens nem mulheres
Nem
pressupostos da idade,
Que
se fizeres o que quiseres
Só
encontrarás humanidade.
Joaquim
Maria Castanho
2.03.2019
POEMA DOMINICAL
POEMA
DOMINICAL
Pela
orla da luz a pérola da voz
Redesenha
os contornos, as matizes
Onde
toda a gente e cada um de nós
Se
liberta dos seus nós e deslizes...
Mas
ninguém conta por quantos sofreu
Embora
nunca esqueça porque o fez;
Uns
batem no peito e gritam «não fui eu!»
Outros,
a quem nasceu alguma sensatez
Rebatem,
debatem-se com credos vários
E,
só pra serem dos demais contrários,
Mergulham
nas fétidas águas do Ganges
E
castos, misericordiosos e langues
Erguem
olhos prò céu e murmuram: TALVEZ.
Joaquim
Maria Castanho
2.02.2019
JANELAS DO OLHAR, DA ALMA E DO AMAR
ÀS
JANELAS DO OLHAR
O
meu amor é flor gentil
Cujos
lábios são de jasmim,
Com
pétalas de beijos mil
Se
afloram já sobre mim
Têm
a sofreguidão macia
Suave,
do mel e do cetim,
E
a doçura da poesia
Que
há nos amores sem fim.
É
duma loucura tão sã
Que
arrepia só de vê-la...
Se
à tarde, fica manhã
Impossível
esquecê-la,
Que
todo o dia penso nela
Com
um fulgor pertinaz
Tão
gentil, mas também bela
Que
seus olhos são a janela
Onde
pendurado me traz.
Joaquim
Maria Castanho
2.01.2019
QUANDO NÃO HÁ CERTEZA, CULPAM-SE OS ELEMENTOS E A NATUREZA
A CULPA É DO VENTO
Empurro o sol contra o vento
Para lhe secar de vez a voz,
Mas descobre-me o intento
E eis que é o vento a empurrar-nos a nós.
De nada nos desculpa agora
Acabou-se-lhe, enfim, a paciência;
E quando sopra para fora
Atinge-nos em cheio na consciência.
A mim, sei bem porquê, já os demais...
Já aos demais desconheço as razões.
A tantos disse serem causas globais
Que poucos lhe reparam nas alterações!
Joaquim Maria Castanho
1.31.2019
O MANTO DA TARDE
MANTO
VESPERTINO
Qual
espetral viajante celeste,
Que
raro despeja água no chão silvestre...
Mas
às vezes calha!
O
azul é plúmbeo, o mar pebleu
E
aquilo que nele voga almas são
De
estranha forma, trôpega locomoção...
Exatamente
como eu!
No
mar que nada de mar tem
Sequer
o azul marinho que espelha o céu,
Nada
navega, nem escolhos, nem ninguém
Além
do manto da tarde
Onde
não arde nenhum véu!
Joaquim
Maria Castanho
1.30.2019
ESPERAR É PORFIAR
QUEM ESPERA NÃO DESISTE
Quando nuvens se abatem sobre nós
E o teto do céu fica rasteiro,
Pesado aos dias, do nascer à foz
Ninguém aufere as horas por inteiro...
Algumas demoram passar, presas a retrós
Desde as mãos do tempo seu condutor,
Cujas rédeas de gris são própria voz
Instigando-as, carroceiro desamor.
E outras, se passam, fazem-no por favor
Preenchidas de lentidão afetada...
Que desavindas, e já falhas de calor
Aspergem de frio a terra amarrotada.
É nelas que a esperança arredia
Se vê fraca, tonta, zonza... Porém porfia!
Joaquim Maria Castanho
1.29.2019
TANTA GENTE VI E SÓ UNS OLHOS NÃO ESQUECI
TANTA
GENTE VI E SÓ UNS OLHOS NÃO ESQUECI...
O
meu sonho prendeu-se ao teu olhar
Disse
o que preferia nunca dizer,
E
anda agora com o verbo esperar
Na
espera que lhe voltes a acontecer.
Se
culpasse, fosse do que fosse, meu ser
Por
se sentir em teus olhos naufragar,
Havia
também de culpar o querer viver
Pois
que sem eles me vej'a desesperar.
E
desespero plo que quero e não quero
Vivendo
entre tudo crer e não ver nada,
Que
só a teus olhos sou e me esmero
Por
ser com alma por mil multiplicada.
Coisa
de pouca monta em tão grande grei
Não
fosse ess'olhar único a que me dei!
Joaquim
Maria Castanho
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Endechas a Bárbara Joana,
Há Luz no Escurecer,
L and L
1.27.2019
AI ( I )
AI
(I)
Qual
um ditongo breve
Ápice
de iniciação,
É
ele quem nos inscreve
Desde
o berço à nação.
Traz
do limbo o sentido,
Do
verbo o crer ser ação,
E
quando já não serve
Ei-lo
de grito perdido:
Ferve
já vulcão ferido
Rasga
breus, imensidão.
Dizem-no
singular pessoa
Alguns,
de estranha fala,
Mas
toda a gente que voa
Caia
ou não, nunc'ò cala.
Joaquim
Maria Castanho
1.26.2019
1.19.2019
1.10.2019
AS PINCELADAS DO TEMPO
AS PINCELADAS DE CRONOS
Já triplo cinzel me cerziu
Matriz enfim, choro, grito
Desbastam, gastam por cicio
Só de metal frio, aflito...
Como terá acontecido?
Sob que mistério, assim
Presente, futuro ou ido
Passado tornam granito
Pra se "assentarem" em mim?
Nascem das sombras, num torpor
Rústico, desajeitado;
Às vezes, merecem amor
– Outras, apenas cuidado.
Joaquim Maria Castanho
Com escultura de João Aires Garcia
1.06.2019
RUBRO OCASO
RUBRO OCASO
Do lídimo olhar, atento
Esgar mínimo, diverso
Nasce a cor deste verso
Tão submerso sentimento
Em que ocaso m'invento
Na tarde aguda, fria
Quase farta de tudo
Até do silêncio mudo
Onde pasce a poesia...
E logo qu'ela eclode
Traz no rosto, no perfil
A magia de quem pode
Mais qu'm cravo de abril!
Joaquim Maria Castanho
1.03.2019
PASSADA BREVE
PASSADA BREVE
Aproximo os lábios dessa rosa
Que não digo, nem me pica:
Estico o verso até parecer prosa
Cujo sentido não estica...
E no balanço alcanço o chão.
Calco-o simples, andamento
À espera duma ilusão
Terra a terra, rasa fica
Pra nada segurar em si...
Nem a brisa, a luz, o vento...
Algo que não sei – nem esqueci!
Joaquim Maria Castanho
1.02.2019
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