5.10.2015

1984 na opinião de Aldous Huxley




“O 1984 de George Orwell constituía a projeção amplificada no futuro de um presente que continha o Estalinismo, e de um passado imediato que testemunhara a floração do nazismo. O Admirável Mundo Novo foi escrito antes da subida de Hitler ao poder supremo na Alemanha e quando o tirano russo ainda não compassara a sua marcha. Em 1931, o terrorismo sistemático ainda não era o fato obsessivo nosso contemporâneo que se havia tornado em 1948, e a ditadura futura do meu mundo imaginário era, em boa parte, menos brutal do que a futura ditadura tão brilhantemente descrita por Orwell. No contexto de 1948, 1984 parecia terrivelmente convincente. Mas, no fim de contas, os tiranos são mortais e as circunstâncias mudam. A recente evolução na Rússia, e avanços recentes no campo da ciência e da tecnologia retiraram ao livro de Orwell uma parte da sua horrenda verosimilhança. Uma guerra nuclear tiraria certamente todo o sentido às predições de qualquer pessoa. Mas, sustentando neste momento que as Grandes Potências podem abster-se algum tanto de nos destruírem, é lícito dizer que tudo se apresenta agora como se todas as vantagens pareçam mais a favor de algo como o Admirável Mundo Novo do que algo como 1984.

À luz do que apurámos recentemente acerca do comportamento animal, em geral, e sobre o comportamento humano, em particular, torna-se claro que o controlo do comportamento indesejável por intermédio do castigo é menos eficaz, no fim de contas, do que o controlo por meio do reforço do comportamento desejável mediante recompensas, e que o governo por meio do terror funciona, no conjunto, pior do que o governo  efetuado pela condução não-violenta do ambiente, das mulheres e das crianças, como indivíduos. A punição trava temporariamente o comportamento indesejável, mas não suprime definitivamente a tendência da vítima a sentir-se bem ao comportar-se desse modo. Além disso, os derivados psicofísicos do castigo podem ser justamente tão indesejáveis como os atos pelos quais um indivíduo foi castigado. A psicoterapia é largamente consagrada às consequências debilitantes ou antissociais das sanções sofridas no passado.

A sociedade descrita em 1984 é uma sociedade controlada quase exclusivamente pelo castigo. No mundo imaginário da minha própria fábula, o castigo não é frequente e é, de um modo geral, suave. O controlo quase perfeito exercido pelo governo é realizado pelo reforço sistemático de comportamento desejável, por numerosas espécies de manipulação quase não-violenta, tanto física como psicológica, e pela estandardização genética. As crianças geradas em proveta e o controlo centralizado da reprodução não são talvez impossíveis; mas é perfeitamente claro que, durante muito tempo ainda, continuaremos a ser uma espécie vivípara que se reproduz ao acaso. A estandardização genética com fins práticos pode ser posta de lado. Continuará a haver nas sociedades o controlo pós-natal – pela repressão, como no passado, e, numa extensão cada vez maior, pelos métodos mais eficazes da recompensa e da manipulação científica.”

In ALDOUS HUXLEY
Regresso ao Admirável Mundo Novo
Trad. Rogério Fernandes
(pág. 17/18/19)

Para as minhas filhas com amor, de Pearl S. Buck




“A emoção, o sentimento, a perceção e o discernimento, são tudo formas de combustão baseadas na imutabilidade. Nada existe de novo debaixo do sol – afirmou há milhares de anos um velho sábio – e tal afirmação continua a ser tão verdadeira atualmente como então. O que hoje existe existiu sempre e sempre existirá na Terra: o que se altera é a forma, não a essência. É a essa essência aquilo que temos de aprender e de aceitar como verdade permanente antes de nos decidirmos a transformar o seu tipo de expressão. A essência é a verdade que uma geração passa a outra e que a nova geração tem que receber se se decidir a optar pelo progresso. Os cientistas conhecem perfeitamente este processo, pois cada um deles baseia a sua nova descoberta naquilo que outro cientista já aprendeu.”

In PEARL S. BUCK
Para as Minhas Filhas Com Amor
Trad. Virgínia Motta

(pág. 18)

5.09.2015

Huxey, e a democracia





“A sobrevivência da democracia depende da aptidão de grandes maiorias para fazerem escolhas de modo realista à luz de uma informação sólida. Uma ditadura, pelo contrário, mantém-se censurando ou deformando os factos, e apelando, não para a razão, não para o interesse próprio esclarecido, mas para a paixão e para o preconceito, para as poderosas «forças ocultas», como Hitler lhes chamava, presentes nas profundidades inconscientes de cada espírito humano.”

In ALDOUS HUXLEY
Regresso ao admirável Mundo Novo
Trad. Rogério Fernandes
(pág. 105)

Huxley e a cultura




“Qualquer cultura que, no interesse da eficiência ou em nome de qualquer dogma político ou religioso, procura estandardizar o indivíduo humano, comete um ultraje contra a natureza biológica do homem.”

In ALDOUS HUXLEY
Regresso ao admirável Mundo Novo
Trad. Rogério Fernandes

(pág. 53)

A ANORMALIDADE DA NORMALIDADE



“(…) Como é que os indivíduos foram afetados pelos progressos técnicos dos anos recentes? Eis a resposta dada a esta interrogação por um filósofo-psiquiatra, Dr. Eric Fromm:

«A nossa sociedade ocidental contemporânea, a despeito do seu progresso material, intelectual e político, conduz cada vez menos à saúde mental, e tende a sabotar a segurança interior, a felicidade, a razão e a capacidade de amor do indivíduo; tende a transformá-lo num autómato que paga o seu fracasso humano com as doença mentais cada vez mais frequentes e desespero oculto sob um frenesim pelo trabalho e pelo chamado prazer.»

As nossas «doenças mentais cada vez mais frequentes» podem achar expressão em sintomas neuróticos. Estes sintomas são evidentes e extremamente perigosos. Mas, «guardemo-nos», diz o Dr. Fromm, «de definir a higiene mental como prevenção de sintomas. Os sintomas, como tais, não são nossos inimigos, mas nossos amigos; onde há sintomas há conflito, e conflito indica sempre que as forças da vida, que porfiam pela harmonização e pela felicidade, ainda lutam. As vítimas de doença mental encontram-se entre aqueles que parecem mais normais. «Muitos daqueles que são normais, são-no porque se encontram tão bem adaptados ao nosso modo de existência, porque as suas vozes humanas foram reduzidas ao silêncio tão cedo em suas vidas, que nem lutam, ou sofrem, ou exibem sintomas como o neurótico.» São normais, não no que pode chamar-se o sentido absoluto da palavra; são normais somente em relação a uma sociedade profundamente normal. O seu perfeito ajustamento a esta sociedade normal dá a medida da sua doença mental. Estes milhões de pessoas anormalmente normais que vivem sem ruído numa sociedade a que, se fossem seres plenamente humanos, não deveriam estar adaptados, ainda acariciam a «ilusão da individualidade», mas de facto foram em larga medida desinvidualizados. A sua conformidade está a evoluir para algo como a uniformidade. Mas, «uniformidade e liberdade são incompatíveis… O homem não está feito para ser um autómato, e se se transforma em autómato, a base da sua saúde mental está destruída.»”

In ALDOUS HUXLEY
Regresso ao admirável Mundo Novo
Trad. Rogério Fernandes

(págs. 50/51/52)

5.07.2015

PEARL S. BUCK




“Para mim, os seres humanos são pessoas a quem não pergunto qual o país de origem, nação, raça ou credo religioso. Todos nós somos o mesmo em toda a parte: criaturas nascidas neste mundo para nele estanciarmos por pouco tempo, vindos que somos do desconhecido a caminho do desconhecido.”

In PEARL S. BUCK
Para as Minhas Filhas Com Amor
Trad. Virgínia Motta
(pág. 15)

5.02.2015

RELÓGIO DE AREIA



O RELÓGIO DE AREIA

Está bem que se meça com a dura
sombra que uma coluna pelo estio
arroja ou com a água desse rio
em que Heráclito viu nossa loucura.

O tempo, já que ao tempo e que ao destino
se assemelham os dois: a imponderável
sombra diurna e o curso irrevogável
da água que prossegue o seu caminho.

Está bem, mas o tempo nos desertos
outra substância achou, branda e pesada,
ou parece ter sido imaginada
para medir o tempo dos defuntos.

Surge assim o alegórico instrumento
das gravuras de muitos dicionários,
a peça que os pardos antiquários
relegarão ao mundo pardacento.

JORGE LUIS BORGES


4.19.2015

OS MALAQUIAS, de Andréa del Fuego





“– Contei tudo, ele quer ver teu olho.
Maria falou de Nico para Dário, o pai. Ele adiantou os passos, vendo que a menina era peixe na rede. Com mais quatro filhas, era observador dos intervalos. Se houvesse ternura no olhar às seis da tarde, se o horizonte ultrapassasse a cerca do sítio, ele ia procurar a razão do feitiço. Maria contou de Nico num tom cerimonioso, não encontrou outro, e falando se ouviu entregue a uma união que nem mesmo havia nascido.”

In ANDRÉA DEL FUEGO
Os Malaquias
(pág. 39)

A COLÓNIA PENAL, de Franz Kafka


“– (…) O sistema deve poder funcionar doze horas seguidas; se surgirem algumas perturbações, serão mínimas e poderemos remediá-las imediatamente.
(pág. 11)
(…)
(…)
– Esta máquina, disse, segurando uma manivela à qual se encostou, esta máquina é uma invenção do nosso antigo comandante. Colaborei com ele logo desde os primeiros ensaios e participei em todos os seus trabalhos até ao fim. Mas o mérito da invenção só a ele pertence. Já ouviu falar do nosso antigo comandante? Não? Decerto que não exagero afirmando que toda a organização desta colónia é sua obra pessoal. Quando ele morreu, nós, os seus amigos, sabíamos já que era tão perfeita que o seu sucessor, mesmo que tivesse mil novos planos na cabeça, não poderia modificar-lhe nada, pelo menos nos tempos mais próximos. As nossas previsões verificaram-se, aliás; o novo comandante teve que inclinar-se perante os factos. É uma pena que não tenha conhecido o seu predecessor… mas, interrompeu-se, falo, falo, e a sua máquina está perante nós. Compõe-se, como vê, de três partes. Com o correr dos tempos elas receberam denominações, por assim dizer, populares; a parte de baixo, é a cama, a de cima, a desenhadora e a do meio, a que fica no ar, a grade de esterroar.
– A grade de esterroar? perguntou o viajante.
(pág. 11/12)
(…)
– (…) É à grade que cabe a verdadeira execução da sentença. “    
(pág. 15)

In FRANZ KAFKA
A Colónia Penal
Trad. Jorge de Lima Alves

apartado 44, 1982

4.15.2015

Perguntaram-me o que penso acerca das eleições? Ah! Então cá vai!



O LENHADOR E A MATA
Por JUSTINIANO JOSÉ DA ROCHA
(Imitadas de Esopo e La Fontaine)


Descuidando-se um dia, um lenhador quebrou o seu machado, e assim desarmado, deixou em sossego as árvores. Por fim, muito humilde e choroso, foi pedir-lhes que lhe emprestassem um galho, com que pudesse fazer um cabo para o seu machado, declarando que era o único recurso com que ganhava, suando e lidando, o parco alimento de sua numerosa família; dessem-lhe o precioso cabo e prometia não trabalhar mais nessa mata, e respeitar todas as suas árvores e arbustos; não lhe faltaria em que ocupar-se. Movidas de tanta dor e tanta súplica, confiadas em tão positiva promessa, até as árvores deram o pedido galho. E logo o lenhador pôs ao machado um cabo, novo e forte, e logo viçosos galhos, troncos robustos caíram ao afiado gume do machado, que pouco tempo deixou às árvores para chorarem arrependidas a sua crédula benignidade.


(MORALIDADE: Quantos se servem do benefício em dano imediato do benfeitor! Mas é de louco dar-lhe meios de continuar a fazer mal.)  

2.13.2015

TEM TINO, JUÍZO



TEM TINO, JUÍZO 

Entre o siso e o sizo a ortografia
Está apenas na mona de quem lê,
Que se o erro ao facto enuncia
Só temos que perguntar-nos «PORQUÊ?!»

J Maria Castanho
ƸӜƷ ♫♪♫♪Ÿ♫♪ ♫♪ƸӜƷ



Riram-se à minha custa
Mas ninguém sabe porquê,
Que onde a razão é à justa
Mingua o sizo, como se vê.

J Maria Castanho
ƸӜƷ ♫♪♫♪Ÿ♫♪ ♫♪ƸӜƷ

2.11.2015

QUE DETALHES E PORMENORES HÁ-OS DESDE OS MAIS PEQUENOS AOS MAIORES

QUE DETALHES E PORMENORES, HÁ-OS PARA TODOS OS GOSTOS, DESDE OS MAIS PEQUENOS AOS MAIORES

«Grandes poderes, trazem grandes responsabilidades», disse o tio Ben a Peter Parker.

In O HOMEM ARANHA I


A única diferença plausível e observável entre cultura e propaganda, é que a primeira admite, integra e inclui a segunda, mas a propaganda exclui, estigmatiza e instrumentaliza a cultura. Sobretudo e por isso mesmo, se é já de si difícil perceber como funciona uma mente, ainda que das mais normais e pacatas, então avizinha-se hercúlea tarefa perceber a dum povo, mesmo que recheado de paz-d ’almas como é nosso, que é o conjunto – somatório e produto – de cada uma delas e o entrosamento de todas elas, formando essa amalgama de diversidade multicultural, que devia também ser integracionista mas prefere ser anárquica, a que chamam povo lusitano ou português. Contudo, não é: é simples: não funciona. Porque se funcionasse não estaríamos como estamos, não devíamos o que devemos, não haveria a corrupção que há; teríamos políticos honestos, frontais e competentes – e não temos. Nem resistiríamos às pequenas mudanças conforme resistimos, esperando ansiosamente uma grande e derradeira que nos salve ou nos atire definitivamente de pantanas, como sucedeu com D. Sebastião, o Encoberto, e Alcácer Quibir. Não nos oporíamos a repensar continuamente as nossas prioridades, nem faríamos orelhas moucas às sugestões e palpites do conhecimento universal acerca das alterações que temos de efetuar para melhorar a acuidade observativa, lucidez técnica e objetiva, disponibilidade mental e sentido prático, espontaneidade e eficácia de conduta. Ou seja, estaríamos dispostos e disponíveis para contribuir eficazmente para o desenvolvimento coletivo, aumento da qualidade de vida, garantir razoável sustentabilidade socioeconómica e máximo bem-estar, e não estamos. O que denota que essa resistência não é apenas resistência, mas incapacidade de nos adaptarmos a uma sociedade moderna e aberta, democrática e emancipada, consciente e responsável, insistindo teimosamente no modus operandi da teimosia infantil e explicitado sentimento de inferioridade caraterísticos da mentalidade provinciana e pacóvia que grassou, e grassa, de norte a sul, desde o tempo dos santacombadões do está tudo bem assim e não podia ser de outra maneira. Emperrou. Está atravancada de monos e trastes como estaria qualquer sótão arrumado por dez milhões de macacos à solta. Coisa que se nota principalmente nas periferias das cidades periféricas (ou do interior), onde a economia paralela floresce e prolifera, de forma escorreita e destemida, à vista de toda a gente, e sob o beneplácito e agradado olhar das autoridades, que se estão literalmente nas tintas prò assunto…

Fiscalização? Nem vê-la. Que estão escalmorrados contra o governo que lhe cortou nas mordomias e horas extraordinárias. E os populares? Bhhhaaa!... “Na terra do bom viver faz-se o que se vê fazer”, justificam-se, atirando o olhar para os exemplos que vêm de cima.

O governo que temos foi o governo que escolhemos (ter), e a esta altura do campeonato não vale a pena rabiar, uma vez que ele entrou na descida que antecede a reta da meta, e não é agora que se vai conseguir aquilo que não se conseguiu no apogeu do mandato, que é deitá-lo a baixo, ou fazer com que melhore o seu programa e a execução dele, pelo que falar contra a ação governativa e sua composição só lhe dará força, motivação e renovação de ideias, dando subscrição plena à sentença de que aquilo que não tem remédio, remediado está. Até porque se lhe esgotou a criatividade e imaginação, coisa que também tem limites mesmo para quem é perverso e maléfico, quer o reconheço, quer não, inclusive por se lhe haver secado a fonte de inspiração típica dos navegadores à vista da costa, que é a oposição, que entrou igualmente em crise de gestação e se encontra prestes a sentir as dores de parto, pela ameaça dos movimentos e novos alinhamentos políticos que se aprestam a abalroar o establishment ocidental (e ocidentalizado). Tanto por influências históricas judaico-cristãs, como pelas anglo-saxónicas do novo-mundo: via UEA, UE, China, India, Brasil, Canadá ou Austrália. E até da Islândia, que deu um pontapé no seu desregrado estado para rumar em direção à sustentabilidade, ao desenvolvimento e ao são convívio com a natureza, por mais vulcânica, ameaçadora, fria, agreste e exigente que ela seja.

Vai daí, contentamo-nos em prolongar o carnaval para além dos cinco dias que dita o entrudo, e assobiamos prò lado, alegrando-nos por saber que há ainda quem esteja pior do que nós, indo buscar felicidade à infelicidade alheia. Vemos no que deu o CHARLIE e não arriscamos. Vemos uns filmes. Assistimos em direto à entrega dos óscares. Desabafamos no futebol. Temos um fado sempre na grafonola digital. E um de cante alentejano próximo da máquina, que nos pode apetecer uma sesta. Fazemos zapping amiúde, e guardamos a genuína apreensão sobre o futuro para os analistas da meteorologia, que o pintam com avisos de curto prazo, desde o vermelho ao verde com amarelo das rosas repolhudas e amistosas. Podíamos tomar as rédeas ao destino, mas não tomamos, que isso dava-nos um grande poder. E um grande poder é um grande encargo, uma enorme responsabilidade, como dita o herói da pequenada a quem a teia teceu a segurança, o voo mas também o medo e o criancismo. A superstição. A vida tramada. E acomodamo-nos amuados.  

Bom… Mas AINDA temos a liberdade de expressão, se dirá. Não, não temos. Usufruímo-la, executamo-la porque veio/vem de fora, com a Internet. Senão andaríamos todos e todas a comer o pão por conta, ganho com a boca pequena, que é como reza quem se ajoelha por necessidade. E será que ela, a necessidade, depois de nos aguçar o engenho, começou também a burilar-nos o gosto? É caso para começar a ficar preocupados… É que para quem teme a mínima alteração ou mudança nos detalhes, com uma inversão tão radical, dava-lhe alguma coisa ruim. Oh, se dava!        


Joaquim Castanho

2.08.2015

EXIGIR FATURA É COMBATER A CRISE E AJUDAR A PAGAR A DÍVIDA

O que os alemães sabem acerca de nós e a troika não desconhece, é que se os portugueses quiserem saldar a dívida e cumprir com as suas obrigações podem fazê-lo, sem recorrer a austeridade excessiva nem aos atos sobre-humanos de que falou o Luís Vaz (de Camões), mais do que permite a força humana: basta que não contornem o fisco, se abstenham do mercado paralelo e instituam a honestidade e o civismo como normas de conduta diária. Que implementem a cultura da cidadania e da responsabilidade cívica. É pedir muito? Sobretudo depois de ter passado duas ou três décadas a fazer asneiras com o dinheiro “nacional”, a esbanjar por motivos eleitoralistas, a ser refém dum economicismo atávico e obreiro de inutilidades megalómanas? Penso que não. E todos e todas reconhecerão facilmente como de fato assim é. Ou, para evitar mal-entendidos gerados pelo acordo ortográfico, a que insistem resistir como se dum teste à próstata se tratasse, reiterarei que «todos e todas facilmente reconhecerão que de facto assim é.»

E as nossas “faturinhas” têm que entrar para o nosso processo fiscal, logo identificadas com o nosso número de contribuinte, e estar registadas no site e-fatura do Portal das Finanças, que deve ser atualizado continuamente, tendo cada qual a obrigação de verificar lá a sua presença e de chamar a atenção da autoridade tributária, num prazo razoável, coisa de dois ou três mezinhos, de que a empresa X ou Y, a quem nós comprámos isto ou aquilo, “ainda” não lhes enviou as ditas. Custa muito ajudar para que o nosso país nos ajude a melhorar de vida e estabelecer um crescimento sustentável? Melhore a sua performance fiscal e tributária? Custa muito não só fazer meninos e meninas mas também preparar-lhes um mundo coeso, seguro, honesto e saudável em que se possam também reproduzir? Claro que não custa, nem para os mais vadios, “subeficientes” e adoentados. Portanto… Acabem lá com as modas, que ser humano, participativo, democrático, simultaneamente europeu e português, exercer uma cidadania ativa e envolvida, não é nenhuma excentricidade nem handicap.

Gostar ou não dos partidos que estão no governo, não é desculpa para nada, principalmente para prejudicar os demais que, como nós mesmos e os nossos vizinhos e vizinhas, todos os dias dão no duro para garantir a sua independência e sustento. A responsabilidade cívica não é um dever só para os outros e outras. E a liberdade sem ela, sem a responsabilidade cívica, não é nenhuma modernice intelectualóide nem um radicalismo esquerdista ou acrático: é uma sacanagem simiesca. Além do que as despesas gerais familiares, de saúde, na educação, os encargos com imóveis e despesas com lares de 3.ª idade, bem como as faturas relativas às aquisições nos setores de atividade de alojamento e restauração, cabeleireiros e reparação automóvel e de motociclos e da habilitação ao sorteio Fatura da Sorte, são benefícios consagrados pela recentemente entrada em vigor informatização da fiscalidade e atividade económica.

E o fato de recebermos pouco, idem. Quem aufere um rendimento inferior, não significa que deve ficar à margem da ética e do civismo, mas antes demonstrar que está preparado para receber mais, e que se o recebesse cumpriria as suas obrigações fiscais com aprumo e galhardia, no respeito pelos demais e as regras da sociedade. As pessoas não se medem pelo que têm mas pelas atitudes que tomam. Nem pela aparência física, mas sim pelo comportamento e prática quotidiana na consideração e empatia de que são capazes pelos seus semelhantes. Estamos todos no mesmo barco, e todos podem fazer a sua parte para continuar a navegação. Quem tem muito contribui com muito, e quem tem pouco contribui com pouco ou mesmo com nada. E, como diz o povo, quem dá o que tem, a mais não é obrigado.

Estamos a mudar de era, e a do chicoespertismo trapaceiro do biscate e manhosice egoísta já se foi.


Joaquim Castanho          

2.06.2015


A CULTURA NUNCA PODE SER SECUNDÁRIA

Na Grécia do Tsipras (Alex, pròs amigos!), o organograma governamental apresenta quatro superministérios: A Educação, A Saúde, A Economia e A Cultura. Quatro aaaa como o óleo da Pima (já crescidinho). Essencialmente porque no entendimento grosseiro da coisa pública, o que ninguém conseguirá ignorar, uma economia de sucesso nunca poderá prescindir duma educação vigorosa e dinâmica, duma saúde musculada e flexível, nem duma cultura apta e abrangente, inovadora e ativa. Imaginativa e observativa. Sem o olhar crítico e envolvido desta última quaisquer outras valências ministeriais baterão com os burrinhos na lama, afundar-se-ão no tédio, no marasmo, na hipocrisia e na insustentabilidade, uma vez que foi sempre e em todo o lado – desde os impérios persa, egípcio, grego e romano (pelo menos) que recorreram à receita pra vingar e pereceram mal a abandonaram –, a única estratégia política plausível ante as contrariedades forjadas pela ausência de estabilidade orçamental, crescimento económico, oscilação dos mercados e capitais, fragilidade social. Mas sobretudo, se queremos que a economia não desperdice oportunidades de rendimento, a saúde não contraia agastes novos, a educação não se transforme num sorvedouro de talentos e mais-valias, mas sim, e antes, se implante como um veículo de excelência para conteúdos atuais e atualizados, interessantes e atraentes, ou capazes de se transformarem em agentes de progresso e desenvolvimento. E sustentabilidade.

Mas os gregos são antigos, muito mais antigos (coisa de três ou quatro mil anos) do que nós, que só nascemos há 900 anos e uns trocos. Somos uns gaiatos face a eles, e, por isso mesmo, não pensamos e metemos a cultura num desvão, com secretaria lá para os fundos do organograma governamental. E quem lucrou e lucra com isso? Os ingleses, os norte-americanos, os alemães, os franceses, os nórdicos e o mercado paralelo em geral. Porque não havendo cultura ninguém precisa de educação nem sabe prò que serve, pode haver saúde física mas a mental fica pelas ruas da amargura, e a economia é um calvário que todos e todas temos que subir com a Autoridade Tributária às costas.

Porque quando o processo de evolução de uma sociedade conservadora e gerontocrática, como a nossa, e também a europeia, principalmente na parte mais desenvolvida dela, é notoriamente lento, a mínima centelha de motivação, a mais pequena mudança nele, torna-se, evidentemente radical. Num lago parado a queda duma larada de passarinho provoca uma cadeia de pequenas ondas que se assemelha a um movimento tempestivo. Alterar as rotinas, como pedir fatura com número de contribuinte em todas as compras (e vendas), pode ser tão doloroso na atitude cultural dum povo, como a extração de um dente cariado num indivíduo: sabemos que não presta para nada, só nos causa dissabores e fealdade, é duma inutilidade inegável, podemos arrancá-lo sem a mínima dor, porém, deixará sempre um buraco no maxilar de onde o tirámos. E sentir-lhe-emos a falta durante algum tempo. Todavia, nenhum povo, nenhuma nação digna desse título, perde 45 mil milhões de euros em impostos num ano por acaso… E Portugal perdeu-os. Perdeu-os para a economia paralela, quando essa maquia, esse buraco, essa falta, era suficiente para saldarmos a nossa dívida à troika, e assim deixarmos de andar com uma das mãos à frente e outra atrás para tapar as misérias sociais que nos caraterizam. E porquê? Por falta de cultura. De cultura democrática. De cultura tributária. De cultura política. De cultura sanitária. De cultura social. De cultura educativa. De cultura económica e empresarial. De cultura financeira. De cultura cosmopolita. De cultura literária. E a saúde orçamental do próximo ano dar-nos-á notícia dela. E de como uma simples enfermidade se transformou num quisto cancerígeno para o qual ainda não foi inventada qualquer cura, antídoto ou vacina…

Portanto deixemos de cegarregas e de atirar areia pròs olhos do Zé-Povinho, que os gregos, não obstante terem uma dívida infindavelmente maior que a nossa, o que os obriga a pagar mais de 10 mil milhões de euros de juros anuais, e que monta a 315 mil milhões de euros ou 175 % do PIB, estão atualmente em melhores condições para saírem do aperto do que nós, a quem falta além das culturas enunciadas a do bom senso político e honestidade, que é coisa rara por cá, pelo menos desde os hermínios viriatos, tão apreciados pelos santacombadões do nosso contentamento e do tudo está bem assim. Mas tão bem, que até achamos normal ter uma cultura que mal chega a secretaria de Estado… Pudera!  

Joaquim Castanho     

2.05.2015

PRA QUEM É BACALHAU BASTA

PRA QUEM É BACALHAU BASTA

A maioria dos cidadãos e cidadãs da portugalidade bem-formados/as fala e escreve exemplarmente quando se dirige aos estrangeiros, mas dão erros em barda, uns e umas atrás de outros e outras, sempre que o fazem com os seus conterrâneos e conterrâneas, concidadãs e concidadãos do linguajar lusitano, talvez por considerarem que estes, os portugueses e portuguesas da língua materna, mais não merecem, nem sequer os usuais cuidados que dispensam a qualquer dialeto dos demais idiomas do mundo (dito) civilizado. Nisso, realmente, são bons, são ótimos, são excelentes. Que nas 250 palavrinhas a que qualquer prova obriga não dão uma prà caixa, e conseguem fazer uma média de três erros ortográficos (e de pronúncia) por cada dez palavrinhas, incluindo as monossilábicas, assim na boa, sem fazer o mínimo esforço nem pisar no acelerador a fim de cumprir limites de tempo. E até acham que os dirigentes nacionais que se expressam em português quando se pronunciam em atos oficiais onde se exige a sua presença, tanto na Europa como nos restantes continentes deste globo à babugem do sistema solar plantado, é porque não sabem inglês, francês, russo, alemão, mandarim, etc., etc., evidenciando não estarem à altura das funções para as quais foram eleitos/nomeados, sendo isso prova consumada e incontestável de acentuado défice no seu desempenho. Como e porque é que isto acontece? E onde nos levará? Pergunta-se.

O porquê sabe-se e é inequívoco pela evidência que traduz. Porque os portugueses e portuguesas dão o cu e dez tostões para agradar a quem invejam, e (desconfia-se, de acordo com os resultados obtidos ultimamente) têm razão para invejar todos os povos e nações do planeta, exceto os espanhóis, gregos e irlandeses, que têm andado igualmente com as calças na mão e navegam nas mesmas águas da mandriice, da corrupção, do chico-espertismo, do favor e por conta, do corporativismo, da subsidiodependência, do miserabilismo cultural e económico, da tentativa de ludibriar e contornar o Estado de Direito e os credores que emprestaram dinheiro para governar a casa, do lamechismo arrivista e da inconsciência social, que nós. E que insistem em viver acima das suas posses e atirar as culpas do seu fraco desenvolvimento à crise, aos mercados, à alta finança, aos bancos e à Sra. Merkel, expurgando o elevado défice, e dívida, de qualquer dano que a má-gestão, interesse obscuro e ignorância caraterísticas do provincianismo atávico tradicional lhe tenha originado.

Já o como fia mais fino, e aparenta não ser assim tão fácil de discernir… O governo salienta que é por sermos bons alunos, habilidosos no biscate, mezinha e remedeio, por fazermos todos os exercícios (TPC) e distintos cumpridores dos ditames troikanos. A oposição faz notar que estamos a investir no futuro, entendendo por futuro “essa utopia” de atingir os mesmos resultados e escores que tivemos no passado: dar as costas ao Mar da Palha. E os partidos/movimentos novos, como precisamos de mudar para voltarmos a ser o que já éramos e nunca deixámos de ser (oportunistas que navegam ao sabor das marés), estamos a ensaiar, a treinar, a ganhar estaleca, para melhorar a performance de pedintes e arruaceiros que representamos desde o 25 A.

O onde é que isso nos levará? Ao que se vê. Ouve. E lê. Quem escreve e fala com desenvoltura e galhardia, correção e atendimento das regras (de dicção, ortografia, coerência, lógica, conjugação, fluência, flexibilidade vocabular, sintaxe e síntese) do português bebido em Bernardim, Camões, Gil Vicente, Garrett, Aquilino Ribeiro, Raul Brandão, Florbela Espanca, Guimarães Rosa, Erico Veríssimo, Cecília Meireles, Miguel Torga, etc., etc., é suspeito. E de tudo! Principalmente de ser arrogante, vaidoso, sabichão, e de ter a mania. De gostar de se armar. E até de não ter carro… ou de andar a pé! (“Sabe muito mas anda a pé”, como ciciam as mentes puras da trogalheira quotidiana…)

Nos jornais e telemóveis o “aceite” e “entregue” sem serem imperativos imperam como prova de bom gosto e guarda-avançada da modernidade; nos noticiários e filmes o “despoletar” emprega-se quando se quer dizer “espoletar”, “detonar”, “provocar”, a toda hora; nos discursos de “empreendorismo” os enfoques proliferam que nem ginjas à beira dos “cristalinos” regatos de know-how dos politécnicos e formações profissionais portugas; e as grafites, ementas e preçários esgrimem com cagança e desenvoltura ou sã concorrência a ver quem consegue mais entradas tipo “Portugal no seu melhor” no Facebook e abicha mais Kkkkkkkkkkkkk e likes por postagem e/ou partilha.

Porém somos, todos e todas, gente fina e de pura casta. E fornecemos a educação ao menino e à menina, como sempre ditou a tradição do pra quem é bacalhau basta. Ou seja, estamo-nos literalmente nas tintas uns para os outros, e umas para as outras, e tanto se nos dá como se nos deu que aqueles e aquelas a quem nos dirigimos nos entendam como não. Principalmente porque desconhecemos com exatidão o que queremos dizer, mas também porque consideramos que ninguém que seja como nós e fale a mesma língua merece o mínimo respeito, consideração, esforço de compreensão e atenção. Tal e qual como os demais (povos ou adultos) fizeram connosco quando éramos pequenos. E que faz com que ainda o sejamos. Senão menores, de geração para geração. E menos capazes de vencer os obstáculos que naturalmente o mundo livre e a livre evolução nos colocam, ao almejar os patamares de consciência socioeconómica, identidade cultural, emancipação e sustentabilidade a que temos direito… Ou não temos, e quem está enganado sou eu.


Joaquim Castanho  

2.03.2015

O DOM DE LER




Não há tempo mau nem bom,
Ser que não possa ser (melhorado);
Que quem de ler tiver o dom
Pode fazê-lo em todo lado.

J Maria Castanho
:D ƸӜƷ ♫♪♫♪Ÿ♫♪ ♫♪ƸӜƷ (Y)

1.20.2015


       
“Quando te escrevo o nome no recheio das horas mastigo os minutos com redobrado prazer, lenta e demoradamente, saboreando a liquidez analógica do tempo como um néctar de excelência. E defino-te  sempre com a alma cheia de nós ainda mal despertados, os corpos por desenrolar do enleado da noite, sílaba a sílaba e poro a poro, na sofreguidão desacautelada da mútua dádiva/entrega que nos tornou irrefutáveis.  Foi o nosso naufrágio incontinente.
        Agora, se houvesse como dizer-to, a eternidade seria apenas o dia seguinte. Assim, escrevo-to, e ela é sempre a mesma noite, embora repetida dia após dia sem cessar, confluindo inequívoca para cada segundo de ti.”

In JOAQUIM CASTANHO, Dizer A Eternidade    

10.14.2014

“(…) para desempenhar bem o papel de socialista é preciso ser-se milionário (…)”



In IGNAZIO SILONE, Vinho e Pão

8.27.2014

AJEITAR O BANCO SEM MEXER O TRASEIRO



No dia em que o BES desceu à terra, Bento criou um banco novo – esse São! –, como prova inequívoca da separação entre o poder político e o poder financeiro (lusitanos). Coisa notável e inaudita, não haja a mínima dúvida, se dirá, pelos cochichos das frondosas ramadas, cuja grandeza só é comparável aqueloutro em que o pleito académico portuga descobriu a pólvora prò fósforo, mas dando-lhe um novo nome, tão novo, tão novo, mas tão novo, que até lhe chamou empreendedorismo. 

(E é exatamente por isso que é milagroso e extraordinário viver-se num país assim... A gente voga, saltita, de inovação em inovação, de descoberta em descoberta, quais libelinhas de nenúfar em nenúfar, mas sempre dentro do mesmo pântano [político] desde 1385...)

Não raros recordarão esse dia, quiçá saudosos e sonhadores como as leitoras e damas de Dinis ou Camilo, em que as suas empresas ainda tinham trabalhadores, trabalhadores que evoluíram e viraram empregados, e empregados que cresceram e se tornaram colaboradores, mas que não se deixaram adormecer no estatuto e se libertaram do jugo assalariado, via declaração de despedimento sem justa causa, para integrar a causa superlativa dos desempregados com subsídio, como se fazia no bom velho tempo das unanimidades corporativistas e dos trabalhos sazonais, em que essa casa nacionalizada ia benzendo aqui e ali os créditos ao PIB.

E o que comprova, mais uma vez, que banco novo assente em pântano antigo, quando mais engorda mais se enterra, arrastando-nos consigo, principalmente porque não é lá por avó ser nova que lhe podemos chamar neta.    



J M C

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

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