3.05.2019

O VOO DA VOZ






O VOO DA VOZ

Por sob esta luz me perdoo
Se sou quem grita à imensidão,
Pois por ela, e só por ela soou
A voz que escapou à solidão.

Nessa dança deveras milenar
Aonde a ilusão tropeçou,
A voz escolhe luz pra dançar...
Então se enleiam par a par
Até que a luz parece pairar
E a voz se atirou prò ar... – e voou! 
 
Joaquim Maria Castanho
Com foto de Elie Andrade

2.27.2019

INTIMIDADE






INTIMIDADE

O meu segredo, é transformação
Do ímpar em par, da noite em dia,
Do indivíduo em cidadão –
E da palavra em poesia.

Joaquim Maria Castanho

BORBOLOTEIO





BORBOLOTEIO

Digo-me com o verbo na mão...
Reescrevo-te os lhos, faces
Na companhia dessa solidão
Onde se desenvolvem enlaces.

Tens a beleza simples e grata
Que nos dias ensolarados,
Deixa de ser só uma lagarta
Pra nascer em sonhos alados
De coloridos trajes a rigor,
Onde os corpos, por desejados
Volteiam nas asas do amor...

Então, dada por cumprida a missão
A sua vida pode expirar,
Que quem a lagartas deu atenção
Sempre sonhos tem a borboletear. 

Joaquim Maria Castanho

2.18.2019

O DESTINO DAS LAGARTAS






O DESTINO DAS LAGARTAS

Pré-borboletas em trânsito lagartas são
E seguem em fila pelas azinhagas,
Hão de voar qualquer dia, ou talvez não
À parte os encontros que venham a ter...

Se com naturezas funestas e aziagas
Não se lhe adivinha bom fim nem razão
Já que as vão matar ou somente comer!

Joaquim Maria Castanho

2.17.2019

AS FLORES DO BEM






AS FLORES DO BEM


Surgiram no quintal
Sem ninguém esperar
Click!!! – quatro flores
Que ao invés do mal
Na florest’às cores
Pareciam brincar
Só a ser felizes.
As duas pequenas
Ao colo das grandes
(Que seriam fadas
Pla certa), serenas
Já inventavam sons,
Assim concertadas,
Uns maus, outros bons,
Graves ou gritantes,
Imensos, petizes,
Com/sem deslizes
No modesto falar
Língua das flores
Da florest’às cores.


Não sei que diziam
Pela ecolalia…
Não fui iniciado
Com a melodia
Do entendimento,
Ond’elas faziam
O doutoramento.
Mas tenho olhado
Para tantas flores
Da florest’às cores,
Qu’é afiançado
Nesta sinfonia
O fazer dobrado
O que ninguém requer…
Plo que desconfio
Estavam a dizer
«Vivo do arrepio,
Faça o que fizer.»



Coisa de poetas
Que não me engana,
Chamado d’alertas
Pela sua cigana…
Qu’é isso que cantam
Pla melancolia
Na ecolalia
Que o sonho requer,
Quand’assim andam
Pla florest’às cores
Com seus amores
A brincar felizes…
Flores e petizes!

Joaquim Maria Castanho

A AUTORIA DA CULPA






A AUTORIA DA CULPA

Arrumaram-na a um canto
Como uma caixa vazia
De camisas, de sapatos
Como qualquer cartão inútil
No sótão da tarde fria.
Calaram-na, por enquanto
Arrumaram o seu canto.
E todos fomos cúmplices.
E todos somos suspeitos.
Mas só eu sou o culpado!

Joaquim Maria Castanho

BRISA ACROBÁTICA





BRISA ACROBÁTICA
Junto às muralhas gastas (a esfarelarem-se) a teenager faz o pino:
Os calcanhares encostados a pique na parede de pedra sulcada
E lhe desce tanto o vestido garrido coxas abaixo desmaiado
Até se lhe ancorar nos púbicos sovacos, a barra sobre a testa
Os cabelos diluindo-se na relva entrelinhada e mansa e fresca
Onde os gatos cabriolam de retouça com os corvos de Mármara.

Haverá mínimo crime em ousar o gesto num rompante acrobático?
Que mergulho cometeu seu corpo que tão-só rompeu o infinito
Azul violeta, turquesa doce invertida no mundo de cabeça pra baixo
Na sublime perversão dos sonhos escritos em futuro de ter sido?

Mas serena a língua te explora agora tentando recompor as vestes
Como se fosses desbravada ainda não as curvas descendentes ao verbo
Ainda os pés, os seios
O pescoço, o ventre
As coxas, a boca
A voz
O triângulo da intenção mátria
A serra, o monte-de-Vénus
A planície, a seiva
A ânsia cega de falar.

Serena a língua interpreta
Penetra e inquieta o corpo percorre
O teu país de gritar paixão
Navegar entre continentes incontida
A sombra que tece e invade e em chama analisa
A brisa explode contigo – sim, ela também!!

Joaquim Maria Castanho
Com Foto de Elie Andrade

2.13.2019

A ESTÉTICA - DISCURSO


 



DISCURSO SOBRE A ESTÉTICA


Os sonhos também sonham a gente...
E não é novidade nenhuma;
Sonham a frio e sonham a quente,
Em frescas sestas sobre caruma.
Às tardes, no areal à beira-mar
A ver o pôr do sol sobre as águas
Ou a gritar à lua, e a fintar
Ansiedades, medos e mágoas.


Os sonhos sonham isto e aquilo.
Cavalgam em cavalos-marinhos.
Têm arados puxados por esquilo.
Nas cabeças ocas fazem ninhos.


Os sonhos, sonham – é tão certeza
Que a dúvida, se nasce, morre
Logo, e em vista disto só discorre
Se o puder fazer sobre a beleza.


Joaquim Maria Castanho


BANHO DO PAR







PAR DE BANHO


Tenho que aprender o teu corpo
Para que tu também aprendas o meu
E a nossa alma deixe de ser um sopro
Numa teia em que ela própria se entreteceu,
E seja enfim a fusão de duas almas numa...


E seja grito de prazer, de sonho e de espuma!


Joaquim Maria Castanho




A MAIS LINDA DO MUNDO




O FADO DO LAR

Por amor duma caixeira
Sou um homem destroçado,
Pois ela foi a primeira
Por quem vivo em cuidado.


«Puxo coisa, meto o dedo,
Passo código digital;
Faço-o com tanto segredo
Que até ele acha normal.»


Ajudo prà reciclagem
Ando de sacola na mão,
Facilito na contagem
Pagando sempre em cartão.


«Abro o saco, meto-o dentro,
Dou desconto e destaco;
Ponho a barra no centro
Peso fruta apalpo o naco.»


Sou um bom homem já se vê
Passeio o cão, leio o jornal,
E não me meto em sarilhos;
Com o preço certo na TV
Eu dou a papa nos filhos.


«Dou-lhe instrução e carta,
Deixo-o empurrar carrinhos
Desse modelo virginal
Com qu’este povo acarta
Nossa alma plos caminhos.»

Quand’há bicha na caixa
Olho com viés profundo,
Pio a ver se se despacha
A mais linda do mundo.


«Peço prò laço em baixa
Aperto o nó num segundo,
E ind’assim ele me acha
A mais linda do mundo.»

A mais linda do mundo
A mais linda do mundo
A mais linda do mundo
A mais linda do mundo


Joaquim Maria Castanho

2.05.2019

DESCENDENTE É O POENTE






POENTE DESCENDENTE


Tu és todas as soluções
Possíveis e imaginárias
Por cujos testes e padrões
Florescem pessoas várias...
E na diferença premente
Em que esbarram ilusões,
Cresces sobre a luz diária
Pondo-a tua dependente.

Não há homens nem mulheres
Nem pressupostos da idade,
Que se fizeres o que quiseres
Só encontrarás humanidade.

Joaquim Maria Castanho

2.03.2019

POEMA DOMINICAL






POEMA DOMINICAL

Pela orla da luz a pérola da voz
Redesenha os contornos, as matizes
Onde toda a gente e cada um de nós
Se liberta dos seus nós e deslizes...
Mas ninguém conta por quantos sofreu
Embora nunca esqueça porque o fez;
Uns batem no peito e gritam «não fui eu!»
Outros, a quem nasceu alguma sensatez
Rebatem, debatem-se com credos vários
E, só pra serem dos demais contrários,
Mergulham nas fétidas águas do Ganges
E castos, misericordiosos e langues
Erguem olhos prò céu e murmuram: TALVEZ.

Joaquim Maria Castanho


2.02.2019

JANELAS DO OLHAR, DA ALMA E DO AMAR


 



ÀS JANELAS DO OLHAR

O meu amor é flor gentil
Cujos lábios são de jasmim,
Com pétalas de beijos mil
Se afloram já sobre mim
Têm a sofreguidão macia
Suave, do mel e do cetim,
E a doçura da poesia
Que há nos amores sem fim.

É duma loucura tão sã
Que arrepia só de vê-la...
Se à tarde, fica manhã
Impossível esquecê-la,
Que todo o dia penso nela
Com um fulgor pertinaz
Tão gentil, mas também bela
Que seus olhos são a janela
Onde pendurado me traz.

Joaquim Maria Castanho


2.01.2019

QUANDO NÃO HÁ CERTEZA, CULPAM-SE OS ELEMENTOS E A NATUREZA




A CULPA É DO VENTO

Empurro o sol contra o vento
Para lhe secar de vez a voz,
Mas descobre-me o intento
E eis que é o vento a empurrar-nos a nós.

De nada nos desculpa agora
Acabou-se-lhe, enfim, a paciência;
E quando sopra para fora
Atinge-nos em cheio na consciência.

A mim, sei bem porquê, já os demais...
Já aos demais desconheço as razões.
A tantos disse serem causas globais
Que poucos lhe reparam nas alterações!  

Joaquim Maria Castanho

1.31.2019

O MANTO DA TARDE


   



MANTO VESPERTINO

No meu mar, as ondas são poalha
Qual espetral viajante celeste,
Que raro despeja água no chão silvestre...
Mas às vezes calha!

O azul é plúmbeo, o mar pebleu
E aquilo que nele voga almas são
De estranha forma, trôpega locomoção...
Exatamente como eu!
No mar que nada de mar tem
Sequer o azul marinho que espelha o céu,
Nada navega, nem escolhos, nem ninguém
Além do manto da tarde
Onde não arde nenhum véu!

Joaquim Maria Castanho


1.30.2019

ESPERAR É PORFIAR





QUEM ESPERA NÃO DESISTE

Quando nuvens se abatem sobre nós
E o teto do céu fica rasteiro,
Pesado aos dias, do nascer à foz
Ninguém aufere as horas por inteiro...
Algumas demoram passar, presas a retrós
Desde as mãos do tempo seu condutor,
Cujas rédeas de gris são própria voz
Instigando-as, carroceiro desamor.    
E outras, se passam, fazem-no por favor
Preenchidas de lentidão afetada...
Que desavindas, e já falhas de calor
Aspergem de frio a terra amarrotada.

É nelas que a esperança arredia
Se vê fraca, tonta, zonza... Porém porfia!

Joaquim Maria Castanho 
 

1.29.2019

TANTA GENTE VI E SÓ UNS OLHOS NÃO ESQUECI






TANTA GENTE VI E SÓ UNS OLHOS NÃO ESQUECI...

O meu sonho prendeu-se ao teu olhar
Disse o que preferia nunca dizer,
E anda agora com o verbo esperar
Na espera que lhe voltes a acontecer.
Se culpasse, fosse do que fosse, meu ser
Por se sentir em teus olhos naufragar,
Havia também de culpar o querer viver
Pois que sem eles me vej'a desesperar.
E desespero plo que quero e não quero
Vivendo entre tudo crer e não ver nada,
Que só a teus olhos sou e me esmero
Por ser com alma por mil multiplicada.

Coisa de pouca monta em tão grande grei
Não fosse ess'olhar único a que me dei!

Joaquim Maria Castanho

1.27.2019

AI ( I )


   



AI (I)

Qual um ditongo breve
Ápice de iniciação,
É ele quem nos inscreve
Desde o berço à nação.

Traz do limbo o sentido,
Do verbo o crer ser ação,
E quando já não serve
Ei-lo de grito perdido:
Ferve já vulcão ferido
Rasga breus, imensidão.

Dizem-no singular pessoa
Alguns, de estranha fala,
Mas toda a gente que voa
Caia ou não, nunc'ò cala.

Joaquim Maria Castanho

1.26.2019

VER É DEMONSTRAR







VER É DEMONSTRAR

O meu poema
Não sabe recordar...
Não sabe esquecer...

É um teorema
Onde o verbo amar
Vive pra demonstrar
Quanto importa viver!

Joaquim Maria Castanho



MAGIAS E ENCANTAMENTOS




 MAGIAS & ENCANTAMENTOS

1.

Há poemas que são deliciosos,
Que se desfazem no palato...
Tão fofinhos e tão cremosos
Que apetece lamber o prato.

Não lhes sei os ingredientes,
Nada conheço da confeção;
Mas são feitos plas nossas gentes
Com os saberes do coração!

Joaquim Maria Castanho


 

1.19.2019

Pela chuva que cai... Gratidão!






Olha eu, da chuva, com saudade...
E era coisa que nem sabia.
Por este andar, até da verdade
Vou ter saudade algum dia!
Joaquim Maria Castanho

1.10.2019

AS PINCELADAS DO TEMPO




AS PINCELADAS DE CRONOS 

Já triplo cinzel me cerziu
Matriz enfim, choro, grito
Desbastam, gastam por cicio
Só de metal frio, aflito... 

Como terá acontecido?
Sob que mistério, assim
Presente, futuro ou ido
Passado tornam granito
Pra se "assentarem" em mim? 

Nascem das sombras, num torpor
Rústico, desajeitado; 
Às vezes, merecem amor 
– Outras, apenas cuidado. 

Joaquim Maria Castanho
Com escultura de João Aires Garcia

1.06.2019

RUBRO OCASO




RUBRO OCASO

Do lídimo olhar, atento
Esgar mínimo, diverso
Nasce a cor deste verso
Tão submerso sentimento
Em que ocaso m'invento
Na tarde aguda, fria
Quase farta de tudo
Até do silêncio mudo
Onde pasce a poesia... 

E logo qu'ela eclode
Traz no rosto, no perfil
A magia de quem pode
Mais qu'm cravo de abril! 

Joaquim Maria Castanho



1.03.2019

PASSADA BREVE




PASSADA BREVE

Aproximo os lábios dessa rosa
Que não digo, nem me pica:
Estico o verso até parecer prosa
Cujo sentido não estica... 

E no balanço alcanço o chão.
Calco-o simples, andamento
À espera duma ilusão
Terra a terra, rasa fica
Pra nada segurar em si... 
Nem a brisa, a luz, o vento... 
Algo que não sei – nem esqueci!  

Joaquim Maria Castanho

1.02.2019

AURÍFERO BARRO




AURÍFERO BARRO

Há oníricas argilas
Escorrem dos ocasos
Pingam, almas acesas
Gotas incandescentes
Tal destilo, se destilas
Os sonhos e surpresas
Na plástica da tarde... 

É luz que não fenece
Mesmo anoitecida
Capaz de gerar vida. 
É calor que não arde! 

Joaquim Maria Castanho
Com foto de Zélia Mendes

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

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Escribalistas é órgão de comunicação oficial de Joaquim Maria Castanho, mentor do escribalismo português