2.04.2022

CHÃO AGRESTE

 

CHÃO AGRESTE


1. MANEIRA DE SER


Calcetada de compungido silêncio

Eis uma rua que nada diz do que penso

Sob os frios passos magoados do caminho…

Seu semblante comum às idas abandonadas

Regressa ao estio dos cães em vadiagem

Ladra a preto e branco o bicudo escarninho

Por quem atravessa chão que é escadas

E leva às costas a sisudez da bagagem.


Dias escarram nelas a sombra dos plátanos.

Noites cobrem-nas de geadas deslizantes.

Mas ímpios e insensíveis são só pântanos

Onde coaxam as solidões ofegantes

De quem já esperou uma vida inteira

Que lhe reconhecessem normal o andar

Os gestos, a lida, a voz… a sua maneira!


2. OUTRA CHUVA NOS CONFORTA


É subterrânea a sombra

Que a luz dilacera,

Como se faz a uma cobra

Que sonhou ser Quimera.


Que travo trago a trago

Dos olhos que ora me norteiam,

E iludem o seco vago

Para em vez dele porem

O porém

Do amor, e carinho que semeiam.


Então, viradas para cima

As raízes da incerteza,

Eis que muda agora o clima

Chovendo-me na alma… Mas só beleza!


Joaquim Maria Castanho


1.18.2022

Resiliência Original


 

RESILIÊNCIA ORIGINAL


Toda hora é passo dado

Em frente, mesmo sem sair,

Ir para qualquer lado

Onde o proveito do porvir

Nos traga algum resultado.


Hoje é sempre o primeiro dia.

Longa espera chegou ao fim.

Que, para brotar a poesia,

Há que nascer outro eu de mim.


O silêncio nada inventa.

O medo à dor nada diz.

Só perece quem não tenta…

Florir é dar vida à raiz!


Joaquim Maria Castanho



1.09.2022

Les Feuilles Mortes - Yves Montand - tradução

DA SOLIDÃO DAS FOLHAS MORTAS

 

DA SERÔDIA SOLIDÃO DAS FOLHAS


Afasto-me, nem sei para onde

Das nuvens escuras, doentias

Sob as quais o receio esconde

A pura inocência das poesias.


Dessa árvore de cuja fronde

Pendem os versos, as ousadias

A que hoje ninguém responde

Por vê-los como se folhas frias.


Mas é grande engano esse

Sobre o qual cai o julgamento:


Não há verso que ao soltar-se

Ainda que das mentes geladas

Não seja fogo, sentimento

Confissão labareda alento,

Lamento d’almas apaixonadas!


Joaquim Maria Castanho


1.07.2022

Lana Del Rey - Lolita

AS DISTRAÇÕES PAGAM-SE CARO

 

AS DISTRAÇÕES PAGAM-SE CARO



O meu relógio biológico avariou.

É bússola cujo norte está no sul,

E se o consulto pra saber onde estou

Apenas me afirma que tu já passaste

Ou, então, sério, diz «Ah, ainda não passou!»


Porém, em algumas manhãs, com céu azul

Jocoso, irónico, e feito traste,

Num tiquetaque de quem cala o que sabe

Faz-me esperar até que a manhã acabe

E, mesmo assim, quase nada me diz

A não ser: «Paciência… Foi por um triz!»


Joaquim Maria Castanho

1.04.2022

ÍNTIMA JANELA

 

JANELA ÍNTIMA
 
Oscila-me o ânimo conforme a luz
Embora o contrário também seja assim,
Que nada há na vida que se assine de cruz
E muito menos a maneira de ver-me a mim. 
 
Logo eu, que sou tal-qual são os demais
Onde as dúvidas também pintam semblantes,
E vou pra onde vão diferentes e iguais
Esquecendo quem foram um dia antes. 
 
Negócio de defesa instintiva será
Este brio se o sol lhe emprestou chancela,
Que é forma do céu ver quem na terra está
Sem sequer abrir as persianas à janela!
 

12.25.2021

Ladyhawke • I'll Stand By You • The Pretenders

A BOCA DO TEMPO

 

A BOCA DO TEMPO



A grande solidão do mundo

Abateu-se sobre mim, ser ínfimo e moribundo

Que habita paredes-meias com o tempo frio

E o silêncio verde-escuro das agulhas dos pinheiros,

Para perguntar de vez «Quem mais pode: o rio

Que leva as águas dos choros derradeiros

Ou a certeza matemática do calendário

Quando solta mais uma folha ao vento

E exige que o consultes ao contrário

Da última prà primeira, até perderes o alento

Das páginas a que te amparaste a vida inteira?»


E eu respondi: «Nem um, nem a outra;

Que quem mais pode, cá como no Além,

Molda as solidões com ligeireza pronta,

E faz com elas castelos de cristal diamantino

Onde nunca entrará mais nada nem ninguém

Que não tenha construído também o seu destino.»


Então, a grande solidão do mundo

Três vezes rugiu como um mostrengo três vezes

Lançou seu bafo ácido, grosso e imundo

Sobre quanto havia e não havia entre nós, e disse

Resfolgando em cada folha virada, mês a mês:

«Aqui, já nada sou, já nada faço.»

E o tempo sem fim, enfim de vez, abriu-se

Engolindo-a para assim fechar-se, de novo,

E retomar a sua própria forma na forma dum ovo

Onde os vestígios de boca não passam dum traço.


Joaquim Maria Castanho


12.04.2021

Dulce Pontes-Canção do Mar (videoclip oficial)

É JÁ (TÃO) QUASE NOITE

 


É JÁ TÃO QUASE NOITE


O valor dos dias e das gentes

Está em serem diferentes.


É tão meio-dia quase noite

Quase pouca luz a findar,

Mas que o verbo nos acoite

Enquant’a nossa voz soar.

Que os dias como as gentes

É por serem iguais que serão

O fulcro da luz e da razão...

– E mais sãos se diferentes!


Joaquim Maria Castanho

11.29.2021

BOM DIA!

 

Bom dia!


O princípio é o verbo

Depois o dia corre sereno

Murmura, conversa, é acervo

Enleio, esse labirinto

Tão grande e tão pequeno

Que nele cabes e me conservo

Desde o detalhe ao infinito…


Joaquim Maria Castanho

11.24.2021

COMPROMISSO VERBAL

 


COMPROMISSO VERBAL


Meto o verbo devagar

Que o lugar da fala

Quando falo por falar

Digo, e a voz exala

O mesmo falar exíguo

De quem ama ama (e cala).


Então nesse declarar

Que não diz mas declara

– Raiz de amarar no lodo –

Eis que por tanto amar

Até o verbo o calara

Sabendo-o o mundo todo.


Joaquim Maria Castanho

11.22.2021

HUMILDE PINTOR


 

TODO O POETA

                               É 

                                   UM HUMILDE 

 

                         PINTOR



Há sempre poemas escritos

Entre cada folha que cai.

Atiro os olhos ao chão e leio-os

Ante o assombro do vento

Que lhe segura a luz até ao fim

De encontro ao caule e veios

Peito aberto, ramos a oscilar.


Sei cad’uma de suas cores de cor

Mas não me atrevo a pintá-lo,

Que se o outono está usá-lo

É por pensar num poeta maior…


Joaquim Maria Castanho



11.21.2021

VERDE ARDENTE

 


VERDE ARDENTE


Eu recordo o teu olhar, a tua trança

Com’esta paisagem se lembra do verão…

É um ver de há pouco que já não alcança

– E uma folha a arder quase tição!


Joaquim Maria Castanho

 


 

11.20.2021

LUSITANIDADE

 

LUSITANIDADE


Corremos riscos, se amamos,

Entrançados plo destino.

Que a vida chama… Nós vamos.

Viver é ser peregrino!


Joaquim Maria Castanho

11.19.2021

PALAVRA ATUANTE


 

PALAVRA ATUANTE


Enquanto ato, atuo

Sabe-se lá por quê,

Em que distância…


E se digo, logo fluo

Em palavra que se vê

Nascer da própria infância.


Joaquim Maria Castanho


11.16.2021

CISMA

 

 

C I S M A


Há um ENIGMA na minha vida

E creio que veio pra se demorar

Tanto, que receio, mal ela cumprida

Continue eu na outra o mesmo cismar…


Joaquim Maria Castanho

A LEITURA É NÃO


 

A LEITURA NÃO É UM HÁBITO


Que a leitura não é um hábito

Ou sequer semente que se semeia,

É necessidade d’homem prático

– Radicalidade que também medeia…


Disso ninguém tem dúvidas sérias

Que não tenham propaganda à mistura,

Nem faça do trabalho umas férias

Passadas à custa da literatura!


Joaquim Maria Castanho

11.15.2021

DO SILVAR DO VENTO

 

DO SILVAR DO VENTO OUTONIÇO


De vez em quando, uma folha cai…

Então, o caminho aloirece.

Mas este rio continua, e vai

Pra lá da sombra que o escurece.


Afluente de outros maiores

Senhor dos vales e das escarpas,

E das silvas que já foram flores

Agora (h)ouve silvos

Entre margens cativos,

Sem violas e sem capas

Altivos, mesmo sem hinos nem harpas.


Joaquim Maria Castanho

11.08.2021

ESTRELINHA LINDA

 

AH, ESTRELINHA LINDA!


Seja a voz serena eco murmurado

Algo descido à noite aparecida,

Para que o dia ao ver-se recordado

Não esqueça no breu a sombra diluída.


A sombra do que foi e podia ter sido

Se não tivesse claudicado finalmente

E ao fim de tantas horas adormecido,

Talvez julgando que a nossa gente

Se calara só por supo-lo já cumprido.


Mas é falso, disse-lhe uma estrela

Depois outra, e outra, e mais outra enfim,

Até qu’o firmamento acabou por vê-la

Com’olhar daquela que só me lembra a mim.


Joaquim Maria Castanho

CARAVELAS DE MIM

 

Sonho-me como se fora ainda quem fui

E nesse instante tão simples, duradouro

Eis que o presente escreve e já conflui

Pra um futuro onde me penso e demoro…


Que a vida é isso, exatamente assim

Um saltitar breve sobre o ancoradouro

Ond’estão amaradas as caravelas de mim!


Joaquim Maria Castanho

10.29.2021

EXATAMENTE AMANHÃ


 

Amanhã, exatamente amanhã
Estará presente no Intermarché
De Portalegre, durante a manhã
Sem nem mais, nem menos, nem porquê
Pra autografar os livros recentes
Joaquim Maria Castanho, autor
Que é um adepto das nossas gentes
E suas criações de bom gosto... e valor!

 

10.28.2021

GALERIA DE S. SEBASTIÃO, em PORTALEGRE


 

Amigos e Amigas: 
 
Está confirmado… Os livros de Joaquim Maria Castanho, DADINHA DÁ UMA LIÇÃO AO LÁPIS VLUP-VLUP, o Valentão das Dúzias, REDESENHAR A VOZ, NA MINHA CASA MORA UM GATO e A BOLSA DAS MARMITAS, também estão à venda no Departamento de Turismo e Cultura da CÂMARA MUNICIPAL DE PORTALEGRE, mais precisamente no POSTO DE TURISMO de Portalegre, junto à Galeria de S. Sebastião, situada no CONVENTO DE SÃO SEBASTIÃO, onde atualmente funciona a autarquia da nossa cidade e do Distrito de Portalegre. Portanto, há mais uma boa razão para que as visitas a esta cidade sejam recheadas de aprazíveis conteúdos. 
 

SONETO MATINAL

 


MOSTO MATINAL


Esta noite atravessou-se-me a madrugada

A meio do caminho, vinha vestida de breu

Com cada constelação d’estrelas estampada

Num imenso sorriso que não era só seu…


Quis-me parecer c’apertava numa das mãos

Um diamante por lapidar, duro e preciso

A brilhar por entre os dedos justos irmãos

Que edificam o mundo, pela mó do juízo.


As franjas do xaile, onde os fados dançam

Eram promessas de chuva a pingar plas costas,

Se o suor dos que tentam é o dos que alcançam.


O chão de neblina se afasta pròs deixar passar

E sobre as dúvidas frias, infiéis e expostas

Pisam o fruto e os engaços do dia a chegar!


Joaquim Maria Castanho

10.26.2021

A LITERATURA CELEBRA A VIDA E A CULTURA

 

A LITERATURA CELEBRA A VIDA,

 A CULTURA, O QUOTIDIANO 

E A MANEIRA DE ESTAR PRESENTE

 ONDE QUER QUE SEJA 

 

E dias 30 e 31 deste mês, estará no INTERMARCHÉ – PORTALEGRE, onde o autor Joaquim Maria Castanho, também vai estar para autografar os seus livros DADINHA DÁ UMA LIÇÃO LÁPIS VLUP-VLUP, o Valentão das Dúzias, NA MINHA CASA MORA UM GATO, REDESENHAR A VOZ e A BOLSA DAS MARMITAS. Dia 30 (só) na parte da manhã; e dia 31, (só) na parte da tarde. Até lá serão divulgados mais pormenores acerca da iniciativa.



Saudações literárias

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

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Escribalistas é órgão de comunicação oficial de Joaquim Maria Castanho, mentor do escribalismo português