6.14.2018

QUANDO O SENTIR É PURO




QUANDO O SENTIR É PURO

Líquido instante esse
Em que penso... 


                                 de repente
O sonho aflora, desce
No trânsito fluente, 
E seguro, mas constante
Grafa granito no muro,
Numa linha diamante
Do cristal da tarde, ente
Dourado e transparente:
Amor queima mas não arde.

Joaquim Maria Castanho
Com Foto de Anabela Pereira

6.11.2018

PRINCÍPIO E FIM




167.
 PRINCÍPIO E FIM 



Sutil aflorar não é falta de paixão… 
Nem que nela há menor intensidade; 
O amor impõe cuidados ao coração 
– Subscreve sutileza à sensibilidade. 


Fulgor exige doçura, moderação… 
Sequer indica definição d’idade, 
Mas antes explica por que à intenção 
Andam coladas a razão e verdade. 


Já em mim, se exalto nobres valores
Basta-me ver-te pra desde logo sentir
Quanto amor por todas outras flores
Já senti aos pouquinhos, sem explodir,
Sem m’estrondar corpo e alma num vulcão
Que acorda… – liberta lavas de paixão. 

Joaquim Maria Castanho
Com excerto de foto de Anabela Pereira

6.07.2018

OMBRO COM OMBRO




OMBRO A OMBRO

Quando a sombra desliza perturbante
Ombro a ombro vem sem ferir, magoar
Entre as frestas da penumbra secular,
É a fantasia de um sonho distante
Esboçando promessa de lesto chegar.
É a magia do desejo traçando secante
Ao interno novelo que enleia as preces,
Transformando o longe num instante
Em que te fazes autêntica... E apareces.
É o fulgor dum flashback desejado
A enobrecer a realidade, pondo amor
Inesperado no acaso tornando torpor...
Mas também é o semáforo apagado
Frente à zebra que queres transpor
E que à ousadia sempre aplica temor, 
Empresta a cada jeito ensimesmado.

Joaquim Maria Castanho
Com foto de Elie Andrade

6.05.2018

BANCO DE SOBRA




BANCO DE SOBRA

E como tudo se disse já, 
Ou tudo já se fez também...  

... Mas a felicidade está
Em nos sentarmos tão-tão perto,
Que fique metade deserto
Mesmo que não venha mais ninguém!

Joaquim Maria Castanho
Com foto de Elie Andrade

MEU PÃO PLURAL




166. 
MEU PÃO PLURAL 



Mergulho em recordações… 
Abro a voz pra respirar-te.
Redesenho-te por secções
Onde as partes são ambiente
Unidas até serem arte, 
Sentidas até serem gente. 



Não há mar que te desconheça
Não há céu que te não cante, 
Nem sentir que te desmereça
Nem amor sem ser de amante. 



Esse ora assim destilado
Serenidade (e exatidão),
Quase afeto amassado 
Com o cuidado de tua mão 
Que assina por bem, no final
O teu olhar, meigo e plural.

Joaquim Maria Castanho
in REDESENHAR A VOZ  (Pág. CCXIV) 
Com foto de Elie Andrade

6.01.2018

TEU ADEUS




165.
TEU  ADEUS


Tu, só tu
Tormentas paras, derrocadas escoras. 
E posso dizer que teus olhos são meus?
Posso aferir quem sou de quem em mim vês? 
Ontem passaste apenas uma vez… 
Mas duraste vinte e quatro horas. 

Dormi toda a noite com teu Adeus! 

Tu, só tu
Suport’as toneladas de esperança
Que há no sonho e só o sonho alcança. 
E posso dizer que teus olhos são meus? 
Ontem sorriste, e fui criança… 


Dormi toda a noite com teu Adeus! 

Joaquim Maria Castanho
Com foto de Elie Andrade

5.30.2018

ROSMANINHO NACIONAL




164. 
ESTE ROSMANINHO NACIONAL 


Snifei rosmaninho… 
Snifei rosmaninho… 

Pla moldura da janela
Bem no meio do caminho
Vejo sonho, o rosto dela
Jeitinho de Cinderela
Meigo lindo sem igual
Todo feito do carinho
Como só há em Portugal. 

Snifei rosmaninho… 
Snifei rosmaninho… 

Mas não misturei alecrim 
Para não meter no ninho
Quaisquer restos de mim
Menos dignos menos leais
Que aos olhos do mundo
Possam sugerir desditas
E coisas essas que tais
Tão fatais parasitas
Qu’iludem o povo plural
Como só há em Portugal.  

Joaquim Maria Castanho

(Nota desnecessária: Planta por cuja ação antiespasmódica e anticancerígena, pode também ser utilizada para dificuldades no sono, problemas de circulação, prevenção de doenças degenerativas e tratamento de enxaqueca. Ou seja, não obstante o valor, ninguém dá nada por ela.)

5.29.2018

LÂNGUIDO VAGUEAR




163. 
LÂNGUIDO VAGUEAR 


Atraso o passo, retardo
Fitando teu voo e crer, 
Nascida espera ardo
Flama que clama a crescer
Mas nada digo, divago
Vagueio, tronco sem rama
Na chama desse enleio
Na calmaria dum lago. 

Joaquim Maria Castanho
in REDESENHAR A VOZ (Página CCXI)
Com foto de Elie Andrade 

5.28.2018

O TEU OLHAR DEU-ME UM NÓ




162. 
O TEU OLHAR DEU-ME UM NÓ 



Quando teu olhar me falta
Eu fico sem jeito; 
Ando à toa e na malta,
E doi-me o peito. 
Sinto as sílabas trocadas… 
Até perco a razão;
Ando onde não há estradas, 
Ardem-m’as solas no chão. 
Era coisa qu’eu não sabia…
Não se aprende fácil; 
Aprende-se no dia a dia, 
Mal o sentir é ágil. 



Comprar ajuda a (a)pagar. 
Não há mal nenhum nisso… 
A eternidade pod’estar 
No nosso compromisso: 
Podemos crescer como um só 
– Tu serás mãe, tu serás avó.  

Joaquim Maria Castanho
Com foto de Elie Andrade

5.27.2018

BREVIDADE NÃO SEPARA




161.
A BREVIDADE NÃO SEPARA



Quem poderá aproximar-se de ti
Sem te amar é pecado enorme
Que o sonho nunca para nem dorme, 
Faz o seu agora em qualquer aqui. 
Tece enredos onde também teci
Arranja encontros que o conforme
E desce às sombras mais secretas; 
Os teus olhos são mágicas setas
Que fitam na metamorfose a vida
Não quer saber s’é curta ou comprida
Abre sinais já por si abertos
Omite os longes e fá-los pertos
Mas tão perto e tão próximos assim
Tal e qual tu estás hoje em mim.

Joaquim Maria Castanho
Com foto de ELIE ANDRADE

5.26.2018

REGISTO LAVRADO

160.



REGISTO LAVRADO


Pisa 
Pisa em mim, que eu mereço
Acelera bem na minha dor
Que a palavra, se a exerço
Também fere com amor; 
Visa 
Com aviso, se estremeço
Na côdea tostada, a pele
De tua voz redesenhada
Quase crosta, líquido mel
Que reservo prà madrugada
Em que ficas acesa em mim, 
Ângulos feitos de nada
Para a redondez, enfim
Arestas polidas da paixão
Preto no branco, já assumida 
– Coração qu’abre o coração
E mete lá a chave da vida.

Joaquim Maria Castanho
Com excerto de foto de Elie Andrade

5.24.2018

AGUACEIRO CÍCLICO




CÍCLICO AGUACEIRO 

E me reergo das nuvens cinzentas
Qual gota transparente, vertical, 
Que lenta cai entr'as demais, lentas
Até ao grande oceano do plural... 

Porém, logo, de pronto, a impressão
Vincada, escorreita, vivaz, febril
Que há nessa água de águas mil
A líquida solidão desfeita
À espreita por se ver primaveril. 

Joaquim Maria Castanho
Com foto de Elie Andrade

5.23.2018

INCONFORMADO LAMENTO




159.
LAMENTO INCONFORMADO


Ela me castigou por algo que não fiz
E pedir-lhe perdão não adiantará, 
Pois até já o seu castigo eu quis 
Mais que às benesses que outrem me dá…
Que tudo na vida me falha por um triz, 
Nada contenta, nada luz, tudo é vão, 
E me arrasto plas horas escrevendo a giz
Nest’alma ardida, condoído coração.

Sofro, só a recordação me ampara.
Só a solidão me escuta, me entende;
Só nela é meu teu rosto, tua cara
Esta chama que só teu olhar acende.
E mais que astros, o céu, a lua
Só uma voz nela me brilha… a tua!

Joaquim Maria Castanho
in REDESENHAR  VOZ, página CCVII

5.22.2018

RECORRENTES E REDUNDANTES




(RE)CORRENTES E REDUNDANTES

Nesta redundância, sem ideais
Do querer ganhar o seu tostão, 
Há muitas pessoas, bem normais
Que não sabem a diferença que há
Entre o logo e o já, 
Entre o sim e o não!  

Joaquim Maria Castanho
Com foto de Elie Andrade

5.21.2018

SOLUÇO




SOLUÇO 

Viver é habitar num lago de escombros, 
Um emergir escorrendo água dos ombros; 
É um sacudir da aspereza e da fadiga
Ainda que me ande a Musa a monte
E não haja nada que diga, 
Não haja nada que conte... 

Joaquim Maria Castanho
Com foto de Elie Andrade

5.18.2018

SONHO TÁCTIL




157.
SONHO TÁCTIL


Quando passas a conduzir 
E, parece, nem sequer me ver, 
Vejo minha esperança a ruir
Sinto o meu coração a doer
No seu inesperado sentir
– Quase abalo ou sismo ser… – 
Onde o chão, a terra a fugir, 
Tem sulcos d’algodão a escorrer
Tem versos de paixão a contrair 
Plo bailado do teu cabelo
(Dlim-dlão, dlão-dlim), qual pêndulo 
Do compasso a marcar-me assim
Num fogo tal, e só por vê-lo, 
Que sonho por tocá-lo, enfim!

Joaquim Maria Castanho
in REDESENHAR A VOZ

5.16.2018

A ALEGRE PASSEATA




PASSEATA ORGULHOSA

Mesmo que a esperança seja turva
E houver insegurança, estagnação, 
Ou se ziguezaguei curva ante curva
Para não patinar num oleoso chão,
Se disser as estrofes, sigo adiante... 
Se a poesia consentir, cuido de ti... 
E entre nós, o futuro, já radiante
Segue-te pelo presente que escolhi. 

Que este navegar sobre os escolhos
Bem para além do longe e do distante,
Traz a alegria escrita em nossos olhos
Quando a vida de confiante... sorri. 

Joaquim Maria Castanho
(Foto: ELIE ANDRADE)


5.13.2018

ABRAÇO ESSENCIAL II





ABRAÇO ESSENCIAL II

Aposto-m'em cada passo
Na procura do teu olhar, 
Refletido nest'abraço
Que ninguém poderá julgar
Sem deturpar a imagem
Em que a água acredita, 
Exilando-a da margem
Onde bate extasiado,
– Porque em febril cuidado –
O coração que a edita. 

Joaquim Maria Castanho
(C/foto de Elie Andrade)

5.11.2018

DEPOIS DA FALA




DEPOIS DA FALA 



Ondula, baila, baloiça
Oscila um ósculo lunar 
– Digo-o pra que ninguém oiça… – 
Num brinco que me faz baloiçar. 


Qu’isso que a fala aprende
Mal a língua nos pronuncia, 
É um ósculo que nos defende 
Das agruras do dia-a-dia 
Mesmo que não seja tão real
Como o sonhámos tanta vez
É ideal que à vida prende
Quem oscila, balança, porfia; 
Quem baloiça assim todo o mês
Entre o menos bem e o menos-mal. 

Joaquim Maria Castanho

5.08.2018

DO GRITO, a fala




153.DO GRITO, A FALA



Inspiro o que me há de expelir
E anseio na sombra me soletro, 
Mas s’ouvir bater à porta, entro
E abro-a prò sol poder sair, 
Que a vida é fulcro, é centro
Que as pétalas mostram ao abrir, 
Qual grito que não querem calar
Pra erradicar desavença e dor. 


Então, já embevecido raiar 
Vejo-te sorrir num gesto de flor
Que não receia o querer falar… 

– E a língua inventou o amor!

Joaquim Maria Castanho

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

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Escribalistas é órgão de comunicação oficial de Joaquim Maria Castanho, mentor do escribalismo português