Convite para partilhar caminhos de leitura e uma abertura para os mundos virtuais e virtuososos da escrita sem rede nem receios de censura. Ah, e não esquecer que os e-mails de serviço são osverdes.ptg@gmail.com ou castanhoster@gmail.com FORÇA!!! Digam de vossa justiça!
10.24.2019
BORBOLETA ALQUIMISTA
MARIPOSA ALQUIMISTA
Em cada esquina, em cada lugar
És o único verbo que sei conjugar
No silêncio do espaço imprevisto
Se o sorriso aflora sem precisar
Tão preciso eu fora no teu olhar.
E aí borboleteio mal te avisto
Quando por amor ao amor insisto;
Pouso e ouso, o coração a bater
Ansioso diz mais do que sei dizer
Mais do qu'a voz, do qu'a alma e o mito...
A asa treme, a fala entaramela
E o sonho grita, lá do infinito
Joga setas na brisa (sem atrito
Mais velozes qu'o grito) e diz: é ela!!
Joaquim Maria Castanho
10.23.2019
NO BALANÇO DA FOLHA
NO
BALANÇO DA FOLHA
O
vento fustiga arvoredo
Cujas
folhas já combalidas
Jogam
fora o verde segredo
E
sucumbem amarelecidas.
Caem
ao chão ou levantam voo
Riscam
as sombras desmaiadas,
Alisam
cinzas que o céu coou
Entre
nuvens desidratadas
– Que
nem pingo d'água escorrem,
Que
nenhuma vivalma acodem.
Porém,
se uma se inclina
Balança
entre mil cuidados,
Reluz,
sede sacia, anima
Até
os sonhos bloqueados.
Joaquim
Maria Castanho
Com
foto de Elie Andrade
10.22.2019
FUNGO LUNAR
FUNGO
LUNAR
Já
trépido, o dia, descamba
Desce
prò outro lado do mundo,
Rasga
sertões no país do samba
Exala
negruras que não excomungo.
Foi
lento a passar, ronceiro
Analógico
na navegação;
Arqueou
salto, caiu inteiro
No
avesso (reverso) d'escuridão.
Mas
nem assim, o ânimo mingua
Ou
a vida para, retrai, exila
Que
nos recantos húmidos, a Lua
Fecunda
fungos... Tortulho brilha.
Joaquim
Maria Castanho
Com
foto de Elie Andrade
10.21.2019
SUBJETIVIDADES!
SUBJETIVIDADES!
Dependem
os fatos doutros factos
Pendem,
oscilam, interligados
Pondo
dependência em seus atos
Independentemente
dos dados
Dos
argumentos, das perspetivas
Dos
detalhes que lhes dão sensatez
Solidez,
concisão, positivas
Mesmo
que sejam só dois ou três...
Dependem.
Tal como nós pendemos
Entre
tendências ou sujeitos
S'acaso
nos damos ao que vemos
Dando-lhe
qualidade e... defeitos!
Joaquim
Maria Castanho
Com
foto de Elie Andrade
10.17.2019
OS LIVROS SÃO TABUINHAS
42.
OS
LIVROS SÃO TABUINHAS A MIRAR O UMBIGO
Entre
mim e ti eu sou o labirinto alheio
Meda
de palha numa eira falha de grão,
Baraços
de tojo, cânulas de aveia, centeio
Destes
braços que malham pra catar pão
Que
não medrou, cuja semente se perdeu
No
receio desta gente que também sou eu,
Se
fez decalque, pressão, zip, ecrã, visão…
Ponto,
interceção entre o que é material
E
o que é espírito, as tabuinhas são cultura
E
essência de vida em teoria e em ideal
Que
têm palavras, símbolos e estrutura
Pelo
que algumas são mesmo, e à parte
Autênticos
exemplos, vivas obras de arte.
Nascem
após gestação apurada, coletiva
Mas
que é inequívoca plo cunho pessoal,
Pra
que o sonho nelas s’aquiete, sobreviva
De
maneira ativa, prolífera, bela e racional.
São
almas qu’espelham e inventam almas
Integridade,
dignidade, respeito, galhardia
E
apreciam partilha, venda, citação, palmas
Passear
de mão em mão e boa companhia.
Não
raras, de clássicas, são agora eternas;
Outras,
de universais, viraram circunstância
Local,
etária, conjugam antiguidade e infância.
E
há as que trazem ao cimo e de forma vária
O
que noutras era fixo e uno, ou letra sumária.
São
livros que se cumpriram no seu suporte
Sinas
públicas ou clandestinas de consorte…
Fazem
zoom sobre esses ínfimos detalhes
Que,
tão pequenos, passam despercebidos
Embutidos,
floreados, filigranas, entalhes
Que
em sociedade se esvaem tipo e diluídos.
Joaquim
Maria Castanho
in
REDESENHAR A VOZ, página LXIX
Com
foto de Elie Andrade
TEMPO CERTO E TEMPO ERRADO
31.
TEMPO
CERTO E TEMPO ERRADO
Pensar
certo como s’errado fosse
Causa
calafrios quando se faz…
Dedos
frios, voz tropeça na tosse…
Convence-s’o
sujeito de incapaz.
Mas
não é tão mau com’o contrário:
Pensar
errado como se fosse certo
– Qu’assim
se torna o bom ordinário,
O
asno se faz passar por esperto.
Pensar
requer responsabilidade
Plo
que certo ou errado não conta,
Que
se é honesto o pensador há de
Rever
na verdade o que desmonta
A
mentira, a ilusão, a desgraça –
E
ver qu’o tempo só fica se passa.
Joaquim
Maria Castanho
In
REDESENHAR A VOZ, página LIV
Com
foto de Elie Andrade
10.14.2019
O BEIJO SECULAR
O BEIJO SECULAR
Beijar os teus olhos é soletrar
É abrir sulcos n'alma imperfeita
Semear neles cristais e âmbar
Espreitar luz que também espreita;
É rogar aos céus sem crer rogar
Implorar perfeição à jus eleita,
Eleger amar o negrume lunar
Sem fundo por uma fenda estreita.
Mas, principalmente, é reconhecer
Que sem eles não há amar, não há ver
Não há esperança, não há esplendor;
Não há dúvida, e não há certeza
Não há felicidade, nem beleza.
Não há sonho... E também não há amor!
Joaquim Maria Castanho
Com foto de Elie Andrade
10.13.2019
VÍRGULA MUTANTE
VÍRGULA
MUTANTE
Era
uma vez um aprendiz de jornalista por sua própria conta e risco.
Começou como uma vírgula que em breve se tornou asterisco. E sempre
que alguém lhe perguntava porquê, respondia: «Eis que à realidade
visto, com os fatos que de mim mesmo dispo.» Porém, de maduro bebeu
demais... Até que um dia, regressou à poesia, e deixou
definitivamente os jornais.
Joaquim
Maria Castanho
Com
foto de Maria José Castanho
10.09.2019
A METAMORFOSE DA PEDRA
A
METAMORFOSE DA PEDRA
Na
pedra que o faz imortal
Cinzelou
o beijo (de granito);
Porém,
a ternura foi tal
Que
a pedra se tornou grito.
Invadiu
nave celestial,
Cruzou
aquéns e aléns terrenos,
Tirou
ânsia à humanidade.
Irados
mares tornou amenos
E
aos sábios deu bondade.
Mas
a mim, que sou um sonhador
Arreigado
e irreverente,
Pôs-me
a pensar ser por amor
Qu'as
pedras se fizeram gente.
Joaquim
Maria Castanho
Com
foto de Elie Andrade
CUMPLICIDADE MINERAL
CUMPLICIDADE MINERAL
Desce na brisa...
O ar não contamina.
É só oxigénio que desliza
Rasgado por fiapos de neblina.
Dedico-te toda a esp'rança.
E dedico-te todo o desejo
E dedico-te o dizer que balança
E dedico-te a ânsia dum beijo
Num arpejo que nos alisa
Motiva e anima
– E determina.
És minério do mesmo veio
Labirinto, em surpresas várias.
Granito, grão a grão, pleno e cheio
Sinal d'inspiração d'estrofes diárias.
Joaquim Maria Castanho
Com foto de Elie Andrade
10.08.2019
GOTA MADURA
GOTA
MADURA
As
dúvidas, como as certezas
Se
têm igual transparência,
São
tal e qual outras belezas
Que
nos incitam à coerência.
Coerência
no crer e no pensar.
No
sentir, esperar e no querer.
Na
contemplação e no imaginar.
No
fazer, comprar e no escolher.
As
dúvidas são mãe da certeza
Porque
ela só nasce do duvidar,
Carregando
peso à leveza
Qu'amadurece,
pra de vez pingar.
Joaquim
Maria Castanho
Com
foto de Elie Andrade
9.27.2019
"O ESSENCIAL É INVISÍVEL AOS OLHOS"
“O ESSENCIAL É
INVISÍVEL AOS OLHOS”
Indiferente
à cor do dia...
Tem
a luz por sua filha
Mais
do sol, se ele porfia,
Insiste
ser claridade
Induz
beleza no mundo
Alegre
desanoitecer
Capaz
de luzir e crescer
Se
o negrume é cidade
– Buraco
negro e imundo.
Não
a prende, teme ou ata...
A
dissemina e destapa,
Tal
a verdade traduz
O
ver qu'aos olhos escapa.
Joaquim
Maria Castanho
Com
foto de Elie Andrade
9.24.2019
À FADA DE MEUS OLHOS
DA MOTIVAÇÃO DA
ESCRITA
Sem
tampouco me dizer nada
Que
quando plos olhos me dou
É
por ter a alma enamorada,
Tocada
já pelas suas mãos
Desfeita
em promessas, preces
Poções,
palavras e razões
Que
só tem mesmo quem é fada,
Merece
o que só tu mereces:
Beijos
em todos os desvãos
Do
corpo, assaz escondidos,
Com
que a alma apaixonada
Une
e estremece os corações;
Sonhos
perpétuos floridos,
Com
que pétala abandonada
Esquece
os amores tidos;
Luz
que brilha poro a poro
Que
com os lábios percorro,
Se
os olhos neles eu demoro
E
renasço, se acaso morro...
Pequena
fada, de voz doce
Doce
jeitinho e tão gentil,
Escrevo
pra que teu ser fosse
Não
só duma fada... mas de mil!
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